31 de março de 2011

ZEITGUEIST O FUTURO É AGORA, 2011 (Zeitgeitst, Moving Forward)

Zeitgeist!, termo vindo dos filósofos alemães significando o Espírito do Tempo, é também o título da trilogia de documentários realizados por Peter Joseph, com a intenção ou pretensão de mostrar o espírito do nosso tempo. 

O primeiro, Zeitgeist The Movie, começa por identificar a religião cristã (subentendendo as demais) com uma máquina política, baseada em mentira, servindo para lavar o cérebro das pessoas deixando-as em banho-maria de maneira a facilitar a manipulação. Depois, passa para o ponto de viragem de todas as politiquices do Séc. XXI, a queda das torres gémeas (por que raio isso me faz pensar em Tolkien?), e culpa a Presidência dos Estados Unidos desse ataque. E a seguir lança luz sobre como os poderosos titereiros querem controlar o mundo, usando a economia para isso e os bancos para o fazer.  Escrevi sobre isso aqui.

O segundo, Zeitgeist Addendum, continua o tema e entra pelo sistema bancário, que não sei dizer se é o trono do capitalismo ou o seu pilar fundamental, e desmascara práticas que nos acorrentam enquanto passam a ideia de nos estar a libertar. Referi-me ligeiramente a ele aqui.

Neste terceiro, Zeitgeist Moving Forward, traduzido para português por O Futuro e Agora, o realizador, militante e movimentista, Peter Joseph, continua a ideia que tinha pegado nos filmes anteriores, mostrar a degeneração do sistema capitalista e dos seus filhos e afilhados: o hedonismo, o egoísmo, a hipocrisia, a busca desenfreada pelo poder (leia-se também dinheiro), e do qual se destaca o consumismo.  No entanto,  considerando a temática dos dois primeiros filmes e a acidez do ataque este aqui parece mais calmo, e para os mais desantentos e para os aficionados de teoria de conspiração, que buscam nele algum enredo a Hollywood, é morno e desencorajador. No entanto, este terceiro, não tão chocante (dependendo da definição de choque) como os dois primeiros, é porém melhor e com um tema mais necessário, na medida em que se foca na Ética.



O documentário está dividido em três partes e meia (ou quatro, conforme eles).

A primeira parte trata da educação e das suas consequências. Costumamos ouvir que o mundo é mau e que somos propensos a violência, mas, na verdade, a nossa educação, ou a falta dela, é que nos induz à violência. Não há determinismo genético para isso, nem nada que pareça, pais violentos geram filhos calmos, pais calmos geram filhos violentos, aliás o próprio Deus não gerou o Diabo? Refere a muitas comunidades que devido à forma como educam, a violência e o crime são mínimos no seu seio.

A segunda parte volta-se, como no segundo filme, para o sistema monetário, mas não fica apenas pelos bancos, analisa todo o subsistema da máquina de gerar dinheiro, que promove o desequilíbrio social e o deficit da educação resultando no mundo complicado e caótico que temos. Fala do consumismo e da maneira como o incentivam em detrimento da estabilidade ecológica, por exemplo a obsolência programada, que consiste em fazer produtos com uma data de vida limitada (e cada vez mais curta), de maneira a que o consumidor possa comprar sempre novos e descarte esses. Ou do sistema de saúde que se enriquece com a quantidade das pessoas doentes, ou ainda do sistema prisional que usa o número de presos com produtos para jogar na bolsa de valores.

A terceira parte, tal como no segundo filme, é uma propaganda ao Projecto Vénus, que os autores acham ser o plano ideal para a substituição do novo sistema. Ecologicamente é o melhor sistema que já vi, baseado em modelos como a Cidade-Jardim de Howard, Unidades de Vizinhança, de Perry, e recomendações da Carta do Novo Urbanismo, é um modelo potencialmente funcional; mas isso em termos urbanos de contexto físico. Em termos políticos... bem, eu sou um idealista, e acredito numa utopia, não sei se é este projecto, não sei se um próximo, mas em alternativa a este sistema que temos não tenho receio em experimentar o Vénus. Entretanto, já fui ensinado pelos porcos de Orwell, acaba sempre por haver alguns animais mais iguais que os demais; razão porque o único "ismo" em que acredito é o humanismo. Mas de qualquer forma, apostaria num sistema Vénus, se fosse mesmo íntegro como o vendem.

