27 de agosto de 2011

POBRE TERRA, CRUÉIS HUMANOS

A pobre Terra está emprenhada
De cruéis humanos que não prestam,
Que apenas a põem estagnada
Em tramóia e males que a infestam.

A pobre Terra está padecendo
Cruelmente por nós destruída,
Pela guerra feroz que está vivendo
Na nossa vontade carcomida,
Que criando na vida planaltos,
Procura obrar nossos sonhos altos.

Da cruel guerra pelo sucesso,
Temos a guerra pelo descanso,
Uma guerra intensa no balanço
Duma vida compacta de excesso.

Temos guerra sem senso, nem nexo,
Que é a destruidora universal,
Feita com o consenso complexo
De todo o indivíduo racional,
E embora temamos seu amplexo
Damos-lhe o discurso principal.

A pobre Terra está derruindo
Empurrada plos que nela vivem,
Que ferozmente vão destruindo
Os dos melhores que nela existem:

Os patrimónios humanitários
Dos belos sonhos hereditários
De construir um novo p’raíso
Onde não haja mais sofrimentos,
Pra destruir o podre juízo
Que neste mundo cria tormentos.

A CAIXA DA PANDORA (soneto)

E Poderá este mundo ser mais belo?
Onde está o sol do nosso humanismo?
O homem olhado pelo realismo
Com a humanidade não tem elo.

Quentes relações criadas no gelo,
Alastrando-se em sombras de racismo,
Ocultas no manto de servilismo,
Quebram da caixa da Pandora o selo...

Desta moderna caixa da Pandora,
Que alberga mais males que a anterior
E que outros tantos transporta por fora,

Que raios de egoísmo ao mundo lança;
E desta vez o que é muito pior
É dentro já não trazer a esperança.

23 de agosto de 2011

SARA TAVARES - quando a voz mesmeriza


Querido Deus que estás no Céu, ou seja lá onde for que estejas, obrigado pela existência de Sara Tavares, isto é, se fores tu que fazes as pessoas e lhes atribuis capacidades. Querido Deus, por deus!, eu adoro a Sara Tavares.

Há uma semana que estou a ouvir a Sara Tavares e há uma semana que não consigo deixar de ouvi-la, o que contrasta fortemente com o facto de há uns cinco anos ao ouvi-la ter-me enfastiado depois de algumas músicas, aliás, das que tinha ouvido só me lembro de ter gostado de três, que, por acaso eram as mais publicitadas: Balancé, Mi Ma Bô e Nha Cretcheu, e talvez de mais uma ou outra. Agora eu sei que não estava preparado para Sara Tavares.

A primeira vez que ouvi falar de Sara Tavares foi praí em 1996, numa música de Black Company (que vai ganhar aqui o seu post), Snookar, fizeram uma referência a ela, e eu quis saber quem era, mas não conhecia a Internet nessa altura, e só dois anos mais tarde eu fuçaria nela pela primeira vez. O tempo passou e a Sara com ele, para em 2006 voltar de novo, quando vi na televisão o vídeo Balancê.


balancê (balancê)

Segundo a wikipedia foram cinco os álbuns de Sara Tavares, porém eu só ouvi quatro: Sara Tavares e Shout! (1996), Mi Ma Bô (1999), Balancê (2005) e Xinti (2009), e são deles que vou aqui falar.

SARA TAVARES E SHOUT!, como o nome indica é um trabalho de equipa feito pelos dois que deram o nome ao álbum. É um óptimo álbum de estreia, no entanto, não é muito empolgante, não sei por quê, talvez por causa da sua versatilidade, ou seja um grande leque de procura, que mostra todo o talento vocal de Sara Tavares, mas ao mesmo tempo é bastante disperso, passando a imagem de insegurança e de que ela ainda não tinha a certeza da sua veia, ou então que estava a tentar agradar aos troianos, mas não sabia quais. Ela anda aqui pelo soul, gospell, muito gospell, jazz, funk, fazendo covers que orgulham supermaneira os originais. É um álbum muito americano. Entretanto, vénia à retaguarda para os covers, destaco o tema de abertura, Escolhas, e os dois últimos, Barquinho de Esperança e Feira de Ladra, estes dois que apresentam uma pitada de música portuguesa, fado ou algo parecido, algum toque a morna cabo-verdiana, e, na falta de um termo, um ar de modernidade, e onde destaco o instrumento de percursão.

