Mostrar mensagens com a etiqueta branquitude. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta branquitude. Mostrar todas as mensagens

4 de dezembro de 2022

CARO AMIGO RACIALIZADO (DA BRANQUITUDE)

Caro amigo racializado (da branquitude)



Caro amigo racializado, escrevo-te, digo, com o fito de esclarecer algumas dúvidas críticas intrínsecas da minha forma de ver as coisas. Não tenho forças para me aguentar nessas cordas onde baloiças, por isso faço uso destas prosas a ver se me concedes algumas respostas. Posto este aposto, avanço com as questões, que embora possam parecer determinações garanto-te que não são, são meros pensamentos que precisam de acertos, e eu estou aberto a que me digas o correto. Perfeito? Feito! 


Caro amigo racializado, sabes, entre alguns dizeres frequentes no discurso eloquente dos nossos batalhadores intransigentes, aparece presente quase sempre este: "todo o branco é racista"; e também este: "todo o branco é agente da branquitude". Fazendo revista, eu acho isso um tanto fatalista e um tanto pejado de azedume, um pouco torpe e rude, porque põe sempre o branco no cume, dá-lhe um enorme volume, não importa se ele se cobre de perfume ou se consome estrume ou se batalha no sopé ou se rala lá no ré ou se trabalha no convés ou se fala lá da galé ou se é um tralha sem pé que rala como a ralé, ou se se agasalha sem estaminé, ou se exporta café. Eis o meu lamiré. Não, não importa, não, se o gajo chora sem pão ou se explora algodão, para ti todos os brancos estão no mesmo diapasão, e isso eu acho então que é coisa sem noção ou uma intenção que não vejo a razão. 

Pois é, dizes que basta ser branco para ser racista, então em simplificações silogistas, um branco anti-racista ou é mentira ou é um branco sem auto-estima e é um branco contra si mesmo, a tomar veneno para um certo tipo de suicídio (da cor? da classe? da raça?), uma vez que o racismo, de acordo com o teu dito, é um hino do fatalismo: nasce-se branco, nasce-se racista, pronto, é o que se regista. Eis o pecado original a conspurcar a vida. Acho que é normal concordar que o racismo é uma construção social, logo, como tal, da minha perspetiva (banal, vou afirmar), uma vez que é factual que ser branco não é um estado social, mas natural, porém, é consensual, suponho, que o racismo é artificial e a branquitude é artificial, então quando se nasce branco, nasce-se apenas branco, porquanto ninguém escolhe a sua pele (tirando Michael Jackson, é claro, e um par deles, mas é raro). Não quero fazer de advogado do diabo, porque sei de que rabo o fogo dá cabo, mas ainda assim, mano, acho que temos que adequar as falas e os planos, porque também o privilégio não deve ser ausente de contexto. Há mundos e mundos, há fundos e fundos, uns mais rasos, outros mais profundos, mas em todo caso, são todos buracos e são tantos buracos. Há quem tenha tanto, há quem tenha só nacos, e há também brancos muitas vezes a rolar em fezes mais do que negros guineenses. Quando não olhamos de forma vesga há sempre uma nesga de diferença que geralmente não vemos. 

Caro amigo racializado, creio de facto que nascer branco não é nascer racista, por mais que insistas nesse ponto de vista. Se todo o branco é racista qual é o ponto da luta anti-racista? Ser uma espécie de conquista genocida? Se todo o branco é racista, acabar com o racismo é acabar com os brancos, uma vez que não há educação possível para acabar com a cor. Além do mais, meu rapaz, a branquitude vai para além da cor. Já me explico melhor, controla o fervor. 