A quarta parte volta outra vez ao sistema económico, misturando já os assuntos falados na três primeiras partes mostrando a possível cura ou uma alternativa medicinal para os problemas sociais.



Zeitgeist é uma trilogia que merece e deve ser vista. Tem muitas coisas com que não concordo e que me causam dúvidas (e evito formular opinião), entretanto deixando os detalhes e concentrando-me no quadro geral, Zeitgeist, a trilogia, é obrigatória.

Agora, Zeitgeist como movimento não sei; por que não entendo o sentido de entrar para as suas fileiras ou proclamar-se seguidor do movimento enquanto cá fora, na vida real, continua-se a agir de acordo com egocentrismo capitalista da busca desenfreada pela vanidade. Não vale a hipocrisia. Eu sei que qualquer sistema derruba-se mais facilmente por dentro, mas estou farto de saber de infiltrados que acabam corrompidos.

No entanto, na falta de uma alternativa, "rezo" para que o Projecto Vénus tenha sucesso, embora saiba que quando começar a ser implementado vai ser loteado de ricos e excêntricos que tiverem dinheiro para comprar uma parcela de solo, e as crianças africanas a morrer de fome, tão usadas por eles como propaganda negativa para o sistema actual, vão continuar a morrer.

27 de março de 2011

AUTOCAD 3D 2012 GOES SKETCHUP


A Autodesk costuma lançar o upgrade dos seus produtos a 25 de Março desde há alguns anos. Entretanto, este ano, não sei como, nem por quê, as versões de Autocad, Inventor e Autocad Architecture (um cruzamento de Autocad e Revit, sem a potência de nenhum dos dois) já andavam a circular por aí, inclusive ainda no dia 17 eu já andava a experimentar Autocad 2012, e não a versão Ironman.

A mudança do visual não se nota muito em relação ao 2011, a janela de abertura já sim. No meu computar o 2012 demora mais tempo a abrir porque o programa vem carregado de plugins e já não e preciso pescá-los por net fora (e nem sei que plugins são esses para dizer a verdade, pois costumo usar apenas dois), de qualquer forma quem se importa com o visual, desde que o programa seja leve e reduza o tempo de execução pode ser tão feio quanto Sketchup que será sempre usado.

Usei o programa em 2D e não notei muitas melhorias, porque o que eu faço nesse plano posso fazê-lo na versão 2000, com bastantes chatices, é claro. Entretanto, foi no 3D que senti a melhora.

Desde a versão 2009 que a Autodesk tem melhorado a forma de modelar no Autocad, aproximando-se cada vez mais da facilidade de Sketchup. Experimentei o 3D de autocad nesta versão de 2012, e, bem, só posso dizer: toma cuidado, Sketchup. E a melhoria toda deve-se, julgo eu, ao facto de Autocad integrar agora Inventor.

Por exemplo, antes para fazer um buraco numa parede, tinha que se usar o comando  subtract, agora já não é preciso, o comando presspull que antes apenas fazia region e extrude, agora, faz as duas coisas e ainda faz o subtract, poupando grandemente o trabalho. Outra melhoria foi os planos UCS que se tornaram mais inteligentes, não precisando de a toda hora dirigi-lo conforme o desenho que se quer fazer. E, como os restantes programas que permitiam importar os modelos do warehouse do Sketchup, Autocad 2012 também facilita esse processo e ainda possui a sua própria warehouse (ou sei lá como vão chamar a sua versão).

novidades (

Viram como não sei muito sobre o programa?

