31 de janeiro de 2012

BORED TO DEATH, S03E07 – Forget the Herring (review)

Parafraseando William Jennings Bryan: O destino não é uma questão de oportunidade. É uma questão de escolha. Não é algo para se ficar esperando, é algo a ser conquistado.

Nhé-nhé-nhé, aposto que Jonathan (Jason Schwartzman) diria desta frase que é uma grande peta, depois deste episódio. Mas, está bem, é claro que sabemos que o destino de Jonathan está a ser conduzido por argumentistas com muito senso de humor e que pretendem divertir uma extensa massa de gente, no entanto, também não esqueçamos daquele que disse que a realidade por vezes consegue ser mais estranha que a ficção. Não digo que este foi o melhor episódio da temporada… oh, estou com medo de quê?… este foi o melhor episódio da temporada, quer dizer, se não for superado pelo próximo, teve tudo, mas tudo que faz de “Bored to Death” o que ele é, a comédia, personagens psicóticas, um caso para resolver, e… bizarria. Vê-se bem que depois daqueles episódio mornos que referi no post passado, “Bored to Death” está mesmo à superfície, não ganhou uma lufada de ar fresco, nada disso, ainda respira o mesmo ar, só que mais descontraído e menos preocupado a tentar criar tensões. Até parece que os argumentistas não tinham andado a ganzar nos episódios anteriores (ou ganzaram demais), e agora que o estão a fazer bem, escrevem episódios à altura.

Jonathan, no episódio anterior, recebera um telefonema sobre informações acerca do banco de esperma que estava à procura, e aqui aparece uma mulher, Rose, com essa informação. O facto de Rose (Isla Fisher) ser uma espécie de detective, gostar da roda gigante e provier (posso assim dizer?) do mesmo banco de esperma, criou logo a suspeita de que ela talvez fosse irmã de Jonathan. E o facto de Bergeron (Stacy Keach), uma personagem divertidamente maluca e paranóica, o antigo dono do banco de esperma ser um vigarista criou também a suspeita de que era ele o fornecedor de todo o esperma do queimado banco. Sendo assim, não acontece nenhuma surpresa quando se levanta a cortina, não acontece nenhum choque, mas sim a comicidade. E, apesar de já sabermos, quando Rose pergunta a Jonathan como é que ele conseguia resolver os seus casos antes de conhecê-la, não conseguimos conter o riso, porque ele é simplesmente ingénuo e muito literal.

Ray (Zach Galifianakis) é fascinante, não deixo de dizer isso. Não sei bem, mas tenho a impressão de que finalmente cresceu, e não só ele, mas a Leah (Heather Burns) também finalmente conseguiu crescer. Estava a sentir anseios de vomitar quando ele correu para a Leah para tentar conquistá-la de novo, pois acreditava que iam insultar-me, fazendo-lhes ficar juntos outra vez, mas ainda bem que não. Sei lá, talvez lá pela quarta temporada eles voltem, porque Leah faz parte do elenco fixo e como a sua personagem existe em função de Ray, se não conquista independência e ganha uma linha própria, será obrigada a orbitar em torno de Ray outra vez.

George (Ted Danson) voltou a arrasar outra vez, o seu Don Quixote, o seu medo, a sua angústia, o seu despertar, a sua serenata serão umas das melhores lembrança de toda esta temporada, ele não se leva a si mesmo a sério, o que o torna mais divertido. Finalmente conquista Emily (Halley Feiffer), finalmente percebe (ou parece ter percebido) que não estava a andar no trilho certo para conseguir a sua Emily e, finalmente, acho eu, vai se livrar de Ray, ou ensiná-lo a ser adulto (o que duvido, visto que ele não se importa de o infantilizar, tal como um avô faz com o neto). Jonathan é brilhante, Ray tem a sua consistência (que, no entanto, se dilui porque vemos a mesma coisa nos seus filmes), mas George bate-lhes a todos.

O próximo episódio é o último, e se conseguir ser tão bom como este então “Bored to Death” sairá em alta.

30 de janeiro de 2012

AUTOCAD VS REVIT VS ARCHICAD VS SKETCHUP

Uma pergunta que quase sempre respondo é: qual das quatro ferramentas supracitadas é a melhor. Bem, como alguém com practicidade respondeu e como eu respondo: o melhor é aquele que souberes melhor usar. O problema é que por vezes são alunos do primeiro ano a fazerem-me a pergunta, o quer dizer que não sabem usar nada e estão num terreno de experimentação e querem descobrir em qual dos quatro investir. Pois bem, eis o meu conselho: 

AUTOCAD
Autocad é a ferramenta mais conhecida e mais usada nos ateliers, aliás praticamente todos os atelier usam. O Autocad além de servir para arquitectos, serve também para engenheiro, é uma ferramenta de comunicação indispensável. O problema no autocad é a documentação do projecto, considerando que não há uma ligação directa entre o 2D e o 3D, querendo dizer que se faz um por vez.
Não há como escapar do autocad.

