23 de agosto de 2011

SARA TAVARES - quando a voz mesmeriza


Querido Deus que estás no Céu, ou seja lá onde for que estejas, obrigado pela existência de Sara Tavares, isto é, se fores tu que fazes as pessoas e lhes atribuis capacidades. Querido Deus, por deus!, eu adoro a Sara Tavares.

Há uma semana que estou a ouvir a Sara Tavares e há uma semana que não consigo deixar de ouvi-la, o que contrasta fortemente com o facto de há uns cinco anos ao ouvi-la ter-me enfastiado depois de algumas músicas, aliás, das que tinha ouvido só me lembro de ter gostado de três, que, por acaso eram as mais publicitadas: Balancé, Mi Ma Bô e Nha Cretcheu, e talvez de mais uma ou outra. Agora eu sei que não estava preparado para Sara Tavares.

A primeira vez que ouvi falar de Sara Tavares foi praí em 1996, numa música de Black Company (que vai ganhar aqui o seu post), Snookar, fizeram uma referência a ela, e eu quis saber quem era, mas não conhecia a Internet nessa altura, e só dois anos mais tarde eu fuçaria nela pela primeira vez. O tempo passou e a Sara com ele, para em 2006 voltar de novo, quando vi na televisão o vídeo Balancê.


balancê (balancê)

Segundo a wikipedia foram cinco os álbuns de Sara Tavares, porém eu só ouvi quatro: Sara Tavares e Shout! (1996), Mi Ma Bô (1999), Balancê (2005) e Xinti (2009), e são deles que vou aqui falar.

SARA TAVARES E SHOUT!, como o nome indica é um trabalho de equipa feito pelos dois que deram o nome ao álbum. É um óptimo álbum de estreia, no entanto, não é muito empolgante, não sei por quê, talvez por causa da sua versatilidade, ou seja um grande leque de procura, que mostra todo o talento vocal de Sara Tavares, mas ao mesmo tempo é bastante disperso, passando a imagem de insegurança e de que ela ainda não tinha a certeza da sua veia, ou então que estava a tentar agradar aos troianos, mas não sabia quais. Ela anda aqui pelo soul, gospell, muito gospell, jazz, funk, fazendo covers que orgulham supermaneira os originais. É um álbum muito americano. Entretanto, vénia à retaguarda para os covers, destaco o tema de abertura, Escolhas, e os dois últimos, Barquinho de Esperança e Feira de Ladra, estes dois que apresentam uma pitada de música portuguesa, fado ou algo parecido, algum toque a morna cabo-verdiana, e, na falta de um termo, um ar de modernidade, e onde destaco o instrumento de percursão.

MI MA BÔ (dependendo do contexto pode significar sou mais do que tu, e durante muito tempo pensei que era isso que ela dizia, mi ma bô, bô ma mi – eu sou mais que tu, tu és mais que eu, mas na verdade é: eu mais tu, tu mais eu), é um trabalho espectacular, aqueles tiques que no álbum anterior Sara Tavares já tinha mostrado no álbum anterior aqui confirmam-se. Com uma maior segurança ela navega pelas sonoridades diversas, não parecendo procurar às cegas ou tentar apenas mostrar a sua incrível voz, mas parecia fazer o que gosta e quer mesmo com uma maior confiança, parece menos um álbum da editora do que o anterior. Aqui ela experimenta mais, usa uma base cabo-verdiana, com as mornas, coladeras, à qual funde outros ritmos, fado, soul, slow, e outros ritmos africanos. Apesar da tanta diversidade como no álbum anterior, este aqui é mais consistente, porque apresenta uma maior estabilidade e ligação entre os diferentes ritmos das faixas. Aqui só encontro uma música que digo não gostar e é logo aquela que abre o álbum, I’ve Got a Song in My Heart, por me parecer um tanto vulgar para o talento de Sara Tavares e não porque não seja boa. Entretanto destaco Mi Ma Bô, Nha Cretcheu, Eu Sei e, estrela das estrelas, Voá Borboleta (esta chamou-me lágrimas aos olhos, não me perguntem por quê). Mi Ma Bo é definitivamente um álbum flawless.


mi ma bô (mi ma bô)

BALANCÊ, considerando os trabalhos anteriores de Sara Tavares (a diferença rítmica entre o primeiro e o segundo), diz que ela se encontrou, ou, pelo menos, encontrou o seu estilo. Onde Mi Ma Bo parecia ser experimentação, Balancê faz parecer ser definitivação. A base africana, propriamente cabo-verdiana, existente aqui permite uma leitura única e contínua do álbum, considerando que aparece em todas as faixas; é certo que há variações estilísticas, no entanto, é mais coeso. O álbum abre estupendamente com a música homónima Balancé, faz um percurso dividido entre a calma e a agitação, destacando-se One Love, Amor É, Planeta Sukri, fechando com maestria com De Nua, um fusão de fado e batuque. Balancê é um álbum sólido, mas inferior a Mi Ma Bô.

one love (balancê)

XINTI, ou sentir em português (sei lá por que estou a traduzir os títulos) e calmo e embalante, tem uma alma diferente dos outros álbuns apesar da mesma impressão digital. Xinti é uma versão mais calma de Balancê, aliás, um contraste; se Balancê convida a balançar, Xinti convida a escutar. As bases são as mesmas e as músicas podiam misturar-se à vontade que não se perceberia a diferença. Por causa dos instrumentos que Sara Tavares usa e dos acordes similares, algumas músicas de Xinti cheiram a Balancê, o que inevitavelmente leva à comparação dos dois álbuns, no entanto a tónica diferente dois é que faz a cisão. Em Xinti destaco Sumanai, Ponto de Luz, Di Alma e Queda Livre, e uma menção honrosa para Caminhante (embora este não seja propriamente uma música, mas poesia). Xinti é para mim o segundo melhor álbum de Sara Tavares.

ponto de luz (xinti)

Sara Tavares tem uma bela poesia, uma voz de diamante (superior a ouro, é claro) e uma musicalidade própria, não que ela inventou esse género de fusão musical entre a africana e a ocidental, ou mais especificamente entre os ritmos tradicionais e o soul ou outro (da Guiné-Bissau, Zé Manel - vou falar dele aqui - faz o mesmo), mas ela criou o seu próprio estilo. Sara Tavares é uma música e uma poetisa que gostaria muito de saber voar e está sempre com os olhos nos caminhos e atenta aos seus passos, quer dizer, pela quantidade das vezes que repete isso nas suas músicas é o que deixa a entender.

Sara Tavares é uma artista que merece e deve ser conhecido, na minha plêiade de músicos ela já entrou e com pompa e circunstância.


bónus
voá borboleta (mi ma bô)


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