22 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte V

Papa ajoelhado em ouro para mostrar a sua humildade
Thorstein Veblen defendia, em 1899, com o seu livro, A Teoria da Classe Ociosa, de que os ricos cultivam o ócio, gastam o dinheiro em excentricidades apenas manifestar o posse, porque despertar a inveja nos outros é a forma que encontram para mostrar a sua importância e demarcar-se dos demais. Para a classe ociosa, ou rica, a utilidade é secundária à futilidade, por exemplo, gastam um valor abissal num rabisco chamado quadro de que nem sequer gostam para pendurar na parede da sala. E essa forma de gastar, segundo o mesmo, era nobre, investir no ócio, na arte e nas veleidades é que estabalecia uma espécie de sistema de casta que diferenciavas as populações. Um século depois dessa visão veblenista (ou devia ser vebleniano) as coisas não modificaram.

Mas como se demarca hoje um rico dos demais? Nesta época da reprodutibilidade técnica, conforme o chamou Walter Benjamin no seu trabalho, A Obra da Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, nesta era onde a arte é determinada pela sua capacidade de gerar dinheiro, onde réplicas de David de Miguel Ângelo, réplicas de Monna Lisa de Leonardo da Vinci podem ser encontradas em estabelecimentos comerciais vários, onde o cinema e a televisão fazem o entretenimento das massas, onde todos podem comprar e alguns compram, mesmo a troco dos olhos da cara, objetos caros que antes do Fordismo-Taylorismo eram exclusivos aos ricos; hoje que até um pé-rapado (usando a expressão de Marinho e Pinto) pode comprar um i-phone ou i-pad, como se demarcam os ricos dos demais? Bem, elevando a fasquia. Pondo de parte a utilidade, compram bolsas ou pedaços de panos para assoar o nariz por um preço exorbitante a partir de mercados elitistas. Há mercados que criam produtos que afastam os pobres, produtos por diferenciação, sobrevivem por essa razão e enriquecem-se assim porque os ricos, como já foi observado, não compram pela utilidade, mas exatamente para alimentar a vaidade. E aumentar os dígitos bancários enquanto veem na televisão que muitos morrem à fome, talvez lhes dê essa satisfação vaidosa de se encontrarem no topo do mundo (mas isso talvez seja para os sádicos). O cinema é popular, mas o teatro nem tanto assim, os festivais rocks e não-sei-quantas são populares, mas a ópera é mesmo para quem pode pagar, e acredito que a maior parte dos ricos que frequentam a ópera nem têm sensibilidade para apreciar a obra. Ou seja, encontram sempre a forma de usar a arte de forma demarcatória.

Estas características, no entanto, de demarcação vaidosa, não é exclusiva dos ricos, todos a têm. As pessoas todas hoje consomem mais pela vaidade do que pela utilidade, há pessoas pobres que preferem passar fome e possuir telemóveis da última geração, apenas e nada mais do que apenas para dar nas vistas, porque dessa forma sentem-se niveladas com os ricos, pelo menos nesse aspeto.

As pessoas trabalham hoje, a maioria para sobreviver, é certo, mas com aquele desejo secreto de poder investir no ócio e na vaidade, comprando o supérfluo em detrimento do útil, e os paradigmas sociais, filhos da publicidade, garantem-nos que a felicidade se encontra nas coisas materiais e no sentido de posse, o que só podemos obter através do dinheiro. 

O ócio é necessário para qualquer ser humano, por essa mesma razão é que se tornou num produto. Dividiu-se o tempo em três partes: oito horas para trabalhar, oito para o ócio, e oito para dormir (a verdade é que esta divisão é apenas idílica); depois de passarmos as primeiras oitos horas a gerar dinheiro para outras pessoas, passamos as segundas oito horas a usar o dinheiro que ganhamos nesse processo nos vendedores do ócio, e passamos a restantes oito horas a ter pesadelos sobre a falta de dinheiro e as dívidas por pagar. 

Divertir-se é a ordem do dia, afinal a vida não é feita só de trabalhos. Sim, é verdade, mas não há diversão gratuita, ou pelo menos tentam convencer-nos de que não há, pois as gratuitas não valem a pena porque até um pé-rapado o pode ter, e como todos nós queremos ser diferentes, lá somos arrastados para as diversões pagas. O mercado de ócio é o que mais cresceu com a terceira rutura.

O estilo de vida que adotamos hoje e a lavagem cerebral que recebemos pelos médias (cinema, televisão, livros, músicas, internet e outros), garantem-nos que precisamos de dinheiro para não passarmos de uns falhados. Dividimo-nos hoje, como na sociedade americana, em winners e losers, conforme o dinheiro que ganhamos, ou melhor, os materiais que ostentamos. E ninguém quer ficar no segundo grupo. Assim, tudo o que ganhamos com o nosso consumismo desenfreado é a destruição do planeta e dos nossos habitats.

Reclamamos que a terra é nossa, aliás que deus criou o universo e nos colocou no centro para o governarmos, inflamos a nossa importância, quando, na verdade, no panorama geral, em termos comparativos, não passamos da sombra de uma mancha microscópica numa partícula de um grão de poeira na ferrugem do prego que suporta o quadro Monna Lisa e julgamos que somos nós a obra de arte.

O consumismo desenfreado só nos leva à nossa extinção e alguns já previram isso, razão porque querem colonizar Marte, mas somos tão tolos e tão pouco ponderados que continuamos simplesmente a comprar o nosso fim conforme que nos dizem e a gastar irrefletidamente, sem pensar nas alternativas existentes.

É certo que não podemos viver sem dinheiro hoje, não se quisermos viver na modernidade, com todos estes confortos que custam tão caros e que nos custam o planeta. Há pessoas que conseguiram fugir destas masmorras sociais modernas e que mudaram radicalmente a sua forma de viver, conseguindo fazê-lo sem dinheiro. No entanto, para a maioria, a alternativa está em promover a uma gestão financeira adequada à necessidade e não à futilidade.

Não vivemos em pequenas comunidades razão porque a permuta não pode funcionar muito bem atualmente, por isso o trabalho continua a ser medido em dinheiro e não em outros benefícios, mas se sempre que pudermos fazer a permuta o fizermos não só reduziremos os desperdícios como poderemos poupar mais e aumentar a nossa qualidade de vida (um conceito totalmente subjetivo, é certo, porque se para uns significa comer todos os dias nas grandes cadeias de fast-food para outros é ter tempo para ler um bom livro ou visitar um museu).
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