REVIT e ARCHICAD
O Revit e o Archicad são ferramentas poderosas e que poupam bastante tempo na documentação do projecto, na medida em que, quando se faz alterações no plano bidimensional, as mesmas acontecem imediatamente no plano tridimensional. Ou seja, o programa faz o 2D e o 3D ao mesmo tempo, ganhando ao autocad nesse sentido, além de que é possível exportar os desenhos posteriormente para autocad. Sendo assim que perceber muito bem de revit e archicad, não precisa de perceber muito do autocad para se dar bem com o desenho técnico, ilustração e documentação do projecto.
Os dois programas são similares, e ainda não sei dizer qual é mais fácil de usar ou de aprender, pois há coisas mais intuitivas num do que no outro, embora, de modo geral me pareça que ARCHICAD seja mais intuitiva. 


SKETCHUP
É o programa mais intuitivo que já vi. As formas são facilmente manipuláveis e com plugins e rubys pode-se fazer com maior velocidade tudo e mais alguma coisa. Para modelação em 3D é rápido e prático, para a documentação do projecto é praticamente inútil. Entretanto, tanto archicad como revit abrem ficheiros de sketchup, o que quer dizer, que se pode modelar no sketchup, mandar para archicad ou revit e documentar. Também o autocad faz a documentação do sketchup, podendo trabalhar em simultâneo, sendo que muitas alterações do sketchup acontecem logo na planilha da documentação do autocad, quando o ficheiros são ligados por x-ref.


Como veredicto, o REVIT e o ARCHICAD ficam em destaque.
Para quem gosta de projectar com formas simples, tanto faz usar como outro, mas para quem projecta com formas complexas e já conheça autocad, o revit é mais aconselhável, pois que tem integrado as ferramentas de modelação de archicad, loft, sweep, entre outros. A não ser que aprenda o archiform, ou então modele em outro programa que conheça e depois importe em archicad.


Entretanto, se eu fosse recomendar um programa a alguém, recomendava o REVIT, porque por ser da autodesk mais facilmente comunica com o autocad e com os outros, 3dmax, Maya, etc. Mas o melhor é saber quais são os programas mais requisitados no mercado de trabalhos e tentar aprendê-los em vez de perder tempo com um programa que só tu conheces, como o Bonzai 3D (embora bom), por exemplo.

28 de janeiro de 2012

ENEIDA MARTA - A História da Música Moderna da Guiné-Bissau

Quando, no ano passado, em Setembro, um amigo músico (percussionista e teclista), me convidou a ver um concerto de Eneida Marta gravado em DVD, em que ele participou, eu estava mais interessado no trabalho dele do que no da Eneida. E comecei a ver o disco com o nariz torcido, porque intitulava-se A História da Música Moderna da Guiné-Bissau.

O título, convenhamos, é muito sonante e com grandes aspirações, e eu estava um tanto receoso de vê-la a meter os pés pelas mãos e a desvirtuar a nossa História, porque até ver esse trabalho para mim História era assunto para livros, teatro, cinema e afins, não para música. Foi então que ela me surpreendeu e como!

djiu di cobra (popular)

Não poderei falar da equipa que a acompanhou, mas vou destacar os meus amigos, Caly Coly (que me mostrou o DVD), Ivan Barbosa, teclista, mas que trabalhou aqui no coro, e Waldir Araújo, jornalista e escritor, que fez parte do trio de apresentadores. E uma salva para o multi-ultra-versátil Juca Delgado.

mindjeris di pano preto ft. luand cozetti (zé carlos)

A História… de Eneida Marta é um trabalho muito bom e contagiante, não só pelas boas músicas escolhidas para o acervo, num universo de imensas alternativas, como pela pesquisa feita para o trabalho. A História… é mesmo uma história, parte contada pelos apresentadores, parte mostrada em fotografias, parte em vídeos e parte cantada por Eneida Marta, ensinando-me tantas e tantas coisas que eu não sabia e mostrando a necessidade de uma documentação dessa parte da nossa história.

saudadi di no terra (gundas - juventude 71)

