18 de maio de 2021

HOSSANA AO FILHO DE DAVID - O BRANCO REDENTOR VOLTOU

Quando Jesus chegou a Jerusalém, as pessoas... peraaaa!, filme errado.


Quando o Marcelo Ribelo?... Ribeiro?... Aiiiii.... Quando Marcelo R. Sousa chegou à Guiné-Bissau, com muito orgulho fomos mostrar porque aquele país continua na merda e o quão desocupados somos. Fomos buscá-lo ao aeroporto e enchemos as ruas com cartazes para o receber, pois afinal, já que os quatro aviões árabes não chegam com o bilião de dolares, vamos ver se o Marcelo tem algumas moedas de dois aeoros para dispensar.

Alguém se lembra de como os portugueses encheram o aeroporto com grupos de mandjuandade e se alinharam nas ruas para receber o Sissoco quando ele veio passear a Portugal?... Alguém?... Alguém?... Ninguém?... Eeeeepá!

Até mesmo os mais ferrenhos apoiantes guineenses do Sissocó que vivem em Lisboa não o foram buscar ao aeroporto, porque tinham de ir, usando as palavras de alguém, entregar o pau-do-corpo ao patrão branco. Estavam ocupados e além do mais, Sissoco não é a Seleção-Portuguesa-Depois-de-uma-Vitória-Importante e nem é o Papa, que são duas figuras que movimentam fanáticos.

Mas nós, guineenses, adoramos toca-palmices, estamos sempre prontos para bater palmas a quem o chefe mandar, sem posição crítica. Sei de pessoas no governo atual com, aparentemente, muito senso crítico sobre o domínio europeu e que acharia essa recepção do Marcelo um culambismo ao homem branco, e uma submissão colonizante, mas que por conta de politiquices e chuchices nem se manifestaram. E ainda admiramos que fomos colonizados e que estamos colonizados.

Já agora um vídeo sobre como recebemos também o pai do Marcelo, que era o Ministro das Colónias, quando chegou à Guiné e façamos as contas. Qualquer semelhança com o ontem não é mera coincidência.


A propósito, acham que o Marcelo foi à Guiné porque gosta dos guineenses ou apenas para reforçar a influência de Portugal e tentar com que o Macron não nos roube dele com os seus aeoros que bondosamente prometeu aos países africanos?

(para quem tiver tempo de sobra, um artigo: http://montedepalavras.blogspot.com/.../lideres-os...)

5 de maio de 2021

A MÚSICA TAMBÉM PODE SER PROBLEMA

Buba. 2019. 1 de Maio. Praia. Um grupo de jovens sentados, a beber e a conversar, outros a dançar. De repente a música "larga nha kodjon" e os que estavam sentados, rapazes e raparigas, gritaram todos: uaaaaaaaa, e lá se meteram a dançar e a cantar com a música, todos, até crianças.

Bissau. 2021. Abril. Cuntum. Tocava música lá fora. De repente: "Bo rastam, bo lebam..." e ouvi: uaaaaaaaa, e toda a gente a cantar e, suponho, a dançar. A música é fixe, dou-lhe isso, mas a letra é horrível. Claramente escrito por um homem.

Há meses que tenho visto a campanha "Mindjer i ka Tambur" a tentar sensibilizar as pessoas para assuntos de violência contra as mulheres. Lidamos constantemente com violências do tipo que a música invoca, onde mulheres são arrastadas e a suas perucas lhes são retiradas e ela são violadas, tratadas como carne e não pessoas. Essa música reforça a prática.

Se fosse uma mulher a escrever e a cantar a música... bem, continuaria a ser problemático, mas menos... sabem?, a cada uma a sua preferência sexual.

É assim, já me disseram, é só uma música, é brincadeira. Não, não é brincadeira. Não digo que a intenção consciente do autor seja apelar à violação, mas é isso que a música faz.

As piadas, os estereótipos, entre outros ditos problemáticos reforçam as ideias, porque nunca pensamos que são perigosos até que se tornam. É como um bebé que quando insulta os outros nos rimos da sua inocência, até que nos insulta a nós e já não achamos graça e depois notamos que ele ao crescer normalizou o insulto e depois fica difícil corrigi-lo. Kana seku...

Não brinquemos com a violência, ou com coisas que destroem a vida de outras pessoas, ou com coisas que diariamente causam vítimas.

WJ numa música, "Nha Carta", romantiza a violência, diz que bate na sua fofa, dá-lhe rasteiradas e deixa-a fungulida. Isso não é amor, é só violência e sentimento de posse.

Maio Copé canta: "kusta n' bafa mindjer, ma n' ten di toma noiba". Não, se bafares uma mulher é para seres preso, não é para casares com a pessoa que violaste. Ahdeuss! Então é assim? Isso reduz a mulher a um objeto conquistável enfiando-se nele o pénis.

Vi mulheres a dançar e a cantar "bo rastam, bo lebam", e pensei se não deviam ficar preocupadas, falei com uma amiga e ela respondeu: "não é sobre mim". É verdade, não era sobre ela.

Lembro-me de uma música de Tino Trimó que dizia "si dinheru sta ba na po, mindjeris na kasa ku santchu", ideia que é ainda veiculada na Guiné. Até o meu irmão mais novo de 20 anos que não tope nem "koko na kadera" (não tenho problemas com palavrões), também diz que as raparigas de Bissau só querem dinheiro. E ele tem muitas namoradas e nenhum dinheiro. Se as mulheres só quisessem dinheiro, mais de 80% dos guineenses seriam virgens. E os jovens então, uiiiiiiii... Na altura dessa música do Tino, lembro-me de uma tia responder, quando alguém perguntou por que as mulheres gostavam do Tino se ele falava mal delas: "Ele canta bem [e canta e como!] e é sobre outras mulheres, eu não sou assim".

É sempre sobre outras mulheres, mas quando o estereótipo pega, nenhuma mulher fica de fora, e quando o mal se espalha, todas as mulheres sofrem, e com elas a sociedade.

Ussumane Grifom escreveu um artigo sobre este tema de músicas problemáticas e relacionou a causa com a falta da educação formal (escolas). Eis a coisa, precisamos de nos reeducarmos formal e informalmente, e discutirmos cada vez mais estes assuntos.

 


25 de abril de 2021

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 7)

25 de Abril – a revolução d’escravos

 

Todos os anos, mas todos os anos, no 25 de Abril, os tugas entram na rua para comemorar a Revolução d’Escravos, mas coitados, acho-os tão confusos que nem entendem as suas próprias datas.

É assim, os tugas disseram que o 25 de Abril de 1974, foi o dia da Revolução d’Escravos, que os capitães do Abril foram tomar o poder lá na Grândola da Vila Morena, porque o povo ordena. Na verdade, o povo nada ordena, o povo é ordenado, porque os tugas não conseguem fazer nada por si mesmos, precisam sempre e têm mania de capitães, os quais adoram e até lhes fazem estátuas. Quando chegaram ao Brasil tinham um capitão, à Guiné, outro capitão, ao Moçambique, mais um capitão, e na Madeira é o Cristão Ronaldo o capitão.

Os tugas dizem: 25 de Abril de 1974 é a revolução que trouxe a democracia para o país, e é aí que eu fico confuso… mas então e o PREC?, e o Verão Quente?, e o 25 de Novembro de 1975?

Vou explicar tintins por tintins.

O PREC era um ogroooooo… hmmmm, desculpa, esse era o Shrek.

Quando no 25 de Abril se fez o primeiro golpe de estado… desculpa, revolução, golpe de estado é coisa de terceiro mundo… a revolução fez instalar no poder um bando de comunistas que diziam: “o povo é que mais ordena, portanto vamos tirar dos ricos e distribuir aos pobres”. Os ricos disseram: “calma aí, que história é esse de PREC pra aqui e PREC praí, o povo que vá ordenar lá no seu quintal e não entrem nas nossas propriedades que herdamos honestamente com a ajuda da ex-monarquia e do Santo António Salazar”. E a Igreja disse: “os únicos Antónios que reconhecemos como santos é o Santo António Vieira dos meninos índios, o Santo António do menino Jesus, e o Santo António Salazar… quanto ao António Spínola, já vamos ver, se ele se converter, santificamo-lo.” Claro que o Spínola se converteu, pois a coisa não fluía como ele queria, e ele intentou um novo golpe contra o primeiro que tinha dado... uma revolução em Março de 1975, que não correu bem.

O tio Paulo Bano Bajanca disse-me que os Capitães de Abril na verdade estavam mais preocupados com a sua própria vida, a sua posição (estava-se a criar demasiados capitães) e o problema de salário, e que foi isso que motivou o golpe (mas avisou-me para que não dissesse isso em voz alta em público, porque hoje os capitães são sagrados e algum jihadista tuga poderá atacar-me).

O tio Paulo Bano ainda disse que os capitães de Abril estavam na Guiné, no Moçambique e em Angola (a sua maior parte na Guiné, onde começou tudo), e os que eles chamam turras estavam a complicar-lhes a vida seriamente e a anular-lhes a vantagem tática militar, e eles começaram a questionar a "sustentabilidade" da Guerra. Se estivessem a ganhar a guerra, continuariam a ser capitães de todos os meses, mas lá nas áfricas. E enquanto eram apenas os soldados limpa-pias, miúdos brancos pobres e os pretos pobres alistados, que morriam, não havia problema, dava para continuar a ser capitão, mas quando milicianos alegadamente começaram a ser nomeados capitães, a coisa começou a feder, os que viriam a ser os de Abril disseram: “Então, pá, que história é esta, pá, estão a estragar a classe, pá!”, e depois quando não lhes quiseram dar salários mais chorudos eles disseram: “Foda-se, Marmelo Rebel… Marcelo Catana, pá, estás a cortar em tudo, pá, pensas que és o Caço Coelhos ou quê, pá? Mau, mau, menino. Vamos dar-te um golpinho, pá, ai, vamos. Não sabes que não se deve meter com os militares e com os ricos, pá, ou queres levar com uma revoluçãozinha, pá?” O Marcelo Catana, padrinho do nosso Marmelo Rebelde, como não estava atento, foi ele mesmo cortado, pumba, toma, 25 de Abril. Meteram-se com os militares, golpe de estado, queriam o quê?

Mas aí é que está a cena, não era nenhuma Revolução d’ Escravos, mas da burguesia militar ... alguma vez soldados limpa-pias fizeram golpe? Hmmmmm! O golpe depois foi sequestrado pela burguesia civil. O Zé Povinho tem lá tempo para revolucionar, ele continua escravo.

Mas é verdade que havia bons capitães, com ideais mais nobres e mais sociais do que a mera questão do salário e da classe. Até havia capitães comunistas que queriam abolir mesmo a classe. E esses juntaram-se lá com os comunistas e começaram a tomar tudo dos ricos e os grandes donos do dinheiro, amigos do Santo Salazar, bazaram para o Brasil, outros converteram-se imediatamente ao comunismo, para escapar à inquisição e começaram a gritar: “Viva a revolução! Viva a revolução!”.

Então os gajos dos PREC disseram-lhes, “uiiii, ainda bem que concordam, precisamos das vossas terras e dos vossos prédios por causa dos retornados que estão a chegar em catadupa. E queremos criar sindicatos para que possam receber melhores salários e não serem assim tão explorados!”. Os gajos do PREC ainda disseram “ouve lá, tipo a nossa cena é muita cool e tipo muita alternativo, tipo meio hippie, meio yuppie, meio hipster, tipo, sabem, tipo não queremos um socialismo tipo CCCP (Cuidado Com os Camaradas do Partido), nem uma cena tipo capitalista, mas, tipo, vamos fazer um socialismo tipo democrático, tipo o de Bernie Sandes, aliás, tipo, não se esqueçam que tipo até fizemos eleições já!".

Então os ricos recém-convertidos, disseram: “Porra, pá, a revolução é bem-vinda, pá, mas que fique longe das nossas posses, pá. Estão a dar as nossas coisas aos retornados, pá, e eles, pá, nem são portugueses de verdade, pá! Fechem as fronteiras, pá, eles que voltem para as suas terras, pá. Precisamos de uma nova revolução, pá".

Então apareceu o Super Mário Só Ares, como salvador dos ricos (ele mesmo, como o Marmelo Rebelde de Sousa, filho de um antigo ministro das colónias), criou uma fundação que foi financiada pelos americanos da TIA que tinham vindo cá passar um Verão Quente em 1975, com barcos e tudo (o que inspirou o Paulo Tortas a comprar submarinos e o Sócrático a ir passar o verão em França, financiado pela MÃE), e pumba, toma, 25 de Novembro. Meteram-se com os ricos, revoluçãozinha, queriam o quê?


(Os tugas e o 25, meu!, desde que Jesus começou essa moda em dezembro, pegou seriamente)!

Com o 25 de Novembro de 1975, ano e meio depois do 25 de Abril de 1974, a segunda revolução, correram com os comunistas do poder, estes ficaram nos sindicatos. Disseram que os comunistas estavam a comunistar o país e que iriam torná-lo numa Correia do Norte ou numa Venezuela de Está Ali Né (ou Esta Aline, o tio Paulo Bano não sabe como se pronuncia), e que isso não era democrático, pois os comunistas começariam a comer criancinhas (isto já foi a Igreja preocupada com a concorrência). O democrático é deixar os ricos manterem as suas posses e os pobres, o proletariado e os retornados que se fodam, afinal por que não escolheram nascer em bons berços, ou por que fizeram um pé-de-meia em vez de bolsos fundos protegidos pelo Estado? A Igreja, os Espíritos Santos, os Chupalimões, os Souteu Mayor, entre outros, recuperam os seus poderes e a sua influência e continuaram na berra, a lixar o povo desde então.

Eis a razão porque não entendo essa história de que o 25 de Abril foi a revolução que trouxe a democracia, pois pelo visto, ele iria trazer mas sim o comunismo do Esta Aline. Sendo assim, logo foi o 25 de Novembro que trouxe a democracia. O 25 de Abril ainda falou do povo, mas os que ficaram com o poder depois do 25 do novembro, só falaram do dinheiro.

Imaginem que em 2021, hoje, chegasse uma massa de portugueses como a quantidade dos retornados que veio depois do 25 de Abril, sem os comunistas e os esquerdalhas para os acolher, morreriam todos afogados no mediterrâneo.

Se a revolução do 25 de Abril foi contrarevolucionada pelo 25 de Novembro, porque se fala ainda do 25 de Abril?

Se o 25 de Abril foi a Revolução d’ Escravos (o que duvido muito), e é representado pelos cravos, o 25 de Novembro é então a Revolução dos Donos d’ Escravos, representado pelo algodão(?). Ahhhhh, agora entendi, o primeiro soa melhor e é mais publicitável. Por isso foi sequestrado pelos contrarevolucionários capitalistas.

Agora andam por aí a dizer que o 25 de Abril foi para libertar as colónias, ui, que nobreza, e para acabar com os escravos e outras cenas de opressão, mas como escreve aí um amigo de um conterrâneo meu, chamado Apolo do Caralho:

"Se por revolução se intende 'rotura radical', em que medida um acontecimento pode assim ser chamado se mantém tantas coisas do passado como por exemplo um hino e uma bandeira erguendo inclusive, esses símbolos, à qualidade de 'dogmas' constitucionais que ninguém pode contestar sob pena de punição? (...) Se por revolução entendemos momento de acertar as contas e construir novos pactos, porque razão os criminosos de guerra não foram julgados? Se entendemos que uma verdadeira revolução só o povo pode fazer, só ele é autor, porque razão tantos títulos de 'heróis' são atribuídos a militares tão só?"

Se Spínola tentou um golpe contra o golpe que lhe deu fama, e se houve outro golpe que golpeou o golpe de Spínola, por que ele é visto com um revolucionário e herói português?

 

Ai que confusão! Vou colocar a cabeça em gelo e escrever um pedido de desculpa formal aos jihadistas nacionalistas portugueses.


12 de março de 2021

LEI DE KON: A RAIZ DA VIOLÊNCIA (cronices crónicas)

NÃO, NÃO e NÃO! NÃO FOI ASSIM. VIOLÊNCIA NÃO É EDUCAÇÃO!

Já me cruzei com esta imagem (e outras similares) em vários lugares na internet, com pessoas a enaltecerem isto como boa educação. Mas olhemos atento para a imagem e leiamos a violência que emana.

Violência não é educação, nunca foi e nunca será. Se violência fosse educação, por causa daquilo que passamos na mão dos tugas teríamos sido dos povos mais educados do mundo. Essa fala de que “apenas o sute endireita o guineense” é mais uma daquelas estupidezes que repetimos sem sequer pensar.

O sute nunca endireitou ninguém, o sute nunca educou ninguém. O que o sute faz é criar submissão e medo, não respeito, medo. O sute faz as pessoas dobrarem-se ante o medo e não aceitarem erguidas a razão. E o sute é um dos maiores problemas da nossa sociedade guineense, senão o maior.

Somos educados com mantampa. Mantampeados e tcherninhados por dá cá aquela palha, desde crianças é-nos ensinada a “LEI DE KON”: o kon maior bate no kon menor, e assim progressivamente. Mesmo entre os kons duvido que essa lei funcione, mas nós não somos nenhuns macacos, somos humanos, com maior capacidade de reflexão e de pensamento… bem, olhando para o estado do mundo, tenho dúvidas sobre esta minha afirmação… ohhhhhhkay… temos alegadamente maior capacidade de reflexão, portanto, já era mais que tempo para começarmos a reformular determinados conceitos que claramente não funcionam.

A violência na qual somos educados, que na sua maior parte é gratuita e desproporcional, não é nada mais do que a incapacidade dos nossos educadores lidarem com a sua frustração. Pessoas mantampeiam crianças que estão a chorar, ao mesmo tempo que dizem “para de chorar, para!, cala a boca!”, mas como elas vão parar de chorar se estão a bater nelas? Já vi educadores a baterem em crianças bem pequenas, porque não querem comer ou por outra razão qualquer e julgam que estão a educar. Mas, vamulá, se mesmo a conversar com essas crianças será difícil fazer-lhes entender o porquê de não fazer certas coisas, muito menos elas irão entender o problema do que fizeram batendo apenas nelas.

Algumas pessoas já me disseram, quando discutimos este assunto, “eu concordo com mantampas, a mim foi o sute que me endireitou” e eu pergunto-lhes sempre: “mas o que estava errado antes?”

Eu, por exemplo, quando ia brincar com os colegas e voltava depois da hora do almoço, levava tareia lá em casa. Sim, evitava chegar depois do almoço para não levar tareia. Mas se calhar, proibirem-me de comer podia ter sido mais eficiente, eu sei lá (comia na casa dos amigos). A cena é que, como sabia que já tinha sute à espera, quando a hora do almoço, que variava muito, me apanhava na rua com os amigos, eu já só voltava à hora do jantar, porque sabia que a tareia era inevitável… ao menos não interrompia as minhas brincadeiras e brincava muito antes. (Depois fazia todo aquele ritual de pedrinhas para escapar do sute: uma debaixo da língua para colocar no pote de água, outra para atirar pelas costas quando estava perto da casa sem olhar para trás e coisa assim… que muitas vezes resultava).

A questão da violência não é específica apenas aos educadores, mas a toda a nossa sociedade que vive sob a “LEI DE KON”. Os mais velhos (mais fortes) batem nos mais novos (mais fracos) sem precisarem de outra razão fora de porque podem, na discarna mesmo. Um miúdo parado no meio do caminho pode levar a coquida de um adulto só porque está parado e ele quer passar, mesmo que o adulto pudesse desviar-se facilmente. O que faz o miúdo que foi coquido? Vai à procura de um outro miúdo mais fraco para, por sua vez, coquir também. E de repente vemos um miúdo de dois anos a riquitir um bebé de dois meses, e dizemos que não entendemos a razão do beliscão? É agressão transferida.

Os pais são agredidos pelos patrões, que são agredidos pelo Estado, e frustrados, sem poder dar respostas, vão bater (na mulher, no marido”?”) e nos filhos, e os filhos nos irmãozinhos, e então a “LEI DE KON” é padronizada dessa forma.

Professores batem nos alunos, com palmatórias de madeira, mantampa de serra, cinto, chicote, porque estes confundiram o P com R ou com o B. Eu fui obrigado várias vezes, quando aluno de primária, a ficar de joelhos sobre cascas-de-karus ou pedrinhas, não porque não sabia as lições, mas porque chupava os meus dedos, e diziam que eu já tinha idade mais que suficiente para deixar de chupar os dedos (chupei-os até aos nove, e só parei porque a certa atura deixou de saber bem, nenhum sute me impediu de os chupar)… os meus dedos… os meus próprios dedos… vá, se andasse a chupar os dedos de outras pessoa até poderia entender, e tenho a certeza de que me matariam se ao invés dos dedos eu andasse a chupar o pé… eeeeeeeepá.

Somos educados no sute, na “LEI DE KON”, e não conhecemos outra coisa e aceitamos isso como parte nuclear da educação, e aceitamos a hierarquia violenta inerente dessas práticas. Por isso, sempre que nos tornamos poderosos, oprimimos os outros e achamo-nos no direito de o fazer: filhos que oprimem os próprios pais quando envelhecem; polícias e militares que não sabem o seu papel e pensam que é bater nas pessoas; o “n’ na mostrau bu lugar”; governantes que acham que podem mandar prender e bater nos outros porque têm esse poder (que não consta em nenhumas das nossas leis escritas); e o povo que aceita tranquilamente o exercício desse tipo de poder (não só violência física), porque “eeeeeeeeee, pa pa pa pa pa, abo bu na kirtika nan sefi!”.

Não, violência não é educação. A “LEI DE KON” é estúpida e vazia. Se o sute fosse educação teríamos o melhor povo de mundo e o Prémio Nobel da Educação iria para.

 

7 de março de 2021

PEQUENA LONGA VIAGEM DA LITERATURA GUINEENSE

 

 

 

PEQUENA LONGA VIAGEM DA LITERATURA GUINEENSE

ELISEU JOSÉ PEREIRA IÉ


 

Rio de Janeiro

Julho de 2019

 



Orientador: Prof.ª Dr.ª Maria Teresa Salgado Guimarães da Silva

Coorientadora: Prof.ª Dr.ª Moema Parente Augel

                                                                                                     


Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas na área de Literaturas Portuguesa e Africanas.

 

 

 Os autores existem, a produção literária existe, é forte e bela, e é urgente que ela se torne conhecida e divulgada, tanto no país como no exterior.

Moema Parente Augel, pesquisadora da Literatura guineense, em Kebur: Barkafon di poesia na kriol,

 

 

RESUMO

 

A presente dissertação investiga o processo de formação da literatura da Guiné-Bissau desde as produções da tradição oral até a escrita, com o objetivo de dar visibilidade às obras de escritores guineenses, assim como à história e à cultura do país. Cumpre ressaltar o nascimento tardio da escrita literária na Guiné-Bissau. Interessa-nos abordar as dificuldades de afirmação que os escritores guineenses enfrentam em relação a outros escritores africanos que escrevem em língua portuguesa. Procuramos entender as dificuldades da literatura guineense em relação à sua divulgação no seio das comunidades de língua portuguesa. Isso acontece, por exemplo, no Brasil, onde muitas vezes ela é considerada como manifestação literária, e não como literatura propriamente dita. Além disso, os escritores da Guiné-Bissau quase não são lembrados nas dissertações e teses de doutorados e muito poucos são solicitados para conferências e congressos internacionais. Pode-se afirmar, depois de anos de pesquisas sobre a literatura guineense de língua portuguesa, que há dificuldades de encontrar materiais que despertem o interesse e auxiliem pesquisadores que queiram trilhar esse caminho de investigação. Na tentativa de contornar essas dificuldades, apresentamos como corpus literário as obras de escritores que consideramos relevantes, e que merecem ser difundidas tanto no Brasil quanto em outros lugares do mundo. A literatura guineense possibilita ao leitor aprender muito sobre a história, a cultura, as adivinhas, os provérbios e as superstições do país. A maneira fascinante como a maioria dos escritores usa o crioulo nos textos literários, a preocupação em dar destaque para a história e a cultura local ajudam a preservar a língua e torná-la cada vez mais viva para gerações futuras. Espera-se que nossa pesquisa contribua para trazer reflexões que quebrem as barreiras de preconceitos e estereótipos e auxiliem na criação de novos olhares e posturas em relação à literatura guineense. Desejamos que os estudantes brasileiros, pesquisadores de diversas áreas da literatura, se interessem pela nossa história, a nossa cultura e outras formas de conhecimentos que enriquecem a formação humana.

 

Palavra-chave: literatura guineense; história; cultura, valorização.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RESUMÉ

Cette dissértation a comme objectif la recherce du processus de la formation de la littérature de la Guinée Bissau dès les productions des tradictions orales jusqu'à l' écrit dont le but c'est de donner la visibilité aux Œuvres des écrivains guinéens ainsi comme à l' histoire et à la culture du pays. Il faut souligner la naissance tardive de l'éctit littéraire en Guinée. Il nous intêresse aussi d' aborder les difficultés d' affirmation que les écrivains guinéens rencontrent em relation aux autres écrivains africains qui ecrivent em langue portugaise. Ce que l' on cherche à comprendre ce sont des difficultés littéraires guinéennes en relation à da divulgation au sein des communeautés de langue portugaise. Et ça arrive par exemple au Brésil oú souvent elle est considérée comme manifestation littéraire et pas comme littérature correctement dite. En plus on ne souvient pas des écrivains guinéens dans les thèses et memoires de maîtrise et même peu d' entre eux sont au moment des conférences et des congrès internationaux. Notre but c'est d' eveiller l' intérêt des étudiants brésiliens et rechercheurs de plusieures branches de la littérature et qu'ils s' intéressent aussi à notre culture, notre histoire et à d' autres formes de connaissances qui enrechissent lá formation humaine. Tout ce que l' on peut affirmer tout au long des anées de recherches sur lá littérature guinéenne c' est qu'il y a des difficultés à trouver des sujets intérressants qui aident les chercheurs qui veulent suivre ce chemin de la recherche. En essayant de contourner ces difficultés nous présentons comme corpus littéraire les œuvres des écrivains considérées pertinents et cela merite d' être repandu au Brésil et ailleurs dans le monde. La littérature guinéenne permet au lecteur d’en apprendre beaucoup sur l’histoire, la culture, les énigmes, les proverbes et les superstitions du pays. Lá manière fascinante dont la plupart des écrivains guinéens utilisent le créole dans les textes littéraires et leur souci de mettre em valeur l' histoire et la culture locale aide à conserver la langue et à la rendre de plus en plus vivante por des générations futures. Nous esperons que notre recherce contribuera à susciter des réflexions qui brisent les barièrres, des préjugés, des stéréotypes et aide à créer des nouveaux regards et des nouvelles postures par rapport à la littérature guinéenne.

 

Mots-clés: Littérature guinéenne; l'histoire; culture, valorisation.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

DEDICATÓRIA.. 4

AGRADECIMENTOS. 5

RESUMO.. 7

LISTA DE ABREVIATURAS. 11

INTRODUÇÃO.. 1

 

CAPÍTULO I. 6

CONTEXTO HISTÓRICO, GEOGRÁFICO E SOCIOPOLÍTICO.. 6

1.Enquadramento histórico e social do país. 6

1.1.Cultura guineense: um tronco repartido em vários ramos. 12

1.1.1.Língua: acervo da memória coletiva. 16

1.1.2.Literatura guineense: silenciamento e ausência. 23

 

CAPÍTULO II. 35

CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO CULTURAL GUINEENSE.. 35

2.Adivinhas: um espaço de reafirmação de comunhão entre os mais velhos e os mais novos.........................................................................................................................................35

2.1.Provérbios: um jogo de palavras para pensar à sociedade. 42

2.2.Contos orais guineenses – o nosso contar de cada dia. 47

2.3.O conto escrito guineense. 53

2.4.Poesia: a voz dos oprimidos. 71

 

CAPÍTULO III. 88

DA LIBERDADE DA PÁTRIA AO DESENCANTO DA PÓS-INDEPENDÊNCIA.. 88

3.Amílcar Cabral e a breve história do PAIGC.. 88

3.1.Poesia de combate - nomes e destaques. 98

3.2.Golpes de Estados: visões da pós-independência. 112

 

CAPITULO IV.. 122

AFIRMAÇÃO DA LITERATURA GUINEENSE: FORÇA, DENÚNCIA E FRUSTRAÇÃO.. 122

4.Filinto de Barros: a ilusão da independência em kikia Matcho. 122

4.1.Tony Tcheka: a imaginação da pátria em Noites de insônia na terra adormecida.....................................................................................................................127

4.2.Abdulai Sila: uma visão da realidade social guineense em Mistida. 143

3.3.Odete Costa Semedo: a sua maneira viva de contar estórias em djênia – Histórias e passadas que ouvi contar. 159

3.4.Rui Jorge Semedo: a voz do novo tempo em Stera di tchur. 171

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS. 177

REFERÊNCIAS. 180

ANEXOS. 185

Entrevistas com Tony Tcheka. 185

Entrevista com Abdulai Sila. 191

Entrevista com Moema Parente Augel 195

 

CRONOLOGIA CULTURAL: EDUCAÇÃO, LITERATURAS, JORNAIS; EDITORAS, CINEMA, ARTE.. 200

 


LISTA DE ABREVIATURAS

 

AEGUI: Associação dos Escritores da Guiné-Bissau

APGB: Antologia Poética da Guiné-Bissau

CEI: Casa dos Estudantes de Império

EAGB: Empresa de Eletricidade e Águas da Guiné-Bissau 

FLING: Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné-Bissau

HIV: Vírus da imunodeficiência humana

IIJB: Instituto Internacional de Jornalismo de Berlim

INEP: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa da Guiné-Bissau

MADEM-G15: Movimento de Alternância Democratica

MPLA: Movimento Popular de Libertação de Angola

PAIGC: Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde

PALOP: Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

PEN:´Poetas, Ensaístas, Novelistas      

PIDE: Polícia Internacional da Defesa do Estado Colonial Português

RENAJ: Rede Nacional das Associações Juvenis da Guiné-Bissau

SGA: Sociedade guineense de Autores

UM: União Para a Mudança

UE: União Europeia

UNAE: União Nacional de Artistas e Escritores da Guiné-Bissau

UNESCO: Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura

UNILAB: Universidade de Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira

UNU: Organização das Nações Unidas

 

 

 

 


INTRODUÇÃO

Nasci e fui criado na Guiné-Bissau, na atual capital Bissau. Aprendi a língua materna (pepel ou papel) em casa com meus pais e avós. Na rua, aprendi o crioulo e, na escola, aprendi a conjugar os verbos em português e a respeitar os tempos nas normas exigidas pelos “donos da língua”. A minha paixão pela literatura começou desde a infância, lendo as obras literárias, principalmente as poucas obras dos escritores guineenses às quais eu tinha acesso. Apaixonei-me pela literatura dos pequenos livros que eu lia desses escritores pouco conhecidos nas comunidades de língua portuguesa. As escritas deles pareciam dominar a minha alma, tornando-me mais maduro e crítico na minha maneira de enxergar o mundo.

Quando me aproximei das poesias de Hélder Proença, autor já falecido, me encantei com suas palavras poéticas – que demonstravam, na maioria dos versos, a coragem e importância de sonhar e de ter certeza nos dias de amanhã. Li Agnello Augusto Regalla, um homem culto, infelizmente mais lembrado como um político do que como um poeta. Quando conheci seu poema, intitulado “Camarada Amílcar”, disse a mim mesmo que um dia queria escrever algo parecido. Também abri várias páginas do livro Garandesa di no Tchon, de Francisco Conduto de Pina. Apesar de ser um caderninho de poemas, esse pequeno livreto foi considerado a primeira obra individual de um escritor guineense; ali deparei-me com um grito de uma memória coletiva. Tive também acesso, enquanto jovem, embora pouco, à obra de Felix Sigá. Suas poesias me ficaram como marcas de tempos sufocados e antena da vida cotidiana dos guineenses.

Outro poeta que conseguiu me transmitir a dureza do viver guineense foi Tony Tcheka, autor que sempre encantou e continua a me encantar com os muitos e variados aspectos sociais que as suas poesias apresentam do nosso país. Li quase todos os textos de Odete Costa Semedo; senti o poder que oralidade exerce nos seus escritos. Já adulto, passei por um novo amadurecimento quando conheci as obras de Abdulai Sila e sua a trilogia romanesca, que mostra a Guiné-Bissau de forma surreal. Sila é considerado o primeiro romancista guineense, com os romances Eterna Paixão, publicado em 1994; A última tragédia, de 1995, e Mistida, de 1997. As obras de todos esses autores enriqueceram meu coração e minha alma, me permitindo entender, de fato, o valor e a história do meu povo no passado, a fim de que eu pudesse projetar novos caminhos para minha própria história.

Acreditamos que é através das palavras que desenhamos o mundo. O caminho se faz por onde passamos. O desejo de escrever sobre a literatura guineense veio de várias circunstâncias e de várias leituras. Como tenho dito em muitas ocasiões, a situação da nossa literatura no mundo lusófono, na própria Guiné e no Brasil sempre me preocupou. Como demonstram as palavras de Hildo Honório Couto e Filomena Embalo:

Ouve-se falar muito mais em Angola, Moçambique e Cabo Verde do que em Guiné-Bissau. Intelectuais e escritores como José Craveirinha, Mia Couto, Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Baltazar Lopes e Germano Almeida são frequentemente lembrados  no Brasil. No entanto, muito pouca gente já ouviu falar em Tony Tcheka, Abdulai Sila, Pascoal D’Artagnan Aurigemma, Carlos Lopes e Odete Semedo (COUTO; EMBALO, 2010, p. 15).

 

Reconhecemos a existência de poucos autores guineenses que escrevem livros de literatura. Como afirma a crítica literária guineense, Moema Parente Augel:A divulgação de uma literatura se faz tanto pelas obras quanto pelo discurso crítico sobre elas e seus autores” (AUGEL, 2007, p. 44). Também reconhecemos que há dificuldade para encontrarmos as obras desses escritores. Há mais de dez anos no Brasil e na universidade Federal de Rio de Janeiro, tenho reparado que, apesar dos esforços de alguns pesquisadores, há ainda pouca visibilidade da literatura guineense no Brasil.[1]Sempre que tive oportunidade para falar das literaturas africanas de língua portuguesa, nunca deixei de questionar a ausência dos escritores guineenses e são-tomenses, tanto em congressos, quanto em palestras ou lançamentos de livros. Ou seja, procurei sempre debruçar-me sobre as trajetórias literárias desses escritores, acreditando que é urgente estimular os estudos de literaturas guineense e são-tomense dentro das instituições acadêmicas brasileiras.

A minha maior inspiração na entrada do curso de mestrado, sem dúvida, foi o interesse de divulgação da literatura guineense no Brasil. Quando apresentei meu pré-projeto aos colegas da área, ele foi recebido com agrado. No entanto, a ideia de fazer um estudo historiográfico da literatura guineeense não partiu de mim, mas, sim, da professora Cinda Gonda, que, também, sentiu a importância de se dar mais projeção a uma literatura, cujas obras e autores são pouco discutidos no espaço acadêmico brasileiro.

Quando decidi elaborar essa Pequena longa viagem da literatura guineense sabia que o caminho a percorrer não seria fácil. Sabia que teria um caminho árduo pela frente, pois há grandes dificuldades de acesso às obras literárias de autores guineenses no Brasil. Há também grandes dificuldades de publicação das obras guineenses tanto na Guiné-Bissau quanto fora dela. Quando as obras conseguem ser publicadas, por exemplo, muitas vezes as tiragens não ultrapassam 500 exemplares. Além disso, com intuito de rápida publicação, os textos de boa parte dos escritores, algumas vezes, não apresentam consistência e amadurecimento literário e, com alguma frequência, encontramos problemas de redação nas obras publicadas em tais condições de urgência. Tudo isso observamos com grande atenção durante a pesquisa. Mas a coragem e o desejo de trilhar essas veredas, mesmo ciente das ciladas que elas possam apresentar, levaram-me a continuar a caminhada.

Um dos maiores objetivos da nossa investigação é quebrar as barreiras de preconceitos e estereótipos, aos quais a literatura guineense está subjugada. Desejamos, com nosso trabalho, contribuir para que os pesquisadores e interessados pela literatura guineense possam perceber, mais claramente, a sua importância e riqueza. Procuramos refletir, e entender através do espaço e tempo as razões de desenvolvimento tardio dessa literatura, assim como a ascensão dos seus autores nos cenários de língua portuguesa. Na tentativa de demonstrar a importância do estudo da literatura guineense, em comparação com outras literaturas de países de língua portuguesa, destacamos, mais adiante, alguns dos seus autores mais conhecidos, cujas obras, apesar de já terem recebido o aval da crítica literária e da comunidade acadêmica, permanecem pouco conhecidas. Ouso, mesmo, dizer que tais obras e autores guineenses permanecem quase invisíveis, se os compararmos com o que acontece com a produção literária dos demais dos países de língua portuguesa, como Angola, Moçambique e Cabo Verde.

Não há dúvida de que toda literatura possui um estreito relacionamento com as culturas locais. Por isso, não podemos isolar a literatura da cultura. Isso é básico, principalmente, no que se refere à Guiné-Bissau, onde a cultura respira com mais intensidade do que a literatura. É, pois, importante conhecer a cultura guineense, pois ela se apresenta como elemento de grande força, o que a torna uma espécie de arma de resistência do povo. Não duvidamos, também, que a literatura guineense tem o poder de nos levar a entender o imaginário cultural guineense. Isto é, por meio da literatura, conseguimos nos aproximar das diversas culturas de diferentes ramos étnicos no país.

Dentro dos contextos guineenses, levando em conta as suas ricas tradições locais, não podemos deixar de enfatizar a cultura como um caminho vivo para inspirar e motivar a literatura guineense. E, quase sempre, pela literatura, chegamos a um grande entendimento das culturas locais. Por isso, abordaremos, com muita atenção e cuidado, as diversas formas e manifestações de diferentes culturas étnicas do país. Como afirma Moema Augel, “o sentimento de pertença é, pois, sedimentado por variados componentes, entre os quais a cultura é da maior relevância. Convencida de que o conceito de identidade cultural assume uma posição central na análise da literatura guineense, procuro recompor a malha dos símbolos identitários reveladores da guineidade (...)” (AUGEL, 2007, p. 41). Todas essas ideias em relação ao diálogo da literatura com a cultura guineense são essenciais para a estruturação do corpus da presente obra. Elas serão sustentadas nas obras dos autores que serão aqui elencados, tanto nas criações poéticas, como nas criações ficcionais guineenses.

O título que demos ao presente trabalho, Pequena longa viagem da literatura guineense, pretende sugerir várias leituras. Primeiro, como referimos anteriormente, aponta claramente para a situação em que se encontra a literatura guineense, pouco conhecida e lida nas comunidades dos países de língua portuguesa, principalmente no Brasil. Reconhecemos, também, que, além de ser pouco lida, a literatura guineense é pouco estudada e divulgada, o que se justifica, apenas em parte, pela sua história literária bem recente. Nosso título nos leva a imaginar um pastorzinho que, tendo nas mãos apenas uma pequena vara, pretende fazer longas viagens. Tal imagem me vem à cabeça, pois ela não só remete a uma vivência da cultura guineense, mas nos leva a pensar na força que pode existir no que parece pequeno e fraco. Longa viagem, por fim, porque entendemos que, apesar de pequena, a literatura guineense tem muito a oferecer, especialmente no que se refere a uma longa história de resistência.

Para essa viagem contínua, optamos por dividir o trabalho em quatro capítulos e subcapítulos. No primeiro capítulo, trataremos do contexto histórico, geográfico e sociopolítico, seguindo as lições de Antônio Candido (CANDIDO, 1986), pretendemos mostrar como a história, a cultura e a sociedade nos ajudam a entender a formação da literatura guineense. Para reforçar a nossa ideia, convidamos, também, Hildo Honório Couto e Filomena Embalo que nos ensinam que: “Uma boa maneira de preparar o terreno para a discussão sobre a cultura, as línguas e as literaturas da Guiné-Bissau é apresentando um esboço histórico do país” (COUTO; EMBALO, 2010, p. 15).

Por isso, trazemos reflexões históricas de diferentes momentos da colonização portuguesa: como a criação do partido PAIGC, (1956), o massacre de Pindjiguiti, (03/08/1959), a luta de libertação nacional (início 1963), a independência do país (1973) e os sucessivos golpes de Estados após a independência do país – razões de grandes problemas internos na Guiné-Bissau, caracterizados no desenvolvimento lento em termos sociais, econômicos e políticos. Nesse mesmo capítulo, com o objetivo de acompanharmos amplamente a riqueza cultural da Guiné-Bissau, apresentaremos um panorama histórico da literatura produzida durante a colonização. Ainda que nem todos os autores tenham influenciado diretamente os precursores da literatura guineense, muitos nomes, como Fausto Duarte, foram fundamentais para as bases da literatura do país. Abordaremos, ainda, de uma maneira geral, as mestiçagens linguísticas nos textos de escritores guineenses, assim como a convivência de diversas línguas étnicas em um espaço comum, tendo como a língua de comunicação a língua crioula.

No segundo capítulo, intitulado “Construção do imaginário cultural guineense”, debruçamo-nos sobre as manifestações da literatura oral. Também observamos a sua contribuição na manutenção das tradições locais e na preservação da memória coletiva. Nesse capítulo, destacamos as importâncias das advinhas, dos provérbios, das estórias e das poesias como marcas da identidade da nação guineense.

No terceiro capítulo, denominado “Da liberdade da pátria ao desencanto da pós-indepêndencia”, destacamos Amílcar Cabral, como herói e mentor da independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, e mostramos também o peso da sua personalidade no cenário mundial e na história político social guineense. Observa-se, ainda, que a criação do partido PAIGC ajudou na unificação em todo esse processo de luta armada. Os poetas (Vasco Cabral, António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral) são escritores destacados durante a luta de libertação nacional e ganharão também espaço no nosso corpus. Debateremos, ainda, os diversos golpes de Estados no país desde 1980 até 2012, pois eles constituíram fatores de grandes instabilidades política, econômica e social na Guiné-Bissau, com sérias consequências até os dias de hoje.

No último capítulo, intitulado “Afirmação da literatura guineense: força, denúncia e frustração”, trazemos reflexões críticas dos autores mais destacados no processo literário guineense. Suas obras retratam profundamente os grandes problemas sociais do país. Apesar de abordarem tais questões de maneiras diferentes, todos os escritores citados nesse capítulo dão relevância às profundas turbulências sociais e políticas da Guiné-Bissau.

 


CAPÍTULO I

CONTEXTO HISTÓRICO, GEOGRÁFICO E SOCIOPOLÍTICO

1.     Enquadramento histórico e social do país

A Guiné-Bissau é um país que tem uma parte continental e vários arquipélagos. Em seu litoral desembocam seus rios, entre os quais: Cacheu, Mansoa, Geba, Corubal, os maiores e mais caudalosos. A Guiné-Bissau tem uma extensão territorial bastante reduzida e apresenta uma complexidade étnica, linguística e cultural muito grande. A Guiné foi refúgio de numerosos povos que sofreram invasões durante muitos séculos. Esse fato teve como grande resultado a variedade linguística no seu território. É um país situado na costa ocidental da África, faz fronteiras ao norte com Senegal e ao sul com Guiné-Conacri, ambos os países ex-colônias franceses.

O topônimo Guiné teve sua origem no nome da cidade de Djeneé situada no atual Mali (COSTA e RESENDE, 1994). E o nome Bissau está ligado à história dos Beafadas, etnia que vivia na regiäo de Bissau, povo descendente de Mecau e de sua irmã Pungenhum. A Pungenhum, irmã de Mecau, foi-lhe garantida à sucessão matrilinear, que gerou o clã Intchassu, no plural Bissassu, que vem a dar nome Bissau. A família Intchassu é djagra [2]NANKE; por isso, é o único sobrenome comum entre Beafadas do interior e os chamados Papéis de Bissau (TEIXEIRA DA MOTA, 1989; SEMEDO, 2010). Guiné Bissau foi uma alternativa na pronúncia de DJENNÉ BISSASSU.

Segundo alguns historiadores, o país integra ainda cerca de 40 ilhas, denominadas “Ilhas dos Bijagós”; porém, a maioria delas é desabitada (SEMEDO, 2010, p. 52-53). Em relação à administração territorial, o país é dividido em três províncias: norte, leste e sul, e um setor autônomo de Bissau, atual capital do país. A província norte conta com três regiões, entre elas: Biombo, Cacheu e Oio. A província leste possui duas regiões: Bafatá e Gabú. A província sul, por sua vez, conta com três regiões: Bolama, Tombali e Quinará. Além dessas divisões em províncias e suas respectivas regiões, a Guiné-Bissau possui ainda mais de trinta e seis setores e secções, desde o período da colonização. Cortada por vários rios, dos 36,125 km² de superfície, somente 28,00 km² são habitáveis, estão em terra firme. (AUGEL, 2007).

O país livrou-se da colonização portuguesa, porém, não se livrou de analfabetismo. Logo que se tornou independente, em 1973, quase cem por cento da população era analfabeta (AUGEL, 2007). Segundo o censo de 2015, a taxa de analfabetismo é quase sessenta por cento[3]. O lugar da literatura se torna difícil nessas condições. Difícil, também, é o fato de termos poucas bibliotecas e não haver uma política de incentivo à leitura nas escolas públicas por parte do Estado. Ou seja, não há projetos de ensino aceitáveis para desenvolvimento da literatura no país. Esses são apenas alguns dos fatores que contribuem para a desvalorização da literatura propriamente dita. Como afirma Moema Augel, “O que existe, sobretudo, é o discurso autoritário, demagógico, pautado na glória nacional das lutas libertárias” (AUGEL, 2007, p. 27). Comparando a Guiné-Bissau com outros países da costa africana, vemos que ela possui uma extensão territorial muito pequena, com apenas 36.125km², e uma população de quase dois milhões de habitantes.

Falar da Guiné-Bissau, sem dúvida, é falar da história de um povo que foi martirizado e escravizado por colonos portugueses, ao longo dos séculos, e até hoje sofre as consequências do passado amargo que se reflete em um presente de muitas dores. Por isso, a Guiné-Bissau ficou muito tempo nas listas dos países mais pobres do mundo. A história nos conta que o país foi descoberto por navegadores portugueses em 1446, mais precisamente por Nuno Tristão, que, posteriormente, foi assassinado por ‘nativos hostis’, como referiu a estudiosa Moema Parente Augel, no seu livro: O desafio do escombro, assim como outros historiadores...

Nessa sua quarta viagem à “terra dos pretos”, encontrou a morte, tendo sido assassinado “por nativos hostis” com uma vintena de companheiros. O massacre teria sido na embocadura de um rio em algum ponto da costa ocidental, não claramente identificado. Entre as diversas hipóteses, ter sido na foz de um rio da Guiné, rio Geba ou rio Grande (AUGEL, 2007, p.52 apud SILVA, 2002, p.152).

Desde lá, o país viveu duros momentos sob opressão dos colonizadores portugueses. A história não morre, ela ainda registra que a Guiné-Bissau serviu para os colonos portugueses como mercado de escravos, ponto bem estratégico para melhor comercialização destes, vindos de diferentes partes da África ocidental. Faz sentido trazer as palavras da Odete Semedo para entender melhor esse período:

Convém ressaltar que para Portugal a Guiné não passava de um entreposto de comércio de escravos, um centro comercial e não uma colônia de assentamento. Parecia não haver intenção de se estabelecerem e desenvolverem práticas de uma vida sedentária naquele território. Mas, para fazer face às influências estrangeiras naquela zona e proteger o comércio de escravos, sobretudo para o Brasil, cria a ‘Companhia de Cacheu, Rios e Comércio da Guiné’, em 1676, por alvará de 19 de Maio, por António Bezerra e Manuel Preto Baldez. Essa companhia vai substituir, de certa forma, a desaparecida ‘Companhia do Porto de Palmida’ (LOPES, 1993, p. 257, apud, SEMEDO, 2010, p.56).

 

Em 1963, iniciou-se a luta armada pela independência do país, que durou onze anos, e veio terminar em 1973, com a vitória orgulhosa dos combatentes da pátria guineense. A partir dessa data, deu-se em todo território nacional a independência do jugo colonial. Mas é importante frisar que a independência só foi reconhecida em 1974, por parte do governo português. Depois da luta armada e após a independência do país, a Guiné-Bissau confrontou-se com muitos problemas internos. Houve então desavenças entre filhos de mesmo sangue, filhos da mesma terra, que outrora haviam pegado em armas e lutado por um objetivo comum: a libertação do colonialismo português. Tais divergências resultaram em muitas crises internas, uma das mais recentes foi a guerra civil de 1998 a 1999, entre o governo no poder e os rebeldes da época. A rebeldia foi liderada por Ansumane Mané, um dos amigos íntimos do ex-presidente João Bernardo Vieira (Nino Vieira). Recorro, ainda, à pesquisadora Moema Augel para obtermos mais detalhes:

Ansumane Mané, amigo íntimo e companheiro de armas do presidente Nino Vieira desde as lutas pela independência, tendo estado ao seu lado na tomada do poder em 1980, conhecedor profundo dos segredos militares do país (e das irregularidades da elite política e militar), não podia aceitar sem contestar tais acusações [...] (AUGEL, 2007, p. 67).