É que o racismo é sistémico, mas o racismo não é o sistema, o sistema é racista, mas o branco não é o sistema. Há brancos, que apesar de privilegiados pelo sistema da branquitude, têm melhor atitude e senso de virtude sendo menos racistas, criando menos problemas a gente negra nesta cena do que muita malta preta que carrega o tema como emblema. Faço-te uma lista (curta, todavia) de malta branca que aplica os seus privilégios na luta anti-racista de forma mais precisa do que muitos brodas e muitas sistas anti-racistas. Aliás, quantos pretos não conhecemos que carregam a bandeira como maneira de fazer a sua carreira e ganhar o seu privilégio só para si mesmo? Estão sempre de livro aberto, mas tornando-se no pleito mais colonialista do que aquele que critica. Quanto pretos não conhecemos nas nossas Áfricas que são mais agentes da branquitude do que muitos brancos? Por exemplo, achas que a Isabel dos Santos poderá usar os prantos e os desencantos de uma negra a quem o mundo quase tudo nega, sem ser pega a ser ridícula? Achas que ela poderá usar o discurso de “privilégios” só por causa da sua pele negra e da sua africanidade? Na verdade, quantas irmandades existem nas nossas áfricas que são agentes da branquitude? 

Voltando atrás, nem todos os brancos são racistas, e ser preto não significa não ser racista, pois todo aquele que reproduz a prática, não importa a cor da pele que o cobre é um agente torpe deste sistema podre. Não estou a falar de racismo-reverso, esse conceito perverso, mas a apontar o dedo ao preto que discrimina preto.
 
Mais, até digo que a branquitude e o racismo, por vezes se confundem, por vezes até se fundem, mas são distintos e cada um com o seu mecanismo. Quando contextualizamos a luta apenas na Europa branca, eu concordo contigo, sem esperança: o privilégio é branco e o beneficiário da branquitude é maioritariamente branco. Mas a África não está fora dos grilhões da branquitude, porque a branquitude é mais do que a cor branca, a branquitude não é sobre indivíduos nascidos de motivos biológicos não decididos por eles mesmos, mas sobre o sistema que opera na base de uma regra odienta que cega e nega afeto ao mundo preto. A branquitude usa o racismo para operar e segregar e o racismo, apesar de branco (se falarmos só da Europa, porque, caro amigo racializado, temos a China ali ao lado também a racializar-nos), o racismo opera noutro nível, controlando povos e economias, mas concentrando-se mais na cor. A branquitude é uma prática que ultrapassa a questão da pele, a branquitude incute uma falsa virtude que se nutre de privilégios e de classismo (também espelhos de racismo), ou da dita educação ou dum padrão de viver e de ser, chamado europeu, para iluminar o breu e que é atirado com escarcéu para educar o mundo plebeu e enfiar-lhes pelo reto adentro o chamado desenvolvimento... sustentável(?). O próprio Fanon que tanto se cita que até irrita também isso indica quando critica as máscaras brancas. 

Podem até ser idiotas estas minhas notas, mas creio que: 

1. Quando reproduzimos os padrões e ensinamos as lições que reforçam a razão do poder capitalista ocidental, estamos a propagar o sinal com essa atitude e a reforçar a branquitude. 

2. Quando fazemos galas em salas largas e amplas para criar escalas para medir pessoas negras e comparar-lhes as talas e premiá-las com medalhas dadas por ditas batalhas ganhas em áreas criadas para uma "elite" branca, criando também os nossos negros premiuns, não estamos senão a brincar à branquitude. 

3. Quando, por exemplo, na África, alteram-se práticas e sustentam-se práticas que no fundo são táticas de criar dinâmicas para manter as classes estáticas, mas todas elas baseadas nas escalas ocidentais, reforça-se a branquitude. (Atenção, contudo, não foi a branquitude que inventou as castas, e as castas até são mais dinâmicas na Europa branca e em culturas ocidentais do que em outras culturas africanas e ditas "ancestrais"). 

4. Quando um preto facilmente se ilude e, em nome da educação e da saúde, ou da economia e outras vicissitudes, cria taludes em várias amplitudes para canalizar através de ONGs ocas a postura hegemónica e económica da Europa e do Ocidente para aplicar sobre a sua própria gente, amiúde reforça é a branquitude. 

5. Enquanto a economia continuar a ser controlada pela Europa, e todos os nossos passos são desenhados lá fora, e somos obrigados a fazer a dança, com pessoas das nossas próprias casas a impor-nos essas taxas, sipaios modernos chamados de banqueiros e governos, não escapamos da branquitude. 

6. Enquanto as nossas práticas económicas são subvertidas para podermos figurar nas listas de PIB, com códices estranhos e índices não claros e outros indicativos e paliativos estabelecidos pelo FMI e o Banco Mundial e com ânimo alteramos as práticas económicas a troco de dinheiro, para os nossos mealheiros, esquecendo que a nossa gente se gere à base de uma economia diferente, tornamo-nos agentes da branquitude. 