A História… transportou-me para os meus tempos de meninice com músicas que julgava perdidas e outras das quais só tinha vagas lembranças, e o que mais me agradou foi ver a modernização que promoveram nessas músicas antigas, em termos de instrumentação, é claro. Acabei o DVD super-emocionado, principalmente por causa de alguns pioneiros da música guineense que gostava mesmo de poder identificar, mas a minha ignorância não permite, e ainda mais porque (como se tivessem feito isso para mim) tocaram a música de Zé Carlos que mais me emociona, Birion, mostando o óbvio: quem sabe nunca esquece. Vários artistas foram lembrados por Eneida Marta neste seu cover, A História…, no entanto, saltam mais à vista Zé Carlos e Zé Manel (já prometi que ia falar deste aqui e ainda o vou fazer).

vida di susego (zé manel)

Para quem não conhece a música guineense, A História da Música Moderna da Guiné-Bissau é um DVD que vale a pena ver, não só pelo conteúdo instrutor, como pela bela voz de Eneida Marta. E para quem conhece, também vale a pena. O que é certo, no entanto, é que tanto um como outro não poderá conhecer toda a história da música moderna guineense, porque tal como em tudo, destaca-se sempre os maiorais ou os assim considerados, tem muitos outros grandes artistas que ficaram de fora, porém, num balanço definitivo, Eneida Marta tem aqui um belo trabalho. São praí quatro horas e meia de trabalho.

birion

26 de janeiro de 2012

MIL E UMA NOITES, AS


Como escrever sobre As Mil e Uma Noites

Eu sei que todo o mundo já ouviu falar, outros leram umas tantas histórias, alguns pensam que foi escrito por Disney e há ainda alguns que pensam que Hércules é uma personagem deste universo, no entanto nem todos leram o conjunto, principalmente (modéstia à parte), na sua versão integral, conforme reza o livro: texto completo, segundo a versão francesa realizada em 1889, sobre o original árabe do Dr. J. C. Marduz, e tendo em conta a edição prínceps de 1704 da primeira versão feita por A. Galland, com o subtítulo de Contos Árabes.

A linha principal d’As Mil e Uma Noites é estendida por Scheherazade, uma feminista e humanista (observações minhas), que casou com Schahriar, um sultão magoado pelos cornos que lhe foram postos pela sua primeira esposa e que resolveu vingar-se, casando todos os dias com uma virgem, mandando-a matar no dia seguinte, desencadeando desta maneira uma crise de virgens no reino, sem falar do pânico dos citadinos de verem as suas filhas escolhidas para a dupla imolação. No entanto acho burra essa gente, se o sultão só casava com virgens, por que raio não arranjavam quem lhes desvirgindasse a filha?... hem?... Adelante. Sherazade tinha um plano para inverter essa tendência homicida dele (na verdade o homem devia era ser internado) que consistia em contar-lhe histórias compridas, terminadas por clifhangers que lhe fizessem querer saber do resto. E ela conseguiu sobreviver a mil e uma noites (1001, um número capícuo, talvez com algum significado esóterico) com esse estratagema.

Os contos repetem-se muito, variando aqui e ali, mas, acima de tudo, mantêm a mesma essência: são contos de mulheres (mulheres infiéis, mulheres apaixonadas, falsas pudicas, mulheres virtuosas, mulheres de toda a espécie, algumas subvertendo o arquétipo grego, sendo elas as heroínas e os homens os socorridos), traição, amores desencontrados, promessas não cumpridas, curiosidade mórbida, sobrenatural, fantástico, enfim, tudo o que temos nos contos de fadas que conhecemos já tinha aqui a sua versão, até mesmo O Alquimista do Paulo Coelho.

As Mil e Uma Noites consegue ser esotérico: cheio de ensinamentos, duplos significados, alquimia e tal; consegue ser fantástico: génios, feiticeiros, metamorfos, ciclopes, monstros, aves gigantes (o famoso roc), anões e gigantes (versão prévia de As Viagens de Gulliver, de Johnathan Swift); romântico: amores e desamores; trágico (pouquíssimos contos no entanto, parece que não eram muito fã de finais tristes); ficção-fantástico, para não dizer científico: telepatia, telecomunicação, teleporte e tem até a sua versão do outro lado do espelho (antecedendo a Alice de Lewis Carrol); erótico, com muitas partes e descrições picantes, mostrando que a paranóia de um zib, ou melhor, um pénis grande não é exclusivo dos ocidentais e nem é uma modernice; ainda tem longos poemas que mostram a sensibilidade oriental (antiga) e a sua forma de apreciar.

As Mil e Uma Noites é um conjunto de contos (alguns deles tão extensos como um romance best-seller moderno) que explora praticamente a maior parte das possibilidades genéricas hoje existente. Mas não, não é um livro antes do seu tempo. E se a modernidade bebeu muito da sua fonte, ele bebe dos gregos, vários mitos gregos foram reconfigurados pelo imaginário oriental, por exemplo, uma das viagens de Sindbad não é mais do que uma versão de Ulisses e Polifemo, da Odisseia de Homero..

