7 de maio de 2018

AJOELHOU, VAI TER QUE REZAR!


Mas que… já pensaram que alguém pode ter-se ajoelhado apenas porque pode, ou simplesmente para meditar… ou melhor, já pensaram que ELA até poderia ter querido rezar, mas que também tem direito a mudar de ideias?

Há poucos dias, no comboio, um homem guineense a falar com uma mulher dizia: “larguei o meu bode, que cada um segure a sua cabra”. Eu pensei, um tanto chocado: “Bolas!, isto ainda se diz?”, mas chocado mesmo fiquei quando a mulher respondeu positivamente àquela besteira. 

Que os homens guineenses, com alguma idade, principalmente, sejam idiotas machistas não me faz espécie, afinal viemos de uma cultura de poligamia onde a mulher costumava ser negociado como mercadoria, e ainda continua (e eu nem sou contra a poligamia, desde que a mulher possa também se casar com tantos quantos quiser). O maior problema foi ouvir a mulher a defender essa posição, essa mulher que um dia, na conceção do tal homem, já foi também cabra.

Esta mentalidade machista, essas frases idiotas, que aparecem nas músicas populares e tidas como engraçadas, justificam, perpetuam e incentivam as violações que diariamente ocorrem, não só em Bissau, mas em toda a parte do mundo.

Se uma violação acontecer na rua, começa-se por querer saber se foi “de noite” (o que ela estava a fazer na rua a essa hora? por que tinha de ir à discoteca? estava a pedi-la.), se ela tinha vestido um “tchuna” ou “toma-nha-numur” (vestido dessa forma! estava a pedi-la.), se ela tinha muitos namorados ou nenhum (já estava acostumada com a coisa); se a violação acontecer no quarto de um rapaz (o que ela foi buscar no quarto de rapaz? estava a pedi-la.). 

A rapariga está sempre a pedir para ser violada ou porque quando dança rebola demasiado ou porque é muito atrevidinha ou porque é “catorzinha” (disso eu falo num outro artigo). Os homens… não, não pensamos, afinal o mundo gira à volta do nosso pénis.

Cresci a ouvir histórias de rapazes que bicharam (de fazer bicha) uma rapariga, e eram contadas com os rapazes no lugar de heróis e contadas de tal maneira que eu também desejava estar nessa bicha, levou-me bastante tempo a perceber que eram nada mais que violações e não um jogo que "os meninos machos fazem".

Os rapazes são ensinados de que as raparigas são umas fingidas, mesmo quando querem, dizem: “Não!”. Algumas raparigas também são ensinadas que têm de fingir e dizer “não”, mesmo quando querem, o que por vezes atrapalha completamente a coisa. Assusta-me ouvir homens ao contar as suas conquistas a dizer coisas como: “ah, agora que me fizeste despir é que vais dizer ‘não’”, ou seja, uma vez que a rapariga manifeste algum interesse nele, uma vez que ela entre no seu quarto, não há volta a dar, “ela tem de rezar”. 

Mas já pensaram que quando nos vê despidos pode lhe ter passado todo o brio? Ou que a nossa atrapalhação nos preliminares pode matar o desejo? Ou que ela de repente se lembrou de alguma coisa que lhe tenha cortado o desejo? Não, porque pensam que os nossos desejos devem ser satisfeitos a todo o custo. Mas não sabem que existem óleos de todo o tipo e feitio, sabão, sabonete, ou pensam que a saliva é apenas para engolir… cuspam na palma da mão, caramba.

E quando queremos não importa que ela diga não, mas... não é não! Temos de aprender a viver com isso. Quando ela diz “não”, é para ser levado a sério como um “não”.

Muitas vezes vamos a uma entrevista de emprego, tudo corre bem e no dia seguinte dizem-nos que encontraram candidato melhor ou que não éramos o que pretendiam, o que fazemos? forçamo-nos na empresa porque nos tinham entrevistado antes? Os políticos prometem-nos mundos e fundos e depois dizem "não" (aliás, nem dizem, só nos viram as costas). Mas se sabemos aceitar esses tipos de “não”,  por que não o “não” de uma mulher?
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