O visual style do 2012 também aumentou o número de opções de visualização e, ainda não tirei a prova dos nove, mas parece que dá para importar estilos tal como no Sketchup. Enfim, tal como o título diz, Autocad 3D está a virar Sketchup, e considerando as ferramentas nurbs que possui, fico a perguntar-me se não será desta que largarei o Sketchup, pois já estava a transitar lentamente para o Revit...........!!!!! Bah! Ninguém me tira do Sketchup.

Entretanto o que continuo a lamentar é o Autocad em português, para quem comece a aprender e aprenda com o português a estratégia é muita boa, mas para quem está habituado ao produto em inglês, é mesmo lamentável, e considerando que os estudantes irão trabalhar para ateliers já antigos e que provavelmente vão ter o programa em inglês a coisa parece torta. Não que não goste do programa em português, gosto, até mostra que o Autocad só parece difícil por causa da língua, entrentanto o facto de os atalhos dos comandos se alteraram todos e não haver a possibilidade de editá-los a todos no .pgp, torna-o frustrante. Mas isso é um problema para mim porque tenho dificuldade em lidar com mudanças (obs.: não confundir com evolução).

23 de março de 2011

UMA QUESTÃO DE... MERDA


Os seres humanos amam o perfume dos seus próprios excrementos, mas não o odor de dos outros. No fundo fazem parte do nosso corpo. (…) Levantei-me e olhei para as minhas fezes. Uma bonita arquitectura em caracol, porém fumegante. Borromini. (…) O cocó é o mais pessoal e reservado que temos. O resto os outros podem conhecer (…) Inclusive os teus pensamentos. Mas o cocó não. Excepto por um breve período da tua vida, quando a tua mãe te muda as fraldas (…) Os caminhos do senhor são infinitos, disse a mim mesmo, também passam pelo olho do cu.


Realmente todos nós merdeamos (limitando a referência ao sentido biológico do termo e sem intenção de ser escatológico), todavia a merda tem um significado bastante íntimo, muito mais íntimo que o sexo, de maneira que acaba por ser ainda mais escandalosa que ele. Todo o mundo partilha o sexo, mas a merda é mais solitária que a masturbação, razão por que o fazemos à porta fechada (limitemo-nos à merda ocidental). É claro que há excepções para tudo, encabeçando o exemplo, o par de coprófagos mais famoso do Séc. XXI, as senhoras da 2 girls 1 cup, mas os nossos sapientíssimos psicólogos chamam-nas, às excepções, de desviantes, e os precavidos higienistas com razão avisam que é uma actividade pouco, ou nada saudável.

A merda, ou melhor, merdear é o maior tabu da nossa sociedade, apesar de qualquer pessoa saudável o fazer pelo menos uma vez por dia (ou devia fazê-lo com essa frequência; bem não sei precisar o melhor número diário, mas julgo que em grande número o melhor é consultar um médico). E a nova geração está tão empenhado em desafiar os tabus, principalmente à porta fechada, que práticas como o beijo grego ou o ATM (não confundir com as caixas de multibanco) são cada vez mais comuns. Será isto uma demonstração de coprofilia em estado latente?

Trabalho num supermercado e vejo todos os dias pessoas a comprarem papel higiénico, e quando, há dias vi o filme Mary e Max e as referências escatológicas ali deixadas (e que me remeteu ao texto de Umberto Eco, do livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, com que abri o post) comecei a ficar com desejo de entrar na cabeça dessas para saber se pensam alguma coisa sobre o que pensam os outros pelo facto de comprarem papel higiénico ou se simplesmente estão-se a cagar, pois comprá-lo atesta claramente que a pessoa merdeia.

À merda relacionamos o peido (é melhor dizer flatulência, para não parecer ordinário, e começar a dizer excreção ou dejecção, para parecer científico e não vulgar), de tal maneira que constitui um embaraço quando este se ouve quando o queríamos calar, mesmo que o único sentido que desperte seja a audição; aliás, preferimos empestar o espaço com um fedorento que ninguém pode identificar a origem passando toda a gente a ser suspeito (tirando quando há moscas por perto, pois começam logo a voar na direcção da fonte da emissão, estragando o disfarce), do que a fazer um sonoro que não incomoda a mais ninguém.

