5 de março de 2016

AS LIÇÕES DE GUINEENSE (KRIOL) - INTRODUÇÃO


A primeira coisa a ter em conta quando se aprende uma língua através do seu código escrito é a ortografia. E para o que aqui pretendo, ensinar a falar kriol, ou guineense, a ortografia revela-se um problema, visto não haver ainda um sistema ortográfico guineense unificado e acordado. Praticamente todos escrevem kriol de forma diferente, uns utilizam para isso o sistema ortográfico português, outros, o sistema italiano.

Nos Boletins Culturais da Guiné-Bissau, muitas vezes os investigadores transcrevem a língua guineense e outras étnicas, utilizando o sistema português. Entretanto, os primeiros livros, que eu li, escritos em kriol foram traduções da bíblia e das missas, feitos por padres italianos para padres italianos, portanto é normal que tenham influenciado a escrita do guineense, como na proposta de 1987 (mais à frente). Eles utilizavam, por exemplo, a letra “c” para o som “tch” (igual ao inglês “ch”, do nome Chomsky) , assim nas palavras macu” ou “cabi, que alguns (a maioria, atrevo-me a dizer) escrevem matchu ou tchabi; ou a letra “j” para ser lido por “dj” (como se leria em Django), nas palavras bajuda” ou “canja”, para serem lidos “badjuda” ou “candja”. 

No entanto, Moema Parente Augel, observa que o primeiro livro (ficção, provavelmente) em kriol, ou pelo menos, bilingue, foi de Augusto Pereira, Lubu ku lebri ku mortu i utrus storya di Guiné-Bissau, em 1988, mas já em 1987 existia o Vokabulari Kriol Portuguîs, de Arturo Biasutti.

Para este meu manual ou tutorial ou guia ou lições (chamem como quiserem) de aprender guineense eu poderia usar o sistema utilizado por Teresa Montenegro, que é, ouso afirmar, a maior impulsionadora da escrita da língua kriol, ou o sistema utilizado por Luigi Scantamburlo que, conforme o próprio, se baseia na grafia adaptada pela Direcção Geral da Cultura em 1987, "Proposta de Uniformização da Escrita do Crioulo”, porém com algumas alterações devido à modernização do sistema fonológico guineense (e criando uma maior proximidade com o sistema ortográfico português, visto este ser a língua oficial da Guiné-Bissau e de certa forma, o pai do guineense), no entanto vou propor um outro sistema.

No meu curso de Licenciatura em Língua Portuguesa, tive uma cadeira chamada fonética e fonologia e o que aprendi nesse curso é que um alfabeto fonológico (permitam-me dizer), onde cada letra corresponde a um fonema, é o melhor e mais simples a utilizar, para evitar confusões como em português onde o fonema “s”, pode ser representado por, “s”, “c”, “ç”, “ss” e “x”, como em “sinto”, “cinto”, “caçula”, “assola” e “auxílio”, e a letra “s” pode se representar, “s”, “z” e “ch” como em “saca”, “casa” e “cais”. (Nunca prestei atenção nas aulas do Alfabeto Fonético Internacional, senão seria aqui de grande ajuda.)

Para evitar problemas deste tipo, vou adotar aqui um sistema mais fonológico, onde cada letra corresponde a um som apenas, no entanto, não será possível evitar combinações de letras para determinados fonemas. O sistema que proponho é diferente do de Scantamburlo (1999), mas baseado no dele, e por vezes regressivo ao sistema anterior de 1987, como no uso do “g”. Fica, no entanto, desde já o aviso que nenhum sistema escrito é perfeito, e embora eu queira evitar algumas dificuldades do sistema gráfico acima referido, tem outras que não conseguirei evitar. Por exemplo, vão sempre surgir palavras como “papa”, que tanto pode ser lido por “pappa”, como “papa” ou “papá”.

O mais sensato, eu sei, seria utilizar o sistema apresentado no livro de Scantamburlo, porém… como é apenas uma proposta de escrita ainda, não vejo problemas em apresentar uma outra proposta.

retirado do Dicionário Do Guineense Volume II, de Luigi Scantamburlo




Para o sistema ortográfico, vou usar aqui o alfabeto de 26 letras utilizado também em português, no entanto, algumas das letras serão usadas apenas para casos de estrangeirismos. Posto isto, vou apresentar o código da pronúncia.

Onde fundamentalmente o sistema que vou utilizar aqui difere do sistema de 1999 é no uso de “gu” precedendo “e” ou “i”, de “x”, “ch”, “lh” e “tc”.

Para o “gue” ou “gui”, por exemplo, proponho usar apenas “ge” ou “gi”, com a mesma pronúncia, por causa de palavras como “aguenta” que se lê “agüenta".

