15 de maio de 2017

MUNDO NAS MÃOS, O, John Pilger (2002) - o terrorismo capitalista

Entrou para a ordem do dia o terrorismo, desde 2011, e a cada ano que passa tem de acontecer alguma desgraça no mundo civilizado para carimbar esse medo na mente das pessoas. Compreende-se por quê, povos que sempre viveram tranquilos, pelo menos desde depois da Segunda Guerra, (embora estejam constantemente a fazer guerras em territórios alheios e a vender armas a grupos suspeitos), de repente se vêem à mão com problemas explosivos, é normal que sejam tomados pelo pânico e assinem abaixo toda e qualquer ordem de retaliação contra o “inimigo”. Com os mais recentes ataques é compreensível que os média se concentrem todos a apregoar eufónica e euforicamente a necessidade de lutar contra o Estado Islâmico (bombardear alguns países muçulmanos, pela geoestratégia e recursos naturais, entenda-se… só que não podem dizer em voz alta!) Numa Europa dividida pela economia, que melhor cola poderá existir do que um inimigo comum: o medo dos europeus de serem mortos na segurança da Europa?

Este preâmbulo é um tanto longo e parece meio deslocado para este artigo, no entanto, se lerem este livro de John Pilger, O MUNDO NAS MÃOS, com o subtítulo: o que os Média não Dizem sobre os donos do mundo, vão compreender a sua adequação.

John Pilger é um jornalista australiano que coleciona importantes prémios de jornalismo e de televisão pelos seus trabalhos como correspondente de guerra e pelos seus documentários, portanto nesta sociedade, onde só tem crédito quem aparece na televisão, as suas palavras valem muito. E valeriam ainda mais se ele aparecesse muito mais vezes, mas como ele não escreve de acordo com o que manda a cartilha dos manda-chuvas e donos do mundo, que controlam o dinheiro e a informação, ele não é, consequentemente, muito popular.

O MUNDO NAS MÃOS fala de terrorismo, terrorismo ocidental, institucional e económico, porém limpo, limpo por ser praticado pelos donos do mundo e em nome da economia, do desenvolvimento, da democracia e dos direitos humanos, e por esses exatos motivos, mais aterrorizantes ainda. E se no ocidente só praticam o terrorismo económico, no resto do mundo vão ainda mais fundo.

O MUNDO… começa com a Indonésia, um país violado e destruído em nome da economia global, chamado pelo ocidente económico de “aluno modelo da globalização”. Pilger conta como, em 1967, os gigantes empresariais e económicos ocidentais dividiram entre si as riquezas e os recursos da Indonésia, em troca de apoio ao General Suharto para derrubar o governo existente, o que este fez, acabando por ficar no poder até 1998, com um saldo de mais de 1.000.000 de Indonésios mortos, sem falar dos milhares de timorenses levados no processo. E enquanto isso, recebia elogios dos média, por ser aquele que modernizou o país (e fê-lo mesmo, transformando-o num gigantesco complexo industrial a operar para os ocidentais).

Suharto foi um ditador que matou milhões sem sanção do Banco Mundial ou do FMI, porque estas instituições, conforme relata Pilger, asseguram que não discutem a política de um país, apenas a sua economia.

Apoiaram Suharto, porque o presidente anterior, Sukarno, era considerado comunista. Tinha expulso da Indonésia o Banco Mundial e limitado o poder das grandes companhias petrolíferas e tinha recusado veementemente o empréstimo dos americanos. E assim, a Indonésia, que em tempos não devia nada, foi espoliada do seu ouro, pedras preciosas, madeira, especiarias e outras riquezas naturais pelos seus dominadores e hoje (2002) tem uma dívida de 170% do seu PIB.

Não obstante a extrema industrialização da Indonésia, os seus habitantes vivem na extrema pobreza a ganharem salários miseráveis e a viverem em situações miseráveis para trabalharem nas grandes fábricas e indústrias ocidentais que recorrem à mão-de-obra barata (trabalho de escravo) e trabalho infantil.

