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16 de maio de 2022

CARO AMIGO POLIAMORISTA (DA ETICIZAÇÃO)

Caro amigo poliamorista,

Espero que esta missiva te encontre de boa com a vida e na crista da onda, onde andas como especialista a fazer revista na tua boa lista de poliamoristas e outras em vista de te fazerem festinhas. A sério desejo mesmo que não estejas num ermo, a sentires-te enfermo, mas a curtir amores em cheio com o sucesso de envolvimentos plenos.

Caro amigo poliamorista, nós, seres humanos, somos todos falhos e metemo-nos em trabalhos, porque nunca queremos as mesmas coisas, cada um de nós poisa os seus ideais nas suas próprias notas, e é por isso que todos criamos regras e guias para as nossas vidas ou escolhemos seguir as linhas que o nosso indica como onde se respira mais sentido nesta via. Todavia, se algumas dessas regras parecem menos cegas ou são mesmo menos bestas que outras, não significa que não possam ser escrotas ou que sejam perfeitas e feitas para além da crítica. Cri e vi cá que o poliamorismo pode ser boa prática, sendo genérico, é certo; mas lá porque dizemos, às vezes histéricos, que o poliamorismo é "consentimento ético", não quer dizer que seja assim mesmo, e nem que o "consentimento ético" seja um exclusivo do poliamorismo.

É muito comum, sem freio nenhum, ver-te a chamar aos "monogâmicos" de traidores, quase como se fossem seres inferiores, que não sabem gerir os ciúmes e as dores e os ardores. E para provar quão errados são os monogâmicos, dizes que a monogamia é uma fantasia, uma construção social, logo está mal por não ser natural. Também dizes que a monogamia é da autoria do capitalismo, mas... hey... a monogamia é bem anterior ao capitalismo, pelo menos o capitalismo formal que conhecemos hoje, do qual até o diabo foge tomado de medo, e ao qual todos apontamos o dedo. E, caro amigo, o capitalismo também usa o poliamorismo, usa as não-monogamias e com todas as mordomias usa qualquer movimento capaz de aglutinamentos... o capitalismo não descura nichos, dá e tira com capricho e trata a todos como bichos.

Enfim... dizes assim e com tanta certeza: "Os animais na natureza não são monogâmicos, logo o ser humano não é feito para ser monogâmico." Bem concordo contigo, caro amigo, quando dizes que os animais não são monogâmicos...mas nem são poligâmicos... muito menos poliamoristas... todavia há espécies que só têm um parceiro e há os porreiros que não precisam de sequer do sexo e reproduzem por si e consigo mesmos, mostrando que a função do sexo talvez não seja meramente...Atenção, não estou com essa menção a dizer que a copulação serve só para reprodução, aliás nem define a reprodução, uma vez que, como acabei de dizer, há espécies que reproduzem sem foder... Largando este papo para outro espaço vou retomando: nem o ser humano é monogâmico ou poligâmico ou poliamorista, ele pode praticar tudo isso da lista, mas como espécie não o caracteriza. O ser humano não é um ser orientado apenas pelas básicas lógicas biológicas, mas faz as suas próprias, psicológicas e sociológicas. Destarte reduzir o ser humano a apenas uma camada: a animal, é negar que o pensamento e a organização social fazem parte da nossa evolução e nos ajuda com resoluções, e que foi o que nos ajudou a sobreviver a sérios novelos de desvelos, e paradoxalmente, a criar o antropoceno.

