29 de abril de 2011

FOGO FÁCIL, Marinho de Pina (2006)



Que tipo de escritor e bibliófilo seria eu se aqui falasse de muitos livros e não falasse do meu? E seria modéstia não inclui-lo na lista do 100 Títulos Para  Ler Antes de Morrer? Hum, talvez!, no entanto, considerando que a modéstia no curriculum vitae é nada mais do que estupidez, acho que devo valorizar-me o suficiente para auto-incluir-me nessa minha lista, álias, se o próprio Ed Wood achava que fazia bons filmes... além do mais, essa lista é também pessoal.

Bem, de qualquer maneira eu falar do meu livro seria bastante suspeito e muito pedante, razão por que vou convidar outra pessoa para o fazer, e não vejo ninguém melhor para isso do que o conceituado escritor angolano José Eduardo Agualusa, sendo que foi ele quem lhe fez o prefácio, e ei-lo:



Prefácio de Fogo Fácil

Num contexto como o da Guiné-Bissau, de grande pobreza literária, a emergência de um novo escritor é sempre de saudar. O lançamento desta recolha de contos de Marinho de Pina, “Fogo Fácil”, merece contudo uma maior atenção. O que mais me impressionou, logo no primeiro conto, foi a sensação de me encontrar num território autónomo, um universo próprio, feito de um conjunto de referências e de uma soma de obsessões muito particulares. A isto chama-se estilo, e está para a literatura como o tempero para a culinária. O estilo de Marinho de Pina faz-se se sábia mistura entre humor inteligente, uma pitada de tradição oral, outra de suave erudição literária, nunca pretensiosa, e a paixão pela retórica.

Lúcio, o pícaro personagem do conto “A Alavanca do Cérebro” exemplifica estas características: “Estávamos nesses palavreado quando um rapaz caiu ao rio, e começou a ser arrastado pela corrente. Segundo a teoria de Lúcio, o rapaz estava no mesmo sítio, a cena é que se desenrolava. Se conseguisse entrar na frequência do mundo, iria ao sítio onde o rapaz estava, antes de cair na água, e mudava a cena”. E Lúcio, de facto, serve-se apenas do pensamento, da retórica, para alcançar os seus objectivos – e descobrir a alavanca do cérebro. Há aqui um prazer pela efabulação, uma energia e sinceridade, que não é muito fácil de encontrar, nos nossos dias, em literaturas mais sofisticadas.

Marinho de Pina leva-nos a conhecer uma outra Guiné-Bissau. Não aquela que julgávamos conhecer, através das notícias, quase sempre funestas, que nos chegam pela rádio e pela televisão, mas uma outra, infinitamente mais complexa e interessante: com os seus mitos, os seus dramas e inquietações, e, sobretudo, a sua atenção ao mundo e ligação à modernidade.

"Fogo Fácil" (eis um título feliz!) parece-me um raro primeiro livro, anunciador de um mundo mais vasto. É por ele que aguardo agora, que aguardamos todos, na certeza de que mais do que um escritor da Guiné-Bissau, Marinho de Pina se revela, nos contos que se seguem, como uma esperança de literatura em língua portuguesa.

José Eduardo Agualusa

27 de abril de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - Contextualizando


Quando tinha 12 anos, dois anos após descobrir a minha primeira biblioteca, fizera várias tentativas de escrever, acabando por desistir por diversas razões.

Confiante de que dominava melhor as palavras, aos 16 anos, ainda estávamos em guerra na minha terra, e o sítio onde eu me encontrava era mais entediante que o Paraíso, para me divertir só tinha uma caixa com 40 CDs de música clássica (o que me fez criar ouvidos para esse género), comecei a escrever, para ocupar o tempo, levando-me, no entanto mais a sério nessa arte. O caderno que comecei acabei por perdê-lo depois de uns três meses a riscar nele, na pressa de encontrar um lugar mais seguro, quando a cidade foi atacada, e para dizer a verdade, a minha escrita não ia muito bem, era difícil escrever do nada.

Acabou a guerra, eu tinha 17 anos, e pude voltar para a minha casa de novo, e um encontro com um livro de contos de Mark Twain foi um momento bastante feliz. Mark Twain tem um conto sobre Noé, com ele a ter problemas com um fiscal portuário; inspirei-me nisso, e escrevi uma história com Aladin e o seu tapete que não cumpria nenhuma regra aeronáutica. 

Mas isso não me satisfez, porque era um decalque ridículo, resolvi então usar o Noé Bíblico, misturando-o com outros Noés mitológicos para fazer uma história, acreditando que seria mais fácil, pois tudo o que tinha de fazer era reescrever, visto a linha já estar toda montada. Afinal o próprio Pitigrilli tinha escrito um final alternativo para A Dama das Camélias de Alexandre Dumas, sem que isso se considerasse plágio.

Escrevi Noé - O Primeiro Messias, e foi mais fácil do que as minhas primeiras tentativas. E decidi usar a Bíblia como fonte e reescrever o Génesis. E como os autores que mais gostava na altura eram humoristas, e como aquelas histórias só teriam sentido se fossem contado pelo ridículo, não pude escapar de tentar fazer humor com elas. Então escrevi Adão e Eva - O Mundo Perdido, (referência a Jurassic Park) depois soube que Mark Twain tinha escrito também um conto chamado Adão e Eva, li esse conto e imprimi a sua conclusão na conclusão do meu Adão e Eva. 