MI MA BÔ (dependendo do contexto pode significar sou mais do que tu, e durante muito tempo pensei que era isso que ela dizia, mi ma bô, bô ma mi – eu sou mais que tu, tu és mais que eu, mas na verdade é: eu mais tu, tu mais eu), é um trabalho espectacular, aqueles tiques que no álbum anterior Sara Tavares já tinha mostrado no álbum anterior aqui confirmam-se. Com uma maior segurança ela navega pelas sonoridades diversas, não parecendo procurar às cegas ou tentar apenas mostrar a sua incrível voz, mas parecia fazer o que gosta e quer mesmo com uma maior confiança, parece menos um álbum da editora do que o anterior. Aqui ela experimenta mais, usa uma base cabo-verdiana, com as mornas, coladeras, à qual funde outros ritmos, fado, soul, slow, e outros ritmos africanos. Apesar da tanta diversidade como no álbum anterior, este aqui é mais consistente, porque apresenta uma maior estabilidade e ligação entre os diferentes ritmos das faixas. Aqui só encontro uma música que digo não gostar e é logo aquela que abre o álbum, I’ve Got a Song in My Heart, por me parecer um tanto vulgar para o talento de Sara Tavares e não porque não seja boa. Entretanto destaco Mi Ma Bô, Nha Cretcheu, Eu Sei e, estrela das estrelas, Voá Borboleta (esta chamou-me lágrimas aos olhos, não me perguntem por quê). Mi Ma Bo é definitivamente um álbum flawless.


mi ma bô (mi ma bô)

BALANCÊ, considerando os trabalhos anteriores de Sara Tavares (a diferença rítmica entre o primeiro e o segundo), diz que ela se encontrou, ou, pelo menos, encontrou o seu estilo. Onde Mi Ma Bo parecia ser experimentação, Balancê faz parecer ser definitivação. A base africana, propriamente cabo-verdiana, existente aqui permite uma leitura única e contínua do álbum, considerando que aparece em todas as faixas; é certo que há variações estilísticas, no entanto, é mais coeso. O álbum abre estupendamente com a música homónima Balancé, faz um percurso dividido entre a calma e a agitação, destacando-se One Love, Amor É, Planeta Sukri, fechando com maestria com De Nua, um fusão de fado e batuque. Balancê é um álbum sólido, mas inferior a Mi Ma Bô.

one love (balancê)

XINTI, ou sentir em português (sei lá por que estou a traduzir os títulos) e calmo e embalante, tem uma alma diferente dos outros álbuns apesar da mesma impressão digital. Xinti é uma versão mais calma de Balancê, aliás, um contraste; se Balancê convida a balançar, Xinti convida a escutar. As bases são as mesmas e as músicas podiam misturar-se à vontade que não se perceberia a diferença. Por causa dos instrumentos que Sara Tavares usa e dos acordes similares, algumas músicas de Xinti cheiram a Balancê, o que inevitavelmente leva à comparação dos dois álbuns, no entanto a tónica diferente dois é que faz a cisão. Em Xinti destaco Sumanai, Ponto de Luz, Di Alma e Queda Livre, e uma menção honrosa para Caminhante (embora este não seja propriamente uma música, mas poesia). Xinti é para mim o segundo melhor álbum de Sara Tavares.

ponto de luz (xinti)

Sara Tavares tem uma bela poesia, uma voz de diamante (superior a ouro, é claro) e uma musicalidade própria, não que ela inventou esse género de fusão musical entre a africana e a ocidental, ou mais especificamente entre os ritmos tradicionais e o soul ou outro (da Guiné-Bissau, Zé Manel - vou falar dele aqui - faz o mesmo), mas ela criou o seu próprio estilo. Sara Tavares é uma música e uma poetisa que gostaria muito de saber voar e está sempre com os olhos nos caminhos e atenta aos seus passos, quer dizer, pela quantidade das vezes que repete isso nas suas músicas é o que deixa a entender.

Sara Tavares é uma artista que merece e deve ser conhecido, na minha plêiade de músicos ela já entrou e com pompa e circunstância.


bónus
voá borboleta (mi ma bô)


21 de agosto de 2011

DONA DO MEU AMOR


– O que o traz por aqui
A esta hora, meu senhor?
«Das pombas por aí
Vim ver o resplendor.»