 

A Guerra de 7 de junho de 1998 não trouxe desenvolvimento à Guiné-Bissau, a não ser a desmoralizacäo, o desmonte político, e mesmo moral, desse país pequeno do Ocidente. A guerra sempre tem consequências. Todos os analistas políticos guineenses estão em concordância ao apontarem a guerra de 7 de junho como a causa principal de todas as divergências políticas posteriores. Divergências que muitas vezes culminaram com derramamento de sangue e sucessivos golpes de Estado. Vale ressaltar aqui que, desde a entrada do país na democracia em 1990, nenhum governo legitimo findou seu mandato. A Guiné-Bissau tem vivido desde sempre vários momentos de transição política e turbulência social.

Sabe-se que a democracia foi estabelecida, na Guiné-Bissau, a partir dos anos 90. E, dos anos 90 em diante, surgiram novos partidos políticos no país, alguns fundados nas décadas de 50, como, por exemplo, a FLING. Mas, com exceção da FLING, a maioria desses partidos foram criados na abertura da democracia, entre 1990 e 1993, como já referimos. É de salientar que muitos dos partidos fundados nessa década tiveram suas lideranças vindas do partido PAIGC, sobre o qual falaremos, brevemente, mais adiante, com a história de luta e de libertação.

É crucial o momento em que se encontra a economia guineense na atualidade, influenciada por motivos políticos desde a sua independência até a presente data. Não podemos negar que os grandes problemas econômicos da sociedade guineense foram reflexos da sua crise política, instituída por dirigentes dos mais altos níveis do país – crises constatadas nas péssimas governanças, conduzidas sempre por grupos de pessoas que fundamentam seus discursos tribais para dividir a população, promovendo o espírito de nepotismo pautado nos interesses pessoais, enquanto o povo sofre com uma corrupção generalizada e a exploração dos bens patrimoniais do Estado.

Desde as primeiras eleições legislativas, decorridas em 1994, e após o conflito militar, em 1998, cresce proporcionalmente a instabilidade política guineense, e a economia da Guiné-Bissau encontra-se em um estado de degradação, surgindo, assim, situações difíceis para o desenvolvimento do país. Essa destruição da economia se observa na má administração dos recursos naturais da Guiné-Bissau, recursos vistos como grande potencialidade econômica que o país possui para enfrentar quaisquer crises na economia. Citamos, por exemplo, a produção de castanha de caju, a madeira e a pesca. As péssimas administrações dos recursos nacionais, por parte do Estado guineense, e falta de pessoas qualificadas na administração do país, sem dúvida, colaboram para um crescente aumento do desemprego, do analfabetismo, do fracasso na Educação e do descaso na Saúde. O país encontra-se em situação tão difícil, hoje em dia, que a maioria dos jovens é obrigada a optar pela imigração, alguns deles, arriscando suas vidas nas travessias do Oceano Atlântico com destino a Europa.

Nota-se que a Guiné-Bissau, para arcar com a maioria dos projetos traçados pelo seu governo, depende exclusivamente da UE. A maioria dos hospitais se encontra em situações desumanas, com estruturas e equipamentos laboratoriais que não acompanham minimamente a modernização. O resultado de tudo isso, como aponta Moema Augel, é que:

Os indicadores para a área de saúde também se encontram em níveis muito baixos. As taxas de mortalidade materno-infantil são as mais elevadas da sub-região oeste africana. Os dados disponíveis, da organização Mundial de Saúde, apresentam um índice de 15, 48  óbitos para cada mil habitantes (1998), enquanto o índice de natalidade registrava naquele mesmo ano 38, 67 nascimentos por mil habitantes (AUGEL, 2007, p.74).

Continua Moema Augel:

O país conta com pouquíssimos hospitais, todos em desoladoras condições. Os postos de saúde no interior, quase sempre atendidos somente por enfermeiros que não possuem formação adequada, muitas vezes não contam nem mesmo com ataduras ou desinfetante de ferimentos, enquanto o reduzido números de médicos tenta fazer o impossível para cuidar da população (AUGEL, 2007, p. 74).

Desde o ano de 2002, em que foi realizada a pesquisa da Organização Mundial de Saúde, indicando diversos problemas, até a data presente percebe-se que continua a vigorar o mesmo descaso na Saúde pública guineense o que demosntra que houve poucas mudanças nessa área. A Guiné-Bissau ainda figura nas listas de países africanos com maiores taxas de mortalidade materno-infantil, mais altas até do que nas regiões vizinhas, que já vivem também inúmeras dificuldades, como Senegal e Guiné Conakry. Assim, podemos dizer, com pesar, que não houve um avanço esperado na melhoria de vida da população guineense.

A Saúde pública continua sendo a grande preocupação da população guineense. Um pequeno exemplo da falta de condições pode ser visto no fenômeno crescente, no país, nos últimos anos: mulheres guineenses, com possibilidades financeiras, buscam o Senegal, o Brasil ou até Portugal para terem seus bebês, pois nos hospitais da Guiné-Bissau há grandes riscos de perda de vida, tanto do bebê recém-nascido quanto da mãe.

Observa-se, ainda, um grande despreparo dos profissionais nativos na área de Saúde. O país conta, em muitas situações, com médicos estrangeiros, financiados por ONGS e projetos privados. Esse despreparo e falta de remédios e materiais de trabalhos, sem dúvida, resultam em falta de confiança e de credibilidades nos profissionais guineenses – o que leva muitas famílias a angariar fundos para passagem aérea, em direção aos países estrangeiros, buscando um tratamento digno sem riscos de vida.

A Educação, por sua vez, revela-nos, também, seus grandes problemas. Até hoje, o país conta apenas com uma escola de formação de professores para o ensino básico, a “17 de fevereiro” (Escola de Formação de Professores de Ensino Básico), funcionando em Bissau e na Região de Bolama, sul da Guiné-Bissau. Vale dizer que a Guiné-Bissau só teve a sua primeira universidade em 2004 – a Universidade Amílcar Cabral –, instituição que pertence ao governo. No mesmo ano, criou-se a segunda universidade, a Colinas de Boé. Hoje em dia, há no país outras universidades fundadas com iniciativas privadas. Contudo, encontramos, ainda, um ensino bastante precário, e faltam condições básicas para um funcionamento de qualidade – que acompanhem as demandas e tecnologias do século presente, como livrarias, bibliotecas de estudos e laboratórios de pesquisas.

As universidades existentes no país, como referimos, não apresentam qualidade necessária para formação adequada. As dificuldades com que a grande maioria dos jovens guineenses se confrontam faz com que muitos deles optem em procurar uma bolsa de Estudos para países como Marrocos, Rússia, Argélia, Senegal, Portugal ou o Brasil. Esse último constitui-se o grande palco dos jovens de classe média e baixa da sociedade guineense. Com a criação da UNILAB em 2010, com finalidade de estender laços de cooperação entre o Brasil e os demais países de África de língua portuguesa, o interesse dos jovens guineenses aumentou. De 2010 ao ano presente foram inscritos seiscento e setenta e um alunos guineenses nesse Programa.[4]

Hoje em dia, há um grande número de jovens guineenses formados em níveis de graduação, mestrado e doutorado no estrangeiro, principalmente no Brasil e no Marrocos. Porém, a instabilidade política e a falta de um avanço nos projetos culturais e sociais do país fazem com que muitos desses estudantes não planejem voltar a sua origem. Esses jovens preferem fazer trabalhos fora da área em que adquiriram a formação, a fim de sobreviverem, ao invés de voltarem ao país sem nenhuma esperança.

A Guiné-Bissau ainda figura entre os países mais pobres do mundo e é lamentável dizer que o povo, muitas vezes, parece contentar-se apenas com o simples acesso à água potável e à energia elétrica. O acesso à água potável e à energia elétrica, bases de desenvolvimento mínimo de qualquer país, assim como o pagamento de salários em dia ou a construção de estradas, são vistos pelos cidadãos guineenses como o máximo que podem exigir de seu governo. Ainda que num terreno bem distinto do que temos comentado, outro exemplo que ilustra a estagnação da Guiné-Bissau é que o país possui, desde a sua independência até os dias atuais, apenas uma única emissora de Televisão, a EAGB, assim como um único aeroporto para voos internacionais, o Osvaldo Vieira.

As infraestruturas continuam igualmente muito precárias. No conjunto do país, apenas cerca de 25% da população têm acesso à água potável. Dessa percentagem, apenas 21% usam água canalizada ou de fontenários públicos. Os restantes recorrem à água das fontes protegidas com todas as consequências que isso acarreta à saúde das populações (AUGEL. 2007, p. 75).

Ao tentarmos distinguir um caminho do futuro para a Guiné, diante do quadro de estagnação, temos a impressão que existirão sempre os mesmos discursos dos políticos para enganar o povo, principalmente durante as campanhas eleitorais. São discursos que prometem materializar os interesses e as necessidades básicas sonhadas pela população guineense. Infelizmente, até o presente momento, tais discursos de preocupação com povo somente valeram durante à campanha eleitoral. A oposição, por sua vez, ao invés de vigiar o governo e participar ativamente com projetos que possam contribuir para desenvolvimento do país, preocupa-se mais em assinaturas de acordos governamentais em benefício dela própria. 

1.1. Cultura guineense: um tronco repartido em vários ramos

[...] As nossas sociedades são compostas não de um, mas de muitos povos. Suas origens não são únicas, mas diversas [...] (HALL, 2003, p. 30).

A Guiné-Bissau, como outros países africanos, foi vítima do tráfico de escravos colonial por quatro séculos. Não se pode falar da cultura guineense sem refletirmos sobre o passado histórico do país. Quando os portugueses chegaram à Guiné-Bissau (1446), já encontraram no território guineense vários grupos étnicos pertencentes ao mesmo espaço, mas apresentando culturas e costumes totalmente diferentes. Nas palavras de alguns linguistas, a Guiné-Bissau constitui um mosaico cultural, pois cada grupo étnico possui a sua língua, assim como seus costumes e rituais próprios.

Nenhum historiador africano discorda que a partilha propriamente dita da África colonial se inicia a partir da famosa Conferência de Berlim, uma vez que os limites territoriais e o controle por parte dos europeus tornaram-se, de fato, cada vez mais eficazes. (PÉLISSIER, 2004, p. 10) A Guiné-Bissau foi um dos países africanos onde houve mais resistência à dominação colonialista. O fato se deve inclusive a sua grande pluralidade linguística. Houve uma grande resistência à submissão dos portugueses por parte de mais de 27 grupos étnicos do país, principalmente as resistências dos papéis (que se consideravam donos do chão guineense) e dos Bijagós – que recusavam categoricamente a pagamento de impostos. Segundo afirma AUGEL (2007) e COUTO; EMBALO (2010), só a partir de 1936 é que os colonos portugueses conseguiram ter posse, de forma integral, do território guineense. Foi a partir desse ano que a maioria das etnias passou a contribuir com impostos de palhotas – Um imposto estabelecido pelos colonizadores de acordo com números de palhotas que cada casa possuía.

A força cultural do povo guineense está afirmada na pluralidade linguística do país. Afirma-se que de norte, leste e sul, a Guiné-Bissau conta com mais 27 línguas étnicas. Cada etnia tem a forma peculiar, por exemplo, de realizar ritos de casamentos, fanados[5] e funerais segundo seus usos, costumes e na própria língua. Os portugueses, ao chegarem ao território guineense, a todo custo, tentaram estabelecer as suas culturas, impondo seus costumes aos nativos, e, por meio de catequese, levando-os a praticarem o catolicismo. Mediante tais estratégias, na época colonial, os diversos grupos étnicos guineenses foram divididos em indígenas – que não abandonavam os costumes locais e não-indígenas, pessoas civilizadas, cujas visões do mundo se baseavam na submissão à cultura portuguesa.

Por outro lado, também eram considerados civilizados os que possuíam uma renda considerada acessível para a sobrevivência e uma profissão digna aos olhos da sociedade colonial. O domínio da língua demonstrado na escrita e na fala era uma das condições para aquisição do cartão de identidade portuguesa, ou seja, “cartão do civilizado”. Se não houvesse cumprimento dos requisitos mencionados, os não-indígenas podiam voltar a serem indígenas considerados traidores da pátria (COUTO; EMBALO, 2010).

A presença europeia no continente africano, sem dúvida, nos provou que os europeus não queriam somente penetrar na África para um passeio de aventura, ou explorar as matérias primas que ali existiam, mas, sim, queriam mudar a cabeça do homem negro, transformar as maneiras de pensar dos africanos, esmagando e silenciando as diversidades culturais dos povos africanos. Grande parte das etnias africanas, no entanto, demonstrou uma grande resistência física e espiritual. Apesar de muitos séculos de dominação europeia, muitas práticas e manifestações culturais mantiveram-se vivas, assim como muitas línguas permaneceram como instrumentos da sua afirmação cultural. Por outro lado, não podemos negar que a presença europeia afetou as culturas africanas, principalmente a Guiné-Bissau. Apesar de tudo isso, os europeus não lograram roubar a força das culturas africanas, afirmada nos valores dos seus ancestrais e transmitida oralmente de geração a geração.

Apesar do pequeno tamanho do nosso país, tanto em superfície quanto em termos de população quase dois milhões de habitantes, três vezes inferior à população do estado do Rio de Janeiro. São mais de 27 línguas étnicas distintas e com suas diversidades culturais complexas. Algumas delas se aproximam pela sonoridade vocal, mas, ainda que os sons das palavras se aproximem, os sentidos dos vocábulos, na maioria das vezes, são totalmente diferentes.

Quando referimos “etnia”, pretendemos destacar um grupo de pessoas que falam a mesma língua, sejam elas familiares ou não. O que conta na maioria das vezes é o sangue. O sangue é o que identifica a linhagem ou grupo familiar nesse contexto. Por exemplo, muitas pessoas podem pertencer à etnia papel, porém, não apresentarem laços de parentesco. Uma vez que falam a mesma língua, não significa que são do mesmo “sangue”, ou seja, de um grupo familiar. O fato acontece com todas as línguas locais. Numa mesma casa, por exemplo, podem morar um grupo familiar de até três línguas diferentes. A língua que os une é a língua crioula, o crioulo guineense, falada por mais de noventa por cento da população.

A Guiné-Bissau é um espaço constituído por diferentes grupos étnicos, vindos de várias partes do continente africano, principalmente as de África Ocidental. Apesar de terem existido vários ramos linguísticos e diversidades culturais desses grupos étnicos no país, antes da chegada dos colonizadores, há uma forte interação das mais variadas etnias guineenses, e o crioulo é a língua de unificação, de confraternização e de comunhão entre elas. É percebido, atualmente, entre os guineenses, que a língua crioula, além de servir como a língua de unidade nacional, é vista no meio do povo muitas vezes como a língua de prestígio social, a língua urbana e de predominância na capital. Como ressalta Augel:

O grupo crioulo é, sem dúvida, o mais influente, o mais “moderno” e ocidentalizado, o mais assimilado aos hábitos introduzidos pelo poder colonial, e é entre eles que se vai encontrar a magra percentagem dos falantes do português. A sociedade crioula vive na capital ou nos centros urbanos, seus membros são geralmente cristãos, mais escolarizados, e sempre foram, política economicamente, os mais ligados ao setor estatal (AUGEL, 2007, p. 81).

Embora, antes da independência, o crioulo tenha sido proibido pelos colonizadores, era a lingua urbana, falada por pessoas pertencentes às classes altas da sociedade. E era vista como a língua de civilização, falado por pessoas que mantinham padrão da cultura europeia, conhecedoras da língua portuguesa. Nas regiões do interior do país, há naturalmente o predomínio do uso das línguas étnicas. Bissau, a capital, continua a ser a cidade de cultura e padrão ligados à cultura europeia, embora não haja mais necessidade dos estatutos de assimilação.

Apesar de não haver espaço para grandes rivalidades que pudessem interferir em conflitos étnicos, como aconteceu no passado entre papéis e mancanhas pela posse da região de Bolama, os preconceitos linguísticos continuam a valer em diversas situações entre os grupos étnicos guineenses. Basta observar o resultado eleitoral no país. Nas regiões leste, onde predomina a etnia fula, é mais provável que o candidato fula ou muçulmano vença as eleições nessas áreas. Ainda que esse candidato não tenha condições para governar o país, a sua origem étnica, a cultura, a religião e o poder econômico lhe dará boas possibilidades de sair como vencedor nessa província.

Apesar de o crioulo guineense ser a língua que une as várias etnias existentes no país, os fulas e os Bijagós, estes últimos vivendo no arquipélago do mesmo nome, sofrem às vezes discriminações em relação aos seus modos de vida e da maneira como falam a língua crioula. Os fulas, na Guiné-Bissau, são conhecidos como pessoas que cultivam muito bem o comércio, especialistas em gerenciar o dinheiro. Os fulas apresentam características peculiares nas formas de pronunciar algumas palavras da língua crioula. Por exemplo, quando pronunciam a palavra ‘chefe’, o som que se ouve é o ‘sefi’, e trocam os dígrafos (Che) por (se). Como podemos verificar no conto ‘A árvore do umbigo’, de Julie Agossa Djomatin, publicado em setembro de 2004, no décimo aniversário da Editora Ku Si Mon:

- Menos ainda a sua admiração infantil e as suas manifestações de simpatia intempestivas. Lá subiu para cabina, donde dominava a estrada à altura de um homem – Sefi! – chamou o homem.

– Quando te começam a chamar chefe, é para te pedirem boleia. Transporte grátis até a próxima tabanca [aldeia] (DJOMATIN, 2004, p. 12, grifos meus).

 

A xenofobia também alcança a etnia dos Bijagós, moradores de ilhas. Existe um número muito pequeno dos Bijagós residentes na cidade de Bissau. Os Bijagós apresentam diferenças nas formas de pronunciar certas palavras em crioulo. Demonstram distinções nos seus falares do crioulo guineense: trocam F por B; por exemplo, quando pronunciam o nome Francisco, ouve-se o som de Badancisco. Também trocam a sílaba “Se” por sílaba “tche”. Por exemplo, a palavra “seta” é pronunciada ‘tcheta’ (aceitar) pelos Bijagós. Essas são apenas algumas palavras do vocabulário do crioulo guineense que são alteradas por eles.

Os Bijagós possuem e preservam ricas tradições de agricultura e pesca. Por isso, são mais conhecidos entre os guineenses como agricultores, pescadores, além de serem grandes extratores de vinho de palma; são, por natureza, preservadores dos espaços coletivos e das tradições dos ancestrais. No entanto, são discriminados em piadas guineenses que buscam diminuí-los.

O conjunto de grupos étnicos que me parece ser mais privilegiados no território guineense é chamado de Brames (mancanha, manjaco e papel ou pepel). Essa última etnia, desde a época colonial, rejeitava pagar os impostos, alegando serem os donos da terra de Bissau. Os Brames são radicados na cidade de Bissau e praticantes das religiões cristãs. Os grupos étnicos referidos, até os dias de hoje, demonstram serem mais ocidentalizados. Contudo, nenhuma dessas etnias abandonou as suas tradições e costumes herdados de geração a geração. Por exemplo, as cerimônias de casamento, os funerais e o [6]fanado.

A cidade de Bissau, desde 1940 quando se tornou capital, continua sendo um espaço de convivência de diversos grupos étnicos[7]. Cada uma dessas etnias, como já referimos, possui a sua forma peculiar de adoração aos seus deuses, seus ritos iniciais, funerais, entre outras manifestações culturais. Apesar dessas diferenças culturais, há atos de solidariedade e intercâmbio cultural, como o durante o período de Carnaval. Nessa época podem-se ver os fulas vestidos de papeis, papeis vestidos de manjacos, balantas vestidos de mandingas, assim sucessivamente – cada um exaltando a cultura de outro.

Vale salientar cada um dos grupos étnicos existentes no país possui a sua forma peculiar de gastronomia e de realizações de cerimoniais rituais, considerados tradicionais, como, por exemplo, cerimônias de iniciação à vida adulta. Os fulas e mandingas, por exemplo, possuem algumas características culturais comuns, talvez por pertencerem à mesma religião (muçulmana). Observa-se no país que muitas pessoas de outras etnias, como os balantas, papéis e mancanhas, se convertem à religião muçulmana; por conseguinte, acabam por praticar a cultura e crenças das etnias muçulmanas. Há grande diversidade de manifestações culturais no país. Apesar de tudo isso, cada etnia, ou seja, cada grupo étnico sabe respeitar os princípios culturais dos outros grupos. E a convivência no dia a dia não os limita a praticar os costumes transmitidos pelos seus antepassados.

1.1.1.     Língua: acervo da memória coletiva

Apesar de a língua portuguesa ser a língua oficial de cinco países africanos, seu uso  ainda é bastante restrito no território guineense. Os portugueses não tiveram êxito em impor a sua língua na cultura da Guiné-Bissau. Diferentemente de Angola, Moçambique e Cabo Verde, onde a língua portuguesa é falada por uma boa parte da população, na Guiné-Bissau é uma minoria dos nativos que têm o domínio dessa língua.

Um dos motivos é que, na Guiné-Bissau, o acesso ao ensino secundário e superior ainda é bastante limitada. Como salienta Moema Augel, “o português, embora seja língua oficial do país, não é língua corrente entre os guineenses, uma vez que estima menos de dez por cento o número dos falantes desse idioma na Guiné-Bissau (AUGEL, 2007, 79). Como sabemos que na Guiné houve o encontro de numerosos povos vindos de África ocidental, compreendemos facilmente a grande variedade de grupos étnicos dentro desse pequeno território. Aproximam-se de quase 27 as línguas étnicas faladas na Guiné-Bissau, apresentando manifestações culturais bem distintas.

Sendo assim, o uso da língua crioula na Guiné-Bissau é de grande força, pois é nela que o guineense consegue imaginar o mundo, exprimir com detalhes o que sente, fazer contendas, contar histórias e até resolver mistidas (negócios, problemas, assuntos pessoais) se for necessário. A língua crioula também serve para os guineenses construírem uma ponte entre a identidade e a cultura local. Apesar de ela ser uma língua falada por grande parte da população guineense, infelizmente, não possui uma ortografia fixada nem escrita normalizada. Moema Augel no seu livro A nova literatura da Guiné-Bissau, num dos capítulos sobre crioulo da Guiné-Bissau, discute atentamente sobre a divulgação e união da grafia e escrita dessa língua: “O crioulo não conhece, até o presente, nem uma ortografia fixada nem uma escrita normalizada. “As vacilações a respeito da codificação não podem nem devem ser empecilho nem para o seu uso nem para a sua divulgação “(AUGEL, 1998, p. 36).

A língua portuguesa, por sua vez, é falada por uma pequena parcela da população, tendo em conta o grande número de analfabetismo no país. Em função da pouca valorizacäo do crioulo, na escrita, muitos escritores guineenses decidiram usar muitas vezes essa língua, em paralelo com a língua portuguesa nos seus textos, com a finalidade de valorizar esse idioma de unificação.

Não temos dúvida de que a melhor forma para afirmação cultural de um povo é através da divulgação da sua própria cultura, através da oralidade e da escrita, ou seja, através das propositais misturas linguísticas, vistas nos textos de grande parte dos escritores africanos de língua portuguesa. Por exemplo, na Guiné-Bissau, os que realizam, com muita propriedade, essa proposta são os autores mais divulgados na diáspora. Adiante apresentaremos seus trabalhos nessa nossa pequena e longa viagem da literatura guineense. São eles Abdulai Silá, Tony Tcheka, Odete Costa Semedo, Filinto de Barros e Rui Jorge Semedo. Em todos os livros publicados até o momento pelos autores referidos, observamos que procuram sempre fazer essas interferências linguísticas, contribuindo, assim, para a divulgação da cultura de seu país, ao mesmo tempo em que aproximam o leitor da riqueza da língua crioula.

A maioria das línguas étnicas serve somente como meio de comunicação entre os grupos da mesma árvore linguística. Elas não são sistematizadas ainda para o Ensino. No ano de 1987, alguns profissionais do Ministério de Educação, Cultura e Desporto fizeram uma proposta em unificar a ortografia e a escrita da língua crioula, pois até o presente, constatamos formas diferentes para cada falante (AUGEL, 1998, p.36). Esses profissionais da Educação tentam tornar a língua crioula como língua de ensino, capaz de substituir, assim, a língua portuguesa, falada apenas por uma minoria da população guineense. Na verdade, essa questão tem suas complexidades, pois há muitas discussões sobre a efetivação da língua crioula no ensino guineense. Há grupos de pedagogos que defendem a importância de implementar o crioulo como língua de ensino, e há os que alegam a falta de estruturas gramaticais suficientes para torná-la a língua do ensino.

De fato, de todas essas discussões feitas entre os profissionais da área educacional, achamos necessária a implementação do crioulo para os primeiros anos de escolarização. Apesar de muitas lutas e esforços dos profissionais que pretendiam que a língua crioula fosse instituída na escola nos primeiros anos, “A alfabetização em português foi imposta, continua sendo, apesar de tantos argumentos em favor do crioulo como língua para os primeiros anos de escolarização e o desastre pedagógico acarretado por tal decisão se faz dolorosamente sentir no momento atual” (AUGEL, 1998, p.39). Ainda vigoram as possibilidades para realização desse propósito nas instituições primárias guineenses. A língua crioula, como vimos antes, é uma língua de unidade nacional, falada e entendida por mais de 90% da população guineense. A sua inserção, com certeza, facilitará os professores, sem esforço máximo, na transmissão dos conteúdos e facilitando o ensino-aprendizagem. Nas palavras de Hildo Honório Couto, a língua crioula é a ideal para o cenário linguístico guineense: “Por não ser a língua de nenhuma etnia, o crioulo é a única língua de todos os guineenses, portanto, o bom senso nos diz que deveria ser a língua do ensino” (COUTO; EMBALO, 2010. p. 43). Não nos esqueçamos, porém, que isso não significa nunca desprezar as línguas étnicas, baluarte das culturais regionais.

A falta de domínio da língua portuguesa, por parte de grande maioria de professores de ensino primário e secundário, e a incompreensão da mesma, por parte dos alunos, figura como grande fracasso do sistema educacional guineense. Mas temos que levar, também, em conta que esse aumento do número de professores com dificuldade de se expressarem em língua portuguesa se assenta na falta de valorização dos profissionais da Educação no país. Não podemos mudar a nossa história nem as características da Guiné-Bissau se o Estado não pensar nas realidades sociais e econômicas do país. Se não considerarmos que a Educação é o melhor caminho para desenvolvimento de qualquer país, como demonstra Paulo Freire no seu discurso, sem dúvida nenhuma, não poderemos mudar esse cenário. “Se educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. A insistência de proibir o uso do crioulo no ensino guineense, sem dúvida, gera grandes probabilidades de colhermos resultados catastróficos no sistema educacional guineense. Como afirmam (COUTO; EMBALO, 2010):

Temos que reconhecer, porém, que não é apenas o uso de uma língua estrangeira (o português) que causa todo o desastre que é o ensino na Guiné-Bissau. Em primeiro plano vêm as causas econômicas, estruturais e conjunturais. Há um baixo nível de formação dos docentes e falta de meios para reciclagens periódicas, um salário que mal dá para comprar um saco de arroz (base de alimentação dos guineenses) de cerca de 60 quilos e pago com grande atraso. A consequência é a fuga de quadros que vão para outros países ou então trabalhar para as empresas privadas ou organizações internacionais. Uma utilização indevida da ajuda externa quer por desvios dos recursos para outros fins, quer por má gestão não contribui para a uma melhoria do sistema que se vem reproduzindo ao longo do tempo (COUTO; EMBALO, 2010, p. 43). 

Após o conflito militar de 7 de junho de 1998[8], quando foram registradas novas entradas de muitos missionários tanto protestantes quanto católicos no país, surgiram projetos para traduzir os filmes com conteúdo da Bíblia sagrada, em algumas dessas línguas étnicas, com finalidade dos grupos evangélicos de catequizar a maioria da população. O conflito acima referido interrompeu vários projetos educacionais em relação à divulgação das línguas étnicas do país, principalmente o crioulo – que vinha ganhando o espaço, em termos da divulgação, tanto na fala como na escrita.

A língua crioula é uma língua de base portuguesa, considerando que grande parte de seus morfemas se originam da língua portuguesa. Porém, não muito raro, com certeza, é possível ainda encontrar pessoas que não falam a língua crioula no país. Entre elas, os mais velhos radicados no interior do país e até jovens que nunca tiveram a oportunidade de conhecer a cidade de Bissau, onde a língua crioula é falada frequentemente. Como demonstramos, em uma de minhas últimas publicações, muitos desconhecem o idioma de união nacional: (BANORI, 2017):

Ele nunca tinha ido à Praça de Bissau, mas, apesar do medo, tinha grande vontade de conhecê-la pelo tanto que ouviu falar dos que lá foram. A vontade de ir à praça sempre foi o seu desejo, mas os amigos diziam-lhe que na Praça de Bissau tem mais malandros do que honestos. O aviso causava-lhe mais medo ainda, pois ele trabalhava com comércio seria mais fácil ainda sofrer um golpe daqueles meninos de praça que não tem nada para fazer, senão viver nas custas dos outros. Além de tudo, ele não sabia falar crioulo, a não ser a língua fula que falava desde que tinha nascido. Isso era problema maior. Viver na Praça de Bissau sem falar crioulo seria como viver em um mar sem salva vidas. Tinha-o dito um amigo que já fazia negócios lá, há muito tempo, vendendo: cola[9] (BANORI, 2017, p.99).

 

Demba, ou Tio Dembaro como é referido pelo narrador do conto em questão, é um homem já de idade avançada, que nasceu em Gabú. A única língua que aprendera com os pais foi a língua fula. Com medo da brutalidade dos jovens de Bissau, nunca tinha pisado na cidade. Já velho, não podia deixar de matar a curiosidade de visitar a capital, que cada morador de Gabú gostava de mostrar que conhecia bem. Demba, cansado de tantas opiniões, até de crianças, sobre a cidade de Bissau, decidiu, por si só, conhecer a cidade; mas só tinha aprendido duas palavras em língua crioula:

A única frase que enchia a sua cabeça era: fera di bandé[10], Djuldé. Essa frase não tinha sentido nenhum, mas um bom falante de língua crioula podia entender que ele queria chegar em fera di bandé e queria encontrar Djuldé, pronto, mas em que lugar de fera di bandé ele queria ir e com que Djuldé ele queria encontrar, isso seria um mistério, pois só em fera di bandé tinha mais de dez pessoas com nome de Djuldé. (BANORI, 2017, p.103).

 

O final do conto nos mostra Demba perdido no mercado de bandim, e além de tudo roubado. Depois de muito tempo importunando as pessoas no mercado de Bandim, finalmente, encontrou uma pessoa que lhe podia ouvir. Voltando a Gabú, tio Demba, nunca mais pisou à praça de Bissau:

Logo botou a mão no bolso de trás para pegar carteira, não tinha visto nada. Aqueles meninos de fera di bandé já tinha levado tudo... Tio Dembaro não quis acreditar, respirou profundamente e disse na língua fula subhanallah[11]. E começou a agarrar as pessoas uma por uma em fera di bandé, gritando em língua fula: Horo were kalessiam o woni? Que significa, na língua fula: Cadê o meu dinheiro? Ficou lá por muito tempo, até que alguém conhecido o descobriu e levou-o de volta à região de Gabú... Tio Dembaro nunca mais voltou à cidade de Bissau (BANORI, 2017, p.105).

 

O conto ora apresentado nos mostra o quanto a questão linguística torna-se uma problemática num país pequeno como a Guiné-Bisssau. A língua crioula, desde muito cedo, isto é, a partir do século XIX e um pouco mais do início do século XX, sofreu grandes transformações em nível social e cultural. Os que têm domínio da língua crioula guineense podem perceber que há várias formas nas produções literárias dessa língua, entre elas o kriol lebi[12] e crioulo fundo. Por isso, hoje em dia, é fácil diagnosticar claramente as variações tanto na fala quanto na escrita. Percebe-se que os mais velhos ainda preservam as formas antigas do seu uso, formas que advém de uso proposital dos provérbios, hoje, esse tipo de crioulo é conhecido como kriol fundo[13] ou tradicional.

Couto e Embalo discutem a respeito de variações linguísticas de crioulo no contexto guineense, “Em Bissau, a forma com o /b/ intervocálico é opcional. É, portanto, uma forma viva no crioulo mais conservador, sobretudo na Casamansa. No entanto, ela ocorre também em outras regiões da Guiné em pessoas mais velhas ou nos falantes do kriol fundu.” (COUTO, EMBALO, 2010, p. 32). Vejamos, por exemplo, a seguir, uma frase, retirado numa lista de provérbios do site de Didinho: Anduriña kuma i na pupu riba di kabesa di ñor deus, i ba kai riba di si kabesa (a andorinha disse que caga na cabeça do senhor deus, mas caiu sobre sua própria cabeça).[14] Os mais novos vão adotar nas suas falas os vocábulos, na sua maioria, aportuguesados, considerados variantes mais próximas da língua portuguesa. Por outro lado, os mais novos não usam a palavra ‘ñor’, senhor, mas, sim, “senhor deus”.  

Se afirmamos que falamos a língua portuguesa na Guiné-Bissau, estamos a mentir para nós mesmos. Apesar de ela ser a língua oficial, como vimos anteriormente, o seu acesso é ainda bem complexo para guineenses, que nasceram na Guiné-Bissau e não possuíram uma formação acadêmica superior. Apesar de o país ter sido, no passado, colonizado por Portugal, o fato não impediu os guineenses de se expressarem em língua crioula, reafirmando a identidade local como símbolo de resistência ao colonizador.

Não podemos, também, dizer que a língua portuguesa é uma língua de trabalho ou da escola na Guiné-Bissau. O que mais se fala no dia a dia na escola e nas Instituições urbanas é o crioulo. Se quisermos um exemplo, é só observarmos o encontro de dois guineenses, tanto na Guiné-Bissau quanto em qualquer parte do mundo. É na língua crioula que os dois se cumprimentam, conversam, discutem e trocam ideias sobre o mundo que os rodeia, e não no português. Parece-me uma postura doentia que nós, guineenses, pensemos que a língua portuguesa é a língua de trabalho e de fins acadêmicos.

Nas cidades, a língua que se ouve nas ruas é quase sempre o crioulo. Em casa também só se fala crioulo, com poucas exceções. Assim, nos bairros populares, onde se concentram falantes de uma mesma etnia, via de regra se fala a respectiva língua. Mas, havendo um vizinho de outra etnia, volta-se ao crioulo naturalmente. No pátio das escolas, no mercado, nos nightclubs, nos estádios de futebol (como o Estádio Nacional‘ 24 de setembro’ou o ‘Lino Correia’, ambos de Bissau) só se fala crioulo. Pelo fato de o português só ser aprendido na escola, ele é a língua da escrita e para se falar com estrangeiros. Assim, quando um guineense vê alguém de pele clara na rua, tem tendência a dirigir-se a ele em português (COUTO; EMBALO, 2010, p. 50, grifos nossos).

 

Cada vez mais nos aproximamos da língua portuguesa, tanto na escrita quanto na fala. Sendo assim, não podemos negar que a maioria dos guineenses urbanos, ainda que não falem e escrevam bem a língua portuguesa, a compreendem muito bem. Apesar de muitos não falarem nem escreverem, existe a compreensão de palavras da língua portuguesa aos ouvidos guineenses. É que, naturalmente, há muitos empréstimos das palavras portuguesas no crioulo guineense. Se voltarmos para nossa história, evidentemente, podemos lembrar várias circunstâncias. Primeiro, sabemos que a Guiné-Bissau, por muito tempo, serviu como fonte de escravos e de grandes mercadorias que saíam de diversas partes da colônia, isto é, até o século XIX. Outro motivo a apontar é que havia demora em relação à exploração efetiva dos europeus no país. Um dos fatores de a língua portuguesa não ter se enraizado na Guiné-Bissau talvez se deva ao fato de que a Guiné-Bissau, mais intensamente do que Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, seja um país de grande pluralidade linguística.

Se o português fica restrito ao ensino nas escolas, visto que a maior parte da comunicação oral é produzida em crioulo e línguas étnicas, podemos perceber que as línguas étnicas enfrentam grandes dificuldades para chegarem à escrita; apenas são utilizadas oralmente. Como salienta a pesquisadora Moema Augel: “São muitas as dificuldades e os obstáculos com que as línguas étnicas se defrontam, não tendo até o momento conseguido chegar a constituir um veículo consolidado para expressão escrita [...] (AUGEL, 2007, p. 85). Vale dizermos, portanto, que na Guiné-Bissau convivemos com três línguas, a saber: a língua de casa, a língua de rua e a de escola. A língua de casa é a língua materna, falada entre as famílias e parentes; a língua de rua é o crioulo e a língua de escola e das situações formais é o português, falado por uma minoria da população guineense.

A Guiné-Bissau é um dos países da África com mais elevada taxa de analfabetismo. É compreensível seu desenvolvimento tardio na literatura escrita. No entanto, sempre houve cantos, contos, histórias tradicionais, e outras manifestacöes da oralidade, como expressa a professora Carmen Tindó Secco:

As letras guineenses, em razão dos fatores históricos e sociais já mencionados, apresentaram um desenvolvimento lento e tardio. Em uma colônia, onde as campanhas de alfabetização apenas começaram entre 1948-1958, a literatura, portanto, somente podia existir enquanto voz, constituindo-se de lendas, adivinhas, provérbios passados oralmente pelos mais velhos. A recolha dessas tradições que circulavam em crioulo foi feita (SECCO, 1999, p.212).

 

Apesar de, na Guiné-Bissau, o português ser a língua que prevalece na poesia guineense, o crioulo também serviu como uma bússola que orienta os poetas, apresentando-se, assim, como uma forma de preservar a identidade. Pabia kil ki di nos tem balur[15]. O recurso ao crioulo é cada vez mais frequente, quer pela fala em crioulo propriamente dito, quer pela utilização de termos e expressões dessa língua em textos em português. Esse uso é frequentemente visto nos textos de Maria Odete Soares Costa Semedo, Tony Tcheca e Abdulai Sila, Filinto de Barros e Rui Jorge Semedo, autores consagrados tanto no país como também no exterior.

A identidade é o que aproxima e difere dos demais: é no limiar; no interior desse saber; do conhecimento do que somos e do que não somos, com nossas línguas, memórias, costumes e mitos que constituímos nossa identidade. E é no limiar no interior desse saber que se faz possível encontrar uma origem, um chão, uma terra, um fundamento, um espaço. Assim sendo, as misturas linguísticas utilizadas por Abdulai Sila e os demais autores guineenses são também uma forma de preservar a língua. Vejamos as palavras de Abdulai Sila numa entrevista[16] concedida a mim:

[...] Assim, não sendo a língua materna da esmagadora maioria dos guineenses, verifica-se, ao longo do processo de apropriação da língua portuguesa, uma relação dialética entre todas essas línguas, dela resultando termos, expressões e significados específicos da Guiné-Bissau. Acho esse um processo natural, diria até inevitável, sendo que só dessa forma a língua portuguesa pode afirmar-se e consolidar-se como parte da identidade cultural do guineense [...].

 

É através dessas misturas linguísticas que Abdulai Sila e muitos dos escritores guineenses afirmam sua identidade. Mestiçagens que jamais poderiam dar-se de uma maneira apenas individual; mestiçagens que, antes de qualquer coisa, necessitam que outros viabilizassem tal diálogo, que tornassem possível a criação destas marcas identitárias híbridas e plurais, fundamentadas nesta origem que é, a um tempo, original e originadora. Essas mestiçagens têm um chão, uma terra de origem: a Guiné-Bissau, onde todos os escritores guineenses vivem.

Acreditamos que um dos grandes valores da herança ancestral que ainda continuou viva – que é orgulho de grande parte dos guineenses seja a língua crioula guineense. Os portugueses não conseguiram tirar de nós esse acervo. Não é por acaso que ainda seja a língua crioula aquela que faz a discussão dos projetos do país e dos nossos deputados no parlamento guineense. As línguas étnicas de diferentes grupos étnicos da Guiné-Bissau, sem dúvida, constituem uma pluralidade linguística guineense, sendo que algumas dessas línguas étnicas são consideradas por linguistas como dialetos de uma mesma língua. No caso de papéis, manjacos e mancanhas.

 

1.1.2.     Literatura guineense: silenciamento e ausência.

Não se deve esquecer que o grande avanço na divulgação da literatura guineense tanto no país quanto no exterior tem sido a partir do grande esforço da pesquisadora Moema Parente Augel. Essa pesquisadora, que residiu durante seis anos na Guiné Bissau, tornou-se uma importante estudiosa das literaturas africanas de língua portuguesa e grande embaixadora cultural da Guiné-Bissau. Seu trabalho de pesquisa é merecedor do maior reconhecimento, pois logrou dar maior visibilidade à literatura guineense, retirando-a do chamado “espaço vazio”, outrora apontado por historiadores das literaturas da África de língua portuguesa. Não é raro assistirmos a cenas de guineenses emocionados, que, ao encontrarem a pesquisadora, fazem questão de demonstrar o seu carinho e gratidão.

Hoje em dia, ao falarmos do silenciamento da literatura guineense, é claro que não podemos esquecer de referenciar os incontornáveis trabalhos feitos por Moema Augel. Desconheço, até o momento, pesquisadoras mais interessadas do que ela em debruçar-se profundamente sobre a literatura guineense e difundi-la, assim como os seus escritores. Até sair da Guiné, às vésperas de conflito militar de 7 de junho de 1998, a pesquisadora contribuiu imensamente para a projeção da literatura guineense, organizando antologias, assim como facilitando publicações individuais dos escritores, até então, engavetados – que aguardavam ansiosamente a oportunidade de uma edição e que já escreviam desde muito jovens. Sendo assim, insistimos no seu papel de projetar a literatura guineense, contrariando, assim, a ideia do “espaço vazio”.

Além disso, a contribuição da Moema Parente Augel nos projetos do INEP, organizando e editando livros de poemas e antologias de escritores guineenses, assim como livros de sua autoria sobre a literatura e cultura guineense, sem dúvida, acelerou o processo de desenvolvimento da nossa jovem literatura. As atividades e o empenho da pesquisadora estimularam bastante o prazer da escrita e de leitura nesse país. Como ela mesma esclarece na nota de abertura da Série Literária, Coleção Kebur no 1:

Acreditamos além disso também que, com a publicação de obras em Kriol, estaremos contribuindo para um maior gosto pela leitura, um mais amplo acesso da juventude aos livros, que se sentirá, esperamos, mais motivada a entregar-se à essa empolgante atividade desde que lhe sejam postos à disposição livros escritos numa linguagem que lhes é mais familiar (AUGEL, 1996, p.14).

O acesso às obras literárias guineenses nas últimas décadas, assim como dos seus escritores no Brasil (embora com pouco interesse ainda em pesquisas), a meu ver, se deve, em sua maior parte, aos trabalhos feitos pela referida pesquisadora, que, com certeza, merece ser coberta com um pano de pinte.[17]

São de sua autoria três significativos livros: A Nova Literatura da Guiné-Bissau, (1998), Ora di Kanta Tchiga ( 1998), que fazem parte da Série Literária, Coleção Kebur[18] n 7 e 8 respetivamente e o Desafio de Escombro: Nação, Identidade e Pós-colonialismo na Literatura Guineense (2007). Além dessas três obras, a autora tem artigos publicados que, de certa forma, refletem profundamente sobre a cultura, a política e a vida social na Guiné-Bissau. É a ela que damos a palavra:

Minha leitura levou-me a debruçar-me e a refletir sobre textos ainda molhados de tinta, a partir não só do meu prazer de ler como no afã de divulgá-los, em primeiro lugar aqui na própria Guiné-Bissau, mas também de levar para fora do país os seus autores, de tornar evidente que finalmente a Guiné-Bissau podia – e devia – ser incluída na comunidade literária dos países de língua portuguesa e não só (AUGEL, 1998, p. 13).

Não sabemos até que ponto podemos falar da literatura na Guiné-Bissau. Falar da literatura num país como Guiné, um país recém independente, acima de tudo com uma história de colonização muito complexa, comparada aos países vizinhos e aos países da sua comunidade linguística, é um exercício difícil. Acreditamos que, para falar da literatura de um país, é muito importante fazer uma reflexão profunda sobre sua história política e cultural, como já assinalamos anteriormente.

Não pretendemos ignorar as possíveis leituras e interpretações de estudiosos e pesquisadores que nunca tenham pisado o chão guineense. Porém, aspectos culturais, políticos e sociais, a nosso ver, são grandes marcas da literatura guineense – que precisam ser vivenciados para melhor compreensão dos textos literários. Até final de década de noventa, o livro era ainda artigo de luxo – que podia pertencer somente à elite e a oralidade cada vez mais constituía uma grande resistência por parte dos guineenses. Isso para não referir à elevada taxa de analfabetismo no país (AUGEL, 1998, p. 20-21). A Guiné-Bissau, por muito tempo, serviu de entreposto de comércio de produtos e de escravos para Europa, como vimos antes. Vários fatores, tanto de ordem social quanto de ordem política, por exemplo, a luta armada para independência do país, as escravizações intensas feitas por colonos portugueses por muitos anos e a falta de investimentos da infraestrutura educacionais, indubitavelmente, fizeram desse país um lugar de espoliação, cuja história vem sendo contada apenas recentemente.

A literatura guineense é praticamente esquecida nos trabalhos apresentados por alunos de diversas Instituições académicas brasileiras, tanto nas escolas quanto nas universidades públicas e privadas do país. Nas coletâneas, tanto de prosa quanto de poesia, realizados por Manuel Ferreira e Mario Pinto de Andrade, considerados grandes pesquisadores de literatura africana de língua portuguesa, a presença da Guiné-Bissau é quase invisível. Sempre surgem muitas razões para justificar a ausência de uma literatura propriamente dita nesse país. Ao longo do trabalho em curso, procuraremos trazer reflexões para esclarecer obstáculos e dificuldades para a visibilidade da literatura guineense tanto no país, assim como nas diásporas.

Segundo a proposta de Hildo Honório Couto e Filomena Embalo e outros pesquisadores[19], a nossa história literária é marcada por três períodos: antes da colonização, durante a colonização e depois da colonização. Essa proposta não fundamenta toda história literária do país; porém, do nosso ponto de vista essa divisão traz alguns elementos que auxiliam a compreender a trajetória literária no país.

Segundo o registro dos historiadores, o português Nuno Tristão, em 1446, foi o primeiro a desembarcar no litoral guineense. Mais de 100 anos após a sua chegada na Costa da Guiné, ainda não havia quase nenhum registro de textos literários. Um ano após o descobrimento da região, havia um texto escrito de Gomes Eanes de Zurara, Crônicas dos feitos da Guiné (1455). Também foi registrado que, em 1594, surgiram os primeiros textos do livro Tratado breve dos rios da Guiné e Cabo Verde, de André Álvares da Almada, o texto que faz um esboço sobre os navegadores naquela região africana (COUTO e EMBALO, 2010, p. 20).

De fato, durante todo esse período colonial, só se pode contar a dedo os textos escritos  por autores guineenses (AUGEL, 2007). Antes da independência da Guiné-Bissau, não se pode falar da literatura, a não ser de alguns textos de informações de missionários estrangeiros. Em 1879, já com a capital no sul do país, em Bolama, o país conheceu a sua primeira imprensa, ou tipografia em outras palavras do uso (AUGEL, 1996, p. 9).

A partir do início do século XX, vão surgir vários Boletins e jornais, que registrarão as produções poéticas locais; especialmente destacamos, em 1900, a recolha de narrativas orais (adivinhas, provérbios e cantigas), intitulada Literaturas dos Negros, de autoria de Marcelino Marques de Barros. Nomeamos aqui alguns dos boletins, jornais e publicações com seus respectivos autores: o Boletim (1880-1974), Fraternidade, folheto publicado em 1883, Boletins Sanitários (1918), o Boletim das Alfândegas da Província da Guiné (1919), Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (1946-1973), O Bolamense[20], (1956- vários anos). O Folheto de poesia Poilão[21](1973), do Grupo Desportivo e Cultural do Banco Ultramarino, é a primeira coletânea poética antes da Independência. Dos Jornais, destacamos os seguintes: Ecos da Guiné (1920), A voz da Guiné (1922), Pró-Guiné (1924), O comércio da Guiné (1931). Em 1975, a fundação do jornal Nô Pintcha[22], jornal publicado até hoje, O Militante (1983 a 1985), revista destinada a publicação das mensagens do partido PAIGC (COUTO e EMBALO, 2010).

Ainda nesse período literário, marcado também pelas grandes publicações dos autores estrangeiros tanto no campo da prosa quanto na poesia, destacamos Maria Archer, com o romance Desejo Mórbido (1918), posteriormente Maria Fernanda de Castro, com quatro romances intitulados: As aventuras de Mariazinha (1925), O Veneno do sol (1928), Mariazinha em África (1947) e novas aventuras de Mariazinha (1959), respectivamente. Também temos as obras de Julião Quintinha, com seguintes títulos: África misteriosa (1928), Oiro africano (1929), Terra do sol e da febre (1932), Novela africana (1933). Ainda merece destaque as obras de Afonso Correia Bacomé Sambú (romance de 1931).

O cabo-verdiano Fausto Duarte não pode ser esquecido nas produções dessa época, com a obra Aua (novela 1934), cujo título significa força na língua fula. Parece-me que essa obra é escrita pelo autor não só com a finalidade de encorajar os combatentes para uma luta de libertação nacional, mas também para justificar as razões e a necessidade dos colonizados terem direito a escola (SEMEDO, 2011, p. 29).