O que me revolve o estômago (este sou eu e não Pilger) é ver grandes marcas ocidentais a venderem os seus produtos utilizando slogans e desculpas humanitárias, por exemplo: por cada peça que comprares, 10% vai ser utilizado para a luta contra o trabalho infantil no terceiro mundo ou compra um par de sapatos e damos outro para aos africanos (como se os nossos problemas fosse falta de sapatos). Os inspetores ocidentais (esses fulanos que adoram falar de direito humano) visitam as fábricas indonésias, não com o objetivo de melhorar a vida dos funcionários e de criar condições mais saudáveis de trabalho para eles, mas com o objetivo de verificar a qualidade dos produtos e de cortar os custos de produção se for necessário.


Como esta descrição se estendeu muito, vou rapidamente fechar o artigo.

Pilger fala da propaganda ocidental da luta contra o terrorismo para governar pelo medo e legitimar o ataque a outros países para o benefício das multinacionais que realmente controlam o poder no mundo e controlam também os media, através dos quais nos manipulam. 

Pilger ainda fala do Iraque, do saque americano efetuado nesse país, da destruição do país e da forma de vida dos seus habitantes, numa postura aberta de terrorismo em nome de luta contra os terroristas. Começou com o Bush pai a bombardear iraque com bombas de urânio empobrecido, deixando um rasto de mortes e de crianças com cancro ainda hoje (e o seu clímax seria com o Bush filho, continuando o país débil por causa da avidez das petrolíferas ocidentais).

O livro fecha com o que Pilger chama de apartheid australiano, embora o que os media mostram é uma austrália justa para toda a gente.

O MUNDO NAS MÃOS é uma leitura obrigatória.



Se está com preguiça de ler o livro, bem... tem o documentário aqui (com legenda):


John Pilger - New Rulers of the World

22 de fevereiro de 2017

TENTANDO ENTENDER... A NACIONALIDADE

Nos últimos anos tenho visto imensa discussão sobre a nacionalidade. E não estou a falar daquela simples "nacionalidade política" que podes adquirir legalmente, de acordo com as leis de cada país. Mas daquela “nacionalidade emocional" que muitos teimam em complicar, levando-a para o lado mais... racional(?). Já vou explicar-me melhor.

Para começar é preciso definir o que é um país. Um país define-se por um território criado por barreiras invisíveis e fictícias, por sobre a qual esvoaça uma bandeira (que tendemos a adorar como se fosse um deus, ou algo qualquer), regida aparentemente por leis próprias, e convencem-nos que a nossa vida é menos importante do que ele, e que é uma grande honra se morrermos por ele.

PARTE UM:
Hoje somos guineenses, e apregoamos isso aos quatro ventos como se fosse um feito nosso… mas não é, nós somos guineenses porque os colonialistas portugueses nos criaram. Eles chegaram, dividiram a África entre si, tomaram aquele pedaço de terra e disseram que é a Guiné-hoje-Bissau, e quando nos sacudimos da colonização (pelo menos a formal), nem sequer nos lembramos que do outro lado da estrada, onde agora é Senegal, vivia antes o nosso irmão, primo ou melhor amigo… não, começamos logo a dizer que nós somos guineenses e ele senegalês, portanto diferente, e que nós amamos melhor aquele pedaço de terra do que ele, e ele do seu lado proclama o mesmo. Mas porque devo amar apenas a terra que vai até à estrada? Quando chove ou faz sol, a natureza trata os dois lados da estrada por igual, por que faço eu a diferença? Lutamos contra o colonialismo, mas quando nos vimos “livres”, não apagamos aquelas divisões que eles criaram na África, mantivemos essas fronteiras como eles a desenharam.