As personagens mais recorrentes nos contos da Sherazade são o Califa Haroun-Al-Raschid, a sua esposa, a ciumenta Zobeida, o seu grão-vizir e sábio, Giafar (desconfigurado pela Disney), e o chefe dos eunucos, Mesrour, o idiota Ali que protagoniza praticamente todas as anedotas do livro.

As Mil e Uma Noites é uma leitura obrigatória para todo o amante da ficção, é certo que boa parte das personagens são cópias e versões umas das outras, todos os heróis recitam o Alcorão de cor, e é muito racista, praticamente todos os cristãos, ou francos, são cães infiéis e traiçoeiros (tirando um franca heróica que acabou convertida ao Islão), todos os judeus, salvos raras excepções, são mercadores inescrupulosos e quando ganham escrúpulo também viram muçulmanos, mas não nos esqueçamos do contexto histórico-social da obra, todos os pretos são mentirosos ou possuem talento para o sexo (mostrando que esse fetiche não é também recente). Aliás, em termos comparativos, hoje na literatura americana, um judeu é um óptimo piadista ou argumentista, um muçulmano é terrorista. E também As Mil e Uma Noites pode ser um bom documento histórico e sociológico do antigo oriente muçulmano, mostrando-nos que os costumes mudaram bastantes e que muitas práticas misóginas do mundo do extremismo-islâmico não existiam nos primórdios do islamismo.

Posto isto, eu digo: vão às bibliotecas procurar pelo livro, ou livros (o que eu li foram seis tomos gigantescos).

18 de janeiro de 2012

SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE, Italo Calvino (1979) - frutos de determinismos ou próprios deterministas


Quando comecei a ler Se Numa Noite… (da primeira vez, há coisa de uns dez anos) logo nas primeiras páginas parei, em sinal de desafio, queria encontrar uma posição de leitura que o autor não tinha previsto no seu livro para lhe ganhar no próprio jogo, e encontrei: pendurei-me na cabeceira da cama com a barriga dos joelhos (? – não sei como se chama a parte de dentro dos joelhos, a junta entre a barriga da perna e a coxa; alguém sabe), de cabeça para baixo (porque embora ele tivesse previsto de cabeça para baixo, pelo menos não falou nada sobre pendurar pelos joelhos). No entanto era ridículo, acho que nem o próprio Drácula lê de cabeça para baixo; então deixei-me levar e não forçar a oposição, deliciando-me com a leitura.

Se Numa Noite… conta a história de um leitor que compra um livro de Italo Calvino intitulado Se Numa Noite de Inverno um Viajante cuja primeira história (se não contarmos com a do leitor, tratado por tu – ou seja tu que lês o livro), se chama Se Numa Noite de Inverno um Viajante, e depois o leitor percebe que alguém está a escrever a sua história, e entra em contacto com o seu escritor, e ainda conhece uma leitora que o lê também (deixando então o leitor de ser um “tu” assexuado para ser masculino), nesse livro que o leitor, tu, está a ler e que o escritor escreveu, embora faça parte da sua própria escrita (já te perdeste?, aposto).

Essa odisseia de leitura do leitor, tu, na procura de um entendimento, de um sentido da sua história e do, talvez, existir, encontra-se entremeada por dez contos, dez contos cujos títulos ligados formam uma frase poética que, de uma certa maneira, resume toda a viagem no livro, e todos os protagonistas dos contos acabam por ser tu mesmo, o leitor, que lês o livro, ainda mais porque são narrados na primeira pessoa. Então em toda essa viagem e mudança de perspectiva, perdes-te na absurda irrealidade da existência e encontras-te a perguntar pelo sentido de tudo, principalmente pela peculiaridade das histórias que terminam sempre abruptamente deixando-te com água na boca e quando retomam são já outras incarnações.

Se Numa Noite… é um magistral ensaio filosófico sobre a vida, ao mesmo tempo que é uma magistral peça de literatura, e talvez um quebra-cabeça que depois de leres outra vez se abre diante de ti de uma maneira diferente, mostrando o que o livro mostra: a constante mudança, e a ignorância sobre a necessidade da maior parte dessas mudanças, e te sentes compelido a juntar outra vez as peças para lhes dar forma, principalmente porque ele se pode armar de maneiras diferentes.