Nós deixamos de ser meramente "natural", quando começamos a criar, é só observar. Usamos óculos para melhorar os olhos, fones para ouvir melhor, adoçantes para o sabor, pacemaker para fazer bater o coração, e injeção e inoculação e vacinas para estender a vida, resistindo mais às adversidades biológicas. Transformamos e transformamos. Por exemplo, os dentes que que antes arreganhávamos para assustarmos os outros, hoje com novos modos arreganhamo-los como engodos, em sorrisos rasgados, para criar contactos. Ou por exemplo, hoje falamos tanto mesmo do problemático que é a masculinidade tóxica, da qual a gente não se quer próxima, filha da cultura do macho-alfa, e da qual se quer dar um basta, mas a natureza está cheia de exemplos de machos-alfa, o que, todavia, não nos faz falta, razão pela qual a ideia não se salva, pois não queremos descer a escarpa a louvar a cultura alfa. Em resumo: somos também construtos sociais e não mais apenas animais tintos com instintos não distintos.

Repito e remarco, a monogamia é tanto uma construção social quanto as não-monogamias. E de forma fria, também o amor é uma construção social, porque a noção do amor ou da sua demonstração também varia de sociedade para sociedade e é apreendido socialmente... Mas lá porque algo é uma construção social, não significa que seja do mal. "Não matarás! Não roubarás! Não foderás o teu vizinho... a não ser que ele peça com carinho!", são construções sociais, mas ajudam a sociedade a funcionar de forma mais capaz. 

Entendes caro amigo?, não obstante ser difundido como padrão e destruído formas de relação e de ligação, o conceito da monogamia não é problema por si mesmo e nem devia. Só quando os seus cônegos e crentes gastam fôlego e tempo e agem de modo cego a atacar as outras formas de relação, aí sim, entra a questão da problematização.

Hoje a monogamia é norma (regra, entenda-se)... as normas podem ajudar até deixarem de fazer sentido, até serem casos perdidos, ou começarem a causar mais mal do que bem, mas todos vivemos com normas, tanto que às vezes a forma como comportas com a questão do poliamor parece que não queres dar respostas, mas substituir uma norma pela outra, que ainda não tem a mesma expressão política e expressão opressora. Sim, falo de substituição e de opressão e não de alteridade, porque da forma como te vejo a policiar a poliamoridade parece-me que não queres deixar espaços para a liberdade de amar, embora seja o que andas a advogar. Caro amigo poliamorista, ama, deixa amar, deixe-se amar, sinta o amor, lambe-lhe a cor, toque-lhe o odor, olha o seu som, cheira-lhe a textura, sem gráficos complicados a qualificar os envolvimentos... aliás, não é o que pedimos aos monogamistas?

Caro amigo poliamorista, falas tanto do "consentimento etico", mas há muitas formas de relacionamentos que são éticas, como já tinha dito, e não é só o poliamorismo. A monogamia pode ser ética, a poligamia também pode ser ética, embora esteja a sua mais comum forma, a poliginia, fundamentada no poder macho (atemo-nos ao mundo humano, para evitar a cena dos alfas, embora o que não nos falta seja animalidade).

Sobre o consentimento ético, na Guiné-Bissau, a título de exemplo, é bastante comum a poliginia... o contrário não se verifica... todavia, apesar disso muitas vezes são questões acordadas, muitas vezes propostadas pela mulher, porque precisa de ajuda nos campos e na casa e no poço e nos trabalhos e nos trampos diários e no etecétera, enquanto o marido se senta o dia todo sozinho a sacudir moscas com um rabo de vaca ou a coçar os testículos numa outra tabanca. Claro que as suas circunstâncias é que as levam a isso, e se conhecessem ou vivessem noutra realidade, quereriam outra coisa com maior equidade. Apesar de tudo, algumas, dentro dessa sua prisão e da sua limitação, escolhem e consentem.

Anos antes do capitalismo pintar as sociedades guineenses, a poligamia (poliginia) já existia, e em uma dessas sociedades fala-se da existência outrora da poliandria, mas da qual nem sombra se vê hoje em dia, provavelmente resultado das evangelizações ou de outras razões. Quanto às sociedades poligínicas, o número das esposas dependia dos posses do homem, quanto mais campos e mais gados, mais esposas e mais filhos (mãos de obra). O capitalismo ainda não tinha ali chegado, a economia era centrada no sector primário e configurava e influenciava as relações ditas amorosas. Hoje ainda é a mesma coisa em todo o mundo, porque no fundo só a economia mudou, a relação do poder continuou.