Em seguida, o autor aparece com três romances, respectivamente, Negro sem alma (1935), Rumo ao Degredo (1939) e a Revolta (1942). João Augusto da Silva, de origem cabo-verdiana, publica África: da vida e do amor na selva (1963); Artur Augusto da Silva, irmão de João Augusto da Silva, publica, durante esse período, O cativeiro dos bichos (1969). Antes de fechar as publicações estrangeiras que marcaram esse período, não podemos de forma alguma deixar de registrar a obra de Georgette Emília, Na Guiné com o P.A.I.G.C (1975) e de João Ferreira, Uaná: uma narrativa africana (1986) (AUGEL, 1998, p. 59-60).

Dentro desse período rico em obras publicadas por estrangeiros residentes na Guiné-Bissau, podemos encontrar poucas de autores nascidos na Guiné. Destaca-se apenas o conto Amor e Trabalho (1952), de James Pinto Bull, irmão de consagrado linguista Benjamim Pinto Bull, considerado o primeiro conto de um nativo da Guiné-Bissau.

A poesia não deixa de integrar esse período, embora tenhamos uma lista pequena de poetas. Nessa lista constam os seguintes nomes e títulos dos seus respectivos poemas: Hugo Rocha, com poema Fula de Bafatá; Augusto Cruzeiro de Cértima, com o poema Entrando na Guiné; Augusto Casimiro, com o poema Guiné em seu Portugal Atlântico (1955). Maria Fernanda de Castro, autora já citada, é destaque também desse mesmo período, com o poema " África Raiz" datado de 1966. Por último, fechamos com Armor Pires Mota, com Baga-baga, datado de 1967 (COUTO; EMBALO, 2010).

Assim como a prosa, a poesia também toma conta da alma guineense no período da colonização; apresentamos alguns autores publicados nesse período. Carlos Semedo foi considerado o primeiro autor a publicar um livro de poemas. Semedo publicou, em 1963, um volume de poesia no jornal o Bolamense, intitulado Poemas. Ao seu lado destaca-se seu conterrâneo, Armando P. Pereira. Mas há várias versões que nomeiam esse segundo citado como o pioneiro de publicação poética guineense. Como assevera Odete Costa Semedo: “Porém, em 1963, ainda no período colonial, Carlos Semedo publica o seu primeiro livro de poemas, registado como o primeiro livro individual de um guineense” (SEMEDO, 2011, p.26).

A literatura guineense anda lado a lado com a história do seu próprio país. Não há como falar da literatura sem pisar no "tapete" da história da luta pela independência do país. Mesmo antes do início de guerra de libertação nacional (1963), já havia obras de cunho identitário e de denúncia ao colonialismo. Por exemplo, Amílcar Lopes Cabral, um dos poetas fundamentais do período da luta pela independência, já havia escrito, quando ainda era jovem, com apenas 21 anos, em 1945, em Cabo Verde, ‘Poema’, considerada a poesia mais conhecida desse líder político. O sujeito poético já reivindicava seus direitos:

Meu grito de revolta fez vibrar os peitos de todos os Homens,

Confraternizou com todos os Homens

E transformou a Vida...

 

Também expressa seu desejo de ser livre, livre ao lado do seu povo. como se vê nos últimos versos do mesmo poema:  

 

Ah! O meu grito de revolta que feneceu lá longe,

Muito longe,

Na minha garganta! 

Na garganta de todos os Homens[23] [...].

 

De fato, há um certo número de poetas guineenses que transformaram seus versos em armas de combate. Destacamos os seguintes autores desse período. Tais destaques norteiam-se pela força que os seus escritos carregam e pelo papel político exercido durante a luta armada pela independência. O primeiro é Amílcar Cabral, autor já mencionado, fundador do PAIGC, um dos grandes intelectuais da África. Amílcar Cabral não somente é autor de muitos poemas de revolução, mas também é dele a autoria do hino nacional da Guiné-Bissau (AUGEL, 2007). O desejo de um país livre da dominação portuguesa era visto com frequência nas suas obras. Lembramos aqui o poema ‘Ilha’, os primeiros versos já registram a falta, a nudez e a sede: 

Tu vives – mãe adormecida

Nua e esquecida,

Seca

Fustigada pelos ventos,     

Ao som das músicas sem músicas

Das águas que nos prendem[24] [...].

 

O segundo poeta dessa lista é Vasco Cabral, um dos pioneiros da poesia guineense. Quando falamos de Cabral, vem logo à memória a sua obra bem conhecida: A luta é minha Primavera (1981). De fato, o título tem todo sentido, do ponto de vista literário, para despertar a nossa memória do que foi o jugo colonial. Era preciso lutar para se livrar da forte opressão portuguesa. Era preciso que os guineenses entendessem que a liberdade estava em primeiro lugar, ainda que custasse sangue: Esta é a terra dos nossos avós!/ fruto das nossas mãos/da flor do nosso sangue. Como dizia Fanon, no livro Condenados da Terra (2006), violência é entendida como a mediação real, ou seja, o homem colonizado liberta-se em e pela violência.

Não há como negar que a nossa literatura começou a florescer a partir do ano 1973, isto é, depois da independência do país. A partir desse ano, surgiram vários poetas, presentes tanto nas antologias poéticas quanto nas publicações individuais. Em 1973, foi publicado ‘Poilão’, obra denominada por muitos pesquisadores como Caderno de poemas, com mais ou menos 30 páginas de autorias guineenses, cabo-verdianas e portuguesas. António Baticã Ferreira foi um dos guineenses destacado dessa antologia poética. Depois de quatro anos, em 1977, surge a publicação que marcou para sempre a história da nossa literatura, a famosa Mantenhas para quem luta, organizada por Manuel Ferreira. O prefácio não registra autoria, mas muitos especialistas da área entendem que o autor do referido prefácio foi o próprio Manuel Ferreira.

A palavra mantenha, que em crioulo significa cumprimento, para quem lutou, sem dúvida, fazia todo sentido quando se falava de um país que saíra recentemente da guerra colonial. Os combatentes mereciam ser cumprimentados e celebrados com palavras de esperança e votos de uma Guiné melhor. Foi um cumprimento para cada combatente que deu a vida em prol da liberdade do nosso chão. A referida obra conta com participação de 14 autores guineenses, e com 51 poemas dedicados aos combatentes da liberdade da pátria. Observamos, contudo, que não consta nenhuma figura feminina nessa coletânea.

Quando falamos que é a partir de década de setenta que a literatura guineense começou a florescer, é porque estamos a referir os gostos de palavras expressadas com sentimentos profundos de dor de cada poeta ali presente. Ali já havia um estilo próprio e comum dos poetas, fugindo, assim, de uma literatura avulsa[25], na qual os autores publicassem seus sentimentos individuais, sem uma articulação que sustentasse as vozes comuns. Nos versos dessa antologia existe fel, mas, ao mesmo tempo, notamos um sentimento de cantos alegres como os passarinhos que encontram seus ninhos. 

Notamos que, depois dessa publicação, houve um grande interesse dos poetas no exercício literário do país. Já no ano seguinte, em 1978, Francisco Conduto de Pina publicou uma coletânea de poemas, intitulada Garandesa di no Tchon – A grandeza do nosso chão / As belezas da nossa terra.  Essa obra foi considerada a primeira obra literária individual, após a independência do país, como vimos anteriormente. No mesmo ano, foi publicado Momentos primeiros da construção, uma antologia poética que contou com 35 poemas e registrou 12 autores participantes.

Vale a pena dizer que nessa coletânea temos a voz poética de Mariana Marques Ribeiro, hoje, pouco conhecida no mundo literário lusófono e pouco lembrada quando se fala de escritoras guineenses. Ela é única voz feminina desse projeto literário que resplandeceu, na nossa literatura, nos anos 70. Depois dessas duas obras importantes acima referidas, houve uma sucessão de obras antológicas, como Os continuadores da revolução e a recordação do passado recente, antologia publicada em 1979; Antologia poética da Guiné-Bissau, de 1991; O Eco do pranto: a criança na moderna poesia guineense, de 1992, organizada pelo António Soares Lopes Júnior, conhecido no mundo literário como Tony Tcheka. Essa coletânea reuniu grandes vozes poéticas da época até aos dias de hoje, entre eles: Agnello Regalla, Conduto de Pina, Hélder Proença, Vasco Cabral, Mariana Marques Ribeiro, Jorge Cabral e Pascoal D' Artagnan Aurigemma.

A década setenta, de certo modo, foi vista, nas reflexões de muitos pesquisadores das literaturas africanas de língua portuguesa, como a década de ascensão da literatura guineense. Segundo Hildo Honório Couto e Filomena Embalo, é a fase do terceiro período que representa muito bem a identidade da literatura guineense. De acordo com esses autores, a literatura guineense desse período era marcada pela afirmação da nacionalidade e da pátria, como fase de ‘construção da nação’ (COUTO e EMBALO, 2010).

A poesia foi muito presente desde cedo para afirmação da literatura guineense. Já a prosa, por sua vez, só começou a afirmar-se a partir dos anos 90, ganhando um espaço maior nas publicações de autoria guineense. Dois autores se aventuraram no mundo da ficção nesse período. Em 1993, foi publicada uma coletânea de contos, A escola, de Domingas Barbosa Mendes Samy; posteriormente, veio à publicação do romance Eterna Paixão, de autoria de Abdulai Sila, escrito na década 80, porém publicado apenas dez anos depois, em 1994. Mesmo assim,  Eterna Paixão foi considerado o primeiro romance escrito por um guineense. A segunda obra de Sila, A Última Tragédia, foi publicada em 1995 e, em seguida, o autor publicou Mistida, em 1997.

Depois desses dois autores na área de ficção, surgiram várias publicações individuais, tanto no gênero de poesia quanto no gênero de prosa, entre elas: Entre o Ser e o Amar (1996), de Odete Costa Semedo; Noites de Insônia na terra adormecida (1996), de Tony Tcheka; Kikia Matcho (1998), de Filinto de Barros, que analisaremos nos capítulos posteriores; Contos de N'Nori (2000), de Carlos Edmilson; Sonéá: histórias e passadas que ouvi contar I e Djêni: histórias e passadas que ouvi contar II, dois volumes de contos publicados em 2000, de autoria de Odete Costa Semedo; Testemunhos di Mbera, um livro de contos, de Sepa Ié Có, publicado em 2002; Os Contos da cor do tempo(2004), livro de contos, publicado pela editora Ku si Mon, no seu décimo aniversário.

Concordamos com Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, escritor brasileiro, uma das vozes contemporâneas mais respeitadas da literatura negra brasileira, quando afirma que “a literatura é uma forma de se dizer presente, de reagir contra todas as formas de apagamento existentes na sociedade”[26]... A literatura guineense, de certo modo, procurou "dizer presente", através das pequenas estórias, provérbios e adivinhas, repositórios da tradição oral do país.

Todas essas manifestações da oralidade africana são diversas formas de se "dizer presente", de marcar presença, de reagir contra todas as tentativas de apagamento existentes na sociedade. Registra-se que, só em 1879, foi fundada a primeira tipografia do país, conhecida como Imprensa de Bolama. Em 1924, foi fundado o primeiro jornal do país, denominado Pró Guiné. E, só em 1958, a Guiné possuiu um estabelecimento de ensino secundário. Comparada com Cabo Verde, a educação na Guiné conta o atraso de um século. Tratando-se das publicações literárias, só em 1963, a Guiné-Bissau teve a primeira publicação literária no país, o livro Poemas, de Carlos Semedo, citado anteriormente. Todo atraso é decorrente, como tentamos mostrar, dos grandes problemas socioculturais que a Guiné viveu durante todo o período de colonização.

Vários são os fatores a apontar para a explicação desse desenvolvimento tardio. Além das dificuldades já nomeadas, outro fator a apontar, é o fato de a literatura guineense ser pouco divulgada, a despeito de esforços de pesquisadores como Moema Augel, que vem produzindo material sobre a literatura guineense desde a década de 1990. Observamos também que essa falta de interesse sobre a literatura guineense parece relacionar-s aos crescentes conflitos internos, marcados por golpes de Estados e guerra civil.

Apesar de todas as dificuldades do surgimento da sua escrita, acreditamos que a literatura guineense possui uma marca de identidade própria, que, entre outros fatores, assenta nas diversidades culturais de seu povo, com traços próprios e raízes alargadas. A literatura guineense é um instrumento vivo para manifestações das nossas emoções, por mais que elas tenham sido caladas e ameaçadas. A literatura guineense tem sido uma forma de expressarmos as nossas dores. Ouso dizer ainda que ela é a melhor arma do nosso povo, por meio da qual tem sido possível afirmar nossa cultura, nossas crenças e resistir à opressão.

Acreditamos também que, por meio da palavra é possível resgatar ou desenterrar o enterrado, pois a força da literatura alcança as almas mortas. Porém, não duvidamos também que, se uma literatura não for divulgada, ela poderá morrer como uma planta por escassez da água. A literatura, com seu poder transformador, como outras manifestações da arte, precisa ser regada, ou seja, expandida e discutida pelos leitores, historiadores e críticos. Por isso, nossa maior preocupação, hoje, sem questionamentos a priori, é tornar cada vez mais visível a literatura guineense.

O angolano, Mario Pinto de Andrade, conhecido como um dos pioneiros na divulgação da literatura africana de língua portuguesa publicou Antologia da poesia negra de expressão portuguesa (1953), e, mais tarde, Cultura negro-africana e assimilação (1958). Observamos, contudo, que nessas coletâneas, Pinto Andrade só publicou um poema – ‘Meia noite’ – do cabo-verdiano Terêncio Casimiro Anahory Silva. O poeta, de nacionalidade cabo-verdiana, foi considerado guineense por ter ido ainda adolescente para Guiné-Bissau (AUGEL, 1998, p.120).

Em outras coletâneas, no entanto, Anahory é apresentado como natural de Cabo Verde. Quando o mesmo Mario de Andrade publicou Antologia de temática de poesia africana (1976), apesar de ser considerado na época, até nos dias de hoje, como amante e admirador da Guiné-Bissau, apenas citou na antologia dois poemas de autores guineenses: Agnello Regalla e José Carlos Schwarz. Já Manuel Ferreira, autor de grande referência literária de literatura de expressão portuguesa, não muito diferente de Mario Andrade, também não fez questão de elevar a literatura guineense. Na Antologia panorâmica da poesia de expressão portuguesa, a qual deu título no Reino de Caliban (1975) e na qual constam cento e trinta e oito poetas, Ferreira apenas incluiu um único poeta guineense, no primeiro volume, António Baticã Ferreira. Talvez para comprovar o argumento de “um espaço vazio” na literatura da Guiné-Bissau. No entanto, já naquela época, como sabemos, havia outros autores guineenses importantes, como, por exemplo, Amílcar Cabral, Vasco Cabral e Hélder Proensa (AUGEL, 1998, p. 121).

Difícil entender o lugar ocupado pela literatura guineense, em relação às demais literaturas africanas, sem refletirmos sobre o papel das obras desses pesquisadores de renome. Por isso, considero grandiosas as duas obras de Moema Parente Augel: A Nova Literatura da Guiné-Bissau (1998) e o Desafio de Escombro: Nação, Identidade e Pós-colonialismo na Literatura Guineense (2007). Nas duas obras, a autora fez profundas reflexões sobre o processo da formação da literatura guineense e a evolução dos seus autores. Por isso, andamos de mãos dadas com essas referências até final do nosso trabalho. Assim, poderemos dar continuidade aos estudos literários guineenses, pois poucos são os pesquisadores que fixam seus olhares na historiografia e discussão da literatura guineense.

A partir do livro de Augel, percebemos a força dos seus argumentos e as referências bem fundamentadas, para provar o quanto que a literatura guineense tem sido silenciada:

Constata-se frequentemente que estudiosos das literaturas africanas de expressão portuguesa nem ao menos se referem a Guiné-Bissau nos seus escritos, como Alfredo Margarido ( 1980), que apresenta um panorama geral das literaturas de todos os países africanos lusógrafos e silencia quanto à Guiné-Bissau. Da mesma forma, a revista portuguesa Discursos publicou um número inteiramente dedicado à literatura dos PALOP (FEV.1995), não tendo, entretanto, incluído a Guiné-Bissau. Tampouco Salvato Trigo detém-se nesse país em seus trabalhos, dos quais destacam-se os Ensaios de literatura comparada afro-luso-brasileira (AUGEL, 2007, p. 107).

 

Todos os pontos demarcados até aqui, sem sombra de dúvidas, nos revelam caminhos de uma literatura invisibilizada. Para que a literatura guineense seja apreciada e conhecida como as demais da sua comunidade, é preciso muitas mãos para regá-la. Afinal, como alguém pode ser conhecido sem ser apresentado? Lembramo-nos aqui das palavras do grande crítico brasileiro, Antônio Candido, no seu importante livro, Formação da literatura brasileira, "comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime” (CANDIDO, 1918).

O que nos toca, mais profundamente, nessa frase de Candido, são essas três palavras: pobre, fraca e exprime. Estamos conscientes de que a literatura guineense teve uma aparição tardia, comparada às literaturas de Angola e Moçambique, porém, ela está a florescer junto com seus autores. Nesse sentido, ela é rica, ela é forte, ela é expressiva. Nas palavras de Moema Augel: “diante das lacunas a que a literatura guineense é exposta é preciso comprovar a urgência de um maior intercâmbio entre os diferentes países de língua oficial portuguesa e a necessidade de um trabalho de divulgação que precisa começar, sobretudo dentro da própria Guiné-Bissau” (AUGEL, 2007, p. 107).

A utilização do crioulo nos textos de Abdulai Sila, Odete Semedo, Tony Tcheka, Filinto de Barros e tantos outros são formas de preservar a tradição oral e valorizar a nossa própria identidade. Podemos também levar em consideração que essa fusão da língua crioula e da língua portuguesa nos textos de Abdulai Sila, Odete Semedo, Tony Tcheka e Rui Jorge Semedo enriquece a nossa literatura, tornando-a mais viva e expressiva. Todos esses autores demonstram que a língua crioula traz em si sentimentos profundos, cuja tradução, muitas vezes, é difícil, tornando inviável a expressão das emoções originais. As palavras podem ser traduzidas, mas surgem sempre vazios ao traduzirmos os sentimentos poéticos. Esse é um dos motivos expressos no poema de Maria Odete Costa Semedo, quando o sujeito poético afirma não saber “em que língua escrever para contar histórias das mulheres e dos homens do seu chão”. Observemos o poema:

Em que língua escrever.

Contando os feitos das mulheres

E dos homens do meu chão?

Como falar dos velhos                                                            

Das passadas e cantigas

Falarei em crioulo?

Falarei em crioulo?

Mas que sinais deixar

Aos netos deste século?

Ou terei que falar

Nesta língua lusa

E eu sem arte e nem musa

Mas assim terei palavras para deixar

Aos herdeiros do nosso chão

Em crioulo gritarei[27] [...].  

 

De acordo com o texto acima, questiona-se a língua que deve ser utilizada no poema. Se escolher o português, o sujeito poético certamente não chegará à mensagem aos herdeiros do seu chão. Se escrever em crioulo, acredita que a mensagem será guardada para gerações vindouras. Optou por escrever, então, em duas línguas para deixar seus textos vivos.

É desse ponto que desejamos partir, ou seja, é a partir dessas ideias que gostaríamos de desenvolver nosso trabalho, mostrando como a língua crioula tem sido vital para a nossa sociedade e para a formação de nossa identidade nacional. Ao longo do trabalho, procuraremos argumentar que a língua portuguesa, mesmo sendo a língua oficial, não é a língua de uso no cotidiano guineense. De tudo que procuramos mostrar, resta dizer que a Guiné sempre careceu de uma política séria no âmbito educacional: sem incentivos e sem liberdade para produções literárias. A independência, sem dúvida, trouxe a liberdade da opressão colonial; por outro lado, desde então, a maior parte das autoridades de estado não permitiram a liberdade de expressão nem deram apoio à divulgação da cultura guineense. O país ainda conta com poucas bibliotecas e centros culturais. Até o INEP, importante órgão cultural, foi destruído durante a guerra civil de 1998. É diante de tal panorama adverso que acreditamos, sem nenhuma dúvida, que a literatura guineense é feita de resistência e luta.

 

CAPÍTULO II

CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO CULTURAL GUINEENSE

 

2.     Adivinhas: um espaço de reafirmação de comunhão entre os mais velhos e os mais novos.

Onde quer que haja humanos, há história, com ou sem escrita (KI-ZERBO. Joseph).

 

A Guiné-Bissau é um país, como outros países africanos, que ainda preserva muito as tradições orais, embora as práticas dessas tradições estejam perdendo espaço e dando lugar às novas mídias culturais. Porém, no interior do país, ainda se vê, nas noites escuras de luar, os mais novos à volta de uma fogueira, em torno de um homem ‘mais velho’, como chamamos os anciãos na maioria dos países africanos.

O papel das práticas tradicionais como advinhas, estórias e provérbios é a transmissão dos valores de uma comunidade, é a educação e a expressão da cultura transmitida de geração em geração. Essas tradições, também, enriquecem a memória dos mais novos, transmitindo saberes e regras de comportamento social. Por isso, enfatizamos, aqui, a ideia de Hampâté-Bâ, quando diz: “quando morre um velho é uma biblioteca que se perde” (Bull, 1989, 168, apud COUTO, 2009, p. 51). O autor, através dessa afirmação, nos mostra a grande importância dos mais velhos nas sociedades africanas. A oratura é também divertimento, e não só gosto pelo saber. Segundo Moema Augel: [...] “a literatura oral ou oratura é um acervo transmitido pela voz e pela memória, constituído pelas histórias tradicionais, provérbios, adivinhas, cantigas, manancial do saber e de criatividade populares” (AUGEL, 2007, p. 50).

Apesar do advento da modernidade em algumas cidades como Bissau, Gabú e Bafatá, as tradições orais ainda se fazem presente no país. Os mais velhos, conhecidos, também, no meio social guineense, como “Os garandis”, guardam ainda na memória as riquezas dessas tradições para passar aos filhos, netos, bisnetos e vizinhos, na África, é considerado como pertencentes à família. Como já referimos anteriormente, o país possui mais de vinte e sete grupos étnicos. Cada um desses grupos possui suas características culturais próprias e muito diferentes umas das outras. Por isso, as manifestações orais guineenses são de diversas formas, de acordo com a etnia e a região de cada grupo. Cada adivinha, cada estória e cada provérbio, ainda que contado de maneira diferente, vai transmitir as mesmas mensagens de vida nos  grupos étnicos.

Ou seja, os anciãos de diferentes etnias não se expressam da mesma forma ao contar estórias, apresentar adivinhas ou empregar provérbios; usam enunciados de acordo com contexto linguístico de cada etnia; porém, como dissemos anteriormente, o sentido ou fundo moral é o mesmo. Contudo, atribuiu-se um provérbio ou uma estória a determinado grupo étnico, tendo em conta o peso das palavras e da atenção que o contador transmite com tais narrativas orais.

As tradições orais têm grande importância na Guiné-Bissau, assim como no contexto africano, de modo geral. Elas são importantes, também, na medida em que atuam na formação do indivíduo na sociedade africana.

Se procurarmos explicar o significado da adivinha dentro do contexto africano podemoremos dizer que as adivinhas são jogos plenos de exercício da memória. Ao mesmo tempo, elas servem para compartilhar os conhecimentos e preservar a memória coletiva de um povo de geração em geração.

O jogo ou divertimento com as adivinhas acontece à noite, depois dos duros trabalhos do dia. Nesse encontro à volta da fogueira, também, não é surpresa ouvir dos mais velhos os provérbios e a narração dos contos tradicionais. Nessas noites, como beneficiários das tradições orais passadas, são as crianças que acendem a fogueira e, a volta dela, sentam-se. Ali há sempre a presença de um ancião ou anciã experiente, conhecedor das realidades sociais e culturais da aldeia e do país. A noite é sempre de muita alegria, pois as palavras enaltecem o sentido da vida nesse mundo.

Vale salientar que, no contexto africano, as adivinhas são, nada mais, nada menos, que  brincadeiras para a diversão, e consistem na prática cultural em que se trocam os conhecimentos entre um grupo de pessoas de mesmo laço de parentesco, ou de pessoas da mesma aldeia, lembrando que na tradição africana, os vizinhos convivem como se fossem da mesma família. Hoje em dia, nos centros urbanos, quase não se veem mais praticantes dessa belíssima manifestação cultural africana, tendo em conta o advento e o avanço das mídias culturais. Nos centros urbanos onde a modernidade se faz presente junto com a valorização das práticas culturais importadas percebe-se que as novelas brasileiras e os filmes indianos, por exemplo, ganham espaço na diversão por parte das meninas, enquanto que os rapazes se voltam para a discussão de futebol da liga espanhola, portuguesa, italiana e inglesa – não se preocupando muito com a valorização cultural do país.

A cidade de Bissau, por ser a capital do país desde 1942, é um dos lugares onde as manifestações culturais tradicionais vão morrendo a cada dia, devido à concentração de diferentes grupos étnicos, vindos de diversas partes do país e dos empresários estrangeiros que não levam apenas suas mercadorias, mas, também, suas culturas, acelerando a aculturação do povo de Bissau e dos seus diversos grupos étnicos. Lamentavelmente, a tradição da cultura da adivinha, assim como outras manifestações culturais guineenses, extingue-se dia a dia.

Contudo, em outras regiões, como, por exemplo, Bolama, Cacheu, Mansoa, entre outras, prevalece, ainda, o interesse em expandir a cultura guineense por meio da oralidade. Há ainda grupos que se reúnem à noite para contar e ouvir estórias e praticar o jogo das adivinhas.

A nossa grande preocupação neste capítulo é apresentar as adivinhas tradicionais guineenses, mostrar a sua importância na comunhão entre os mais velhos e mais novos na africana, principalmente na Guiné-Bissau, onde a oralidade ainda apesar de tudo é uma grande marca. Hoje, apesar de as adivinhas terem perdido muito seu espaço de pertença, comparando com outros tempos, ainda exercem, com eficácia, seu papel no processo de comunhão e de harmonia entre os povos guineenses.

As adivinhas constituem uma grande riqueza cultural dos povos africanos. Elas manifestam-se de forma clara e preserva a memória coletiva. Dos nove até os meus treze anos de idade vivia na zona sul do país, em Djiu de Colbert, uma das localidades pertencente a região de Tombali. Desde então, até a data presente, preservo ainda na minha memória as noites inesquecíveis, em que ficávamos em volta de uma fogueira, com olhos cheios de água, ouvindo o meu avô Arnaldo, já falecido, a contar estórias e a nos fazer decifrar adivinhas. Esses momentos, sem dúvida, influenciaram bastante a minha paixão pela literatura. Mais adiante, apresentaremos uma lista de adivinhas que me trazem gratas recordações dessas noites.

Cada uma das adivinhas guineenses possui diversas formas de narração, dependendo da habilidade e do talento de cada contador. Apesar de apresentarem variações, elas possuem um sentido único, ou seja, não há contradições nas possíveis respostas levantadas entre os ouvintes e aquele que lança, que apresenta adivinha. Neste sentido, percebemos que há uma grande dinâmica entre quem conta e quem encontra a adivinha proposta. Essa dinâmica, essa interação, de certa forma, enriquece a harmonia e o espaço de comunhão para o bem-estar de todos os povos africanos. Por outro lado, esse compartilhar, também, aumenta a capacidade de pensar e de enxergar o mundo que nos rodeia. Vejamos, por exemplo, as variações da adivinha a seguir:

a) Dus rapas se na kuri, e kata panha ñutru, ma se firma, e ta perto ñutru. (Dois rapazes quando correm juntos, nenhum deles consegue ultrapassar o outro; mas, se estão parados, ficam perto um do outro. Resposta: Os dois pés.

b) Dus fidjus djemia, se na kuri, e kata panha ñutru, ma se firma, e ta perto ñutru. (Duas gêmeas quando correm juntas, nenhuma consegue ultrapassar a outra; mas, se estão paradas, ficam perto uma da outra. Resposta: Os dois pés.

c) Dus bedjoti se na kuri, e kata panha ñutru, ma se firma, e ta perto ñutru. (Dois velhos, quando correm juntos, nenhum consegue ultrapassar o outro; mas, se estão parados, ficam perto um do outro. Resposta: Os dois pés.

Observemos que são três adivinhas apresentadas de maneiras diferentes, mas percebe-se que todas elas possuem a mesma resposta e um único sentido perante a situação e argumentos do apresentador. As diferenças nessas adivinhas consistem nas seguintes palavras: Rapas, rapaz, djemia, gêmea, e bedjoti, velho. Muitas vezes, essas mudanças de nomes para uma mesma adivinha podem confundir os ouvintes nas respostas. Não é tão estranho ouvir contar na mesma noite uma adivinha que tenha a mesma resposta e o mesmo sentido, porém dita de maneira diferente. Como asseveram Teresa Montenegro e Carlos Morais, “uma adivinha é sempre um jogo que se pode caracterizar por uma regra única: a finalidade é a descoberta” (MONTENEGRO; MORAIS, 1979a, p. 58 apud AUGEL, 1998, p. 44). 

Esse exercício de descoberta possibilita mais interesse dos participantes memorizarem a adivinha já contada, ainda que a forma da enunciação seja diferente. É grande verdade que, quando uma pessoa corre, os pés não ficam numa mesma posição. Mas se essa pessoa ficar parada, com certeza, os dois pés vão ficar próximos. Os argumentos das respostas de adivinhas são grandes marcas dessa manifestação cultural. A resposta de uma adivinha deve possuir uma lógica, de acordo com a vivência e os costumes locais. Nunca se pode apresentar uma adivinha que foge a coerência das realidades locais. Muitas das vezes, a resposta de uma adivinha é discutida, por muito tempo, até se chegar a uma conclusão entre o contador e os ouvintes, sem fugir do contexto da localidade.

A noite de adivinhas é sempre marcada pela presença de um mais velho – conhecedor da cultura local e guardião dos ensinamentos tradicionais dos ancestrais – saberes que ele bem domina. Geralmente, todas as adivinhas contadas nas noites de fogueiras são baseadas na realidade sociocultural do povo guineense. Os contadores das adivinhas não devem fugir a essa regra. As adivinhas começam sempre com um habitual termo conhecido por qualquer guineense que teve tanto a sua infância no interior quanto na cidade, Bissau, a capital.

A frase com que começa uma adivinha é: dibinha, dibinha[28] os ouvintes, muito animados, respondem em coro: dibinha, sertu[29], adivinhando, procurando a resposta com entusiasmos. Caso os ouvintes da roda de fogueira não responderem divinha sertu, o contador  não procede com a estória. Só com as respostas da plateia que o/a contador/a terá o prazer de dar continuidade ao jogo. Se a adivinha for conhecida por integrantes dessa roda, a resposta é disputada entre todos que buscarão ser os primeiros a acertarem a respota. E o apresentador fica sem graça, dando oportunidade a outro participante. Esse integrante toma o lugar da fala para a sua adivinha, é assim sucessivamente.

É bom ressaltar que essa interação ou diversão entre os mais velhos e os mais novos, denominada dibinha, dibinha, geralmente acontece nas noites, muitas vezes, nas noites de luar, como já referimos anteriormente, também, durante o dia. Mas, antes de tudo, a pessoa que deseja ouvir ou apresentar uma adivinha, deve fazer um ritual que consiste em matar uma formiga. Se esse ritual não acontecer, não há possibilidade de prosseguir com o jogo da decifração. Segundo os mais velhos, se dibinha, dibinha acontecer durante o dia, sem que os indivíduos que participam dela não realizem o ritual de matar uma formiga, há riscos de se perder um membro da família.

Por mais que o espaço das adivinhas pertença, sobretudo às crianças, ali há muitas obscenidades sobre o contexto social guineense. Por exemplo, as três adivinhas abaixo conotam respostas de obscenidades, mas isso não é considerado importante no contexto guineense. Tudo é tratado num ato de brincadeira e diversão entre os amigos e membros da família: a) Fonti tene badja[30], b) Ntene batata na quintal, nunca nkumel, son djintis di fora kuta kumel[31], c) Tris omis bas di tchuba, son um son delis ku modja[32].

Para Teresa Montenegro e Carlos Morais a “adivinha veicula normalmente, numa forma leve e sugestiva, conhecimentos que correspondem às necessidades da vida no meio do mundo que nos circulam” (MONTENEGRO; MORAIS, 1979b apud COUTO; FILOMENA, 2010, p 185).

As crianças, geralmente, hesitam e demonstram sempre nos rostos grande alegria e curiosidade para contar, apresentar suas adivinhas – que, muitas vezes, foram escutadas nos dias anteriores da boca de um contador. Elas ficam prontas para ouvir estórias dos animais, dos homens, nas noites de fogueira; e o que não faltam são as adivinhas. O vencedor de uma noite de adivinha sempre é premiado, como forma de fazer com que as outras crianças participantes do jogo se esforcem em encontrar as respostas das adivinhas ora apresentadas para os próximos encontros. A resposta de uma adivinha pode ser encontrada na convivência do dia a dia dos moradores da aldeia. Quando uma criança é uma boa observadora desse espaço de interação passa, também, a preservar a memória coletiva de sua comunidade social.

O espaço em que ocorre a manifestação cultural é chamado na expressão guineense de Jumbai[33]. As adivinhas constituem um grande esforço de exercício da memória. Como dissemos anteriormente, todas as perguntas para adivinhação são feitas com base na vivência local, ou seja, nenhuma advinha foge da realidade social e cultural da aldeia.

A noite, no contexto guineense, é sagrada. Percebe-se que, além de jogos de adivinhas, essa tradição de Jumbai serve como um espaço de interação social. Os contadores de adivinhas desempenham um papel muito importante no processo educativo e na valorização da cultura guineense. As adivinhas, assim as estórias, contadas dentro do contexto africano têm o poder de nos levar a refletir sobre o nosso papel no mundo. No dizer de Moema Parente Augel: “através dessas estórias, afloram de modo plástico e convincente as experiências e vivências das diferentes comunidades culturais que constituem a textura da sociedade guineense” (AUGEL, 1998, p.44).

Observamos ainda que o apresentador das adivinhas procura sempre contar também estórias de modo a advertir as crianças ou qualquer membro da família sobre as consequências dos maus atos praticados, trazendo, às vezes animais como personagens das estórias, apresentando um final em que esses animais pagam pela consequência dos seus feitos. O narrador, de certa forma, procura apresentar suas histórias aos ouvintes, fazendo uma reflexão sobre as consequências dos nossos atos e escolhas. Estórias dessa categoria conduzem os ouvintes a pensar no valor de levarem uma vida de honestidade.

A importância das adivinhas liga-se também ao fato de ser uma forma de premiar a moralidade na sociedade. Mais adiante, vamos apresentar algumas advinhas e seus proveitos para reflexão da sociedade. Veremos que, muitas vezes, trazem conselhos e advertências por parte dos anciãos. Além de tudo isso, no contexto social africano, as advinhas nos ensinam a melhor maneira de viver na sociedade. Todas elas exercem, de fato, o papel de educar, advertir, sobretudo, mostrar as consequências dos atos praticados, e por fim, proporcionar uma lição de moral aos ouvintes.

Seguem algumas das adivinhas que fizeram a alegria da minha infância e juventude:

ADIVINHAS

Bakas  na lala mbes de tcheme  reia, é na tcheme padja.

Vacas  no campo estão comendo areia, em vez de comerem erva.

Resposta: Piolho.

Bentu si fila ku nha fidju i ta dispil.

O Vento despe o meu filho se lhe bate no rosto

Resposta: livro.

Tchuba pudi  tchubi, ma i kata modjal.

Por mais que chova, ela não fica molhada.

Resposta: Sombra.

Dus pes na serka kuatru  pe, pabia di  um  pe.

 

Dois pés correm atrás de um pé, por causa de um pé.

Resposta: homem corre atrás de um porco, por causa de pé de uma mandioca.

Ntene tris badjudas, si um son falta tarbadju, kil utrus kata pudi tarbadja.

Tenho três meninas, quando uma falta ao trabalho, as outras não conseguem  trabalhar.

Resposta: Três pedras de cozinha.

Ke ku sta na meta di di mar.

 

O que está no meio do mar.

Resposta: a Letra A.

Ntene un rapas  si mandal  i  kata riba.

 

Tenho um rapaz, quando lhe mandar, ele não volta.

Resposta: Anzol.

N´sta li n´stala.

Estou aqui,  mas estou  lá.

Resposta: sentido.

Dus badjuda  mora  na  um  kasa, ma é kata odja ñutru.

 

Duas meninas moram  na  mesma casa, porém, não se veem.

Resposta: os olhos.

Ntene un banda, n distindil na lala, un dia nbin kema ki lala, ma banda ka kema.

 

Tenho uma banda de tecido, estendi-a na lala, um dia queimei aquela lala e a banda não queimou.

Resposta: caminho.

Ita leba, ma i kata kume.

 

Leva, mas não come.

Resposta: colher.

Nte um  kriadu i ta djudan son  si mara panu.

 

Tenho um criado só me ajuda quando amarra o pano.

Resposta: vassoura.

Ntene um badjuda i braba, ma i ta kunha sabi.

 

Tenho uma menina é brava, mas cozinha muito bem.

Resposta: abelha.

Ntene um baka si maral, kifri ta sai fora.

 

Tenho uma vaca e quando lhe amarro, o chifre fica por fora.

Resposta: fumo.

Ntene um bulanha, si korta arus, i ta tchibi son na un mon.

Tenho um lugar alagado onde cultivo o meu arroz, porém, quando o cultivo nele, apenas cabe na palma de uma mão.

Resposta: cabelo.

Ntene um kusinheru i kata ngabadu.

 

Tenho um cozinheiro que cozinha muito bem, porém, ele não aceita elogios.

Resposta: sal.

Ntene um baka si  maral  korda, ora ki na kume padja, si korda tan  kurta.

 

Tenho uma vaca e quando a amarro no quintal para comer ervas, por mais que coma a erva, a corda fica mais curta.

Resposta: agulha e linha de tecido.

Nha kriadu si mandal bas di  tchuba i kata modja.

 

O meu criado eu o mando debaixo da chuva, mas ele não fica molhado.

Resposta: fala.

Ntene um kanua, si na bai i ta leba pasajerus, ma si na riba son remadur  kuta riba.

 

Tenho uma canoa, na ida ela leva vários passageiros, mas quando regressa só volta o remador.

Resposta: Uma colher.

2.1.          Provérbios: um jogo de palavras para pensar à sociedade.

Quando eu era ainda criança gostava muito de ficar próximo dos mais velhos. Um dia, a minha mãe, muito preocupada, me disse que eu ia envelhecer antes do tempo. Eu não queria envelhecer antes do tempo, mas o meu desejo era conhecer mais e mais sobre as tradições orais com eles. O que me mais me estimulava a me aproximar dos mais velhos era, sem dúvida, a forma como eles falavam por meio dos provérbios. O meu avô Arnaldo, por exemplo, era muito admirado nos conhecimentos orais que aprendeu com seus pais; e fazia questão de preservá-los e compartilhá-los com as pessoas ao seu redor. Ele era chamado de “Sabe tudo” em Djiu de Colbert.

O meu avô Arnaldo não passava um dia sequer sem usar um provérbio que fizesse alusão às realidades tipicamente guineenses. Ele tinha a palavra na ponta da língua – os ditos para melhor refletir sobre os assuntos importantes de cada momento. Um dia, à tarde, surpreendeu-me a reclamar de que não estava satisfeito do almoço... Olhou-me de baixo para cima e lançou mais um dito para aquela tarde: Galiña ku kargadu ka sibi si kamiñu lunju (galinha carregada não sabe se o caminho é longo). Fiquei o resto daquela tarde pensando nas palavras: Galinha, carregada e caminho...

O provérbio usado por meu avô para aquela situação queria dizer que a pessoa que não trabalha e é sustentada não conhece sacrifícios da vida. Ela é levada: o caminho nunca será longo. Não conseguia compreender imediatamente muitas coisas dos ditos populares guineenses usados por vovô Arnaldo. Assim, eu ficava, às vezes, o dia todo, a pensar naquelas palavras onde existiam segredos da vida. Mas ele, em algumas noites de fogueira, além de contar estórias, procurava, de certo modo, explicar cada dito, de acordo com os contextos em que foram usados. Eu mergulhava nas estórias e nunca faltava uma noite de fogueira. Passado algum tempo, o próprio tempo começou a me ensinar a desvendar certos segredos da existência humana, que existiam dentro da cultura da oralidade guineense. Vivia precocemente um mundo que ainda não me pertencia, em função da idade que tinha. A minha mãe tinha razão – terminei envelhecendo antes do tempo... Aprendi a contar as estórias muito cedo e passei, de certo modo, a me aproximar muito da forma como os velhos falavam.

Cada estória, cada superstição, cada provérbio falado era para mim uma maneira de entender a minha sociedade e aceitar as realidades da minha própria cultura. Demorava a compreender os sentidos de alguns provérbios, mas valia a pena ouvi-los, pois tinha certeza de que, um dia, um dos velhos ia me interpretar os sentidos daqueles ditos. A partir daí passei a adotar uma nova maneira de levar a vida; enfim, compreendi o quanto de sabedoria existia no mundo dos provérbios.

O uso de provérbios no contexto africano não é apenas para ensinar, mas para educar sem limites, pois sua sabedoria se estende a todos os contextos da existência. Por isso, o universo dos provérbios abraça a vida nos seus galhos. Os velhos, representantes da sabedoria local, usam os provérbios, ciosos de que seus valores e conhecimentos adquiridos ganharão asas para voar no espaço e no tempo, pois as ideias transmitidas pelos provérbios sobrevivem na tradição viva, apontando para o caráter imortal a oralidade.

Os provérbios, neste contexto, possuem uma grande dimensão cultural, na medida em que permitem aos mais velhos exporem suas ideias em poucas palavras. Dou aqui dois exemplos que ouvi da voz de um ancião guineense para uma criança: kin ku ka tene mame i ta mama dona (Quem não tem mãe, mama leite da avó), ou sufridur na padi fidalgu (O sofrimento nos faz nobre). O primeiro provérbio quer exaltar o sentido da vida, do ponto de vista africano, mostrando que a solidariedade e a preocupação com o próximo são, ainda, os melhores aspectos culturais preservados na convivência do dia a dia dos africanos. O segundo provérbio nos mostra outro lado da força dos africanos em lidar com as situações dolorosas da vida, por mais que elas sejam cruéis. A nobreza e a força de viver a vida, mesmo diante das dificuldades estão sempre na alma dos povos africanos. Nesse sentido, os provérbios podem ser vistos como uma doutrina filosófica, que enriquece a sabedoria humana. Os seus usos apontam, portanto, para a crição de novos mundos.

Outro aspecto que merece ser destacado no uso dos provérbios são os sentidos e circunstâncias em que eles são usados. Por exemplo, em uma situação de conversa, um velho aperta a mão de um jovem em dificuldades e lhe diz: i ka tem kinti ku kata fria (Não há nada quente que não possa esfriar).Observa-se que o velho não fez um discurso prolongado – que podia durar horas e horas para consolar o rapaz. O velho falou em poucas palavras, atendendo à necessidade do momento, e o rapaz conhecedor das realidades locais absorveu o discurso.

Os países africanos, principalmente a Guiné-Bissau, como vimos, passam por vários problemas sociais e políticos, sobretudo, em função dos péssimos governantes que se sucederam desde independência. Essa situação de desencanto da pós-independência se traduziu, naturalmente, na literatura, que buscou, algumas vezes, nos provérbios, um instrumento de resistência capaz de confortar o povo nas suas dores. Um dos exemplos pode ser visto no conto “Aconteceu em Gã-biafada”, quando o casal de protagonistas ouve de uma mais velha um provérbio fundamental para continuarem a lutar pela sua felicidade: kabulu ku na kuri pa gustu kata lestu di kansa. (cavalo que por um gosto não se canas...) (SEMEDO, 2000, p.32). Como vemos, a persistência é a mensagem principal que esse dito deseja transmitir, confortando o casal e levando-o a continuar buscando a saída para seus problemas.

A orfandade é uma das duras realidades na sociedade guineense, devido às guerras e aos conflitos armados internos, que aconteceram na maioria dos países africanos. Outro aspecto que destacamos é a péssima condição financeira de muitas famílias, para arcar com despesas na criação dos seus filhos, tanto nas zonas urbanas quanto nas regiões rurais. Os provérbios Baka ku ka tem rabu, Deus ku ta banal, (à vaca que não tem rabo, abana-a Deus.) ou ainda, kin ku ka tene mame i ta mama dona (quem não tem mãe, mama leite da avó)[34] remetem à solidariedade fundamental das pessoas da mesma aldeia com as crianças em situações de orfandade.

Durante a luta armada o uso dos provérbios ganhou uma grande amplitude na Guiné-Bissau, especialmente no campo da música. É o que podemos observar, em algumas canções que Jose Carlos Hans Schwarz compunha para repudiar a presença colonial no país. Destacamos a música: po kata bida lagartu (pau não vira crocodilo). Vejamos o uso dos provérbios na segunda estrofe da canção: kuma po tudu tarda ki tarda na mar i kata bida lagartu (pau, por mais que na água, nunca vira crocodilo). Citamos ainda dois músicos: Binham Quimor, artista de nova geração, numa das músicas intitulada bolseirus (estudantes), traz um dos provérbios populares: si kabesa pirdi punta bariga (se  perdesse a cabeça, pergunte a barriga). Já o cantor Zito, conhecido como “Príncipe do mundo”, um dos cantores da nova geração, usa frequentemente os ditos populares nas suas canções. Na música Chery: silvizason i ka limpu boka, (a civilização não é saber falar).

Se, no passado, os escritores guineenses usavam esse recurso da oralidade para embelezar e dar sentidos aos seus textos, hoje, ainda, é percebido nos textos de vários escritores contemporâneos tanto na poesia quanto na prosa os usos dos provérbios.  Encontramos a sua utilização nos textos de contos de alguns contistas com seus respectivos significados dentro dos contextos em que foram empregados. Por exemplo, no conto ‘Desaparecido’, de Julie Agossa Djomatin, publicado na coletânea Contos da Cor do tempo

Ponto final. A partir daí, faria um sermão ao seu irmão. Dir-lhe-ia que a tinha envergonhado ao estar a espiar o Liberiano, que ao ouvir a sua voz e os seus passos no quarto vizinho, ela colarase à parede para não ser vista nua pelo seu próprio irmão; que se tivesse trepado mais alto e tivesse olhado mais de perto, tê-la-ia visto à frente dele; que os homens -grandes tinham razão em dizerem que quem olha demasiado para a casa do vizinho não vê o que se passa no seu próprio quintal (DJOMATIN, 2004, p.41, grifos nossos).

Na África, o conhecimento é ainda algo compartilhado por mais velhos de geração em geração. Dizemos, frequentemente, que nós, os africanos, não gostamos de prender os conhecimentos. Contudo, percebe-se que a cultura oral poucas vezes é mencionada ou valorizada nas escolas. Não há uma política educativa que conscientize sobre a importância da manutenção dos ensinamentos tradicionais e da literatura do próprio país. O PEN tem como objetivo, nos próximos anos, incluir no currículo escolar guineense o ensino da literatura guineense. As crianças, adolescentes e jovens poderiam aprender muito com os velhos no dia a dia. Hoje, muitos ensinamentos que aprendi da cultura local, entre os quais da minha própria etnia, devo ao meu avô Arnaldo. Esses ensinamentos que adquiri ainda criança - em casa, na rua, maioria das vezes, nas noites de fogueiras – fazem parte da minha formação social como indivíduo na construção de um novo mundo. Como observa Odete Costa Semedo:

Rememorações à parte deve-se realçar que, na Guiné-Bissau, a oralidade ocupa um lugar muito importante; o cantar é onipresente, pois acompanha o contar – a narrativa –, o riso e o pranto, a alegria e a dor. O nascimento, a iniciação, o casamento, a morte, os mortos e os ancestrais proporcionam momentos de exaltação coletiva e são motivos para se entoarem as mais diversas canções. Por isso, diante de reduzida fonte escrita sobre as tradições guineenses, julga-se que, mais do que lamentar essa falta, é preciso tomar iniciativas que possam inverter a situação, abrindo caminhos para estudos e pesquisas sobre esse volumoso e rico patrimônio cultural (SEMDO, 2010, p. 26).

 

Para melhor estudo e apreciação desse patrimônio cultural guineense, optamos em dividir alguns provérbios guineenses usados frequentementes em seis temas com suas traduções em língua portuguesa. Partimos da listagem fornecida por Hildo Honório Couto no blog de didinho, e também baseamo-nos em minha própria experiência, ao longo de toda uma infância e juventude, convivendo com os provérbios guineenses. Cada grupo temático conta com seis provérbios. Essa divisão foi feita na base dos temas mais usados por mais velhos no contexto guineense: Tendo em conta que, no crioulo guineense, existem várias maneiras de grafar os vocábulos, preferimos usar os fonemas ( k,s, g) e dígrafos (dj, nh e tch), devido a sua frequência comum na fala e escrita da atualidade. Os temas são os seguintes: poder, solidariedade, consequências, sabedoria, esperança e ingratidão:

PODER

Abo i rasa  polon: si bu  kai, bu kata  kai  abo son.

Dus galus kata kanta na um kapuera.

Você é como poilão: se cair não cai sozinho.

Dois galos não cantam  na mesma capoeira.

Forsa di pis i na iagu.

 

A força do peixe é na água.

 

Kin ku mas  bo lenha i mas bo fugu.

 

Quem tem mais lenha tem mais fogo.

 

Po tudu tarda ki tarda na mar, i kata bida lagartu.

Por mais tempo que fique na água, o pau  não vira crocodilo.

