22 de novembro de 2015

CASAL GAY DEVE ADOTAR?

Esta pergunta pode ser capciosa, mas fi-la desta forma para ser diferente desta, casal gay pode adotar?, que já aqui tinha feito. 

Para responder à pergunta eu digo: nenhum casal deve adotar, gay ou não, a não ser que se sinta na condição de o poder fazer. E digo ainda mais: nenhum casal deve procriar a não ser que se sinta na condição de o poder fazer… e não me refiro à condição biológica, porque qualquer idiota consegue gerar um filho.

Ao discutir com a mesma pessoa que me levou à reflexão que manifestei no antigo anterior supracitado, descobri alguns argumentos contra a adoção para os casais gays, nada novos, no entanto, colocados com aquele hipócrita apelo à lógica e ao consenso. Ei-los:

1. A vida é feita de escolhas e cada escolha tem a sua consequência: a lei de causa e efeito. Os gays escolheram ser gays, portanto que façam a vida deles em paz, sem arrastarem para o seu mundo as crianças. Porque se um gay criar um filho é mais certo o miúdo ser gay, tal como os pais católicos criam filhos católicos, os muçulmanos, muçulmanos, e por aí além. Deve ser dada liberdade total aos gays para viverem, casarem com quem quiserem, mas adotar está fora de questão, porque isso é o equivalente a tirar a liberdade às crianças de terem uma família normal. O que se encontra em questão aqui, não são os gays, mas as crianças.

2. Se o gays quisessem realmente ter filhos, não se casariam entre si, porque não pode existir reprodução senão através de sexos diferentes. Se a natureza criou homem e mulher, e só através dessa união pode resultar descendência, ao se juntarem, os gays automaticamente excluem a hipótese de procriar e, portanto, não devem adotar. Se quisessem filhos, casassem com alguém do sexo oposto. Cada escolha tem a sua consequência.

Eu identifiquei nestes argumentos os seguintes valores: ESCOLHA, NATUREZA, REPRODUÇÃO e FAMÍLIA. Então aqui vai o meu contra-argumento:

ESCOLHA: Não acredito que a sexualidade seja uma escolha (nem uma questão genética – não há gene gay) acredito ser uma construção social com qualquer outra. Se ser gay fosse uma escolha, considerando toda a violência e todo o preconceito que sofrem, não seria mais lógico escolherem ser heterossexual? Quando falei da discriminação e usei o racismo como termo comparativo, a mesma pessoa disse-me que essa comparação era idiota porque ninguém escolhe como vai nascer (Michael Jackson escolheu ficar branco por causa do racismo e ficou tão branco que acabou por ter apenas filhos brancos - o poder da escolha).

No entanto, a questão da discriminação não está em alguém escolher como nascer ou não, mas em não poder ser o que é (acidente) ou ser o que quer (escolha) porque os outros não o deixam ser. 

A sexualidade de alguém não agride os outros, não faz mal a ninguém, por isso, nesse caso, as pessoas deviam ser deixadas em paz para usufruírem da sua sexualidade sem nenhum problema. Quando a sexualidade envolve atos criminosos (pedofilia, necrofilia e outras parafilias perigosas), sim, acredito que essa pessoa tem de ser responsabilizada (atenção, não estou a dizer maltratada e discriminada), mas esses problemas não são exclusivos de homossexuais, como muitas vezes nos tentam fazer crer, e estatisticamente, são mais praticados por heterossexuais.

Volto a remarcar: a sexualidade não é uma questão de escolha. Ou acreditam que os gays são masoquistas e adoram ser discriminados e ainda por cima serem culpados da própria discriminação que sofrem?

NATUREZA e REPRODUÇÃO: Ninguém tem dúvidas de que só a união do feminino e masculino gera filhos, isso é a natureza a controlar a reprodução. Mas nós paramos de deixar tudo na mão da natureza há muitos, mas muitos anos. 

Quando a natureza nos tentava limpar com as doenças e infeções, criamos medicamentos e antibióticos que nos tornaram mais resistentes e mais longevos (sim, não há dúvidas que essas medidas resultaram também por obedecerem a leis naturais, mas a forma como lá chegamos foi por engenho próprio).

Numa época em que a ovelha Dolly já é história e já ninguém se lembra de Louise Brown e os geneticistas já conseguem manipular os genes e praticar eugenia dissimulada, numa época onde as pessoas recorrem ao banco de esperma para terem filhos ou à barrigas de aluguer, não precisando de efetuar sexo para se reproduzirem, não acham que o argumento de reprodução natural já se encontra obsoleto?

A dita pessoa defende que se os gays quisessem filhos não se casariam entre si, porque sabem que dessa forma não conseguirão reproduzir e por isso devem viver com essa consequência e não adotar. Então eu pergunto: e os casais heterossexuais cujo um dos pares é estéril ou ambos são, mas que escolhem casar-se e adotar, não deviam ser também penalizados por terem escolhido uma união que não pode resultar em reprodução direta e natural? Por que só os gays devem ser penalizados?


FAMÍLIA: A família é composta por um pai e uma mãe e não dois pais ou duas mães, é o que defendem. Mas aqui, pergunta-se: qual família? A ocidental, pelo menos. 

Há famílias compostas por um pai e várias mães, como as muçulmanas ou africanas (atenção, nem todas assim são) e muitas famílias ocidentais, embora não sejam oficiais em nome da lei (mas isso é apenas uma questão moral). Há ainda famílias compostas por uma mãe e vários pais, há famílias de vários pais e várias mães, cujos irmãos não são consanguíneos, por serem apenas meio-irmão do meio-irmão e não deixam de ser família por causa disso. 

Além do mais, eu compreendo que um ocidental diga que a família é pai, mãe e filho, mas não um guineense, porque a família guineense é bastante alargada, inclui tios, tias, primos dos maridos ou esposas destes, inclui meio-irmão do meio-irmão do meio-irmão, inclui sobrinho da neta do cunhado da ex-mulher e prolonga-se num nunca mais acabar de relações. 

O termo madrasta ou padrasto na Guiné só é usado em poucos contextos, geralmente quando a pessoa se separa e volta a juntar-se (e é um termo relativamente moderno), as crianças que nascem de famílias poligâmicas chamam às outras mulheres do pai de "mame sinhu" – mãe pequena, e ao outro companheiro da mãe de "pape sinhu" – pai pequeno, portanto temos crianças com muitos pais e muitas mães.