Quando acabei de reescrever o Génesis, sob a perspectiva de Lúcifer, usando com guias livros de Robert Charroux e A História de Deus de Karen Armstrong, ainda criei uma história que explicasse a descoberta do seu diário, e envolvia anjos e demónios que tentavam matar e proteger a prostituta drogada que deveria sofrer inseminação artificial da esperma divina para dar à luz um novo messias, que finalmente resolveria a questão do Apocalipse. Eu estava muito herético na altura, culpa do filósofos que andava a ler.

Entretanto, tive uma recaída religiosa e senti que tinha ofendido gravemente a Deus, e disse a mim mesmo que não acreditava no que escrevi, mas isso não aplacou a minha consciência, fiz então o que qualquer bom cristão faria: apaguei os ficheiros do computador, queimei os manuscritos e parti as disquetes que os continham, para não cair na tentação. Foi difícil, porém senti-me em paz quando acabei de o fazer, tinha 19 anos nessa altura e acabara de mandar para o diabo dois anos de trabalho.

Umas duas semanas mais tarde (não durou muito), ao reler A História de Deus, a minha fé ateia renasceu e quase fiquei louco por causa da asneira que tinha cometido (na altura sentia-me mais à-toa do que ateu). De todo o trabalho, só consegui salvar dois que tinha impresso e dado a um amigo para ler, felizmente ele não os tinha destruído (quando lhe pedi para o fazer, foi mais sensato e disse que ficaria com eles para se rir) e algumas partes das outras que ficaram em computadores onde tinha trabalhado. Depois tentei reescrever de novo a reescrita do Génesis mas já não tinha piada, refiz José - O Pesadelo dos Irmãos (lembrando-me do Freddy Krueger), todavia, ficou seca, portanto desisti; e a história do Apocalipse que serviria de ligação às outras também morreu.

No entanto, como acho que devo completar essas partes que tinha salvo, pois depois de 10 anos, talvez consiga dar um novo sumo às suas piadas (ou não), sem dizer que estou numa crise escrítica (durante 5 não conseguindo escrever ficção, largando sempre as histórias na página 20), e espero que a fórmula funcione de novo e liberte-me a veia literária, vou postar Memórias de Lúcifer, parte a parte, obrigando-me assim a, quando chegar às historias deixadas ao meio, conclui-las. 

24 de abril de 2011

SANDRA NKAKÉ - garganta de ouro

Simplesmente F O R M I D A V É L.

Há duas maneiras que os artistas entram na nossa vida: ou forçam o caminho suavemente, ou, como os violadores, apenas se instalam e ponto final. Sandra Nkake usa o segundo método.


Em 2009, conheci Sandra Nkake por Happy, aqui, e apaixonei-me imediatamente, a sua garra vocal não deixa a ninguém indiferente. Aquela manifestação soul, que, não sei porquê, me faz lembrar Neneh Cherry, aquela voz que às vezes orienta a Nina Simone, ou aquele autodesafio vocálico a Erykah Badu, fizeram de Sandra Nkake um achado.

De Happy passei logo para o álbum todo, Mansaadi (2008), até onde sei o único trabalho discográfico dela; depois encontrei algumas pérolas suas em sessões jam, e outras onde interpreta outros artistas, que me deixaram ainda mais apaixonado.

happy (maansadi, 2008)
gostei também do conceito do vídeo, que joga com a dualidade de qualquer relação, mesmo as supostamente benéficas, atráves do jogo de luz e sombra, aqui reforçando com uma metade da cara da artista maquilhada e "perfeita" e a outra metade natural e crua.

Gosto imenso da maneira e da certeza com que Sandra usa a sua voz, da maneira como usa o beat-box para criar um veio de diferença ao seu género, e da forma como musicaliza. E por ser um único álbum, espero que venha a haver mais, e catorze faixas, vou falar rápido das mais relevantes (entenda-se que todas as observações aqui são puramente pessoais). E como sempre digo, não sou muito bom a identificar géneros musicais, o que quer dizer que talvez poderei cometer equívocos no que vou dizer em seguida. 


The Way You Walk – acústica, a faixa que abre o disco, começa com muita energia, com o habitual fundo desse género, ela mostra que o seu cantar não é só emissão de voz, mas também, verdadeiramente, uma interpretação vocal.


H.A.P.P.Y. – No bom tom soul, já foi a música dela que mais eu gostava, concorrendo para essa posição talvez com Stay True (mas como o meu género preferido varia por épocas e como Sandra é pluri-generalista[?]...).

I Miss My Land – um jazz bem definido, bem divertido, bem animado.

Stay True – Reggae, calmo e pausado, animado, com uma letra sobre ela mesma e sobre a sua procura, muito agradável.

La Mauvaise Reputation – acompanhado com beat-box, vocal loops e uma guitarra baixo apenas, é enleante e sentido; o melhor cover desta música que já ouvi.



Ya Ya Ya - Funk, perdido entre RnB e Soul, só confirma mais a solidez do álbum e das capacidades músico-intrepretativas de Sandra.

I Believe - A música que fecha o disco, também acústica, mas com mais intervenção de instrumentos melódicos (?), com um toque a gospel, encera magistralmente o álbum, fazendo dele consistente e coerente. 


Listei as primeiras seis músicas de Maansadi porque mostram toda a pluri-generalidade de Sandra e fazem um resumo da sua habilidade.

bónus 
Sandra Nkake + Erik Truffaz + Sly Johnson (de Saian Supa Crew)

Sandra, como já disse, não canta apenas, interpreta, mesmo não vendo os seus vídeos, ouve-se isso nas suas músicas, com os risos, os murmúrios e outras coisas. Ouvindo Maansadi e as mesma música "ao vivo", acho que faz-se um melhor quadro de quem é Sandra.