Falei disto para dizer que nem a monogamia nem a poligamia são frutos imediatos do capitalismo, ou pelo menos do capitalismo formal moderno, embora, sim, sejam usados pelo capitalismo (tal e qual o poliamoriasmo). Há uma sociedade guineense que é poligínica, mas que tem mecanismos para a mulher vazar as suas frustrações com outro indivíduo masculino que lhe seja querido, não precisa do consentimento do marido, o marido pode até sentir-se traído, mas não há castigo, não há punição. E essa noção é a razão por que pode haver "consentimento" na "traição". E a chamada "traição", se calhar, não é de todo não-ético. Pessoas dormem com outras e "traem" por diferentes razões a que razão pode conhecer ou talvez não; algumas traições são necessárias pelas suas próprias razões, pode ser por sobrevivência mental ou material ou emocional ou social ou seja qual for, é preciso sempre contextualizar... a não ser que a ideia da ética seja mesmo uma forma de dogma. "Não matarás" é ético com certeza... mas... e se for em legítima defesa?

Caro amigo poliamorista, tenha isto em perspetiva, não somos e nem percebemos mais ou melhor do amor do que monoamoristas, só por sermos ou por nos dizermos poliamoristas, apenas temos um diferente entendimento. Aliás o poliamorismo pode ser tão tóxico quanto o monogamismo, porque a questão, caro amigo, não é a prática, mas quem a pratica e a forma como a ela se dedica.

Sob a capa do poliamorismo, também abrimos abismos e também temos predadores sexuais, stalkers (reais e virtuais); também passio-dependentes que usam outras gentes para a satisfação pungente dos seus vícios; 
temos visto gente com medo de compromisso que por isso transita entre corações sofridos para se abster de se comprometer com alguém, magoando antes com medo do distante; temos machos a defender a política de pénis único, com argumentos túrgidos, ciumentos como tudo, a controlar e a abusar de mulheres;  temos pessoas traumatizadas a traumatizar outras almas; temos pessoas mentirosas, traidoras e manipuladoras; temos pessoas em dezenas de relações (superficiais) sem a consideração que o amor e a afeição exigem tempo e cuidado, e que o nosso coração pode ser uma imensidão, mas o nosso tempo não (não sei o que é o amor, mas sei o que para mim não é amor); temos pessoas a usarem a questão das relações como se de uma religião se tratasse, como se de um produto se tratasse, capitalizando dela, virando gurus de tudo e mais alguma coisas e manipulando almas confusas que abismos cruzam... enfim, resumo, por não poder elencar tudo, pode te parecer absurdo, repito, mas não é sobre a prática em si, mas sobre quem a pratica. E ser poliamorista não é ser anticapitalista, é só ser poliamorista.

Usar o poliamor como uma bandeira política é parte da vida, quando uma escolha consentida e objetiva. Mas quando o poliamorismo se revolve num ativismo extremo, que quer roubar os remos e que vemos a chamar a todos os monogâmicos de cegos, de imbecis e de carneirada afogada na traição e na ilusão, que não faz mais senão traição (como se a limitação da traição seja sexual ou como se a traição seja um exclusivo do monoamorismo), aí fica difícil acreditar que o teu poliamorismo não seja só clubismo. Até entendo que recém-convertidos ao poliamorismo sejam irritantes, porque como parece que descobriram uma novas verdades,  mas antes distantes, 
sentem-se arrogantes e tornam-se mais chatos que um recém-vegano ou um recém-ateu iniciado. Mas mais chato mesmo é um récem-ateu e recém-vegano recém-convertido ao poliamorismo. Por isso, há quem te supere, caro amigo.