– Por aqui nunca passam
Tais pombas, meu senhor,
Pois os homens as caçam
Co’ esp’rito matador.
Pombas cá nunca vi,
diga, o que o traz aqui?

«Sobre a terra o seu fulgor
vim pras ’strelas que vazam.»
– Inda as ’strelas se atrasam,
Brilha o sol com calor.

Nunca algo igual eu vi,
Diga, o que o traz aqui?
«Pla flor aqui eu vim
Que enrica este jardim,
E pla ave que há em mim
Pondo o alegre em ruim.»

– Rosas não vi, senhor,
nem ave tão cantor,
nem jardim tão s’dutor,
Diga o certo, senhor.

«Pois, só vê cá balelas,
Mas não menti, senhora;
As pombas e as estrelas,
Vejo-as mesmo agora,
A ave, o jardim e a flor
Você é, dona do me’ amor.» 


20 de agosto de 2011

ILUDIDOS (soneto)

'Stão a arrancar-se das árvores os galhos,
Já lá estavam quase a ficar velhos,
Como que trocando entre si conselhos,
Saíram da inércia dos espantalhos,

Quiseram fazer a si próprios alhos,
Juraram procurar novos bodelhos,
Para de si poderem ser espelhos,
E ter sabedoria sem trabalhos.

Mas, por todos seus percorridos trilhos,
Só viram dificultosos escolhos
Que não puderam transpor sem sarilhos.

Tardiamente abriram-se-lhes os olhos,
Pra ver que os filhos entram em entulhos,
Quando enganam 
a mãe criando empulhos.

14 de agosto de 2011

GUERRA (sextos)

 Combate de Marte e Minerva
 por Jacques-Louis David 
Guerra, fera de manha cruel,
Alimentando-se de balbúrdia
Vives contente num mar de fel,
Ofertando ao homem a discórdia.

Guerra, histeria secular,
Os sonhos humanos tu desfazes,
Cruel os apeias do seu lar,
Deixando-lhes assim incapazes
De parar a tua maldita onda
Que os seus idílios sem pena monda.

Guerra, ó trovador sepulcral,
Morrem inocentes escacadas
Pla raiva das balas alheadas,
Caindo para um fundo abismal.

Guerra, da vida o cruel contraste,
O mundo tu tens carbonizado,
Cravaste-nos na alma do ódio a haste
E o sonho deixas martirizado;
Té o belo amor tu envenenaste,
O viver deixando atemorizado.

Guerra, abominável canibal,
Que rega o chão com sangue e pavor,
Fazes o homem virar animal,
Negando assim as graças do amor.

Guerra, ó selvagem assassina,
Que com o dissídio nos domina,
Destróis sonhos feitos com calor,
Cada vez que a vida faz progresso,
Embebendo-a em lágrimas de dor,
Tu obriga-la a vir de regresso.
 

13 de agosto de 2011

A VIOLÊNCIA, A SOLUÇÃO (soneto)

Ensinaram-me de leite na boca, 
Que a violência só resolve nada, 
Pois ela é igual à afiada espada 
Que desune os vínculos que toca. 


Mas vejo que a paz que o mundo invoca, 
Sequer um degrau dessa longa escada, 
Ou desta vida um degrau da estrada, 
Ela, no seu caminhar, se desloca. 


Diziam que por ela, a violência, 
A paz edificada se dissolve 
Apenas em ruínas de decadência; 


Mas o problema melhor se resolve, 
Diz-se hoje, quando a violência fala 
E a clara evidência, apenas, cala.

7 de agosto de 2011

E SONHEI UM PESADELO

Eu tive um sonho quadrado
Quadrado imperfeito
De arestas marcado
Com amplo defeito
Mas de sorriso encastoado

Tive um sonho tão giro
Simples e redondo
Com que a fuga eu firo
É onde me esconde
Quando o real não prefiro

Parecia um sonho raso
Sempre fugindo covarde
Mas tentado obter o vaso
Antes que fosse tarde
E me enterrasse em atraso

Disseram era um sonho obtuso
Sob um ângulo marcante
De um pensamento confuso
Que num lance traficante
Me confundia o fuso

Julgo que era um sonho recto
E por ele me explorei
Pra não tê-lo em veto
À persistência implorei
E adorei-o com afecto

Mas era um sonho agudo
Tão grande e tão alto
Gritante mas mudo
Num rasado planalto
Onde o ânimo eu grudo.