O próprio Cristo tinha três pais: José (pai adotivo, que o criou, amou e educou), Espírito Santo (pai biológico ou sem-lógica, que entrou na sua mãe e a engravidou) e Deus (que ele depois alega ser seu pai efetivo).

Há crianças de famílias monoparentais que não são criados por pai e mãe, mas apenas um deles, ninguém reclama que as suas crianças merecem um outro membro e faça leis para obrigar que casem com um respetivo membro, então, porque não deixam que a criança em vez de ficar só com uma mãe ou um pai, possa ficar com duas mãe ou dois pais? Sem dizer que muitas crianças são criadas com dois pais ou duas mães, embora só um deles seja legalmente pai. Há crianças criadas pela mãe e pela tia ou pelos tios, que os considera, ama e respeita-os como pais e mães, podem ser chamados legalmente de tios ou de tias, mas no coração da criança são pais, porque sente que será protegida e amada por eles. Não devia ser a lei a submeter-se ao sentimento derivado do conceito da família e não o contrário: as famílias terem de ser construídas e amadas conforme os ditames da lei?

família poliândrica tibetana 
A família é uma construção social como qualquer outro tipo de agrupamentos humanos. Quem não tiver preguiça e estudar um bocado, vai saber que houve vários modelos de famílias (recomendo A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels). Vou simplifica-los em quatro. 

No primeiro modelo de família, incestuoso, os membros casavam-se entre si, pais, mãe, filhos, sobrinhos e sobrinhas, reproduzindo-se conforme conseguissem, porque na altura a sobrevivência da espécie era o fundamental e era preciso pôr na terra mais gente possível, para compensar os que morrieam e morreriam de doenças ou de outros predadores. 

No segundo modelo de família, matriarcal e poliândrica, as mulheres, reprodutoras, tinham quantos homens quisessem e pudessem e tinham a merecida importância, porque eram elas que mantinham os agrupamentos coesos e organizados, enquanto os homens iam para a caça. 
família poligâmica americana

O terceiro modelo da família, patriarcal e poligâmico, nasceu com a propriedade privada. Os homens começaram lavrar a terra e a criar gados e serem mais individualistas, sendo eles donos das terras e dos gados e não sabendo que filho da sua mulher era dele, inverteram os papéis, começando eles a casarem-se com várias mulheres para terem a certeza que o herdeiro é mesmo seu filho - o tal gene egoísta. 

O quarto modelo, patriarcal e monogâmico, que hoje impera, nasceu muitos tempo depois e foi popularizada e imposta na sociedade ocidental pelo cristianismo.

Com isto vê-se que a família é um conceito que evolui conforme os tempos e as circunstâncias e não tenham dúvidas que houve sempre atritos durante a transição entre os modelos acima citados, mas se aprendemos que a mudança é necessária, por que razão ainda vamos utilizar como argumento um modelo fixo de família e dizer que é o modelo natural, quando é mentira, para impedir os homossexuais de terem a sua própria família?

Há aqueles que se opõem aos homossexuais e a tudo relacionado com isso por motivos religiosos, mas sobre isso falarei num próximo artigo, visto que este ficou mais extenso do que inicialmente pretendia Enquanto isso, vivam e deixem viver (e se for em paz, melhor ainda).

26 de setembro de 2015

VOTO ÚTIL vs GENTE INÚTIL

Não existe o VOTO ÚTIL, apenas GENTE INÚTIL.
Como se não bastasse o apoio eleitoral sistematicamente efetuado pelos médias, com a constante cobertura das campanhas e dos comentaristas que lavam o cérebro do povo, a favor do PS (Costa) e PSD (Coelho), ainda têm agora a cantiga do VOTO ÚTIL para confundir os preguiçosos, os que não querem pensar e gostam de tudo mastigado.

VOTO ÚTIL não se trata de votos não nulos ou não abstentos, não, trata-se de votar no candidato com a maior probabilidade de ganhar, independentemente se o votante concorda com ele ou não. As sondagens dizem que ou é o Coelho ou é o Costa e que os demais partidos são irrelevantes, portanto, está todo o mundo mediático a apelar ao VOTO ÚTIL.

O que acontece é que milhares de pessoas não votam nos partidos que desejam, enganados pelo voto útil, acabando por fazer com que o partido com o qual simpatizam não tenha muita relevância política no parlamento, asfixiando desta forma o crescimento dos mesmos.

As pessoas, por exemplo, têm medo de austeridade e vão votar no Costa para o Coelho não ganhar, e os que desconfiam do Costa, vão votar no Coelho para o Costa não dar à costa.

Não há VOTO ÚTIL, há GENTE INÚTIL. Uma pessoa inútil é aquela que não consegue agir de acordo com o seu pensamento e só faz o que os outros lhe dizem. Ponderem, votem no partido que vos agrade, não caiam na balela do voto útil, porque só serve para eternizar o ciclo vicioso, sufocando os outros partidos que oferecem outras alternativas.

E basta de estupidez. Acredito que qualquer pessoa que apanhe sempre diarreia ao comer num restaurante muda para outro para evitar essa maleita. Então por que razão depois de muitos anos de diarreia a comer nos dois mesmos restaurantes não querem experimentar os outros? Será que acham que vão acabar por ficar resistentes às más comidas e não mais ser incomodados?

Os que querem votar no PSD, votem no PSD, o que querem votar no PS, votem no PS, os que querem votar nos restantes, votem neles, mas não votem pelo VOTO ÚTIL.

Como já disse, não existe o VOTO ÚTIL, mas PESSOAS INÚTEIS.

10 de julho de 2015

O PESO DAS DÍVIDAS NO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO

O peso da imposição das dívidas da TROIKA, ou Instituições, como agora se chama, é terrível para os povos e para a soberania das nações. Entretanto, não haja dúvidas que o mundo todo salta hoje conforme o FMI puxa os cordelinhos.

Sócrates, não o filósofo, disse uma vez que aprendeu que “pagar a dívida é ideia de criança” e foi ridicularizado, porque não falou conforme manda a cartilha, mas a verdade é que a dívida nunca é paga. 

