26 de janeiro de 2012

MIL E UMA NOITES, AS


Como escrever sobre As Mil e Uma Noites

Eu sei que todo o mundo já ouviu falar, outros leram umas tantas histórias, alguns pensam que foi escrito por Disney e há ainda alguns que pensam que Hércules é uma personagem deste universo, no entanto nem todos leram o conjunto, principalmente (modéstia à parte), na sua versão integral, conforme reza o livro: texto completo, segundo a versão francesa realizada em 1889, sobre o original árabe do Dr. J. C. Marduz, e tendo em conta a edição prínceps de 1704 da primeira versão feita por A. Galland, com o subtítulo de Contos Árabes.

A linha principal d’As Mil e Uma Noites é estendida por Scheherazade, uma feminista e humanista (observações minhas), que casou com Schahriar, um sultão magoado pelos cornos que lhe foram postos pela sua primeira esposa e que resolveu vingar-se, casando todos os dias com uma virgem, mandando-a matar no dia seguinte, desencadeando desta maneira uma crise de virgens no reino, sem falar do pânico dos citadinos de verem as suas filhas escolhidas para a dupla imolação. No entanto acho burra essa gente, se o sultão só casava com virgens, por que raio não arranjavam quem lhes desvirgindasse a filha?... hem?... Adelante. Sherazade tinha um plano para inverter essa tendência homicida dele (na verdade o homem devia era ser internado) que consistia em contar-lhe histórias compridas, terminadas por clifhangers que lhe fizessem querer saber do resto. E ela conseguiu sobreviver a mil e uma noites (1001, um número capícuo, talvez com algum significado esóterico) com esse estratagema.

Os contos repetem-se muito, variando aqui e ali, mas, acima de tudo, mantêm a mesma essência: são contos de mulheres (mulheres infiéis, mulheres apaixonadas, falsas pudicas, mulheres virtuosas, mulheres de toda a espécie, algumas subvertendo o arquétipo grego, sendo elas as heroínas e os homens os socorridos), traição, amores desencontrados, promessas não cumpridas, curiosidade mórbida, sobrenatural, fantástico, enfim, tudo o que temos nos contos de fadas que conhecemos já tinha aqui a sua versão, até mesmo O Alquimista do Paulo Coelho.

As Mil e Uma Noites consegue ser esotérico: cheio de ensinamentos, duplos significados, alquimia e tal; consegue ser fantástico: génios, feiticeiros, metamorfos, ciclopes, monstros, aves gigantes (o famoso roc), anões e gigantes (versão prévia de As Viagens de Gulliver, de Johnathan Swift); romântico: amores e desamores; trágico (pouquíssimos contos no entanto, parece que não eram muito fã de finais tristes); ficção-fantástico, para não dizer científico: telepatia, telecomunicação, teleporte e tem até a sua versão do outro lado do espelho (antecedendo a Alice de Lewis Carrol); erótico, com muitas partes e descrições picantes, mostrando que a paranóia de um zib, ou melhor, um pénis grande não é exclusivo dos ocidentais e nem é uma modernice; ainda tem longos poemas que mostram a sensibilidade oriental (antiga) e a sua forma de apreciar.

As Mil e Uma Noites é um conjunto de contos (alguns deles tão extensos como um romance best-seller moderno) que explora praticamente a maior parte das possibilidades genéricas hoje existente. Mas não, não é um livro antes do seu tempo. E se a modernidade bebeu muito da sua fonte, ele bebe dos gregos, vários mitos gregos foram reconfigurados pelo imaginário oriental, por exemplo, uma das viagens de Sindbad não é mais do que uma versão de Ulisses e Polifemo, da Odisseia de Homero..

As personagens mais recorrentes nos contos da Sherazade são o Califa Haroun-Al-Raschid, a sua esposa, a ciumenta Zobeida, o seu grão-vizir e sábio, Giafar (desconfigurado pela Disney), e o chefe dos eunucos, Mesrour, o idiota Ali que protagoniza praticamente todas as anedotas do livro.

As Mil e Uma Noites é uma leitura obrigatória para todo o amante da ficção, é certo que boa parte das personagens são cópias e versões umas das outras, todos os heróis recitam o Alcorão de cor, e é muito racista, praticamente todos os cristãos, ou francos, são cães infiéis e traiçoeiros (tirando um franca heróica que acabou convertida ao Islão), todos os judeus, salvos raras excepções, são mercadores inescrupulosos e quando ganham escrúpulo também viram muçulmanos, mas não nos esqueçamos do contexto histórico-social da obra, todos os pretos são mentirosos ou possuem talento para o sexo (mostrando que esse fetiche não é também recente). Aliás, em termos comparativos, hoje na literatura americana, um judeu é um óptimo piadista ou argumentista, um muçulmano é terrorista. E também As Mil e Uma Noites pode ser um bom documento histórico e sociológico do antigo oriente muçulmano, mostrando-nos que os costumes mudaram bastantes e que muitas práticas misóginas do mundo do extremismo-islâmico não existiam nos primórdios do islamismo.

Posto isto, eu digo: vão às bibliotecas procurar pelo livro, ou livros (o que eu li foram seis tomos gigantescos).
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