Onsa tudu  brabu  ki  brabu, i kata sibi pe di kabacera

Por mais brava que seja a onça, não sobe no imbondeiro.

 

SOLIDARIEDADE

Bianda ora ki kusidu, i katen dunu.

A Comida cozida na panela não tem dona.

Kin ku ka tene mame i ta mama dona.

Quem não tem mãe, mama na avó.

Lifanti ka ta pirgisa ku si dintis.

O elefante não cansa com seu dente.

Si bu odja lifanti na djubi tapada, i ka entra, i pabia i ka tene parenti dentru di quintal.

Se o elefante vê uma cerca e não entra, é porque não tem ninguém seu lá dentro.

Garandis kuma un mon ka ta toka palmu.

Dizem os velhos que uma mão sozinha não bate palmas.

Tartaruga misti badja, mas  koitadi  el rabada  ka ten.

A tartaruga quer dançar, mas não tem ancas.

 

CONSEQUÊNCIAS

Bu kata sibi si bu mama di bunda gros, son ora ki tene mandita.

Você não sabe se a sua bunda é grande, a não ser quando ela tem furúnculo.

Bonitasku di iagu salgadu i bonitu, mas i kansadu  bibi.

A beleza da água salgada é bonita, mas ela é desagradável  para beber.

Bu sai na pilon, bu kai na balei.

Você saiu do pilão, caiu no balaio.

Ate pa pó sinti, kabaku  prumeru  kuta sinti.

Para tronco sentir, primeiro a casca tem que sentir.

Fidju di si nsibiba mora lundju.

Filho de se eu soubesse mora longe.

Fidju ta padidu  tras di  si  pape, ma i ka tras di si mame.

O filho pode nascer longe do pai, mas não longe da mãe.

 

SABEDORIA

 

Dunu di um udju  kata brinka ku  reia.

Quem tem um olho não brinca com areia.

Boka fitchadu  kata  entra moska.

A boca fechada não entra a mosca.

Dunu di boka ka ta pirdi ku kaminhu.

Quem tem boca não perde o caminho.

Garandis  kuma kanua sem remu  kata kamba  mar.

Os anciões dizem que canoa sem remo não atravessa o mar.

Djudé ka bai fanadu, ma i kunsi udju.

O abutre não foi à circuncisão, mas é educado.

Kama ku  bu ka dita nel, bu ka sibi si tene dabi.

Você não pode saber que a cama em que não deitou tem percevejo.

 

ESPERANÇA

Baka ku  ka tene rabu, Deus kuta banal.

A vaca que não tem rabo abana-a Deus.

Sufridur ta padi fidalgu.

O sofrimento nos faz nobre.

I ka tem  kinti kuta fria.

Não há nada que é quente, que não pode esfriar.

Garandis kuma amanha lundju, mas sta pertu.

Os anciões dizem que amanhã é longe, mas está perto.

Garandis kuma kin ku sumia di parmanha, i ta kebra di tardi.

Os anciões dizem que quem plantou de manhã, escolhe os frutos mais tarde.

Um dedu um dedu  kuta  intchi puti di mel.

Dedada em dedada enche o pote de mel.

 

INGRATIDÃO

Bu sinta riba di baga-baga, bu  na rui Tchon.

Você está sentado sobre termiteiras, e fala mal do chão.

Kasamenti  ta kaba,  ma kunhudadia kata kaba.

O casamento acaba, mas os laços familiares não.

Mursegu kuma i na missa Deus, riba di si kabesa ki misa.

O Morcego mija para cima, a urina cai em sua cabeça.

Panela na fala kaleron  ka bu  tisinan.

A panela diz a caldeira: não me chamusque.

Pekadur  magru ta dana moransa.

Alguém de maus costumes estraga toda a comunidade.

Puti furadu  kata intchi  iagu.

Pote furado não enche de água.

 

2.2. Contos orais guineenses – o nosso contar de cada dia.

A oralidade não é apenas um meio de expressão estética de uma sociedade ágrafa. É muito mais: é sobretudo a expressão de uma comunidade, na qual a vida grupal desempenha um papel sumamente importante, onde a vida comunitária ainda é dinâmica e continuadamente e preservada pelos mais diversos instrumentos, pelo convívio e pela intercomunicação através da palavra  (AUGEL, in: SEMEDO, 2000, p. 8).

Os contos africanos, também chamados de (estórias), são narrativas orais que, assim como as adivinhas, tem o papel de facilitar e ajudar a preservação da memória coletiva dos povos africanos. As nossas estórias têm asas. Elas andam de boca em boca, e cada um conta do seu jeito, ganhando sempre asas para irem mais longe, isto é, dando uma nova versão a cada novo contador. Os contos orais têm grande importância no cotidiano guineense. Além de preservar a memória coletiva, eles também servem como meios de ensinamentos básicos aos mais novos. Os africanos aprendem em cada estória lições importantes para vida na sociedade. Dizem que os africanos nascem com dom de contar estórias, herdado, assim, dos seus ancestrais. Mas esse pensamento traduz apenas a relevância da contação de estórias na terra de Amílcar Cabral, e não um talento inato do povo africano.

Na história da tradição oral, o primeiro guineense a se aventurar na divulgação das estórias tipicamente guineenses, por meio de recolha, é o Cônego Marcelino Marques de Barros. 1900 foi o ano em que o Barros transcreveu em duas versões (em língua crioula guineense, língua mandinga e a língua portuguesa) as estórias que se passavam no território guineense. Como assegura Moema parente Augel:

Foi o cônego guineense Marcelino Marques de Barros, que havia divulgado, já em 1882, alguns poemas e canções em crioulo, quem publicou, em 1900, sua Litteratura dos negros, onde transcreveu no idioma original, além de no crioulo, canções e pequenas histórias da tradição oral de diversas etnias de qualidade literária inconteste (AUGEL, 2007, p. 85).

Marcelino de Barros é o grande nome como referência da literatura oral guineense. Além de ter publicado Litteratura dos Negros, o livro, no qual ele procura dar visibilidade à língua crioula e às demais línguas étnicas do país, Barros chama atenção, nessa publicação, pelo cuidado em preservar a memória coletiva de algumas importantes etnias guineenses. Com intuito de ir mais longe na divulgação da tradição oral guineense de diversas etnias locais, Barros também publicou um ensaio, que intitulou: Guiné-Portuguesa ou breve notícia sobre os usos, costumes e línguas da Guiné, publicado em 1882 (AUGEL, 2007, p. 100-101). Na referida obra, Barros tentou mostrar a importância das línguas étnicas guineenses no processo da afirmação e da identidade. Com esse livro, ele deu grande contribuição para valorização e preservação da tradição oral guineense. Do seu caminho, seguiram outros contistas guineenses, ou contadores de estórias, se assim queremos nomear. Entre eles, Benjamim Pinto Bull, irmão de grande contista guineense James Pinto Bull, que, em 1989, fez um belíssimo trabalho com a mesma finalidade do cônego, que significou a divulgação e preservação da memória coletiva de povos da Guiné-Bissau. Segundo ele, a intenção do referido livro foi dar visibilidade às línguas locais e suas respectivas manifestações orais (COUTO; EMBALO, 2010, p.32).

 Apesar de um longo período de desvalorização das culturas locais, a presença europeia não estagnou a história e a cultura dos povos africanos. Na Guiné-Bissau, por exemplo, a cultura da oralidade é uma das manifestações vistas como marca da identidade do povo guineense. A sua valorização constitui um elo entre o passado e o presente, e através dela pode-se estabelecer uma ponte entre os valores culturais e as realidades tradicionais, fazendo-se compreender a força da ancestralidade na memória coletiva desse povo.

As estórias orais guineenses, sem pretender estender o seu conceito, apresentam, geralmente, os animais como personagens e protagonistas, com o objetivo de proporcionar uma lição moral a propósito da vivência e dos comportamentos humanos. Nelas, também, podemos encontrar como personagens os elementos e fenômenos naturais, destacando a importância da natureza e também das mitologias africanas, valorizadas e cultivadas de geração a geração.

Essas estórias, no contexto guineense, denominadas de fábulas, sustentam-se no enriquecimento e valorização cultural que a própria tradição oral nos proporciona. Marcelino Marques de Barros, como vimos antes, publicou, em 1900, Literaturas dos negros, em que procurou dar visibilidade e continuidade à tradiçao cultural de diferentes grupos etnicos e às histórias em que os animais são personagens. Couto e Embalo forneceram algumas informações a respeito da referida obra:

Em Literatura dos negros (1900) ele publicou a mais as storias “A noiva da serpente”,“História de Sanhá”, “Storia de Djambatutu, rei di pastrus” (O rei Djambatutu), “Storia di lubu ku karnel” e “Falkon ku jugudi”, todas na versão crioula e em português, exceto as duas primeiras, que são “contos  mandingas”. Elas estão apresentadas só em português, embora na segunda haja muitos trechos em crioulo bem como versos cantados em mandinga [...] (COUTO; EMBALO, 2010, 117).

 

Seguindo a proposta do cônego Marcelino de Barros, em 1979, Teresa Montenegro e Carlos Moraes publicaram Jumbai- tornando claras as suas preocupações e posicionamento literário no sentido de aprofundar, cada vez mais, os estudos das narrativas orais guineenses (COUTO; EMBALO, 2010, p. 117). Essas preocupações, é claro, constituem preocupações de muitos pesquisadores e escritores guineenses contemporâneos, como caso de Odete Semedo, que há muito tempo tem se engajado na pesquisa das cantigas de mandjuandade[35], que deram fruto a uma tese de doutoramento, defendida na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, em 2010, orientada pela professora Maria Nazareth Soares Fonseca. Concordo com a pesquisadora Moema Auguel quando salienta que:

Como o griot ou djidiu da cultura mandinga, o escritor está revestido de obrigação de preservar a memória cultural de seu povo. Recontando a história, ressuscitando as lembranças, recuperando, pela palavra ou pelo canto, as tradições incrustadas nos mitos e na memória popular, ele torna-se o porta-voz das pulsões de sua sociedade (AUGUEL, 2007, p. 363).

 

No meu ver, no entanto, não há como não recorrermos às fontes das tradições orais para ligar o presente à nossa história, tornando-a, assim, um caminho para melhor compreender a nossa existência. Podemos dizer que a nossa identidade cultural manifestou-se muito cedo nas narrativas orais, permitindo-nos, assim, uma identificação de um mundo que nos pertencia. Não resgatar essas estórias contadas de boca em boca representa, a meu ver, um abandono de parte significativa da nossa realidade e do modo de pensar e estar na sociedade.

Em várias narrativas orais guineenses, em que os personagens são animais domésticos ou selvagens, ou ainda, elementos da natureza, apresenta-se a riqueza da cultura oral, que busca mostrar, por meio das sabedorias dos mais velhos, que a força física nem sempre é sinônimo de superioridade. Durante a minha infância, muito aprendi com estórias como as do "lobo e a lebre". Quando menos esperava, a lebre saía sempre ganhando do lobo, usando a sua inteligência para se livrar de um perigo, ou para matar a sua fome. O lobo, visto como mais forte, acabava invarialvelmente perdendo, caindo, assim, nas armadilhas e astúcias da lebre.

Além dessas narrativas servirem como elementos de preservação da memória coletiva, as estórias contadas nas noites de fogueiras – que chamamos de Djumbai são de caráter educativo e de formação para a vida adulta. Há várias versões em cada estória, o que pretende assinalar que cada contador de uma estória não é dono da própria. Muitas vezes, mesmo que a tenha criado, o contador prefere dizer que ouviu contar, fugindo, também, das repercussões que aquela estória pode ganhar. Cada um assume ter ouvido a estória da sua maneira. Nessas versões assumidas, percebe-se que cada contador de estórias tem a liberdade de recontar a mesma estória ouvida e dar um final aos personagens, de acordo com seu gosto e modo de entender o mundo, no qual está inserido. O conto A lebre, o Lobo, o Menino e o Homem de pote, de Odete Semedo do livro Djênia: estórias e passadas que ouvi contar II, ilustra essa dinâmica:

No fim da história, as nossas amigas ainda discutiam sobre o nome da história e o final que este deveria ter:

– Não foi assim que eu ouvi, Cici! O lobo não podia sair a ganhar coisa alguma. Quem sai a ganhar é a Lebre e tu deixaste que os populares lhes batessem...

– Kutchi... a Lebre foi mazinha... Foi muito má ao ameaçar o menino que sempre a tratou bem.

– Mas Cici, tu é que a fizeste má, quando ela podia continuar esperta e marota; e não foi assim que ouvimos contar, a culpa foi tua!

– Eu ouvi exatamente assim, aliás, cada uma de nós ouviu como quis e conta como quer.

– Não concordo; mas, olha, se assim for... o gato que rouba peixe naquela história que me contaste, vou fazê-lo fugir; a cozinheira não o vai escaldar.

– Isso não, Kutchi... aquele gato é mesmo mau e arisco, e... (SEMEDO, 2000, p. 134-135).

Se é verdade que as narrativas orais contribuem para afirmação da identidade cultural guineense, pregando a moralidade na sociedade, mostrando que, nem sempre, o forte pode ganhar do mais fraco, não é menos verdade que essas estórias, também, trazem em si o retrato de certos comportamentos de inferiorização das mulheres, cujas vidas em grupo e os poderes de exercícios da cidadania são limitados. A nossa sociedade sempre destaca os homens como mais fortes e as mulheres como as mais fracas e medrosas em relação ao perigo. Estória de salton ku si mindjer, (saltão e a sua mulher), de Teresa Montenegro e Carlos Moraes, que transcrevemos a seguir retrata essa realidade de subalternização no continente africano:

Salton ku si mindjer

Um mindjer sai pa ba panha salton  na roda di mar. I tchiga, i panha salton manga del, i fia na korda. I bin panha um salton e fia na korda. Mindjer disa salton sai, i odja si omi, i ba tchora djanan la na metade di tarafi. I na tchora, i na tchora, i fala si omi ku panhadu, i na tchora. Salton fala si mindjer: “Ka bo tchora. Ora ku bo sintinha tcheru na iassadu bo ta tchora, ma tementi N ka iassadu  inda, ka bo tchora”. Mindjer ku panhal i ditanda gora korda e ba laba kurpu. Salton salta, i kapli na  corda e miti dentru di koba. I fala si mindjer: “N tarda contau. Tementi bo ka na sintinha tcheru na fugu, sibi cuma N ka muri”.

Tradução

O saltão e sua mulher

Uma mulher saiu para apanhar saltões à beira-mar. Ela chegou, apanhou um monte de saltões e enfiou na corda. Pegou saltões e enfiou na corda. A mulher do saltão saiu e viu seu homem e foi chorar pra valer no meio do mangue. Ela chorou, chorou, dizendo que seu homem fora apanhado, e chorou. O saltão lhe disse: “Não chore. A hora que você sentir meu cheiro sendo assado, você chora; mas, enquanto eu ainda não estiver assado, não chore”. A mulher que o apanhara pôs a corda [de peixes] no chão e foi tomar banho. O saltão saltou e escapuliu da corda e se meteu dentro de um buraco. Ele disse a sua mulher: ‘Eu não lhe disse! Enquanto você não sentir o meu cheiro no fogo saiba que eu ainda não morri’ (COUTO; EMBALO, 2010, p. 117-118).

Sabemos que a vida da mulher em África é extremamente dura. Ela é limitada, inferiorizada, frequentemente usada como um mero objeto e, muitas vezes, castigada pela simples expressão de seu desejo de se divertir e escapar das normas prescritas pela sociedade. Podemos perceber esse papel subalternizado na estória Iabrin porta, ali e na bin (abra a porta, estão me cutucando):

Em “Iabrin porta, ali e na rikitin” (Abra a porta, estão me cutucando), da mesma coletânea, uma jovem que gostava de dançar foi aliciada para um baile de serpentes. Quando percebeu o fato, tentou fugir, mas as serpentes se puseram a correr atrás dela, tentando agarrá-la (cutucar). Ela pediu ajuda da mãe, do pai e da avó, todos lhe disseram que se virasse, já que gostava tanto de bailes. O único que enfrentou as serpentes para salvá-la foi um tio. No entanto, não o fez por generosidade, tanto que ela passou a servi-lo, mais precisamente, a ser sua mulher.(COUTO; EMBALO, 2010, p. 118-119).

 

Além desses temas de sofrimento e desvalorização da mulher guineense, também, encontramos em muitas narrativas orais a temática da fome. Não é preciso recorrer a dados estatísticos para sabermos que, em cada cinco guineenses, quatro vivem a experiência dura da fome. Mergulhado na realidade do país, no qual passei a maior parte da minha vida, afirmo que há muita fome na Guiné-Bissau, e esta, quase sempre, é acobertada pela solidadariedade, pela amabilidade e, sobretudo, pelo sentimento de coletividade desenvolvido nas culturas de tradição oral. Não é por acaso que a temática de fome aparece frequentemente nessas narrativas e na literatura propriamente dita. Os pesquisadores Couto e Embalo fornecem um dado muito importante a respeito:

O contrário de alimentação, ou seja, a fome, é tão ou mais frequente. Em uma contagem perfunctória, constatamos que esses temas aparecem em acima de 80% das narrativas. Em muitas delas vê-se a expressão “i kume tok i farta”, ou seja, ele comeu até fartar-se. Aparece também, na versão portuguesa, sob a forma “e aí, ele comeu”. A esmagadora maioria dos guineenses está no umbral que separa a fome da sociedade. Cada vez que alguém come é uma alegria sem tamanho. É uma vitória contra a morte. Muitos furtos são de alguma coisa de comer. As trapaças normalmente têm por finalidade enganar determinada pessoa e comer o que ela tem. A fome é um problema tão sério na África que o crioulo marca uma época do ano como na tempu difomi, ou seja, a época da seca, como se pode ver, por exemplo, na storia “Salton kutataruga” (o saltão e a tartaruga). No contexto do tema fome/comer, gostaríamos de mencionar um caso de canibalismo. Na storia “Sene, um son na si mame” (Sene, um filho único), Jumbai, as localidades de Uato, Bolama e Caledje vão caçar, pois não é época de colheita (kebur). Ateiam fogo no mato a fim de empurrar os animais para determinada direção. Acabam abatendo apenas uma farfana (roedor que destrói as culturas de grãos). Como a carne desse animal não é suficiente para as três localidades, surge uma discussão sobre o que fazer. Descobrem que um menino que participa da caça é filho único, está sozinho. Com isso, resolvem matá-lo a fim de misturar sua carne com a da farfana. Aliás, isso ilustra a questão mininus di kriason (meninos para criação), que frequentemente são maltratados pelos pais adotivos (COUTO; EMBALO, 2010, p. 120-121).

As narrativas orais têm grande importância, na medida em que enriquecem a nossa memória dos patrimônios culturais locais, destacando a sabedorias dos velhos em preservação dessas memórias, retratando os comportamentos na sociedade africana. Transformar fraquezas em forças é umas das estéticas que fazem com que essas narrativas se tornem mais apreciadas e estudadas.

Além dessas temáticas, as narrativas orais guineenses, de uma forma ou outra, tentam dar explicações aos fenômenos das naturezas, esclarecimentos de origens de alguns nomes dos animais, tanto domésticos quanto selvagens, realçando a importância das mitologias tipicamente guineenses. De todas as leiturais feitas, encontramos nas narrativas orais guineenses um discurso que confronta a realidade guineense e nos leva a uma reflexão profunda da nossa sociedade. Não podemos nos esquecer, ainda, que os contos orais guineenses, como integrantes de uma tradição ancestral, fazem parte de uma cultura viva que está, portanto, em constantes transformações e em diálogo com os contextos e as realidades do país.

 

2.3. O conto escrito guineense

Género difícil – quem os escreve conhece bem as armadilhas e as limitações que oferecem. Género mesmo difícil – quem os lê sabe que os frequenta porque há algo de mágico e intenso na brevidade do que é exposto e logo encerrado, sem espaços para manobras exageradas (ONDJAKI, 2008, p.3).

 

O conto escrito manifestou-se muito cedo, na África. É um dos gêneros que contextualiza literariamente melhor o continente africano em relação às realidades de vida, permitindo, assim, as relações mais profundas da vivência dos próprios africanos. A sua função baseia-se nas transmições de apegos culturais dos ancestrais, mantendo a vivacidade do que é tão comum partilhar na África, que é o conhecimento e valores morais entre as comunidades existentes.

É nesse sentido que o contista africano sente a necessidade e a obrigação de passar nos seus textos as experiências dos mais velhos, pois essas experiências constituem elo entre o passado e o presente, as suas transmições, de uma forma ou outra, permitem a preservação da identidade cultural, que enriquecem as narrativas tradicionais africanas. Maria Fernanda Afonso referiu essa importância e as influências que as tradições orais exercem nos contos escritos: “apesar da sua indignação de homem moderno face à instabilidade do quotidiano, o escritor africano sente-se profundamente ligado a um tipo de discurso proveniente da tradição oral, da sua herança comunitária” (AFONSO, 2004, p. 69). Segundo essa autora, inspirações nessas fontes são necessárias, na medida em que permitem ao contista africano o resgate dos mitos, das histórias antigas, dos heróis tradicionais, presentes na  encantação deslumbrante da narrativa tradicional, estabelecendo-se, assim, o diálogo entre o passado e o presente (Ibid., 2004, 69).

O gênero conto, contudo, demorou muito a se firmar na Guiné-Bissau. Na década de 1940, a poesia, como expressão de sentimentos estava presente, como atestam poemas datados por Amílcar Cabral, Vasco Cabral e António Baticã Fereira, que já eram um instrumento de reivindicação de direitos e de luta contra opressão colonial. Até os anos de 1950, não havia, até onde sabemos, nenhum documento que registrasse algum texto literário escrito por um guineense nato. Nesses anos, foram registradas apenas obras dos estrangeiros que ali viviam. Porém, no ano de 1952, veio à estampa a primeira manifestação nesse gênero, um conto da autoria de James Pinto Bull, Amor e Trabalho, publicado no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (AUGEL, 1998, p. 319).

Temos uma distância de quarenta e um anos para uma nova publicação desse gênero. Em 1993, surgiu A Escola, de autoria de Domingas Barbosa Samy. Apesar de uma demora na consolidação do gênero conto, na literatura guineense, atualmente, o conto é um dos gêneros literários mais presentes na Guiné-Bissau. Nele, os autores nos conduzem a conhecer os problemas sociais vividos no país, evidenciando a necessidade imperiosa de discutirem os desastres políticos e econômicos que assolam o país. O conto parece tornar-se, assim, no espaço guineense, a narrativa que melhor explica as realidades socioculturais do país. Nele, também notamos inspiração e diálogo com a tradição oral. Como bem esclarece Semedo (2010), “há vários casos em que os contistas modernos, inspirados nos contos da tradição oral, trazem para os seus textos os conflitos que marcam essas narrativas, por se adequarem às situações vivenciadas no presente” (SEMEDO, 2010, p. 66).

Do outro ângulo, para melhor compreender esse processo de recriação do conto moderno, em diálogo com a tradição oral, podemos recorrer como exemplo ao conto "encontro”, de Andrea Fernandes, publicado na antologia: DIMA, o passarinho que criou o mundo: Mitos, contos e lendas dos países de língua portuguesa:

A notícia do encontro de Kudjido com a serpente espalhou-se. Cada filho de Ancoio contava melhor do que o anterior o que ouvira, acrescentando cores e tambores às luzes e à melodia que a serpente de fogo, diziam, cantava e dançava. Por vezes, surgiam discussões de se era assim, se era asado, e também que era melhor que ele nunca tivesse contado, porque essas coisas do mundo são segredo e o próprio mundo é um segredo, mas no fim acabam por preferir voltar ao princípio e iam pedir a Kudjido que fosse ele, com a sua própria boca, a narrar o encontro mais uma vez. (FERNANDES, 2013, p.62).

 

Ao longo deste capítulo, analisaremos contos de alguns escritores mais conhecidos e de outros contistas contemporâneos, tendo em conta as temáticas em destaque.  Analisaremos os seguintes contos: “Amor e Trabalho, de James Pinto Bull; três contos do livro A Escola, de Domingas Samy; “Aconteceu em Gã-Biafada, de Odete Costa Semedo; “Hóspede”, de Andrea Fernandes; e “O Serco, de Tambá Mbotoh.

Não ignoramos, de maneira alguma, outros escritores guineenses de grande importância. Por isso, não deixaremos de citar títulos das obras, ano de publicação e nomes desses escritores. Carlos Edmilson Marques Vieira, por exemplo, publicou N’Nori (estou cansado, termo crioulo) em 2000, obra prefaciada por Leopoldo Amado. O livro conta com oito contos, e a maioria deles aponta as dificuldades do país recentemente saído de uma guerra civil. Um dos contos do livro, intitula-se “Mafingharawé?”, palavra em língua balanta que aqui traduzimos: Por que é que me estão a matar? Através desse conto, o autor utiliza a metáfora do lixo, que permeia quase toda a narrativa, para demonstrar a sujeira após independência do país. Em alguns momentos, o autor, por meio das personagens, faz também convite aos guineenses a ter esperança de dias melhores.

Também destacamos a obra Fogo fácil (2006), de Marinho de Pina, jovem guineense atualmente radicado em Portugal. De Pina revelou-se muito cedo no gênero conto, sendo vencedor, em 2005, do concurso de contos organizado pela RENAJ. A sua obra, sem dúvida, é um retrato da vivência no país.

Julgo interessante que o público e os pesquisadores das literaturas africanas conheçam a obra A força de vontade, de Manuel Costa, publicada na edição do próprio autor, em 1993. Um esforço louvável deve ser levado em conta, apesar de certa imaturidade literária constatada na obra. (AUGEL, 1998, p. 320). Admirável diamante bruto e outros contos, de Waldir Araújo, publicado em 2008, sem dúvida, merece também ser mencionado. Este livro caracteriza a vida difícil dos guineenses na diáspora: a dor de querer partir, mas ter que ficar é uma espécie de resumo dessa magnífica obra, lembrando-nos do tão debatido dilema da cultura cabo-verdiana.

Concluímos esse panorama da nova geração de contistas guineenses com o livro Cantar do Galo, publicado em 2017, pelo autor da presente obra, Eliseu Banori, radicado no Brasil. Este livro volta-se para a atual situação política e econômica do país em todos os seus contos.

Nas obras referidas acima, observamos que todos eles apelam à crítica do desencanto da pós-independência, principalmente os problemas políticos e sociais com que o país se tem confrotado desde então. As dificuldades vividas depois da independência constituem tema recorrente na escrita dos autores contemporâneos. Nessa sequência, vale lembrarmos outros contistas guineenses, muitas vezes esquecidos quando se trata de prosa guineense contemporânea. Graças à coletânea Contos do mar sem fim, editada pela Ku si mon (Bissau) em parceria com a editora Pallas (Rio de Janeiro) e editora Chá de Caxindé (Luanda), conhecemos nomes como Olonkó, Julie Agossa Djomatin, Lamine Sadjo e Uri Sissé.

Todos eles navegam, também, em um mar de desencanto da pós-independência. Mas não posso deixar de assinalar que, no caso dessa publicação, trata-se de pseudônimos de conhecidos autores guineenses que ludicamente preferiram não revelar a verdadeira identidade. Como pista, pode-se adiantar que se deve tratar de autores ligados à editora Ku Si Mon.[36].

James Pinto Bull, acima referido, publicou em 1952, Amor e Trabalho no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (Bissau, n° 7/25, 1952, p.183-187), sendo considerado o primeiro guineense a escrever contos. Pinto Bull, irmão do grande linguista guineense Benjamim Pinto Bull é muito pouco conhecido, provavelmente, por ter estado ao lado dos portugueses na escravização e maltratando seus próprios irmãos de sangue. Nos anos 1950, James Bull foi considerado membro da PIDE, participando de massacres aos irmãos guineenses, seguindo as ordens do governo colonial.  Foi diversas vezes citado no discurso de Amílcar Cabral: “Celebre traidor africano James Pinto Bull, apesar dos nossos conselhos, acabou por morrer na triste condição de vil servidor dos colonialistas, de inimigo do nosso povo e da África” (COUTO; EMBALO, 2010, p. 85).

Ironicamente, apesar de ser um traidor da pátria guineense, Pinto Bull é o pioneiro da prosa da Guiné-Bissau. Em Amor e Trabalho, dá-se uma denúncia sobre as práticas de roubo, vistas como rituais de jovens incircuncisos (conhecidos como blufus). Essas práticas acontecem ainda nos meios dos balantas – uma das etnias da Guiné-Bissau. Por incrível que pareça, esses costumes tradicionais são vistos como algo normal no seio do povo balanta, assim, considerados atos culturais. O autor, apesar de ser visto, na época, como um aculturado, mostra os hábitos tradicionais que ferem os moradores nas regiões onde predominam os balantas, que são obrigados a ficar calados diante dos ritos considerados tradicionais. A crítica feita pelo autor, em 1952, não surtiu nenhum efeito, pois o ritual do roubo praticado por esses jovens incircuncisos ainda é praticado no interior do país, ou seja, nas regiões onde predomina a etnia dos balantas. (COUTO; EMBALO, 2010, p.85).

Hoje, sem nenhum exagero, contam-se nos dedos as mulheres que escrevem literatura na Guiné-Bissau. Dessas poucas mulheres, destacamos a escritora Domingas Barbosa Mendes Samy, conhecida por mais íntimo de ‘Minga’, Maria Odete Costa Semedo, Filomena Embaló (guineense de coração), Antonieta Rosa Gomes e Andrea Fernandes, para reflexão mais adiante. Das mulheres citadas, Odete Semedo, Antonieta Rosa Gomes e Filomena Embalo são as únicas que continuam escrevendo e publicando. Citamos também na poesia Saliatu da Costa, com Bendita Loucura (2008) e Entre a roseira e a pólvora, o capim! (2011) e, na prosa Né Vaz, com o romance Pérola Roubada (Lisboa, Chiado Editora, 2018).

Domingas Samy nasceu no dia 2 de janeiro de 1955 em Bula – região de Cacheu, fez seus estudos primários em Gabú e em Bissau, estudou no Liceu Honório Barreto, conhecido, hoje, por liceu Nacional Kwame N’Krumah. Samy, formada em 1981 em Filologia Germânica, na Uniäo Soviética, é considerada uma das pioneiras da prosa guineense com o livro A Escola, atrás de James Pinto Bull. Publicou também versos durante seus estudos na União Soviética em alguns periódicos e participou com cinco poemas na APGB (1990). O seu único livro, A Escola, tem apenas três contos: A Escola, que dá o título ao livro, Maimuna e O destino.

Entre os países africanos de língua portuguesa, podemos afirmar que a Guiné-Bissau está ao lado dos mais atrasados quando se trata de emancipação das mulheres nas sociedades africanas. O índice de analfabetismo é muito elevado, como já vimos anteriormente, e há um número reduzido de mulheres que frequentam o ensino básico até o liceu. Entre essas mulheres, poucas conseguem ter acesso ao ensino superior.

Na história política guineense, até o presente momento, o único nome revelado à candidatura para o cargo mais alto da magistratura guineense foi o de Antonieta Rosa Gomes, grande intelectual, fundadora e líder do Fórum Cívico Guineense-Social Democracia, formada em Direito na Universidade Federal de São Paulo e ministra em vários governos. É autora do livro intitulado Da Mutabilidade dos Contratos Administrativos (Direito), Retrato (poesia) e de vários artigos científicos.

No interior do país, principalmente na região leste, há ainda uma necessidade de algumas organizações não governamentais procederem com uma política de incentivos às meninas para irem à escola, fazendo, na medida do possível, a doação de gêneros alimentícios, de acordo com a quantidade de meninas inscritas nas escolas. Vale ressaltar que a maioria delas está na faixa etária entre 10 a 14 anos de idade; porém, desde o ventre da mãe já têm destinos traçados, na maioria dos casos. Ainda crianças, já são apresentadas aos seus futuros maridos – levadas forçadamente para satisfazer compromissos assumidos, através de dotes recebidos dos pais, ou de algum membro de família. E elas, sem nenhuma proteção, acabam, simplesmente, submetendo-se às ordens dos seus pais ou dos responsáveis, em outros casos. Como podemos observar no conto “Pescador”, de Eliseu Banori:

O essencial era alimentar muitas bocas que tinha em sua casa. Três mulheres, doze filhos, três sobrinhos e duas sobrinhas, além da outra mulher que já mandou pegar bico, que todo ano dava alguma coisa para manter fidelidade do compromisso tomado há muito tempo, se não correria risco de perdê-la. Isso ele bem sabia, por isso, nunca deixou faltar alguma coisa na casa dos pais dela. Pois é, era menina cobiçada na tabanca, acima de tudo tem ainda sangue novo, caso se casasse com ela, a esperança de viver podia multiplicar em dobro dos seus cinquenta anos já carregados na costa (BANORI, 2017, p. 93-94, grifos nossos).

 

As igrejas evangélicas terminam por se ocupar com muitas dessas meninas, que fogem do casamento precoce e forçado e procuram radicar-se na cidade de Bissau, em busca de um refúgio para aliviar o seu sofrimento. Na Missão Evangélica da Guiné-Bissau, situada em Bissau, próxima de feira Caracol, no bairro de Bandim, encontram-se, hoje, mais de 25 meninas em condições vulneráveis, vindas de diversas regiões do país, fugindo de um casamento arranjado pelos pais, ou por algum membro da família. Muitas vezes, a maioria dessas meninas, nunca tinha sentado numa cadeira de escola. A procura da igreja Evangélica por essas meninas, hoje, torna-se cada vez maior. Muitas vezes, essas igrejas não apresentam condições econômicas para satisfazerem as necessidades e demandas dessas vítimas. Umas acabam por trabalhar nas casas de algumas mulheres ligadas à igreja. Isto é, lá mesmo são educadas nos princípios éticos, morais e religiosos dessas instituições.

Os três contos de Domingas Samy compõem um relato de acontecimentos como os acima descritos: o conto A Escola desdobra-se em várias narrativas dentro de uma mesma estória. A primeira narrativa é a de Nha (minha) Aurélia, nome muito comum na sociedade guineense, que revela o pertencimento e consideração pela pessoa querida, demonstrado no pronome “Nha”, que pode ganhar outro significado no Brasil, ‘nha’ de ‘sinhá’, ‘sinhá’ de ‘senhora’. 

A personagem Nha Aurélia é uma mulher doméstica – que tratava de cuidar de casa, do filho e do próprio marido; uma mulher que tem silbintia, ( educação básica de uma mulher) como manda a tradição guineense: Uma mulher “para se casar” é aquela que sabe cuidar do lar. Enquanto que a dona Aurélia se preocupava em cuidar da casa, o marido passava dia e noite na ‘; casa dois’, termo usado para se referir à amante no cotidiano guineense. O marido só procurava a mulher para ato sexual; além disso, exigia também as roupas limpas e bem passadas ao seu gosto. Percebemos, no conto ora analisado, que dona Aurélia se submetia a todas as ordens do marido para preservar o seu casamento e para não “dar que falar” aos mais velhos - guardiões da tradição. Mas o marido, como podemos perceber na estória, nunca deu satisfação da sua ausência em casa.

A estória em questão nos leva a pensar no romance Niketche: Uma História de Poligamia, da escritora moçambicana Paulina Chiziane, publicado em 2002. Vemos em ambas as obras as mesmas dificuldades das mulheres africanas em relação ao casamento. No conto A Escola, percebe-se que a inexistência do nome do marido, nos direciona a entender que a autora pretende aludir, de modo geral, ao comportamento da figura masculina na sociedade guineense. Podemos perceber, também, que a ausência do marido de Nha Aurélia nos leva a interpretar ser essa a razão de sua casa se tornar “um entra bu sai”, como se diz em bom crioulo. Isto é, cada um pode fazer o que quer. Nesse “fazer o que cada um quer”, a filha de Nha Aurélia, Maria Sábado, ainda adolescente, fica grávida; sem saber, contudo, quem a engravidou. Nha Aurélia sofre com o abandono do marido e da filha grávida, sem saber quem é o pai de sua neta. Nha Aurélia não consegue dominar o sofrimento e vexame numa sociedade preconceituosa.

A segunda estória mostra uma das grandes problemáticas na sociedade guineense: o “morar de favor”. Muitas pessoas moram de favor; outras, devido à falta de emprego, acabam por residir em casas de familiares ou de conhecidos. Nesse conto, conhecemos um pouco da figura de Nha Santa, amiga de Nha Aurélia, que mora de favor na casa dos seus irmãos, pois o marido a abandonou desde cedo. Nha Santa passa também essa vergonha de ter um filho “negado”. Mesmo com essa desilusão da vida, por ser uma mulher abandonada e mãe solteira, percebemos que ela possui algumas virtudes raras entre as mulheres guineenses: a autoestima e a ambição de vencer na vida.

Num país em que a maioria da juventude se encontra desempregada, a escola torna-se o lugar de passar o tempo. E cada um procura a sua forma de ganhar a vida. Os médicos não trabalham mais para salvar vidas, os professores não ensinam mais com amor à profissão. A vida está na rua, salve-se quem puder. Eis o resumo do que vamos conhecer na estória da Nena. A terceira estória, dentro do conto ‘A escola’, nos apresenta Nena, a filha de Nha Santa. A trajetória de Nena, ou seja, a trajetória de muitas meninas sem nome, mulheres de diferentes cantos da Guiné-Bissau, traz à minha mente a personagem sem nome, no capítulo Mama Sabel, do romance Mistida, do grande escritor guineense Abdulai Sila. Observemos o seguinte trecho:

Olha mulher grande, eu vim aqui para fazer outra coisa, não para ouvir esse tipo de conversa, está claro? Eu não estou aqui para isso, não! E para não voltares a chatear-me ficas a saber uma coisa: eu não vou voltar para escola nunca mais! Já perdi estes anos  todos e isso chega. Eu não vou ser como as minhas irmãs, não. Perderam tanto tempo para nada. Não têm  trabalho,  não têm dinheiro, não têm  nada. Absolutamente nada. Nem marido em condições conseguiram... Andam sempre a pedir-me dinheiro emprestado e depois não pagam. Eu sei o que quero na vida e se Deus quiser vou consegui-lo (SILA, 2002, p.393).

 

Há falta de uma política educativa no país, o que leva muitas vezes as meninas a se prostituirem para ganhar a vida, como nos revela a estória da Nena. Nena prostituía-se, ou melhor, vendia o corpo com o consentimento dos pais. Não frequentava mais a escola para adquirir conhecimentos como as outras irmãs. As duas personagens, tanto Nena quanto a do romance Mistida, apresentam uma relação entre si, na medida em que cada uma delas busca uma saída perante a situação caótica em que vivem. Como diz Abdulai, na epígrafe à obra Mistida: Si fere ala, fere bonde ko fere?[37] As duas personagens procuram uma saída, seja ela má, seja ela boa; o que lhes interessa é a resolução dos seus problemas. É importante comparar essas duas prostitutas das obras destacadas, pois, em “A escola”, percebemos que Nena vendia o corpo com a cumplicidade dos pais, ao passo que em Mistida,  a personagem sem nome é chamada a atenção pela “mais velha” Mama Sabel. Vejamos ainda outros trechos a seguir do romance de Abdulai Sila:

Não, não posso aceitar este dinheiro... [...] ― Não podes por quê? És capaz de dizer por quê? Vá, diz! ― É dinheiro sujo. [...] ― Roubei-o, então? [...] ― Não o obtiveste honestamente, é isso que quero dizer. ― Honestamente? Mama Sabel, francamente... Estou a ver que tu ainda continuas como os olhos amarrados,  não sei quando é que vais conseguir abri-los. Então há uma coisa que se ganhe honestamente nesta terra hoje em dia? Tu aqui a altas horas da noite, a apanhar este sereno todo, isto é honesto? Diz-me se é honesto uma mulher-grande como tu estar a vender mancarra neste beco a esta hora. Estás a ser honesta? Para quem? Para os filhos, que já não tens? Para os teus netos, que não te conhecem? Para quem? Diz!... (SILA, 2002, p. 389).

O dinheiro que tenho, este aqui, é meu. Não interessa como obtive, mas ele é meu. [...] Faz de conta que estamos  numa outra terra, está bem? Numa terra onde haja um sistema mais ou menos justo de distribuição da pobreza nacional como sugere o tal testamento do régulo de... Não sabes disso? Não faz  mal. Faz agora de conta que estamos numa outra terra ainda e que nessa terra trabalha-se honestamente. Mas toda a gente trabalha honestamente, todos. Nesta terra, quando as pessoas chegam a uma idade em que já não mais podem trabalhar, ou têm os joelhos inchados e por isso não devem apanhar sereno, essas pessoas recebem uma reforma. Isso sabes o que é, não é verdade? Muito bem, então continua a fazer de conta. Faz de conta que eu sou funcionária desses serviços que pagam as tais reformas e estou aqui para te entregar a tua reforma, que é este dinheiro que tens na mão. Portanto, faz de conta que este dinheiro aqui é teu e que o ganhaste honestamente (SILA, 2002, p. 390).

 

Tanto a vida de Nena quanto a da prostituta sem nome, em Mistida, apresentam um final triste: durante o período de carnaval, Nena foi diagnosticada com o vírus HIV, e a prostituta de Mistida, em Mama Sabel, terminou abusada por um homem de poder, que vinha com um carro bonito sempre a sua procura:

A rapariga estava num  konkó escuro, com a porta encostada. Estava sozinha lá dentro, sem companhia de ninguém. Quando entrou, soube logo o que tinha acontecido. Deixou a porta aberta e sentou-se na cama, ao lado dela. Tomou-lhe a cabeça e pô-la sobre as suas pernas. Limpou-lhe as lágrimas com carinho. Foi nesse dia que lhe disse que uma mulher corajosa nunca devia chorar daquela maneira. Não falou mais nada (SILA, 2002, p. 394-395).

 

Cremos que a voz da Mama Sabel, no romance Mistida, representa o progresso do país, pautando na ideologia de Amílcar Cabral: o progresso de um país depende de todos. Já os pais da Nena são o retrato de vozes silenciadas de muitas famílias sem empregos – nas quais os responsáveis acabam se conformando em serem sustentados pelas filhas, mesmo sabendo das fontes ilícitas do dinheiro, como sugere a epígrafe de Mistida: “se não há saída, uma má saída é saída?” Acreditamos que, através dessas duas personagens, assistimos a uma desvalorização dos valores transmitidos de geração em geração dentro da sociedade africana.

Maimuna, nome tipicamente muçulmano, é o título dado ao segundo conto do livro A Escola. O narrador é omnisciente – é um conhecedor do espaço, do tempo e das tradições muçulmanas. A estória se passa no Leste do país – região dominada pelos muçulmanos. O relato em questão, em termos temáticos, é muito parecido com a estória Aconteceu em Gã-Biafada, de Odete Costa Semedo, cuja obra abordaremos no quarto capítulo.

“Maimuna é uma estória bem curta, em comparação com o conto “O destino”, que soma 41 páginas, e chega a fugir às características do conto, de acordo com o conceito de  Massaud Moises (1997). Este afirma que um conto deve ser conciso e sucinto. A estória se desenvolve em torno dos conflitos da Maimuna – uma jovem de pouca idade que foi prometida a um velho, comerciante, considerado rico, do país vizinho, a Guiné-Conacry. Prometida ao velho, a jovem estava ainda apaixonada pelo seu namorado, Djodje. Pressionada pelo pai e o tio, Maimuna resolve fugir no dia da cerimônia do casamento. Estória semelhante à de Maimuna se apresenta no conto de Maria Odete Costa Semedo, Aconteceu em Gã-Biafada, do livro Djenia: histórias e passadas que ouvi contar II e no poema de Tony Tcheka A prometida. Esse autor também, relata o drama de dois jovens apaixonados: Saliu e Lamarana, que não podem viver esse amor, em função das pressões familiares.

Nesse sentido, concordo plenamente com Odete Semedo quando esta afirma que:  “A voz e a palavra são, portanto, o veículo da tradição, daí ser a palavra algo de grande importância na tradição africana, pois tal como ela pode unir e preservar, assim também, quando mal usada, tem força destruidora (SEMEDO, 2010, p. 64).  Concordo, também, que as práticas rituais quando não geram vidas, acima de tudo, atormentando-as, a meu ver, têm também esse poder de destruição. A desobediência das ordens dos pais representa a morte, de geração a geração, para a família cuja indisciplina foi dirigida, caso também interpretado como vexame familiar. Em algumas sociedades africanas, a ponte entre a liberdade e o desejo do querer está ainda em processo de construção. Muito pouco se respeita o direito das mulheres. A maioria ainda é vítima de muitos rituais violentos que podem levar à morte. Vejam-se os exemplos: do fanado, do casamento forçado e o ritual de se jogar crianças ‘especiais’ ao mar, consideradas como  irans (espírito sagrado).

Uma das versões do conto Aconteceu em Gã-Biafada nos mostra um desfecho feliz para Saliu e Lamarana.

Saliu não chegou a pedir uma segunda esposa, pois o que os unia era muito forte e sentira que uma segunda esposa iria perturbar a paz e a felicidade que conseguiram alcançar depois de tantos desaires. Quiseram que mais pessoas fizessem parte da sua família, para poderem ter alguém a quem contar a sua emocionante história e muitas mais passadas (SEMEDO, 2000, p.38). 

 

Percebe-se que Lamarana não deixou ser amarrada com o cordão tradicional, pois, teve ousadia em contradizer a tradição. Ousou quebrar com a tradição dos nossos antepassados (casamento forçado) que diziam: ‘você não pode, isso é sagrado; se fizer isso ou aquilo morre’. Lamarana ousou contradizer a tradição, e, assim como dizia Johann Goethe “qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar, uma vez que, a ousadia tem genialidade, poder e magia em si”. Por isso, é inegável que ela foi ousada e corajosa exatamente por fazer o que poucos fariam, ou seja, romper com ditames populares cristalizados em nossa sociedade, mas, principalmente na dos nossos pais e avós.

Ao lermos os contos Aconteceu em Gã-Biafada e Maimuna desabrochamos nas asas dos sonhos e entendemos que cada homem é livre de criar suas próprias asas, lançar voo nas mais altas alturas. Tanto os personagens Saliu e Lamarana quanto Jorge e Maimuna souberam lançar esse voo, ao tocarem nas feridas da tradição. Os dois ignoraram as tradições locais, ignoram o medo de ameaças às tradições. Foram para um mundo deles: viver um amor retribuído. Entendemos, assim, que o sentimento amoroso não pode ser negociado.

No que se refere ao afastamento das tradições, vale reforçar com palavras de Abdulai Sila, na entrevista concedida a Fernanda Cavacas a propósito da Trilogia: “O facto é que na situação em que se encontra a nossa sociedade, com mais de 60% de analfabetos, as pessoas não ligam aquilo que é escrito, preocupam-se mais com o que é falado, com o que é mostrado” (SILA, 2002, p.13).

Já no último conto ‘o destino’, mais longo, temos estórias de várias personagens de diferentes classes sociais. Destacamos primeiro a estória da Anazinha, uma menina africana – que trabalha como empregada doméstica numa casa colonial. Sem direitos à escola, ela vive discriminada e oprimida pela mulher do patrão. Apesar de todo amor dedicado ao filho do patrão, termina abandonada e sem nenhuma compensação financeira.

Domingas Samy apresenta como sua marca o encaixe de várias estórias dentro de uma mesma narrativa, problematizando, em seu texto, a questão de classe, raça e amor, conflitando constantemente em torno dos personagens. No conto em questão, Nandinha, uma das personagens destacadas, não esconde aos pais o seu desejo de se casar com um homem negro, acima de tudo, criado na sua própria casa. Argumentando que “ninguém nasce criado...”, lutando assim na defesa de direitos igualitários, quebrando com todos os estereótipos sociais da sociedade da época, Nandinha se mostra uma personagem surpreendente. É da mesma forma que a diferença de classe é aí apresentada, quando Anazinha recebe um sapato de presente do patrão e é proibida de usá-lo pela esposa deste, já que esta alega que uma mulher não civilizada não poderia usar salto. Porém, logo em seguida, é contrariada pelo marido. “Ninguém nasce sábio, e se ela não sabe andar com sapatos é porque ela não os tinha” (SAMY, 1993, p. 46).

O livro continua, de forma mais profunda, a se debruçar sobre a condição feminina no país. O destino da mulher continua sendo de grande incerteza na Guiné-Bissau. O título do conto já nos aponta diretrizes para entendermos o enredo. A contista volta ao tempo colonial para problematizar a condição feminina daquela época. Tanto o destino dos homens quanto o das mulheres estão forjados e controlados em obediência à força maior. As temáticas abordadas por Domingas Samy apresentam de uma forma clara e preocupante, a situação de mulheres guineenses, antes e após independência.

Os três contos de Domingas Samy descrevem, de forma clara, as dificuldades, pelas quais passam as mulheres guineenses. Depois que conhecemos a autora, conhecendo um pouco dos temas que ela apresenta e as suas preocupações enquanto mulher, numa sociedade em que os homens ainda detêm de todo o poder, fica a indagação sobre os motivos que teriam levado Samy a deixar de escrever tão cedo. Teria ela deixado ou sido obrigada a deixar de escrever? Até que ponto seu abandono da escrita teria priorizado a sua realidade de mulher guineense – aquela que deve se ocupar em cuidar de casa e dos filhos?

A meu ver, a dura vivência de mulheres guineenses, nos revela, de fato, as dificuldades de elas se inserirem no exercício da literatura. Samy, em 1993, quando publicou A Escola , tinha todo o espaço a sua frente para trilhar no caminho das suas inquietações: Pouco acesso de escolaridade de mulheres, a violência no lar, casamento forçado e precoce, estupros e pouca participação das mulheres na vida política e na literatura são os temas desse belo livro. Por que Samy desistiu tão cedo de questionar tais mazelas, cujas vítimas são as mulheres? Essa é a pergunta que fica no ar, já que não tivemos ocasião de fazê-la para a escritora.

