3 de janeiro de 2014

CLARA DI SABURA, 2011

A Guiné-Bissau não tem uma tradição de cinema muito bem construída, ou construída sequer, são parcos os filmes guineenses, e o único realizador mais ou menos, ou talvez, conhecido é Flora Gomes. Existem alguns filmes e uns pares de documentários que constituem todo o volume do cinema guineense, e, não tenho a certeza, mas não perfazem duas dezenas. E há já um bom tempo que não se fazia um filme com intenção de ser cinema (não conta o último filme de Flora Gomes, Republica di Mininus, com Danny Glover – aliás, escrevi este artigo há já ano e meio), tirando alguns vídeos amadores de teatro-fora-de-palco, com câmaras estáticas, realizados aqui e além por alguns curiosos, os quais, apesar da sua terrível ou ausente qualidade cinematográfica, fazem a delícia dos meus compatriotas, por serem produtos com os quais se identificam. E é claro que gosto de ver alguns deles, mas só porque têm um amigo meu como protagonista.

Ok! É neste meio árido que surge o filme Clara di Sabura, construído com uma mão mais cuidada, porque aspirava a ser cinema, e por isso estou a falar dele como cinema, usando o mesmo padrão de avaliação que uso para os filmes que vejo.

Clara di Sabura é um filme muito amador, adaptado de um poema pseudo-moralista (eu disse pseudo, porque no poema o maior atributo de uma boa mulher é encontrar um homem que a case) e o filme não foge do tema, mantém a mesma linha construída pelo poema e faz um rol de discursos ocos e repetitivos, e apesar de querer mostrar a importância que estudar e formar-se pode ter na vida de uma mulher, não consegue esquivar-se de submetê-la (a mulher, é claro) a um poder masculino (e olhem que nem sou feminista).

Eis a sinopse: Clara é uma adolescente sem cabeça para os estudos, preferindo pôr-se bonita e usar a sua beleza para se safar. E toda, mas toda a gente lhe admoesta, dizendo-lhe que está errada, desprezando-a, tanto à sua frente como ao seu atrás (de maneira que lhe alcunham de Clara di Sabura – traduzido em Clara que Gosta Apenas de Bela-Vida, do Bem Bom, da Facilidade, de Festanças, etc…), e toda essa gente advoga, no entanto, estar preocupada com o futuro da Clara. E um dia (ou anos depois), Clara é chamada para trabalhar numa empresa e não sabe ligar o computador.

Eu sei que a intenção do filme era que fossem genuínas as admoestações que as pessoas faziam à Clara, mas como diz o ditado considju dimas i inveja (demasiados conselhos é inveja), por isso, o efeito que consegue é o oposto do pretendido, o que vemos, após as duas primeiras pessoas terem acabado de falar da Clara (ou com ela), é que ela está rodeada de pessoas invejosas, coscuvilheiras e cheias de más-línguas, típico de lugares onde as pessoas não têm mais nada com que se ocupar.

No entanto, se tirarmos todos esses momentos de más-línguas, não resta nada em Clara di Sabura, talvez apenas mais uns vinte minutos de quase nada, o que mostra a grande falta de ambição do filme (entenda-se que não estou a dizer que o realizador não tivesse sido ambicioso, mas o filme como resultado não é). A promoção do filme é mais ambiciosa do que o próprio filme.

Um dos maiores problemas de Clara di Sabura é a sua unidade temporal: simplesmente não existe. O filme começa com uma Clara adolescente que estuda no ciclo e dorme com professores para obter boas notas, e avança para uma Clara seduzida por um ministro, ou algo assim, e não sabemos mais o que acontece. No próximo segmento, dá-se a entender que já se passaram alguns meses, pelo menos, e a seguir vemos que entre ela e o ministro parece que se passaram apenas umas semanas e que tinham acabado de se conhecer, para logo a seguir ela encontrar uma colega do ciclo que já tinha concluído um curso superior, já trabalhava e já era casada, para percebermos que já se tinham passado muitos anos, mas os actores não envelheceram. Não existe um tempo para a história, porque ela está mal estruturada, o argumentista só quis falar mal da Clara e por isso não ficou atento ao resto.

extracto do filme
o filme todo pode ser visto no youtube

Outros problemas de Clara di Sabura são a edição e a direcçao dos actores e os próprios; quase todos eles amadores, o que não é nenhum problema, porém maus como tudo, nem mesmo o Mário (o amigo atrás referido) se safa (este a pescar para o filme um bocado do seu personagem de Barudjo – um personagem que interpreta num vídeo) ou a Neia (esta última fazendo a sua especialidade teatral - chorar, babar-se e lamentar-se – é a sua imagem de marca), com discursos intermináveis sobre o valor de mulher, que praticanente se resume em saber cozinhar (talvez porque o homem se agarra pelo estômago). Os dialógos não são naturais, todos actuam como se estivessem a fazer teatro, num tipo de teatro também já ultrapassado, onde as frases são debitadas como poesias.

O que podia salvar Clara di Sabura era uma desenvolvimento mais ambicioso, em vez de simplesmente falar mal da personagem. No poema pode funcionar, mas no cinema não, porque a estrutura dos dois é diferente, um poema descreve, metaforiza, sugere, abstracta-se, concretiza-se, usando para isso palavras, o cinema usa imagem, por isso, tem de focar-se mais em mostrar do que descrever, e nisso o filme falhou. Ah, também, a tradução e a legendagem são terríveis.

Talvez, este é o meu ponto de vista, se o filme se focasse em vez de na Clara, nas pessoas que a rodeiam, já que quer fazer um retrato social, mostrando antes de mais a maleita da nossa sociedade que, por não fazer nada, por não ter ocupações, concentra-se mais a falar da vida dos outros, ao invés de focar-se na própria (o que depois se revela num país onde falta acção e, portanto, mantém-se estagnado), promovendo uma certa reforma de pensamento, mostrando que é necessário cultivar outros valores; Ou então, mostrar uma sociedade onde, por falta de oportunidades, as pessoas vêm-se obrigadas a usar as armas de que dispõem para triunfar, no caso da Clara, a sua beleza, e em vez de atacá-la simplesmente por esse motivo, talvez atacar os ministros e os poderosos que fomentam essa prática; se o filme procurasse mesmo os verdadeiros males em vez de simplesmente falar mal das pobres e manietadas mulheres guineenses numa perspectiva machista a beirar a misoginia, talvez Clara di Sabura pudesse ter um estrutura séria.

Para fechar, digo, Clara di Sabura é um filme muito mau e sem ambição, no entanto, louva-se a ambição dos que nele trabalharam. E, prevendo já o ataque dos meus conterrâneos, digo: falar aqui do filme, negativamente ou não, é uma publicidade que estou a fazer dele.
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