Receio não ter sido muito claro no parágrafo anterior, e para não me lançar em pseudo-filosofias tentando ouvir o livro, vou simplesmente fazer o resumo pelas próprias palavras do autor, unindo os dez títulos dos dez contons: Se numa noite de Inverno um viajante, fora da povoação de Malbork, debruçando-se da encosta íngreme sem temer o vento e a vertigem, olha para baixo onde a sombra se adensa numa rede de linhas que se entreleçam, numa rede de linhas que se intersectam no tapete de folhas iluminadas pele lua em torno de uma fossa vazia, - Que história lá em baixo espera um fim? – pede, ansioso por ouvir a narrativa.

Em resumo, não sabemos nada da vida, nem o que vai acontecer depois, está tudo coberto por pontos de interrogações, mas isso não nos tira o ímpeto de querer vivê-la e de tentar descortinar tudo o mais.

Se Numa Noite de Inverno um Viajante é uma OBRA-PRIMA e não há nenhuma desculpa para não o ler, a não ser, é claro, que prefiras tudo mastigado... e mesmo neste caso não  sais defraudado.

14 de janeiro de 2012

PSYCH, S06E06 – Shawn Interrupted (review)

E então Shaw disse: Não te preocupes, Jules, eu sei como funciona um manicómio, já assisti a “Girl Interrupted” seis vezes.

Não gostei muito do episódio anterior, senti que a Psych tinha perdido a garra algures e começou a proceder a reciclagens indiscretas, aquela história de Shawn infiltrado e as suas reviravoltas que não reviravam quase nada não fora assim tão cómico (considerado no pacote de “Psych”, porque o episódio, independente, tinha graça), e algumas situações para criar comédia acabaram por se tornar irritantes e forçadas. Foi num estado de espírito crítico, devido ao episódio anterior que comecei a ver este. No entanto, revelou-se mais fluído e natural, à la “Psych”, é claro.

Só a premissa deste episódio, fazer Shawn (James Roday) passar por louco para se infiltrar num manicómio já era louca, embora me provocasse algum receio que fosse ser demasiado pastelão, porque geralmente esse é o papel de Gus. Mas foi bem conduzido e ganhamos assim mais um episódio muito engraçado que só vem solidificar a posição de “Psych” entre as séries mais cómicas desta temporada. No entanto a diferença entre este e o episódio anterior é que as piadas aqui são em maior número, porém mais diluídas, e apesar de tudo conseguiu ser mais engraçado.

Eu também me pergunto, por que razão “Psych” não tem uma maior audiência tendo a consistência que apresenta?

O episódio começou com Lassiter (Timothy Omundson) a vangloriar-se, fazendo uma festa, por depois de anos ter conseguido resolver um caso sozinho, sem ajuda de Shawn, e este, carente de atenção e sempre em disputa com aqueles que estão a ter momentos de glória, estava outra vez atento a procurar possíveis falhas ou a tentar ser o centro da atenção, pelo menos no que se refere a Juliet (Maggie Lawson). Quando o culpado de Lassie estava a fugir pelos dedos da justiça alegando insanidade mental, resolveram fazer infiltrar Shawn para, visto que ninguém é julgado duas vezes pelo mesmo crime na América (isto é, depois de ter sido declarado inocente, porque o culpado pode sempre recorrer), queriam pelo menos poder prendê-lo por perjúrio. E como sempre, Shawn não anda sozinho, tem de levar sempre Gus (Dulé Hill) - ou nada feito – e como sempre, quando este vai junto, as coisas não são nada o que ele espera, lá acabou infiltrado também, mas como zelador.

As trocas e baldrocas de Shawn na procura do seu suspeito, que fazem dele o Sherlock Holmes mais inconsistente de toda a panóplia de detectives de ficção (pelo menos os que eu já li ou vi em filmes ou séries), são outra vez usadas aqui com intensidade, aliás, nem devia ter referido a isso, posto que é uma constante do “Psych”. E, alguém me diga que não pensou que Shawn acabaria por receber algum diagnóstico acerca da sua personalidade, o psiquiatra lhe dizendo que tem uma série ou alguns parafusos soltos?

E a revelação final deste episódio sobre quem era o verdadeiro assassino surpreendeu-me, sim, eu sabia que provavelmente seria a pessoa que indicaram, mas visto esta ter tido uma reacção aparentemente genuína, surpresa e preocupada quando Juliet referiu-se a um pormenor que poderia ter ilibado o suposto criminoso, fiquei à espera que apresentassem mais outra personagem, porque não seria obviamente aquela para quem transferimos a suspeita. (Ok! Eu sei que em reviews os spoilers não são uma preocupação, aliás, quem vem aqui ler isso, provavelmente já viu o episódio, mas de qualquer maneira, quero reduzir osspoilers o mais que puder).