Foto de Neto Tonecas Betchiguê
PARTE DOIS:
A Guiné-Bissau é um pedaço de terra, chamado país, e só é país porque foi reconhecido internacionalmente por um conjunto de países, mais propriamente pelas Nações Unidas, se não fosse esse reconhecimento dos outros não seria país. Vejamos por exemplo a Palestina, é reconhecida pela ONU como país, mas não por Israel e aliados de Israel. Ou mesmo, vejamos a Guiné-Bissau de 1973, era guineense na ONU, mas ainda continuava portuguesa para Portugal e amigos de Portugal. Então, pergunto, o que faz realmente um país ou cria uma nacionalidade? Utilizemos como referência a confusão que é o País Basco (é basco?, é espanhol?, é castelhano?).

Posto isto aproveito para dizer àqueles que gostam de proclamar aos quatro ventos, que têm quatro avós guineenses ou algo assim, de que podem estar bem enganados. Porque a nacionalidade guineense nasceu em 1974, antes os que viviam nesse território ou eram portugueses ou eram nada, e tornaram-se depois guineenses (de nacionalidade política) de nacionalidade adquirida.

PARTE TRÊS?
De qualquer forma, a Guiné-Bissau já é um país estabelecido com fronteiras, leis, bandeira e problemas próprios. E muitos já podem clamar, exclamar, proclamar, declamar, conclamar, aclamar ou reclamar a nacionalidade guineense. Mas o que faz alguém ser guineense? O que é um guineense?
  1. Será aquele que nasceu no território da Guiné-Bissau, podendo viver lá o resto da vida ou mudado para outro país?
  2. Será aquele que viveu lá por algum tempo ou durante toda a sua vida, mesmo não tendo nascido lá?
  3. Será aquele que obteve os papéis legais que confirmem a sua nacionalidade?
  4. Será aquele que ama aquele território, não importando se nasceu lá ou não?
  5. Será aquele que nem sequer conhece aquele país, mas só porque um dos pais nasceu lá, ou ambos os pais nasceram, sente-se guineense?
  6. Será a “guineensedade” genética, que pode ser herdada dos pais, ou apenas uma construção social?
  7. É mais guineense o guineense que nasce, vive e trabalha na Guiné-Bissau do que aquele que vive e trabalha fora? (E quando o guineense que vive e trabalha na Guiné-Bissau é um político que só está a prejudicar o país?)

Guerra Civil, 7 de Maio de 1999, Hospital Simão Mendes
Podia fazer ainda mais questões, mas não quero aborrecer a ninguém. Mas faço esta observação sobre os que se dizem guineenses de raiz, gema e nata, só pelo fato de nascerem lá. Eu conheço, por exemplo, uma pessoa que não nasceu na Guiné-Bissau, mas vive “o” país, e faz trabalhos extraordinários para a Guiné, será ela menos guineense que os tais políticos já referidos?

Não sei o que faz realmente a "nacionalidade", para mim continua a ser apenas uma questão legal e política, mas a forma como as pessoas se relacionam entre si ou com o território que habitam vai para além desses enquadramentos (legais e políticos). Por exemplo, eu nasci em Sonaco, e apesar de existirem muitos mandingas em Sonaco (e a terra ter um nome mandinga), eu sinto-me fula, mas vão dizer-me que não sou, porque não tenho pais fulas ou não sei falar fula, mas muitos que não viveram em comunidade fulas já podem ser fulas só porque um dos bisavôs é. Faz sentido?

Não devemos esquecer que a nacionalidade é apenas uma questão política, que a terra, ou a Terra, não nos pertence, pois vamos morrer e ela vai ficar por cá, portanto, não devemos deixar que questões políticas ditem o nosso relacionamento, principalmente quando esta estúpida questão de nacionalidade é apenas a chama que ateia o fogaréu de nacionalismos e cria um dos vários problemas com que a sociedade global tem de lidar.

Em lugar de “guineense”, cada um pode colocar a nacionalidade que quiser para fazer a questão... e no caso dos guineenses, pode ainda colocar o grupo étnico.

11 de outubro de 2016

TEREMOS EXCESSO DE JURISTAS NA GUINÉ-BISSAU?

No Encontro de Estudantes Guineenses em Coimbra (que decorreu nos dias 8 e 9 do corrente) surgiu esta observação, em tons quase anedóticos, de que temos na Guiné-Bissau um excedente de estudantes de Direito, ou mesmo de juristas (e também de estudantes de ciências políticas).