Caro amigo poliamorista, o consentimento, esse vem em diferentes pacotes, com diversas texturas e diversos sabores e diversos toques e diversos odores, e, olha lá, embora se creia universal, a ética, se calhar, depende de contextos. Mas o que é certo certo certo certo mesmo é que o poliamor tem tanto peso e tanto problema quanto o monoamor, não fosse o poliamor uma prática desenvolvida por seres não perfeitos e tão insatisfeitos e inquietos como os humanos. Por isso, meu caro, às vezes, o mais claro é relaxarmos apenas, aliviar as penas, abrir as pernas (ou outras cenas) e vivermos a nossa verdade, protegendo-a, é claro, de ataques bárbaros, mas sem andarmos despertos e soberbos a emular os atacantes num jogo fedorento e, com asco, nos colocando no lugar do carrasco. 

A não-monogamia não é por si só ética. Ponto.




14 de janeiro de 2022

CARO AMIGO BRANCO (DA REVERSÃO)

Caro amigo branco, posso parecer chato, mas não penses, no entanto, que sou apenas um gajo irritado e frustrado a descarregar o seu desagrado em ti, escrevendo, assim tanto, caro branco, porquanto os textos que endereço aos amigos pretos costumam ser mais extensos.. (a comparação com o preto é só para te deixar mais brando)... Dito isso, prossigo.
Caro amigo branco, para ser franco, sim, sinto-me frustrado, frustrado por não conseguir ter um intercâmbio calmo contigo quando o assunto é racismo. Mal pronuncio o termo, parece que te desperto medos, ou mexo no teu credo, pois quase recebo um decreto de degredo, pois acendo em ti um fogo com que te coloco logo em modo de guerra, com paus e pedras, a sentires-te atacado e pronto para dar o pago por te ter incomodado. Quando falo de racismo, dizes que faço extremismo e dizes que a minha conversa é uma pista de que os pretos são ainda mais racistas.
Dizes que os pretos são mais racistas, e... bem, nisso até concordo contigo, alguns são, pelo visto, mas por motivo distinto, pois está mais que visto que o preto é o objeto do racismo, e que o racismo diminui o preto no seu humanismo e o transforma num bicho ou num lixo perante a superioridade branca. A bronca é que há tanta, mas tanta gente preta que aceita essa ideia da chamada superioridade branca, e por via disso reproduz o racismo e trata outros pretos com desdém, reproduzindo o que convém para manter a superioridade do branco. Nesse caso, claro, o preto é mais racista, e mais do que isso, é burro, porque alimenta uma cena que só o prejudica. Pior racista é o auto-racista. Nisso concordo contigo, repito. Mas, caro amigo, quando vens com o termo racismo-reverso, penso aqui dentro que não estás a ser honesto, nem comigo, nem contigo...
Vá lá, calma, eu explico.
Caro amigo branco, é mais do que claro que o racismo é branco. É tão branco, tão branco, tão branco que quando és discriminado por um preto, nem o chamas de racismo, mas de racismo-reverso. Será que consideras que a discriminação preta não tem o pedigree necessário para ser racismo, mas é apenas um tipo ou uma amostra ou uma tentativa de emular a coisa? Às vezes até admiro que não o chames de afro-racismo ou etno-racismo, como fazes com tudo o resto que não está no centro do teu ocidentalismo, como por exemplo, músicas étnicas, vestimentas étnicas, etno-filosofia, afro-literatura, etno-matemática, entre outros exemplos. Sei que pareço repetitivo com isto, mas infelizmente tenho de repeti-lo tantas vezes para que o seu sentido te fique no ouvido.
Caro amigo branco, nota, por favor, nota que consideras o branco como a cor padrão, razão por que com vazão chamas a todas as outras pessoas de pessoas de cor, porque o branco não tem cor, naaaaá, não tem, não. Mas se passares pano nos teus autos, verás, no entanto, que branco é uma autodenominação. Os pretos chamam-vos de brancos, porque vocês se chamaram a si mesmos de brancos. Os pretos, podes estar certo, conhecem a cor-branca, meu caro amigo cara-pálida (como vos chamaram os "vermelhos"), e a cor branca não é nada parecida com a vossa cor-de-rosa. Se fossem os pretos a denominar-vos, e se calhar até denominaram mas vocês rejeitaram, talvez vos chamassem de "couro-de-porco" ou de "ânus-de-porco", devido a similaridade cromática... Naaaaaaaaaá, não é minha prática, longe de mim querer insultar-te, caro amigo branco (tsc, tsc, estou a piscar o olho esquerdo, meu caro).