Em notas de fecho, Sandra Nkake é provavelmente  (com Ana Carolina - que ganhará aqui um post) uma das artistas que mais ouvi nos últimos dois anos. E... há um easter egg na faixa I believe, também soberbo.


PS:
E para quem vier aqui parar à procura das letras das músicas de Sandra, recomendo que escreva lyrics em vez de letras (por exemplo sandra nkake lyrics, se adicionar o título da música ou algo que nela se disse, fica ainda mais fácil), seja da música de que artista for...



21 de abril de 2011

SETE MINUTOS, OS, Irving Wallace (1969) - sexo não é crime

Os Sete Minutos de Irving Wallace é uma obra simplesmente soberba e avassalante, capaz de abalar até mesmo os menos conservadores, na medida em que autopsia comportamentos sociais que sabemos que existem, mas que talvez nunca tenhamos gastado o tempo a observar para lhes entender os porquês. 

A obra fala de um livro chamado Os Sete Minutos, que lhe deu o nome, considerado o mais obsceno de todos os tempos (mas é ficcionário), porque usa linguagem franca para explicar episódios de cama. Sete minutos é o tempo médio do orgasmo feminino, ou melhor que a mulher leva para chegar ao orgasmo, (não sei comprovar essa afirmação e nem para aqui importa) e o livro dentro do livro descreve o que passa na cabeça da autora durante esses sete minutos; e como agravante o facto do prazer sexual ser negado à mulher naquela altura, onde boa parte considerava o orgasmo feminino um mito, e quando verdadeiro um perigo à estabilidade social.

O livro estava à venda por um livreiro que foi preso acusado de vender pornografia [a pornografia só foi legalizada nos EUA por volta de 1974]. A acusação é feita por um Promotor público que espera com isso conseguir projecção política, pois é sabido que todo o mundo, quando se fala abertamente do sexo, fica com um pé atrás, embora com os ouvidos distendidos. E para complicar a situação, um rapaz comete uma violação e alega que foi incitado a isso pelo livro. E, por fim, um advogado ambicioso arrisca-se a sacrificar um futuro promissor para defender o livro. Eis a base para uma das mais esplêndidas leituras que fiz este ano [foi em 2006 que escrevi isto]. Li o livro com um pantagruelismo que eu mesmo nem conhecia, 600 páginas em 2 dias. 

O autor, Irving Wallace, revela conhecimentos profundos (para mim que sou leigo) sobre a posição do sexo no sistema judicial americano e o mecanismo do sistema em si, e parece ter feito um belo trabalho de base antes de se lançar à escrita d’ Os Sete Minutos. Uma das frases mais sonantes e reveladoras sobre a questão sexo que aparecem no livro é: assassinato é crime [e imoral e antiético], mas escrever sobre assassinato não é crime [nem imoral, nem antiético], sexo não é crime [nem imoral(?), nem antiético], mas escrever sobre sexo é crime [e imoral e antiético]. É verdade que hoje falar sobre o sexo não é crime, mas continua a considerar-se imoral e antiético, pelo menos quando não leva o cunho de científico.  
recentemente, em 2009, um livro que reproduzia esta imagem de um pintor francês na capa foi apreendido e proibido de vender pela PSP, porque foi considerado ofensivo, quando qualquer  banca de jornais que se preze expõe revistas pornográficas ou eróticas sem que isso seja considerado atentado ao pudor
Durante a leitura, dei-me por mim a consolidar a minha opinião acerca das perguntas que já tinha vindo a fazer: será o sexo sujo? Será que a forma de agir que consideramos a melhor não foi simplesmente estipulada por uma cultura exsicada e hipócrita? Até que ponto somos manietados e outorgamos nós mesmos aos mais poderosos o direito de nos usarem como joguetes? Até que ponto o nosso receio de não sermos aceite ou de sermos ridicularizados nos levam a agir por conveniência e a destruir o melhor de nós? Podem crer que fazemos mil outras perguntas durante a leitura. 


Ainda vemos no livro como é que as pessoas sacrificam tudo para defender aquilo em que acreditam (as corajosas e são raras), ou outras para esconder-se da vergonha (a maioria)... e vemos também como é que por causa de terceiros se lixam os… quartos.


Embora o sexo esteja tão banalizado hoje na literatura, noutras formas de artes, e na nossa própria vivência, não pensem que o livro esteja desactualizado ou que não ira trazer nada de novo, pois embora o livro fale de sexo em particular, no geral trata da liberdade individual. Acreditem que o livro (foi escrito nos anos 60) é ainda bastante actual e continuará actual por muito tempo, e chocante. Chocante porque embate contra a forma como aceitamos imposições no nosso plano sexual e como ainda sacralizamos o sexo.


Para não me perder em tergiversações baratas, (pois para falar de tudo o que o livro mostra e ensina, eu precisaria de escrever outro livro) digo que depois de ter acabado de ler Os Sete Minutos, senti-me mais inteligente e mais livre e encorajado a enfrentar certos preconceitos que já vinha a considerar estupidez. 

17 de abril de 2011

BOOGIE, O AZEITOSO, 2009 (Boogie, El Aceitoso)


Quem é Boogie, o Azeitoso? 

Bem, em poucas palavras: se o feminismo fosse religião, Boogie seria o Satã. Boogie é um assassino de aluguer, um filho da mãe odiento e psicopata que se sente um tonto sentimental porque acaba com uma pessoa ferida que podia ter sobrevivido, que… peraí, se contar quem é o Boogie, vou fazer um spoiler. Bah, aliás, o cartaz não engana a ninguém... só se esqueceu de dizer que é também racista, desenhando os pretos com aqueles traços típicos do tempo em que ainda só diziam "uga-uga" nas bandas desenhadas.