Fico à pensar se não condenamos a defecção por sua ligação com o sexo, pelo menos no início. Ok! Eu explico: o acto de defecar expõe inevitavelmente o sexo (o órgão), e acho que o pudor tinha mais a ver com isso do que com questões higiénicas. Li um romance, onde uma senhora da corte francesa durante um passeio, manda parar a carruagem, e avia-se ali mesmo à beira da estrada, à frente dos demais. E parece que até o Séc. XVII era normal defecar em qualquer sítio que desse jeito, dentro da casa ou na rua, ou dizer um: água vai!, antes de amandar a porcaria para o meio da rua. E quando as medidas começaram a ser tomadas para acabar com essa porcariada toda, e mesmo no Palácio das Necessidades dos portugueses, o acto de defecar era partilhado com os outros, porque não haviam separadores e nem sanitas cómodas como hoje, quando muito pias turcas.  

Se era isso prática comum na altura, começo a pensar quando é que a merda, ups!, defecção, começou a ser sacralizada? Eu sei que os muçulmanos nunca se relacionaram bem com ela, e julgo que e pela mesma razão acima sugerida, o sexo, porque também não se relacionam com a urina, motivo das suas abluções antes de começarem as orações. Mas, também, n’As Mil e Uma Noites soube que eles partilhavam banhos e latrinas, embora já evidenciassem o pudor de merdear em público; eram mais civilizados nesse sentido que os ocidentais.



Parece que os gregos costumavam defecar em público (confirmem se faz favor), sem vergonha desse acto, os próprios romanos tinham o que chamavam de Cloaca Maxima, a sua rede de esgotos, pois os actos higiénicos faziam-se na rua, mas, hey, os romanos eram muito desavergonhados para o nosso padrão actual, eram tipos que faziam hinos ao sexo e aos órgãos sexuais e louvavam o nudismo.

Tudo o que o corpo manda fora pelo seu sistema excretor é lixo, e duvido seriamente que se consiga reciclar. Eu cresci numa quinta enorme, quando criança eu costumava defecar no fundo do meu quintal e tinha sempre algum porco (animal) que ganhava assim refeição (era proibido de fazer isso, porque a minha mãe dizia que comíamos pela carne do animal o que eles comiam; mas eu cagava-me na proibição, afinal eles estavam ali para fazer desaparecer a prova), no entanto, nunca vi um porco a comer o seu próprio dejecto. Ou seja até aqueles idiotas de cérebro reduzido sabiam não ser saudável digerir a própria merda.

É claro que depois de as pessoas começarem a esconder os dejectos e a ter vergonha deles, todo o mundo começou a ganhar, as cidades começaram a ser mais saudáveis e as doenças desapareceram, por isso ninguém pense que estou a fazer um apelo a coprofilia. O que estou a tentar entender é por que raio começamos a ter vergonha de algo tão natural como merdear? E somos tão fascinados pela merda que Piero Manzoni - o grande trapaceiro que soube bem vestir o rei de nu (primeira foto) - teve o trabalho de cagar em 90 latas e nós o consideramos uma obra-prima.



PS: Eu não sabia que algo como a merda podia render um post tão comprido, pois acho que ainda vou voltar ao assunto.

PPS: A segunda foto é de uma instalação sanitária pública com vidros espelhados. Imaginem a sensação de merdear vendo todo o mundo (se conseguisse é claro, eu cá duvido muito), é como ser um deus: cago pra vocês, mas nem sabem.

