21 de julho de 2010

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. VII


ONDE ESTÁ A FELICIDADE?

Um homem feliz é aquele que no final do dia, ao questionar, igual aos pitagóricos: o que fiz certo?, o que fiz de errado?, encosta a cabeça ao travesseiro consciente de um saldo positivo. 


Há o homem feliz, mas a Felicidade, deixando de lado o cepticismo, não existe. (Bem, isto parece uma convicção céptica.) Ela é como Nirvana, nem Dalai Lama a alcançou, considerando o seu pendente com a China.

No entanto vou chamar de felicidade – grafada à minúscula – àquele estado de espírito temporário que nos deixa feliz: a alegria, o jubilo, o contentamento. A felicidade, relativa no entanto, não é definível; se Hitler ao final do dia dormiu a pensar que assou judeus suficientes e não tem nada, mas mesmo nada, a abalar-lhe o juízo, causando remorsos ou sentimento de assuntos inacabados, então Hitler é, nesse dia, feliz. Nesse dia, porque no dia seguinte, igual a todo o mundo, pode não o ser.

A felicidade é a soma do passado a dividir pela acção do presente e não existe no futuro; o futuro é um lugar virtual povoado de sonhos, pois nem sequer existe, é o constante há-de vir, para não dizer advir. Quando o futuro chega é presente, como dizia o meu irmão aos sete anos: amanhã é hoje; e mesmo o passado é um fantasma cuja existência foi momentânea e fugaz, quando passou, passou, ninguém pode mais fazer nada acerca dele.

A felicidade exige uma luta constante, uma batalha incessante e diária. Se o homem vivesse isolado, tornar-se-ia mais fácil usar os valores do passado como uma constante para equacionar a felicidade, mas simplesmente porque isso não acontece, e por haver sempre interferências de toda a casta, não existe a constante do passado, mas uma variável que obedece a uma fórmula aleatória e imprevisível até mesmo para a matemática do caos. Acaba por ser uma sombra do gato de Schrodering (ou sei-lá-como-se-escreve). [Na verdade, é Schrodringer.]

Como ser constantemente feliz se pequenas lembranças conseguem escurecer a fraca luz projectada pela concepção da felicidade no nosso senso? Quem nunca lamentou a sorte? Até mesmo Jesus Cristo chorou no horto. O passado pesa muito sobre o presente, e é por essa razão que só podemos ser temporariamente felizes. 


Se neste momento, sem estarmos preparados para a Felicidade, amarrados às lembranças, às querelas, aos ódios e pequenas vinganças (ou grandes), ela chegar a nós, morríamos de comoção; e aqueles mais puros morriam de êxtase.

Para preparar-se para a Felicidade é preciso saber ver o mundo, apoiar o mundo, viver o mundo e viver no mundo. Pois que enquanto, sem nos resignarmos, não aceitarmos que vivemos no melhor dos mundos (não aquele criticada por Voltaire), não podemos tê-la. E a dificuldade maior é viver o mundo e viver nele.

O melhor do mundo aqui pretende ser o único mundo de que dispomos, não o mundo que criamos nas nossas fantasias, não o mundo que se espera depois da morte, não o mundo alicerçados nas esperanças da ciência, mas este aqui de que descuidamos porque acreditamos que há outro melhor que virá por milagre. Religiosos fervorosos só pensam no mundo pós-vida, convencidos de que são rectos para serem merecedores dele, não ligam nenhuma a este nosso aqui, não cuida dele, porque, na sua concepção, céu e terra passarão, só a Palavra não passará, ou seja, este tem os dias contado, e o Fim está próximo. Cientistas ferrenhos julgam que podem descobrir as fórmulas para sintetizar o Paraíso, descobrir a Pedra Filosofal, e replicar o milagre da multiplicação do pão (ou do valor da conta bancária, eu sei lá), de tal maneira que não vivem o mundo, e nem querem nele viver, porque é pestilento, razão porque deve ser melhorado. E nós, perdidos entre a ciência e a religião, não tomamos iniciativas e ficamos a à espera que os nossos padres decidam por nós o Caminho a Seguir (título do meu livro de escuteiro). Acho que ninguém deve ter lido o conto Deus e o Rabino.

Continuando. Aqui, neste mundo, onde se encontra a Felicidade? Na caixa-forte do banco? Na apatia? No bom humor? Na esperança? No amor? Em todos eles? Em nenhum deles? Ou depende da percepção de cada um?

Há pessoas que são felizes na miséria, enquanto há aquelas que acham a miséria a fonte da infelicidade. Mas isso dá-se porque é possível ser-se feliz, mas longe da felicidade. E agora que outro elemento entrou na equação, resta clarificar: A Felicidade não existe, mas a Infelicidade, isso sim, existe. Não tem de haver dualismo em tudo, como ou o Bem ou o Mal. A Infelicidade, embora a liguemos ao Mal, e cause mal, não é necessariamente o Mal, tal como a Felicidade não tem nada a ver com o Bem ou com o Mal, porque se tivesse Hitler não poderia ser considerado momentaneamente feliz.