Odete Semedo, entre todas as escritoras guineenses, é das poucas que continua com firmeza produzindo, palestrando e publicando obras literárias, assim como pesquisando as tradições orais do país. Entre os livros publicados, destacamos dois volumes de contos: o primeiro volume denomina-se Sonéá: estórias e passadas que ouvi contar I. E o segundo Djénya: estórias e passadas que ouvi contar II. Os dois volumes contam com dez contos, cinco narrativas para cada volume, nas quais a autora, além de dar asas à sua criatividade, também procura resgatar as estórias que ouvia da boca dos mais velhos, ao redor das fogueiras, quando ainda era criança.

Vale ressaltar que os dois volumes apresentam temáticas interligadas. Ambos têm as mesmas características: sonhos, traições, práticas rituais, superstições, entre outras crenças locais – que tomam conta de todas as páginas dessas duas obras. Nelas, os personagens aparecem com nomes que têm um significado nas etnias guineense, assim como na língua crioula. Por exemplo, Minô, da língua fula, que significa ‘estou’, ou Mansebu, da língua crioula, que significa ‘mulherengo’. Às vezes, surgem nomes de animais, como, por exemplo, lobo e lebre, ou pássaros como mensageiros de uma nova. Esses são alguns dos traços dessas duas obras importantes para a literatura guineense. As aventuras dos personagens não se distinguem nos dois volumes. Tanto os personagens de Sonéá: histórias e passadas que ouvi contar I, quanto os de Djênia: histórias e passadas que ouvi contar II, pertencem ao mesmo mundo da criação literária da autora.

Há nos contos espaços metaforizados pela autora que, muitas vezes, nos levam a uma reflexão profunda sobre eles. Esses espaços criados, às vezes, aparecem como personagens são capazes de criar nos leitores várias possibilidades de leitura e indagações. São espaços que nos confundem, mas ao mesmo tempo nos aproximam dos problemas cotidianos guineenses. Adiante, no capítulo 4, analisaremos todos os contos do segundo volume.

Andrea Fernandes nasceu em 1955, em Bissau. Tem contos publicados na antologia dos Contos do mar sem fim: Angola/ Brasil/Guiné-Bissau (2010) com o conto “Hóspede”, que analisaremos no capítulo em andamento, e na antologia Dima, o passarinho que criou o mundo: mitos, contos e lendas dos países de língua portuguesa com o conto ‘Encontro’, que analisaremos no capítulo em andamento. Além disso, a autora integrou a antologia Contos da cor do tempo (2004), publicada pela editora Ku Si Mon, no seu décimo aniversário, como já referimos.

Andrea Fernandes é uma excelente escritora e de visão literária invejável. Apesar de ser pouco conhecida na diáspora e até nos meios dos seus conterrâneos, Ela nos revela, através da sua escrita de cunho feminista, uma grande preocupação com a situação da mulher na sociedade guineense. Dentre muitos contos escritos pela autora, optamos para a análise o conto “Hóspede”.

Esse conto apresenta características peculiares, diferentes dos demais contos escritos pelos escritores guineenses. Temas como a desigualdade entre os gêneros, a submissão da mulher, o casamento forçado, a violência nos lares e  limitações impostas às mulheres, em busca de desenvolvimento eficaz dentro da sociedade guineense já haviam sido enfocados por outros autores. No entanto, Andrea Fernandes foge um pouco dessa linha crítica, trazendo uma atmosfera de exaltação às mulheres na Guiné.

A personagem Quinta Milgostos, protagonista do conto ora analisado, é uma mulher livre, independente, mãe solteira, dona do seu próprio nariz. Quinta vendia legumes na feira para ganhar o seu pão de cada dia: – “Trabalhar dê. Ninguém me paga para ficar a dormir – respondeu Quinta, que ganhava a vida menos mal a vender legumes caros no mercado – fica à vontade até eu voltar, logo se vê”. O conto “Hóspede”, através dos personagens criados pela autora, procura levantar a autoestima da mulher guineense, sensibilizando-a na aprendizagem da liberdade e na luta pelos seus ideais, sem nenhuma dependência econômica e amorosa do homem. O conto não esclarece em que época a trama se desenrola. Contudo, alguns trechos mostram-nos que os fatos ocorrem nos anos 1980, na cidade de Bissau, em Belém, um de seus bairros.

Ao lermos esse conto, percebemos o quanto é urgente um estudo da autoria feminina e da imagem da mulher nos meios acadêmicos guineenses, assim como os questionamentos da subalternidade e do abandono das mulheres na sociedade guineense. O conto apresenta uma vendedora de legumes que se revela uma mulher independente, mãe solteira, trabalhadora e emancipada. Quinta Milgostos, a protagonista da estória, conheceu Hospers numa festa de Djembé. Hospers é um marinheiro holandês que desembarcou em Dakar como tripulante do navio mercante Vera Cruz.

Num dia de folga, isto é, no final do ano, ele acompanhou um colega para tocar tambor numa festa de animação do evento – que festejava a chegada do processo de liberação. Tudo aconteceu na terra senegalesa, Toubab Dialaw; foi nessa festa de praia, que o marinheiro descobriu que a vida é bela, através dos sons do tambor. Fora nessas festas que o holandês aprendera com muita eficácia a tocar djembé. Ficara à noite inteira dançando e tocando: “Vera cruz tinha zarpado ao meio dia. O coitado só acordou às três” (FERNANDES, 2010, p. 85).

Como a vida não é somente pescar peixes, Hospers dedicou-se a tocar tambor, para espalhar alegria nas terras africanas. Metido no sept-places, numa viagem sem destino, o ex-marinheiro foi parar na Guiné-Bissau. Foi numa das noites, tocando djembé no bairro de Belém, que ele conheceu Quinta Milgostos. Tocou para ela, e esta dançou até abraçar a alvorada. Quando tudo se esvaziou, Hospers declarou a futura esposa o que sentia por ela desde que ali chegara – Mulher, io te quiero (Ibid., 2010, p. 85). Quinta, sem piscar os olhos, retribuiu a mesma paixão que sentia por ele, desde a entrada da festa, quando reparou em seu “ar de um cachorro sem dono” (Ibid., 2010, p. 85). Não perdeu tempo e levou-o para casa, coisa rara no comportamento das mulheres africanas: levar um homem para casa, logo após o conhecer, é, de fato, algo impensável na sociedade guineense.

Destaca-se, portanto, o mérito de Andrea Fernandes, que soube construir uma narrativa inovadora, quebrando os tabus e mostrando que as mulheres podem ser felizes e independentes, e que já não ficam presas em espelhos, olhando para suas feridas ou tentando agradar aos homens. As mulheres de Fernandes ousam romper as barreiras de estereótipos e preconceitos sofridos, reivindicando o amor retribuído, coisa rara nas relações amorosas no seio guineense. Como podemos ver no trecho a seguir:

Hospers enchia-a de atenção, levava-a a passear à noite, massaja-lhe as pernas e os ombros cansados quando chegava do trabalho, tratava-lhe do cabelo e das unhas dos pés, tocava tambor só para ela dançar, satisfazia-lhe os Milgostos e ainda outros que ela nem sabia que pudessem existir, e nunca houve nada que conseguisse fazê-lo zangar (FERNANDES, 2010, p. 85).

Lembramos a propósito o escritor angolano, Fragata Moraes, que, em 2010, produziu o conto  ‘Amor e perdição’, publicado na mesma antologia dos Contos do Mar sem Fim, no qual procura mostrar a falta de cuidado e de atenção dos homens africanos para com suas mulheres. Trazendo ali características muito semelhantes às de “Hóspede”, Moraes mostra o envolvimento de uma mulher angolana com um estrangeiro. É o que vemos no seguinte trecho: 

Julieta sorriu e acarinhou-o novamente. O balofo do Bola de fungi nunca brincara com ela deste modo. Sempre cansado do serviço, comer, ver televisão e dormir. Às sextas-feiras faziam amor, mais por obrigação, mesmo não sendo ele assim tão mau na arte. Mas o peso, ai santo deus, o peso é que lhe tirava as ganas. Bem lhe pedira para ser ao contrário, mas qual quê, lugar de marido é em cima e não havia nada que o demovesse. À mínima insinuação, resmungava logo, isto aqui não é lá como com os cabrões dos estrangeiros que andaste (FRAGATA, 2010, p. 60).

 

O conto ‘Hóspede’ tem poucas páginas, um narrador omnisciente e poucos personagens, além dos secundários, citados, porém não mencionados; por exemplo, as duas filhas da Quinta Milgostos que vivem em Lisboa, os colegas do Hospers e o vidente que tentou a todo custo ganhar dinheiro às custas de Quinta, advertindo-a que o estrangeiro, no caso, Hospers, é um espírito sagrado. Esse é um conto para ser lido e relido, e nos levar a entender o quanto a situação das mulheres no continente africano é ainda de grande subalternidade. O texto nos emociona e, ao mesmo tempo, nos conduz à reflexão. A autora consegue nos mostrar as dificuldades no dia a dia do espaço guineense, assim como na África: a falta de atenção, de cuidados ou de amor retribuído.

Nesse sentido, pensamos aqui no livro de contos Mornas eram as noites (1994), da escritora cabo-verdiana Dina Salústio. Esta obra aponta também para a mesma preocupação dos contos acima comentados, apresentando rostos revoltados de todas as mulheres da sua terra, sem distinção da cor, classe social, ou posição política – mulheres que trabalham, acima de tudo, e cuidam da casa e dos filhos. Mulheres solidárias, violentadas, pobres e mortas, retratos que compõem as trinta e cinco narrativas do livro, escritas de forma poética, curta e direta.

O conto ‘Hóspede’ é uma imagem de liberdade, bem como aponta a fala da protagonista da estória – “A liberdade é livre, e na sua variedade está o gosto (FERNANDES, 2010. p.83). O conto também fala do comprometimento que as mulheres guineenses devem ter para reivindicar os seus direitos enquanto mulheres, transformando-se em donas dos seus narizes, numa sociedade em que o machismo não descansa nem um dia. A liberdade é o que deve movê-las para não se sentirem dominadas nem excluídas, perdendo o medo de lutar, mesmo sendo derrotadas por forças masculinas que ainda dominam o universo guineense.

Numa sociedade em que as mulheres são vistas de forma subalterna, há mil razões para Quinta Milgostos desconfiar de tanto amor que recebia do Hospers. “Tanto e tão bem amada foi, que um dia, sentiu medo”. “– Isto não pode ser. É demasiado bom para ser verdade” (FERNANDES, 2010, p. 86). Essa desconfiança do amor que vivia a incomodava dia e noite; até que, certo dia, vai parar na casa de um grande vidente para saber se o que vive é verdadeiro ou se o marido estrangeiro não é um espírito sagrado que invadiu a sua casa.

O conto vai muito fundo da nossa imaginação, revelando-nos a figura de uma nova mulher guineense, muito bem construída no texto. O título já nos adverte para a interpretação da narrativa. Hóspede, segundo o dicionário da língua portuguesa, é a pessoa que é recebida, por algum tempo, em casa alheia. Mas Hospers veio para ficar na vida da Quinta Milgostos. “Mudou-se toda de saudades durante mais de vinte anos, e o que é mais, a dúvida não parou de roer-lhe a alma pelo resto dos seus dias” (FERNANDES, 2010, p. 87).

A autora embarca na imaginação, usando estratégias que erguem a voz de mulheres guineenses, cujas feridas são fundas e difíceis de tratar. O conto é testemunho de uma escrita feminina – que pretende desenhar um mundo novo de mulheres. sem medo de criar asas para um longo voo. O grito espalha-se por todos os trechos do conto. O grito de inconformismo, de denúncias para dizer um basta.

Por outro lado, destacam-se, também, os encantos, principalmente no rosto da Quinta Milgostos, dançando até horas sem fim, para testemunhar a vida feliz e independente que só a ela pertence. A liberdade está na esperança dos dias incertos, pois o texto mostra que as mulheres guineenses precisam vencer o medo e viver prontas para cultivar a esperança, em um país onde as desigualdades de gêneros se multiplicam sem cessar. Hospers e Quinta Milgostos viveram um amor verdadeiro e puro, bonito demais, um amor que espalha inveja.

Se a nossa literatura é tão pequena por razões aqui bem esclarecidas logo na introdução deste trabalho, também é tão pequeno o autor Tambá Mbotoh, comparando a sua visibilidade com os demais autores já considerados consagrados na Guiné-Bissau, por exemplo, Tony Tcheka, Odete Semedo e Abdulai Sila.

Apresentamos, a seguir, Tambá Mbotoh, nascido em 13 de março de 1955, em Bissau. Há pouco tempo, numa viagem a Bahia, abri o livro Contos do Mar Sem Fim, e me deparei com a grandeza de escrita do autor, capaz de relatar os problemas sociais e políticos guineenses de uma forma simples, mas profunda.

Mbotoh aparece na antologia referida com o conto “O serco”. Na língua portuguesa a palavra se confunde muito com “cerco”, que é uma ação de cercar, ou de circundar por meio de cerca, segundo os dicionários. Já o serco é uma palavra bem conhecida no vocabulário guineense, pois a maioria das famílias guineenses tem um serco. Na língua portuguesa, temos a palavra “cerco”, que carrega pronúncia e escrita quase igual à da palavra crioula; porém, o significado de cada uma é totalmente diferente do outro. No contexto guineense, “O serco” é uma casa de banho comum de uma família alargada guineense, e fica situado da casa próximo das casas vizinhas (muitas vezes um serco é usado por duas ou três famílias). Também pode ser visto como latrina fora do corpo da casa. A maioria dos sercos apresenta uma estrutura cercada de kirintin, mas também, em alguns casos, é cercado de chapa de zinco, apresentando um estado desumano. Relembramos, aqui, que na Guiné-Bissau só as “elites” possuem um banheiro adequado para uso dentro de casa, assim como água canalizada e luz elétrica.

Tambá Mbotoh, até há pouco tempo desconhecido no espaço literato guineense, vem justamente apontando as desigualdades sociais num país em que os políticos e governantes fazem da nação um “quintal”. O conto apresenta poucos personagens. Dentre eles, citamos, Eduino Gomes da Silva, o protagonista, e o Aliu “o menino de mandado”; há ainda outros apenas referidos, como os jornalistas, Korvo e Kotedua. O narrador é um político – que acabou de assumir a pasta de Ministério de Comunicação Social. No entanto, o partido, além de confiar-lhe o cargo, também, prometeu uma casa nobre para sair do beco onde morava.

São os meus últimos dias a viver na casa do bairro, mas se não fosse o Patrol que me deram, juro que até ficava a dormir no Ministério. Quando vou a entrar no bairro a esta hora, em pleno dia, diminuo a velocidade do carro, mas isso não impede a habitual correria de porcos, miúdos e galinhas a afastarem-se à minha passagem, num chinfrin desgraçado que me põe logo de péssimo humor. O pior é que é sempre assim, todos os santos dias, como se a rua fosse deles e eu um invasor, e isso me faz lembrar logo dela, da bela casa que me vão dar, e do pouco que falta para eu abandonar este maldito pardieiro (MBOTOH, 2010, p. 89).

 

O conto relata a estória de Eduino Gomes da Silva, um alto dirigente de um partido não nomeado. Pelo tempo referido no conto, dão-nos a entender que é o PAIGC, partido no poder desde a independência do país até 1998 – ano da guerra de 7 de junho, referido no conto ironicamente. Eduino foi nomeado pelo seu partido para o cargo de ministro da comunicação social. Só que sua nomeação o pegou de surpresa, e Eduíno mora em um bairro pior do que as favelas das cidades brasileiras; pior ainda que os bairros dos musseques de Angola e sem nenhuma privacidade, como vemos no trecho a seguir:

O episódio deixou-me irritado. A minha nomeação para Ministro dos Órgãos apanharam-me a viver nesta casa miserável, com uma porta à frente e outra atrás, que dava para um quintal de má morte fechado com kirintins que já não vedam coisa nenhuma, descaídos e roídos pela baga-baga, além dos buracos que vão deixando as vizinhas de atrás quando arrancam pedaços para acender o fogareiro (MBOTOH, 2010, p. 90).

O que lhe assegurava toda a desgraça de morar num bairro como aquele era o seu Patrol, mas quando voltava do trabalho para casa sentia-se um verdadeiro “lixo”: “Choveu a noite toda e a rua está uma miséria. Meu belo Patrol, murmurou agradecido, acariciando o volante forrado em cabedal antes de ligar o ar condicionado e o leitor de cêdes” (MBOTOH, 2010, p.90).

Eduino Gomes da Silva é obcecado pela casa prometida, e não escondia nos olhos a pressa de mudar-se do bairro de lixo onde morava para um bairro nobre, pois “luxo com lixo não combina”. Assim, declara: “Não há nada a fazer, estou obcecado com a casa nova e já nem os prazeres do Patrol me conseguem distrair mais de um minuto deste desejo imperioso de tê-la toda para mim” (MBOTOH, 2010, p. 90). Apesar de Tambá Mbotoh ser pouco conhecido tanto no país, como na comunidade de língua portuguesa, não podemos ignorar o seu amadurecimento literário no conto ‘O Serco’ escrito numa linguagem acessível, porém cheia de figuras estilísticas que marcam a realidade do dia a dia guineense. O seu estilo se aproxima, de certa forma, ao de Abdulai Sila, pois os dois transportam para o texto o falar popular do povo guineense. Não há como ficar cego perante as realidades do país, bem presentes no conto e exploradas com intensidade, caracterizando a forma peculiar de escrita de Mbotoh, e marcando-o como um contista promissor, que sabe escolher as palavras para caracterizar os comportamentos ilícitos dos governantes atuais.

O Conto “O serco” é destacado neste trabalho no sentido de ampliar a visão crítica de um país que é ainda um dos países mais pobres do mundo, muito em função das condutas autoritárias dos seus governantes. O texto foca-se nas posturas egocêntricas, voltadas mais para o acúmulo de bens materiais do que para o interesse do povo. “Era só dela agora que eu sentia a falta. Das três vezes anunciadas, da minha prometida, daquela por quem eu espero dia e noite. Felizmente já faltou mais para eu entrar nela. Prometeram-me as chaves para hoje ou amanhã” (MBOTOH, 2010, p. 89). Os bens materiais são os primeiros pensamentos que tomam conta dos principais personagens, apresentando sempre discursos falsos, que buscam impressionar e enganar o povo. É o que podemos observar no trecho a seguir: “Quando fui chamado a servir o país como ministro aceitei imediatamente, sem hesitações. A pátria está por cima de todas as coisas e, se meu modesto contributo se revela indispensável, eu tudo faria para dignificar o cargo” (MBOTOH, 2010, p.91).

Na medida em que mergulhamos no conto, ganhamos a consciência de algumas  certezas e verdades. Essas verdades e certezas vão desvendando, de forma clara, a realidade política do país. Veja-se o trecho: “Comunica-se aos detentores de bens públicos que devem apresentar-se na sede do quartel-general dos três movimentos nas próximas vinte e quatro horas e fazerem entrega dos veículos e bens que se encontram na posse” (MBOTOH, 2010, p.96). Observamos que aqui o autor enfatiza um novo tempo, e sonha com esse mesmo tempo, realçando novas ideias para despertar inovações no campo político guineense. Por fim, a narrativa nos apresenta um final triste e solitário do governante – arrogante – que se sentia dono de todo o poder:

                              Gritei logo por Aliu, pra que fosse ver o que se passava. Não havia Aliu, nem cachorro. Tinham sumido. Tinham fugido de mim, o par de cachorros! E agora ouviam-se nitidamente tiros na estrada, cada vez mais perto.

                                               – Mame di mi ki padin – sussurrei desnorteado, já com a barriga fora de controle, e desatei a correr mais uma vez para o serco (MBOTOH, 2010, p. 96).

Assim termina esse belo conto, apontando para o descontentamento e a rebeldia dos militares – que resultou na guerra civil de 7 de junho de 1998. “Gritei logo por Aliu, pra que fosse ver o que se passava. Não havia Aliu, nem cachorro. Tinham sumido.”

Optamos por apresentar aqui a maior parte dos contos aos quais tivemos acesso, pois assim percebemos que os escritores guineenses, tanto no exterior tanto no país, continuam mostrando o desencanto e questionando os rumos do pós-independência. O conto escrito cada vez mais ganha espaço na literatura bissau-guineense. Acredito ser um dos recursos que melhor pode apresentar o país em relação ao espaço e às culturas locais.

Hoje, sem nenhuma dúvida, os poetas, os romancistas e os contistas são vistos como porta-vozes da sociedade guineense. São eles que carregam essas dores imbuídas de tristezas, dando voz para aqueles que não as têm. Se antes da independência do país as temáticas literárias voltavam-se para denunciar a presença e opressão colonial, após a independência, percebe-se que há uma grande mudança nos temas dos escritores guineenses. O desencanto da pós-independência é pilar de destaque na cobrança das promessas feitas para um país melhor, com que todos os combatentes e filhos da Guiné-Bissau sonhavam viver.

2.4. Poesia: a voz dos oprimidos

O poeta ironiza na dança das palavras e diz que tudo muda, porque as vozes são mudas [...] (TCHEKA, 2011, p. 70).

 

O canto evocado pelo poeta Tony Tcheka, pseudônimo de António Soares Lopes Júnior, da Guiné-Bissau, no trecho do seu artigo ‘A Literatura guineense está viva’, foi publicado no livro Literaturas da Guiné-Bissau: Cantando os escritos da história, organizado por Margarida Calafate Ribeiro e Maria Odete Soares Costa Semedo. Tcheka parece apontar um caminho de esperança e luz para as almas guineenses que, no dizer do poeta, têm sido caladas.  Mudas, porque foram submetidas ao silêncio que fez com que elas vissem a vida como o sofrimento que há séculos lhes estendia o manto para muitas noites de dores forçadas na peregrinação sem destino.

Parece-me que o tempo não mudou muito. Se mudasse, a meu ver, deixaria os traços – que ainda despertam sempre os poetas para consolar os angustiados perante o desencanto da vida que perambula nas marcas do próprio tempo. A poesia, na boca dos homens de letras guineenses, serviu como arma para lutar e combater o imperialismo estabelecido por séculos num país que parecia ser apenas mais uma fonte de exploração para os colonizadores. No entanto, a poesia era a melhor maneira de se fazer ecoar a voz do povo injustiçado.

Hoje, ainda, a poesia serve para contornar as dores de desencanto do pós-independência – as vozes revolucionárias, de uma maneira intimista e ao mesmo tempo coletiva, vão cantar as mesmas melodias de angústia do pós-independência que o tempo ainda não soube superar. Como bem observou Tony Tcheka: “E hoje, quando deviam cantar outros versos, conjugam os mesmos verbos com os mais velhos, como se o tempo tivesse parado no tempo”.  (TCHEKA, 2011, p. 69).

As palavras do poeta são sentidas no mais fundo do ser, onde possam encontrar a alma de um guineense. As palavras do poeta, também, descrevem que o luto e a melancolia continuam a trilhar os mesmos caminhos de ontem, em um chão onde se encontram as marcas de dor amargas do passado e desse sol, que todos esperam amanhecer, mas que ainda custará um alto preço a pagar. “Ali onde a dor e a paixão se confundem” (TCHEKA, 2011, p. 69).

Insistimos em apontar que a presença portuguesa, há mais de cinco séculos no território que, hoje, é denominado de Guiné-Bissau, provocou um grande atraso na economia, na política, na educação, na saúde e na péssima infraestrutura dos serviços no país. Sabe-se que a Guiné-Bissau, por muito tempo, apenas servia como um território de exploração e de fins comerciais para colonialistas portugueses que ali viviam, não tendo construído nada de significativo para o seu desenvolvimento, em comparação com outras colônias, como Moçambique, Angola e Cabo Verde.

Embora já tenhamos mencionado anteriormente, lembramos que a Guiné-Bissau só teve sua primeira instituição de ensino em 1958 – o Liceu Honório Barreto -, enquanto que, em Cabo Verde, o Liceu Gil Eanes já existia desde 1860. Como se vê, há uma diferença larga entre esses dois países no campo da educação, o que, naturalmente, nos ajuda a entender o pioneirismo da literatura cabo-verdiana no seio das demais literaturas africanas de língua portuguesa.

Na Guiné-Bissau, antes da independência, não havia espaço para o desenvolvimento da literatura propriamente dita. Tampouco surgiu uma elite cultural, capaz de dar origem à criação de grupos que, num futuro próximo, originassem movimentos literários locais. Os nativos eram mais vistos como rebeldes e, em função disso, eram segregados. Assim, pode-se dizer que não havia espaço nem liberdade para que os habitantes externassem sentimentos de revolta ou de dor em relação ao sistema de opressão instalado, a não ser registros na tradição oral. Na época colonial, havia mais obras publicadas por estrangeiros que viviam na Guiné Bissau e escreviam seja em poesia seja em prosa. Praticamente a maior parte dos escritos dessa época apresentava uma visão estrangeira, não apontando sequer as desilusões e opressão sofridas por parte dos nativos, considerados na sua maioria gentios.

Porém, da parte dos nativos não se registaram quaisquer escritos que pudessem denunciar ou mostrar esta e outras questões ligadas à resistência dos autóctones, mas do ponto de vista local registam-se os testemunhos orais; pois da penetração até o momento em que a administração colonial portuguesa foi instalada não se conhecem notas sobre grupos ou de um grupo de guineenses que se dedicaram às letras e/ou ao registro da situação que então vivenciava. Uma situação que difere com a de Angola, Cabo Verde e Moçambique, onde se registaram atividades de intelectuais que deram origem a movimentos literários (SEMEDO, 2011, p. 25).

 

A poesia sempre foi para os africanos a forma mais emblemática de resistir e lutar contra o colonialismo e o neocolonialismo, atuando na África desde muitos séculos. Na Casa dos Estudantes do Império (1944-1956), fundada para abrigar estudantes africanos de "Além Mar", encontraram-se alguns dos que se tornaram grandes mentores dos movimentos de independência em seus países, a saber, Angola, Mocambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau.  O fazer poético desses jovens líderes foi um sensível instrumento de protesto e de sensibilização, destacando-se nomes como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Noemia de Souza, Alda do Espírito Santo, José Craveirinha, entre muitos outros. Seus versos eram vistos como uma forma escolhida para questionar a presença dos colonizadores portugueses na África. A voz desses poetas e ativistas, alguns deles vivendo na Europa, cheios do espírito revolucionário, levantou-se em protestos contra a exploração humana.

Na Guiné-Bissau, a poesia, na época da colonização não serviu somente como expressão para libertar os sentimentos de dor, mas, também, serviu para mobilização do povo para uma luta armada; enfim, para dar um basta ao jugo colonial. Foi nesse mesmo espírito que poetas como Amílcar Cabral e Vasco Cabral escreveram seus versos de indignação. Versos que interrogavam a preocupação com a existência humana e seu verdadeiro valor. Nos anos 1940, Amílcar Cabral já produzia poemas. Rejeitou ser silenciado e sua poesia não se calou perante a dor. O poema No fundo de mim mesmo talvez seja um dos que mais revela a radiografia desse tempo de tirania:

No fundo de mim mesmo
eu sinto qualquer coisa que fere minha carne,
que me dilacera e tortura …
… qualquer coisa estranha (talvez seja ilusão),
qualquer coisa estranha que eu tenho não sei onde
que faz sangrar  meu corpo,
que faz sangrar  também
a Humanidade inteira!

Sangue.


Sangue escaldante pingando gota a gota

no íntimo de mim mesmo,
na taça inesgotável  das minhas esperanças!
Luta tremenda, esta luta do Homem:
E beberei de novo – sempre, sempre, sempre -
este sangue não sangue, que escorre do meu corpo,
este sangue invisível – que é talvez a Vida![38]

Encontramos nesse poema uma voz que quer ser ouvida, um grito que não esconde a sua ferida e apresenta a sua carne e a sua alma torturada.  O poema de Cabral vai além, fazendo com que a sua voz de luto ultrapasse as fronteiras. Podemos dizer que a tortura - corpo sangrando, carne dilacerada - é a sua África despedaçada em mãos do colonizador.

Amílcar Cabral e Vasco Cabral são vozes que mereceram exaltação. Apesar de terem-se manifestado de forma individual, seu inconformismo em relação aos sofrimentos do povo guineense e seus versos valeram para resistir o mal-estar e a barbárie imposta à população guineense. A poesia se revelava um caminho para buscar saídas às insatisfações do quotidiano. O poema de Vasco Cabral, intitulado “3 de agosto”, abaixo transcrito, sem dúvida, faz alusão a esse período de violências.

 

3 de Agosto

1959

Bissau desperta inquieta

do sono da véspera.

Sopra o vento de morte

no cais de Pindjiguiti!

E de repente

o clarão dos relâmpagos

o ribombar dos travões.

O meu povo morre massacrado

No cais de Pindjiguiti!

Um clamor de vozes

ameaças e pragas

fulmina o espaço

num coro de impotência.

O meu povo morre massacrado

no cais de Pindjiguiti!

Em 1959, os trabalhadores de porto de Pindjiguiti realizaram um simples protesto de reivindicação por direitos a um salário digno, tendo em conta as muitas horas de trabalhos estafantes a que estavam submetidos. O protesto culminou em um massacre, como assinalam os versos do poema acima.

Antes de 1960, poetas nativos guineenses demonstravam paixão pela literatura, escrevendo poemas de cunho nacionalista, entre eles, os nomes aqui já referidos. Mas o primeiro guineense nativo a publicar um livro de poesia foi Carlos Semedo com o simples título Poemas, pelo Jornal Bolamense, em dezembro de 1963.

Ali encontram-se versos que anseiam a liberdade, mostrando que a poesia podia servir para lançar a esperança de um amanhã por vir – que garantisse o sossego do povo guineense. O poeta também cantou a sua alma distante da sua terra e dos seus anseios – a saudade que só os versos poéticos podiam vencer.

Sobre Carlos Semedo, assim se expressa Moema Augel:

Se considerarmos 1963, ano em que foi publicado o livrinho de poemas de Carlos Semedo, como o marco do surgimento da literatura guineense, temos que passar por um período de silêncio de quinze anos de duração até o aparecimento da segunda publicação individual. Apesar de incipiente e modesto, o caderno de quarenta e sete páginas tem que ser com  razão festejado como a primeira publicação individual no âmbito da beletrística de autoria de um filho da terra na ainda colônia da Guiné (AUGEL, 1998, p.65).

Depois de uma longa pausa sem publicações, a antologia Mantenhas para quem luta: A nova Poesia da Guiné-Bissau (1977), sem sombra de dúvida vai marcar o fortalecimento de uma literatura propriamente dita, fugindo, assim, das características das ‘manifestações literárias’ propagadas até as décadas de 1940 e 1950, sem uma articulação e um sistema próprio. Como afirma Odete Costa Semedo:

Antonio Candido denomina de manifestações literárias e define-as como todo o balbuciar literário de inspiração individual ou de influência em outras literaturas, porém, não representativas a ponto de ser considerado um sistema. Essas manifestações literárias são próprias de fases iniciais, em que a imaturidade do meio dificulta a organização de grupos e a elaboração de uma linguagem própria; do outro lado está o segundo momento, considerado o de afirmação da literatura como sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer  traços dominantes de uma classe. Esses denominadores  são determinados elementos de natureza social, as características internas e psíquicas literalmente organizadas (SEMEDO, 2011, p. 23).

 

Após a independência, o primeiro guineense a publicar um livro individual, foi Francisco Conduto de Pina, com Garandesa di no Tchon, obra pioneira no país recém-independente. O título em crioulo carrega várias conotações importantes no contexto guineense – imagens que louvam a grandeza do país, seus recursos naturais e o seu espaço úmido – que permite cultivar a terra tanto na chuva como na seca. Contudo, o país com esses recursos continua a depender da comunidade internacional para sobrevivência. Apesar de contar apenas com 36, 125 km², neste ‘chão’ da Guiné há chuvas para lavrar a terra, há madeiras para construções de imóveis e há mar – maior riqueza do país. Tudo isso faz grande o nosso Tchon, que é o termo crioulo para designar a terra natal, que a voz do poeta exaltou cantando também a sua África em liberdade:

Que linda tarde

Tarde de setembro

Tarde africana o sol imerge no horizonte

Leva consigo a tristeza

De tanta gente (PINA, 1978, p. 8).

 

Pode-se afirmar que, entre os países da colonização portuguesa, a Guiné-Bissau foi o que mais tardiamente viveu o desenvolvimento da escrita. A primeira editora - Nimba - só foi criada em 1987, sob tutela da Direção Geral da Cultura da época. Parece-me que a existência dessa editora foi curta, sendo substituída anos depois pela Editora Escolar (1991), com financiamento da Suécia, destinada à edição de material escolar, que vinha publicando desde 1991. (AUGEL, 1996, p.10). Esse fato influenciou bastante as produções literárias em geral. Apesar da raridade de editoras, apareceu, em 1973, já nas vésperas da independência, a primeira antologia poética, Poilão, uma modesta coletânea que reuniu poetas de diferentes nacionalidades, entre eles: quatro portugueses, três cabo-verdianos e quatro guineenses (AUGEL, 1998, p. 89).

Na década 70, registre-se a publicação de antologias poéticas, forma adotada para dar visibilidade aos escritos dos poetas – que tanto escreviam, e não podiam ser lidos. Falando da coletânea pioneira, após a independência, percebe-se que a mestiçagem não se observa somente nas distinções das pátrias, mas, sim, nos temas ali presentes – que, sem dúvida, o dizer poético de cada autor emprestou obra um sabor – que só a arte nos oferta.

Percebemos um amadurecimento literário de alguns poetas guineenses que, antes da independência, ainda jovens, já manifestavam nos seus versos um espírito revolucionário, engrandecendo a terra natal e demonstrando uma profunda consciência da realidade colonial.     A obra Mantenhas para quem luta foi festejada como a primeira reunião de poemas do novo país Guiné-Bissau. Como Odete Semedo se expressou:

Em 1977, nos verdes anos da independência, é uma antologia poética que vai  marcar o início da literatura guineense – do seu título Mantenhas para quem luta. A nova poesia da Guiné-Bissau –, trazendo temas em torno dos quais vozes de catorze poetas  se uniram e se fizeram sentir, apenas <senão> de entre esses nomes não constar nenhum nome feminino (SEMEDO, 2011, p. 29).

 

Essa obra coletiva revelou uma identidade própria e uma dicção que expressava claramente o compromisso político dos autores ali publicados: exaltando a pátria, a independência e expressando agradecimentos àqueles que deram a vida nas matas da nossa terra para salvar o povo do jugo colonial: os combatentes da liberdade da pátria. Os “meninos de hora de pindjiguiti”, como referiu Mário de Andrade uniram vozes para denunciar o mal-estar que a presença portuguesa causou aos filhos guineenses. Nessa obra, sim, havia unificação de vozes, sendo que uma parte considerável de criações poéticas dessa antologia data ainda do período colonial, além de algumas que foram produzidas após a independência, em agradecimento aos combatentes.

Em 1978, surgiu Momentos Primeiros da Construção, com participação de doze poetas, e a colaboração de uma única mulher: Mariana Marques Ribeiro. As publicações antológicas não pararam por aí. Em 1979, foi publicada, em Bolama, ilha do arquipélago dos Bijágos e antiga capital, a Antologia dos Novos Poetas, jovens cheios de inspirações, em seus versos que apresentaram denúncia ao colonialismo e revelaram as cicatrizes da guerra colonial. A referida antologia tem como título Os Continuadores da Revolução e a Recordação de um Passado Recente. Nela, a língua crioula apareceu como marca da valorização da cultura local. 

Passou-se quase uma década para publicação de A nova Poesia: antologia poética da Guiné-Bissau. Publicada em 1990, e que difere das outras até então publicadas por ter um volume maior de páginas e contar com a presença de duas vozes femininas: Domingas Samy e Eunice Borges, de origem cabo-verdiana. Dois anos depois, foi publicada em Lisboa O eco do prantoA criança na moderna poesia guineense. Essa antologia tratou da problemática das crianças na sociedade guineense, num esforço da UNAE, organizada por Tony Tcheka. Todos os temas dessa obra procuraram abordar questões relativas ao espaço infantil no universo guineense. E mesmo no universo africano. Lamento dizer novamente que, entre nove poetas a obra só contou com uma presença feminina - Mariana Ribeiro.

Na década 90, pouquíssimos autores haviam sido editados, com exceção de Francisco Conduto de Pina, que já havia publicado como referimos, em 1978, o seu primeiro livro de poesia Garandesa di no Tchon.

No entanto, não se pode dizer que não existiam outros autores que escreviam literatura. Em 1996, com a contribuição da pesquisadora Moema Parente Augel, de nacionalidade brasileira, em colaboração com o INEP, surgiu uma antologia poética intitulada em crioulo: Kebur[39]:Barkafon di Poesia na Kriol.  Trata-se do primeiro volume da Colecção Kebur, sendo de uma coletânea que conta com todos os versos em kriol, coordenada e prefaciada pela autora supracitada. A publicação privilegia textos inéditos escritos em crioulo e reforça a valorização da língua enquanto acervo da memória coletiva. Além de tudo isso, os textos ali publicados estimulam o gosto pela leitura, e reafirmam a identidade cultural do povo guineense.

Se a década de 70 foi considerada o marco da literatura guineense, com várias publicações de coletâneas de cunho nacionalista, a década 90 inspirou e revelou várias vozes poéticas que questionavam a situação social do país e apontavam o desencanto da pós-independência. Afinal, a independência já se revelava apenas como uma ilusão.

Alguns anos após a independência do país, isto é, a partir dos anos 90, surgiu uma nova maneira de fazer poético, uma forma peculiar, diferente de outros tempos, em que os poetas contestavam a presença colonial e uniam gritos para exaltar a liberdade e lutar contra o sistema colonial. Parece-me que durante esse novo período os poetas dessa geração se abraçaram em uma mesma sintonia, fazendo críticas da vida miserável que o povo levava. No lugar da esperança e dos sonhos de dias melhores começaram a brotar espinhos de desencanto ao lado da falta de produtos de necessidades básicas.

Crescia, também, o descaso pelos antigos combatentes que, outrora, lutaram para liberdade da pátria guineense. Essa nova postura inspirou a maioria dos textos poéticos, assim como textos ficcionais que começaram a questionar a esperança e as promessas que medraram durante as lutas pela independência e a euforia da vitória conquistada, para pôr em relevo a crítica aos desmandos dos governantes e a traição aos ideais libertários pregados pelos líderes do passado.

Viu-se nascer um período de autoritarismo e abuso do poder – que vai se prolongar por vários anos, ou melhor, que ainda está vigente no país. Daí, multiplicaram-se discursos denunciadores representantes de letras, como Agnello Regalla, Tony Tcheka, Abdulai Sila, Odete Costa Semedo, Huco Monteiro, Felix Sigá, Jorge Cabral, só para citar alguns deles, que tomaram outros caminhos, trazendo, nos seus poemas e outros textos, críticas a uma nação fragilizada, com péssimas condições sociais. A explicação desse momento é reforçada pelas palavras da escritora Odete Semedo:

Porém, em menos de uma década depois das independências, a realidade de uma gestão deficiente começou a fustigar os sonhos de um país justo, de uma distribuição equitativa de riquezas, sobretudo dos bens de primeira necessidade. Nessa altura, os textos começaram a tomar outras feições, e, hoje em dia, os poemas já não exaltam os heróis, mas questionam sobre a vida de miséria dos combatentes da liberdade da Pátria; já não só glosam Amílcar Cabral na sua afirmação de que “as crianças são as flores da nossa luta e razão principal do nosso combate”, mas questionam o porquê da ausência de escolas para todas as crianças, por que os cuidados com a saúde continuam insuficientes (SEMEDO, 2010, p. 33).

Foi nesse mar de desencanto da pós-independencia que a inspiração de alguns poetas acendeu; muitos deles tiveram oportunidade de publicar suas obras individuais no projeto do INEP, a Série Literária, coordenada pela pesquisadora Moema Augel.

A Série Literária - Colecção Kebur, projeto do INEP, foi financiada pela União Europeia. O projeto visava tornar visíveis os poetas que até então não tinha conseguido ter acesso a uma publicação. Mas por que não tinham nada publicado?  Quem responde a essa pergunta é Peter Mendy, na apresentação do livro de poemas, Marinheiros da Solidão, de Jorge Cabral: “A história da Guiné-Bissau regista um período infértil na literatura publicada porque muito pouco foi escrito. Não por falta de poetas ou de motivações nem de inspirações, mas apenas pela ausência de um ambiente favorável” (CABRAL, 1998, p. 9).

O projeto do INEP revelou poetas guineenses e marcou as publicações individuais de temáticas de protestos e indagação da vida miserável das crianças sem escolas, descaso na saúde pública e questionamento, também, dos combatentes da liberdade da pátria que acabaram por se refugiar nas bebidas alcoólicas, amparando suas vidas solidárias. Nessa leva, mais de uma meia de dúzia de poetas dessa geração expressaram de forma intimista a dor da alma, também coletiva, na medida em que esse sofrimento foi comum a todos os guineenses.

Nesse projeto que contou com oito publicações, vieram à estampa seis livros individuais, todos utilizando, sobretudo o português e também com poemas em língua local, o crioulo.

A grande inovação dessa iniciativa foi abrir a série com uma antologia exclusivamente em crioulo: Kebur: Barkafon di Poesia na Kriol, como forma de divulgar essa língua e exaltar a identidade cultural guineense. Comenta Moema Augel:

Acreditamos além disso também que, com a publicação de obras em kriol, estaremos contribuindo para um maior gosto pela leitura, um mais amplo acesso da juventude aos livros, que se sentirá, esperamos, mais motivada a entregar-se à disposição livros escritos numa língua que lhes é mais familiar (AUGEL, 1996, p.14).

 

Achamos necessário citar os nomes de todos eles, para que os interessados em pesquisar os escritores guineenses tanto no país, como no exterior possam conhecê-los: Adriano Gomes Ferreira (Atchutchi), Djibril Baldé, Ernesto Dabó, Nelson Medina, João José Silva Monteiro (Huco Monteiro), Dulce Maria Vieira das Neves (Dulce Neves), Respício Nuno, Francisco Conduto de Pina (Conduto de Pina), Armando Salvaterra (já falecido), José Carlos Schwarz (Zé Carlos – já falecido), Maria Odete da Costa Soares Semedo, António Félix Sigá ( já falecido) e António Soares Lopes Júnior (Tony Tcheka) (AUGEL, 1996).

O projeto Série Literária, Coleção Kebur, contou ao todo com oito volumes: O primeiro volume foi publicado em 1996, Kebur: Barkafon di poesia na kriol, coletânea de poesias apenas em língu guineense. A obra contou com a presença de treze poetas, muitos deles novos, enquanto alguns poucos já haviam publicado em outras coletâneas do país, entre eles Tony Tcheka e Felix Sigá.

O segundo poeta escolhido dessa coleção é Tony Tcheka, com a sua obra de cunho nacionalista, intitulada Noites de Insônia na terra adormecida, publicada no mesmo ano que o primeiro.  Essa obra, do ponto de vista literário, possui a mesma força que as de Vasco Cabral e Hélder Proensa. O livro de Tony Tcheka é dividido em cinco partes, a saber: Kantu kriol (10 poemas), Poemas (13 poemas), Sonho Caravela (9 poemas), Poesia Brava (31 poemas) e Canto Menino (8 poemas). Todos os poemas desse livro evocam um sentimento de dor, nos quais o eu lírico apresenta o seu desgosto com o rumo que o país tomou – distantes dos sonhos dos filhos, e apresenta um rosto estranho a eles.

Mas o poeta não está longe; ele testemunha o sofrimento das crianças que, nas palavras de Amílcar Cabral “são flores da luta”. O poeta, também, não deixou de passar à vista a fome que não perdoa os homens. A realidade da vida não permitiu que o poeta calasse: a dor da perda dos entes queridos faz parte das suas Noites de Insônia na terra adormecida. São dignas de realce a temática da fome, da morte, da exaltação à terra natal e por que não do amor? Enfim, Noites de Insônia na terra adormecida é o descontentamento por causa dos rumos incertos de um país recém-independente. Com a palavra o próprio Tony Tcheka:

Este livro resulta de uma enorme desilusão ao ver uma terra cada vez mais destroçada e tudo por construir. Mesmo o elementar como a saúde e a escola. O que se ensaiou nos primeiros anos dos seis anos de independência foi-se esvaindo em nada. O livro é a dor pelos projectos esquecidos, as traições ao pensamento de Amílcar Cabral, Domingos Ramos, Titina Silá, Canha Na Tun-guê, Pansau Na Isna, toda uma geração que se privou de tudo para lutar contra a injustiça social e considerou pedra basilar do combate, a nossa identidade, a nossa cultura como ademais definiu o líder do movimento de Libertação nacional, Cabral:“a luta pela emancipação e independência é um acto de cultura”. Sucederam-se assaltos ao poder, golpes de estado, assassinatos, prisões, corrupção, nepotismo, compadrio e o desprezo pelo conhecimento e o saber deu-se início a um longo período de saque, desgoverno, que dura até aos dias de hoje, agravado pela incompetência.[40].

 

Odete Costa Semedo, com o seu livro Entre o Ser e Amar (1996), figura como a terceira poetisa a ser publicada nessa colheita literária. Com essa publicação, a autora tornou-se a primeira mulher a publicar um livro de poesia individual no país. Semedo preocupou-se com o uso da língua nessa obra, tendo optado em escrever em duas línguas para deixar seu recado de geração em geração: a língua crioula e a portuguesa. Sendo assim, ela é a pioneira nesse estilo bilíngue no país. A poetisa oferece-nos seus versos em duas línguas, na maneira leve e suave de fazer poético para emocionar e encantar. Não escondeu as estórias e cantigas do seu chão, nem os “feitos dos homens e das mulheres”; apenas preocupou-se com os sinais a deixar aos netos destes séculos. Mas o eu-lírico não poupou a sua voz: cantou e contou as estórias: jogando para fora o que alma repudia. Como a própria Odete assegura na nota do livro em tese: “Por assim ser, e considerando-me pertencente às duas culturas, senti-me encorajada a publicar alguns dos meus escritos em edição bilingue: português e kriol, de modo a proporcionar aos leitores um espaço de lazer, reflexão, crítica e encontro consigo mesmo (SEMEDO, 1996, p.7).

 A ideia da coleção Kebur surgiu na proposta de divulgar textos inéditos dos escritores que não tinham acesso a uma publicação e combater “o espaço vazio”, tão comentado por muitos historiadores literários, como Manuel Ferreira. Moema Augel, no prefácio da obra em tese, procurou esclarecer o momento vivido: “Os autores existem, a produção literária existe, é forte e bela, e é urgente que ela se torne conhecida e divulgada, tanto no país como no exterior” (AUGEL, 1996, p.9). No total de treze poetas, só se registrou a presença de duas vozes femininas: Odete Costa Semedo e Dulce Neves (também cantora), ambas com seis poemas de temas variados – que tratam de problemas dos sofrimentos quotidianos dos guineenses, além do eterno tema do amor. Observemos o primeiro poema que abre as páginas de Odete Semedo, na coletânea referida, intitulado: I sin, ou “É assim”:

N fasi sufrimentu iagu                       Fiz do meu sofrimento água

Pa i matan e sede ku na giban           Para matar a sede que me esmorece

N fasi kasabi panu di kubri                Cobri com angústia a minha nudez      

Pa i tapan borgoña                            Para disfarçar a vergonha

D ´e ña kurpu kutuladu                      Do meu corpo apunhalado 

N dianta ku kansera                           Ombreio com o sofrimento

Ka i bin caman ngratu                       Que não venham a chamar-me de ingrato

N darma iagu di ña uju                      Derramei lágrimas dos meus olhos

N sindji panu                                     Amarrei forte o meu pano

N rema na kontra mare                     Remei contra a maré

Ma i kapa nada                                  Mas não foi por nada

I son pa n sibi                                    Só queria saber

N´de kuno na bin ba ciga                  Onde iremos aportar

(AUGEL, 1996, p.131; tradução minha e correção de Tony Tcheka).

 

Os versos acima demonstram a grande maturidade da poetisa com a situação sociopolítica do seu chão. A maturidade ora revelada pode ser sentida e interpretada pelas péssimas condições econômicas do país. Os versos, em um crioulo fundo, transbordam a alma da própria poetisa e do seu povo “cobri com a angústia a minha nudez/ para disfarçar a vergonha”. Que amarra forte o pano/remando contra a maré”. Estes, entre outros versos, revelam profundamente a situação social atravessada no país há décadas. O eu lírico narra as realidades sociais do seu tempo e não se deixa prender nas palavras, não quer adiar as palavras de dor. Libertar é beber a água desse sofrimento: “Fiz do meu sofrimento a água /para matar a sede que me esmorece”. Ainda que esses versos apresentem características intimistas, me parece que a dor é coletiva. Pois todos nós queremos saber: “Onde iremos aportar” (SEMEDO, 1996, p.31).