E daí a questão: com tantos doutores (ou serão Dr.?) da lei, com tantos cientistas políticos, como é que a situação política e legal do país se encontra absolutamente torta e desordenada, não sobrevivendo nem a observações empíricas? Será que estudam direito de forma errada?

Talvez seja este facto que crie esta predisposição de fazer piadas e de achar que nos nossos canteiros de juristas e de cientistas políticos deviam ser cultivados outras profissões (ou devia dizer áreas académicas?) e crie esse, vou chamá-lo assim, “preconceito” em relação aos estudantes do direito. Preconceito que eles mesmo ajudam a sustentar, porque se consideram os mais lidos, mais conhecedores, mais bem-falantes e mais bem preparados para pôr as coisas a andar bem. E os dos outros cursos, ou profissões, acham que eles se consideram dessa maneira.

Mas a verdade é que, no caso da Guiné-Bissau, alguém acha que existe alguma possibilidade de termos menos estudantes de Direito, se a melhor oferta em termos académicos continua a ser a Faculdade de Direito de Bissau, e durante muitos anos, foi basicamente a única oferta? Alguém acha que num país onde grassam problemas políticos e legais e onde parece que os juristas (olhem que nem digo advogados) são o que necessitamos para pôr as coisas nos eixos, não será essa a profissão mais desejada?

Eu sei que temos outros problemas e penso, às vezes, que não temos necessidade de tantos juristas e cientistas políticos na Guiné-Bissau, mas tal como não diria que temos excesso de médicos, de engenheiros agrónomos (que já foi o curso mais querido após a independência, porque era o curso de Cabral, mas que por causa das nossas políticas a quase totalidade desses profissionais estiveram e alguns ainda estão em risco de passar fome, enquanto um nova elite surgia), ou excesso de quaisquer outros tipos de profissionais, também não direi que temos excesso de juristas (aliás, eu sou arquiteto e quero trabalhar na Guiné-Bissau, um país onde cada um constrói a sua própria casa, que necessidade têm de mim?). Todavia, acredito que deve haver comedimento, só que não sei como fazê-lo sem pôr em questão liberdades individuais.

Enquanto continuar a parecer que a forma mais fácil e imediata de ter sucesso profissional na Guiné-Bissau é através de direito ou de ciências políticas, porque todos os anos (desculpem, queria dizer todas as semanas), os nossos políticos fornecem-nos materiais absurdos para debates e bate-bocas, e o nossos juristas clamam para si o domínio do conhecimento das leis escritas e a exclusividade de citação de memória dos artigos que a constituem, e os nossos cientistas políticos estudaram a política e sabem como ela funciona, dizem por sua vez que o entendimento está com eles, os restantes e a população são obrigados a calar, embora utilizando apenas o senso comum consigam ver o irrisório de toda a situação.

E mais que isso, parece que a única forma de ganhar dinheiro na Guiné-Bissau é através da política e muitos fazem um ligação direta entre a política e o Direito, e também, as ciências políticas (afinal esta última até tem "política" no nome); muitos estudam direito por motivo errado.

Bem, a questão principal talvez deva ser, se se acredita que temos excesso de juristas (e de cientistas políticos), então o que é que temos em falta?, e o que se deve fazer para a suprir?

24 de junho de 2016

BREXIT - ADVENTO DE UMA CRISE OU REVOLUÇÃO EUROPEIA

Não preciso de avisar que este artigo é altamente especulativo.

Com o BREXIT aprovado, começa um efeito dominó que pode e, de certeza vai, ter um fim imprevisível (ou talvez tudo já tivesse sido planeado adequadamente). O imperialismo anglo-americano ganha assim novo fôlego (falta o Donald Trump ganhar no outro extremo para se relançar com renovado alento). A Libra cai, o Euro vai por arrasto, diminui-se o espaço comercial do Euro e a sua influência, o que vai fazer com o Dólar, que tem estado a perder a supremacia, volte a ganhar força e garantir a sua posição de moeda de tráfico internacional. Pontos para os EUA.