Será que podemos chamar de feliz a um louco acostumado à camisa-de-forças? Será que tem mais felicidade trabalhar todos os dias, e não poder abandonar-se à preguiça, só porque se deve sustentar a si próprio e à família? Se este homem, ou mulher, que se mata para sustentar a família pode ser considerado feliz, por que não o louco? Aliás, o Homem da Máscara de Ferro do grande Dumas não acabou por se acostumar à máscara?

Uma vez, Prometeu, depois de liberto por Héracles, insone, chorava, com dores de cabeça a clamar pelo pássaro que lhe comia o fígado. Bem, é possível duvidar desta cena, ninguém se acostuma à dor ao ponto de clamar por ela, a não ser, é claro, que seja masoquista; e sendo assim a cena já se torna credível.

A Felicidade (não a real, mas a sua sombra) consiste no engano, toda ela e em toda a sa extensão; ela é como a chuva: cai de pé e anda alagando-se pelo chão. É uma das mais fortes questões antitéticas que existe na nossa vida.
Como podemos comparar a nossa felicidade com a dos homens da pré-história? Ignotto nulla cupido, disse Ovídio (ou pelo menos disseram que disse).

Será que somos mais felizes do que os antropófagos da Nova Zelândia? Como perguntaria Pittigrilli. Será que por termos Internet, computadores, vídeos, música orquestrada, televisão, microondas e etc., somos mais felizes que eles? Podemos ter tudo isso, mas falta-nos pernas de missionários para com elas nos deliciarmos ao jantar. E se a falta dessas pernas não nos torna infeliz, aliás, o mínimo que nos fazia era náuseas, duvido seriamente que eles precisem de microondas para aquecer o missionário só para depois se sentirem feliz.

A felicidade é incerta. Não há um mapa para a obter, não importa quantos manuais se produzem com a promessa de oferecê-la, nem mesmo a Bíblia tem a fórmula para a felicidade, apesar da sua pretensão. Pela Bíblia podemos ver que até a desgraça pode ser a felicidade, isto é, dos outros. A desgraça dos filisteus era a felicidade dos judeus, dos cananeus idem. Não admira que a desgraça dos judeus fizesse a felicidade de Hitler. Nem a Bíblia, repito, nem manual algum ensina a ser feliz; nem Buda, nem Aristóteles, nem Jesus. A felicidade só nós a podemos ter e por nós mesmos, suponho.

Há quem jure de pernas juntas que ela se encontra num amor retribuído e fiel, enquanto outro se sente enjoado pela fidelidade. O homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que a não ame, Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray.

A felicidade, no entanto, quando muito, chateia; quando pouco, não chega; quando nada, precisa-se. Ou seja, ela não é por ser. Por outras palavras, a felicidade ou a Felicidade é nada, só pode ser algo ou ter o valor que lhe atribuímos se nós o fizermos. O problema do mundo não está na sua ausência, mas em nós mesmos.

Então, o que podemos fazer para curar o mundo?

1 de julho de 2010

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP VI


MAQUIÁVEL OU GHANDI

O que procuramos todos, humanos, aqui, enquanto vivos? E o que querem depois de mortos, aqueles que acreditam no além? A mesma coisa: a felicidade. Por isso agimos como agimos para buscá-la, encontrá-la e segurá-la, de tal maneira que muitos vivem felizes no enganoso sofrimento acreditando mais na felicidade pós-vida, pensando que serão depois recompensados por terem neste plano sofrido. No entanto, o que é a felicidade?


Aristóteles já dizia, acerca da felicidade, o que acabei de repetir lá em cima, que ela é a finalidade universal dos homens. No entanto, embora todos queiram ser felizes, embora todos almejem a felicidade, ela não é para um da mesma maneira que para outro. 

A felicidade aristotélica seria a perfeição, a ausência de necessidades, o que o Buda chamaria de Nirvana, mas essa felicidade é apenas um ideal que, ao que parece, ninguém quer se cansar a procurar, pois está muito distante e, aparentemente, destruiria a individualidade, reduzindo a humanidade ao mesmo conceito. Por isso acho que o Paraíso vai ser uma chatice. No entanto, não procuramos a felicidade aristotélica não por medo da perda da identidade, mas por que somos preguiçosos e lentos, acreditamos mais nas frases feitas, cartilhas e catequeses do que nos laivos da razão que por vezes nos perpassa o cérebro. Kant declara que a maioria considera perigoso pensar por si mesmo e prefere confiar nos tutores (ou algo como isso), e eu acredito nele.