A quarta colheita dessa Série literária é o poeta Felix Sigá, autor já falecido – com o seu livro intitulado Arqueólogo da Calçada (1996). Diferentemente de Odete, que quer cantar os feitos dos homens e das mulheres do seu chão em duas línguas, Sígá, poeta das palavras sob medidas do tempo, cantou esses feitos em uma língua só. Porém, parece cantar em duas simultaneamente. Peter Mendy, na apresentação do livro de Jorge Cabral, afirmou que: “Felix Sigá com o seu Arqueólogo da Calçada, onde muitos dos seus versos em português estão molhados na seiva crioula, com interessantes e criativas interferências que denotam, sem nenhuma dúvida, a origem lírica do poeta” (CABRAL, 1996, p.10). Este estilo é amplamente explorado no “Pasa ku mon”, do livro acima referido, que transcrevemos a seguir:

Mulheres só rir rir só

Com homens de gente

Tardan na rua e no beco

Seus homens – tolos

Falam que foram kulkar

Porque jantam sian disso

 

Seiz-hora sett-hora

Só no beco

Até na fuska-fuska

Mbé! Não é limpo

Inda sem panos no vestido

Nem de baixo nem de cima

Eh! Uh! – kuma casados também

Nkata pud idé

Nkata roki-rokidé

 

Saem de manhã sem comer

Dão água-pú aos meninos

Com tem-de-pressa acaloram

Levam man kara kuskus ku kanfurbat

E rapazes de Ray-ban escuros

Torram-se até viraram carvão

Dentro de rangler e campestre

 

Desde que mundo é mundo

Levantamos e vimos

Mulheres só debaixo de homens agora badjudas fumarem e gritarem

Isso passa com mão!

Dizem que eu tenho poeira na cabeça

Cozinhar é trabalho de mulher

Lavar e vestir meninos tudo também

Homem é na oficina ou no lugar

Mulher própria só vale na porta do casamento (SIGA, 1996, p. 95-96).

 

O poeta escolhido para a quinta colheita do Kebur é Pascoal D´Artagnan Aurigemma, com seu livro Djarama. O poeta nasceu em Farim, uma das cidades da província norte do país; é filho de imigrante italiano e de mãe pertencente à etnia mansonca.  D´Artagnan Aurigemma, autor já falecido, apesar de ser conhecido como grande falante da língua crioula, só escreveu em língua portuguesa. Djarama, uma palavra da língua fula que significa “obrigado” em língua portuguesa, foi uma forma simples que o poeta escolheu de agradecer aos combatentes pelos anos de luta contra o colonialismo português.

Como apontou Alda Neves no prefácio do livro, “Está lá tudo na poesia de Pascoal D´Artagnan Aurigemma: a liberdade, a compreensão, a fraternidade, a solidariedade, a consciência política, a Universidade”. (DJARAMA, 1996, p.23). Tudo está na poesia e nos cantos do poeta. Muitas vezes, ele parece contente; outras, triste. É pena não ter visto suas obras editadas. Nasceu em 15 de março de 1938, e faleceu em 7 de dezembro de 1991. Tem poemas publicados nos jornais do país e um livro publicado em Brasília, por Hildo Honório Couto – com o título Amor e Esperança (1994), da editora Thesauros. Seus poemas também foram publicados nas antologias poéticas guineenses, entre elas: Antologia poética da Guiné-Bissau (1990) e Eco do Pranto.

Ora di kanta tchiga, é um título em crioulo guineense, que significa a hora de cantar chegou. Essa obra traz quase todos os textos musicais de José Carlos Schwarz e o seu grupo Cobiana Djazz, com traduções dos sentidos de cada verso em língua portuguesa em notas de roda pé. Valeu à pena o reconhecimento da voz pioneira da música moderna guineense. O poeta se foi, mas deixou-nos sua obra para cantarmos consciência da sua ideologia de luta. A hora era de cantar a dor e a esperança nos dias melhores. A metáfora desse título é rica pela sua dimensão cultural no contexto guineense. Ora di kanta tchiga é mais do que um simples canto de cantar. Era a hora de revolução. Era a hora de se manifestar contra quaisquer males e angústias que o colonialismo trouxe para o chão guineense. Hoje, Ora di kanta Tchiga talvez ajude a combater o desencanto da pós-independência. Essa publicação foi a sexta da Série literária Kebur, sendo da autoria da pesquisadora Moema Parente Augel. 

Jorge Cabral é natural de Canchungo, situado na região norte da Guiné-Bissau. Em vida, foi um grande intelectual e diplomata. Passou maior parte do seu tempo em viagens e estudos, tendo ampliado a sua formação acadêmica em países lusófonos e francófonos. Essas aventuras permitiram ao poeta escrever em português e francês. O poeta morreu no dia de 17 de setembro de 1994, vítima de um acidente aéreo em missão de serviço da organização das Nações Unidas (ONU).

Marinheiros da solidão, de Rui Jorge Dias Cabral, ou simplesmente Jorge Cabral, constituiu a penúltima publicação da Série literária Kebur. Um livro que conta com versos tanto na língua portuguesa quanto na língua francesa. A obra possui um total de trinta e seis poemas divididos em quatro partes; entre eles: poemas épicos, com três poemas: Um sonho – Uma realidade, (um poema em onze páginas, nos quais o poeta procurou homenagear Amílcar Cabral por ocasião de XX° aniversário do assassinato deste). Na mesma secção, também, se encontram os poemas: demain e anonymes, ambos escritos em francês.

A segunda e a terceira parte intitularam-se: descobertas e confissões. Ambas registram um total de vinte e cinco poemas escritos em língua francesa. A segunda parte, descoberta, registra quatorze poemas e a terceira parte, confissões, conta com onze poemas. Já a última parte, Marinheiros da solidão, refere-se ao título dado à obra. Essa parte conta com oito poemas em português. Jorge Cabral, além de ter sido incluído nesse projeto da INEP, autor, em vida, já havia participado nas duas antologias poéticas guineenses: antologia poética da Guiné-Bissau (1990) e Eco do pranto (1992). Além de ter mais produções literárias em língua portuguesa e francesa, Rui Jorge Cabral tem algumas produções em língua crioula. Porém, nenhum deles consta nessa obra (CABRAL, 1998, p. 11-12).

Segundo Peter Mendy, então diretor do INEP, a instituição tinha planos de publicar dez títulos à coleção kebur, com sentido de dar mais visibilidade às produções literárias guineenses. Como ele mesmo afirma na apresentação do livro Marinheiros da solidão, de Jorge Cabral: “os poemas contidos nos livros da Série Literária procuram estabelecer uma identidade guineense exprimindo, tanto em kriol como em português ou francês, com clareza e prudente economia de palavras, a vida, os sentimentos, as cores e os ritmos do país” (CABRAL, 1998, p.11). Moema Augel acrescentou, no mesmo espírito, que: “Se é verdade que na Guiné-Bissau havia até pouco tempo uma grande escassez de publicações no âmbito literário, limitando-se a algumas coletâneas poéticas e alguns livros individuais, é também verdade, embora pouco conhecida, que trabalhos inéditos de excelente qualidade aguardavam há anos uma publicação” ( AUGEL, 1998, p.11).

Os livros Ora di Kanta Tchiga e A Nova Literatura da Guiné-Bissau são ambos de autoria da Moema Parente Augel, investigadora, na época, no INEP e pesquisadora da literatura guineense. Essas duas obras do mesmo projeto completaram os números das edições planejadas. A Nova Literatura da Guiné-Bissau publicada em 1998, a meu ver, é a semente que deu fruto a muitas pesquisas no campo da literatura guineense. Uma obra que faz um balanço geral da literatura guineense até aquela data, trazendo reflexões profundas sobre a história, a política, a sociedade, a cultura e das literaturas produzidas por autores guineenses antes e após a independência do país. A nova Literatura da Guiné-Bissau, a meu ver, hoje em dia, é uma referência obrigatória para interessados em debruçar-se sobre a literatura guineense.

Longos anos se passaram desde 1996, quando foi publicada Kebur: Barkafon di Poesia na Kriol, até aparecer uma nova publicação antológica. Em 2010, numa iniciativa juvenil, foi publicada, em Lisboa, Traços no tempo: Antologia Poética Juvenil da Guiné-Bissau. Como ressaltou Odete Costa Semedo:

Em 2010, Traços no tempo: antologia poética juvenil da Guiné-Bissau, foi uma novidade trazida pela diáspora guineense (Lima, 2010). É uma antologia que contou com a participação de vinte e três poetas, entre as quais se conta se contam três nomes femininos: Filomena Gomes Correia, Gina Có e Irina Gomes Ramos. Ali, retomaram-se as temáticas do poeta sofrido com a dor do país que não alcança o desenvolvimento almejado, temática que esses autores intercalam com as do sentimento de expatriado num tom mais intimista, mas numa lírica ainda tênue. Isso significa que os temas abordados continuam sendo os atalhos da nossa história. E muito me parece que os problemas sociopolíticos continuam a direcionar os escritores guineenses (SEMEDO, 2011, p.30).

 

Nota-se pouca participação de vozes femininas no florescer da poesia guineense, após a independência do país. Entre as vozes femininas citadas, como observamos nas diversas publicações antológicas desde 1973, com a publicação de Poilão até 2010, com a publicação de Traços no tempo: Antologia Poética Juvenil da Guiné-Bissau nota-se presença de poucas mulheres. Mariana Marques Ribeiro foi das poucas que participou em mais de uma antologia poética nesses períodos.

A presença de poucas mulheres no espaço literário guineense me parece ser associada à crise na política educativa do país.  Assim, elas são mais orientadas para serem donas de casa, cuidar do marido e dos filhos do que enveredar nos caminhos das ‘letras’. Na Guiné-Bissau, depois da independência, eram pouquíssimas as mulheres que frequentavam a escola. E, sem dúvida, com esse cenário, o resultado é uma minoria delas no espaço literário guineense.

Não podemos esquecer-nos de citar as duas grandes obras poéticas publicadas nos inícios dos anos 80: A luta é minha Primavera (1981), de Vasco Cabral e Não posso adiar a palavra (1982), de Hélder Magno Proença. As duas obras nas palavras de Peter Peter Mendy são as primeiras obras líricas do país, após a independência (CABRAL, 1998, p. 10).

De 2001 até 2013, surgiram novas publicações individuais no gênero de poesia, entre elas: Stera di Tchur (2001) de Rui Semedo; Falso Plaquê (2001), de Atchô Express; Olhar da Mulher (2001) de Manuel da Costa em coautoria com o angolano Mário Ernesto, A Esperança é Última a Morrer (2002), de Emílio Lima, Sol Na mansi ( sol há de amanher), ( 2002), de Nelsom Medina, cujo prefácio de autoria de Tony Tcheka, também, escrito em crioulo; Palavras da Alma (2005), de Inácio Gomes Semedo, Testemunhos de Ontem (2003) e Mundo Kebur (2006), de Silvano Gomes, Chuva de Lágrimas (2004), de Tino João Mirolho.

Seguem-se No fundo de Canto (2003), de Odete Costa Semedo; Coração Cativo (2005), de Filomena Embalo, Pensar de um Sonho (2005), de Onésimo Figueiredo, Retrato ( 2007); de Rui Jorge Semedo, Estados de alma (2007); de Tomás Soares Paquete, Guiné Sabura que Dói ( 2008), de Tony Tcheka, Bendita Loucura (2008), de Saliatú da Costa, No Canto Lúgubre da Verdade (2009), de Édison Ferreira. As publicações seguiram com novas vozes poéticas. É o que demonstra Rui Jorge Semedo, no seu artigo sobre uma radiografia do processo literário guineense:

                                   Se a terceira e quarta décadas foram produtivas, a quinta aponta e desponta para um ambiente deveras promissor e foi solenemente aberta pelas obras poéticas Palavras Suspensas (2010), de Conduto de Pina, No Compasso do Primeiro Passo (2010), de André Mendes, Entre a Roseira e a Pólvora, o Capin (2011), de Saliatú da Costa, Em Busca do Espaço Verde (2011), de Eliseu José Pereira, O Vento ainda Sopra (2012), de Eliseu José Pereira, Insana Rebeldia (2012) de Edson Pereira Incopté e os contos IMF No Palácio do Governador (2011), de Hildovil Silva &Iramã Sadjo que são até à data e do ponto de vista da idade, os mais jovens escritores guineenses, Adormecer de um Sonho (2010) de Carlos Edmilson Vieira, L`ultimecombatpour um amouranonyme (2012) de Lourenço da Silva, Anjo do Mal 2012), de Plínio Gomes dos Reis Borges.( SEMEDO, 2012, p. 81).

De tudo que vimos até aqui sobre a poesia guineense e seus autores, percebemos que, apesar de uma demora na divulgação das obras poéticas no país, há uma forte ligação dos seus autores com sentimentos da pátria. As palavras de Pires Laranjeira reforçam essa ideia: “A confrontação com o regime opressor fará com que essa literatura se apresente tantas vezes “atravessada no seu discurso pelo texto social e pelo texto político” (LARANJEIRAS, Pires, 1985, p. 125, apud AUGEL, 1998, p. 114).

As questões socioculturais, hoje em dia, continuam sendo a fonte de inspirações de muitos poetas guineeses, tanto dos que assistiram à proclamação da independência quanto os da geração do pós-independência. Peter Mendy afirma o seguinte: “A literatura é uma componente da cultura que, capturando as percepções e experiências quotidinas colectivas, pode ajudar a produzir um sentimento forte de identidade nacional. A poesia é uma forma literária eficaz para mobilizar as emoção e energias, para inspirar e motivar” ( CABRAL,1998, p. 9).

Os temas de luta armada e questões sociais do pós-independência são de grande destaque nas produções literárias guineenses. Porém, ultimamente, os temas mais debatidos, principalmente por vias da poesia, são as temáticas que questionam a vida social e política do país. Antes da independência, o país se confrontou com longos anos de exploração humana em diferentes aspectos. Após a independência até os dias atuais, os bissau-guineenses não conseguiram esquecer a dor do passado nem acreditar na esperança dos dias de amanhã. Esses fatos influenciaram bastante os autores guineenses nas suas produções literárias que, a meu ver, sem nenhuma dúvida, traduzem um sentimento de amor ao país, a despeito das frustrações com o quadro social. Vemos, portanto, que os poetas guineenses assumem a missão de ouvir as vozes dos oprimidos e lutar por eles.

 

CAPÍTULO III

DA LIBERDADE DA PÁTRIA AO DESENCANTO DA PÓS-INDEPENDÊNCIA

3.     Amílcar Cabral e a breve história do PAIGC

O melhor modo de homenagear Cabral é relacionar suas preocupações, questionamentos intelectuais e exemplo inspirador às realidades atuais (LOPES, 2012, p.11).

                                    

Tem sempre um sorriso cordial, um cumprimento afectuoso, a simplicidade de quem está habituado às grandes acções. Amílcar Cabral tem a qualidade de compreender intimamente os que o rodeiam, pois conhece-os a todos e trata-os pelo seu nome próprio. Cativa pela sua sensibilidade e pela ampla e profunda cultura que possui (ORAMAS, 2014, p.167).

 

Os jovens guineenses conhecem muito pouco do legado de Amílcar Cabral, sobretudo, em função da falta de estímulo à educação e à leitura. Esse desconheimento e desinteresse têm sido nefastos, especialmente nas últimas décadas, quando a maioria da população guineense vem mergulhando no desalento e na desesperança. O exemplo de Cabral merece permanecer vivo na memória coletiva. Afinal, como afirma Carlos Lopes:

Desde cedo Amílcar percebeu que a luta que valia a pena era por valores. Suas denúncias da situação colonial debruçavam- se sobre a imoralidade com que eram tratados os povos das colônias, sobre a injustiça no mundo e sobre a necessidade de afirmação das identidades culturais (LOPES, 2012, p. 189).

 

Seja qual for o caminho que trilharmos para falar da Guiné-Bissau, não poderemos deixar de lado a história de Amílcar Cabral, tanto na política, quanto na cultura e na literatura do país. É fundamental, pois, que os guineenses conheçam um pouco de sua história, pois ela representa uma grande inspiração para qualquer geração que busque compreender o contexto do colonialismo e da luta armada pela liberdade de dois países africanos, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Amílcar Lopes Cabral nasceu em 12 de setembro de 1924, na cidade de Bafatá, região leste da Guiné-Bissau, filho de Juvenal António Lopes da Costa Cabral, conhecido como professor desde o ano de 1911, data em que pisou pela primeira vez a Guiné-Bissau. A mãe se chamava Iva Pinhel Évora, era dona de pequenos negócios e, aos 29 anos de idade, emigrou para a Guiné-Bissau. Isso aconteceu, em agosto de 1922, devido à seca que tomava conta de Cabo Verde. Iva Pinhel Évora tinha viajado com o seu então marido, João Carvalho Silva, e o seu primeiro filho, Ivo Carvalho Silva que, na época, tinha nove meses de vida. A relação do casal não durou muito tempo. Tudo indica que, nesse mesmo ano, Iva conheceu Juvenal Cabral, que já havia estado na Guiné-Bissau.[41]

A relação dos pais de Amílcar Cabral também não durou por muito tempo. Em 1929, depois de cinco anos do nascimento de Amílcar Cabral, o casal já havia se separado. Algumas fontes contam que Juvenal Cabral voltou para o arquipélago de Cabo Verde, em 1932, junto com os três filhos que teve com Iva Pinhel: Amílcar Cabral e suas irmãs gêmeas, Armanda e Arminda.[42] Mais tarde, toda a responsabilidade do cuidado dos filhos era assegurada a Iva Pinhel.

Há fontes que relatam que Juvenal Cabral, pai de Amílcar Cabral, havia abandonado Iva com seus três filhos. Como se observa na própria fala de Iva: “cansei-me demais na máquina, na tina e no ferro; a trabalhar dia e noite porque não tinha auxílio do pai”.[43] O próprio Cabral lembra esse momento de seca em Cabo Verde: “quando eu estava no liceu, a minha mãe […] empregou-se na fábrica de conserva de peixe, porque a costura não dava nada. E sabem quanto é que ela ganhava por hora? Cinco tostões por hora, e, se houvesse muito peixe, podia trabalhar 8 horas por dia, ganhando 4 pesos (escudos). Mas se o peixe fosse pouco, (era preciso andar muito para chegar à fábrica) trabalhava uma hora e ganhava cinco tostões”.[44]

Nos anos 1944 e 1945, Amílcar Cabral conseguiu o seu primeiro emprego como ajudante de tipógrafo, na Imprensa de Cabo Verde, na ilha de São Vicente.  Em 1952, voltou a Guiné-Bissau. Contudo, mal chegou, já se confrontava com a violência dos colonialistas. Essa violência era o que mais o irritava e impulsionava a reivindicar direitos e lutar pela liberdade dos que sofriam a opressão.

Em 1941, a seca tomou conta de quase todas as ilhas de Cabo Verde. Essa seca empobreceu as terras cabo-verdianas, resultando no desaparecimento de vegetação e causando a morte de muitas pessoas. Diante da realidade das secas em Cabo Verde, Amílcar Cabral, que mostrava aptidão para a literatura e a sociologia, optou pela engenharia agrônoma, com intuito de mudar a situação do arquipélago, que não despertava nenhuma responsabilidade por parte das autoridades portuguesas (ORAMAS, 2014, p.32). Ainda na adolescência, o menino, que se tornaria o grande líder guineense, mostrava a sua preocupação em mudar os rumos da história da sua terra, através da sua formação profissional.

Depois de ter percebido o esgotamento[45] das possibilidades de debate na Casa de Estudantes de Império, ele mesmo organizou e criou um centro de estudos africanos, onde se discutiam vários temas em prol do entendimento do homem negro na diáspora enquanto ser social. Além disso, Cabral dirigia um programa cultural para a emissora Rádio de Cabo Verde, palestrando e transmitindo, assim, seus conhecimentos sobre as origens do empobrecimento da terra e levantando questões ligadas ao passado de escravidão dos africanos. Infelizmente, esse programa foi interrompido pelas autoridades portuguesas, que entenderam a iniciativa como contrária aos seus interesses. Pouco a pouco, como aponta Oramas, Cabral “vai sendo conhecido pelos seus escritos, pela sua poesia, pelas suas leituras, pelas coisas que aprecia” (ORAMAS, 2014, p.38).

Uma vez que a nossa geração não conhece minimamente a história do nosso país, entrelaçada à história do próprio Amílcar Cabral, cumpre aqui também evidenciarmos os muitos aspectos de sua figura emblemática e as contribuições dadas no processo de evolução política do continente africano. Nesse sentido, vale lembrar que a figura de Amílcar Cabral como um líder intelectual contínua a apresentar grande complexidade e constitui-se de várias faces, desde o seu nascimento até a sua morte em Conacry. Como nos lembra Kwame Anthony Appiah, “a situação do intelectual africano é tão complexa e multifacetada quanto pode um ser humano enfrentar em nossa época” (APPIAH, 1997, p.15). Embora a trajetória de Cabral tenha dado margem a muitas desconfianças em relação aos privilégios dados aos cabo-verdianos, enquanto presidente do partido, sabemos que ele usou a sua inteligência para estabelecer pontes para dignificar o modo de viver tanto dos guineenses quanto dos cabo-verdianos.

Amílcar Cabral tinha muitos motivos para não se preocupar com o sistema colonialista implantado na então Guiné Portuguesa. Em primeiro lugar, ele possuía uma formação superior, que o colocava na posição dos assimilados. Além de gozar de grandes privilégios, Cabral vivia em Lisboa, distante da opressão colonial e reconhecido como intelectual no seio dos colonizadores. No entanto, em 1952, quando decidiu voltar à Guiné, não ambicionava ter uma posição boa no serviço colonial nem ser visto como assimilado. Cabral voltou à África como agrônomo, disputou um cargo e o conquistou; mas o sentimento maior que o possuía era o desejo de ver homens livres da escravidão e da tortura. Cabral não enxergava somente um lado de uma moeda. Sentia que todos os homens mereciam ser livres e entendia, na época, que a sua contribuição maior seria lutar para o fim do colonialismo, mesmo que a sua vida estivesse em perigo.

A intelectualidade de Amílcar como líder partidário inspirou outros grandes líderes no mundo. Contudo, infelizmente, Cabral não deixou herdeiros ideológicos no PAIGC. O partido que comandou, antes e durante a luta armada, carece até hoje de uma liderança – que envolva o espírito de unidade e luta – como ele pregava no ‘mato’. Quase todos os presidentes do PAIGC, desde a morte de Cabral até os nossos dias, tiveram grandes problemas de liderança.

Hoje, essa escassez de lideranças resultou na divisão em duas alas no partido (os quinzes deputados que saíram do PAIGC e fundaram o MADEM-G15 – liderado por Braima Camará). Esse novo partido foi criado por um grupo de dissidentes do PAIGC e tornou-se o segundo partido com maior número de deputados no parlamento guineense nas eleições legislativas de 10 de março de 2019. O que se pode ver, hoje em dia, é a divisão e discursos de ódio no seio do partido.

Regressando ao passado histórico do país, precisamos reconhecer que o equilíbrio e a intelectualidade de Amílcar Cabral no exercício de liderança do PAIGC – por mais que os conflitos étnicos e raciais no partido se estendessem – contribuíam, muitas vezes, para a resolução de soluções mediante as discórdias, embora a reconciliação parecesse distante.

Muitos sociólogos, tanto africanos como europeus, têm trabalhos que debatem a sua visão revolucionária. Nós, guineenses, assassinamos Cabral, e continuamos a assassiná-lo quando o ignoramos e deixamos de compartilhar as suas ideias acerca do nosso mundo. A história política de Cabral estará sempre ligada à história do nosso povo, apesar de Cabral ter saído da Guiné-Bissau ainda criança, voltando somente depois dos dezenove anos (MENDY, 2012. p.22).

Como muitos dos seus colegas revolucionários da CEI, em Lisboa, Cabral concluiu que a luta armada dava sentido à vida dos africanos. Nesse aspecto, suas ideias alinham-se às de outras grandes figuras da África que lutaram contra a presença colonial no continente africano, como Nelson Mandela, Agostinho Neto e Patrice Lumumba, entre outros. De fato, todos eles, apesar de terem histórias de lutas diferentes, lutavam pelo fim da exclusão racial e de classe. Resta-nos entender que, apesar de esquecido pelas novas gerações, o pensamento de Cabral foi fundamental para a construção da identidade do povo guineense e de Cabo Verde.

A defesa de Amílcar Cabral na luta armada girava em torno das hostilidades constantes praticadas pelos colonizadores europeus. Cabral pautava seu discurso na recuperação da terra e era completamente contra o espírito de desumanização do colonialismo. Como se observa em suas palavras: "De nada serve libertar uma região, se as pessoas dessa região são deixadas sem as necessidades básicas da vida" (CABRAL, p.152, apud NZONGOLA, 2012, p.110).

Após a independência do país, os guineenses criaram muitas expectativas em relação a uma vida mais digna. Proclamaram a independência na esperança de um novo estado que iria proporcionar novas oportunidades e direitos igualitários para todos. Infelizmente:

Essas esperanças foram desfeitas pelo Estado e pelos governantes pós-coloniais. Infelizmente, os líderes do movimento nacionalista tinham expressado um compromisso com a democracia, o desenvolvimento econômico e a solidariedade pan-africanista. Quando começaram a lidar com as realidades práticas da governança, tornaram-se mais interessados  em defender os seus interesses egoístas de classe, cuja satisfação exigia recurso aos métodos autoritários do poder, a corrupção e o enriquecimento em  grande escala, bem como a promoção do nacionalismo territorial em vez do pan-africanismo e, ainda, do tribalismo em vez da unidade nacional (NZONGOLA-NTALAJA, 2012, p.114).

 

Já se aproxima quase meio século da sua morte. Cabral foi assassinado a tiros pelos próprios companheiros de luta, na noite de 20 de janeiro de 1973, aos 48 anos. Nessa noite, ele foi surpreendido por um grupo de homens armados. Mas, quem disparou o tiro, apagando toda a história e ambição de vida de Amílcar Cabral, foi Inocêncio Kani, um dos grandes nomes do PAIGC na época colonial. Amílcar Cabral, com a sua morte, deixou para trás o sonho de unir dois países, um sonho de ver a independência dos homens acorrentados e torturados por cipais[46]. Sua morte continua a ser um mistério. Até hoje não foi revelado o nome do mandante. José Pedro Castanheira, jornalista, de origem cabo-verdiana, insiste em se debruçar sobre assunto no livro: Quem matou Amílcar Cabral? De fato, quem matou Cabral matou todos os projetos que, com muita coragem, ele havia começado. Quem matou Cabral é cúmplice de todos os problemas e crises políticas e econômicas, das quais o país ainda não conseguiu se libertar.

Amílcar Cabral não foi somente um grande líder, foi um grande intectual, um homem de cultura com uma visão política extraordinária que expandiu a sua personalidade e se tornou uma figura mundial, que orgulhou muito os povos de Guiné-Bissau e de Cabo Verde. O secretário-geral do PAIGC, como era chamado durante a luta armada, tinha um discurso político muito avançado, que provava um amadurecimento inquestionável e ciente da sua convicção revolucionária.  Assim pronuncia-se Oscar Oramas ao seu respeito:

Amílcar Cabral tem o valor do exemplo e a sua vida e obra reclamam, não só serem reconhecidas, mas também estudadas como referência de quem contribuiu de maneira decisiva para a libertação dos povos sob dominação colonial no Continente africano, particularmente os subjugados por Portugal, procurando que os filhos desses países tivessem lugar reconhecido na civilização universal (ORAMAS, 2014, p.26).

 

“As crianças são flores da nossa luta e a razão do nosso combate”, essa é uma das frases mais conhecidas de Amílcar Cabral. De fato, ele não só se preocupava com a questão política, mas voltava-se intensamente para o social. Logo nos primeiros anos da luta armada, criou uma escola em Conacry e um internato, na região de Cubucaré, para formação dos filhos de guerrilheiros, a fim de educá-los a terem consciência da realidade colonial (ORAMAS, 2014, p. 87).

Cabral era seguro nas suas convicções revolucionárias. Seus discursos demonstravam a certeza de que lutava para a liberdade total da África. Era um homem generoso, amável, culto, grande apreciador de livros e, acima de tudo, uma pessoa que não se deixou calar. Em vida, escreveu poesias, contos, textos políticos, artigos sobre literatura, agronomia e sociologia. (ORAMAS, 2014, p. 171). Ao longo de sua vida, demonstrou, vezes sem conta, a necessidade de partilhar o conhecimento. E entendeu, claramente, que o conhecimento é algo fundamental e básico para o homem. É o que podemos observar na sua própria fala:

Obrigar cada responsável a melhorar cada dia os seus conhecimentos, a sua cultura e a sua formação política. Persuadir cada um deles, que nenhum pode saber sem aprender e que o mais ignorante é aquele que sabe sem nunca ter aprendido. Aprender na vida, aprender acerca do nosso povo, nos livros e através da experiência de outros, aprender sempre (ORAMAS, 2014, p. 175).

 

A insatisfação é uma das palavras que retrata alguns períodos da história do PAIGC, pois, ao longo da sua fundação, o partido não só deparou-se com os inúmeros problemas da Guiné-Bissau – com uma população que não ultrapassa dois milhões de habitantes, um dos países mais pobres do mundo, com altíssima taxa de analfabetismo – como também precisou enfrentar os próprios conflitos dentro do partido, como a divisão de classe e raça, e a morte do próprio Amílcar Cabral, além de sucessivas divergências políticas que resultaram em golpes de Estados no país.

A Guiné-Bissau resistiu duramente a colonização, desde 1446, data que marca a presença dos europeus no território guineense. Mas sabemos que a colonização, de fato, se inicia a partir do final do século XIX, especialmente, a partir de 1915, quando os portugueses começam a alargar as suas conquistas para todas as regiões cobiçadas do país. Amílcar Cabral, herói da pátria guineense, nasceria nove anos depois dessa conquista integral do território guineense pelos portugueses. Em 1918, já se havia instalado em Bolama (capital na época) uma secretaria de negócios indígenas, com finalidade de aumentar a produção e a mão de obra barata. Segundo Peter Mendy, os europeus viam nos africanos uma força física extraordinária e invejável. E era dessa resistência – que os africanos possuíam de sobra – que os europeus sentiam falta (MENDY, 2012, p.18).

Vale a pena voltar ao passado colonial da Guiné-Bissau para compreender a sua história e procurar conhecer os caminhos que levaram à criação do PAIGC, fundado no dia 19 de setembro de 1956 por Amílcar Cabral e mais cinco dos seus companheiros de luta. Em 1925, a Guiné Portuguesa era considerada uma colônia "vazia", por diversas razões políticas e sociais apontadas pelos portugueses, entre as quais uma infraestrutura urbana péssima, ausência de serviços básicos nas áreas de saúde, educação ou demais aspectos sociais. Essas eram apenas algumas das razões que levaram algumas das autoridades coloniais se concentrarem em Cabo Verde, considerado, na época, colônia de destaque entre as demais colônias do Império. (MENDY, 2012, p. 20). Desse modo, os cabo-verdianos, na então Guiné Portuguesa, ocupavam postos chaves de administração. Como nos esclarece Peter Mendy:

Em 1925, os cabo-verdianos  já constituíam 27% dos administradores (o equivalente dos chefes de circo conscription da França colonial e, grosso modo, correspondente aos comissários distritais coloniais responsáveis pela introdução das políticas coloniais de Portugal (MENDY, 2012, p.20)

 

Continua Peter MENDY a esclarecer o colonialismo na Guiné: 

Em contato muito estreito com os colonizados, esses funcionários coloniais exerciam poderes enormes, contra os quais os " indígenas " não tinham recursos. Em suas áreas de jurisdição, sobretudo no interior, onde vivia a imensa maioria dos colonizados, eram responsáveis, inter alia, pela manutenção da "ordem e tranquilidade públicas" , pela coleta dos odiados impostos coloniais, pelo recrutamento forçado de trabalho gratuito para construção e manutenção de estradas , pontes e hospitais para garantir a submissão e o respeito absoluto, os "indígenas" rebeldes eram punidos sumariamente , sendo a palmatória a "vara corretiva" de preferência. À disposição deles estava uma força cruel paramilitar conhecida como cipais, que prendiam e administravam as punições, e aterrorizavam a população rural em geral (MENDY, 2012, p. 20).

 

O espírito de violência demonstrado nas atitudes selvagens dos cipais era uma das grandes preocupações de Cabral. Ao combater o fascismo, ele esperava pôr fim a esse regime brutal, que estabeleceu divisão de classe e de raça num espaço que Amílcar pretendia unificar. Com os cabo-verdianos nas posições mais altas do serviço colonial, estimulou-se o espírito de ódio e de indignação dos guineenses nativos, o que mais tarde teria consequências desastrosas no país (AUGEL, 2007).

A Polícia Internacional para Defesa de Estado e os cipais castigavam a população de forma desumana; muitas vezes, até a morte. Na época, não havia liberdade de expressão, muito menos descanso para inúmeras horas de trabalho duro sob a vigia de cipaios durante dia e noite. Todo esse quadro fez com que Amílcar Cabral se empenhasse na luta pelo fim da opressão e da tortura estabelecida no território guineense por ordem dos colonialistas portugueses. Peter Mendy observou com maturidade esse tempo cruel e a revolta de Amílcar: 

A natureza brutal do domínio colonial português na Guiné-Bissau, assim como em Cabo Verde, revoltou Amílcar Cabral e lhe deu uma determinação maior para lutar pela destruição do colonialismo: ‘Vi gente morrer de fome em Cabo Verde e vi gente morrer a pauladas na Guiné (com surras, pontapés e trabalho forçado), entende? Essa é a razão da minha revolta’(MENDY, 2012, p. 21).

 

Podemos afirmar, sem nenhum exagero, que Amílcar Cabral foi um dos mais valentes e corajosos homens de seu tempo, pela ousadia de criar um partido com o objetivo de lutar contra o domínio imperialista, implantado há séculos. Cabral ousou, ao criar, em 1956 (19 de setembro), o PAIGC, e ao unir dois países para lutar por uma causa. O sistema político português havia criado, no meio desses dois povos, o espírito de ódio. Peter Mendy discute essa divisão durante a colonização: “A Guiné-Bissau em que Amílcar Cabral nasceu era também um país dividido, de civilizados e não civilizados, de assimilados e de indígenas ou gentios; um mundo dividido quanto à cor em brancos, mestiços e negros”. (MENDY, 2012, p. 21)

Em 1953, Amílcar Lopes Cabral foi contratado como agrônomo de segunda classe ao serviço da colônia portuguesa. Nesse posto, teve o privilégio de viajar a diferentes regiões do país, aproveitando essas viagens como estratégia da sua política ao combate do fascismo no país. (MENDY, 2012, p. 24). A partir das viagens feitas aos vários pontos do país, Cabral percebeu o nível de descontentamento da população rural e urbana em relação à opressão colonial portuguesa. Em 1954, dois anos antes da fundação de PAIGC, Cabral não hesitou em criar um clube de futebol que reunia duas classes – que o colonialismo havia separado: assimilados e não assimilados, ou gentios.

O clube foi criado com a finalidade de incutir na mente da população a ideia de uma luta de libertação. Logo, foi rapidamente fechado por uma ordem dos chefes coloniais, após terem entendido a real intenção dos seus responsáveis. O que levou Amílcar a ser expulso imediatamente do país, tendo o direito de visitar os familiares apenas uma vez por ano: “Cabral, evidentemente, foi impedido de obter residência permanente na Guiné, e só teve autorização para visitar a mãe e família uma vez por ano” (MENDY, 2012, p.25).

Numa de suas viagens de volta à Guiné Bissau, Cabral terminou por fundar o PAIGC, em 19 de setembro de 1956, ao lado de alguns nomes, que abraçavam a mesma visão, como Aristides Pereira, Luís Cabral, Júlio de Almeida, Fernando Fortes e Elisée Turpin. O PAIGC foi um partido de grande relevância para a história e a política da Guiné-Bissau, tendo lutado arduamente para independência de dois países. Como bem lembra Peter Mendy, foi durante uma dessas visitas autorizadas à Guiné Portuguesa que Cabral fundou o Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, PAIGC (MENDY, 2012, p. 25).

A criação do partido foi um êxito para Amílcar Cabral, assim como para os demais companheiros que partilhavam o mesmo espírito revolucionário. Porém, Cabral, como mentor de ideias libertárias, tinha pela frente vários desafios capazes de dificultar as suas ideias políticas. Havia problemas étnicos e de classe entre os nativos guineenses e um grupo menor de cabo-verdianos, o que se constituía como um grande quebra-cabeça para Cabral. Os cabo-verdianos eram a minoria branca aos olhos dos colonos; eram vistos como ‘civilizados’. Do outro lado, havia uma maioria negra – que os colonos chamavam de ‘gentios’. Como sublinhou Mendy:

Na década de 1950, a chamada população “civilizada” contava 8.320 indivíduos - mero 1,6% da população total. Eram racialmente identificados como brancos, 27%; mestiços (cuja imensa maioria era composta de cabo-verdianos), 55%; e negros, 18%. Simplesmente com uma pena, as autoridades de Lisboa decretavam “não civilizadas” as populações indígenas da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, mas não de cabo verde (MENDY, 2012, p. 21).

Cabral tinha percebido a demora em mobilizar o povo para pegar nas armas para lutar em defesa da sua cidadania e bem-estar de todos eles. O massacre de Pindjiguiti – que aconteceu a 3 de agosto de 1959, impulsionou e despertou a população a por fim à violência e à barbaridade impostas àquela colônia lusitana. No ano 1959, já mencionado, dia 3 de agosto, os estivadores e os marinheiros de porto de Pindjiguiti exigiram o aumento dos seus salários e melhores condições de vida. A resposta dos policiais durante essa manifestação foi brutal. O autor Peter Mendy lembra esse episódio:

No dia 3 de agosto de 1959, os descontentes estivadores e marinheiros mercantes que entraram em greve por questões mais mundanas de aumento de salários e melhores condições de trabalho foram obrigados a voltar ao trabalho literalmente à bala, o que matou cerca de cinquenta grevistas e deixou um número muito maior de feridos. O massacre de pindjiguiti, sobre o qual se fez um incrível silêncio oficial, tornou-se um ponto crítico vital, quando o PAIGC tomou a decisão crítica de mudar de rumo e enveredar pelo caminho da libertação nacional  (MENDY, 2012, p. 27).

Continua o mesmo autor a respeito:

O ataque à guarnição portuguesa em Tite, no sul da Guiné-Bissau, deu início à adiada luta armada de libertação, que foi, sem dúvida, o “o melhor momento” na história dos povos colonizados da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Foi uma guerra em que guineenses e cabo-verdianos, apesar dos antagonismos gerados pela condição colonial e, no contexto de uma luta armada de libertação, da hostilidade entre eles promovida pela mesma condição, combateram e morreram bravamente, lada a lado, contra um inimigo armado até os dentes com as mais recentes armas convencionais e teimosamente determinados a defender o statu quo colonial (MENDY, 2012, p. 28).

Após a fundação do PAIGC, Amílcar Cabral se ausentava, muitas vezes, do país em compromissos políticos que garantissem a sustentação do Partido. Porém, essas ausências incomodavam bastante algumas chefias militares do PAIGC, que já se mostravam revoltadas pela forma como Cabral conduzia a luta. Contudo, ele tinha seus motivos, pois precisava manter a cooperação com o exterior e pedir ajuda necessária para enfrentar o inimigo. Foi numa dessas viagens, em 1956, precisamente no mês de dezembro, que Amílcar participou ativamente na seleção dos joves militantes angolanos do MPLA, para futuros treinamentos em diversas áreas militares (ORAMAS, 2014, p.65). Reparemos que o herói da nacionalidade guineense não só se preocupava com a presença europeia nos espaços coloniais com os quais tinha ligação, mas inquietava-se com a opressão portuguesa em toda África.

A cooperação com os países estrangeiros, como a China, a União Soviética e a Guiné Conacry facilitou muito a resistência do PAIGC. Os portugueses, cientes dos seus fracassos em combater a resistência dos nativos, aplicararam a política de aterrorizar as populações locais, tanto nas cidades, como nas zonas rurais. Algumas dessas práticas eram detenções arbitrárias dos militantes do PAIGC e as torturas permanentes efetuadas pela PIDE (ORAMAS, 2014, p.82). Apesar dessas práticas de hostilidade, o PAIGC crescia e cada vez mais se tornava um partido de força e resistência, unido no mesmo ideal da luta. Foi nesse espírito que, em 1964, logo nos primeiros anos de luta, o PAIGC conseguiu vencer a batalha da Ilha de Como. Sobre esse episódio, Oscar Oramas comenta: “Em 1964, de janeiro a março, tem lugar a batalha da Ilha de Como, constituindo a vitória uma verdadeira prova para as forças libertadoras que tomam consciência da sua capacidade militar” (ORAMAS, 2014, p.83). Além disso, o Partido abriu novas frentes de luta, que vão lhe permitir alargar mais espaços de combate ao fascismo português; já em cinco anos, o PAIGC havia dominado mais de metade da área total.

Como dissemos anteriormente, durante o processo de luta de libertação o PAIGC recebera ajuda das forças estrangeiras, entre elas, a China, Guiné Conacry[47], União Soviética e a força cubana. Esta última, não só ajudara com materiais de guerras, na alimentação e medicamentos, mas também participara, lado a lado, nas frentes das batalhas com os combatentesdo PAIGC, facilitando ataques e reduzindo as baixas nas retiradas do combate. Assim se expressa Oscar Oramas, ressaltando a contribuição cubana na luta de libertação nacional:

Não se pode negar a importante contribuição que significou a ajuda soviética, mas deve ficar claro que jamais um soviético passou para além de Boké, na República da Guiné, e que os únicos estrangeiros que participaram, diretamente, nas acções da luta de libertação, ombro a ombro com os guerrilheiros guineenses, foram os cubanos (ORAMAS, 2014, p. 116).

A luta de independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde teve início a 23 de janeiro de 1963. Foram onze anos de luta armada para conquista da tão sonhada independência. O PAIGC recebeu apoio moral, assim como apoio logístico e de armamentos da parte dos países socialistas, principalmente da antiga União Soviética e de Cuba. A luta foi sangrenta.

Amílcar Lopes Cabral, protagonista de toda história de luta e do seu partido, não comemorou junto com os companheiros a liberdade dos povos de Guiné-Bissau e de Cabo Verde. O líder guineense morreu no dia 20 de janeiro de 1973. Depois da sua morte, Luís Almeida Cabral, primo de sangue, assumiu a liderança do PAIGC. Após a independência do país, ele se tornou o primeiro presidente. O espírito revolucionário de Cabral, sem dúvida, inspirou gerações e gerações. E o seu nome será lembrado como patrimônio da nação guineense “a vida de Amílcar já se tornara história” (LOPES, 2012, p. 10).

3.1. Poesia de combate - nomes e destaques

Durante a luta armada, a poesia serviu para amenizar a dor e resistir à opressão colonial. Nesse período, destacamos os seguintes nomes: Amílcar Lopes Cabral, Vasco Cabral e Antônio Baticã Ferreira, pela ousadia que tiveram em expressar seus sentimentos de angústia, pautando como melhor caminho a liberdade para um povo oprimido.

Esses três nomes marcaram esse período de resistência à violência e repressão social e racial. Por isso, são considerados poetas da geração de independentistas, pela força que demonstraram nas palavras em defesa do povo guineense. Como ressaltam Amorim & Mariana:

Depois de 1945, surge na Guiné uma literatura de combate que denunciava a dominação e a miséria a que os negros estavam submetidos em suas terras e os incitava à libertação e a valorização da cultura negra. Entre os escritores dessa época, destaca-se Vasco Cabral, António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral (AMORIM & MARIANA, 2012, p. 39).

 

Apesar de o país ter a sua primeira publicação literária em 1963, de autoria de Carlos Semedo, desde 1940, despontava a poesia nos meios guineenses, erguendo-se, já nessa década, como instrumento de resistência aos colonos portugueses.

Como sabemos, a presença europeia na África, de modo geral, tentou matar as tradições e costumes dos africanos, promovendo a implantação das tradições ocidentais, entendendo que as culturas europeias seriam superiores às do continente africanos. Mas, houve sempre resistência, na Guiné-Bissau, em um território pequeno e uma população que não ultrapassava quinhentos mil habitantes na época. Essa resistência dos guineenses resultou na luta armada, que durou onze anos.

O ano de 1446 marcou o descobrimento do território guineense. Entretanto, vale ressaltar que, antes da presença portuguesa, a Guiné-Bissau já era território marcado com grandes diversidades étnicas e culturais de diferentes partes da África. A colonização portuguesa na Guiné-Bissau trouxe mais uma divisão entre os guineenses: assimilados e não assimilados. Assimilados, como apontamos anteriormente, eram os que optavam pela cultura portuguesa, adotando o modo de vida dos brancos, em função de certos privilégios, negando a sua própria cultura e as suas origens. Já os não assimilados, ou indígenas em outras expressões, eram os que não adotavam os costumes da “civilização europeia”; eram considerados ‘gentios’.

As grandes vozes poéticas desse tempo marcaram a luta contra qualquer tipo de opressão aos colonizadores. A maioria dos poemas tem um valor significativo de luta, pelas figuras de linguagem que carregam. São poemas que desejam despertar a coragem e a força de se lutar por um ideal, rompendo com o silêncio do povo adormecido.

Vamos apresentar brevemente a valiosa contribuição poética de cada um desses poetas combatentes – que transformaram suas palavras em armas de combate. Como veremos adiante, os versos desses escritores tornaram claro o quanto as palavras podem servir aos homens para reivindicar seus direitos enquanto seres sociais. Todos os poemas dessa fase são de temáticas de luta, de fortalecimento e de consolo. Como Cabral dizia: “O que quer o homem africano é pensar com sua própria cabeça e andar com seus próprios pés”. Cabral argumentava sempre nos seus discursos que o combatente não só é aquele que pegou a arma, pois havia várias frentes de luta. A poesia era uma das formas de lutar contra opressão colonial.

Amílcar Cabral: a voz de resistência.

Apesar de ser pouco conhecido como poeta, os versos de Cabral, além de apresentarem temática de revolução e de cunho político, mostram que ele foi um poeta expressivo do seu tempo. Observemos a grandeza desse autor e líder intelectual no poema “Ilha”, datado de 1945:

Tu vives mãe adormecida  

nua e esquecida,

seca,

fustigada pelos ventos,

ao som de músicas sem música

das águas que nos prendem… 

 

Ilha: 

teus montes e teus vales 

não sentiram passar os tempos 

e ficaram no mundo dos teus sonhos 

os sonhos dos teus filhos  

a clamar aos ventos que passam, 

e às aves que voam, livres, 

as tuas ânsias![48]

 

Os seus poemas paracem surgir na vontade de amenizar o sofrimento diante da violência das autoridades portuguesas. Há de se lembrar, também, que a palavra era o grande diferencial de Cabral no meio dos colegas. Sua poesia, apesar de pouco conhecida, sugere o desejo de libertar almas presas, tirando-as do fundo do abismo do jugo colonial. Assim sendo, a poesia cabralina mostra-se como uma luz que parece querer confortar uma fase de profunda dor.

A maioria dos poemas de Amílcar Cabral nasce em contextos de náuseas provocadas pela colonização. Neles, enfatiza-se sempre a liberdade do homem negro no seu próprio chão. Essa temática da liberdade domina parte dos versos desse grande poeta. Se observarmos a marca que a colonização implantou no continente africano, podemos perceber que as poesias cabralinas foram naturalmente humanas, revelando-nos o quanto a palavra tem força para lutar contra as injustiças e todas as formas de discriminação vividas pelo povo guineense durante séculos.

Cabral usou a sua voz e com ela contribuiu bastante para dar melhores condições de vida ao seu povo. A liberdade e a revolução andam juntas, na medida em que as duas se abraçam em único ideal. E a revolução não se faz somente com as palavras. Na expressão de Carlos Lopes: “Liberdade, fraternidade e igualdade são palavras vazias para as pessoas se não significam uma melhoria real em suas vidas” (LOPES, 2012, p. 8). A poesia era fundamental para Cabral, mas também era fundamental pegar nas armas e lutar para independência do seu povo. A realidade dos fatos da época induzia todos a pegar em armas, para que a liberdade tivesse significado na vida das pessoas.

A história de Cabral uniu duas nações: a Guiné-Bissau, terra onde nasceu e viveu por mais tempo na sua vida; e Cabo Verde, Ilha de São Vicente, onde estudou nos primeiros anos de ensino primário e secundário. Como observa Russell Hamilton:

Os poemas do grande estadista africano e pai da independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, onde os seus pais nasceram, eram essencialmente inofensivos aos olhos das autoridades colonialistas. Apesar disso e da falta de primores estéticos, os poemas de Amílcar Cabral têm grande valor histórico na delineação de uma literatura guineense incipiente. (HAMILTON, 2006, p. XXIX-XXX).

Os poemas de Amílcar Cabral expressam sentimentos de um grito coletivo apesar de, algumas vezes, haver falta de primores estéticos, como sugere Hamilton (2006). É o que observamos no fragmento da poesia intitulada ‘Poema’:

Quem é que não se lembra

Daquele grito que parecia trovão?!

– É que ontem

Soltei meu grito de revolta.

Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra,

Atravessou os mares e os oceanos,

Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,

Não respeitou fronteiras

E fez vibrar meu peito [...].[49]

 

Vale refletirmos, no entanto, que a poesia cabralina surge na emergência de luta contra o regime fascista no continente africano. Nas palavras de Mário César Lugarinho, “a poesia é um ato político que ocorre por meio de uma ação mágica... O poeta põe-se a mercê de si e de seu grupo social” (LUGARINHO, 2006, p.165). Logo, os seus poemas vão muito além dos seus sentimentos pessoais, na medida em que aproximam o povo dos seus ideais revolucionários, para uma luta em defesa da liberdade e de bem-estar dos homens.