20 de março de 2011

DE VÍBORA NA MÃO, Hervé Bazin (1948) - Prometeu a acorrentar-se

De Víbora na Mão, de Hervé Bazin, é daqueles livros que podemos classificar de fantasticamente fantástico, sem que isso se torne redundante. O autor escreve com muito humor enquanto disseca a psique humana, ou pelo menos parte dela. O livro é um murro terrível nos cornos de Freud, apresenta a criança perante os pais (a mãe, propriamente), sem aquela treta de impulsos sexuais a dirigir tudo. Não há aqui o complexo de Édipo, talvez o complexo de Prometeu, na medida em que apesar de conhecer o poder de Zeus ainda lhe rouba o fogo por lhe ser necessário, embora saiba das possibilidades de castigo.

Vou tentar fazer uma síntese da obra: Uma mãe cria três filhos sob as mais ridículas condições e um regime pior que o das madrastas de contos de fada. Não há essa relação amor-ódio a pontuar tudo, mas antes ódio-ódio, o que leva a admiração mútua entre oponentes. Três filhos perante uma mãe odienta, rica, mas sovina, e que os cria numa situação mais que parca, não como uma lição, para aprenderem a valorizar as coisas simples da vida, mas simplesmente porque quis; três filhos que se desenvolvem, relacionando-se com essa mãe, cada um à sua maneira: um preferindo vencê-la no seu próprio, outro tentando sobreviver apenas, e o último que, por não poder vencer o inimigo, prefere unir-se a ele.

Podemos deslocar a comparação e usá-la como uma metáfora social, porque na sociedade praticamente as pessoas se dividem, quando vêm os seus interesses em jogo, em grupos iguais aos desses irmãos.

O livro podia ser cruel, quando apresenta três crianças a tentarem envenenar a própria mãe, três crianças contentes porque a mãe está à beira de morte, três crianças expectantes, torcendo para que a mãe morra afogada, mas nem por isso é cruel, aliás, nesses momentos até que se torna mais humano. Humano, talvez porque o próprio homem é cruel, pois vemo-nos também a conjurar com eles para que seu desejo se realize... e a mãe, hum, é bastante forte.

Falando tanto da mãe e dos filhos, pergunta-se: então, e o pai? O pai está sempre presente, como o próprio Deus, ambos os pais em quem as crianças não acreditam porque são fracos e nunca vem ao socorro. A sociedade é masculinizada e patriarcal, o poder da mulher embora imenso, costuma ser discreto, e tradicionalmente costuma vergar-se à decisão masculina, por isso os filhos não entendem por que o chefe da família é apenas uma figura, uma marioneta que dança ao ritmo da sacerdotisa, que embora lhe seja garantido posse de poderes, não os consegue manifestar.

No entanto, o livro não faz uma apologia à ditadura masculina no seio da família, porque aquele pai tanto podia ser uma mãe, que o desprezo seria o mesmo causado pela sua inacção; na verdade, a crítica é mesmo dirigida à inacção, porque duas pessoas fazem os filhos, duas pessoas encabeçam à família, por que duas pessoas não devem tomar decisões sobre o que acontece na família?

Como já referi, nem só a família é retratada no livro, mas a sociedade em geral, as suas fraquezas, a sua passividade, os seus líderes, e principalmente a falta de acção e o aceitar ou o negar apenas por reacção. E ainda aponta alguns outros  vícios, por exemplo, tem uma parte no livro que o personagem diz: a velha está mais acostumada a acariciar cachorinhos do que crianças; e isto é só um dos retratos caricatos da nossa humanidade hipócrita que aparece no livro.

Para conhecer De Víbora na Mão é preciso ler mesmo, porque conhecê-lo de qualquer outra forma não se conseguirá penetrar no seu âmago e envolver-se na enleante emoção que proporciona. E para quem quiser saber mais sobre os personagens história, pode procurar A Morte Do Cavalinho, do mesmo autor. São dois livros que ligados formam um único, mas que são independentes um do outro. Eu li os dois e gostei dos dois. Reli os dois e gostei ainda mais, embora continue a preferir este de que aqui falo. E é um dos 100 Títulos a Ler antes de Morrer.