Vocês criaram a cor para os outros, porque o branco é aquele que é por si mesmo, feito a imagem de deus, não é como o preto que, segundo a tua bíblia, é o filho amaldiçoado por Noé para ser escravo dos irmãos brancos justos e puros, essa bíblia que empunharam, junto com outras armas, e com a qual amansaram até ao sopé da sua alma os desesperados pretos, e essa bíblia que nós empunhamos agora em auto-flagelo... Está bem, aceito, não acreditas em Deus, és ateu, mas não te esqueças da ciência da raça que criaste para a desgraça dos outros... Não foste tu? Como não? Se dizes que levaram a língua e civilização a povos pretos, se dizes que fizeram os descobrimentos, se dizes que fizeram tudo isso, por que queres retirar-te agora do plano do racismo?
Caro amigo branco, quando as pessoas falam do racismo, falam de um sistema ridículo construído por uns brancos ricos no alto do seu imperialismo e que tem diminuído vários indivíduos, arrastando-os para um abismo de auto-depreciação. O racismo é uma ação baseada no poder e na dominação, o racismo aliou-se ao capitalismo, o racismo é parte de um sistema económico, político e social de controlo das mentes, que atira gentes contra gentes, convencendo gentes de que são mais gentes do que outras gentes.
Não há lugar para racismo-reverso quando o balanço do poder continua o mesmo. Além do mais, o racismo é racismo, no seu verso, no inverso e no reverso. Atitudes discriminatórias baseadas na pele, é, sim, racismo, vindo da parte de quem venha. Sim, os pretos podem ser racistas e os pretos também são racistas. Mas quando um preto te discrimina, ele está em defensiva, usando a ofensiva que os brancos criaram. Mas quando um preto te discrimina, o que é que te acontece? Nada! Sentes-te discriminado e ferido e injustiçado e dás ali por isso tudo por terminado, pois não te sentes nem perdido, nem desnorteado, porque tens um mundo para te apoiar e ainda te elogiar pelo teu aproximar, e ele ainda até é visto como o bicho ingrato que mordeu a mão que lhe deu um prato; porém quando tu discriminas um preto, não é só esse teu gesto sem afeto que o afeta, mas tens de ter tento que tens do teu lado todo um sistema perverso e um universo de dejetos construído em séculos de sofrimento de povos opressos que esmagam o desgraçado.
Entendeste por que não faz sentido o teu hino de racismo-reverso? Não? Então, pensa num gigante com luvas de aço a boxear contra um magricelas sem um braço e com os olhos vendados e com o árbitro do outro lado, e ainda o gigante a dizer todo exaltado que é um confronto equilibrado porque é entre dois humanos. Não é justo, pois não? De facto! E neste cenário perturbante és tu o gigante.
Volto a dizer a mesma coisa que antes, os pretos também são racistas. Vai à Guiné, caro amigo branco, e vais notar que vais ser tratado melhor que os outros fulanos, só pelo simples fato de seres branco, porque o tom da tua pele está associado a mais dinheiro e a mais poder e a mais influência, portanto é bom que caias nos nossos encantos para que nos beneficie de algum modo. E relacionamos tanto o branco ao dinheiro que chamamos de branco a um preto vindo da Europa com aparente matéria na carteira. Caro amigo branco, há pretos a serem racistas com pretos em favor do branco, porque fomos assim ensinados desde que fomos colonizados, e quando falamos que escapamos desse antro, notamos que evacuamos para um campo minado, a reproduzir a todo o pano atos que só nos causam dano ("no sai na pilon, no kai na balei"). E tu ainda vens com esse papo de racismo-reverso?
Vai à África e verás tantos tontos a tintar a pele, a tragar tolices e a estragar a pele, tentando ser mais "brancos" para corresponderem a uma ideia de superioridade idiota. Vai à África e verás um culto aos mulatos e um ódio aos mulatos porque são mais brancos que pretos, mas não são brancos o suficiente para serem tratados com cuidado e portanto são os melhores alvos de ódio deslocado. Vai à Guiné e verás mulatos (vermelhos) a discriminarem pretos, a tratarem-nos como insectos, porque se acham "mais" superiores e mais corretos, porque se veem como intersectos do mundo branco. E ainda falas de racismo-reverso? Pelamordideus, caro amigo branco, tira o crânio do próprio rabo e analisa os dados que te são dados. Porque praticado pelo branco, praticado pelo preto, quem é beneficiado pelo ato és tu, ó caro branco.
Quando se fala de anti-racismo, não se está a falar de te quebrar, está-se a falar de quebrar um sistema, um sistema que não te afeta por não teres a cor preta. Quando se está a falar do anti-racismo e se está a falar de destruir os teus privilégios, não é racismo-reverso, é simplesmente porque os privilégios, os sociais, pelo menos, significam para outros ausência de direitos.