Boogie, O Azeitoso é tão violento que acaba por ser hilariante. E eis o seu pomo de discórdia, suponho, porque muitos poderão pensar que se trata de uma apologia à violência quando, na verdade (ou pelo menos, para mim), é uma sátira ao nosso sistema, e um apontar de dedo à maneira como estamos cada vez mais acostumados com a violência.

Se Tarantino fizesse uma animação, seria Boogie, ok!, boogie não gasta em conversas triviais que dão um ar de realidade à história (mas tirando isso, parece um trabalho feito à base dos trabalhos do mestre), porém faz referências e homenageia vários filmes, vários cartazes e vários géneros: numa das cenas mais soberbas, temos um confronto a la western, que simplesmente delicia, ou a cena perto do final no tribunal, ui. E tem um cena que talvez seja uma referência a Lucky Luke, quando numa confusão com galinha, Boogie perde o cigarro com que andou o filme todo, e fica com uma pena na boca. Resumindo para depois avançar: Boogie roça a genial.

A fotografia, ou o gráfico, sei lá, considerando que aquilo foi gerado no computador e desenhado a mão, é muito boa. Ora cheira a 300 de Snyder, ora a luz de Afrosamurai, Ressurection, e tem umas pontas de Sin City de Rodriguez (ainda tem outras técnicas de animação que já vi em outros filmes mas não consigo lembra onde). O cenário, tridimensional, foi gerado no computador, as personagens foram desenhados à mão, parecendo emprestadas de uma história de Corto Maltese. Mas tudo isso, apesar de emprestados, faz de Boogie único. Bem, não li a BD que deu origem ao filme e não conheço o ambiente do livro, mas que essas referências supracitadas existam... sim existem e bem perceptíveis.


trailer


Não aprendi nada com Boogie, tirando as suas situações violentas que de tão violentas se tornam hilariantes, como já referi, não tem nada de novo, o enredo já é tão batido, com algumas modificações ligeiras, todo ele previsível, mas diverti-me à beça com ele. Outras situações e falas são puramente anedóticas, mas não é que não funcionam, por exemplo (spoilers!), uma cena, uma conversa entre mãe e filha, acerca de Boogie:

Mãe: Ele continua a bater-te?
Filha: (todo apaixonada) Não... não com a mesma intensidade! 

Ou esta situação:

Boogie: Espere um minuto McCoy, Gary está vivo, mas não durará... parece um comercial de plasma. Tem uma grande hemorragia.
McCoy: Fala?
Boogie: Disse hemorragia, não verborragia.
McCoy:  Faça um torniquete, rápido! Enviarei um médico da companhia.
................................................................................................
Médico: Boa noite! Sou o médico da companhia. Mas este homem está morto! Aplicou o torniquete?
Boogie: Sim. Como a ferida era no peito, apliquei no pescoço.


Boogie, o filme, é todo  assim, e não é diferente do protagonista, que a cada dez minutos, vai debitando one-liners bem cómicos, e com algum significado por vezes; a construção dos diálogos mostra que o autor sabe brincar com as palavras e com os seus vários sentidos, mas não sei se isso se deve ao argumentista ou ao autor da banda desenhada que criou o filme. E para quem se importa, é um filme argentino.

Eis um filme para uma sessão de riso com os amigos.

14 de abril de 2011

O MITO DA BELEZA - o mito do mito


Sei o que significa o Mito da Beleza, conheço a ideia por detrás, todavia não entendo o porquê do mito nesse termo, razão pelo qual sempre me intrigou o título. Bom, quando dei por mim a pensar muito sobre o assunto, resolvi que devia cavar mais ao fundo e conhecer a filosofia ou seja lá o que for que sustenta a teoria. E foi durante essa escavação que descobri o livro O Mito da Beleza, de Naomi Wolf, que suponho ser o introdutor da referência na linguagem comum.

Não li o livro todo, apenas o primeiro capítulo, visto ser o que me interessa para esta reflexão, no entanto gostei da forma de expor da autora e pretendo fazer uma resenha descritiva, ou um resumo do livro, logo que conclua a leitura.

Intriga-me a palavra mito no termo O Mito da Beleza porque… bem, para pôr a limpo o que sabia do mito e da beleza fui a um dicionário enciclopédico para determinar os seus significados (sim, dicionário enciclopédico, embora pareça menos rotundo que uma enciclopédia, parece-o mais que um dicionário; razão da sua escolha). Eis o que encontrei:

MITO: (Blá-blá-blá.) O mito oferece sob a forma de um relato alegórico, uma explicação ou interpretação da realidade cósmica e humana. Mito na sociologia: crenças ou valores de uma determinada sociedade transmitida de geração em geração, conferindo-lhe estabilidade. Neste sentido, é possível falar do mito da liberdade, da lei, do estado, etc.


BELEZA: Abstenho-me de transcrever o que li sobre a beleza, porque envolve filosofia, psicologia, sociologia e outras tantas lógias que, prefiro ficar no termo comum. Beleza é o belo, o agradável que causa uma impressão positiva e faz com que gostemos do objecto contemplado. Há livros imensos sobre o belo, volumes sobre a estética em diversos períodos da História da arte (subentende-se História humana), de maneira que não poderei transpor para aqui o conceito do belo. Entretanto, a beleza que quero aqui referir é a aparência humana.