Um país contrai uma divida de, digamos, 20 €, para pagar em 2 anos, no final do primeiro ano, poderá ter pago 15 €, entretanto os juros nesse período, condicionados pelo aumento de capital, que não devem ficar obsoletos, e por inflações, deflações e toda a sorte de ações que só favorecem aos credores, já ascenderam o valor total para 30 €, e por causa dos prazos apertados, o país, para cumprir o acordo, faz novas dívidas para pagar a anterior, aumentando o tempo da pena e o valor do mesmo. Ao fim de 4 anos, já terá pago o dobro da dívida inicial, continuando no entanto a dever ainda mais aos credores. 

Numa perspectiva de emagrecimento, a dívida de um país passa por esta definição: é o único peso que quanto mais o perdes mais gordo e mais pesado ficas.

No caso europeu, para pagar ao FMI, pede-se dinheiro ao BCE, e depois para pagar ao BCE vai-se ao FMI, ou ao próprio BCE, e fica-se num ciclo vicioso eterno, onde o que só aumenta é a mesma dívida.

Fazer um país vergar-se perante uma dívida da qual a sua população não beneficiou pode levar a ruturas ou revoltas sociais, porém os bancos não se importam com isso, porque venha quem vier, esteja quem estiver no poder, precisará sempre de dinheiro, portanto quem controla o dinheiro controla tudo, portanto, até se arranjar uma alternativa ao dinheiro, ou um sistema paralelo, nada do que se fizer ou revoltas e revoltas serão feitas, o resultado será sempre o mesmo, substituição das classes dualistas: dominada e dominadora, por outra nova classe, mantendo o dualismo.

Há uma frase atribuída a Rothschild: Deixe-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importa quem faz as suas leis. Esta é a verdade pura e dura. E neste momento em que as nações são controladas pelos bancos, ao ponto de um primeiro-ministro, Passos Coelho, dizer que foi sensato em simplesmente fazer como os bancos disseram em vez de tentar negociar, mostra o quanto os bancos mandam neste país e como nós somos simples mercadorias. Negociar pelo bem do povo seria trabalhar para o povo, não negociar é trabalhar para os bancos a fingir que o faz pelo povo, simples como isso.

No entanto, tudo o que possa aqui dizer, por mais sensato que seja, não se terá em tanta conta como o que um capitalista dirá, porque o capital controla o mundo, controla o pensamento, controla as universidades, escreve as cartilhas e dita as regras, pessoa alguma que se atreva a fazer ou pensar diferente é abertamente ridicularizada, mesmo nos meios científicos onde o pensamento devia ser mais livre.

Por essa razão, vou transcrever aqui um texto de Keynes, considerando a autoridade científica e económica que lhe é conferido. (Keynes, John Maynard, As Consequências Económicas da Paz).

Pode ser exagero dizer que é impossível aos aliados europeus pagar o capital e os juros que devem em relação a estas dívidas, mas obrigá-los a fazê-lo seria certamente impor um peso esmagador. Pode esperar-se, portanto que eles façam constantes tentativas para se evadirem ou escaparem ao pagamento, e estas tentativas serão uma fonte constante de fricção internacional ou de má vontade durante muitos anos vindouros.
Haverá um grande incentivo para procurar amigos noutras direções, e qualquer rutura futura de relações pacíficas carregará sempre a enorme vantagem de escapar aos pagamentos das dívidas externas. Se, por outro lado, estas grandes dívidas forem perdoadas, será dado um estímulo à solidariedade e verdadeira amizade entre nações recentemente associadas. A existência de grandes dívidas de guerra é uma ameaça à estabilidade financeira em todo o mundo.
Nunca mais nos conseguiremos mexer outra vez, a não ser que livremos os nossos braços e pernas do peso destes papéis. Uma fogueira é uma necessidade tão grande que, a menos que conseguimos fazer dela um assunto ordenado e temperado com boa vontade em que não seja feita nenhuma séria injustiça a ninguém, ela crescerá, quando finalmente vier, para uma conflagração que pode destruir tanto.


Não estamos em guerra, pelo menos não abertamente, mas este texto mostra claramente que a dívida não leva a desenvolvimento nenhum como constantemente nos tentam fazer crer os principais médias. Não podemos fazer muita coisa, porque só votamos, e quando fazemos marchas e greves só servem para a diversão pública e para preencher as grelhas da programação televisiva, porque isso não assusta os políticos, as únicas coisas de que eles têm medo são: as forças armadas e os bancos. 

E para fechar este artigo faço um gesto de pesar em memória de uma desilusão chamada Syriza, este atirar da toalha ao chão de Syriza (ou pelo menos do seu dirigente) vai desestabilizar todas as possibilidades que os partidos de esquerda tinham na Europa de ganhar e mudar qualquer coisa (e transformar um rotundo e volumoso NÃO num SIM ao quadrado é uma traição dos piores tipos). Já vimos quem manda: Os Bancos. E ou reconheçamos os nossos deuses ou finjamos que não existem, mas que eles vão estar sempre lá, vão.

2 de julho de 2015

EMA VEM TODOS OS ANOS (2014) - diversão diversificada na diversidade

Há já quase um ano que Ema Vem Todos os Anos foi publicado, desde então que fiquei por escrever uma observação sobre o livro, sendo por isso mais que tempo de fazer a sua apresentação neste meu antro cultural nada modesto.

Por ocasião do 20º aniversário da Ku Si Mon Editora, para marcar a efemeridade foi publicado o livro Ema Vem Todos os Anos.

A Ku Si Mon é uma editora guineense que faz milagres no que eu chamo de deserto literário guineense (cada vez menos desértico, é certo, como se poderá comprovar pela quantidade e qualidade do textos constantes no livro) e a MAIOR editora da Guiné-Bissau.

EMA VEM…. é uma coletânea composta por vinte e três contos, reunindo onze autores: Uri Sissé, Flora Ernesto, Nelson Fernandes, Marinho de Pina, Andrea Fernandes, Claudiany Pereira, Idy Mbonh, Anita Gomes, Hildovil Silva, Raul M. Fernandes e Abdulai Sila.

EMA VEM…. traduz-se desta forma numa diversificada sensibilidade literária e variação de estilos, passando por vários tons da vida, do cómico ao trágico. Cada história encerra um mundo, pensamentos, universos idiossincráticos… uma miscelânea de situações e de momentos que retratam o homem: um princípio em busca do seu fim – razão porque identificamo-nos de uma maneira ou de outra com os personagens.

A forma e o conteúdo no EMA VEM…. também varia de os mais simples e objetivos ao mais apurados e filosóficos, o que torna mais rico o livro.