7. Enquanto a universidade continua veementemente a ser controlada pelo ocidente, com os saberes africanos a serem chamados de locais, e os saberes ditos universais são aparentemente ocidentais, e não criarmos e alimentarmos sistemas paralelos, mas continuarmos a falar da UNIversidade, em vez de PLURIversidades, MULTIversidades ou TRANSversidades, vamos continuar na corda branquitude. 

8. Enquanto ainda os nossos diplomas são mais válidos quando mais válidas são as universidades ocidentais que os emitem, e enquanto não os paramos de exibir de modo egoísta todo orgulho das nossas conquistas aos nossos conterrâneos que não tiveram a dita, como gente mais benquista, superiora e mais merecedora de glórias, somos agentes da branquitude. 

9. Enquanto as nossas religiões continuam centradas num deus branco, não importa os sincretismos e apropriações, continuará a ser o mimetismo das religiões brancas, e estaremos sempre nas camadas mais rebaixadas. 

10. Enquanto tu e eu lutamos para melhorarmos a nossa condição e situação económica aqui na Europa, mesmo sabendo que essa riqueza pela qual pedimos melhor distribuição é canalizada através da exploração das nossas áfricas, estamos a ser tão hipócritas quanto. 

Caro amigo racializado, só para deixar claro o que eu acho nesta missiva: nascer branco não é nascer racista; o preto também pode ser agente da branquitude, com vaidade ou platitude, consciente da atitude ou um inocente que se ilude. Por isso acho que epítetos fatalistas não servem o movimento anti-racista, porque não foram os pretos, nem foram os brancos, que andaram durante todos este tempo a dar o litro para criar filtro e resolver este problema criado pelo branco (aqui estamos concordado), porque havia tantos pretos como brancos que estavam e estão resignados com o estado do cenário, no entanto, foram pessoas, almas humanas (também más e também boas), mas conscientes e iradas, valentes e desapegadas, dos dois e mais lados que batalharam do mesmo lado como aliados. 

O mesmo que disse ao amigo guineense, também aqui vale: “O conflito para a libertação da Guiné não foi feito apenas por pretos, mas na revolução entre os sacrificados houve também brancos; e a lutar para manter a colonização, confirma a afirmação, estavam também pretos e ainda estão pretos, disso podes certo.” 

Caro amigo racializado, já ambos estamos cansados, por isso rematando, quando conversar sobre racismos, branquitudes e privilégios, não te esqueças nunca de criar contextos, não repitas os mesmos ditos como se fossem vícios, não fales do sistema como se operasse e oprimisse de modo igual em todos os sítios, sem fitos e nem tipos, ou como se o contexto dos pretos nos EUA fosse igual ao dos pretos em Portugal e destes ao dos pretos no Brasil e daí ao dos pretos na Guiné. 

Vou parar por aqui, mas como quero ainda conversar contigo sobre o dito “lugar de fala”, não é aqui que este exercício de raciocínio acaba.



(originalmente publicado no buala)

14 de janeiro de 2022

CARO AMIGO BRANCO (DA REVERSÃO)