“Psych” começou bem, e está indo muito bem, não sei se não é muito cedo para dizer que esta é a melhor temporada que eu me lembro, mas sei que não é cedo para dizer que “Psych” é, se não a melhor, uma das três melhor séries de comédia actual (considerando todo o pacote).


Juliet: Assistir a “Girl Interrupted” seis vezes não faz de ti um perito.
Shawn: Sete faz. Eu e Gus vimos outra vez ontem à noite.

12 de janeiro de 2012

Y - O ÚLTIMO HOMEM, por BRIAN. K VAUGHAN


Há um bom tempo que tinha isto para publicar, mas andava com preguiça de passá-lo para o computador, no entanto, finalmente… 

Em resposta, num blog amigo, Reflexão Geral, a uma feminista extrema, dessas para as quais os homens (masculinos, leia-se) são o problema do mundo e a causa do errado (embora a Bíblia tenha claramente dito que a mulher é a culpada de tudo), eu recomendei a leitura do Y- The Last Man, do selo Vertigo, escrito pelo brilhante Brian K. Vaughn, autor de obras sólidas, mas leve como Os Fugitivos (da Marvel), e pesadas como Ex Machina (da Wildstorm).

Y – The Last Man é um ensaio de ficção científica em banda-desenhada que conta a história de Yorick, um aspirante a ilusionista, e do seu macaco, que são os únicos sobreviventes masculinos de uma praga que limpou da face da Terra todos os seres portadores do cromossoma Y.

A premissa só por si já é interessante e chama a atenção, o seu desenvolvimento, até à sua conclusão (que depois de quase 60 números de embalo, nos dá um terrível murro no estômago) fazem do livro, ou livros, ou melhor, da obra, uma pérola dos três géneros: ficção, ensaio e banda-desenhada (considerando a arte do desenhista).

Acho que a primeira coisa que nos vem à cabeça, ou pelo menos uma das primeiras (a nós homens), logo depois do mas que raio!, é: eu, nessa posição, passaria a vida a fazer sexo e a emprenhar mulheres, seria o rei, seria adorado com uma superestrela. Uma abordagem assim até seria credível como foi tão credível que Yorick não pudesse ter toda essa paz (ou inferno) e tivesse que esconder a sua identidade sexual constantemente. Mas se pensam que há orgias a cada virar de página, talvez seja melhor lerem o Herogasm, porque tal não acontece, o que por vezes até que é incompreensível e muito egoísta e irresponsável da parte de Yorick.

Voltando ao tema: Com os homens todos mortos, toda a cidade ficou paralisada e o caos reinou, como é costume acontecer sempre que deparamos com situações a que não estamos habituados. As cidades pararam, não por incompetência feminina, mas porque os homens ocupam, podemos dizer, 95% por cento dos empregos que são na verdade as roldanas sociais, tais como centrais hidráulicas ou eléctricas ou postos que exijam trabalhos manuais e pesados. Mas quando se julga que a paz iria reinar porque essa pústula humana (para feministas extremas), o homem, desapareceu, dando lugar a uma utopia amazónica, vemos que não, afinal homens e mulheres têm a uma única coisa diferente, o género, e no resto são ambos humanos e como humanos tendem a reger-se pelo SRV (sensação, razão e vontade). 

Não vou descrever o livro, nem apresentar as duas outras personagens principais, mas vou dizer, principalmente aos que não gostam da BD (ou da BD destas editoras americanas especializadas em super-heróis), Y – The Last Man é muito rico e destaca-se no género, além de que somos premiados com factos históricos, científicos (ou hipoteticamente científica) que demonstram a vasta cultura do autor, e contribuem para solidificar a obra. E a abordagem não se pode dizer feminista, nem machista ou masculinista (como agora é moda), porquanto o autor equilibradamente faz a defesa do género humano e não do género sexual.

São 60 livros toda a aventura de Yorick (ou melhor do quarteto), às vezes perdem o ritmo, outras são mornas e um bocado cliché, mas no geral são bem estruturados e com personagens interessantes. Uma obra acima da média.

10 de janeiro de 2012

UMA QUESTÃO DE... ABUSO


o monumento na foto é dedicado
aos soldados da Primeira Grande Guerra
HOMENAGEM AOS MILITARES NATURAIS DO CONCELHO DE SINTRA MORTOS EM DEFESA DE ULTRAMAR, eis a dedicatória de uma escultura que se encontra em Sintra.