O homem não é apenas homem porque não vive isolado, o homem é o homem mais outros homens, copiando a frase de uma pessoa inteligente cujo nome não me lembro (Basset, Cacete ou Urtigas, alguém há-de saber) que reza: eu sou eu mais as minhas circunstâncias.
Daí que na equação humana não se pode singularizar a paixão ou a razão, pois cada acto na busca do eu ou da nossa vontade, mesmo aquela vontade que não é nossa mas nos é imposta, envolve circunstâncias e elementos vários. Reacções em cadeia constantes, infinitas, repercussoras e ininterruptas. Daí à questão: os fins realmente justificam os meios, só um passo.

Tudo o que sei de Maquiavel aprendi-o de um livro de sociologia, que por acaso não era muito explícito, de maneira que resumo a sua teoria, se calhar igual a maior parte do mundo, à frase já citada: os fins justificam os meios. 

Individualista e confiante no espírito da liderança, parece a contradição de Kant, enquanto aquele apela a libertação do pensamento, este convida a seguir o líder, ou convida o líder a impor-se. [Ainda hoje não sei bem qual é o princípio de Maquiavel, podia estar enganado na altura em que fiz o texto, se alguém souber da verdadeira essência da filosofia dele e quiser ensinar-me, estou agradecido]. Ao contrário de Ghandi. Ou melhor, aparentemente ao contrário. Ambos usam meios para atingir um fim; não estou certo, mas como antípodas, vou acreditar que os meios de Maquiavel não têm necessariamente que ser éticos nem morais, enquanto os do Ghandi apelam mais a moral. 

Moral? Ética? Qual é a diferença. A moral vem das regras não escritas, que as pessoas aprendem a viver na comunidade, ensinadas pela educação e assentes numa base religiosa. Enquanto que a ética nasce de regras sociais, para além da comunidade, puníveis por leis escritas, e diferentes entre si. Voltaire conta histórias interessante sobre essa diversidade de leis conforme a diversidade de locais e costumes, e se actualizarmos Voltaire, esses locais seriam agora sistemas académicos ou profissionais onde as diferentes éticas são aplicadas: ética dos médicos, bioética, ética dos psicólogos e até, contraditório, ética religiosa. Isto é outra coisa para falar depois.


[Hoje sei que estava bem errado nessa definição da moral e da ética, ao que parece apenas usei o conceito popular das duas ideias. A moral, afinal, é que é punível por leis, escritas ou do senso comum; a ética, no entanto, é a tendência natural ou a capacidade para praticarmos o bem, a ética seria, afinal, o caminho ideal para atingira felicidade descrita por Aristóteles. Na altura em que fiz este texto ainda não tinha lido Ética a Nicómaco, o que só fiz  recentemente. E só comecei a perceber a ética filosófica que, por acaso, não é atribuível às profissões como usualmente se faz (ética de médicos, ética de chulos, etc.) essas são, como disse a minha professora de Ética, deontologias moralizadas. Mas não quero subverter o meu texto, porque seria trapacear, visto que não tinha os conhecimentos que hoje julgo ter quando o fiz, e que já larguei muitas das opiniões que defendia. Por isso peço que pensem na ética que escrevi como a ética usada comummente de forma errada.]


Voltando a Maquiavel e Ghandi. Maquiavel é do tipo, o fim para não me bateres na outra face é partir-te o braço, e Gandhi (segue o exemplo de Cristo): para não me bateres na outra face dou-te ela mesma para bateres. Ghandi acredita na humanidade, ou se calhar, no bom do lado humano, acredita que um bom exemplo refreia os ânimos violentos. Pascal disse que aquele que oferece perdão é visto com alguém com grandeza de espírito por pessoas virtuosas, mas, por essa mesma razão, acirra mais o ódio da pessoa viciosa, ou sem virtudes. De tal maneira que não acredito que o sucesso de Ghandi tenha sido por oferecer a outra face, e nem acredito que ele seja mesmo diferente de Maquiavel, contanto que uma vez confessou que ajudava uma certa figura importante da política inglesa na Índia a abotoar a camisa, porque ele era-lhe útil para conhecer como funciona o congresso.

No entanto, apesar de tudo, é necessário diferenciar os planos maquiavélicos, dos planos gandhísticos. E considerando o mundo do indivíduo sobre a sociedade em que vivemos, quem devemos seguir, Ghandi ou Maquiavel?


Ambos acreditam que eu sou eu e os outros, só que agem de maneira diferente sob essa premissa. Mas quem não mata uma cobra que lhe entre no quintal (sem ser hindu)?


O que se deve fazer para encontrar a felicidade, sabendo que sem a consciência tranquila ela, ou essa fragrância que emana e que nos atinge fazendo-nos pensar que a encontrámos, é ainda mais ilusória?