11 de março de 2011

MARY E MAX, 2009 (Mary and Max)

Mary and Max… a melhor comparação que encontro para o filme é o tango, não a música, mas a dança, ora com movimentos calmos, calculados e sensuais, ora com enérgicas, fugazes e impacientes.

Eu esperava uma história a Disney quando comecei a ver o filme, alguma fantasia como Coraline, principalmente porque ambos são em stop-motion e ouvi falar de ambos na mesma altura, e a surpresa foi tanta e muito positiva quando o filme nem passou por perto. Contado por um narrador é uma animação... "cadavérica"... feita para adultos.

Mary e Max é um filme de amor, o melhor que vi este ano (ainda estamos em Março, espero ver melhores ou pelo menos outros à altura até ao final do ano), o amor entre duas pessoas, um senhor de meia-idade (44 é meia-idade?) e uma menina de oito anos, três meses e nove dias, que, apesar de não se conhecerem, têm muito em comum: falta de amigos, uma específica série de desenhos animados e chocolate. Mas isso é só o ponto de partida para a torrente de emoções que se despencam ao longo de hora e meia. Com um bom ritmo, uma fotografia pálida, e a animação dos personagens um tanto tosca, sem referir a banda sonora que por vezes atribui alguma teatralidade ao filme (destaco – spoilers! – a cena da primeira carta de Max e a que antecede a ressurreição de Mary, simplesmente soberbos), todos esses elementos destacam o lado “anormal” dos personagens e do tema a tratar. Julgo que a história funcionou melhor assim do que se tivesse uma foto mais convencional e colorida e animação fosse mais vivida. Também note-se que a própria fotografia mostra dois mundos diferentes, o mundo de Max é todo ele cinza, ou seja, irremediavelmente sem remédio, enquanto o mundo da Mary é mais animado, é castanho, significando perspectivas futuras.

O filme trata do desequilíbrio social, congelando a parte do amor, dos que não se conseguem encaixar, dos marginalizados ou auto-marginalizados que não conseguem ser normais; e todos os normais do filme tinham a sua anormalidade, como foi mostrado: o vizinho era homofóbico (na verdade agorafóbico, como a Mary depois aprendeu); a mãe era cleptómana e bêbada; o pai, que tem um trabalho monótono, praticava taxidermia, para curar a sua monotonia, quando na verdade só a agrava; Damien era gago (a sua revelação final não se foi intenção do realizador mostrá-lo com anormal, o que eu apontaria como um erro, ou como uma espécie de epifania, o encontro libertador consigo mesmo). São todos pessoas normais.

No entanto, porque Max é um "aspie", sofre de síndrome de Asperger, ou seja tem dificuldades em exprimir e interpretar emoções, tendo uma mente muito literal, e não compreendendo as interações sociais não faz com que precise de ser arranjado, ou que seja anormal, como os outros pretendem, pois é tão normal como qualquer um.

Vemos que praticamente, como diria Sartre, o inferno são os outros, todos os problemas destas pessoas é porque, de algum modo não se encaixam no padrão social, e não respondem ao que lhes é exigido, diluírem-se na normalidade. Por exemplo, a marca da máquina de lavar pratos da Vera é “Dishlex”, que remete à dislexia; os livros que Ravioli lê são todos de auto-ajuda e um deles, posso dizer, foi escrito por Dale Carnegie (uma autoridade nessa área); jogam os estereótipos como parte da do processo da normalização. Note-se que Max consulta um psiquiatra, e a presença deste é tão constante no filme, como o nome de Jesus numa missa de Natal, e eu suponho que isso foi intencional, para mostrar que os psiquiatras e a normalidade são hoje, respectivamente, os sacerdotes e religião moderna. O mendigo por exemplo, que tenta vender abraços, conselhos, beijos, até no final perceber que ninguém quer isso, visto que ele continua onde está, acabando por se contentar por pedir as pessoas para guardarem o seu dinheiro (bem, a sociedade não é assim tão honesta).


