22 de março de 2016

AS LIÇÕES DE GUINEENSE (KRIOL) - 1ª LIÇÃO (parte I)

PRIMEIRA LIÇÃO


Para uma melhor facilidade de aprendizagem do guineense, recomendo o livro Kriol Tem, de Teresa Montenegro, contém vocabulários, nome de animais, de plantas (científicas inclusive) e expressões idiomáticas (muitas que eu não conhecia e outras que já esqueci). Quem quiser adquirir o livro pode contactar kusimon@kusimon.com ou avise-me aqui.


SAUDAÇÕES

GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
mantenha
cumprimentos
mantenha
fala mantenha
cumprimentar
fal-à* mantenha.
bom dia
bom dia (óbvio, não?)
bom dià
bo tardi
boa tarde
bó tarde
bo noti
boa noite
bó note
kuma k bu sta (kuma ku sta)?**
kuma di kurpu?
como estás?
cuma que bu stà*
cuma di curpo?
nsta bem
kurpu sta bem
estou bem

kurpo sta bem
te logu
até logo
té logo
te manha
até manhã.
té manhà
dipus no na odja
vemo-nos depois
dipus nó na odjà*

Observação 1: nas partes da pronúncia, só vou escrever as falas que possam criar alguma confusão. Por exemplo, não dizer “bo tardi”, com o “i” tónico, em vez de “bo tarde” com um “e” reduzido.

Observação 2: não estou certo se o guineense é uma língua de acento ou uma língua de tom (confiram com o Dicionário do Guineense de Scantamburlo), porque parece que mistura as duas coisas, como na palavra “mpelele” do “branku-mpelele” que tem três acento tónicos, “mpé-lé-lé”, ou na palavra “pelele” do “pelele di gatu”, que têm dois acentos tónicos “pelé-lé.

* O acento em guineense é diferente do acento em português. Quando utilizo “acento grave” na coluna da pronúncia é para marcar a diferença entre a pronúncia guineense e a forma de ler português, que não contempla o nosso acento. Por exemplo, tomemos em conta as palavras “paraquedas” e “para”, o “para” lê-se de forma diferente nas duas palavras. Quando utilizo o “acento grave” é para a palavra ser lida como o mesmo acento que o “para” em “paraquedas”.
Outra forma de pronunciar corretamente seria fazê-lo como se não existisse o vogal antes da última sílaba, por exemplo a palavra “fala”, quando é verbo (falar), lê-se com o mesmo acento com que se leria “fla” (todos os verbos lêem-se com este acento, salvo raras exceções), no entanto, quando é substantivo (voz), lê-se como em português, “fala”.

** “Kuma k bu sta?” pode-se também dizer “kuma ku sta?”, acontece aqui que o “ki bu” é sincopado em “ku”. (E vale a pena dizer: neste caso, “não tem nada a ver com as calças”). Será depois melhor explicado.



GRAMÁTICA

Os pronomes pessoais são usados de duas formas. A primeira só é usados em caso indicativo ou em combinação com o verbo ser (sedu). Para conjugar os restantes verbos, o pronome pessoal utiliza-se com outras partículas (que implicam ação) e ela podem ser usados na conjugação sem a presença dos pronomes.

PRONOMES PESSOAIS (1ª forma)
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
ami
eu
ami
abo
tu
abò
el
ele/ela
el
anos
nós
anóss
abos
vós
abóss
elis
eles/elas
eliss


Frases de exemplo
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
Ami i fidju di nha pape.
Eu sou filho do meu pai.
Ami i fidjo de nha pá-pé.
Abo i studanti di kriol.
Tu és estudante do crioulo.
Abò i estudante de kriol.
El i bu grandi amigu.
Ele é teu grande amigo.
El i bu grande amigo.
Anos i prumeru k tchiga.
Nós fomos os primeiros a chegar.
Anóss i prumero que tchigà.
Abos k bim ku e storia.
Vocês é que vieram com essa história.
Abóss que bim cu e estória.
I elis k kume nha bianda.
Eles é que comeram a minha comida.
I eliss que cumè nha bianda.
Kim k ta manda li i el.
Quem manda aqui é ele.
Quim que ta mandà li i el.
I ka ami ki furta bu nbludju.
Não fui eu que roubei o teu embrulho.
I ca ami que furtà bu nbludjo.
Abo ki djimpinil otcha i na laba.
Foste tu que o/a espreitaste quando se estava a lavar.
Abò que djimpinil otcha i na labà.
Anos ki rabata pon di bu ermon.
Nós é que arrebatamos o pão do teu irmão.
Anóss ki rabatà pon di bu ermon.