Já tinha visto várias vezes este mesmo monumento, e outros como ele, entretanto talvez a minha mente não estivesse sincronizada com o seu real significado. Não sei se existe, mas duvido que a Alemanha possa edificar um monumento aos seus soldados da Segunda Guerra sem parecer agressiva e racista, ou melhor, anti-semita, porque os judeus passaram da categoria de perseguidos para a de ultra-protegido, aliás, tem feito o oposto: constrói em memória dos judeus. No entanto, pode existir com toda normalidade aqui e em outros países, EUA, por exemplo, monumentos a louvar a braveza da sua agressão?

Morreram em Defesa da Ultramar? Que tanga! Que insulto aos verdadeiros atingidos! Eles tiveram o que bem mereceram. Os familiares dessas pessoas me perdoem, mas não vou pedir desculpas pela frase, por mais ofensiva que seja. É assim mesmo! Saíram de Portugal para um país alheio, para a Guiné, por exemplo, para fazer Guerra, em defesa de quê? Defesa? Defesa de interesses económicos de uma porção de gente, sim, mas não propriamente do povo português, e mesmo que fosse em defesa do interesse económico do povo português isso não legitimaria de forma nenhuma a agressão a outro povo… pois, não há “defesa” nesta questão, apenas “agressão”.

Um exemplo mais recente de invasão é a americana, estão no Iraque, na Afeganistão, e estão a ver como entrar em Irão, Venezuela, e algum outro país com potencial económico para controlar, e fazem-no em nome do “mundo livre”. Mundo livre, hem? Quer dizer viver em constante lei marcial é liberdade?

Os americanos tal como os colonizadores portugueses fizeram, invadem um país alheio, exterminam inocentes, porque são casualidades, danos colaterais, destroem tudo o que estiver pelo caminho e voltam para a casa com as mãos cheias de sangue e ainda assim recebem nomeações e homenagens. Não vêm que isso é ofensivo, mas reclamam porque a MVRDV desenhou umas torres que, segundo eles, lhes lembram o 11 de Setembro.

Qual é o significa disso, destes monumento, senão dizer que ao fraco não é permitido sentir-se ofendido? 

Por isso volto a repetir: os soldados homenageados neste monumento e em muitos outros do género tiveram o que bem mereceram. 

8 de janeiro de 2012

FEEBLES, OS TERRÍVEIS, 1989 (Meet The Feebles)

Peter Jackson nem sempre foi grande (quer dizer, em termos de reconhecimento hollywodiano) mas sempre manifestou o ideal de grandeza, o que se verifica nos pormenores com que constrói os seus filmes.

Meet The Feebles é uma sátira ao mundo do cinema, da televisão do teatro, na verdade não sei realmente qual, porque ao ter como o pano de fundo o palco e os bastidores, tanto podia ser de um como de outro, embora a trama principal esteja ligada à televisão. 

Meet... é um filme declaradamente de baixo orçamento, protagonizado por fantoches, marionetes, e pessoas vestidas com fantasias ridículas de animais, efeitos especiais beirando a amador, mas com uma direcção segura e capaz.  

A história do filme tanto podia ser esta: Robert, um bicho de campo chega à cidade com o sonho de ser actor, como provavelmente 90% das pessoas que mudam para Hollywood, e vai parar no set do The Feebles, e talvez por ser novo falta-lhe a arrogância e ainda não está tocado pela corrupção do mundo da representação; como ou podia esta outra: Bleech, um produtor ambicioso, com nariz para negócios, ilícitos ou não, que está metido tanto na droga como na pornografia, que filma nos bastidores; ou podia ser a história de Libby (que de alguma forma, não me perguntem por quê me lembra a Liz Taylor), uma hipopótamo com distúrbio alimentar e inclinação para a gordura, o que entra em contradição com a sua clausula contratual, mas do qual se livra por ser amante do produtor; ou de uma jornalista de revista cor-de-rosa sensacionalista, incarnada por uma mosca, que literalmente se afunda na merda para conseguir uma “boa” matéria; ou de outras tantas personagens, cada uma com os seus problemas e os seus tiques, que dentro do mesmo espaço, tornam o set numa paródia mórbida de um manicómio sem supervisão, transformando-o numa panela de imorais e amorais cujo único objectivo é dar-se bem na vida. Mas é claro que temos algumass personagens “puras” nesse meio, dos quais os restantes abusam da boa vontade.

trailer 

Meet The Feebles é um filme divertido e ácido, que ainda visita e parodia outros géneros, e é tão trash como os primeiros filmes de Peter Jackson. Para ver e dar umas risadas, e ainda desperta algumas interrogações sobre os negócios de bastidores. Apesar de ter bonecos, não é um filme para crianças considerando o seu tema e a forma como o foca.  Recomendável.

7 de janeiro de 2012

BORED TO DEATH, S03E06 – Two Large Pearls and a Bar of Gold (review)

Parafraseando os velhos da minha terra: Vitelo manso aleita-se em todas as vacas do campo.