trailer

E a razão de o realizador usar muito da escatologia é algo que não entendo. Temos durante o filme todo coisas a saírem ou a entrarem pelo ânus, será que quis dizer com isso que embora pretendemos a normalidade escondemo-nos de coisas normais? Por exemplo, houve um momento em que comparou um peido com a honestidade. Ou uma das palavras preferidas de Max ser “testículos”, ou a fruta “cumquat”, não são provocações à normalidade e para deixar os normais desconfortáveis, visto que ele está a escrever para uma menina de mais ou menos onze anos? E assim também temos o tema da pedofilia visitado, embora não tão aprofundado. Podíamos repreender – spoilers! - embora o façamos, a Vera de não querer que Max comunique com a filha?

Mary e Max é soberbo, começa por ser uma comédia inteligente, mas como qualquer boa tragédia(?), prende-nos, faz-nos gostar dos personagens, leva-os a superarem-se para logo depois fazer uma viragem para o ângulo oposto, e deixarem-nos desconfortáveis. Houve uma cena, lá perto do fim, com a Mary, tão carregada de tensão e magistralmente dirigida - e não consigo imaginar música mais perfeita para ela - que me deixou de respiração suspensa e aperto no estômago, e só isso podia valer o filme todo.

spoiler visual


Como não consigo seguir uma linha de pensamento sequencialmente clara, vou terminar aqui. Acredito que há mais no filme do que aquilo que consegui captar, embora não me tenha referido aqui a todos os elementos alegóricos que encontrei, ou pelo menos, há mais referências que me passaram despercebidas, no entanto, o que ficou é muito intenso. E sem ver o filme pelo lado analítico das mensagens, cinematograficamente falando, é um bom filme e hora e meia bem aplicada, banda sonora bem escolhida, fotografia adequada ao tema, em suma: uma obra-de-arte.

8 de março de 2011

A VINGANÇA DE JENNIFER, 2010 (I Spit on Your Grave unrated)

Tem remakes que valem a pena ser feitos, quando há uma actualização do tema e perspectivas novas de exploração, mas a maioria dá aquela vontade de sair para a rua levantar os dois braços para o ceú, imaginando uma câmara em picado perfeito a afastar-se, e gritar: “por quê?”. Bem, este filme não é o caso, não porque sirva para alguma coisa, mas porque não se destruiu um bom filme neste remake.

I Spit on Your Grave (expressão que significa desrespeito absoluto, tendo em conta que quando mortos somos temporariamente boas pessoas), ganhou título em português, A Vingança de Jennifer, talvez por ausência de uma expressão equivalente na língua lusa, porém eu sugeria alternativas como Cago no Teu Cadáver, o que duvido que a censura deixaria passar. Bem, voltando ao tema.

Eu era muito jovem, na verdade, uma criança, quando vi o original pela primeira vez, deixou-me tremendamente chocado. Porém, há uns anos voltei a ver o filme… bem, o choque não foi assim tanto, talvez porque faltou-me a paciência para o filme, daí que o vi em velocidade 2x. O filme resume-se em duas palavras: sexploitation e snuff, e testa-nos os nervos durante a visualização. O que me arranca esta pergunta: por que raio as pessoas têm prazer em ver outras a serem violentadas?

I Spit on Your Grave (1978) é um bom filme no seu género, porque consegue o que quer: incomodar, mas não é um bom filme, cinematograficamente falando, pois tirando a violentada, mais ninguém convence, e talvez a violentada só convença porque criamos por ela empatia (ou pela sua personagem).