Participei no EMA VEM…. com quatro contos, inspirados em fontes variadas: do absurdo do Pittigrilli, da objetividade de Tchekhov, à realidade que me envolve. Todavia, gosto particularmente dos contos: O Comboio da Memória  e Um Estranho na Minha Cama, de Andrea Fernandes e Flora Ernesto, respetivamente.

EMA VEM…. é um livro para ser lido, com autores para serem conhecidos e outros para serem reconhecidos.



Quem quiser adquirir o livro pode fazê-lo através de: kusimon@kusimon.com ou manifeste aqui o interesse.



13 de junho de 2015

PESSOAS VS. MERCADOS

Não é incomum ouvir os políticos dizerem: Isto não é bom para os mercados. No entanto, raro é ouvi-los dizer (e alguns nunca o disseram na sua vida política): Isto não é bom para o povo.

E isso por quê? Resposta simples: qualquer político que fale qualquer coisa sobre beneficiar o povo é chamado logo de populista, o que é bastante mau, porque ser chamado de populista é o pior insulto para a classe política.  Vá-se lá entender a razão, pois quando um político fala em nome da democracia (poder do povo), ele chora geme, rasga as vestes e bate no peito, em altos brados e grandes prantos de que está a trabalhar para o povo, pelo povo e com o povo… Porém, não quer ser chamado de populista. Claro que não, visto que isso não é bom para os mercados.

Quando, no entanto, um político fala de mercados, as pessoas menos atentas pensam nos mercados que frequentam no seu dia-a-dia, algumas até julgam que não ser bom para o mercado significa que vai faltar pão, leite ou papel higiênico nos supermercados, e isso assusta-as.  Todavia, o mercado de que os políticos falam é o mercado de ações, o mercado financeiro gerido e controlado por uma elite capitalista de semideuses, onde se divertem a controlar os governos soberanos (ou que se dizem soberanos, mas não o são de verdade). Nesses mercados o povo não entra, nem tem palavra. São os mercados onde a mercadoria é o próprio dinheiro, mercados onde usam o dinheiro para fazer dinheiro, um mercado que parece mais um casino, chamam-no de bolsa de valores, sede em Wall Street, onde os semideuses (ou super-ricos) divertem-se a apostar sobre a estabilidade dos países e das empresas menores para fazerem mais dinheiro ou perderem algum, e aliás até chamam isso de jogar na bolsa - e é mesmo um jogo. E como se sabe, nos casinos a banca ganha sempre, nesses mercados não é diferente, a banca ganha sempre, ou os bancos, para usar um termo mais familiar. Quando os políticos dizem os mercados, eles falam dos bancos, que são os seus gestores.

Os bancos importam, as pessoas não. Vejamos o caso da Grécia: não vão deixar a Grécia servir o seu povo, porque os mercados interessam mais do que o povo grego (e todos os demais), e os média, ao serviço dos seus senhores, aterrorizam as pessoas com presságios macabros e apocalípticos, fazendo-lhes acreditar que a existência dos bancos e da ligação aos principais bancos do mundo (FMI e Banco Mundial) é fundamental para a sua sobrevivência. Vergadas por este terrorismo governamental e institucional as pessoas acabam por voltar-se contra aqueles que as querem beneficiar. O povo grego tem medo de sair da União Europeia ou do Euro Grupo, e esse medo vai acabar por levar-lhe a voltar-se contra o seu governo atual, que tem a infelicidade de ser populista. Os média ocidentais estão a trabalhar para isso. Quando entrevistam os gregos na televisão, os entrevistados acham sempre que o governo deve ceder perante os bancos, porque mostra o bom senso, nunca entrevistam ninguém que pareça entender e explique a manipulação que os bancos estão a fazer sobre os povos, tanto o grego, como europeus e mundiais.

Se o governo grego atual insistir na sua posição até ao ponto de rotura, ou voltar-se para economias como a China ou a Rússia, o cenário mais plausível vai ser uma guerra civil na Grécia. Quem se lembrar do risco da guerra civil que o Verão Quente teve em Portugal decerto sabe que esses capitalistas e os grandes bancos não se importam com os povos e ganham sempre, quer em clima de paz ou de guerra num país. E eles têm este lema: se não podes viver infeliz connosco, não viverás feliz com mais ninguém. Fizeram isso na Indonésia, fizeram em Cuba, fizeram isso até na Rússia Comunista, estão a fazê-lo na Ucrânia… e em muitos outros países do mundo.

As pessoas não importam, os bancos sim. É o lema do governo atual. Estão a vender tudo, a privatizar o país. Até os espaços públicos agora são privados, para andar de carro temos de pagar o imposto de circulação, que é canalizado para empresas privadas que fazem a manutenção das estradas, estradas essas que foram construídas com nossos impostos, e em alguns casos pagamos ainda portagens sobre estadas que construímos e para as quais pagamos a manutenção. Para estacionar na rua tens de pagar a uma empresa qualquer, principalmente nos grandes centros urbanos. Para ter um painel solar em casa tens de pagar não só pelo painel com uma taxa para ter o direito de obter a luz do sol. Não tomas banho e bem bebes água em casa sem pagar por ela (o problema não é pagar pela manutenção da infraestrutura, mas pagar para que os privados tenham dinheiro para irem brincar no casino que chamam de bolsa).

A TAP acabou de ser vendida, porque dava prejuízo ao estado, disseram. Agora que foi vendido vai passar a dar lucro ao estado? Não. Não vai, e não ouvi ninguém a falar disso. O que ouvi foi que era necessário vender a TAP pelo bem da própria TAP, não pelo bem do povo. Temos uma classe política que pensa mais nos mercados do que nas pessoas e continuamos a fazer pouco dos políticos que assumem uma postura populista.

Não vai ser fácil para nenhum partido político ser populista, quando esse partido que ser parabenizado pelos bancos donos da União Europeia como bom aluno e cumpridor, porque a União Europeia não defende o povo, mas interesses privados, aliás é só voltar para sua a origem para verificar isso. A União Europeia sempre foi uma organização privada para interesses privados, ela nasceu como Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, união de empresas específicas, depois mascarou-se em união de países europeus. Agora a União Europeia encontra-se na mão de dois bancos principais e a sua comissão, a TROIKA, que já não gosta deste nome, bancos privados para interesses privados.