Não sei se isto aqui se aplica ao Ray (Zach Galifianakis), porque ele é tudo menos manso. Preguiçoso dos diabos, negligente e mandão ainda por cima, como é que ele consegue aleitar-se nas vacas do campo é algo que ainda não entendo; sugou Leah (Heather Burns), suga (ou sugou) Belinda (Olympia Dukakis), agora George (Ted Danson).

E falando em Belinda, não percebo e nem me vejo a perceber a sua reacção quando Leah a surpreendeu na casa de banho com Ray, o que só vem provar mais o quanto Ray é irresponsável. Belinda parecia-me muita coisa, mas não religiosa… quer dizer, para mim apenas os religiosos assumem uma postura como aquela dela, a não ser que ela pretendia dizer algo como: a culpa não foi minha, fui seduzida, pois se a ideia dela era separar Ray e Leah e ficar com ele, o facto de ter partido logo a seguir simplesmente não rima com isso. Bem, acho que não devia perder tempo com isso, porque não faz mais nada do que aumentar mais um bocado à lista de esquisitice das personagens da série.

“Bored to Death” recuperou a pedalada, depois das mornices dos últimos dois episódio, entrou no eixo… também, pudera!, está a dois episódios do fim da temporada, se não se encarrilar correrá o risco de cancelamento.

Tivemos mais um trabalho de Jonathan (Jason Schwartzman) que requeria (como é o pretérito perfeito deste verbo?) toda a ajuda que conseguisse arranjar, ou seja, nenhuma, na verdade só um motivo para reunir a malta, fantasiarem-se e ficar chapados, como é hábito. A história foi bem simples: Jonathan é contratado para guardar as jóias da família pelo pai da sua primeira namorada, Patty (Casey Wilson) aparentemente uma ninfomaníaca, com quem fizera um pacto de ir para a cama um com outro antes do casamento, mesmo que fossem casar com outras pessoas. E isso rendeu momentos divertidos e um duelo de esgrima nas escadas com uma coreografia a lembrar um velho filme de Errol Flynn.

George não teve muito destaque, a sua história basicamente foi mostrar que não quer dependência sentimentalista com nenhuma mulher, já lhe bastam os amigos para isso, o melhor afecto que pode dar a uma mulher é levá-la para a cama e se ficarem chapados juntos, tanto melhor, como tem sido com Josephine (Mary Steenburgen).

Ray… O que se passa com Ray? Como é que ele consegue atrair simpatias com aquele génio ingrato e execrável? Será que é porque não quer crescer (mais decididamente que os seus amigos), e deseje manter-se um eterno “puto crescido”? Será que conseguiu a simpatia dos cuidados de George porque este sente falta da Emily e está a tentar compensar-se?

Em termo de desenvolvimento psicológico, o episódio não mostrou nada que já não sabíamos, e nem me queixo, no quesito da comédia, esteve bem onde devia, tudo rodou à volta da jóia e da sedução da ex-namorada de Jonathan, e um bocado da conversa “elder love” que, acho eu, já está na altura de ser largado, visto que não está a ser desenvolvido devidamente, mas está a servir apenas de motivo para graça. De qualquer maneira, Ray acha que está a tentar compensar a sua mãe ausente com o seu “elder love”, e talvez tenha razão, pois sabemos que ele cresceu sem modelos, e foi essa a razão de ter-se esforçado um nanico para servir de exemplo a Spencer.

Foi um episódio bem divertido, dizendo que todos os homens são crianças que não sabem o querem e só pensam com o pénis. Mas a melhor linha foi qualquer coisa como: “Todos em Filadélfia estão à espera que um familiar morra”.

5 de janeiro de 2012

LIVROS DE URBANISMO


Não vou fazer uma "observação" destes livros, porquanto não os li na íntegra; porém, garanto a sua utilidade por os já ter usado vezes e vezes em trabalhos de urbanística.

Portanto, estes dois livros de urbanismo, tenho a certeza, vos serão úteis. Intitulam-se URBANISMO I - Projecto Urbano e URBANISMO II - Configuração Urbana, ambos escritos por Dieter Prinz.

Como disse, não os li todo, só os uso como material de consulta, e, felizmente com acesso físico, entretanto, ao procurar na net informações sobre eles vi que grande parte de teses de mestrados em urbanismo que encontrei têm sempre os dois títulos ou um deles citado na fonte bibliográfica, sendo esta a razão mais forte suficiente para garantir que vale a pena, senão ler, pelo menos dar uma vista de olhos.


No link que se segue vão os dois títulos em PDF.