Para conjugar os outros verbos, os pronomes pessoais levam outras partículas e são conjugados utilizando essas partículas (2ª forma).



PRONOMES PESSOAIS (2ª forma)
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
ami
n’
eu
ami n’
abo
bu/u
tu
abò bu/u
el
i
ele/ela
el i
anos
no
nós
anóss nó
abos
bo
vós
abóss bó
elis
e
eles/elas
eliss é


Frases de exemplo
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
Ami n’ kume (nkume) dja.***
Eu já comi.
Ami ncumè djá.
Abo bu ka sibi papia guinensi.
Tu não sabes falar guineense.
Abo bu ca sibì papia guinense.
El i ta furta bakas.
Ele rouba vacas.
El i ta furtà bacas.
Anos no panha mampusma.
Nós apanhamos pé-de-atleta.
Anóss no panhà mapussma.
Abos bo gosta di nfala-nfala.
Vocês gostam de diz-que-diz-que.
Abóss bó gostà de nfalà-nfalà.
Abo bu/u fiu suma santchu.
Tu és feio como um macaco.
Abo bu/u fiu suma santcho.
Elis e ka ta konta bardadi.
Eles não dizem a verdade.
Elis é ca ta contà bardade.
Abo bu kumpra kil bobra na fera.
Tu compraste aquela abóbora na feira.
Abò bu cumpra kil bobra na fera.
Ami nkaba dja e parti.
Eu já acabei esta parte
Ami nkabà djá é parte.
Anos no ka ta medi nada.
Nós não receamos nada.
Anóss nó ca ta mede nada.

*** N’ kume (comi), faz-se a síncope, eliminando o apóstrofo, e fica nkume. Todas as conjugação em primeira pessoa do singular que usem «n’» seguido de uma uma consoantes, escreve-se sem o apóstrofo. Exemplo: Nkaba (acabei), ntoma (tomei). No entanto, mantém-se o apóstrofo quando «n’» precede uma vogal. Exemplo: n’iabri (abri), n’obi (ouvi).


Observação 3: Para a conjugação dos verbos (exceção do verbo ser - sedu) pode-se utilizar as partes respetivas de cada pronome, sem a necessidade de utilazar o pronome em si. Por exemplo: "N'odja (eu vi), em vez de  Ami n'odja". "Bu tene/U tene (tu tens) em vez de Abo bu tene. De forma geral é como dizer em português "tenho", em ver de "eu tenho", porque a primeira forma subentende o pronome "eu".

VERBO SER – SEDU
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
ami
i
eu sou
ami i
abo
i
tu és
abò i
el
i
ele/ela é
el i
anos
i
nós somos
anóss i
abos
i
vós sóis
abóss i
elis
i
eles/elas são
eliss i


Os verbos em guineense conjugam-se, mudando apenas o pronome pessoal. O único verbo irregular é o verbo sedu. E é também, dos poucos verbos com “presente de indicativo simples”, os restantes, como veremos nas aulas mais à frente, só são conjugados no "presente" de forma composta.

5 de março de 2016

AS LIÇÕES DE GUINEENSE (KRIOL) - INTRODUÇÃO


A primeira coisa a ter em conta quando se aprende uma língua através do seu código escrito é a ortografia. E para o que aqui pretendo, ensinar a falar kriol, ou guineense, a ortografia revela-se um problema, visto não haver ainda um sistema ortográfico guineense unificado e acordado. Praticamente todos escrevem kriol de forma diferente, uns utilizam para isso o sistema ortográfico português, outros, o sistema italiano.