Como já pressagiou alguém: vai ser privatizado o país inteiro, até chegar a um ponto onde as pessoas já não aguentem mais serem preteridas, vai acontecer um novo 25 de Abril, onde tudo vai ser nacionalizado de novo, para logo a seguir começar a caminhada das privatizações (mas para isso precisaríamos das Forças Armadas, o único grupo que os politicos temem mais do que os bancos). Afinal se há alguma coisa em que o povo seja mestre é em ter memória curta e preguiça para pensar por si.

26 de maio de 2015

A EXPERIÊNCIA MONDRAGON - CAPITALISMO COOPERATIVISTA

A Corporação Mondragon é um grupo de cooperativas e de empresas oriundo do País Basco. Constitui o primeiro grupo empresarial do País Basco e o sétimo de Espanha, bem como o maior grupo cooperativo do mundo. No final de 2010 tinha 83.859 empregados. Fundado pelo padre José María Arizmendiarrieta em 1956, a sua sede está na cidade de Arrasate/Mondragón (Guipúscoa). 

Atualmente é composta por 256 empresas e entidades distribuídas em quatro áreas: finanças, indústria, distribuição e conhecimento.

A cultura empresarial está baseada em 10 princípios: livre adesão, organização democrática, soberania do trabalho, natureza instrumental e subordinada do capital, participação na gestão, solidariedade retributiva, intercooperação, transformação social, caráter universal e educação.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Corporação_Mondragon

24 de maio de 2015

A MORTE ANUNCIADA DO DINHEIRO PAPEL

O governo da Dinamarca, alegando sustantabilidade e reduções de custos de produção, decide acabar com o dinheiro papel  e as moedas.

A medida passa por proibir o uso de dinheiro físico em lojas de roupa, restaurantes, postos de combustíveis entre outros.

O dinheiro físico será substituído pelo dinheiro electrónico, o que por outras palavras, permitirá um maior controlo das despesas das pessoas, do seu hábito de compras, da fuga ao fisco, e aumentará ainda mais a dependência das pessoas aos bancos.

Há muitas pessoas que usam o dinheiro físico sem prestarem contas aos bancos, pois não precisam de uma conta para o terem ou usarem, entretanto, como o dinheiro eletrónico, mesmo as crianças terão de possuir uma conta para poderem comprar um lanche na escola.

17 de maio de 2015

O QUE REALMENTE ACONTECEU?... A RESSUREIÇÃO DE CRISTO

Este artigo surge no seguimento desta nova série de artigos que pretendo fazer acerca das incongruências na vida de Cristo que aparecem nos relatos dos seus biográfos oficiais, como aqui referi.

Há bastantes incoerências nos relatos dos quatro evangelistas sobre a ressureição de Cristo, por exemplo, as conversas que os anjos tiveram com as mulheres, mas isso é a parte menor, vou elencar aqui algumas incongruências que verifiquei. Os textos transcritos do Novo Testamento, para servir de referência, encontram-se em baixo.



                 1. QUANTAS PESSOAS FORAM AO TÚMULO?
Mateus:   Duas mulheres: Maria Madalena | Outra Maria
Marcos:  A. Três mulheres: Maria Madalena | Maria, mãe de Tiago | Salomé
                   B. Nenhuma: Jesus foi ter com a Maria Madalena, logo cedo.
Lucas:    Três mulheres: Maria Madalena | Maria, mãe de Tiago | Joana
João:     Uma mulher: Maria Madalena

Mateus ainda diz que tinham guardas no túmulo e os outros nem se referiram a isso.


                  2. COMO ESTAVA O SEPULCRO?
Mateus:   Fechado. Um anjo rodou a pedra, à frente de muitas testemunhas.
Marcos:   Aberto. A pedra já estava rolada.
Lucas:     Aberto. A pedra já estava rolada.
João:      Aberto. A pedra já estava rolada.


                 3. QUANTOS ANJOS ESTAVAM NO TÚMULO?
Mateus:   Um anjo, parecia relâmpago, roupa branca como neve: do lado de fora do      túmulo, rodou a pedra e sentou-se sobre ela.
Marcos:   Um jovem vestido de branco, sentado à direita (anjo?).
Lucas:     Dois homens, vestidos de roupas brilhantes, de pé (anjos?).
João:     A. Nenhum: Maria Madalena nem entrou no sepulcro, viu a pedra removida e foi a correr chamar o Pedro e o João – o amante de jesus(?).
B. Dois anjos vestidos de brancos: sentados, à cabeça e aos pés de onde devia estar o defunto.




                  4. QUE DISSERAM ANJOS ÀS MULHERES E QUE FIZERAM ELAS?
Mateus:   1 Anjo: Vão dizer aos discípulos. As mulheres foram contar aos discípulos.
Marcos:   2 Anjos: Vão contar ao Pedro e aos outros: As mulheres não contaram nada a ninguém, por medo.
Lucas:   Os 2 anjos não lhes deram nenhuma ordem. As mulheres foram contar aos discípulos.
João:       A. Não houve anjos.
B. Os 2 anjos não deram nenhuma ordem.


                  5. JESUS E AS MULHERES?
Mateus:  Jesus apareceu às mulheres, elas adoraram-no.
Marcos:  Jesus só apareceu à Maria Madalena (não se falou do sepulcro).
Lucas:    Jesus não apareceu às mulheres.
João:     Jesus só apareceu à Maria Madalena no sepulcro.


                




Transcrição do livro: Novo Testamento, Sociedade Bíblica de Portugal, tradução Interconfessional do texto grego em português corrente, Terceira Edição (Expo 98) 1998, ISBN 972.9085.47.1



EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (28:1-9)
Depois do sábado, quando já rompia a manhã de domingo, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo. De repente houve um grande tremor de terra, porque um anjo do Senhor desceu dos céus, rodou para o lado a pedra da entrada do túmulo e sentou-se nela. O aspecto do anjo era como um relâmpago e a sua roupa branca como a neve. Os soldados que estavam de guarda, ao verem-no, começaram a tremer de medo e ficaram como mortos.
O anjo disse então às mulheres: «Não tenham medo. Eu sei que procuram Jesus que foi crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou conforme ele mesmo tinha dito. Venha cá ver o lugar onde ele estava. E agora vão depressa dizer aos discípulos: Ele já ressuscitou e vai antes de vocês para a Galileia. É la que o hão-de ver. Era isto o que eu tinha para vos dizer.»
Elas afastaram do túmulo a toda a pressa, atemorizadas, mas cheias de alegria, e foram a correr levar a notícia aos discípulos.
Nisto, o próprio Jesus foi ao encontro delas e saudou-as. Então elas aproximaram-se dele, agarraram-se-lhe aos pés e adoraram-no. Jesus disse-lhes: «Não tenham medo! Vão ter com os meus irmãos e digam-lhe que vão para a Galileia e lá me hão-de ver».


EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS (16:1-8)
Depois de passar o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para irem pôr no corpo de Jesus. Por isso, no domingo de manhã, ao nascer do sol, foram ao túmulo. Pelo caminho diziam umas às outras: «Quem no há-de rodar a pedra que está na entrada do túmulo?» É que a pedra era enorme. Mas quando lá chegaram, viram que já tinha sido arredada para o lado. Entraram no túmulo e viram lá dentro, sentado, à direita, um jovem vestido de branco. Ficaram muito assustadas, mas o jovem disse-lhes: «Não se assustem! Vêm procurar Jesus de Nazaré que foi crucificado, mas ele ressuscitou. Já não está aqui. Vejam o lugar onde o tinham posto. Vão já avisar Pedro e os outros discípulos e digam-lhes: Ele vai para a Galileia antes de vocês. Lá o hão-de ver, como ele vos tinha dito.»
Elas saíram do túmulo a correr, pois estavam a tremer de espanto. E não contaram nada a ninguém, de tão assustadas que estavam.

(Outra versão logo a seguir, no mesmo Marcos, 16:9-11)
Depois de ter ressuscitado, Jesus apareceu no domingo de manhazinha primeiramente a Maria Madalena, de quem antes tinha expulsado sete espíritos maus. Ela foi levar a notícia aos companheiros de Jesus, que estavam muito tristes e a chorar. Quando eles ouviram que Jesus estava vivo e que ela o tinha visto, não acreditaram.


EVANGELHO SEGUNDO SÃO LUCAS (24:1-12)
No domingo de manhãzinha, as mulheres levaram os perfumes que tinham preparado e foram ao túmulo. Nisto, viram que a pedra que tapava a entrada tinha sido rolada para o lado. Entraram, mas não encontraram o corpo de Jesus. Estavam sem saber o que haviam de fazer quando viram dois homens de pé junto delas, vestidos com roupas brilhantes. Elas baixaram os olhos para o chão, cheias de medo, mas eles disseram-lhes: «Porque procuram entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou. Não se lembram que ele vos disse, quando ainda estava na Galileia, que é preciso que o filho do Homem seja entregue ao poder dos maus, que seja pregado numa cruz e que ao terceiro dia ressuscite?» Elas então lembraram-se daquelas palavras. Saíram do túmulo e foram dizer tudo aos onze apóstolos e a todos os demais. Essas mulheres eram Maria Madalena, Joana, e Maria, Mãe de Tiago, e ainda outras que também confirmavam isso. Mas os apóstolos acharam que aquelas coisas que as mulheres comentaram não faziam sentido e não acreditaram nelas. No entanto, Pedro levantou-se e correu até ao sepulcro. Inclinou-se, viu apenas as ligaduras e voltou para a casa admirado com o que tinha acontecido.


EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO (20:1-10)
No domingo, Maria Madalena foi ao túmulo, logo de Manhã, fazendo ainda escuro e viu a pedra que o tapava já tinha sido retirada. Foi a correr ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e disse-lhes: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram.»
Então Pedro e outro discípulo saíram e forma o túmulo ver o que se passava. Iam a correr juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que o Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para ver e reparou que as ligaduras estavam no chão, mas não quis entrar. Logo a seguir chegou Simão Pedro. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver as ligaduras no chão e o pano que cobria a cabeça de Jesus dobrado a um canto e não misturado com as ligaduras. Depois entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro. Viu e acreditou. Na verdade ainda não tinham entendido a Sagrada Escritura, segundo a qual Jesus havia de ressuscitar. Depois disto, os discípulos foram-se embora para casa.

(Outra versão logo a seguir, no mesmo João, 20:11-18)
Maria estava junto ao túmulo da parte de fora, a chorar. Entretanto, inclinou-se para dentro do túmulo e viu dois anjos vestidos de branco. Estavam sentados no sítio onde tinha sido colocado o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles perguntaram-lhe: «Mulher, por que estás a chorar?» E ela disse-lhes: «Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.» Logo a seguir, voltou-se para trás e vou Jesus, de pé, mas não sabia que era ele. Perguntou-lhe Jesus. «Mulher, por que estás a chorar? Quem é que procuras?» Ela pensava que era o homem encarregado da propriedade e disse-lhe: «Se fosse tu que o tiraste, diz-me onde o puseste que eu vou lá buscá-lo.» Jesus chamou-a: «Maria!» Ela então exclamou: «Rabuni!» (palavra que quer dizer «meu Mestre»). E Jesus disse-lhe: «Deixa-me, porque ainda não voltei para o meu Pai. Vai ter com os meus irmãos e dá-lhes este recado: eu volto para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus.»
Maria Madalena foi dar a notícia aos discípulos e dizia: «Eu vi o Senhor!» E contou-lhes o que ele tinha dito.

15 de maio de 2015

O QUE REALMENTE ACONTECEU?... INTRODUÇÃO

A Bíblia foi copiada e recopiada várias vezes, e no processo foi corrigida, recorrigida, contracorrigida até que o maldito Gutenberg inventou a prensa e dificultou esse trabalho de ajustamento dos textos bíblicos. E depois do King James (Jaime I de Inglaterra) ter mandado traduzir a sua versão da Bíblia, esta passou a ser uma da versões mais famosas da Bíblia atual. Mas nem essa versão foi impassível de sofrer mudanças. Há vários linguistas de várias correntes cristãs e ateias que dizem que determinadas passagens bíblicas foram mal traduzidas, porque determinada palavra significa outra coisa na sua versão original. Na bíblia das Testemunhas de Jeová, por exemplo, onde na de King James Jesus diz: Em verdade te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso. Aparece o seguinte: Em verdade te digo hoje: estás comigo no Paraíso. Este simples movimento da pontuação altera eloquentemente o sentido das coisas. E onde todas as versões da Bíblias diz: cruz, a deles diz: estaca.

