Querido Deus que estás no Céu, ou
seja lá onde for que estejas, obrigado pela existência de Sara Tavares, isto é,
se fores tu que fazes as pessoas e lhes atribuis capacidades. Querido Deus, por
deus!, eu adoro a Sara Tavares.
Há uma semana que estou a ouvir a
Sara Tavares e há uma semana que não consigo deixar de ouvi-la, o que contrasta
fortemente com o facto de há uns cinco anos ao ouvi-la ter-me enfastiado depois
de algumas músicas, aliás, das que tinha ouvido só me lembro de ter gostado de
três, que, por acaso eram as mais publicitadas: Balancé, Mi Ma Bô e Nha Cretcheu, e talvez de mais uma ou
outra. Agora eu sei que não estava preparado para Sara Tavares.
A primeira vez que ouvi falar de
Sara Tavares foi praí em 1996, numa música de Black Company (que vai ganhar aqui o seu post), Snookar, fizeram uma
referência a ela, e eu quis saber quem era, mas não conhecia a Internet nessa
altura, e só dois anos mais tarde eu fuçaria nela pela primeira vez. O tempo
passou e a Sara com ele, para em 2006 voltar de novo, quando vi na televisão o
vídeo Balancê.
balancê (balancê)
Segundo a wikipedia foram cinco
os álbuns de Sara Tavares, porém eu só ouvi quatro: Sara Tavares e Shout! (1996), Mi Ma Bô (1999), Balancê (2005)
e Xinti (2009),
e são deles que vou aqui falar.
SARA TAVARES E SHOUT!, como
o nome indica é um trabalho de equipa feito pelos dois que deram o nome ao
álbum. É um óptimo álbum de estreia, no entanto, não é muito empolgante, não
sei por quê, talvez por causa da sua versatilidade, ou seja um grande leque de
procura, que mostra todo o talento vocal de Sara Tavares, mas ao mesmo tempo é
bastante disperso, passando a imagem de insegurança e de que ela ainda não
tinha a certeza da sua veia, ou então que estava a tentar agradar aos troianos,
mas não sabia quais. Ela anda aqui pelo soul, gospell, muito gospell, jazz,
funk, fazendo covers que orgulham
supermaneira os originais. É um álbum muito americano. Entretanto, vénia à
retaguarda para os covers, destaco o
tema de abertura, Escolhas, e os
dois últimos, Barquinho de Esperança
e Feira de Ladra, estes dois que
apresentam uma pitada de música portuguesa, fado ou algo parecido, algum toque
a morna cabo-verdiana, e, na falta de um termo, um ar de modernidade, e onde
destaco o instrumento de percursão.
MI MA BÔ (dependendo do contexto pode significar sou mais do que tu, e durante muito
tempo pensei que era isso que ela dizia, mi
ma bô, bô ma mi – eu sou mais que tu, tu és mais que eu, mas na verdade é:
eu mais tu, tu mais eu), é um trabalho espectacular, aqueles tiques que no
álbum anterior Sara Tavares já tinha mostrado no álbum anterior aqui
confirmam-se. Com uma maior segurança ela navega pelas sonoridades diversas,
não parecendo procurar às cegas ou tentar apenas mostrar a sua incrível voz,
mas parecia fazer o que gosta e quer mesmo com uma maior confiança, parece
menos um álbum da editora do que o anterior. Aqui ela experimenta mais, usa uma
base cabo-verdiana, com as mornas, coladeras, à qual funde outros ritmos, fado,
soul, slow, e outros ritmos africanos. Apesar da tanta diversidade como no
álbum anterior, este aqui é mais consistente, porque apresenta uma maior
estabilidade e ligação entre os diferentes ritmos das faixas. Aqui só encontro
uma música que digo não gostar e é logo aquela que abre o álbum, I’ve Got a Song in My Heart, por me
parecer um tanto vulgar para o talento de Sara Tavares e não porque não seja
boa. Entretanto destaco Mi Ma Bô, Nha Cretcheu, Eu Sei e, estrela das
estrelas, Voá Borboleta (esta chamou-me
lágrimas aos olhos, não me perguntem por quê). Mi Ma Bo é
definitivamente um álbum flawless.
mi ma bô (mi ma bô) - áudio
mi ma bô (mi ma bô) - áudio
BALANCÊ, considerando os trabalhos anteriores de Sara Tavares (a
diferença rítmica entre o primeiro e o segundo), diz que ela se encontrou, ou,
pelo menos, encontrou o seu estilo. Onde Mi
Ma Bo parecia ser experimentação, Balancê
faz parecer ser definitivação. A base africana, propriamente cabo-verdiana,
existente aqui permite uma leitura única e contínua do álbum, considerando que
aparece em todas as faixas; é certo que há variações estilísticas, no entanto,
é mais coeso. O álbum abre estupendamente com a música homónima Balancé, faz um percurso dividido entre
a calma e a agitação, destacando-se One
Love, Amor É, Planeta Sukri, fechando com maestria
com De Nua, um fusão de fado e batuque.
Balancê é um álbum sólido, mas
inferior a Mi Ma Bô.
one love (balancê)
XINTI, ou sentir em português (sei lá por que estou a traduzir os
títulos) e calmo e embalante, tem uma alma diferente dos outros álbuns apesar
da mesma impressão digital. Xinti é
uma versão mais calma de Balancê,
aliás, um contraste; se Balancê convida
a balançar, Xinti convida a escutar.
As bases são as mesmas e as músicas podiam misturar-se à vontade que não se
perceberia a diferença. Por causa dos instrumentos que Sara Tavares usa e dos
acordes similares, algumas músicas de Xinti
cheiram a Balancê, o que
inevitavelmente leva à comparação dos dois álbuns, no entanto a tónica
diferente dois é que faz a cisão. Em Xinti
destaco Sumanai, Ponto de Luz, Di Alma e Queda Livre, e
uma menção honrosa para Caminhante (embora
este não seja propriamente uma música, mas poesia). Xinti é para mim o segundo melhor álbum de Sara Tavares.
ponto de luz (xinti)
Sara Tavares tem uma bela poesia, uma voz de diamante (superior a ouro, é claro) e uma
musicalidade própria, não que ela inventou esse género de fusão musical entre a
africana e a ocidental, ou mais especificamente entre os ritmos tradicionais e o
soul ou outro (da Guiné-Bissau, Zé Manel - vou falar dele aqui - faz o mesmo), mas ela criou o seu
próprio estilo. Sara Tavares é uma música e uma poetisa que gostaria muito de
saber voar e está sempre com os olhos nos caminhos e atenta aos seus passos,
quer dizer, pela quantidade das vezes que repete isso nas suas músicas é o que
deixa a entender.
Sara Tavares é uma artista que
merece e deve ser conhecido, na minha plêiade de músicos ela já entrou e com
pompa e circunstância.
bónus
voá borboleta (mi ma bô) - áudio
