20 de junho de 2011

UMA QUESTÃO DE... CRENDICE



Há dois sábados atrás vi na SIC Notícias uma reportagem sobre albinos em Tanzânia que sofrem discriminações racistas, entre outros tipos. Sim, amigos, racistas. Não obstante o racismo tenha derivado da palavra raça, ela praticamente não se limita a questões raciais (vou ignorar de antemão aqueles que vão objectar que somos todos da mesma raça – a humana), mas à questão de cor, aliás, parece que a raça é definida pela cor da pele.

Vou tergiversar um bocado. Na minha língua materna, guineense, raça é muito mais plurissignificativo, é sinónimo tanto da religião, como da etnia, da nacionalidade, entre outras divisões, mas raras vezes da cor; a cor é simplesmente a cor. Por exemplo, pode dar-se este diálogo: O fulano é de qual raça? “É cristão.”[1] Não, a sua raça? “Ah, ok! É budjuku (bijágo). Mas ele é vermelho (mulato)?  “Sim, a mãe dele é tuga[2]. Com isto, repito, raça significa muita coisa em guineense, mas quase nunca a cor, pelo menos quando o guineense se encontra entre os seus. No entanto, hoje com o aportuguesamento do guineense (tanto a língua como a pessoa) por parte dos mais lidos e que, portanto, se julgam mais civilizados e melhor falantes, a distinção entre etnia, religião e outras divisões sócio-antropo-culturais (eu sei lá o termo certo) tornou-se mais óbvia como em português, chegando mesmo alguns a criticar aqueles que ainda usam o termo raça como há uns quinze anos ainda era amplamente usado. Pronto, como não quero aqui falar da linguagem da raça, nem mesmo do seu conceito, mas dos seus problemas, vou ficar em como a diferença é usada para o prejuízo de outrem.

Os albinos na Tanzânia são discriminados pela sua cor e pelo medo que alguns curandeiros, bruxos ou xamãs vendem às pessoas contra eles. Os mais ilustrados sabem que o albinismo resulta de uma deficiência genética na produção de melanina, o responsável pela pigmentação da pele, o que lhes deixa muito desfavorecidos, mais fotossensíveis e atreitos ao cancro da pele (o que é piorado pelo sol da África). Mas como se isso não bastasse, ainda são discriminados por serem diferentes, alguns idiotas até acreditam que possuir uma parte do corpo dos albinos lhes trará boa sorte e usam-nos como amuletos (alguém se lembra do filme Distrito 9, onde um líder nigeriano praticava canibalismo confiante de ganhar mais poder dessa forma?) Alguns bruxos e curandeiros tanzanianos recomendam e encomendam partes de corpo de albinos, e logo há assassinos desalmados que tratam de caçá-los para prover ao bruxo, sem contar ainda com os linchamentos populares quando alguma desgraça é atribuída a eles.

Vou derivar outra vez. Na minha terra, havia o costume do infanticídio, deixando à beira do rio criança com alguma malformação genética (às vezes até com síndrome de down), à espera que o enchente a levasse, justificando depois que ela era irã (entidade sobrenatural quase sempre maléfica) e que se tranformara na sua forma verdadeira e seguido para o rio. Para eles, não matavam a criança, mas devolviam-na ao seu habitat natural. Este costume provavelmente ainda existe, porém mais discreto, considerando a criminalização do acto, embora ainda haja um fechar-os-olhos diante de tudo o que se chama de tradição, sem levar em conta a sua nocividade. Porém, nós não matamos os albinos.
Rishabh Ghimire, nepalês, antes e depois da operação, teve a sorte de ser considerado antes como a reencarnação de  deus Ganesha, pois na minha terra seria considerado uma incarnação maléfica e deixado morrer numa cerimónia estúpida qualquer



Práticas do género abundam pela África dentro, o que motiva o discurso condescendente dos ocidentais, chamando aos africanos de obscurecidos e recomendando-lhes a sua luz. Bem, em termos de práticas de crendices eu preferia comer a hóstia, que se trata de um canibalismo simbólico, que me fará ganhar protecção tanto nesta vida como na futura e far-me-á viver para sempre, do que ficar com a parte de corpo de um albino que me trará apenas protecção e boa sorte nesta vida; porém, em termos de luz, ambos os desgraçados, o ocidental e o tanzaniano, estão com a mesma falta de iluminação. É claro que o ocidente fez de Jesus branco e achou que isso legitima a sua crença; o ocidente desenvolveu, com o mundo árabe, a ciência, é claro, mas continua tão estúpido quanto antes, acreditando ainda em besteiras tais como engolir sémen faz bem à pele ou gente bonita tem melhores genes.

canadiano, albino, que faz parte da fundação
para ajudar os albinos de Tanzânia
Não pensem que estou a desculpar os actos criminosos desses imbecis tanzanianos,  ou que estou contra a reportagem, o porquê de eu ter dito aquilo lá em cima reside no tom condescendente de alguns entrevistados (ocidentais e africanos) e da própria repórter, que pelo sotaque me pareceu indiana. Havia motivos mais que de sobra para condescendência, reconheço, mas quando penso que esta reportagem foi feita para a televisão ocidental para mostrar o problema gerado pelo obscurantismo africano sem, no entanto, oportunamente, criar paralelos com obscurantismo ocidental sinto-me desgovernado. Ali lincha-se albinos por crendices supersticiosas, aqui os homossexuais e pretos por crendices superticio-religiosas e pseudo-científicas, ali penduram o dedo de um albino na garganta, aqui um crucifixo, e os obscurecidos são só aqueles? Pensem nisso.

Voltando à reportagem, foi cruel ver crianças albinas a viverem em espécies de campos de concentração porque o mundo lá fora é uma ameaça para elas. Revolta que tenham de viver assim, porque quando crescidas, fisicamente poderão estar capacitadas para se defenderem, mas psicologicamente, pela falta de contacto com a sociedade ameaçadora, largadas na selva social de repente, depois de anos de condicionamento atrás das grades protectoras, serão capazes de se desembaraçarem? Não pretendo que não devam ser protegidas, devem. Mas, por deus!, basta de proteger os ameaçados apenas quando ameaçados, tem que se criar mecanismos para responsabilizar os ameaçadores e responsabilizá-los de melhor maneira. O justo seria inverter os campos de concentração, porque o racismo e as crendices (as mal orientadas, pelo menos) destroem as hipóteses de viver em equilíbrio. 

No entanto, mal pelo pior, venha o anterior; se o ocidente não quiser tirar as traves nos próprios olhos e puder tirar a palha dos nossos, por deus!, que a tire. Se conseguirem criar sistemas que ajudem aos albinos sem que isso resulte em tais campos de concentração é bem-vinda a solução, porém, o que recomendo é, àqueles que se sentem tocados pelos problemas do género, alargarem o alcance da sua empatia para todos os problemas similares, criados simplesmente pela diferença, e façam forças para minimizar, até a sua extinção, esses preconceitos e os seus danos. E aos tanzanianos, e africanos, que cuidem dos seus próprios problemas e não fiquem parados e inactivos à espera do ocidente. 





[1] O que necessariamente não significa que professa a fé de Cristo, mas que não é muçulmano, ou então que bebe vinho (ou lhe é permitido beber); pode ser chamado também de bebedor.

[2] Tuga significa português, mas muitas vezes, em guineense, usamos o termo para significar branco. O branco é tuga, o preto é jazz.
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