Eu não estou certo se a Bíblia não foi mais alterada desde King James, ou melhor, o exemplo acima mostra que foi, e acredito que existam já versões em que as milhentas contradições nela existentes foram sublimadas, o que queria dizer era: não estou certo se a própria versão de King James não foi alterada continuando a levar o cunho de King James. E nem a versão King James é garantia de fidelidade, na medida em que houve várias traduções nessa altura e em posteriores, e os especialistas que traduziram o King James também já receberam a sua quota de críticas.

Bem, toda esta introdução não é para fazer uma análise da fidelidade da Bíblia com os textos mais antigos conhecidos, ainda mais porque vou centrar-me apenas nos Quatro Evangelhos, e nem pretendo confrontar esses com os textos mais antigos, na medida em que não tenho nem material, nem faculdade para isso. E tem que se levar em conta que os quatro evangelhos, contidos no Codex Sinaiticus (o texto nem tão original, mas mais importante, rivalizando-se apenas com o Codex Vaticanus) apresentam muitíssimas alterações, sem esquecer que esses textos para serem sagrados foram votados democraticamente no Concílio de Niceia, escolhidos por bolas pretas e bolas brancas, no ano 325 d.C.. Por outras palavras, os textos sagrados mais antigos sobre a vida de Cristo só existiram 325 depois do mesmo. Entenda-se: não foram escritos nesse mesmo ano, mas antes, porém de qualquer forma muito posterior ao Cristo, as cópias mais antigas conhecidas datam de uns 200 anos. Eram vários romancistas que escreviam sobre Jesus, e o Concílio escolheu quatro deles para os Quatro Evangelho Sagrados – Palavras de Deus. Por Palavra de Deus e Sagrada Escritura só era considerado o que passou a ser conhecido por Antigo Testamento (Torá e Pentateúco), por isso era necessário sacralizar um novo grupo de textos para ser sacro-cristão porque o antigo testamento, na verdade, pertencia aos judeus e só contemplava a eles.

Tudo bem, aceita-se que uma questão de Espírito Santo e tão Sagrado quanto Deus possa ser democraticamente determinada, criando dogmas posteriores para garantir a sua sacralidade. Dogmas essas que por vezes entram em contradição com o próprio Deus. Por exemplo: Deus disse, nos 10 Mandamento: “Não façais para ti imagens… Eu Sou único… Não tenhais outros deuses”, a Igreja disse: Jesus é Deus… Maria é mãe de Deus, merece louvor… Vamos fazer imagens sagradas para reverenciar a Deus e é excomungado quem dizer que são profanasE é excomungado que negar os nossos dogmas… Excomungaram o próprio Deus no processo.

Vou aceitar que os Quatro Evangelhos são realmente Palavra de Deus, infalíveis e que contém em si a própria noção da verdade e do verdadeiro. E é a partir daqui que está série de artigos vai começar, e a pergunta que se vai fazer é: o que realmente aconteceu?

12 de maio de 2015

MONEY AS DEBT (a criação do dinheiro)

MONEY AS DEBT (Dinheiro como Dívida) é um documentário animado de 2006, feito pelo artista canadiano Paul Grignon, acerca do sistema monetário dos bancos modernos. O filme mostra o processo da criação do dinheiro pelos bancos, o seu enquadramento histórico e adverte sobre a sua insustentabilidade subsequente.

O filme tem continuações: Money as Debt II (2009) and Money as Debt III: Evolution Beyond Money (2011).

O filme introduz com uma história, A Aventura de Goldsmith (Ourives), uma breve e clara alegoria da história dos bancos, e termina identificando algumas alternativas para o sistema moderno dos bancos, tais como a nacionalização dos bancos e o pagamento dos dividendos ao público, estabelecer sistemas locais de trocas e câmbio (organismos sem fins lucrativos) ou a impressão do dinheiro pelos governos.
fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Money_as_Debt

24 de abril de 2015

UMA QUESTÃO DE... VIDA

Quem salva uma vida salva um mundo inteiro, diz o Talmude. 

Se pensarmos na frase, o que vamos concluir é que neste nosso mundo vivem vários outros mundos, ou seja cada um de nós é um mundo. E em cada um de nós vivem mundos, pessoas, paixões, amores, desejos, sonhos, fantasias, anseios, inquietações, medos e fantasmas. Em cada um de nós há sementes para mais vidas, e há oportunidades para sermos significativos nas vidas dos outros.

Agora põe-se a questão: será que somos? O que fazemos com a nossa vida para ajudar outras vidas?

Os religiosos dizem que deus criou tudo e entregou na mão de Adão para gerir, colocando o homem no centro do universo. O sol, o céu, a lua, as estrelas, os mares, a chuva, as árvores, os animais, os peixes, enfim, tudo o que está na terra e fora dela foi criado para o nosso deleite. Tudo na terra, mas tudo mesmo... bem, talvez não a melga e o vírus da SIDA.

Os evolucionistas, por seu turno, dizem que fomos mais hábeis e inteligentes que os outros animais, que desenvolvemos a linguagem e a comunicação de uma maneira mais complexa e completa, e que foi isso que ganhámos vantagem e que aprendemos a pensar e tornamo-nos melhor adaptados, e, portanto, merecemos gerir a Terra.

Pode-se ver que independentemente da abordagem que fizermos, seja religiosa, seja científica, a conclusão é a mesma: somos os gestores do planeta.

Isto, meus caros, demonstra apenas uma coisa: somos arrogantes até não mais poder. Achamo-nos no direito de manipular, conduzir, catalogar e definir a natureza, porque temos o poder para isso. Afinal ela não nos pertence?

E assim, para acrescentar mais questões àquelas que já tinha feito, faço outra: o que é para nós a vida?

Acho que pouca gente já pensou sobre o que significa a vida. Sim, eu sei que toda a gente pensa sobre a vida, a sua, simplesmente... outros até procuram descobrir qual é o sentido da vida. No entanto, muito pouca gente pensa sobre o que é a vida no geral.

Todo o mundo está de acordo a vida é muito valiosa, talvez seja mesmo o que que temos de mais valor. E todo o mundo concorda que se algo pode morrer significa que tem vida. Mas se há essa concordância sobre o valor da vida, porque então se mata indiscriminadamente? Não estou sequer a falar das vidas humanas tiradas em nome do petróleo, dos dólares ou da religião, nem das florestas que destruímos em nome do consumismo, mas das outras vidas que desvalorizamos: a vida dos animais.

