17 de novembro de 2012

TENTANDO ENTENDER... A GREVE

Não perguntes o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer por ela, JFK. 

Estamos habituados a ouvir esta frase, e por ser tão boa tornou-se religiosa na boca dos políticos. Mas não é senão uma frase de controlo, uma arma perfeita para calar os reaccionários, similar à: bem-aventurados os pobres de espírito (leia-se estúpidos ou pessoas que não questionam), porque deles é o reino dos céus. Não conheço nenhuma outra frase que apele ao patriotismo e à inacção do povo melhor que esta, talvez apenas aquela fábula de Esopo d’ As Mãos, o Estômago e o Corpo

Entretanto, eu digo não perguntes: o que posso fazer pela pátria?, nem: o que fiz pela pátria?, mas pergunta: o que fez ela por mim? 

Se comummente chamamos a pátria de mãe, então facilmente se aplicará esta comparação: uma boa mãe é aquela pessoa que nos protege, nos educa e orienta, ensinando-nos o certo e o errado, guiando-nos para aprendermos a fazer o próprio caminho, logo uma pátria-mãe que nos leve a fazer a questão que abriu este artigo devia ser uma boa mãe; no entanto, se não damos o direito de nos exigir nada a uma mãe que falhou redondamente na nossa educação e nunca quis saber de nós senão para os próprios benefícios, por que razão não devemos revogar esse direito a uma pátria-mãe que age da mesma forma? Principalmente quando a pátria-mãe, na verdade, é um pai ausentemente presente e chama-se governo.

Se o governo fosse justo e equilibrado, o governo desejado por Platão, formado por homens ilustrados e equânimes, sim, podíamos e devíamos nos perguntar: o que fizemos pela pátria?, mas quando a despeito de todos os nossos esforços e do enorme sacrifício e das cargas que nos põem sobre o lombo, o governo ainda nos empobrece mais e beneficia os seus (vejamos o caso fresco dos subsídios não retirados aos nomeados do governo), que atitude moral tem ele para nos pedir alguma coisa? 

Então, repito, não perguntemos o que fizemos pela pátria (entenda-se governo), mas o que fez por nós ela. Acredito que talvez só assim consigamos perceber a dimensão da GREVE GERAL de há dois dias, que a média tenta, com todos os esforços, demonificar, usando um processo de desacreditação através de comentaristas políticos e sociais, chamando aos grevistas de não-patrióticos, visto que só serviram para piorar a situação já frágil do estado português no panorama internacional. A pergunta que andam a fazer é: qual foi a utilidade da greve? (Utilidade, hein?!!! Qual foi a utilidade do 1º de Maio de 1886?) Foi prejudicar o país, fazendo-o perder muito dinheiro que será preciso para saldar a dívida contraída com a Troika, porque os grevistas, egoístas, não pensaram no país, mas apenas em si. Sim, palavras para provocar ressentimento, mas haverá melhor forma de pensar senão em nós mesmos quando põem em risco a nossa sobrevivência, não só psicológica como física?

Os comentaristas, que ganham bem só de aparecer na televisão (sendo isso a sua fonte de rendimento extra), podem andar a falar por lá, lavando a cabeça da metade da população, levando-a a uma mea culpa idiota e imprópria, jogando-a contra a outra metade que se mantém sã nas suas revindicações, mas nós, os desempregados, os trabalhadores de verdade, os não-políticos e não-governantes, nós, que somos a máquina do país, sabemos que se não fizermos mais greves, os do governo não ficarão com medo de ver o país parar e, portanto, de verem em risco as suas posições; e se isso não acontecer continuarão a não se preocupar connosco, e a descarregar sobre nós os problemas que eles mesmos criaram e ainda por cima a exigirem-nos sacrifícios.

O que fizeram os políticos pela pátria a mais do que nós para ganharem reformas vitalícias, salários soberbos, terem férias subsidiadas que a todos é cortado, ou para não baixarem os próprios salários ou cortar nos benefícios? Por que não fazem eles sacrifícios? Por que sempre que se fala da forma como usam o dinheiro a seu favor e os valores que usam parece-nos pornografia?

Porém, o povo é o pior inimigo de si mesmo, em vez de se manter unido em prol do que lhe beneficia, fragmenta-se em diversas frentes e dilui o essencial com superfluidades. Hoje anda o próprio povo a fala mal da greve de há dois dias e a chamar aos outros de não-patrióticos e sem bom-senso, simples ferramentas dos sindicalistas (que na verdade são também políticos, mas que nos beneficiam ao mesmo tempo que a si mesmos) que só contribuíram para empobrecer mais o país.

Andam os políticos a usar o vandalismo cometido durante a manifestação por umas quantas pessoas para pôr em questão a legitimidade da greve, porém isso é manobra de diversão. Mas, hey, também tem uma coisa: eu não gosto da polícia que protege os governantes, mas se não vamos atirar pedras aos últimos para quê atirá-las à primeira? A greve foi legítima, porque é a única arma que temos para desestabilizar os manda-chuvas e levar-lhes a dar-nos alguma atenção. 

Pode o Cavaco dizer que também foi trabalhar, pode o Passos fingir que fez o mesmo, podem os big bosses da média dizer que foi passada uma imagem negativa do país lá fora, nada boa para o contexto económico actual (errata: para o governo actual), podem dizer tudo o que quiserem, no entanto, o certo é perguntarmos: se eu fiz pela pátria, se trabalhei e descontei, se elegi os meus proxenetas (que não só a mim f…ixam como à própria pátria), se me são impostos sacrifícios por causa das asnices das pessoas que não se sacrificam, será que não devo perguntar: O QUE FEZ A PÁTRIA POR MIM? 

Claro que devo perguntar, principalmente quando está mais que claro que a pátria me viola de todas as maneiras possíveis e inimagináveis, e como farei isso? COM GREVES, CAMARADAS.