13 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte I

É mais fácil escrever sobre o dinheiro do que obtê-lo, e quem só o sabe obter ri-se muitíssimo daqueles que sabem escrever. Voltaire.



O dinheiro está à nossa volta, tornou-se tão essencial para a nossa vida como a água e toma um lugar tão primaz que – não raras vezes nos ouvimos a dizer que ele é a raiz de todos os males – não conseguimos imaginar a vida sem ele. Nos evangelhos Cristo exortava: ou Deus ou o dinheiro, ninguém pode servir a dois mestres (provavelmente ele não tinha ouvido falar de trabalho precário, porque hoje há pessoas com até três empregos ou mais), querendo talvez mostrar com isso que o dinheiro é a fonte do mal e talvez seja por essa mesma razão que os chefes religiosos querem nos proteger dele, ficando com o nosso dinheiro.

Tomamos o dinheiro como um dado adquirido e até cremos que foi a primeira coisa que o homem inventou, aliás se dizemos que a profissão mais antiga é a prostituição, fica subentendido que as prostitutas eram pagas com alguma coisa, o proto-dinheiro ou simples permuta (troca direta que dispensa o dinheiro).

Embora usado milhares de anos antes, o termo dinheiro vem do denário de prata, unidade monetário da Roma antiga. E a moeda vem do latim moneta, termo emprestado da deusa Juno Moneta, que tinha um templo ao lado da fábrica onde se cunhava as moedas imperiais.

Não é raro pensar que o dinheiro mudou a sociedade e impulsionou o desenvolvimento, de certa maneira até que isso é verdade, no entanto, são os avanços tecnológicos que mudaram o dinheiro e a forma como o conhecemos e o usamos, são eles que influem na forma do consumo e modificam as nossas sociedades e culturas, embora seja inegável a participação do dinheiro no processo. Mas um dos maiores agentes do desenvolvimento tecnológico, senão o maior, é a guerra (embora seja feita em busca do poder).

Francis Fukuyama explica no seu livro, A Grande Ruptura, que a sociedade humana passou, até agora, por três grandes transformações a que ele chamou de ruturas, visto que modificaram completamente a forma de viver e todos os conceitos sociais preexistentes.
Servi-me aqui dessas delimitações explicadas por Fukuyama e de outras de outros autores para elaborar uma breve história do desenvolvimento da economia da humanidade, focando-se, no entanto, mais no elemento dinheiro.


A PRIMEIRA GRANDE RUTURA aconteceu com o desenvolvimento da agricultura e agropecuária, atividades enquadradas no sector primário. As consequências foram a sedentarização dos humanos e, como observou Engels, no seu trabalho, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, as primeiras sementes do conceito da família como hoje a conhecemos e de todo aspeto socioeconómico que lhe é inerente.

Toda a sociedade se modificou, aliás, começou a formar-se a noção da sociedade para os grupos de humanos que apenas se dividiam em clãs ou matilhas, para usar uma aceção mais básica. Mesmo o sentido religioso se modificou, os grupos que antes tinham a noção de deus como antepassados protetores, passaram para uma conceção de deuses especializados e regionalizados: deus de água, deus da planície, deus da montanha, deus dos ventos, entre outros exemplos.

O apoderar-se das terras boas para o cultivo ou para o pasto levou a guerras e alianças entre diferentes clãs e tribos, começando a formar uma sociedade hierarquizada e militarizada, tanto para a proteção das propriedades como para a conquistas de melhores propriedades. Os primeiros conflitos, que até hoje ecoam na sociedade atual, entre os agricultores e os criadores de gado aconteceram, o que aparece representado na Bíblia com a história de Caim – agricultor – e Abel – pastor.

A reunião de vários clãs e de várias tribos no mesmo espaço abriu o caminho para as relações comerciais. E para minimizar os conflitos começaram as aparecer as regras de conduta morais e éticas, sendo a mais antiga conhecida O Código de Hamurabi. A ideia da propriedade privada e do comércio, ligadas ao enriquecimento por cúmulo, conduziu diretamente ao conceito do monopólio, criando guerras intestinas e externas para ajuntar mais terras, mais propriedades e alargar os territórios. Também apareceu o conceito do senhor e escravo, que depois, como refere Marx, n’O Manifesto Comunista, desenvolveu-se para o feudal e o servo da gleba, hoje para o patrão e o assalariado, mantendo no entanto a configuração básica. Nem mesmo o conceito da religião conseguiu ficar de fora destas transformações monopolistas, de vários deuses, de um politeísmo rico, passou-se para o conceito de um deus único que controla tudo e todos, o monoteísmo.


No entanto, porque o comércio se fazia por troca de equivalentes, a permuta – olho por olho –, em alguns aspetos tornando difícil o mesmo, houve que mudar o paradigma e inventou-se o DINHEIRO, uma moeda cujo valor representava o que se pretendia comprar. No entanto, o próprio dinheiro tinha o seu valor, visto que era feito com algum metal valioso ou raro, habitualmente cobre, prata e ouro, isto já nas suas fases mais avançadas, porque inicialmente o sal servia de moeda de troca, do qual se originou o termo salário. 
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