E tornou-se um sonho nulo
Não por mim, não por outros
Mas pelo próprio pulo
Em seus desencontros
Num real que não engulo


6 de agosto de 2011

A FORÇA DA FÉ (soneto)


Muitas pessoas se acotovelam 
Porque Jesus desce da montanha,  
O leproso no meio se emaranha 
Para ver esse Jesus por quem velam.  

Mas ao leproso as pessoas não deixam   
Realizar a planeada façanha:   
Achegar-se a Jesus que não se estranha    
Com nada que os homens dele desejam.  

Mas, aumentando o furor da insistência,   
Lá, o leproso, a amálgama passa:   
– Senhor, creio na sua indulgência,  

Se quiser, pode fazer-me sarado. 
«Quero», diz Jesus. E nem lhe abraça,  
O leproso, pela fé, fica curado.






Naquela época, já lá vai tempo, quando escrevi isto, ainda acreditava em Deus e em toda a sua prole cristã, no entanto, apesar de hoje me sentir ateu, ainda acredito na força da fé.

5 de agosto de 2011

ATÉ QUANDO - cronices crónicas


Até quando vamos continuar a dar nessa de vítima, a gritar que não nos querem deixar soltar as asas rumo ao nosso sonho? 

Até quando vamos continuar a culpar outras pessoas pela nossa falta de iniciativa? 

Até quando vamos continuar a ser sugados para o fundo dessa mania de resignação, não lutando para não ofender o destino?

Já agora... por que não esta anedota? O francês, o senegalês e o guineense vão falar com Deus. Chega o francês e pergunta: Mon Dieu, quando é que a França vai alcançar os EUA? Deus responde: Daqui a 100 anos. O francês começa a chorar copiosamente, dizendo que não vai assistir a esse acontecimento. Depois de tanto chorar, consola-se achando que os seus netos estarão presentes. Vai o senegalês e pergunta ao mon Dieu quando é que o Senegal irá alcançar a França. Deus diz-lhe: Daqui a 200 anos. O senegalês cai em pranto. Também consola-se dizendo que os netos dos seus bisnetos irão assistir a isso. Chega então o guineense e pergunta, em termos de imitação aos seus precedentes (atenção, quero mãos no peito, pois o momento é solene): Mon Dieu, quando é que a Guiné-Bissau irá alcançar o Senegal? Então, neste tão dramático momento, Deus começa a chorar desalmadamente e sem hipóteses de consolação, limpa as lágrimas e diz: Não te sei dizer, meu filho, porque não vou assistir.

Isto é para rir, mas também podia servir para chorar. Os mais patrióticos revoltam-se, alguns, inclusive, choram, gritando: Não, não dá mais, a Guiné não pode continuar assim. Depois, limpam os olhos, tomam um refresco (não vá depois ficar mal a garganta) e vão-se embora, dizendo: Anta ami k’bin pa bin kumpu Bissau?

Sim, senhor, está bem bonito! Ninguém veio “compor” Bissau, todos vieram apenas para resolver os problemas pessoais, entretanto, ninguém está a prejudicar Bissau, só os outros é que o estão a fazer.

  
Quando um funcionário se apropria do material que pertence ao local onde trabalha, não sente que rouba, não sente que está a tomar o que não é dele, porque, e simplesmente porque, sapu ta kume si labur. Em boa verdade, eu nunca soube que o sapo era lavrador. E acho que é por isso que temo-los tanto a infestar a nossa cultura, mascarando-se de príncipes desencantados. Outros funcionários até são mais simpáticos com os materiais do escritório que vão pedi-los ao director: DG, posso levar aquela .... que já não funciona? Isso talvez nos ajude a perceber por que razão se faz muitas requisições nos ministérios e serviços de trabalho e nada funciona. Não tenho a competência para dizer que aquela .... que não funciona que se pede ao DG é a que funciona melhor, mas posso fazer essa sugestão.