Mas, este post não era para falar do filme original, mas do remake. Tem um jogo que eu costumo fazer no imdb, que é, por exemplo, partir do nome de Van Damme e chegar a Matthew Broderick, sem ter que digitar nada, e em menos passos possíveis. E é assim: Van Damme contracenou com Dolph Lundgren (Máquinas de Guerra), este com Bruce Willis (Os Mercenários), e este com Tom Hanks (A Fogueira das Vaidades), e este com Denzel Washington (Filadélfia), e este com Matthew Broderick (Tempo de Glória). Pois, bem, eu estava a jogar este jogo (já não me lembro o que queria ligar) e fui parar ao I Spit on Your Grave: Unrated, a princípio nem percebi que o cartaz era diferente, o que mais me chamou a atenção foi o unrated, pois o o outro era day of the woman e foi assim que percebi que se tratava de um remake. Bem, despertou-me a curiosidade, afinal se até mesmo Piranhas ganhou remake, porque não este, vamos lá ver se a ousadia de hoje supera a dos anos 70.


trailer

Deixem-me dizer, deviam deixar o cultuado I Spit On Your Grave (1978) onde estava, porque este remake não só não traz nada de novo (tirando transformar a protagonista numa aprendiz de Jigsaw, o que se vê mesmo pelo cartaz do filme que respira a Saw), como os actores parecem bem pior ou tão maus como os primeiros (não posso precisar nada, porque vi o outro filme há uma coisa de três anos já).

Entretanto, o que se pode aprender com este filme:

1. Que as cidades do interior não são boas para as férias, porque a ausência de acção cria mandriões violentos.

2..       Que as mulheres não devem passar as férias sozinhas e que devem sempre ser acompanhadas do parceiro para não serem violentadas (e que o realizador não viu Eles, de Moreau).

3.       Que as mulheres não devem vestir roupas curtas diante de homens desconhecidos, principalmente quando estão isoladas com eles.


4.       Pá, não me lembro de um quarto.

No geral, despindo aquela violência gráfica toda (ah, nesse aspecto este remake mantém-se aquém do original), o tema é muito importante. Temos dois pontos fortes e actuais no filme: o voyeurismo e a objectificação sexual.


Com a Internet, o cinema e todos os meios áudio-visuais, sem falar das revistas e outdoors, a sociedade foi ficando cada vez mais sexualizada, e não estou a falar do aspecto psico-científico da palavra, mas sim do hedonismo. Por exemplo, os perfumes são vendidos com promessa de granjear mulheres (a propósito, aproveito para reclamar contra a Axe, pois andei usando mas não resultou como prometido; publicidade enganosa), carros, roupas, até mesmo uma caneta porta a promessa de uma vida sexual mais intensa, e notem que digo intenso e não melhor. Se antes só os homens primavam pela quantidade, hoje as mulheres também (e não tenho nada contra, pois só tenho ganhado com isso), e os registos dessas conquistas são deixados na net, para todo o mundo ver. A pornografia tornou o sexo entediante, de maneira que muitas pessoas já não se satisfazem com uma relação normal a duas (também nada contra) e daí partem para bondages e sadomasoquismo, sendo estes os normais, os anormais vão pelo estupro, pedofilia, necrofilia entre outras filias perigosas. Não pretendo, no entanto, que essas taras são frutos da pornografização da comunicação social, ou da sua erotização (para ser mais brando) visto que a história e a literatura atestam a sua existência antes mesmo do aparecimento dos irmãos Lumière. E essa parte voyeurístico-exicibionista é retratado pelo jovem que filma todas as cenas.

Voltando para o filme, outra coisa que vemos é um dos violadores ser um bom pai, bom esposo e representante da lei. Extrapolando as comparações, o pior género de hipócrita que existe, os doentios representantes da moral e da censura, disfarçados de religiões, de governos e de outras formas de opressão, mas que longe de olhares são os verdadeiros símbolos da perversão. Ficando só no filme, quebra-se o estereótipo de que só os jovens solteiros e punheteiros, ou maridos bêbados e violentos constituem perigos sexuais.

Enfim, para não me esticar mais, o filme não é grande coisa, aliás, é um nada, continuo a preferir original, mas pelo menos o tema continua actual, e o seu componente voyeurístico dá-lhe uns pontos positivos.