Eu precisava de fazer isso porque se me perguntassem o que era mito eu simplesmente diria é uma mentira qualquer tomada por real e que pretende significar alguma coisa. E essa minha ideia do mito, significaria que a beleza é uma mentira com que as pessoas se iludem. E de uma certa maneira acho que é mesmo isso que o termo Mito da Beleza pretende transmitir. Posso estar errado, porque já tinha uma ideia formada quando fui ler o livro, e talvez precise de um ponto de vista alheio para contrabalançar. Entretanto, seguindo em frente.

Se a História determina a existência do conceito da beleza e a psicologia também o faz, por que então a beleza é considerado mito? A beleza, é certo, não é universal e nem atemporal (pelo menos a humana; todavia, tenho sérias dúvidas sobre esta minha declaração), mas fruto da cultura e do modismo, de tal maneira que elementos considerados belos em determinadas sociedades não os são noutras? Será por essa sua relatividade, como refere a definição sociológica do mito, que a beleza se considerou mito?

No entanto, vemos que com o desenvolvimento da comunicação e a globalização, esses elementos do belo (ressalvo que estou a referir-me à aparência humana) têm vindo, devida ou indevidamente, a padronizar-se. A arte erótica está cheia de mulheres com o corpo do tipo afro-latino: glúteos cheios, peitos soberbos e costas curvas, até mesmo os mangas e hentais japoneses, povo com mulheres de aspecto delicado, publicitam essa imagem de mulher, Druunas voluptuosas para encher os olhos.

Culpa-se a comunicação social, geralmente o Hollywood de mercantilizar esses estereótipos e padrões de beleza, porém prefere-se não ver que que Hollywood é uma indústria e que como tal trabalha com consumidores e dá-se aos consumidores o que eles desejam para não ter de declarar falência. Hollywood dá-nos o que pedimos, pessoas com padrões de beleza que correspondam ao nosso ideal, ou pelo menos, o ideal ocidental. 

Se o classicismo está prenhe de mulher com seios pequenos, pneus e celulite localizados, a contemporaneidade está cheia de mulheres siliconadas, maquilhadas e photoshopadas. Se antes os adolescentes excitavam-se quando viam as Venuses de Ticiano, hoje fazem-no com Pamella Anderson (eu preferia Charlize Theron). A beleza é tão sobrevalorizada na nossa cultura que preferimos mudar de canal de televisão quando a apresentadora não entra nos padrões, e depois somos nós mesmo que nos queixamos da superficialidade. Não pretendo fazer uma apologia de Hollywood, apenas mostrar que não estamos isentos de vivificar o mito (vamos por enquanto chamá-lo assim). E por que o fazemos?

A natureza é bastante competitiva, os seres têm que ser fortes porque a lei da sobrevivência assim o exige, e essa força revela-se tanto entre diferentes espécies – a gazela mais rápida que o leão, para ter hipótese de sobreviver – como entre a mesma espécie – machos-alfas, pavões com penas mais estonteantes, colibris com o trinar mais alegre são os preferidos para o acasalamento. A questão é que a sexualidade nos animais talvez esteja mais marcante na época do acasalamento, enquanto para nós, humanos, acompanha-nos a vida toda (a acreditar no Freud). Tal como os restantes animais temos os nossos parâmetros sexuais, e diferente dos restantes animais o jogo da sedução no nosso caso é duplo, e como não nos guiamos apenas por instinto e feromonas, definimos as preferências através de determinadas directivas. 


  
se a beleza não existe por que essas pessoas parecem bizarras à boa parte de gente? a beleza é relativa, porque elas são belas num dado contexto sócio-cultural

Se parece que um homem prefere casar-se com uma mulher bonita e pobre em vez de uma rica e feia, assim parece que uma mulher prefere casar-se com um feio e rico em vez de um bonito pobre (embora nos dois casos queiram ter o rejeitado como amante – pelo menos a literatura está cheia de exemplos desses). No entanto, a posição da mulher compreende-se melhor, visto que praticamente, apenas nos últimos 30 anos, nos casos mais felizes, a mulher começou a poder fazer a própria escolha e a trilhar percursos antes exclusivos ao homens, ou seja, a sociedade masculinizada e machista não lhe deixava outra opção senão fisgar homem com posse, e séculos de condicionamento não se desfazem de uma hora para outra.




Daqui segue-se para a questão: e por que os homens preferem as mulheres bonitas? Porque a beleza não é um mito, a beleza existe e é apreciada. Pode variar conforme os tempos e as culturas, porém sempre existiu e tal como os pavões, nós também, humanos, somos atraídos por ela. Não há sociedade que não seja escrava da beleza, porque não há ser humano livre de conceitos estéticos. Entretanto, é costume dizer (o que não creio ser verdade), que as mulheres ligam menos à aparência física do que os homens.

Bem, suponho que a diferença entre o homem e a mulher na maneira com se relacionam com a aparência - se é que é assim tão acentuada hoje - se deva ao facto de que o homem possuía o poder (partindo lá dos antigos), e portanto possuir objectos belos fazia parte de mostrar a sua imponência; e como mostraria o seu poder, apresentando palácio sumptuoso, estátuas bonitas, pinturas geniais, sem possuir uma mulher bonita? Atentem-se à palavra posse - e lembrem-se também da sua acepção sexual -, todos sabem que o casamento é um contrato; se hoje se diz mútuo, nem sempre foi assim, o homem sempre comprou a mulher com dotes, e nas culturas onde a mulher era ainda mais subvalorizada era ela que tinha de pagar para alguém a casar – subentenda-se escravizar. Ou seja, tal como as mulheres, os homens também sofreram condicionamento, podiam preferir uma concubina ou amante feia, mas tinham de se apresentar com mulheres bonitas (aliás, todo o mundo não criticou o Príncipe Charles de Inglaterra por preferir Camila à Diana).