A poesia era, para o poeta, liberdade, liberdade transformada em palavras para confrontar o inimigo, como podemos observar no poema A minha poesia Sou, “não te escondas nas grutas de meu ser/ não fujas à vida/ quebrar as grades invisíveis da minha prisão/abre de par em par as portas do meu ser.”[50] A poesia seria ele, a poesia seria o seu povo, as palavras os instrumentos de luta contra injustiças e opressão social. O poeta sente forças nas palavras, nelas sente a coragem de quebrar “as grades invisíveis da sua prisão”. A palavra era força brutal para sarar as feridas da alma, permitindo novos caminhos para a ‘caravana passar’, e sonhar na certeza da independência do seu país. A indignação observada configura-se em projeto literário circunstancial, dando representatividade a várias vozes em uma só fala, como percebemos no poema No fundo de mim mesmo:

No fundo de mim mesmo

eu sinto qualquer coisa que fere minha carne,

que me dilacera e tortura …

… qualquer coisa estranha (talvez seja ilusão),

qualquer coisa estranha que eu tenho não sei onde

que faz sangrar meu corpo,

que faz sangrar também

a Humanidade inteira!

Sangue.

Sangue escaldante pingando gota a gota

no íntimo de mim mesmo,

na taça inesgotável das minhas esperanças!

Luta tremenda, esta luta do Homem:

E beberei de novo – sempre, sempre, sempre -

este sangue não sangue, que escorre do meu corpo,

este sangue invisível – que é talvez a Vida![51]

Paulo Freire, grande intelectual brasileiro, conhecedor com muita profundeza das realidades históricas e sociais guineenses, afirma no seu livro Pedagogia da autonomia: saberes Necessários à Prática Educativa.  “Qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar. A boniteza de ser gente se acha, entre outras coisas, nessa possibilidade e nesse dever de brigar” (FREIRE, Paulo, 2008, p. 59).

Esse texto se enquadra muito bem com a visão crítica e revolucionária de Amílcar Cabral. Ele era ciente dos condicionamentos a enfrentar, contra um sistema em domínio de tudo. Mas a sua alma tinha sede de lutar a favor de justiça e de direitos igualitários para todo continente africano. Cabral vê o seu tempo e nele aposta na esperança de dias melhores. Como bem afirma Lugarinho: ” a poesia é magia, língua, utopia, mito, estética e política” (LUGARTINHO, 2006, p.165). 

Hoje, infelizmente, o cenário político e social guineense apresenta uma discórdia absoluta. Diante disso, pensamos nos poemas que acabamos de citar e no seu valor de despertarem as consciências e nos levarem a refletir sobre a importância da solidariedade na construção social.

 

Vasco Cabral: o poeta da primavera.

Dificilmente fazer um panorama sobre o percurso da literatura da Guiné-Bissau sem no qual não passar pela obra literária de Vasco Cabral, um poeta que pertenceu a mais de dois períodos literários guineenses, um poeta cuja coragem ultrapassa as fronteiras.  Depois da independência do país, Vasco Cabral assumiu a pasta de Ministro da Economia e das Finanças. Ele, também, foi fundador da União dos Escritores Guineenses. Possui poemas publicados nas diversas antologias do país e no exterior. É autor da famosa obra A Luta é minha primavera. Apesar de ter o mesmo sobrenome de Amílcar Cabral, não há nenhum laço de parentesco entre esses dois revolucionários. O sobrenome Cabral é uma mera coincidência. Como observa Hamilton:

Vasco Cabral (n.1926), um co-militante mas não um parente de Amílcar Cabral, também escreveu, nos anos cinquenta e sessenta, vários poemas, abertamente combativos, que ficaram inéditos até depois da independência, quando quase todos saíram impressos num volume com o sugestivo título de A luta é a minha primavera. (1981) (RUSSEL, 2006, p. XXX).

Vasco Cabral nasceu em 23 de agosto de 1926, em Farim, Guiné-Bissau, e faleceu em 24 de agosto de 2015.  Entre os poetas do seu tempo, foi quem mais se destacou, tendo em conta a sua ousadia nas palavras e a sua postura política revolucionária. Vasco Cabral, assim como Amílcar Cabral e António Baticã Ferreira reevindificaram os direitos do homem negro e a sua liberdade de expressão.

Na literatura, Vasco Cabral, revelou-se, muito cedo, como um dos nomes de peso – que usava a poesia como instrumento de combate contra a opressão dos homens negros na então Guiné portuguesa. Engana-se quem pensa que o poeta só expressava o seu sentimento íntimo. Vasco deu grande a contribuição para literatura guineense, escrevendo no seu estilo para expressar o sentimento coletivo.

Vasco Cabral, como demais colegas de luta, embala no peito a sua dor e a esperança de encontrar sossego para o seu povo. Apesar dos seus poemas serem publicados só a partir dos anos 80, desde a sua prisão, em 1953, ainda jovem, seus versos já descreviam o inconformismo com a situação colonial no país. A maioria dos textos do autor que compõem a obra A luta é minha primavera, data dos anos 1950, quando o autor era ainda estudante de Ciências Econômicas da Universidade Técnica de Lisboa. Após a sua morte, foi reconhecido pelo governo Português em homenagem enviada ao seu partido, o PAIGC, como “combatente anticolonialista e antifascista desde muito jovem e figura destacada do povo guineense pela conquista da independência e de edificação da República da Guiné-Bissau”.[52]

Grande parte dos poemas de Vasco Cabral tem como tema a revolta do homem colonizado; são versos que apontam, no fundo, a esperança de dias melhores. Os seus poemas se originam do desejo de transformar a dor nascida pela colonização europeia na África. Esse desejo é manifestado no poema “desabafo”, que a seguir transcrevemos:

Oh! Que bom seria transformar

Os falcões em pombas

E fazer as pombas sorrirem na Primavera

Oh! Como gostaria eu

De beijar na boca a madrugada

E afagar com os meus dedos

os cabelos do futuro

para que a paz e a liberdade

fossem universais.[53]

 

Ao lermos esse poema, somos obrigados a nos colocar no lugar do poeta: sonhar e ter desejo de transformar a noite em dia – e transformar tudo em nosso favor. “Oh! Como gostaria eu/De beijar na boca a madrugada/E afagar com os meus dedos/os cabelos do futuro/ Para que a paz e a liberdade/ Fossem Universais. O poeta expõe nos versos a triste condição desumana que a colonização a todo custo insistia em cultivar, com a intenção de explorar sempre o homem negro. Todos os versos do poema “desabafo” expressam essa realidade vivida na colonização, que, simplesmente, levou o poeta a desejar “transformar os falcões em pombas/ E fazer as pombas sorrirem na primavera”. Chama a nossa atenção a metáfora de “falcões” e “pombas” nos versos desse pequeno poema.

Falcões são aves de características pequenas, geralmente de bico curto, porém, eles possuem movimentos rápidos com facilidade de voos longos. Os falcões são aves que gostam, por natureza, de ganhar a vida na captura dos alimentos. As pombas, muito diferente dos falcões, são alegorias da paz. Não têm facilidades para longos voos, porém são aves que possuem capacidade de localizar os ninhos, além de conseguirem detectar o barulho de longa distância.

Os falcões são, pelas características apontadas, nada mais, nada menos, que a imagem dos colonizadores na África – com espírito de prender o que não lhes pertence. Vasco Cabral critica, nos pequenos versos, a presença colonial na África, rejeitando a vida oprimida que a colonização implantou no continente. No espírito poético, o poeta aspira que a paz e a liberdade sejam universais, como apontam os últimos versos do poema.

A maioria dos poemas de Vasco Cabral é de cunho político, e neles demonstra-se o grande incômodo com a presença portuguesa, metaforizada de inúmeras maneiras na sua escrita, afim de desabafar a sua dor. Vejamos o poema “Anti-delação”, transcrito abaixo:

A noite veio,

disfarçada em dia,

e ofereceu-me a luz,

diáfana como a Aurora.

Mas eu disse que não.

Depois veio a serpente

disfarçada em virgem

e ofereceu-me os seios e os braços nus.

Mas eu disse que não.

Por fim veio Pilatos,

disfarçado em Cristo,

e numa voz humana e doce

disse: "se quiseres eu dou-te o paraíso

mas conta a tua história..."

 Mas eu disse que não,

que não, não, não!

E continuei um Homem!

E eles continuaram

os abutres do medo e do silêncio[54].

 

No poema acima, deparamos com as profundas inquietações do poeta. Vasco Cabral, através do eu-lírico, rejeita abominavelmente a presença europeia no território guineense, nega a luz do dia como aurora/ nega os seios e os braços nus da serpente (serpente é um ser estranho no contexto guineense – um espírito sagrado). Por fim, rejeita o paraíso em troca da sua história. O sujeito poético afirma que nada substitui por amor a sua pátria amada. A rejeição passa a servir, de certo modo, como marca da identidade e orgulho nacional.

Nesse sentido, o poeta reafirma, nos seus versos, a sua revolta contra a ditadura fascista de Salazar. Lutar com a escrita, assim como lutar com as armas. As formas de lutar caracterizam o sentido de vencer. Deste modo, o poeta resiste nas palavras, também, resiste com sua ideologia revolucionária – para que os homens sejam todos iguais. Observamos, ao longo do poema todo, as metáforas que apontam para a mentira, o disfarce e o engano, trazidos pelo sistema colonial. Tais práticas são patentes nas imagens da ‘noite’, de ‘Pilatos’ e da ‘serpente’, assim como a rejeição a essas práticas é demonstrada pelo eu lírico.

De tudo que já vimos até então sobre o autor, percebemos que, muito cedo, ele já se revelava como um dos grandes nomes do seu tempo, mostrando-se sempre disposto a lutar contra as ideias forjadas dos colonialistas e buscando conscientizar o povo em relação às injustiças e desgualdades. Vejamos o poema “Progresso”, no qual partilha conosco sua visão da vida como uma batalha:

Quantas vezes eu fico meditando

à hora em que há silêncio e tudo dorme

em como a Vida é uma batalha enorme

onde se uns perdem outros vão ganhando.[55]

 

As palavras de Vasco Cabral apresentam-nos um comprometimento de fidelidade com o seu povo. É como se cada verso do poeta fosse um flash perfeito da situação de angústia vivida na época, oferecendo-nos uma imagem extremamente profunda e viva da experiência do colonizado. Observemos as imagens do poema “Pindjiguiti”.

3 de agosto

1959

Bissau desperta inquieta

do sono da véspera.

Sopra o vento de morte

no cais de Pindjiguiti!

E de repente

o clarão dos relâmpagos

o ribombar dos travões.

O meu povo morre massacrado

No cais de Pindjiguiti!

Um clamor de vozes

ameaças e pragas

fulmina o espaço

num coro de impotência.

O meu povo morre massacrado

no cais de Pindjiguiti![56]

 

Neste poema, Vasco Cabral reveste-se de fogo poético, para libertar-se da dor profunda que se desprende dos cenários onde ocorreu o massacre de Pindjiguiti. O poeta assume um tom de voz necessária para a denúncia da crueldade dos colononizadores no chão guineense, manifestando a expressão do sentimento coletiva nos versos a seguir: Um clamor de vozes/ameaças e pragas/fulmina o espaço/ Num coro de impotência/ o meu povo morre massacrado/No cais de pindjiguiti [...] O poeta não cala. Como não ficou calado perante a situação em outros momentos da vida desumana – em que corria perigo, tornando-se prisioneiro por cincos anos. Assim foi sempre a sua poesia: “Um mar em revolta”. A revolta também se vê no poema abaixo. A revolta no seu sentido mais amplo:

Ricaço!

Porque chamas tu "canalha"

a essa pobre gente que trabalha?

Canalha?

Canalha és tu!

Que não tens as amarguras

nem o scalos e as mão duras[57]

dessa gente que trabalha[58].

 

A voz do poeta não se calou nunca perante os fatos. Se observarmos bem o poema ‘Pindjiguiti’, o poeta não se preocupou somente em denunciar a repressão do colonizador. Dirigindo-se ao outro lado, evoca um sentimento de despertar o povo – para dizer “um basta”. É o que sugerem os versos a seguir: “E de repente/o clarão dos relâmpagos/o ribombar dos travões”.

Os versos acima apontam a conscientização do povo guineense – principalmente dos marinheiros e estivadores do porto de Pindjiguiti, que reivindicavam seus direitos salariais e melhores condições de vida. Os marinheiros e estivadores rejeitaram o serviço da casa da Gouveia em uma greve que se prolongou por muitos dias – que resultou num massacre sangrento marcado com desgosto na história guineense. Não se sabe exatamente o número dos mortos e feridos desse massacre. Mas estimam-se mais setenta mortos e mais de cem feridos.

Seja como for, neste poema o colonizador transforma as águas do Pindjiguiti em sangue – as lágrimas de muitas famílias enlutadas são vistas no Pindjiguiti. Como descreveu Manuel Ferreira, no prefácio do livro Não Posso Adiar a Palavra, de autoria do poeta Hélder Proença:

Na fase em que se encontra a poesia guineense compreende-se que a urgência de fazer chegar a mensagem ao destinatário sobreleve outras preocupações. Não tardará, porém, que aqueles poetas em quem o grau de realização já vai além das promessas sintam a necessidade de experimentar, de aliar à militância ideológica, à vigilância revolucionária uma atenção mais funda à matéria de que se tece o processo comunicativo em que estão empenhados – a linguagem. Será no entendimento de que a revolução não passa ao lado desta, de que também ela se encontra sujeita a mutações semelhantes às que agitam o tecido social, que de promessas se passará a certezas. (PROENÇA, 19982, p. 9).

 

O poeta sugere que só a luta armada devolveria a esperança e a liberdade ao povo guineense. Com suas palavras, Vasco Cabral apontou caminhos para manter vivos os sonhos que, por muito tempo, foram silenciados.

 

António Baticã Ferreira: poeta da memória voltada à terra natal.

António Baticã Ferreira nasceu no dia 23 de agosto de 1939, em Canchungo, cidade que fica situada no norte do país. O poeta concluiu os estudos secundários em França – Paris. Obteve o diploma de medicina na Suíça. Por muito tempo, Baticã Ferreira exerceu a profissão de médico, em Portugal, na cidade de Lisboa. O poeta saiu muito cedo da Guiné-Bissau, mas as suas poesias revelam um profundo sentimento pela sua terra. Conta com várias publicações em antologias francesas e portuguesas.

A inquietação em relação ao colonialismo português e a saudade da terra natal são temáticas que norteiam a obra de António Baticã Ferreira. Os seus versos de inquietação e de saudade revelam-se como tentativas de aproximação do poeta da sua terra natal. Neste sentido, há que se lembrar de que tais marcas identitárias são características das construções poéticas do autor – que definem muito bem a experiência dos guineeense na diáspora – expressas na maioria dos seus versos.

Não sabemos a razão de Manuel Ferreira, um dos grandes estudiosos da literatura africana de língua portuguesa, ter escolhido António Baticã Ferreira como único participante da antologia temática de poesia africana no seu segundo volume. Manuel Ferreira, em um total de cento e trinta oito poetas participantes dessa antologia, apresentou-nos apenas um único poeta guineense (AUGEL, 2007, p.105). De fato, Baticã Ferreira foi um dos primeiros poetas a escrever um poema para um contexto típico africano, voltando-se sempre às lembranças da terra natal, com imagens quase sempre centradas no profundo inconformismo com o colonialismo.

De todos os textos que compõem seu discurso poético, destacamos a temática do espírito patriótico – apontada em vários trabalhos acadêmicos, e vista como um intuito de se debruçar sobre a questão de identidade e da formação da nação guineense. Essa temática espelha os sentimentos do poeta – pautando um discurso simbólico em que a pátria se torna a razão principal dos seus escritos, dando-nos também a entender que a liberdade é o único caminho para o homem negro no seu continente.

Não são muitos os trabalhos, no meio acadêmico, que discutem os poemas de António Baticã Ferreira. Porém, a grandeza do poeta não se mede somente pela dimensão dos seus trabalhos estudados. Observamos, ainda, que seu ativismo revolucionário contribuiu bastante para o reconhecimento do seu espírito nacionalista.

Sempre me preocupei com autores invisíveis da literatura guineense. Assim, comecei a me empenhar na pesquisa das obras do autor e a refletir profundamente sobre os seus textos e as circunstâncias em que foram escritos. Na medida em que eu aprofundava a minha pesquisa, fui percebendo naturalmente os encantos e amarguras que tomam conta da poética de Baticã Ferreira. O amadurecimento do poeta, o seu amor à Pátria e a sua visão crítica – estabelecem a ponte para cada uma das poesias que, ainda que falem da saudade da terra, trazem simbolicamente sua contribuição como um verdadeiro combatente da liberdade da Pátria – defendendo a cidadania guineense.

António Baticã Ferreira, assim como outros poetas já mencionados no presente capítulo, tem um lugar de destaque neste período de opressão e tortura, pela pluralidade e importância que a sua obra adquire para esse momento. Seu maior desejo era o de ver seu povo livre como as demais culturas do mundo. A pátria é uma das características que influenciam o seu eu - lírico. Como ressalta um dos poemas mais conhecidos do poeta:

Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração,

Em espírito demando o meu pais natal,

E lembro aquela floresta africana,

Cheia de caça e de verdura;

Lembro as suas imensas árvores gigantes,

A folhagem verde ou amarela

Que nos perfuma.

Revejo a minha infância,

Toda cheia de alegrias:

Eu corria pelo mato,

Espiava os animais selvagens,

Sem medo;

E olhava os lavradores nos campos,

E, no mar, os pescadores,

Que lutavam contra o vento, para agarrar o peixe,

E que eu, atento, seguia com o olhar:

Como gostava de os ver no oceano

Domar as vagas, que lhes queriam virar as barcas!

(Ah!, bem me lembro, bem me lembro do meu pais natal!) ( FERREIRA, 1975, p. 323).

 

O elemento mais importante a se destacar no poema são as figuras relativas ao mato, ao mar e as árvores gigantes referidos no poema. Essas figuras podem ser vistas como raízes do poeta em sua terra natal, presença constante nos versos do autor. A memória do autor era viva; recordando-nos dos lugares que deixou virgem, mas devastados pela presença europeia: como a floresta cheia de caça e de verduras; a infância cheia de alegria, quando corria pelo mato sem medo; porém, esse ‘mato’ é a metáfora do seu país violentado por portugueses, o mato cheio das folhas das árvores que o perfumava; e então passa a transmitir o cheiro de sangue. O poeta não pode mais correr pelo mato: “Espiava os animais selvagens e, no mar, ver os pescadores/. O medo dominou a memória do poeta e do seu povo. Baticã Ferreira, através dos versos, manifesta o seu sentimento íntimo, aponta e questiona o inconformismo com a presença colonial no seu país.

A reivindicação e o espírito patriótico assumem um lugar de destaque nos versos de Baticã (RUSSEL, 1984, p. 217) Russel insinua que Baticã Ferreira foi um poeta “tropical pastoril”, e as imagens retratadas em sua poesia apresentam lugares da origem do poeta. Embarcando na ideia do autor, concordamos que o poeta nunca deixou para trás a liberdade de sonhar com um país independente. Se os gritos de abalos não foram suficientes, as palavras do poeta podiam servir nas folhas brancas como a forma de gritar a favor de um povo miserável. Como ressaltava Hélder Proença, quando escreve O meu poema deixará de ser um simples poema:

Lá onde a minha pátria chora

O meu poema fincará os pés – mesmo rijo –

Sobre a terra firme!

e deixará de ser poema

e enxugará todas as lágrimas

e transformar-se-á numa laboreda

iluminando os caminhos espinhosos. (PROENÇA, Helder, 1977, p.53)

 

A poesia de Baticã Ferreira segue essa mesma linha revolucionária do poeta Hélder Proença. O poema vai acalentando a esperança de enxugar todas as lágrimas dos rostos melancólicos, tornando-se, então, arma de resistência.

Ainda que o emprego da primeira pessoa nos leve a entender a presença do eu – individual, quando lemos os textos de Baticã Ferreira percebemos a presença forte do nós coletivo. Isso indica que o poeta não fala só por ele, mas, sim, pelo povo que há séculos é silenciado. O poeta serve como porta-voz de quem não pode falar. É a missão do poeta falar pelos outros. O seu discurso lírico nos permite entender o quanto o poeta se disponibiliza a questionar as tristes condições em que os guineenses viviam na então Guiné Portuguesa. Assim, a poesia de Baticã, ainda é lida na perspectiva de um olhar intimista, integrando-se e ecoando um grito coletivo, resistindo à dominação.

As suas poesias têm fogo – ardem com muita força e queimam, tentando evocar sempre a esperança e uma nova maneira de encarrar o colonialismo no continente africano. A voz do poeta continua viva, afirmando sempre a sua identidade, enquanto proporciona um caminho da esperança, na crença de apagar a memória de um passado e sonhar com convicção com um tempo promissor que se avizinhava.

Assim, terminando a luta de libertação nacional, em 1973, com a independência novas vozes começaram a surgir. Estes, em sua maioria, assistiram a luta armada e eram ainda voltados para os mesmos ideais revolucionários. Como afirmam Amorim & Mariana:

Após independência da Guiné, a literatura guineense ganha novo vigor. Nessa época, surge um grupo de jovens poetas, cujas obras manifestam um caráter social, focalizando a defesa da liberdade, a questão da identidade nacional, entre outras coisas. Agnello Regalla, António Soares Lopes (TonyTcheka), José Carlos Schwarz, Francisco Conduto de Pina e Felix Sigá são alguns dos autores mais significativos desse período (AMORIM & MARIANA, 2012, p,39).

 

Esses jovens poetas, depois da independência do país (setembro1973), reconhecida em 1974, questionavam nos seus textos o inconformismo da presença europeia no país. Esses revolucionários poetas, comprometidos ainda com o espírito de luta, publicaram em 1977, a primeira antologia poética da Guiné-Bissau. Nessa antologia participaram 14 poetas, com 41 poemas, infelizmente sem uma figura feminina. Entre os poetas participantes destacamos os seguintes: Annello Augusto Regalla, (com 7 poemas: Camarada Amílcar, Aquela lágrima de sangue, Decisão, As Ilhas, Saudade, Poema de um Assimilado e Juventude), Morés Djassy, (com 4 poemas: Ao Camarada Neto, A morte dos colonialistas, Somos crianças e Poema da natureza africana), Tony Davyes, (com 3 poemas: Poema, Desespero e Profanância), António Soares Lopes Júnior, ( com 4 poemas: Abusivamente, Mantenhas, A iminência do vosso fim e Pindjiguiti), Armando Salvaterra ( com único poema intitulado: Depois de mim), Carlos de Almada, ( com 2 poemas: Canto alegre para N’ Dangú e Geba), Hélder Proença, ( com 5 poemas: Aos que tombaram no pindjiguiti, África, Mãe, Escreverei mais um poema e O meu poema deixará de ser um simples poema), Jorge Ampa Cumulerbo, ( com 3 poemas: O julgar pertence à história, Urgente e Aos que me querem amar), José Carlos Schwarz, ( com 3 poemas: Morte desenraizada, Cal coldade de amanhã  Maria e Quebur Nobo), José Pedro Sequeira, (Com 3 poemas: Ânsia, A vida real dos homens nossos irmãos e A guerra antes do meu filho), Justen, ( Com 4 poemas: Não podemos parar, para nós parar é morrer, Poema, Não choro os mortos e Nós à beira-mar), Nagib Said, ( com 4 poemas: Poema I, Poema II, Agonia dos impérios, Em gênero de homenagem à memória do camarada Amílcar Cabral), Kôte ( com 2 poemas: Labaquinty e Descanso) e Tomás Paquete, ( com 3 poemas: Retorno, Ao acaso ... No mar e A Soweto.

Dos 14 poetas dessa rica antologia poética, muitos deles não continuaram a escrever, ou seja, escreviam na época, libertando o que estava preso na garganta. Se não exageramos, não são quase conhecidos tanto no país quanto no estrangeiro. Agnello Regalla, por exemplo, autor com mais poesias nessa antologia, é mais conhecido no país como político – um dos membros fundadores do Partido UM.

O único entre eles que ainda se destaca no mundo literário no país, assim como no exterior, é Tony Tcheka. Apesar de muitos desses poetas não darem continuidade às suas escritas, podemos dizer que impulsionaram a literatura guineense para novos horizontes, possibilitando assim o crescimento da semente lançada pela geração de Amílcar Cabral, Vasco Cabral e António Baticã Ferreira. Cabe-nos, ainda, dizer que uma árvore só pode resistir aos ventos se tiver raízes fundas. Essa observação torna-se importante, pois ressaltamos que a literatura na Guiné-Bissau, embora tenha progredido muito tarde, em comparação com as outras literaturas da comunidade de língua portuguesa, plantou com cuidado suas raízes.

3.2. Golpes de Estados: visões da pós-independência

Considero importante realizarmos aqui um breve passeio pela história da Guiné-Bissau, uma vez que os sucessivos golpes de estado nos ajudam a compreender o atraso no desenvolvimento da literatura no país. Por outro lado, tais instabilidades políticas constituem-se, naturalmente, como fonte de inspiração para os jovens escritores que surgem nas últimas décadas. Procuro, aqui, resumir os principais conflitos que atingiram a população como um todo.

A história da Guiné-Bissau sugere-me a imagem de diversos fios, por onde passam muitas correntes elétricas. Penso nessa imagem para ilustrar os sucessivos golpes políticos ocorridos, após a sua independência. Contudo, é fundamental recordarmos brevemente os momentos chave na história da Guiné-Bissau: a chegada dos portugueses em 1446; a fundação do partido PAIGC (1956); o massacre de Pindjiguiti (1959); o início da luta armada – que decorreu em 23 de janeiro de 1963 – ; o assassinato de Amílcar Cabral, em 20 de janeiro de 1973, pelos próprios companheiros da luta; e a independência do país, em setembro 1973.

Ao conhecernos detalhadamente esses acontecimentos que antecederam a independência, percebemos que o espírito de golpe de estado começou a partir do mato. A insatisfação já governava as mentes dos guineenses, ainda que, na época, lutassem pelos mesmos ideais. Havia, porém, no fundo discórdias entre eles. Depois do assassinato de Amílcar Cabral, em janeiro de 1973, Luís Cabral, primo de Amílcar, tomou a liderança do partido. Mais tarde, também, assumiu a presidência da República. O seu mandato durou 7 anos. Em 1980, um golpe de estado, orquestrado pelo Nino Vieira e demais companheiros, retirou Luís Cabral do poder, assim como do país. Tal momento é relatado e analisado pela pesquisadora Moema Augel:

O primeiro Presidente da República da Guiné-Bissau foi Luís Cabral, um dos principais líderes da resistência anticolonial, chefe militar que comandou uma parte do exército guerrilheiro, figura carismática e de grande respeito no seio dos revolucionários. Entretanto, sua gestão foi marcada por muita instabilidade e uma série de assassinatos de líderes antes irmanados na luta. O país conheceu sua primeira grande crise que culminou com a deposição do Presidente Luís Cabral, que governou até 14 de novembro de 1980, quando um golpe de estado, tendo como justificativa salvaguardar a unidade nacional e os ideias revolucionários, o derrubou, em nome do que foi chamado eufemisticamente de “Movimento reajustador”, liderado pelo então primeiro ministro João Bernardo Vieira ‘Nino Vieira’ (AUGEL, 2007, p. 62-63).

 

De fato, o mandato de Luís Cabral não escondeu divergências políticas e sociais entre os guineenses e cabo-verdianos – que eram, a olhos vistos, mais privilegiados na sociedade pelo então Presidente da República, também, de origem cabo-verdiana. Luís Cabral, durante o seu mandato, praticava nepotismo dentro do aparelho de Estado – e isso causou grandes problemas para sua continuidade no cargo. Os cabo-verdianos, quase na sua maioria, ocupavam postos de emprego privilegiados. Dessa forma, os guineenses sentiam-se cada vez mais inferiores perante os cabo-verdianos – considerados elite. Como ressalta Timóteo Sabá M´bundé: “No panorama político, dentro das estruturas internas do PAIGC, o mandato de Luís Cabral não era visto com bons olhos pela elite política guineense”. (M´BUNDE, 2018).

Os privilégios dos cabo-verdianos causavam descontentamento por parte dos guineenses, no seio de partido e da sociedade, o que resultou no primeiro golpe de estado, após a independência ao então presidente Luís Cabral, justificado por conta de injustiças e discriminações raciais, como bem observa SANGREMAN:

Nino Vieira (então Comissário Principal, equiparado a primeiro-ministro) relacionava-se com a introdução de patentes militares n seio das forças Armadas, em 1979. Os antigos combatentes sentiam injustiça perante o sistema de cotas, que permitia promover jovens Cabo-verdianos recém-chegados de Portugal ou de Cabo verde e sem nenhuma legitimidade militar a comandarem os verdadeiros combatentes da liberdade da pátria. Quanto a Nino Vieira, considerou não ter sido promovido de forma justa, tendo em conta o seu passado na luta de libertação, acabando por reagir de uma forma que os juristas qualificam como de legítima defesa (SANGREMAN, 2006, p.13 apud  M´BUNDÉ, 2018, p. 73).

 

Da mesma forma que foi aplaudida a conquista da independência do país, assim foi aplaudido o golpe de estado que destituiu o Luís Cabral do poder, devido o desencanto da população pelo modo como governava. A sociedade guineense, na época, estava cansada de ondas de discriminações raciais e de classe – que aconteciam sucessivamente no país. Tudo isso gerava  ódio e mais insatisfação com o governo de Luís Almeida Cabral. A assunção do poder por parte de um filho nativo da terra, João Bernardo Vieira, trouxe de volta a esperança tão sonhada do povo guineense. Como se expressou M´BUNDÉ:

Assunção do poder pelo carismático combatente da liberdade da pátria, João Bernardo Vieira, vulgo Nino Vieira, em 14 de novembro de 1980, um acontecimento muito aplaudido não só por seus camaradas das armas, mas igualmente pelo povo guineense, era apontada como um caminho meio andado rumo à construção de uma sociedade mais inclusiva e justa (M´BUNDÉ, 2018, p. 74).

 

Timóteo Sabá M´bundé dividiu o mesmo pensamento com AMPAGATUBÓ:

 Quando Nino Vieira fez o golpe de estado contra Luís Cabral em 1980, obteve o apoio das Forças Armadas guineenses assim como de toda população em geral. Nino Vieira não tinha só o apoio da ala do PAIGC guineenses, dos atores políticos, mas sim de todo o povo, que estava esperançado em mudança substancial a favor da Guiné-Bissau (AMPAGATUBÓ, 2008, p. 220 apud M´BUNDÉ, 2018, p. 75).

 

João Bernardo Vieira começou a governar o país a partir de década 80. No início do seu mandato parecia ter vontade de levar o país ao caminho de desenvolvimento. O povo estava mais esperançoso, o poder estava sob controle de um nativo. Mas tudo era ilusão. O sonho do povo mais uma vez se afundava. Nino Vieira começou a se apresentar como um monstro aos olhos da população. Sinais de desconfiança e de insatisfação por parte dos colegas de luta começaram a surgir. Vieira não conseguiu dar conta da responsabilidade de manter a economia e dar continuidade aos projetos – que o primeiro presidente já havia começado.

Esqueceu o povo e manchou a sua imagem de luta por ter abandonado os combatentes da pátria. Criou uma imagem única: de terror e do medo. Revelou-se um presidente mais autoritário que Luís Cabral, implantando um sistema de ditadura, talvez, muito pior do que o regime daquele que o procedeu. O mandato de Nino Vieira pode ser distinguido por cinco características: abuso de poder, falta de liberdade de expressão, tribalismo, torturas e assassinatos de quem ousava levantar a voz. O caso de “17 de outubro de 1985” foi prova de tudo isso. Como salienta Augel:

A primeira década desse segundo governo foi marcada por tensões de ordem tribalista que, sem a liderança de Amílcar Cabral, se mostram difíceis de serem contornadas. A 17 de novembro de 1986, as tensões se concretizaram, provocando uma série de prisões e de execuções de líderes políticos, e essas mortes ainda hoje pairam como uma sombra na história do PAIGC e de seus governantes (AUGEL, 2007, p. 63).

 

Toda a crença do povo no desenvolvimento do país desabou.  Todo o poder não foi suficiente para Vieira. Assim, no seu governo apropriou-se de bens materiais da cidade e chegou a seduzir mulheres dos colegas da luta. Em 1985, aconteceu o que podemos chamar de chacina política. Nesse ano, foram assassinadas mais de três dezenas de pessoas, na sua maioria da etnia balanta, acusados de tentarem um golpe de estado: Esses intelectuais foram torturados até a morte. Como podemos verificar nas palavras de Mbundé:

Dos executados, 39 (mais de 90%) eram oficiais militares e intelectuais Balantas. Essa violação dos direitos humanos de cunho étnico, ocorrida em 17 de outubro de 1985, evidenciava o fracasso do processo de construção do Estado Nacional guineense, pois estava em curso a edificação de uma máquina ditatorial (M´BUNDÉ, 2018, p. 76-77).

 

João Bernardo Vieira implantou no país um regime de ditadura, proibindo a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e as manifestações políticas. As ondas de insatisfeitos com o governo de Nino Vieira resultaram, na década de 90, na criação de vários partidos políticos. A maioria deles era composta de figuras importantes que saíram do próprio partido PAIGC.   A finalidade era derrubar o regime ditatorial do então presidente Vieira. Em relação a esse episódio, observa M´bundé:

A perda do aliado ideológico e militar externo (antiga União Soviética) em referência, com consequente falta de alternativas em termos de alianças políticas no contexto internacional, constituiu o principal fator que obrigou os agentes políticos ligados ao PAIGGC a aceitarem pronunciar-se a favor do processo de transição do monopartidarismo para o multipartidarismo assim como na adoção da economia do mercado na Guiné-Bissau (AMPAGATUBÓ, 2008, p.169 apud. M´BUNDÉ, 2018, p. 77).

 

Nino Vieira não só provocou divisões entre os diferentes grupos étnicos do país, mas, sobretudo, criou grandes conflitos no seio do seu partido. Fundamenta ainda M’bundé:

Além da questão étnica vivida no seio da sociedade guineense, o golpe de estado de 1980 trouxe outro conflito interno dentro do próprio PAIGC – a criação das alas dentro do partido: uma ala flexível, dos jovens que tinham acabado de chegar dos estudos, com formação superior, e outra ala militar, que na sua maioria era composta pelos velhos combatentes da liberdade da pátria, os quais lutavam para preservar os privilégios herdados durante o período do estado novo (após a independência). (CARVALHO, 2010, p.74 apud. M´BUNDÉ, 2018, p. 78-79).

 

Sendo assim, mais tarde, também, incitou uma grande divisão nas Forças Armadas. Ansumane Mané – que tinha grande laço de amizade com Nino Vieira desde o período no mato, foi demitido por este, acusado de ter comando a venda de armas para rebeldes de Cassamansa. Foram criadas comissões nacionais e internacionais para apurar o caso. Porém, nesse sentido, a Assembleia Nacional Popular, por não ter encontrado nenhuma prova que incriminasse Mané no tráfico de armas, sugeriu como solução daquele impasse o retorno do brigadeiro Ansumane Mané ao posto de chefe de Forças Armadas. A recomendação da Assembleia Nacional Popular, na pessoa do seu presidente Mala Bacai Sanhá, não surtiu efeito, isto é, não foi atendida por Nino Vieira.

Havia já muito tempo que os rebeldes de Cassamansa lutavam pela independência daquele pedaço de território que eles sentiam por direito lhes pertencia. Esse pedaço de terra, no passado pertencia à Guiné Portuguesa – que hoje é Guiné-Bissau. Com a conferência de Berlim, no ano 1885-86, Portugal concedeu o território à França em troca do setor de Cacine que, por muito tempo, pertencia à Guiné-Conacri.

Essa região que hoje é Cassamansa foi encontro de vários povos vindos de diferentes partes da África, por exemplo, mandingas que vieram de Gâmbia, Senegal e Guiné-Bissau. (M´BUNDÉ, 2018). Não está longe de ser verdade que as Forças Armadas guineenses davam suporte aos Rebeldes de Cassamansa, para manter a luta pelo território com certo interesse política. Como a corda sempre arrebenta no lado mais fraco, o presidente da República, João Bernardo Vieira, responsabilizou Ansumane Mané de estar envolvido no comércio de armas e o afastou do cargo imediatamente. Como afirma Moema Augel:

O presidente guineense, Nino Vieira, decidiu afastar do seu cargo o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, General Ansumane Mané, sob a alegação de estar ele implicado no tráfico de armas em Casamansa. Esse episódio não foi senão a ponta do iceberg de um conflito interno mais profundo e bem mais alargado, reflexo de crescentes insatisfações de ordem política, social e econômica que mereciam uma analise mais extensa. Ansumane Mané, amigo íntimo e companheiro de armas do Presidente Nino Vieira desde as lutas pela independência, tendo estado ao seu lado na tomada do poder em 1980, conhecedor profundo dos segredos militares do país (e das irregularidades da elite política e militar), não podia aceitar sem contestar tais acusações. Diante da Comissão de Inquérito da Assembleia Nacional Popular, recusou assumir essa responsabilidade, denunciando, inclusive, o próprio Nino Vieira como mentor do comércio de armas com os rebeldes (AUGEL, 2007, p. 67).

 

A problemática de venda de armas aos rebeldes de Casamansa, sem dúvida, resultou no conflito militar de 1998-1999. Foram onze meses de uma guerra bruta em uma cidade, na época, que contava com trezentos mil habitantes. Quase noventa por cento dessas pessoas decidiram sair da cidade à procura de um lugar mais seguro. E mais de dois mil e duzentos estrangeiros se viram confrontado com as balas de canhões, sem saber onde refugiar-se e salvar suas almas do perigo em que viviam. Enquanto que as tropas senegalesas torturavam e humilhavam o povo desnecessariamente (AUGEL, 2007).

A cidade de Bissau ficou inundada de tanto sangue, por causa dos canhões que caíam sem ter piedades sobre essas almas inocentes. Várias tentativas de negociações de entidades religiosas e internacionais foram feitas para cessar de fogo, mas Nino Vieira rejeitou quaisquer tipos de negociação com a outra parte em conflito, chamando-os muitas vezes de rebeldes. Estes, por outro lado, se denominavam “Combatentes da liberdade da pátria”.

Como a democracia é ainda uma coisa nova na África, o interesse pessoal de cada um parece estar acima de tudo, o que fica demonstrado, muitas vezes, nas posturas dos governantes. Na Guiné-Bissau, as discórdias entre as posições vão ganhando espaços e as ideias do lado oposto nunca são respeitadas. Esse fato, sem sombra de dúvida, foi e é grande causa dos conflitos no continente africano. Cada galo quer cantar sozinho numa capoeira. No prefácio do meu recente livro de contos autor faz algumas observações nesse sentido:

O título do livro - Cantar do Galo - é assaz sugestivo pelo seu peso semântico. Recolhido do saber popular guineense, sua miríade de ricos provérbios, a expressão “Cantar do Galo” alude ao universo do poder governativo monopolizado, ou seja, uma sociedade guineense que por quase três décadas viveu sob ditadura, que aceita que só pode haver um chefe supremo, crente de que “dois galos não cantam na mesma capoeira”. Essa idolatria do poder é a justificação das exonerações e golpes de que têm sido vítimas sucessivos governos e governantes na Guiné. A (pseudo) cultura do “galo” é tão arraigada em nossa gente que, até hoje, não poucos guineenses relembram com nostalgia os tempos do monopartidarismo, em que um único chefe supremo da nação cantava (mandava e desmandava) e o restante no galinheiro-sociedade só fazia coro. Outrossim, várias mentes guineenses advogam a substituição do semipresidencialismo pelo presidencialismo, porque este seria mais condizente com o espírito totalitário e monopolista dos guineenses no que ao poder concerne. Todavia, essa falácia esquece que a história guineense já ofereceu-nos duas vezes esse foro e pudemos ver com sangue e tortura (e outras belezas da ditadura) que a monoliderança não só é resultado de uma ideologia totalitária, mas é igual e simultaneamente alameda do totalitarismo. Essa chaga político-cultural da comunidade (BANORI, 2017, p. 14-15, grifos nossos).

 

Da mesma maneira, podemos observar esse espírito egoísta no capítulo A Eternidade, do livro Eterna Paixão, de Abdulai Sila. Vemos que narrador se preocupa com esse ódio semeado na alma dos guineenses ao longo dos anos, gerando sempre divergências que causam mortes. Sila destaca essas desavenças internas existentes na figura de dois animais domésticos da mesma espécie, metaforizando os comportamentos de discórdia entre os políticos guineenses pela luta constante de poder; primeiro, no seio do partido PAIGC; posteriormente, alastrando-se no cenário da política guineense de modo geral. É o que notamos no trecho do autor transcrito a seguir:

De um local não muito distante, provavelmente da estrada, vinham discursos violentos de dois cães que pareciam debater um tema muito polémico, sobre o qual tudo indicava não poder haver unamidade. A julgar pelo tom, um deles parecia estar mais convicto da justeza dos seus pontos de vista do que o outro que, na incapacidade de encontrar argumentos adequados, discursava com maior agressividade, exaltando-se cada vez mais (SILA, 2002, p.297, grifos nossos).

 

João Bernardo Vieira, quando deu o golpe de estado contra Luís Cabral, em 1980, plantou uma semente de divergências e descontentemento no seio do partido. Em 1985, quando ele mesmo deu ordem para fuzilar os companheiros da luta, na sua maioria da etnia balanta, acusados de uma intentona ao golpe de estado, gerou ainda inúmeros descontentes com o partido, assim como no país. Esse conjunto de insatisfeitos com seu regime resultou no conflito de 7 de junho, que apenas foi dado como desculpa para o tráfico de armas aos rebeldes de Cassamansa. Durante todo o conflito, grande parte dos militares era de etnia balanta; também jovens e ex-combatentes da liberdade da pátria de diferentes grupos etnicos aderiram o movimento “Junta Militar”, liderado pelo Ansumane Mané, demonstrando, assim, o grau de insatisfação do regime Vieira.

A guerra denominada “7 de junho” começou numa madrugada fria no bairro de Brá, uma localidade bem próxima do aeroporto internacional Osvaldo Vieira. A opinião pública na época espalhava rumores de que o presidente pretendia viajar para Europa na mesma madrugada. No entanto, desconfiando de um ataque planejado contra si, este enviou escoltas presidenciais, orientadas pelo seu chefe de confiança Rachid Sayeg, para sondar o caminho. Sayeg, grande militar, foi surpreendido por rebeldes que ali já estavam de vigília a madrugada inteira, esperando o presidente. Nessa madrugada, este homem de confiança morreu junto com um pequeno grupo de policiais, que foram ao mesmo serviço. Alguns rumores também contam que Ansumane fugiu da ordem de prisão decretada pelo presidente da república.

A guerra de 7 de junho se alastrou e ultrapassou fronteiras. A república da Guiné-Conacri – que fica situada no sul do país, decidiu aderir à guerra por intermédio de um acordo bilateral assinado no caso de invasão territorial. Nas primeiras horas do conflito, enviaram logo militares para defender o presidente João Bernardo Vieira. Por outro lado houve também a participação de tropas senegalesas, em grande número, apoiando de unhas e dentes o Presidente Vieira, através de um acordo secreto entre os dois presidentes. A participação desses dois países ocasionou maior adesão dos jovens e dos ex-combatentes da pátria ao movimento dos rebeldes, lutando com fervor em defesa de uma terra que custou um mar de sangue no passado. (M´BUNDÉ, 2018).

Havia várias formas de negociação realizadas por identidades nacionais e internacionais. Até havia sinais de cessar fogo prolongado entre as duas partes em conflito. Como salientou M´bundé:

Após alguns “incidentes militares” as duas partes beligerantes voltaram definitivamente às hostilidades, tendo a Junta Militar finalmente ocupado a capital Bissau, em 7 de maio de 1999. Desse modo foi derrubado o regime que durava quase dois decênios, tendo sido o presidente João Bernardo Vieira exilado em Portugal. (M´BUNDÉ, 2018, p. 84).

 

Onze meses de guerra civil num território muito pequeno como a sua população não foram suficientes para os guineenses, principalmente os governantes, refletirem sobre o progresso e pela estabilidade política e econômica desse recente país saído de uma guerra sangrenta.

Em 2003, Koumba Yalá, eleito nas urnas para presidente da República com uma enorme distância dos seus adversários, foi deposto pelos militares liderados por Veríssimo Seabra Correia.Yalá não completou um mandato de cinco anos, segundo a constituição da república guineense. Ficou no poder apenas por três anos, com perturbações políticas e nepotismo. Infelizmente, a democracia mais uma vez não se fez valer no país.

A deposição de Yalá talvez se deva por sua divergência com o Brigadeiro Ansumane Mané – que foi encontrado morto em Quinhamel, setor de Biombo. Alguns críticos afirmam que a deposição aconteceu por contradições políticas e sociais traçadas por Koumba com os militares, além dos grandes problemas sociais herdados que Yalá não conseguiu resolver. Há que se lembrar que foi no mandato de KoumbaYalá que, pela primeira vez na história de educação, os professores não receberam seus salários por onze meses. Também pode-se salientar que a sua destituição se deveu ao nepotismo durante todo seu mandato. Vários ministérios, secretarias de estado, diretorias e cargos chaves do governo, na sua maioria, eram ocupados por balantas e amigos do partido de Koumba Yalá.

Tudo seguia esse ritmo, quando, em 2004, realizaram-se eleições legislativas no país. O PAIGC, na figura de Carlos Gomes Júnior, saiu vencedor. A eleição deu uma dose de vacina maior de credibilidade no país. Porém, no mesmo ano, as mortes de General Veríssimo Correia Seabra e de Domingos Barros trouxeram de novo incerteza no seio da política guineense e desconfiança por parte do povo. A opinião pública levantou a possibilidade de que a causa da morte dos dois grandes militares, de alta envergadura, se devia à destituição do poder do ex-presidente Koumba Yalá, em 2003.

Como vimos antes, o PAIGC foi criado com objetivo de lutar contra o regime ditatorial português. Mas, desde a sua criação, teve sempre divergências e descontentes no partido:

No PAIGC, uma ala descontente com o desenrolar dos acontecimentos políticos nas estruturas do partido e no governo começou a mobilizar-se com vistas ao regresso de João Bernardo Vieira ao país, exilado em Portugal desde a sua destituição, em 1999. O cenário evidenciava crise e fragmentação do PAIGC, TENDO Carlos Gomes Júnior, que acumulava as funções de primeiro-ministro e presidente desta agremiação, manifestado publicamente desfavorável ao regresso do ex-presidente, cuja segurança o governo por ele liderado não garantiria. Enquanto isso, os militares, especialmente o chefe das Forças Armadas, foram curiosamente a favor do regresso do ex-presidente (M´BUNDÉ, 2018, p.88).

O descontentamento de uma ala de PAIGC, liderado pelo Aristides Gomes, uma das grandes figuras de destaque do partido, manifestou-se a favor do regresso do ex-presidente e desempenhou grande papel para que Nino Vieira voltasse, ciente de que Vieira era a única força capaz de derrubar Carlos Gomes Júnior – que já se apresentava como um ídolo no partido. O povo também desiludido com a política e má administração do país, manifestou grande interesse na volta de João Bernardo Vieira ao país. A voz da rua, a sua maioria, dizia: mindjor na Ninu... (Nino era o melhor de todos)

Com ajuda máxima de Aristides Gomes e algumas figuras militares destacadas, como, por exemplo, José Américo Bubo Na Tchuto e Tagme Na Waie, houve grande interesse na volta do Nino. Ninguém sabe a razão desse interesse. Apesar de esse último ter odiado o presidente Nino, por causa da tortura do “caso de 17 de outubro”. O governo, na pessoa do seu chefe, Carlos Gomes Júnior, não liberou o aeroporto Internacional, único do país para pouso do voo particular de João Bernardo Vieira. Sendo assim, o chefe da marinha, Bubo Na Tchuto, acima referido, autorizou a delegação de Nino Vieira a aterrar em um Estádio de futebol (24 de setembro).

Em 2005, na corrida da eleição presidencial, João Bernardo Vieira, mesmo se apresentando como um candidato independente, sem nenhum apoio partidário, conseguiu força do povo nas urnas, saindo como vencedor apertado numa segunda volta com Malam Bacai Sanhá. Nino Vieira não levou muito tempo num decreto presidencial exonerando Carlos Gomes Júnior do seu cargo.

Abriu-se, assim, um ciclo de conflito político-institucional entre o Presidente da República e o governo liderado por Carlos Gomes Júnior, culminando com a exoneração do primeiro-ministro. Assim, após, consultas aos partidos de oposição e militares, o presidente fez uso das suas prerrogativas reservadas pela Constituição da República, emitindo o decreto presidencial que destituiu o primeiro-ministro. (M´BUNDÉ, 2018, p. 90).

 

Em 2009, o ex-presidente foi assassinado brutalmente na sua residência em Chão de Papel Varela. A razão de tal barbaridade justifica-se na morte de Tagme na Waei, chefe de Forças Armadas, algumas horas antes. No país, até os dias de hoje, ninguém foi responsabilizado por esses crimes. Vale mencionarmos ainda os assassinatos do poeta Hélder Proença[59] e de Baciro Dabó[60], que aconteceram no mesmo ano (M´BUNDÉ, 2018).