Entretanto, no referendo que tinha sido feito em 2014 sobre a saída da Escócia do Reino Unido, houve ameaças da UE de que se Escócia abandonasse o UK (Reino Unido), seria subsequentemente expulso da UE. Eles escolheram a permanência. Sentindo-se traídos agora, e considerando que a maioria votou a permanência na UE, podem agora decidir a sua saída do UK. Conseguindo isso, vão abrir um precedente que favorecerá grandemente a Catalunha e o País Basco. O que acentuará uma tendência de desintegração em toda a europa.

Se este BREXIT vier a revelar-se apenas como um jogo que o UK fez para chantagear a UE em troca de acordos mais favoráveis, será copiado por vários países, o que inevitavelmente levará a desintegração. Aliás, independentemente do que vier a revelar-se, outros países seguirão os passos do UK.

A desintegração da UE não parece ser má de todo, considerando a sua aparência atual.  A UE tem como o núcleo o capital, em vez de pessoas; subverte as vontades dos estados membros, anula a democracia desses países e governa-os com regras económicas só por ela mesma conhecidas. Quem manda na Europa são pessoas que não são votadas (DITADURA DO CAPITAL). E alguém já se esqueceu do que a UE fez à Grécia? Isso precisa mudar, é preciso alterar o núcleo da UE, e talvez este BREXIT leve a isso, a não ser que queiram deixar tudo nas mãos dos EUA novamente. 

Por isso, se se desintegrar a UE para se reconstruir, ou melhor, se se reconstruir para evitar a desintegração, será mais sólida. Mas enquanto continuar a dizer que a França não se pode sancionar por ser a França, mas Portugal é já sancionável, ou que a Grexit só é mau por causa da estratégia militar, mas o BREXIT é catastrófico, com esses dois pesos e duas medidas, continuará sempre a ser um gigante com pés de barro (pois são os povos que fazem os pés, são os povos que sustentam a política, religião, economia e tudo o mais).

O problema, todavia, é que se a UE se desestabilizar não vão ser apenas os EUA a tentarem rapiná-la, mas também a Rússia, que há muito tempo está a tentar alterar as balanças do poder e acabar com a hegemonia económica dos EUA e com a supremacia do FMI, pretendendo criar através dos BRICS, um novo núcleo de poder económico. Não que a UE ou os EUA estejam a dormir quanto a isso, porque operaram para desestabilizar tanto os BRICS como o MERCOSUL, com a Argentina nas mãos de Macri, o problema com que o Maduro tem lidar na Venezuela e o afastamento de Dilma no Brasil, entregando o poder nas mãos de direitistas pró-liberalismo-esclavagista-capitalista.

BRICS
No entanto, sendo a UE uma grande parceira dos EUA na luta contra a estabilidade da influência económica da Rússia, sob a égide do FMI, se se fragmentar a segunda, neste sistema canibal, como os EUA irão atrás dos despojos e a Rússia também, vamos ser levados a uma mais aberta nova Guerra Fria. Mas, se a UE se recuperar através de uma política menos orientada para o capital, e mais inclusiva, provavelmente sairá mais forte do que antes, pois caso contrário, vai receber um novo PLANO MARSHALL do qual vai levar outra centena de anos a tentar se livrar. Sem dizer que a sua aliança com a NATO, que só por si já é forte, solidificar-se-á ainda mais, deixando-a totalmente entregue nas mão dos senhores da Guerra (olá os EUA).


E nesta crise política e mundial que se avizinha, quem vai sair a ganhar é o FMI e o BM, porque são eles que impõem as sanções, pois são quem controlam o dinheiro, e os países, organizados ou não, vão sempre correr atrás de dinheiro, a não ser que a UE crie outra alternativa bancária, dela mesma e não submissa ao FMI, pois se os BRICS o conseguirem primeiro (e espero que consigam), a UE nunca conseguirá reerguer-se, caso vá abaixo, a não ser, talvez, com o poder militar da NATO.