Por enquanto, vou parar aqui o post, mas a análise do conceito e do livro continua.

11 de abril de 2011

DESENVOLVIMENTO INSUSTENTÁVEL - Projecto de Reabilitação da Chapa de Bissau

Há algum tempo alguém me passou um conjunto de três foto-montagens intitulado “Projecto de Reabilitação de Chapa de Bissau”, não liguei nenhuma porque disse-me que tinha sido o projecto de um estudante qualquer. Depois soube que o troço de Chapa de Bissau estava a ser reabilitado, mas nunca cheguei a relacionar as duas coisas. Só agora, surpreendentemente, soube que afinal o conjunto que me foi mostrado é exactamente o projecto pelo qual se orienta a reabilitação de Chapa de Bissau.


Primeiro, não acreditei, não, há bastante bom senso nos dirigentes da CMB para aprovarem um projecto tão não-funcional quanto aquilo que vi nas fotomontagens; depois fui ao site da Câmara e fiquei estupefacto ao atestar que realmente os dois projectos são exactamente o mesmo e, pior, já está em andamento. Logo esta crítica vem tarde, mas, pelo menos, veio.

Sou arquitecto licenciado, e a duas cadeiras de mestrado (reclamo assim uma determinada autoridade), e pareceu-me que (não consegui descobrir nome do projectista) o autor deste projecto ou não conhece a realidade guineense, ou então viveu demasiado tempo na Europa que passou a julgar que transferências de layouts europeus são o ponto-chave da aculturação e, logo, do desenvolvimento, sem perceber que isso é a propaganda europeia para vender os seus produtos. Todavia, o mais risível foi acompanhar o projecto com o apelido “sustentável”. Que pensa o projectista que significa sustentável?[1], aliás, que pensam os promotores do projecto que significa sustentável? Sustentáveis são as estradas que um ano depois de serem construídas precisam de remendos por todos os lados, porque alguém andou a dar topadas? Sustentável é investir em alcatrão, quando esgotos abertos ladeiam as estradas por toda a sua extensão e mostram toda a vergonha sanitária do país quando chove? Sustentável é ter o Hospital Simão Mendes a cair de roto para que os carros de alguns não partam o amortecedor?



Sustentável é fazer um investimento a longo prazo que requeira poucas intervenções futuras e essas quando feitas são com a finalidade de facilitar e baixar o custo da manutenção ou então melhorar; ou seja, esta é a definição mais básica do sustentável.


Porém, está bem, vou confinar-me apenas à questão da estrada, sem falar do horror entre ela e os passeios, quando esses existem, e os problemas de saúde que causam e a ineficácia do controle desses problemas; afinal sustentabilidade tem a ver com prioridade, mas quando as prioridades se confundem torna-se difícil apelar à razão. Eis a "razão" por que vou focar-me apenas na área da minha competência.

O projecto Chapa de Bissau é todo ele lindo, porque aparece bem colorido sobre um fundo triste e cinzento (eis um dos truques mais elementares para desviar a atenção dos professores – eles mesmo já o usaram – e dos clientes), e quem não está acostumado com imagens do género deixa-se sempre embasbacar, porém o projecto é todo ele entrópico. O Projecto Chapa de Bissau baseia-se num conceito de auto-estrada aplicado a uma via rápida, revelando-se um erro a partir deste ponto.

Vamos analisar por outras áreas: o ponto de maior movimento da cidade de Bissau é entre Chapa e a Mãe-de-Água, por outras palavras, a economia urbana é marcadamente viva nesse troço e não há outro sítio que movimente tanto dinheiro (não incluamos os canais não conhecidos); então, bloquear todo o acesso com separadores rodoviários é como tentar cortar a garganta ao Mercado de Bandim, o que, de certeza, já sabem, não parece ser possível, visto que ele reencarna a hidra.

A circulação rodoviária determina-se em duas espécies: transportes públicos e transportes privados. Confinar os toca-tocas a uma via, sendo eles o modelo mais próximo do transporte público europeu onde o autor foi decalcar a ideia, não funciona, não só por a faixa que lhes é destinada ser estreita, como ao contrário do modelo europeu, os toca-tocas não têm um limitado número de proprietários e capazes de os organizar com uma tabela horária. Além de mais, atribuir essa faixa ao uso exclusivo de toca-tocas aborta a ideia de um transporte colectivo do género “Siló Diata” e “Caetano Um Cuntu”, que já funcionaram e podem (e devem – e virão) vir a funcionar. E sem dizer que a via deixada aos toca-tocas, limitada pela estandardização rodoviária, não permite ultrapassagem, o que vai gerar um caos do pior tipo. (Viram quantos limitados usei aqui?)


O uso dos separadores parece ter-se focado sobre o comportamento dos guineenses, da maneira como as regras de trânsito não são respeitadas e do modo como funciona o “salve-se quem puder”, por isso torna-se como uma espécie de aplicativo preventivo e regularizador que manterá “cada macaco no seu ramo” (medida esta cujo o lugar onde devia ser urgentemente aplicada fica fora das estradas), no entanto, é como varrer para debaixo do tapete (sem falar nos problemas rodoviários que causará), porque não curará os vícios, apenas esconderá a fonte, eventualmente até se perceber a sua não funcionalidade e fazer-se um novo orçamento para a sua remoção das estradas. Aliás quem quer tenha tirado carta de condução sabe que existe na estrada linhas contínuas e linhas tracejadas que servem o mesmo fim e são mais baratas. E como todos sabem, a educação com medidas físicas é apenas coerção e mostra de tirania, pois a verdadeira dá-se atribuindo responsabilidade aos participantes.