Para os sons “ch”, proponho sempre que sejam representados por “x”.

Para os sons “ks”, que ele representa por “x”, como em “fixa”, proponho “fiksa”. Com exceções no entanto para estrangeirismos e universais como “táxi”.

Para o “lh”, embora haja diferenças de pronúncia entre “ilha” e “ília”, a proximidade é tanta que ambos os sons podem ser representados apenas por “li”, assim “pilia” em vez de “pilha”.

Em vez de “tc” proponho o “tch”, por se se encontrar popularizado e por temos vários nomes próprios exclusivamente guineenses, com esse fonema, escritos por “tch”, como Tchico, Tcherno, Bitchofola.

CÓDIGO DA PRONÚNCIA


guineense
português
pronúncia
A
aza; ama
asa; ama
asa; ama
B
baka; baldu
vaca; balde
baca; baldo
C
nomes e estrangeirismos


D
dedu; dadu
dedo; dado
dedo; dado
E
erva; pe (le-se sempre como na palavras “erva”)
erva; pé
erva; pé
F
foli; faka
fole; faca
fole; faca
G
galu, gera (lê-se sempre como na palavras “galo”,  exceções para nomes como Guiné, Gino, entre outros).
galo; guerra
galo; guerra
H
nomes e estrangeirismos


I
iagu; intindi (o “i” no final da palavra não é tónico)
água; inteiro
iago; intinde
J
jelu; gaju
gelo; gajo
gelo; gajo
K
kuadru; saku
quadro; saco
quadro; saco
L
lestu; kabelu
lesto; cabelo
lesto; cabelo
M
marka; sumu
marca; sumo
marca; sumo
N
nada; tersu
nada; terço
nada; terço
O
ovu; po (lê-se sempre como na palavra “ovu”)
ovo; pau
ovo; pó
P
puti; premiu
pote; prémio
pote; prémio
Q
nomes e estrangeirismos


R
ratu, tera (não existem r dobrado em guineense, “um carro caro” é sempre “um karu karu). Pode ler-se com “R” que ninguém se rala.
rato; terra
rato; tera
S
sapatu, kabesas, pasensa (pronuncia-se sempre como no “sapato” e todos os sons “s” são sempre representados por “s”, com algumas excepções - ver nota 1)
sapato; cabeças; paciência
sapato; cabeças; paciência
T
tampu; sertu
tampo; certo
tampo; certo
U
kurpu; tampu (o “u” no final da palavra não é tónico”
corpo; tampo
corpo; tampo
V
vidru; nervu
vidro; nervo
vidro; nervo
W
nomes e estrangeirismos


X
xatu; caxa (todos os sons “ch” serão representados por “x” e “x” representa apenas sons “ch”)
chato; caixa
chato; cacha
Y
nomes e estrangeirismos


Z
zinku; vazu (todos os sons “z” são sempre e unicamente representados por “z”)
zinco; vaso
zinco; vaso
NH
prenhada; nhambi
grávida; inhame
grávida; inhame
DJ
djimpini; badjuda (como em "Django")
espreitar; rapariga
espreitar; rapariga
TCH
Tchumbu; tcheru (como em "tchau")
chumbo; cheiro
tchumbo; thcero
N’
Lun’a; n’aie (pronuncia-se com o “n” velar nasal, seguido do vogal, como “lunn-ha”, ouvir exemplo)
lua (forma arcaica); rapaz iniciado balanta 
lun-à; n’-aiê

NOTA 1: Nas palavras começadas por "s" e uma consoante ("sp", "st", "sk", entre outros), o "s" pode tomar o som do "ch", devido à diferença de pronúncia existente entre os falantes.  Exemplos: Sporting (aceita-se a pronúncia "sporting" ou "esporting"), stranhu (stranho ou estranho). No entanto, skerda (esquerda é a pronúncia mais habitual, poucos dizem "skerda"). Para evitar problemas de escrita, acredito que se possa aceitar dupla grafia, para palavras como estas, quando não são nomes (pelo menos, nestas minhas aulas, aceitam-se): ixkerda ou skerda, ixtranhu ou stranho, ixpertu ou spertu, ixkravu ou skravu, entre outros.



Tal como os dois sistemas referidos, 1987 e 1999, também se dispensa o uso de acentos, servindo, portanto, o contexto como melhor diferenciador. 

E como dito anteriormente, não há nenhum sistema que seja perfeito e que não mereça críticas. Todavia, acho que já tenho aqui uma base ortográfica para prosseguir com as lições de guineense.

E por quê em 42 lições?
Porque o sentido da vida é 42.


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