E falando em DG, tornou-se um hábito as pessoas perderem o nome de baptismo conforme o cargo que estão a ocupar. O Marcos já não é Marcos, deve ser chamado DG, o Carlos gosta mais de Presi, o ministro quer doutor com todas as letras... E o povo, quer o quê? O povo não sabe o que quer, pois também não está para “compor” Bissau, porque já escolheu quem deve fazê-lo.

Tornou-se extremamente confortável ninguém se responsabilizar pelo que deve fazer, passando sempre as culpas para outras pessoas. Não consigo andar porque não me deixam. Não vou tentar ganhar a confiança de ninguém, porque ninguém confia em mim. Quero lá saber do que os outros dizem, porque isso não me impede de ser o que sou. Citações como estas são infindáveis, o que leva a questionar: se ninguém se quer mexer, como é que se poderá empurrar a Guiné?

Será que alguma vez alguém parou para pensar (pois eu ando a pensar) que para resolver o problema da Guiné é preciso largar esta mentalidade passiva e retrógrada de dizer: i ka ami k’ na kumpu Bissau?

Imaginemos um cenário ao contrário, onde todos achassem que deviam ser eles a “compor” Bissau. Um cenário onde o lavrador quer dar a sua ajuda e vai para o campo lavrar, em vez de vir vender fuka-n’djai e pastas de dentes nos passeios dos mercados. Um cenário onde se compra de facto os tractores referidos no orçamento do Estado para ajudar o camponês. Um cenário onde o único desvio de procedimento seja começar mesmo a “compor” Bissau, em vez de sugá-lo até ao tutano, como se está a fazer. Parece utópico, mas pode acontecer.

Ainda hoje ouvi alguém a dizer: Antes não havia lixo na Guiné, esses nánias é que no-lo trouxeram. É esse um dos nossos problemas. Nunca fazemos nada, como já disse antes, só outros é que fazem. Não fazemos nada de bom, porque não sabemos ou não queremos ou não somos nós que viemos “compor” Bissau; e não fazemos nada de mau, porque só outros é que o fazem. Afinal estamos aqui só para enfeitar os relatórios do recenseamento populacional ou para sermos realmente chamados de guineenses, patrióticos ou não, mas verdadeiramente guineenses?

Alguns acham que o único trabalho para desenvolver um país se dá apenas lá no topo da montanha, onde estão os djintons, mas se esses alguns começassem a tratar do sopé, talvez aqueles que sobem não o fariam com os sapatos sujos, porque, no final de tudo, a porcaria cai sempre para baixo.

Até quando se vai ficar a perguntar por que é que não avançamos, se ainda hoje as pessoas estão amarradas fortemente às tradições, não querendo moldar a mente de forma nenhuma, adaptando-se às mudanças? Pessoas são mortas porque são acusadas de feitiçaria; pessoas não são julgadas porque é a serpente que engoliu o dinheiro (se fosse eu, de certeza que já mo tinham feito vomitar); pessoas não são responsabilizadas porque teme-se que vão mandjir para se vingar. Afinal até onde iremos (se é que estamos a ir e não a voltar)?

Ninguém tem culpa de sermos o que somos; ninguém tem culpa de sermos pobres e tolos, amontons no geral. Somo-lo porque queremos e simplesmente por isso.

Não esperem que eu vá apresentar a solução para a Guiné (contenham-se), mas faço algumas sugestões: Se os ministros realmente trabalhassem em vez de fazer discursos, cortar fitas, dar emprego aos parentes (cunhados e amigos das amantes) e efectivá-los em detrimento dos que trabalham há anos no mesmo posto, ainda com estatuto de temporários (e realmente merecem-no, pois até o nome do tempo tomaram); se se parasse com essa de inventar institutos que não têm nenhuma utilidade, senão a de pagar promessas pré-eleitorais feitas a determinadas pessoas; se se deixasse de disponibilizar salários para funcionários fantasmas (em todas as acepções da palavra); se as viagens de negócios estatuais (ou sei lá como é que se diz) rareassem a favor do pagamento dos salários; se os congressos parlamentares começassem a ter sentido e se discutisse neles com a finalidade de chegar a uma saída e não apenas para encher os bolsos dos deputados com perdiem; se se lembrassem dos professores e estes se lembrassem que a escola serve para educar e não apenas para instruir ou tentar levar as alunas para a cama; se se lembrassem dos médicos e estes se lembrassem que paracetamol não faz milagres e deixassem de receitá-lo para provocar aborto nas adolescentes e jovens que não se lembram que ainda têm um amanhã a defender e portanto devem evitar comportamentos comprometedores ou destruidores do futuro; se se lembrassem de pôr mais caixotes de lixo na estrada e de disponibilizar fundos para a sua recolha, e o povo se lembrasse de não deitar lixo, como quem tem caiãbra na mão, fora desses poucos caixotes; se o povo começasse a trabalhar de verdade e não somente esperar; se se desse ao povo motivação necessária; não acham que a Guiné poderia mudar?