Por que é que a vida dos animais não é valorizada?

A religião, inclusive o próprio Talmude, já se viu a braços com esse problema e encontrou a resposta para continuarmos com a nossa crueldade sem nenhuma crise de consciência. A religião disse: os animais não têm alma, só os humanos têm, por isso a vida deles não é comparável à nossa. Sim, resposta simples e prática. No entanto, a religião depois nos diz que a nossa alma irá para o paraíso e ali brincaremos com os leões que estarão a brincar com os cabritos, tudo isso na santa paz de deus. E aqui complica-se tudo, afinal os animais têm alma ou não? Como é que vão parar então ao paraíso?

Mas como não vou aqui discutir a religião, vou falar da abordagem científica.

A ciência diz-nos que a vida dos animais não tem o mesmo valor que a vida humana, porque, meus caros, nós… somos… o topo da cadeia alimentar. Fantástico! Nós pensamos, decidimos, criámos, inventámos, cultivamos... e eles não. Somos os chefes, somos os Passos Coelho e companhia, os restantes são meros funcionários, são simplesmente o povo, nada mais que votos e estatística, vamos, portanto, monopolizar os privilégios para nós e abusar da nossa posição. Só nós importamos, os animais não importam. E como pensamos e somos mais evoluídos cerebralmente, estamos então no direito de os comermos. A ciência aceita isso tranquilamente, ao mesmo tempo que critica os religiosos que acreditam num deus ultra-mega-superior aos humanos, por não entenderem a lógica ou a moral desse deus (ponhamo-nos no lugar de animais e ponhamos deus no nosso lugar e vamos ver que fazemos tanto sentido quanto deus). Aliás, na mesma perspectiva, se uns extraterrestes muito mais avançados do que nós chegarem à Terra estarão no direito de nos usar para refeição e de nos abrir em laboratórios, usarem-nos em jaulas e brincarem com a nossa vida. Na verdade, nem precisamos de extraterrentes, se esticarmos este pragmatismo científico, vamos perceber que mesmo a vida humana não tem o mesmo valor. Foi o pragmatismo científico que inventou a teoria da raça no Séc. 18, para favorecer os europeus (brancos, entenda-se), dizendo que eram superiores e podiam escravizar todos os outros povos diferentes, e assim abusaram dos africanos, dos índios, dos chineses, dos indianos e de tudo o que tinha uma cor diferente. A ciência criava e ainda cria vários artifícios para desvalorizar a vida. A ciência não diminui o nosso valor, apesar de ridicularizar a religião, os físicos quânticos até afirmam que uma simples decisão nossa entre uma camisa e outra cria um universo pararelo, ou seja, nós somos criadores, mesmo que inconsciente, de universos. Deuses! Uau!

Hoje, a ciência diz que os animais são inteligentes, têm linguagem, aprendem parte da nossa linguagem, outras espécies como os gorilas ou os cães até compreendem melhor a nossa linguagem corporal do que nós mesmos, os gibões têm linguagem articulada, etecétera e tal, mas mesmo assim a vida destes animais continuam a não ter a mesma importância que a nossa, porque nós estamos no topo da cadeia alimentar, somos o topo da cadeia alimentar. E por que não estaríamos? Afinal fomos nos que criamos essa teoria. Pusemo-nos lá em cima quando devíamos colocar lá os pequenos vírus que anualmente dizimam milhões de vidas humanas.

Esta nossa arrogância permite-nos fazer mal aos animais e permite-nos dizer que a vida dos animais não importa ou porque estamos no topo da cadeia ou porque deus criou-os para o nosso deleite. Por isso, fazemos touradas, e fazemos touradas porque amamos o touro, afinal se não fosse por nós o touro nunca teria chegado a visitar a cidade e teria vivido toda a sua vida em total ignorância. E se não fosse por nós, a espécie dos touros usada nas touradas já estaria extinta.

Somos tão arrogantes que, ao contrário dos bosquímanos, a tribo africana do Kalari, ou algumas tribos índias da amazonas, matamos indiferentemente os animais e matamos grande quantidade de animais, para depois deitar a carne fora, em nome de lucro. Estes povos que mencionei quando vão caçar têm o trabalho de explicar ao animal que precisam da sua carne para sobreviver e nunca matam mais do que necessitam, porque, para eles, toda a vida tem valor… bem, talvez não a dos mosquitos.

E falando em mosquitos, o que será que determina o valor que damos a vida? Será a proximidade doméstica: a vida de um cão é mais valorosa que a de uma cabra? Ou será o tamanho do animal: a vida de uma baleia é mais valiosa que a de um rouxinol? Será a beleza que atribuímos ao animal: a vida do coelho é mais valiosa que a do crocodilo? Ou será que os animais que não comemos, pelo menos na nossa cultura, como o gato ou o cão terão a vida mais valiosa que o porco ou a vaca? Já vi, e inclusive, já participei em marchas a favor de cães e gatos, e depois fomos a um restaurante comer um grande prato de bife de vaca. Grande hipocrisia, não?

Sim, não sou nem vegano, nem vegetariano. Eu como os animais. Gostava de ser mais evoluído e poder deixar de comê-los porque a sociedade atual oferece-me muitas alternativas. No entanto, sinto-me mais evoluído do que as pessoas que vejo a deitarem foram muita comida, sem pensarem que dessa forma só estão a contribuir para a morte de mais animais. 

Não estou a dizer a ninguém para se tornar vegetariano, estou é a tentar chamar a atenção para o encorajamento que damos às indústrias da morte que só querem saber do lucro. Eu trabalhei num supermecado, a carne era muitas vezes é reciclada, lavada e etiquetada de novo para levar mais tempo, mas mesmo assim grande quantidade acabava por ser deitada fora.


Bem, quero voltar às questões que lá em cima coloquei, como já devem ter visto, não tenho resposta para as elas. Porém isso não quer dizer que por falta de respostas elas não devam ser feitas. O que eu sei é que desvalorizamos a vida, somos cruéis com os animais e destruímos a natureza, simplesmente porque podemos e simplesmente porque ou não pensamos nas consequências ou não queremos sair da nossa zona de conforto para pensarmos nelas.

E assim, fecho esta exposição com a frase com que comecei: O Talmude diz: quem salva uma vida, salva um mundo inteiro. No entanto, gostaria que fizéssemos todos a nós mesmos esta questão: o que é uma vida?