Caro amigo branco, posso parecer chato, mas não penses, no entanto, que sou apenas um gajo irritado e frustrado a descarregar o seu desagrado em ti, escrevendo, assim tanto, caro branco, porquanto os textos que endereço aos amigos pretos costumam ser mais extensos.. (a comparação com o preto é só para te deixar mais brando)... Dito isso, prossigo.
Caro amigo branco, para ser franco, sim, sinto-me frustrado, frustrado por não conseguir ter um intercâmbio calmo contigo quando o assunto é racismo. Mal pronuncio o termo, parece que te desperto medos, ou mexo no teu credo, pois quase recebo um decreto de degredo, pois acendo em ti um fogo com que te coloco logo em modo de guerra, com paus e pedras, a sentires-te atacado e pronto para dar o pago por te ter incomodado. Quando falo de racismo, dizes que faço extremismo e dizes que a minha conversa é uma pista de que os pretos são ainda mais racistas.
Dizes que os pretos são mais racistas, e... bem, nisso até concordo contigo, alguns são, pelo visto, mas por motivo distinto, pois está mais que visto que o preto é o objeto do racismo, e que o racismo diminui o preto no seu humanismo e o transforma num bicho ou num lixo perante a superioridade branca. A bronca é que há tanta, mas tanta gente preta que aceita essa ideia da chamada superioridade branca, e por via disso reproduz o racismo e trata outros pretos com desdém, reproduzindo o que convém para manter a superioridade do branco. Nesse caso, claro, o preto é mais racista, e mais do que isso, é burro, porque alimenta uma cena que só o prejudica. Pior racista é o auto-racista. Nisso concordo contigo, repito. Mas, caro amigo, quando vens com o termo racismo-reverso, penso aqui dentro que não estás a ser honesto, nem comigo, nem contigo...
Vá lá, calma, eu explico.
Caro amigo branco, é mais do que claro que o racismo é branco. É tão branco, tão branco, tão branco que quando és discriminado por um preto, nem o chamas de racismo, mas de racismo-reverso. Será que consideras que a discriminação preta não tem o pedigree necessário para ser racismo, mas é apenas um tipo ou uma amostra ou uma tentativa de emular a coisa? Às vezes até admiro que não o chames de afro-racismo ou etno-racismo, como fazes com tudo o resto que não está no centro do teu ocidentalismo, como por exemplo, músicas étnicas, vestimentas étnicas, etno-filosofia, afro-literatura, etno-matemática, entre outros exemplos. Sei que pareço repetitivo com isto, mas infelizmente tenho de repeti-lo tantas vezes para que o seu sentido te fique no ouvido.
Caro amigo branco, nota, por favor, nota que consideras o branco como a cor padrão, razão por que com vazão chamas a todas as outras pessoas de pessoas de cor, porque o branco não tem cor, naaaaá, não tem, não. Mas se passares pano nos teus autos, verás, no entanto, que branco é uma autodenominação. Os pretos chamam-vos de brancos, porque vocês se chamaram a si mesmos de brancos. Os pretos, podes estar certo, conhecem a cor-branca, meu caro amigo cara-pálida (como vos chamaram os "vermelhos"), e a cor branca não é nada parecida com a vossa cor-de-rosa. Se fossem os pretos a denominar-vos, e se calhar até denominaram mas vocês rejeitaram, talvez vos chamassem de "couro-de-porco" ou de "ânus-de-porco", devido a similaridade cromática... Naaaaaaaaaá, não é minha prática, longe de mim querer insultar-te, caro amigo branco (tsc, tsc, estou a piscar o olho esquerdo, meu caro).
Vocês criaram a cor para os outros, porque o branco é aquele que é por si mesmo, feito a imagem de deus, não é como o preto que, segundo a tua bíblia, é o filho amaldiçoado por Noé para ser escravo dos irmãos brancos justos e puros, essa bíblia que empunharam, junto com outras armas, e com a qual amansaram até ao sopé da sua alma os desesperados pretos, e essa bíblia que nós empunhamos agora em auto-flagelo... Está bem, aceito, não acreditas em Deus, és ateu, mas não te esqueças da ciência da raça que criaste para a desgraça dos outros... Não foste tu? Como não? Se dizes que levaram a língua e civilização a povos pretos, se dizes que fizeram os descobrimentos, se dizes que fizeram tudo isso, por que queres retirar-te agora do plano do racismo?
Caro amigo branco, quando as pessoas falam do racismo, falam de um sistema ridículo construído por uns brancos ricos no alto do seu imperialismo e que tem diminuído vários indivíduos, arrastando-os para um abismo de auto-depreciação. O racismo é uma ação baseada no poder e na dominação, o racismo aliou-se ao capitalismo, o racismo é parte de um sistema económico, político e social de controlo das mentes, que atira gentes contra gentes, convencendo gentes de que são mais gentes do que outras gentes.