A maioria dos assassinatos, tanto dos civis, quanto dos políticos, nunca teve seus autores descobertos. O que compromete muito a existência da lei, da democracia e o direito de ir e vir no país. A história da Guiné-Bissau é narrada sempre por relatos de divergências, intrigas, golpes de estado, que culminaram com derramamento de sangue. Nunca o diálogo foi pautado como caminho para soluções de problemas políticos.

Em 2012, Carlos Gomes Júnior, um dos suspeitos pela morte de Nino Vieira e Tagme Na Waei, sofreu um atentado pelos militares, liderado pelo General António Indjai. O golpe foi comemorado por grande parte da população guineense, adeptos do ex-presidente João Bernardo Vieira.

Atualmente, a Guiné-Bissau vive seus momentos marcados pela grande incerteza quanto às metas lançadas, visando o progresso e a estabilidade política e econômica do país. Existe um clima de ódio político, capaz de instigar o país a futuras guerras. O povo só sabe ir às urnas, mas não sabe em quem confiar o destino do seu amanhã...

De uma forma ou de outra, sucessivos golpes de estado, desde a morte de Amílcar Cabral, que Peter Mendy (2012) considera o primeiro golpe de estado, influenciaram bastante o desenvolvimento das letras e da educação desse jovem país. Em 1980, após o golpe com a destituição do poder de Luís Cabral em favor de Nino Vieira e a execução dos intelectuais balantas, acusados de uma intentona de golpe de estado, grande parte dos intelectuais guineenses partiram para o exterior, descrentes do processo de desenvolvimento da Guiné-Bissau. A Guerra civil de 1998-1999 foi outro embaraço de desesperança desse povo. Essa guerra destruiu o país completamente e o que restou por diante é um “desafio face aos escombros”, deixados pela crise, como aponta Moema Parente Augel.

O povo guineense continua acreditando e sonhando com um futuro melhor, ainda que viva muitas noites de Insônia. 

 

 

 


 

CAPITULO IV

AFIRMAÇÃO DA LITERATURA GUINEENSE: FORÇA, DENÚNCIA E FRUSTRAÇÃO

4.     Filinto de Barros: a ilusão da independência em kikia Matcho

Olha, olha, se Cabral ressuscitasse e visse o que está a acontecer com os seus combatentes e flores da Luta, teria fugido ou suicidava-se desta vez para sempre [...] (BARROS, 1997, p.64)

 

Filinto de Barros nasceu a 28 de dezembro de 1942, na cidade de Bissau. Foi um dos dirigentes fiéis do partido PAIGC, desde 1963, e um dos grandes intelectuais, tendo ocupado vários cargos políticos, sobretudo ministérios: o de informação e cultura, o de recursos naturais e indústrias, o de justiça, o das finanças. Foi também embaixador da Guiné-Bissau em Portugal. Em vida, o autor publicou vários ensaios de ordem política. (AUGEL, 1998, 361). Faleceu em 2011, em Portugal, vítima de uma doença prolongada.

Ao lermos as obras de escritores guineenses, tanto no campo prosa, quanto no da poesia, percebemos quanto estão desencantados em relação ao processo político e económico do país. Vinte anos separam o ano da independência e o ano em que foi publicado o livro Kikia Matcho[61], de Filinto de Barros. O livro foi escrito logo após a independência, apresentado o país independente, mas sem expectativas de um desenvolvimento para os seus filhos, principalmente a classe mais jovem. O que podemos perceber ao longo da obra é a desilusão dos personagens com a situação social; desse modo, como única solução, optam pela imigração.

A narrativa de Filinto de Barros é rica, pois traz os problemas do passado e liga-os ao presente. A construção do espaço e do enrendo, assim como a linguagem fazem do texto um grito preciso e necessário. Apesar de a obra ser considerada um romance histórico, segundo os críticos literários, o autor, ao ser questionado em relação ao seu romance, afirma que: “Kikia Matcho é um pequeno exercício de ficção. Nem história, nem sociologia, nem etnologia, nem política, tão somente uma abordagem que se pretende dinâmica do processo de síntese sócio-cultural de um povo” (BARROS, 1997, p.7).

Inocência Matta, numa entrevista concedida à Revista Crioula[62], afirma que toda obra nasce de um sentimento individual que a torna coletiva. Ainda que os poetas apresentassem uma literatura que tinha expressão individual, seus discursos se estendiam para um espaço coletivo. A expressão poética naqueles textos era de cunho revolucionário, nativista heroicisante. Contudo, mais tarde, os autores guineenses passaram a criticar os rumos incertos que o país seguia. Nesse sentido, continua-se a dar voz àqueles que não costumam ser ouvidos.

A ficção torna-se uma dos mais destacados recursos para a defesa da cidadania. Filinto de Barros viveu a luta armada do país. Além disso, era um dos membros ativos em todo processo da mobilização, esclarecendo ao povo as ideologias de Cabral em relação ao combante às opressões coloniais vividas por longos séculos. No livro Kikia Matcho, Filinto de Barros questiona o abandono e o desprezo dos combatentes da liberdade da pátria, que sonhavam e lutaram com um país diferente daquele no qual viveram. Assim assevera Moema Augel:

                                  O velho N´Dingue morreu sem ver realizada a promessa feita aos antigos combatentes de melhor pensão, de integração na sociedade; seus amigos e camaradas também esperaram em vão, tendo como último desapontamento a ausência dos “ comandantes” no enterro de N´Dingue. Sem dinheiro, pois a magra pensão de Combatente não chegava para comprar um saco de arroz, sem trabalho, sem honrarias, sem reconhecimento de espécie alguma pelo que fizeram pela pátria durante as lutas de libertação, esses velhos guerreiros, com suas medalhas e suas recordações, são a imagem mesmo da decadência e da desolação. Vivem na periferia da cidade, passam os dias em cafés a lembrarem os gloriosos anos dea LUTA  ( AUGEL, 1998, 362).

 

A obra, que conta com cento e sessenta e três páginas, é dividida em capítulos sem títulos escritos em português com muitas interferências na língua crioula. Ao final, apresenta um glossário enorme de termos usados em crioulo traduzidos em português. Em Kikia macho, Filinto de Barros cria um espaço urbano, com personagens de diferentes níveis sociais e classes, todos eles convivendo no mesmo espaço, seja em Bissau onde começa a narrativa, seja em Lisboa onde a narrativa se desenrola com mais afinco, revelando a vida difícil da imigração.

A personagem da Joana, formada como enfermeira, precisou imigrar para exterior, a procura de uma vida melhor. Provavelmente, representa milhões de jovens guineenses, com formação superior, que são obrigados a partir para a Europa em busca de melhores condições de vida. Apesar de Joana ter a formação qualificada para exercer a sua profissão, encontra-se em um estado desumano, morando numa casa em demolição Ao ser perguntada por quanto tempo vai ficar na situação de miséria que vivia, ela responde:

  Para te dizer a verdade, não sei. Possivelmente até arranjar uma casa do Social. Se mudo para um quarto em Lisboa perco todas as possibilidades de vir a ter uma casa como vocês. Não é o que todos fazem? Sei que isto é muito duro, sobretudo no inverno, mas já foram anos de sacrifício e não se pode perdê-los dum momento para o outro (BARROS, 1997, p.88).

 

O romance de Filinto de Barros lembra uma espada de dois fios. Ao mesmo tempo em que faz denúncias da vida dura na imigração, revelada na personagem Joana, também questiona a vida de um recém-formado no país. Trata-se da Benaf, sobrinho de N´Dingue, que, mal chegou a Guiné-Bissau, deparou-se com a morte do tio e foi obrigado a confrontar-se com as realidades culturais do país, sendo obrigado a participar de cerimônias rituais de toca tchur[63].

Kikia Matcho, em língua portuguesa significa coruja. Essa ave, na cultura tradicional guineense, tem por missão transportar notícias do mal. Sua aparição é entendida sempre como uma mufunesa, azar, no seio da família. Como podemos ver no romance, o animal apareceu trazendo uma má notícia para Papai em Bissau, Joana em Lisboa e para o próprio Benaf, que acabara de chegar à cidade de Bissau. A morte de Ndingui e o seu velório são os pontos principais da trama romanesca e geram grandes conflitos entre os personagens, tanto os da Guiné-Bissau, quanto os de Portugal. Por intermédio desses personagens, o autor faz notar no espaço e no tempo o desencanto do pós-independência.

Três pontos, a meu ver, destacam-se na obra, fazendo-a uma referência obrigatória para debruçar-se sobre a literatura bissau-guineense: as denúncias da vida dos combatentes da liberdade da pátria, o retrato da geração pós-independência, que apostou na imigração para melhorar a condição de vida e a solidariedade da mana Tchabú com as vidas solidárias dos combatentes.

A promessa feita aos antigos combatentes durante a luta de libertação nacional, infelizmente não foi cumprida. A trama do romance já aponta, nas suas primeiras páginas, esse desencanto, assim como a desvalorização dos combatentes. Essa desvalorização é destacada na morte de N´Dingue, cujo nome significa (estou sozinho). N´Dingue era um combatente abandonado durante a vida: "falaram-lhe do tio, quando esteve de visita à terra natal, nas tabancas de Safim. Ali soube, através dos parentes da mãe, da vida solitária que o tio levava, sujo, sempre a cair de bêbado" (BARROS, 1997, p. 12). Após a sua morte e durante o funeral, nenhum dos seus colegas sequer participou. Esse abandono não é somente observado na figura pública do malogrado. Estende-se muito além, sendo visível percebê-lo nos próprios familiares do N´Dingue. Joana, por exemplo, que vivia longe da família, era obrigada a criar o filho que não planejou ter sozinha sem ajuda de nenhum parente. N´Dingue, como muitos dos seus companheiros de arma, viveu dias difíceis, frustrado e rejeitado pela sociedade, tendo optado a refugiar-se no álcool, como um único caminho para aliviar o sofrimento e libertar-se da solidão.

A leitura dessa obra nos convida a repensar os problemas sociopolíticos do país. O personagem Papai, amigo do falecido N´Dingue, é responsabilizado para prosseguir a cerimônia, porém, não sabe especificamente que cerimônia realizar. Por outro lado, ele fica desiludido com a ausência dos companheiros combatentes no funeral. Na Guiné-Bissau, a rádio é um dos meios de comunicação mais usados para atingir a maioria da população. Se esse meio ainda é frequentemente usado na atualidade, na Guiné-Bissau pós-independente era indispensável. Foi através de uma notícia no rádio, emitida pelo comité do Partido do setor Autónimo da cidade de Bissau, que Benaf soube da morte do tio N´Dingue.

Triste e incomodado com a notícia, precisa, contudo, acostumar-se: "- Esses são os que preenchem a maior parte do tempo de antena. Mesmo com a morte vais acabar por te habituar" (BARROS, 1997, 11). Benaf, sobrinho de N´Dingue por parte da mãe, tinha acabado de chegar da Europa, cheio de sonhos e ambições na construção de um novo país. A morte do tio pegou-o, porém, de surpresa: sem emprego, sobretudo, tinha que confrontar-se com as realidades tradicionais, de acordo com os rituais fúnebres da sua etnia pepel. O novo estudante, além das preocupações financeiras para participar da cerimônia de toca tchur, teria que confrontar-se também com as realidades que o poder público lhe reservava. Apesar de se encontrar desempregado, sem poder participar financeiramente nos rituais de tchur, era obrigado a comparecer no dia da cerimônia, suportando longas noites de picadas de mosquitos. Benaf estava bem ciente dos problemas sociais da Guiné-Bissau. Joana e o Benaf, na verdade, representam a geração logo após da independência, imersa nos muitos dilemas do dia a dia na Guiné-Bissau.

Filinto de Barros, sabiamente e com sua própria experiência, procura estender a sua crítica ao sistema político guineense, trazendo aspectos como a bajulação para se conseguir um cargo no aparelho de Estado. O texto pretende apontar aos responsáveis pelos desencantos do pós-independência, escondendo-se atrás da ficção. Podemos perceber que a volta de Benaf ao país de origem carrega a imagem de decepção que a maioria dos jovens com cursos superiores vive em sistema burocrático e corrupto como o da Guiné-Bissau. Ao mesmo tempo, a imigração de Joana para Europa revela a ilusão criada pelos jovens dessa geração.  Joana é a representação dessa geração, que escolhe a imigração para deixar para trás as dificuldades de vida do país. Como bem analisou Moema Augel:

Do outro lado do oceano vive a Joana, a sobrinha emigrante, que um dia havia saído de Bissau à procura de uma vida melhor. Mas já não alimenta nenhuma ilusão, sabendo que não passaria jamais de uma estrangeira e não chegaria nunca a um nível social digno; quando muito conseguiria deixar  o pardieiro onde morava, um cômodo miserável numa casa em demolição, para alcançar uma casa social (AUGEL, 1998, p. 366-367).

 

Em Lisboa, Joana, mesmo com a sua formação superior em enfermagem, não passaria de mais uma a enfrentar grandes dificuldades de sobrevivência. Numa casa abandonada, como muitos dos emigrantes africanos, aguarda uma casa nova do governo português. Por outro lado, é necessário destacarmos as descrições tanto de ordem social quanto de ordem racial. O romance apresenta o jovem Mário, com grande talento futebolístico, mas que acaba por refugiar-se nos trabalhos pesados de obras, como forma de ganhar o seu pão de cada dia.  Apesar da distância da terra natal, a enfermeira não abriu mão de tradições dos seus ancestrais, educando o seu filho Pedrinho nos mesmos valores culturais. O Menino Pedrinho, por sua vez, apesar de ter nascido em Lisboa, sofre discriminação na escola por ser preto. E a própria Joana não se livrou dessa realidade preconceituosa e dos estereótipos da sociedade portuguesa:

Durante anos, Joana sentiu-se ferida, humilhada , quando ao longo da sua caminhada diária, os brancos evitaram sentar- se ao lado dela enquanto houvesse outro lugar vago. O racismo, sobretudo o desprezo, fazia-a ficar tensa. Queria ser como eles, dizer-lhes que ela era igual, que era também portiguesa como eles, que estava disposta a cantar os Heróis do mar, enfim, queria que Portugal fosse aquilo que sempre lhe ensinaram na escola primaria: a mãe Pátria (BARROS, 1997, p. 141).

 

A barraca da mana Tchabú, conhecida como 'tia burin mudju', é uma grande referência de solidariedade na obra em tese. Um espaço que servia de venda de bebidas alcoólicas e de reencontro dos combatentes da liberdade da pátria para aliviar seus sofrimentos. Mana Tchabú entendia-se muito bem com todos os ex-combatentes, chegando a dizer que conhecia problemas de cada um, dando-lhes até créditos. Nessa relação íntima com seus clientes, na maioria os antigos combatentes da liberdade da pátria, Tchabú criou um grande vínculo com todos, tornando-se, na maioria dos casos, a conselheira da humilhação brutal na qual viviam os próprios combatentes. Mana Tchabú é uma guerreira, é uma representante da situação atual da maioria das mulheres guineenses, que não perdem tempo diante da crise econômica para ajudar os maridos em casa. A imagem da barraca, no romance de Filinto, a princípio foi apresentanda como um lugar de se ganhar a vida e ao mesmo tempo um lugar de solidaridade, onde os combatentes se desconectam com seus sofrimentos encurralados.

A figura da mana Tchabú nos mostra o papel importante que as mulheres desempenham no seio da família guineense. Esssa personagem permite-nos imaginar Filinto de Barros inteiramente envolvido na realidade política e cultural guineense. Também é real a sua posição e preocupação diante do processo de construção de uma nação que os donos de poder levaram à estagnação. Apesar de ser uma obra de estreia, Kikia matcho revela consistência literária e um conhecimento profundo dos problemas socioculturais do chão guineense.

Assim, a obra não retrata somente momentos vividos após alguns anos de independência. Mais do que isso, o romance demonstra o desejo de se mudar o jogo, ou seja, de dar visibilidade aos caminhos incertos. É relevante também apontá-lo como um elo entre o passado e o presente. É nessa linha de pensamento que podemos compreender melhor Kikia macho, uma obra que, do início ao fim, inquieta os leitores.  A morte de Ndingue é um mistério. Mistério é também a cerimônia ritual que devia ter sido feita, mas que ninguém soube realizar, para descanso da alma de Ndingue no outro mundo. A trajetória de Benaf e da sua prima Joana também constituem-se como pontos chaves para reflexão do romance. Em suma, a obra nos oferece um testemunho vivo e cuidadoso do país anos após a independência.

 

4.1.Tony Tcheka: a imaginação da pátria em Noites de insônia na terra adormecida.

Lamento imenso se ofendo alguém, mas acho mesmo que adormecimento não é uma figura de estilo. É real. Isto é mau, este país precisa viver. Precisa de se reencontrar.[64]

 

Em comparação com muitos escritores guineenses, Tony Tcheka já é bem conhecido e estudado em trabalhos acadêmicos de diversas instituições brasileiras. Contudo, ainda é pouco conhecido no exterior ou mesmo na comunidade dos países de língua portuguesa.

António Lopes Soares Júnior, pseudônimo de Tony Tcheka, nasceu aos 23 de dezembro de 1951, em Santa Luzia, um dos bairros de Bissau, filho de António Soares Lopes e de Lídia Barbosa. É jornalista, escritor e consultor internacional (media e comunicação), ensaísta e analista social e político. Formou-se pelo IIJB, com especialização em Políticas Editorias e Formação de Formadores. Fez ainda cursos de Rádio, Televisão e Imprensa Escrita, no CENJOR-Lisboa. É um dos poucos escritores guineenses que trabalha mais afincadamente no desenvolvimento da cultura e da liberdade no exercício do jornalismo do país. É, portanto, uma das grandes referências nessa área em sua terra[65].

De sua obra, destacam-se os títulos, “Noites de Insónia na Terra Adormecida” (Bissau, 1996); Guiné Sabura que Dói (lançado no Brasil em 2008, na Festa Literária Internacional de Porto das Galinhas (FLIPORTO) e em Lisboa (2009); Desesperança no Chão de Medo e Dor Lisboa - Mala Posta/2016/. Os Media na Guiné-Bissau Faculdade de Direito em Lisboa, 2016), um largo estudo sobre os meios de comunicação no país que percorre o período de 1879 a 2013, a que se juntam outros trabalhos na mesma área, feitos anteriormente pelo autor. O poeta tem nas gavetas dois livros de ficção - “Quando cravos vermelhos cruzaram o geba” e “Bissau-Velho e Sonhos Capturados” –, além de um de poesia, Sol Noti (anoiteceu-se).

Percebemos a grande paixão de Tcheka pela literatura e a cultura do seu país. Muito cedo o escritor se empenhou na pesquisa, recolha e divulgação das produções literárias guineenses na impresa local. Além de tudo isso, tem participação tanto individual quanto coletiva nas edições das obras poéticas publicadas no seu país: da participação coletiva, citamos as seguintes coletâneas: Mantenhas para quem Luta (Bissau, 1977), na qual foi também co-prefaciador; Momentos Primeiros de Construção (Bissau,1978); “Poesia Moderna Guineense” (Lisboa-1990); Eco do Pranto (Bissau e Lisboa-1992); Barkafon di Poesia na Kriol (Bissau-1997). Em 2010, em Lisboa, o poeta apoiou a iniciativa de um grupo de jovens guineenses na edição da coletânea Traços dos tempos, que prefaciou. É membro fundador da Cooperativa Corubal, vocacionada para a produção, divulgação cultural e científica.

Muitos trabalhos seus foram publicados no estrangeiro em diferentes obras: Anthologie Littéraire de l´Afrique de l´Ouest - Paris “No Ritmo dos Tantãs”- Brasil; “Na Liberdade” (Lisboa); “Rumos dos Ventos” (Fundão-Portugal); “Anna” (Alemanha/Livro e DVD); Poesia da Guiné-Bissau (Grã-Bretanha). “Portuguesa-Contra Antologia” (poetas de língua portuguesa /Livro e DVD). “VERSshuggel – Contrabando de Versos – Poesia de expressão alemã e portuguesa”. Antologia Mundial (100 poetas do mundo). Figura no “Dicionário Temático da Lusofonia” (Lisboa) e no “Além-Mar” (Lisboa). Atualmente, Tony Tcheka é presidente de Associação dos escritores da Guiné-Bissau, do qual foi membro fundador.

Escolhi aqui analisar com atenção o primeiro dos três livros de poemas de Tony Tcheka pelo seu pioneirismo, deixando os demais para uma outra oportunidade. Trata-se de um escritor que, apesar de ter vivido bastante tempo longe da Guiné-Bissau, conhece bem as realidades do país. O livro foi o primeiro a ser publicado por ele, numa iniciativa da INEP. Hoje, sem nenhuma dúvida, o autor é considerado uma das mais importantes vozes da lírica guineense. Ao lermos seus poemas, somos convidados a solidarizar-nos com a dor do poeta, já que seu texto dialoga intensamente com a realidade social guineense. Como bem apontou Augel: “Mas o poeta quer sacudir o desalento e retornar a caminhada numa postura mais construtiva e operosa, motivado pelos companheiros, unidos numa mesma comunidade solidária” (AUGEL, 2007, p. 255).

A cada página do livro, somos levados a imaginar a dor do sujeito poético, o medo e as incertezas do tempo em que se viu afundar. A obra questiona o passado para entender o presente e, às vezes, clama o próprio presente para entender o amanhã, como destacam os versos do “Pensar menino”: “estava/entre sono e sonho/escondido no meu pensamento” (TCHEKA, 1996, p.113).

Noites de Insônia na terra adormecida revela a maturidade enriquecedora do autor com o emprego das palavras, convidando-nos a repetidas leituras em torno dos problemas sociais guineenses. A obra mergulha na realidade e estabelece uma ponte entre a imaginação e a sociedade que se constrói por meio das noites de insônia.  Essas noites acendem o fogo, queimam com as verdades ditas nas horas exatas, afastam o sonho, a dor, a esperança e trazem o desencanto a quem busca sossego, mas se encontra mergulhado em mal dormidas noites .

A obra, plena de imagens, é um tributo ao fazer poético, mas é também um desejo de evidenciar a dor do povo guineense. Na epígrafe do livro Noites de Insônia na terra adormecida, Tcheka traz versos de Grabato Dias: Todo verso acaba num ponto de interrogação/ toda a poesia é um olhar para fora/através da lente da própria natureza (TCHEKA, 1996, p. 6). É nos versos desse poeta moçambicano que residem as minhas próprias interrogações a respeito da obra. Cada um deles propõe uma interrogação. Ao ler muitas dessas passagens, sentimo-nos perdidos andando pelas tabancas, aldeias do nosso país, pois os versos vão e voltam tomando seus lugares de origem.

Afinal, nem sempre os sentimentos poéticos podem ser medidos nas palavras transcritas em uma folha de papel. Muito do que transmite permanece indizível. Não esqueçamos que é próprio do poeta o impalpável. Por isso, ele faz da palavra a forma concreta para expressá-la e cicatrizar suas feridas. Nos comentários de Moema Augel, que se responsabilizou pelo prefácio do livro, percebo, por vezes, a alma do poeta: sua preocupação com a forma e com a linguagem, sua grande criatividade, sua ousadia na expressão poética (AUGEL, 1996, p. 12).

Existe uma segurança nessa voz poética, que canta, desencanta, mas parece esperar pacientemente o futuro. Existe anseio de liberdade e esperança no amanhã – esse amanhã repetido dezesseis vezes no livro. Um amanhã que é visto como distante, em contraste com o sofrimento das crianças, que cada vez mais afeta as noites do sujeito poético:

Sofro de raquitismo

por comer com os olhos

enquanto na garganta

desfilam bolas de salivas( TCHEKA, 1996, p. 117).

 

Esse profundo sentimento pelo sofrimento das crianças destaca-se na obra como título de um bloco de poemas, em que a dor se confunde com os maus-tratos das crianças da sua terra e do continente africano. Nas palavras de Augel, patenteia-se essa força poética: “António Soares Lopes Júnior é talvez o escritor que mais se preocupa com o social entre os poetas guineenses. Nomeia sem subterfúgio, mas numa linguagem refinada e metafórica, os males sociais que infelizmente caracterizam a vida quotidiana do país” (AUGEL, 1996, p. 12-13).

O livro Noites de Insônia na terra adormecida conta ao todo com 71 poemas, divididos em cinco seções; entre elas: kantu kriol; Poemar; Sonho caravela; Poesia brava e Canto menino. Cada uma dessas seções é aberta com uma epígrafe de um dos versos da própria seção. Seguimos a ordem cronológica das seções, para análise dos poemas, embora não pretendamos comentar toda a obra.

Na seção “Kantu kriol”, sentimos que a poesia está em toda alma! A poesia é a luz e possui o poder de libertar e iluminar os caminhos, e convidamo-nos a desfazer as incertezas no meio de descontentamento. Kantu kriol – que significa em língua portuguesa – canto em crioulo – é um conjunto de dez poemas todos em crioulo, sem nenhuma tradução. A tradução, às vezes, é ingrata. Esses cantos em crioulo podem dificultar a leitura e compreensão dos textos. As figuras de linguagem são tipicamente guineenses. Além disso, a expressão poética desse bloco é escrita em crioulo fundo, desconhecido para muitos novos falantes do crioulo: Vejamos, por exemplo, o poema intitulado “Balur di kebur”[66], que transcrevemos abaixo:

Radi

di

labradur

iabri

bariga

renkiadu

diblaña

 i badjudikansera

diomi na iermon

I ton di kin ku ka amonton ( TCHEKA, 1996, p. 19).

 

O sujeito poético faz alusão ao valor da colheita, destacando a cultura de lavrar a terra e de colher como uma prática de canseira, isto é, penosa. Contudo, há uma valorização nessa prática - que é a hora de colher (não é para os preguiçosos: i ton di kin ku ka amonton). O poeta firma as suas palavras e busca reconstituir a imagem e dificuldades dos homens dos campos (i badju di kansera).

No mesmo tom, o sujeito poético retoma o tema de dificuldades no poema “noba di prasa”, novidade da cidade. Destacam-se aí imensas dificuldades pelas quais passam as pessoas que vivem no interior: optam pela imigração para cidade, mas a opção traz uma vida bem difícil:

Kuma

Sabi i li na prasa

Kasabi i na tabanka

Kuma

Kanta di  matu

I tchur riba di kansera (TCHEKA, 1996, p. 21).

 

O poema indica, em vários momentos, as imensas dificuldades da vida nas zonas rurais, e a ilusão que as pessoas criaram, ousando uma mudança radical para buscar a melhor condição de vida na “Praça”. Em diversas passagens do kantu kriol, encontramos as dificuldades apresentadas ora no corpo de uma jovem ora no corpo de uma mulher. Tomemos, por exemplo, o poema: tchur di Mpinte[67]:

Mpinte tchora

Larma sekal na rostu

Mafe ka tem

Sita ka mansi [...] (TCHEKA, 1996,  p. 23).

 

Pode-se afirmar que, apesar de ter nascido na cidade de Bissau, o poeta parece conhecer bem a realidade social do interior do país – e parece apontar, nos poemas, os diversos problemas que atingem os moradores do campo. Da mesma forma que podemos perceber, ao longo dos versos, o seu questionamento em relação ao direito de vida do povo do campo. Tchur, que significa na língua portuguesa choro, é o título dado ao poema. Temos aqui uma metáfora fina, mas que pode ser compreendida facilmente dentro da cultura guineense. O choro é ato de desgosto. Na tradição guineense, quando uma família está enlutada, diz-se que o fulano tem choro – fulanu tene tchur. Em muitas situações, a família enlutada passa por um longo período de tristeza, e dificilmente supera essa dor.

O poeta comparou esse choro ao sofrimento de Mpinte, ou seja, sofrimento de muitas mulheres guineenses, principalmente as do campo, que acordam ao cantar do galo para ir pescar, vender algum produto na feira, pois não há nada em casa. A metáfora usada pelo poeta em “tchur di Mpinte”, retrata dificuldades dessas mulheres do interior, sem acesso a formação profissional e sem possibilidades de imaginar um futuro melhor. De fato, temos um choro. Essas mulheres limitam-se a cuidar de casa e satisfazer as vontades dos seus maridos. O último verso do poema quase não aponta saída para a situação da Mpinte:

[...] Ke di fasi

Nina bu kurpu

Bu sufri...

Os versos finais, contudo, parecem mostrar a solidariedade do poeta com sofrimento dessas mulheres. A saída é: Nina bu kurpu/ bu sufri. O sofrimento nos faz nobre, diz o ditado popular, bem conhecido no meio do povo guineense. O poeta conhece a terra que o viu nascer, conhece as realidades políticas do país. “si ora di riba ka ten/ kedi fasi Mpinte. O jeito é ninar o corpo no sofrimento. O sujeito poético se identifica com os sacrifícios de mulheres guineenses.

Na mesma seção, vemos o enaltecimento dos sentimentos amorosos. O amor e a amada fazem acender o fogo do seu coração: em fugu di nha korson:

Fugu sindi na

larma rola i barsan pitu

murtadjadi ña sintimentu

iardiduradi sol

iabrin kamiñu na mandurgada

disabura

nsintiuna mi

suma iagu

sintadu na fonti (TCHEKA, 1996, p. 25).

 

Neste poema é o amor que guia o sujeito poético, que o acompanha, nas lágrimas que rolam, abraçando o desejo do sujeito poético. Percebe-se que o amor é outro verbo que conjuga os sentimentos profundos do eu-lírico. Dessa forma, no poema kerensa, ele não esconde o jogo:

Abo

I moransa di ña bida

Kada fulgu di bu pitu

I un fala sabi

Kutadurmintin alma (TCHEKA, 1996,  p. 31).

 

A alma de todo poeta é feita para amar; é o que sentimos com a leitura do bloco de poemas “Poemar”. Por isso, o poeta ama, ainda que sofra. Ama, quando tudo parece ter sido moído. Os poemas reunidos nessa seção demonstram a confissão do sujeito poético: apaixonado, encantado e mergulhado nos sentimentos do coração. O poeta se refugia nas palavras – porque a alma é muda e diante dela nada parece acontecer. Como mostram os versos de “ Nostalgia”:

Cinzento nicotina

Serpenteia o meu quarto

Argola o tempo que não passa

Tu não apareces

Nada acontece (TCHEKA, 1996, p. 35).

 

A lírica amorosa de Tony Tcheka sinaliza verdadeiros sentimentos nostálgicos, abraçando melancolicamente a dor causada pela ausência da sua amada. O eu – lírico pede para argolar o tempo que não passa, porque esse tempo faz crescer a saudade e aumentar a solidão. O sujeito poético insiste, mas não consegue dominar o tempo. O fogo de amor ainda acende seu coração em  imerecimento:

Adormeço

na luz

dos teus olhos

vejo Veneza

que não conheço (TCHEKA, 1996, p. 36).

 

A voz lírica é ciente das suas Insônias. É ciente da paixão, que esse amor espalha. Contudo, não se dispõe a romper com esses sentimentos que somente os sonhos satisfazem:

              [...] Confesso:

Não mereço

A ternura

Da gôndola

Acariciando

As águas

Onda a onda (ib.).

 

O tom expressivo do sujeito poético, de certo modo, apresenta-nos o seu sofrimento intenso com a distância da sua amada. Mas este perde inteiramente os desejos e sonhos nos olhos da sua musa – que lhe faz ver Veneza, aqui símbolo de algo fora da lógica, lugar impossível de se alcançar. Sendo assim, o eu poético descarta toda a possibilidade e energia que o contagia para derrubar os limites do tempo.  Por isso insiste em “Canção de amor”:

Flor minada

No suor do seu corpo

Amanhã

Se tiveres tempo

E se acaso

O vento mudar

E no acaso

Houver luz

Dá-me um sorvo

Desse amor

Que fomos mitigando

Nos solavancos desta meia vida

Intensamente vivida (TCHEKA, 1996, p. 38)

 

O eu lírico se entrega a toda esperança no amanhã. A esperança no vento que possa mudar ao seu favor – dar-lhe “um sorvo desse amor”. Todos os versos desse poema não deixam escapar a possibilidade de que as palavras, lado a lado, com coração do sujeito poético vibrem de forma sincera; por isso, ele não quer se render, pois sabe que “O amor e eterniza a paixão” ( TCHEKA, 1996,  p. 39).

A maioria dos versos dessa seção parece querer seduzir-nos a cantar com o poeta no seu desabafo, na torcida que o seu sonho torne real. Todos eles vão ganhando forças no tempo, na medida em que o próprio poeta aceita um pouco de culpa desse sentimento que o consome aos pedaços. É o que podemos ver no poema: Mea-Culpa:

 Se me olhares

Cara a cara

e na vaga do teu olhar

os meus olhos

navegam nos teus

se a noite         

não for concubina

do segredo

se o sol não surpreender a madrugada

e os sois da noite

não apunhalarem a lua

serei eu

a falar-te

seremos nós a libertarmo-nos

tu e eu [...] (TCHEKA, 1996, p.40).

 

É preciso não esquecermos de apontar, nos versos acima, que o eu lírico parece ser dependente do tempo e das circunstâncias para libertar-se da sua solidão. É ciente da real situação da solidão. O sujeito poético quer quebrar as correntes e recomeçar a nova vida: seremos nós a libertarmo-nos/tu e eu. (Ibid., 1996, p. 40).

Se percebemos claramente o sofrimento da mulher guineense, no conto Maimuna, do livro A escola, de Domingas Samy, o poema “a Prometida”, de Tony Tcheka, também, demonstra sua preocupação em relação a algumas tradições culturais guineenses, como o casamento forçado, por exemplo. A crítica feita a essa prática é demonstrada na figura da Djena, obrigada pelos pais a se casar com um homem mais velho que ela. Djena, ciente de sua incapacidade de impedir que a cerimônia de casamento se realizasse, decide suicidar-se, com apenas dezessete anos:

Corpo de mulher           

Inerte como o silêncio

Firme como a recusa

Repousa intacta

Num sono inviolável (TCHEKA, 1996, p. 50).

 

No que se refere a essa temática, a pesquisadora Moema Augel nos oferece as seguintes reflexões:

E assim, do romance inocente como namorado Dóli, passou-se a tragédia bacilenta: obrigado pela força dos costumes do clã a um casamento indesejado, não podendo unir-se a aquele que ama Djena, como fome de amor [...] e sede de ternura, refugia-se na única saída que lhe parece possível para escapar à decisão paterna: escolhe a morte, recusando-se a comer e a beber (TCHEKA, 1996 apud AUGEL, 1998, p. 246).

 

 Se a dor da amada incomoda o poeta, no poema Carta ao pai amigo, observamos versos de luto, da falta e da saudade do calor do pai, entre outros elementos tecidos no poema que evidenciam o quadro amargo do poeta. O sujeito poético ainda sente o tempo que não passa. E viaja nesse tempo, trazendo a memória da infância do pai, sentindo até a saudade do calor do olhar dele. A saudade, a palavra que só existe em língua portuguesa, faz o sujeito desenhar o tempo e o espaço da sua infância, no seu fazer poético. E o sujeito poético canta melancolicamente:

Que saudades pai

Que nostalgia e dor

Lembrar-te

Como o tempo não passa

sem ti

Que saudades trago

do calor do teu olhar

amigo

acariciando

as minhas traquinices

Que saudade do som melódico

do teu violão...

Fecho os olhos

e vejo os teus dedos

calcando as cordas do velho banjo [...] ((TCHEKA, 1996, p.51).

           

Nove poemas estão reunidos no bloco intitulado “Sonho Caravela”. A epígrafe já nos abre o caminho para uma interpretação dos poemas que compõem essa seção:

Este estar

Assim sem estar

Faz mal-estar

Já não

caibo nesta concha (TCHEKA, 1996, p. 53).

 

Tais poemas remetem à vida do poeta no estrangeiro, concretamente em Lisboa, onde esteve ainda jovem para estudos. Além da dor da saudade da amada e do pai manifestada na seção “Poemar”, em “Sonho Caravela”, o sujeito poético sente o peso das palavras, e as pesa na balança para evidenciar o sofrimento do seu povo. A maioria dos versos desse bloco assume os traços de identidade e amor do sujeito poético pelo seu país, ainda distante dele. É possível perceber, de forma clara, a indignação e a revolta do sujeito poético. E o poeta reafirma a sua revolta no poema “Guiné”, que a seguir transcrevemos:

Guiné

De longe

Entre as  setes colinas

vejo-te

mulher-grande

sofredora

e meiga

Imagino-te

Suave

como quem diz amor

balbuciando temor

Sinto-te sombra minha

protegendo as minhas ibéricas noites

Esta ausência demorada

faz-me ver o Geba

subindo sobre o Tejo

Imagino-te

mulher-mãe

gente adulta

renascendo como companhia do mundo novo (TCHEKA, 1996,  p. 59)

 

“Guiné” aponta o grande amor que o poeta sente pela terra natal. Temos a dor e o sentimento visto no corpo de mulher-grande, a mulher velha, metáfora de sofrimento do país: cansada, sofrida, perdida nas noites sem esperança. Podemos ainda ressaltar, além do sofrimento da Guiné-Bissau, visto no corpo de mulher-grande, que o sujeito poético sobe o Tejo imaginando o país, o que poderia sugerir uma outra mãe, mulher-grande, adulta, e que nos remete à ideia de esperança  de renascimento.

Da mesma maneira que o poeta se desencanta com o destino do país, busca estender em toda obra o desejo de reconstruir a nação e acreditar em um futuro melhor, como assinalam os versos do poema “sonho emigrante”:

[...] partir e ter de voltar

rufar

como as ondas do Geba

vazar

para encher depois

Quero estar

mas cabendo na minha concha! (TCHEKA, 1996, p. 60).

 

. A meu ver, no poema, temos a concha do mar ou de rio.  Faz alusão ao emigrante que quer estar no outro país, pois procura a segurança material, entretanto quer continuar cabendo no seu próprio espaço, na sua própria identidade guineense, nos limites estreitos, mas familiares: estando fora, mas permanecendo ele mesmo. Aparece no poema como metáfora de um país estrangeiro. O eu – lírico não esconde o desejo de partilhar os sentimentos da sua saudade e ao mesmo tempo da sua tristeza, ou estranhamento com a vida de emigração: Esse estar/sem estar/faz mal estar/ já não/ caibo nesta concha (Ibid., 1996, p. 60). Percebemos, assim, que o sujeito poético, mesmo desencantado com as duras realidades de emigração do seu tempo, reafirma sempre a esperança e o amor que sente pela terra natal no poema esperança:

[...] Apenas queria

estar no regaço

da Terra-mãe

ver o sol entrelaçado

na noite

e nas paredes

da madrugada

beijar a liberdade( TCHEKA, 1996,  p. 65).

 

A ilusão também é uma das temáticas de Noites de insônia na terra adormecida. O poema “ilusão” talvez remeta à própria experiência do autor durante sua vida em Lisboa. A ilusão é um dos temas também encontrados em Kikia Matcho, romance de Filinto de Barros. A imagem do exterior sempre cativou muitos guineenses que vivem em situações difíceis. È possível, nos primeiros versos, perceber o grito do eu poético: É gente nossa partindo/ desesperadamente/semana/a/semana/vôo/a/vôo (TCHEKA, 1996, p. 63). Nesses versos dramatiza-se a ilusão de deixar o país. Os desesperados não fazem ideia da condição crítica pela qual passa um emigrante. Com certeza, a situação política e econômica do país faz com os guineenses fujam desesperadamente, ariscando as vidas, muitas vezes, nas travessias do Oceano atlântico para provar vida de “tera branco”. É gente que fica perturbada, indignada com a situação do país, querendo partir para nunca mais voltar. A ilusão parece, sim, ser a ferida incurável dos guineenses:

[...] É gente sim

Gente apinhada

Fustigada

Gente de partida

Em Bissalanka

Ir até ao fim

Para começar a vida que nunca teve (Ibid., 1996, p.63.).

 

Tony Tcheka cria e recria todos seus textos a partir das muitas e diversas imagens do seu próprio país – e parece ter pressa em dizer as verdades que precisam ser ditas. É o que constatamos na seção “Poesia Brava”. Ouso ainda dizer que os poemas do autor são violentos, na medida em que questionam o que os olhos e a barriga rejeitam em tom bravo, demonstrando a insatisfação com o rumo do país. O sofrimento parece perseguir a alma do sujeito, enquanto este vê o seu povo em paralisia, como vemos no poema Povo adormecido:

Há chuvas

que o meu povo não canta

há chuvas

que o meu povo não ri

perdeu a alma

na parede alta do macaréu

fala calado

e canta magoado

vinga-se no tambor

na palma e no caju

mas o ritmo não sai (TCHEKA, 1996, p. 71).

 

Nos versos acima, observa-se que sujeito poético mostra a realidade social guineense. Ele expõe nos versos o sossego e desassossego de um povo, que se alternam constantemente, metaforizados na palavra ‘chuva’. A meu ver, refere-se a metáfora ao tempo de constantes instabilidades políticas e econômicas pelas quais passa o país. Os versos: vinga-se no tambor/ na palma de caju/mas o ritmo não sai. [...] podem nos remeter à ideia da mágoa e do desespero da vida pela qual o povo guineense padece. Mas como vemos, este acaba por se entregar às bebidas alcoólicas, como o vinho de caju e de palma. E porque não às danças, para aliviar o seu espírito e desfazer-se do sofrimento contínuo. Contudo, não adianta nada – o ritmo não sai. Porque os tambores e o vinho de caju não conseguem apagar as cicatrizes da alma.

A alusão feita nos versos acima, do canto, do choro e da fala calados reforça a conciência das tristes condições sociais em que se encontra o povo guineense – apresentado no poema como povo adormecido, cujo objetivo maior é refugiar-se no vinho para esquecer a dor. Como assinala os versos a seguir de “Melodia do desespero”:

[...] A voz perde-se vazio da palavra

Sinto os meus pés cansados

e tanto

tanto

por caminhar! (TCHEKA, 1996, p.74).

 

Não só Tony Tcheka, mas muitos dos escritores guineenses questionam, nos seus versos, a forma como o país foi conduzido alguns anos após a independência. Tony Tcheka, o poeta das horas vivas, traz um título em crioulo – ason, mas todos os versos desse poema dançam em língua portuguesa. A palavra ason, em crioulo guineense, é figurada para referir uma pessoa anônima, não se importando com a personalidade e a posição social dessa pessoa. Queiramos ou não, parece ser quase impossível não compartilharmos o que o poeta sente por seu país; mergulhados nos versos que compõem esse poema. Percebemos que o poema cobra as promessas feitas, durante a luta de libertação nacional, de construção de um país justo, desenvolvido e igualitário.

Ason

Ontem em quinta fine

na noite iluminada

pelo fósforo ardendo

tudo queimado

falaste-me do amanhã

da vida sã

desenhaste a independência

com

brocados

de

seda

falaste-me em pão

para

cada

boca

justiça

para

cada

homem

liberdade para todos (TCHEKA, 1996, p. 75).

 

Em muitos poemas de Tcheka, o tom de insistência em um futuro melhor aparece.  No poema acima, se percebe atitude fiel e exigente em cobrar os responsáveis da administração pública guineense em relação às promessas feitas durante a luta de libertação nacional.  A crítica se revela em causa justa diante do sistema de administração pública falho. Por isso, o poeta cobra uma independência apenas desenhada, fora da realidade.  Nos versos acima é evidente o sonho adiado do povo guineense.

O poeta quer ser o ‘amanhã’ nos rostos famintos das crianças e quer ser esperança’ nas dores de muitas mulheres do seu chão, acordadas nos primeiros cantos do galo, procurando dar sentido às suas existências. Assim, sua poesia descobre o manto e revela as dores mais fundas que atormentam o seu povo em “Canto à Guiné”

Guiné

Sou eu

Até depois da esperança (TCHEKA, 1996, p. 80).

 

Essa passagem apresenta seu amor infinito ao seu país natal. Por outro lado, no poema “Poesia brava”, o sujeito poético admite aprender no sofrimento que seu país lhe ofereceu a canseira.

Aprendemos no sofrimento

Das manhãzinhas de cuntango

Sem pão

Sem manteiga (TCHEKA, 1996, p. 81).

 

Contudo, no mesmo poema, protesta e diz não aceitar esmolas. Os versos que a seguir transcrevemos levam a uma profunda reflexão, uma vez que a figura do ‘velho’ ora apresentado no poema faz alusão aos desprezos dos combatentes da liberdade da pátria: “que brigou sem saber/ Matou sem conhecer”. O eu poético recusa uma vivência de dependência e maus tratos; renega, categoricamente, uma vida sob injurias e discriminações; reconhece apenas crescer na sabedoria da vida: aprendemos no sofrimento/Das manhãzinhas de cuntangu/sem pão/Sem manteiga (Ibid., 1996, p.81).  A rejeição do poema é assumida, propondo uma reflexão sobre a sociedade guineense.

Se o poeta se desencanta com a vida, termina voltando-se para a morte que leva os entes queridos: “A morte não tem cor/ não sente/ nem pressente” (TCHEKA, 1996, p. 108). A morte que não sente e nem pressente levou a vida do pai e fez o amigo poeta ‘ negar a vida’. A expressão “negar a vida” é parte do poema “ Morte de poeta” da página 109, e faz alusão à morte repentina de José Carlos Schwarz, aos 27 anos de idade. É ao próprio poeta que empresto a voz:

Era um amigo, um irmão, um camarada com que me identificava em muitas coisas da vida. Solidário e fraterno com sentido crítico apurado. No dealbar da independência passávamos muitas horas na redação do jornal Nô Pintcha, à noite, trocando ideias e analisando o rumo do país. Lúcido e corajoso era perfeccionista em tudo o que fazia. Era um estudioso, um jovem bem informado, mas que queria saber sempre mais. Para ele não havia verdades únicas, daí uma certa rebeldia que moldava a sua maneira de ser e estar. Era também pessoa de grandes e francas gargalhadas. Gostava de viver. A sua morte prematura foi uma grande perda para o país. Foi-me difícil aceitar o seu fim de forma tão trágica e com  tanto que ele tinha para dar. Era o mais completo de nós.  Doeu e escrevi o que me ia na alma[68].

Cada vez que eu folheio as páginas do bloco “Kanto menino” me vêm lembranças de minha infância. Os versos desse bloco são denúncias em tom mais seco das realidades vividas no quotidiano de crianças guineenses sem nome, que procuram a vida nas ruas, movidas pelo desespero de sede e fome. Assim, são retratados o mundo e as dificuldades das crianças guineenses:

Sofria de desejos:

Por comer com os olhos

Enquanto na barriga

Desfilam bolas de salivas (TCHEKA, 1996, p. 117).

 

A fome e as dificuldades das crianças chamam muita atenção na escrita de Tony Tcheka. No bloco de “Canto menino”, o sujeito poético faz refrão da palavra fome e chega mesmo a tomar o lugar desse menino, desenhando não apenas o sofrimento deste, mas carregando a sua própria dor. Vejamos o poema “Chamo-me menino”:

Sou criança pobre

de uma rua sem nome

de um bairro escuro

de covas fundas

em gargante magra

Carente de pão

e sem muita ambição

Sou filho da miséria

Escancarada

Enteado da vida (TCHEKA, 1996, p. 116).

 

Esses versos parecem representar os desejos, os sonhos e todos os espaços da nação fragilizados. As promessas de independência como ilusões que fizeram com que crescessem mais desencanto nos homens, nas mulheres e, sobretudo, nas próprias crianças indefesas. Não há como ignorar a voz crítica desse texto, que desenha claramente o sofrimento dos meninos abandonados em bairros escuros, caçando com os olhos o que a barriga não alcança. Num país como a Guiné-Bissau, a fome é disfarçada, mas é visível para quem deseja enxergar a realidade. Contudo, os olhos atentos também sabem distinguir a vida na sua forma de esperança. No poema abaixo transcrito, sem sombra de dúvida, há o enaltecimento da esperança em Piquinote:

A tua fé

Chama-se amanhã

Um amanhã qualquer

Que há-de-vir

Não importa (TCHEKA, 1996, p. p.123).

 

Os versos se voltam para o futuro, e o amanhã é palavra repetida dezesseis vezes na obra. Não é à toa que, em “tecto de silêncio”, o poeta reforça e exige uma reflexão sobre esse ‘ amanhã’ tão esperado, indicando que o mesmo é desejado e constitui ainda sonhos nos olhos dessas crianças apontadas:

Amputo a desgraça

E eis a graça da criança

Florescendo a vida (TCHEKA, 1996, p.125).

 

Os poemas de bloco Canto menino demonstram claramente a profunda solidariedade e o amor pelas crianças. Constituem-se como um grande gesto simbólico e de consciência para detectar os males que assolam o país. Não é por acaso que Tony Tcheka organizou uma coletânea intitulada Eco do Pranto: a criança na moderna poesia guineense. Nessa coletânea somos conduzidos a enxergar o mundo com os próprios olhos de crianças e a identificar a dor que, muitas vezes, algumas palavras de Tcheka não alcançam.

4.2. Abdulai Sila: uma visão da realidade social guineense em Mistida

E vêm estas palavras a próposito de Abdulai Silá, guineense de Catió, profundamente marcado pela guerra e pelas suas crueldades, com uma vivência atenta ao mundo que o rodeia e uma procura árdua de justiça e solidariedade humana. (CAVACAS, in: SILA, 2002, p. 7).

 

Abdulai Sila é engenheiro eletrotécnico, formado pela Universidade de Dresden (1979-1985), na Alemanha. Além de exercer a função de escritor, ele também é um investigador social.  Nascido em Catió, região sul da Guiné-Bissau, em 1 de abril de 1958. Filho de Aliu Sila e de Aissato Baldé. Em 1970, o au