O uso de separadores justifica-se quando, por exemplo, há vias secundárias que servem a via principal e seja necessário criar entradas e pontos de serviço a esta (há um esquema visível e perceptível disso desde a Estátua Maria da Fonte até à Estátua de Amilcar Cabral no Porto de Pindjiguiti), e não porque temos de manter os azul-e-amarelos à direita e os restantes à esquerda. E os táxis, onde é que entram? Como é que os taxistas vão despejar os passageiros? As pessoas deixarão de usar táxis porque não poderão, num troço de mais ou menos 500 metros, descer onde lhes apetecer? E o passeio entre as faixas de rodagem serve então para quê, se nem é ilha de segurança?


Se o projectista tivesse lido a Imagem da Cidade, de Kevin Lynch, teria percebido que a estrutura rodoviária que desenhou quebra aquela zona da cidade em duas partes mais marcadas do que as já existentes, o que levará posteriormente ao isolamento de umas delas, a não ser que se aplique medidas arquitectónicas que tornem ambas as partes sedutoras e complementares para promover a movimentação entre elas, pois de uma outra maneira haverá uma paralisação localizada. O livro supracitado, mais A Paisagem Urbana de Gordon Culler, os trabalhos de Dieter Prinz, ou o Compêndio Elementar de Prática de Urbanismo, de Fernando Varanda (que é mesmo elementar), forneceriam ao projectista as bases para fazer um trabalho realmente urbanístico para o nosso contexto social e não um simples COCÓ (COpiar e COlar) de um contexto europeu isolado.

Não posso acostar-me a todos os pontos que tornam inviável este projecto, para não transformar isto numa crítica académica, e sendo assim vou ficar-me por uma última questão que é o uso das passagens pedonais aéreas para compensar a ausência da comunicação entre os dois lados da estrada. 


A sustentabilidade, na estrutura urbana, primariamente, baseia-se em considerar os meios de deslocação e atribuir a cidade às pessoas e não aos veículos motorizados (pelo menos é o que defende a Carta do Novo Urbanismo), e começa-se por pensar nas pessoas com mobilidade reduzida (idosos e deficientes motores). Como é que vão circular as bicicletas nesse novo plano urbano? Terão de partilhar as vias com os toca-tocas ou ariscarem-se num atropelamento na via central? Como é que vão as pessoas com mobilidade reduzida transladar a estrada? As passagens pedonais aéreas, mesmo no modelo europeu, são elementos remediadoras, e é por essa razão que contratam bons arquitectos para as tornarem atraentes e agradáveis de percorrer, porque as outras mais simples, na maior parte dos casos acabam abandonadas. A impraticabilidade dessas passagens aéreas inevitavelmente vai resultar nas pessoas criarem alternativas de circulação, tentarem romper as barreiras dos separadores para dubriar um percurso de atalho.

A sustentabilidade não é fazer renderizações bonitas, com o fim de usar alcatrão e cimento, em sistemas condenados a priori, para justificar movimentações de capital; a sustentabilidade é pensar no sistema urbano em elo com o sistema ecológico. A sustentabilidade é estudar a sério para poder fazer projectos verdadeiramente sustentáveis, o que neste caso passaria por reunir uma equipa de sociólogos, economistas e outros intervenientes em questões urbanas (competentes, é claro, e que não estão apenas à espera de uma contrapartida financeira) a fim de evitar este tipo de vergonha insustentável.

O desenvolvimento começa-se de algum ponto, e com pequenas coisas, mas não de pontos errados e de coisas absurdas, porque isso levará a um ciclo de remediação eterna, onde aliás parece que estamos metidos. E pela primeira vez, não culpo ao governo por um erro táctico sobre o país, mas ao projectista; e caso não tenham notado que apresentei uma possível solução ao invés de me ter limitado a criticar releiam o penúltimo parágrafo.



Arqº Geraldo de Pina








[1] No Jornal Kansaré, publiquei uma crónica com o pseudónimo Marinho de Pina, onde referi aos vícios dos políticos em usar o termo “desenvolvimento sustentável” sem saber o que significa.

7 de abril de 2011

IDIOTAS E ANJOS, 2008 (Idiots and Angels)

Primeiro houve o cinema mudo, Deus viu que era bom, mas Hollywood não se contentou e aumentou som: música ou banda sonora e diálogos. E Deus viu que era ainda melhor, e não meteu mais a colher. Depois Bill Plympton – que Matt Groening diz ser Deus – resolve fazer um filme sem diálogo e, pronto!, temos o Idiot and Angels. (Nota de rodapé que vai aparecer agora: Não sei se Bill Plympton foi o primeiro a fazer uma longa-metragem sem diálogo, mas pelo menos foi o primeiro que vi, e até ver ou saber de outro vou assumir que este é o primeiro).

Idiotas e Anjos é uma animação, com uma técnica única e com a melhor transição entre cenas que já vi. Quem viu The Tune (costumava passar no canal MOV todas as madrugadas, e acho que se não passa mais é porque desgastou o disco) sabe do que estou a falar. Além da curiosa forma de contar história, da história em si, há o bom gosto pela música.