Eu espero que este BREXIT se consolide numa revolução a favor da democracia e dos povos, e não se venha a verificar que é uma mera estratégia para a recuperação imperialista anglo-americana, como um contragolpe ao neo-imperialismo-germânico.

22 de março de 2016

AS LIÇÕES DE GUINEENSE (KRIOL) - 1ª LIÇÃO (parte I)

PRIMEIRA LIÇÃO


Para uma melhor facilidade de aprendizagem do guineense, recomendo o livro Kriol Tem, de Teresa Montenegro, contém vocabulários, nome de animais, de plantas (científicas inclusive) e expressões idiomáticas (muitas que eu não conhecia e outras que já esqueci). Quem quiser adquirir o livro pode contactar kusimon@kusimon.com ou avise-me aqui.


SAUDAÇÕES

GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
mantenha
cumprimentos
mantenha
fala mantenha
cumprimentar
fal-à* mantenha.
bom dia
bom dia (óbvio, não?)
bom dià
bo tardi
boa tarde
bó tarde
bo noti
boa noite
bó note
kuma k bu sta (kuma ku sta)?**
kuma di kurpu?
como estás?
cuma que bu stà*
cuma di curpo?
nsta bem
kurpu sta bem
estou bem

kurpo sta bem
te logu
até logo
té logo
te manha
até manhã.
té manhà
dipus no na odja
vemo-nos depois
dipus nó na odjà*

Observação 1: nas partes da pronúncia, só vou escrever as falas que possam criar alguma confusão. Por exemplo, não dizer “bo tardi”, com o “i” tónico, em vez de “bo tarde” com um “e” reduzido.

Observação 2: não estou certo se o guineense é uma língua de acento ou uma língua de tom (confiram com o Dicionário do Guineense de Scantamburlo), porque parece que mistura as duas coisas, como na palavra “mpelele” do “branku-mpelele” que tem três acento tónicos, “mpé-lé-lé”, ou na palavra “pelele” do “pelele di gatu”, que têm dois acentos tónicos “pelé-lé.

* O acento em guineense é diferente do acento em português. Quando utilizo “acento grave” na coluna da pronúncia é para marcar a diferença entre a pronúncia guineense e a forma de ler português, que não contempla o nosso acento. Por exemplo, tomemos em conta as palavras “paraquedas” e “para”, o “para” lê-se de forma diferente nas duas palavras. Quando utilizo o “acento grave” é para a palavra ser lida como o mesmo acento que o “para” em “paraquedas”.
Outra forma de pronunciar corretamente seria fazê-lo como se não existisse o vogal antes da última sílaba, por exemplo a palavra “fala”, quando é verbo (falar), lê-se com o mesmo acento com que se leria “fla” (todos os verbos lêem-se com este acento, salvo raras exceções), no entanto, quando é substantivo (voz), lê-se como em português, “fala”.

** “Kuma k bu sta?” pode-se também dizer “kuma ku sta?”, acontece aqui que o “ki bu” é sincopado em “ku”. (E vale a pena dizer: neste caso, “não tem nada a ver com as calças”). Será depois melhor explicado.



GRAMÁTICA

Os pronomes pessoais são usados de duas formas. A primeira só é usados em caso indicativo ou em combinação com o verbo ser (sedu). Para conjugar os restantes verbos, o pronome pessoal utiliza-se com outras partículas (que implicam ação) e ela podem ser usados na conjugação sem a presença dos pronomes.