Não há lugar para racismo-reverso quando o balanço do poder continua o mesmo. Além do mais, o racismo é racismo, no seu verso, no inverso e no reverso. Atitudes discriminatórias baseadas na pele, é, sim, racismo, vindo da parte de quem venha. Sim, os pretos podem ser racistas e os pretos também são racistas. Mas quando um preto te discrimina, ele está em defensiva, usando a ofensiva que os brancos criaram. Mas quando um preto te discrimina, o que é que te acontece? Nada! Sentes-te discriminado e ferido e injustiçado e dás ali por isso tudo por terminado, pois não te sentes nem perdido, nem desnorteado, porque tens um mundo para te apoiar e ainda te elogiar pelo teu aproximar, e ele ainda até é visto como o bicho ingrato que mordeu a mão que lhe deu um prato; porém quando tu discriminas um preto, não é só esse teu gesto sem afeto que o afeta, mas tens de ter tento que tens do teu lado todo um sistema perverso e um universo de dejetos construído em séculos de sofrimento de povos opressos que esmagam o desgraçado.
Entendeste por que não faz sentido o teu hino de racismo-reverso? Não? Então, pensa num gigante com luvas de aço a boxear contra um magricelas sem um braço e com os olhos vendados e com o árbitro do outro lado, e ainda o gigante a dizer todo exaltado que é um confronto equilibrado porque é entre dois humanos. Não é justo, pois não? De facto! E neste cenário perturbante és tu o gigante.
Volto a dizer a mesma coisa que antes, os pretos também são racistas. Vai à Guiné, caro amigo branco, e vais notar que vais ser tratado melhor que os outros fulanos, só pelo simples fato de seres branco, porque o tom da tua pele está associado a mais dinheiro e a mais poder e a mais influência, portanto é bom que caias nos nossos encantos para que nos beneficie de algum modo. E relacionamos tanto o branco ao dinheiro que chamamos de branco a um preto vindo da Europa com aparente matéria na carteira. Caro amigo branco, há pretos a serem racistas com pretos em favor do branco, porque fomos assim ensinados desde que fomos colonizados, e quando falamos que escapamos desse antro, notamos que evacuamos para um campo minado, a reproduzir a todo o pano atos que só nos causam dano ("no sai na pilon, no kai na balei"). E tu ainda vens com esse papo de racismo-reverso?
Vai à África e verás tantos tontos a tintar a pele, a tragar tolices e a estragar a pele, tentando ser mais "brancos" para corresponderem a uma ideia de superioridade idiota. Vai à África e verás um culto aos mulatos e um ódio aos mulatos porque são mais brancos que pretos, mas não são brancos o suficiente para serem tratados com cuidado e portanto são os melhores alvos de ódio deslocado. Vai à Guiné e verás mulatos (vermelhos) a discriminarem pretos, a tratarem-nos como insectos, porque se acham "mais" superiores e mais corretos, porque se veem como intersectos do mundo branco. E ainda falas de racismo-reverso? Pelamordideus, caro amigo branco, tira o crânio do próprio rabo e analisa os dados que te são dados. Porque praticado pelo branco, praticado pelo preto, quem é beneficiado pelo ato és tu, ó caro branco.
Quando se fala de anti-racismo, não se está a falar de te quebrar, está-se a falar de quebrar um sistema, um sistema que não te afeta por não teres a cor preta. Quando se está a falar do anti-racismo e se está a falar de destruir os teus privilégios, não é racismo-reverso, é simplesmente porque os privilégios, os sociais, pelo menos, significam para outros ausência de direitos.

Dois pesos... Dois medos... Dois dedos de testa e atesta-te com pensamentos isentos do teu privilégio e verás como é perverso o teu credo de racismo-reverso. Podes ser vítima da "branquitude", podes ser vítima do capitalismo, mas não és vítima do racismo.
Resumindo, quando um preto te discrimina na base da tua cor, o ato é racista, sim, e aquela tua dor é aflitiva, sim. Mas não te atrevas a comparar um ato (o seres discriminado uma vez por ano, por uns dois bacanos zangados, num canto qualquer do Bairro Alto) com um sistema (o seres discriminado todos os dias do ano por todo um estado e por uma horda de asnos que nem sabem que o fazem e que o negam em grandes espasmos de virtuosidade, batendo no peito, torcendo os ventres e rasgando as vestes), um sistema que faz ainda seres discriminado pelos teus próprios manos apanhados naquele buraco no racismo criado. Não te atrevas, caro amigo branco, não te atrevas porque estarias a mijar no rio Sado com o plano de deixá-lo salgado.