O filme é sobre um gajo muito sacana, doentio, egoísta, hedonista e merdoso, que filhadaputeia todos os outros, e só se importa consigo (já tinha dito que era egoísta, não disse?). Pois bem, eis que de repente, crescem asas de anjos ao nosso sacana que o levam a tomar atitudes que ele despreza. Entretanto, essas asas não só criam modificações nele, como nas pessoas à sua volta. E as sequências da sua luta contra a personalidade invasora são ora hilariantes ora de cortar (literalmente) o fôlego.

Um dos pontos bons, no entanto é como as personagens, todos eles um tanto clichés e recorrentes nas fábulas, são psicologicamente caracterizadas sem o tal diálogo (ou monólogo ou qualquer espécie de logo), uma sequência com uma borboleta definiu-os a quase todos. Lá pelo fim, o filme assumiu o seu carácter fabuloso, tornando-se num conto de moral, do género: se Hitler tivesse um par de asas talvez abrisse uma cadeia de hamburgers na nova Zelândia e não assasse judeus só à toa. Enfim cada um interpreta como quer.


trailer


O filme não é só fábula, nem só drama e comédia (ou comédia e drama), ou um motivo para mostrar que sabe fazer arte, mas também uma crítica social, uma crítica à alienação que impomos a nós mesmo e, talvez sem notar, aos outros, e como somos forçados pelos outros por caminhos que talvez nunca tomaríamos. Temos uma cena (spoiler!) de um homem que assalta um bar onde foi maltratado. Mas, como disse, sem diálogos, as interpretações variam ainda mais, porque as  falas pelo menos criam balizas interpretativas. E temos outra onde bandos de bêbados sofrem diariamente atentados homicidas em bares e tabernas, mas todos os dias continuam atrás da bebida, entremeando-o com visitas médicas. Aqui é mais simples, só temos que trocar a bebida por algum outro vício, ou pelo vício mais generalizado e disfarçado da sociedade: o trabalho e a busca desenfreada por dinheiro (pelo menos no caso dos grandões).

Idiots e Angels é um filme muito bom, independentemente do olhar com que é visto, como alegoria, como sequências sem um ponto específico, ou simplesmente como uma concatenação de piadas de mau gosto. E outro dos seus pontos positivos é a banda sonora eximiamente seleccionada, do qual destaco a versão de St. James Infirmary tocada por não sei quem. E tem o Terry Gilliam, embora não saiba o que anda por ali a fazer.

4 de abril de 2011

POR QUE LER OS LIVROS?


Curiosa pergunta, considerando que para ser (a)percebida tem que se saber ler. Mas ver por esse prisma seria generalista e sofisticamente falacioso (se é que se pode dizer isso). Os mais atentos sabem que quando se falar de ler, da leitura, não se fala das legendas dos filmes, nem mesmo dos blogs, ou dos e-book (o que é muito injusto para estes dois últimos).

Lamenta-se muito que os jovens já não leiam, que a internet e a televisão consumam todo o tempo que poderia ser melhor aplicado numa leitura. Não vou dizer que não concorde, sendo eu um bibliófilo, ou melhor, um bibliómano inveterado, porém, não entendo por razão há best-sellers e best-sellers e cultos de autores se se diz que as pessoas lêem menos; quem compra esses livros? Ou será que está implícito nessas afirmações de que a leitura hodierna faz-se sobre lixo?

Eu sei que até os jornais sucumbem ao lixo (cito o Metro e o Destak), concorrendo cada vez mais fortemente com a imprensa cor-de-rosa para aumentar o seu consumo (ou as suas vendas). 

Se a iluminação que as leituras nos poderiam proporcionar não está a mostrar efeitos apesar da quantidade de livros que se vendem por ano, pergunta-se: está-se a vender livros errados? Aqui está a razão da pergunta em epígrafe.

Calvino escreveu Por quê ler os Clássicos?, Schopenhauer, O Perigo da Leitura Excessiva, no seu Da Leitura e dos Livros (que ainda não li todo), bons textos que ajudam a reflectir sobre os livros.

Tenho uma amiga viciada em livros, uma semana sem ler é um suplício para ela, entretanto, o tipo que lê são os romances cor-de-rosa que eu chamo de terceira categoria (não à frente dela), Julias, Harlequins e cia. Eu pergunto, qual é a diferença entre ler isso e ver uma novela? Leitora, ninguém pode dizer que ela não é, mas qual o benefício dessa leitura? Ainda conheço outra pessoa que até se desinteressar dos livros era leitor imparável de Disney, acho que o último livro que leu foi há doze anos atrás.

Por quê ler se a leitura são sobre coisas supérfluas? Não sei bem, mas se calhar porque ajudam a criar coerência no raciocínio, saber transpor para o papel o pensamento e fazer interpretações "certeiras" de um texto.

Eu aprendi pelos livros, tive o carácter formado pelos livros (entre aspas), por isso sei o valor que os livros têm e recomendo-os sempre, entretanto não um livro qualquer, e quando digo qualquer, não estou a falar apenas de leituras dispensáveis (ou que assim considero), tal e qual esses Harlequins ou livros imensos de fofocas sobre outras pessoas, porém também de livros muito bem construídos, mas que não são mais do que publicidades errôneas de alguma ideia ou movimento; embora possa parecer contraditório quando digo que já recomendei Mein Kampf (não como uma leitura positiva, mas com uma positiva estruturação da negatividade - entenda quem entender) a um bom par de gente.


E se alguém pensava que eu tinha resposta aqui para a pergunta acima, descanse, não tenho. Mas reconstruo a questão:  por quê ler se só vamos ler lixo? E quem sou eu para dizer que uma leitura é lixo sem saber como pode ajudar a outrem?