Eu não sei a solução dos problemas, mas recomendo a todos uma leitura das teses de Maslow, porque se não se trocar verdadeiramente de mentalidade, em vez de falar só dela e esquecê-la logo depois, continuaremos a sempre a perguntar até quando a vamos estar onde estamos.




Artigo publicado em 2005, no Jornal Kansaré.

1 de agosto de 2011

MARTE PRECISA DE MÃES, 2011 (Mars Needs Moms)


Ainda estou para saber por que raio gosto de filmes que todos massacram. Marte Precisa de Mães, uma animação da Disney, foi o último filme que vi e quando fui ao IMDB, tinha uma pontuação bastante rasca, nem sequer chegava a mediano. Hum, isso assusta, sabem, pois leva-nos a pôr em questão a nossa capacidade de apreciação, perguntar: por que raio só eu gosto disto? Mas não, mas não, não se trata de mim, acho que Marte Precisa de Mães tocou alguns pontos que para os americanos é uma blasfémia, o que resultou num ataque de críticos que se espalhou para o mundo todo, aliás, sabe-se que os críticos do lado de cá não fazem mais nada do que concordar com os americanos, se eles dizem lá que um filme é bom, estes aqui secundam, o que explica que filmes como A Ressaca tenham sido muito bem falados quando talvez só tenham piada para a cultura americana.

Marte Precisa de Mães é um filme que diverte, com bastante fluência e que se consome rapidamente, e vou revê-lo com os meus sobrinhos para tirar a prova dos nove. Porém, o que vou fazer aqui é tentar perceber por que razão o filme foi maltratado apesar do seu tema, o que fará com que tenha spoilers.

Eis a história: Milo, um rapazinho, num daqueles momentos frequentes de ira que todas as crianças têm, diz à sua mãe que estaria melhor sem ela, e os marcianos que precisavam de mãe, uma boa mãe que saiba educar, e que por acaso estavam de olho na mãe dele, resolveram raptá-la para ir educar as suas crianças. E Milo seguiu a mãe e entrou na nave, indo acabar em Marte, onde conhece Gribbles, um humano que há vinte e cinco anos atrás vira a sua mãe a ser raptado e que desde essa altura viveu nas catacumbas de Marte. A entrar na aventura aparece Ki, uma marciana sorridente (linda e com um sorriso cativante, deixem-me dizer, apesar da sua feição marciana) por quem Gribbles acaba se apaixonando. Como vilã temos a Supervisora, uma espécie de amazona que resolve criar uma sociedade livre de homens, porque os gajos são preguiçosos e infantis.

trailer


Eis a história e ao mesmo tempo os problemas do filme, vou elencar o que desgostou a crítica americana:
  1. A relação entre Gribbles e Ki, visto um ser humano e outro marciano. Se a relação entre um preto e um branco, na América ainda hoje não é considerado uma relação normal, precisando do apodo interracial para poder entrar na categoria de relação, imaginem como eles reagem à uma relação inter-especiés. Não importa que Ki manifeste emoção, não importa que seja tão inteligente ou mais inteligente que Gribbles, não importa que ela seja, permitam-me dizer, um ser superior, não, o que conta é que ela não é humana, portanto isso é bestialidade. Aliás, nem importa que Gribbles se sinta mais marciano do que terrestre por ter passado a vida toda em Marte e com os marcianos, não, ele não é marciano. Tal como os árabes não são americanos, tenham ou não nascidos ali, os pretos também não, os latinos, os chineses, etc, o que justifica os prefixos afro-americano, sino-americano, entre outros. Nesse sentido, aceitar o filme, e não classificá-lo mal, seria aceitar a ideia de uma relação inter-especial, o que para eles é de muito mau gosto.