Nos Boletins Culturais da Guiné-Bissau, muitas vezes os investigadores transcrevem a língua guineense e outras étnicas, utilizando o sistema português. Entretanto, os primeiros livros, que eu li, escritos em kriol foram traduções da bíblia e das missas, feitos por padres italianos para padres italianos, portanto é normal que tenham influenciado a escrita do guineense, como na proposta de 1987 (mais à frente). Eles utilizavam, por exemplo, a letra “c” para o som “tch” (igual ao inglês “ch”, do nome Chomsky) , assim nas palavras macu” ou “cabi, que alguns (a maioria, atrevo-me a dizer) escrevem matchu ou tchabi; ou a letra “j” para ser lido por “dj” (como se leria em Django), nas palavras bajuda” ou “canja”, para serem lidos “badjuda” ou “candja”. 

No entanto, Moema Parente Augel, observa que o primeiro livro (ficção, provavelmente) em kriol, ou pelo menos, bilingue, foi de Augusto Pereira, Lubu ku lebri ku mortu i utrus storya di Guiné-Bissau, em 1988, mas já em 1987 existia o Vokabulari Kriol Portuguîs, de Arturo Biasutti.

Para este meu manual ou tutorial ou guia ou lições (chamem como quiserem) de aprender guineense eu poderia usar o sistema utilizado por Teresa Montenegro, que é, ouso afirmar, a maior impulsionadora da escrita da língua kriol, ou o sistema utilizado por Luigi Scantamburlo que, conforme o próprio, se baseia na grafia adaptada pela Direcção Geral da Cultura em 1987, "Proposta de Uniformização da Escrita do Crioulo”, porém com algumas alterações devido à modernização do sistema fonológico guineense (e criando uma maior proximidade com o sistema ortográfico português, visto este ser a língua oficial da Guiné-Bissau e de certa forma, o pai do guineense), no entanto vou propor um outro sistema.

No meu curso de Licenciatura em Língua Portuguesa, tive uma cadeira chamada fonética e fonologia e o que aprendi nesse curso é que um alfabeto fonológico (permitam-me dizer), onde cada letra corresponde a um fonema, é o melhor e mais simples a utilizar, para evitar confusões como em português onde o fonema “s”, pode ser representado por, “s”, “c”, “ç”, “ss” e “x”, como em “sinto”, “cinto”, “caçula”, “assola” e “auxílio”, e a letra “s” pode se representar, “s”, “z” e “ch” como em “saca”, “casa” e “cais”. (Nunca prestei atenção nas aulas do Alfabeto Fonético Internacional, senão seria aqui de grande ajuda.)

Para evitar problemas deste tipo, vou adotar aqui um sistema mais fonológico, onde cada letra corresponde a um som apenas, no entanto, não será possível evitar combinações de letras para determinados fonemas. O sistema que proponho é diferente do de Scantamburlo (1999), mas baseado no dele, e por vezes regressivo ao sistema anterior de 1987, como no uso do “g”. Fica, no entanto, desde já o aviso que nenhum sistema escrito é perfeito, e embora eu queira evitar algumas dificuldades do sistema gráfico acima referido, tem outras que não conseguirei evitar. Por exemplo, vão sempre surgir palavras como “papa”, que tanto pode ser lido por “pappa”, como “papa” ou “papá”.

O mais sensato, eu sei, seria utilizar o sistema apresentado no livro de Scantamburlo, porém… como é apenas uma proposta de escrita ainda, não vejo problemas em apresentar uma outra proposta.

retirado do Dicionário Do Guineense Volume II, de Luigi Scantamburlo




Para o sistema ortográfico, vou usar aqui o alfabeto de 26 letras utilizado também em português, no entanto, algumas das letras serão usadas apenas para casos de estrangeirismos. Posto isto, vou apresentar o código da pronúncia.

Onde fundamentalmente o sistema que vou utilizar aqui difere do sistema de 1999 é no uso de “gu” precedendo “e” ou “i”, de “x”, “ch”, “lh” e “tc”.

Para o “gue” ou “gui”, por exemplo, proponho usar apenas “ge” ou “gi”, com a mesma pronúncia, por causa de palavras como “aguenta” que se lê “agüenta".

Para os sons “ch”, proponho sempre que sejam representados por “x”.

Para os sons “ks”, que ele representa por “x”, como em “fixa”, proponho “fiksa”. Com exceções no entanto para estrangeirismos e universais como “táxi”.

Para o “lh”, embora haja diferenças de pronúncia entre “ilha” e “ília”, a proximidade é tanta que ambos os sons podem ser representados apenas por “li”, assim “pilia” em vez de “pilha”.