PRONOMES PESSOAIS (1ª forma)
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
ami
eu
ami
abo
tu
abò
el
ele/ela
el
anos
nós
anóss
abos
vós
abóss
elis
eles/elas
eliss


Frases de exemplo
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
Ami i fidju di nha pape.
Eu sou filho do meu pai.
Ami i fidjo de nha pá-pé.
Abo i studanti di kriol.
Tu és estudante do crioulo.
Abò i estudante de kriol.
El i bu grandi amigu.
Ele é teu grande amigo.
El i bu grande amigo.
Anos i prumeru k tchiga.
Nós fomos os primeiros a chegar.
Anóss i prumero que tchigà.
Abos k bim ku e storia.
Vocês é que vieram com essa história.
Abóss que bim cu e estória.
I elis k kume nha bianda.
Eles é que comeram a minha comida.
I eliss que cumè nha bianda.
Kim k ta manda li i el.
Quem manda aqui é ele.
Quim que ta mandà li i el.
I ka ami ki furta bu nbludju.
Não fui eu que roubei o teu embrulho.
I ca ami que furtà bu nbludjo.
Abo ki djimpinil otcha i na laba.
Foste tu que o/a espreitaste quando se estava a lavar.
Abò que djimpinil otcha i na labà.
Anos ki rabata pon di bu ermon.
Nós é que arrebatamos o pão do teu irmão.
Anóss ki rabatà pon di bu ermon.

Para conjugar os outros verbos, os pronomes pessoais levam outras partículas e são conjugados utilizando essas partículas (2ª forma).



PRONOMES PESSOAIS (2ª forma)
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
ami
n’
eu
ami n’
abo
bu/u
tu
abò bu/u
el
i
ele/ela
el i
anos
no
nós
anóss nó
abos
bo
vós
abóss bó
elis
e
eles/elas
eliss é


Frases de exemplo
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
Ami n’ kume (nkume) dja.***
Eu já comi.
Ami ncumè djá.
Abo bu ka sibi papia guinensi.
Tu não sabes falar guineense.
Abo bu ca sibì papia guinense.
El i ta furta bakas.
Ele rouba vacas.
El i ta furtà bacas.
Anos no panha mampusma.
Nós apanhamos pé-de-atleta.
Anóss no panhà mapussma.
Abos bo gosta di nfala-nfala.
Vocês gostam de diz-que-diz-que.
Abóss bó gostà de nfalà-nfalà.
Abo bu/u fiu suma santchu.
Tu és feio como um macaco.
Abo bu/u fiu suma santcho.
Elis e ka ta konta bardadi.
Eles não dizem a verdade.
Elis é ca ta contà bardade.
Abo bu kumpra kil bobra na fera.
Tu compraste aquela abóbora na feira.
Abò bu cumpra kil bobra na fera.
Ami nkaba dja e parti.
Eu já acabei esta parte
Ami nkabà djá é parte.
Anos no ka ta medi nada.
Nós não receamos nada.
Anóss nó ca ta mede nada.

*** N’ kume (comi), faz-se a síncope, eliminando o apóstrofo, e fica nkume. Todas as conjugação em primeira pessoa do singular que usem «n’» seguido de uma uma consoantes, escreve-se sem o apóstrofo. Exemplo: Nkaba (acabei), ntoma (tomei). No entanto, mantém-se o apóstrofo quando «n’» precede uma vogal. Exemplo: n’iabri (abri), n’obi (ouvi).


Observação 3: Para a conjugação dos verbos (exceção do verbo ser - sedu) pode-se utilizar as partes respetivas de cada pronome, sem a necessidade de utilazar o pronome em si. Por exemplo: "N'odja (eu vi), em vez de  Ami n'odja". "Bu tene/U tene (tu tens) em vez de Abo bu tene. De forma geral é como dizer em português "tenho", em ver de "eu tenho", porque a primeira forma subentende o pronome "eu".

VERBO SER – SEDU
GUINEENSE
PORTUGUÊS
PRONÚNCIA
ami
i
eu sou
ami i
abo
i
tu és
abò i
el
i
ele/ela é
el i
anos
i
nós somos
anóss i
abos
i
vós sóis
abóss i
elis
i
eles/elas são
eliss i


Os verbos em guineense conjugam-se, mudando apenas o pronome pessoal. O único verbo irregular é o verbo sedu. E é também, dos poucos verbos com “presente de indicativo simples”, os restantes, como veremos nas aulas mais à frente, só são conjugados no "presente" de forma composta.