  2. A ideia de que nós, os homens masculinos, somos realmente preguiçosos. No Marte há dois mundo o de cima, onde vivem as mulheres, e o de baixo, a lixeira, onde vivem os homens, enquanto o de cima é bem desenvolvido, as mulheres falam, escrever, são inteligentes, o de baixo, onde vão parar os homens é bastante primitivo, os homens nem falar sabem, a única coisa que fazem é esfregarem-se um no outro, revelando sentimentos homo-afectivos (por favor não confundir com homossexual). Parece que o filme quer dizer que os homens só são salvos de não serem gays pela existência da mulher, e os americanos não querem ver isso, não querem saber que em cada ser humano há um gay que nos leva a fazer amizades fortes e duradouras com pessoas do mesmo sexo, o que nos leva a querer a precensa do amigo tal como queremos da namorada, sendo a relação sexual o único diferencial.

  3. Esse mundo dividido de Marte, onde a vilã, a supervisora, é consequentemente feminina, é também um ataque aos feministas, pois para não o ser, se o mundo fosse governado por mulheres, tinha de ser justo e imparcial. Nesse sentido, os politicamente correctos americanos tinham de atacar o filme (embora, não me pareça que este ponto seja o que realmente os preocupa, mas sim a sua masculinidade arranhada) usando isso como desculpa.

  4. Outra desculpa talvez seja a questão mãe. Milos define a mãe como uma empregada que nos ama. E eles não gostam dessa definição, acham que o conceito mãe vai mais longe, e que essa é uma ideia errada para passar às crianças. Porém, na verdade, o que é mãe, senão aquela empregada, que ainda por cima é patroa, pois dá-nos ordens, porém que nos ama e por quem temos amor. Que mãe se importa de ser empregada do seu filho, desde que este lhe diga todos os dias que a ama ou lhe mostra todos os dias esse amor? O que irrita os americanos é terem de reconhecer que sim, que eles usam mesmo a mãe como empregada, por ela ser mãe, mulher, o segundo da hierarquia familiar.

  5. A referência ao comunismo, o planeta vermelho e tal, e o constante ataque americano  a ele pelos americanos, feito por Gribbles, porque é um golpe no orgulho capitalista. Ou seja, o filme é uma inversão polar de Marte Ataca, visto que estamos tanto a observar a eles, como eles a nós, e pelo que parece a objectivo deles é mais cândido.


Enfim, o filme mostra várias coisas, talvez até mesmo uma apoligia ao cannabis, mostrando como os hippies davam cores à vida, mostrando como Marte ficou mais animado depois, sob o lema: O poder da flores, todo esse conjunto, deixa de ser um ensaio, para ser uma ofensa para as crianças, portanto, para fazer do Marte Precisa de Mães um mau filme. No entanto, se 60% de adultos não conseguem fazer do filme esta leitura que eu fiz, imaginem se 90 % de crianças conseguiriam. Portanto, a desculpa para massacrar o filme é para salvar o ego e justificar as fobias de uma determinada classe americana e não porque o filme não diverte ou não ensina. Confesso que eu também fiquei preocupado com a relação inter-especial, mas será essa a razão para negar todo o valor do filme.

Em termos técnicos, a animação é muito boa, foi usada a técnica de captura, tendo actores reais interpretado os personagens, ou seja, não houve apenas uma interpretação de voz. E houve bastante realismo nas cenas, e mesmo na história, considerando que se tomou em conta a questão de gravidade, ou a impossibilidade de respirar fora da cápsula, e se puderam os marcianos a respirar como os humanos compreende-se que foi para dinamizar a história. Porém, isso não tem nada a ver com a técnica. O filme é visualmente aparatoso, algumas renderizações têm um aspecto plástico, mas no geral está bem definido e é magnificado pela utilização da luz e cor.

Marte Precisa de Mães, não se enganem pela crítica, vejam pelos próprios olhos, é um filme bem divertido, com, pelo menos, uma personagem carismática, e que arranca umas boas gargalhadas. Porém, também é um filme que diz: Oh, Disney, quando quiseres fazer uma animação, não te esqueças de levar a Pixar junto.