Em vez de “tc” proponho o “tch”, por se se encontrar popularizado e por temos vários nomes próprios exclusivamente guineenses, com esse fonema, escritos por “tch”, como Tchico, Tcherno, Bitchofola.

CÓDIGO DA PRONÚNCIA


guineense
português
pronúncia
A
aza; ama
asa; ama
asa; ama
B
baka; baldu
vaca; balde
baca; baldo
C
nomes e estrangeirismos


D
dedu; dadu
dedo; dado
dedo; dado
E
erva; pe (le-se sempre como na palavras “erva”)
erva; pé
erva; pé
F
foli; faka
fole; faca
fole; faca
G
galu, gera (lê-se sempre como na palavras “galo”,  exceções para nomes como Guiné, Gino, entre outros).
galo; guerra
galo; guerra
H
nomes e estrangeirismos


I
iagu; intindi (o “i” no final da palavra não é tónico)
água; inteiro
iago; intinde
J
jelu; gaju
gelo; gajo
gelo; gajo
K
kuadru; saku
quadro; saco
quadro; saco
L
lestu; kabelu
lesto; cabelo
lesto; cabelo
M
marka; sumu
marca; sumo
marca; sumo
N
nada; tersu
nada; terço
nada; terço
O
ovu; po (lê-se sempre como na palavra “ovu”)
ovo; pau
ovo; pó
P
puti; premiu
pote; prémio
pote; prémio
Q
nomes e estrangeirismos


R
ratu, tera (não existem r dobrado em guineense, “um carro caro” é sempre “um karu karu). Pode ler-se com “R” que ninguém se rala.
rato; terra
rato; tera
S
sapatu, kabesas, pasensa (pronuncia-se sempre como no “sapato” e todos os sons “s” são sempre representados por “s”, com algumas excepções - ver nota 1)
sapato; cabeças; paciência
sapato; cabeças; paciência
T
tampu; sertu
tampo; certo
tampo; certo
U
kurpu; tampu (o “u” no final da palavra não é tónico”
corpo; tampo
corpo; tampo
V
vidru; nervu
vidro; nervo
vidro; nervo
W
nomes e estrangeirismos


X
xatu; caxa (todos os sons “ch” serão representados por “x” e “x” representa apenas sons “ch”)
chato; caixa
chato; cacha
Y
nomes e estrangeirismos


Z
zinku; vazu (todos os sons “z” são sempre e unicamente representados por “z”)
zinco; vaso
zinco; vaso
NH
prenhada; nhambi
grávida; inhame
grávida; inhame
DJ
djimpini; badjuda (como em "Django")
espreitar; rapariga
espreitar; rapariga
TCH
Tchumbu; tcheru (como em "tchau")
chumbo; cheiro
tchumbo; thcero
N’
Lun’a; n’aie (pronuncia-se com o “n” velar nasal, seguido do vogal, como “lunn-ha”, ouvir exemplo)
lua (forma arcaica); rapaz iniciado balanta 
lun-à; n’-aiê

NOTA 1: Nas palavras começadas por "s" e uma consoante ("sp", "st", "sk", entre outros), o "s" pode tomar o som do "ch", devido à diferença de pronúncia existente entre os falantes.  Exemplos: Sporting (aceita-se a pronúncia "sporting" ou "esporting"), stranhu (stranho ou estranho). No entanto, skerda (esquerda é a pronúncia mais habitual, poucos dizem "skerda"). Para evitar problemas de escrita, acredito que se possa aceitar dupla grafia, para palavras como estas, quando não são nomes (pelo menos, nestas minhas aulas, aceitam-se): ixkerda ou skerda, ixtranhu ou stranho, ixpertu ou spertu, ixkravu ou skravu, entre outros.



Tal como os dois sistemas referidos, 1987 e 1999, também se dispensa o uso de acentos, servindo, portanto, o contexto como melhor diferenciador. 

E como dito anteriormente, não há nenhum sistema que seja perfeito e que não mereça críticas. Todavia, acho que já tenho aqui uma base ortográfica para prosseguir com as lições de guineense.

E por quê em 42 lições?
Porque o sentido da vida é 42.