Dois pesos... Dois medos... Dois dedos de testa e atesta-te com pensamentos isentos do teu privilégio e verás como é perverso o teu credo de racismo-reverso. Podes ser vítima da "branquitude", podes ser vítima do capitalismo, mas não és vítima do racismo.
Resumindo, quando um preto te discrimina na base da tua cor, o ato é racista, sim, e aquela tua dor é aflitiva, sim. Mas não te atrevas a comparar um ato (o seres discriminado uma vez por ano, por uns dois bacanos zangados, num canto qualquer do Bairro Alto) com um sistema (o seres discriminado todos os dias do ano por todo um estado e por uma horda de asnos que nem sabem que o fazem e que o negam em grandes espasmos de virtuosidade, batendo no peito, torcendo os ventres e rasgando as vestes), um sistema que faz ainda seres discriminado pelos teus próprios manos apanhados naquele buraco no racismo criado. Não te atrevas, caro amigo branco, não te atrevas porque estarias a mijar no rio Sado com o plano de deixá-lo salgado.

7 de março de 2021

CARO AMIGO BRANCO (DA NEGAÇÃO)

Caro amigo branco,


Quando me queixo do racismo, não o faço para ser visto, mas é a minha alma que eu dispo, portanto é errado achares que és o alvo de tudo o que eu reclamo, porque tu és um bacano, meu mano, tu és tão és fixe e tão brando, que se matares uma mosca é porque a gaja fez uma coisa tosca.

Caro amigo, tu sentes-te aflito quando eu falo do racismo, e dizes com afinco que o racismo é um mito, blá blá blá isto, blá blá blá aquilo, que somos todos filhos da mesma raça... Pois, mas és tu quem passa, mesmo numa discoteca africana, e eu é que sou barrado à entrada. 

Se achas desconfortável para ti eu falar do racismo, imagina como me sinto, eu que vivo à sombra disso. 

Tu dizes que não vês cor, e eu digo, por favor, vai consultar um doutor, porque há algo de errado com a tua retina.

Caro amigo branco, quando eu falo que Portugal é racista, não estou a dizer que tu és racista, nem que todos os portugueses são racistas, mas estou a dizer que o sistema é racista e está construído sobre princípios racistas e de supremacia divisionista.

Vou dar-te um exemplo: o grande templo da história de Portugal é chamado de Descobrimentos, fala de um tempo de homens valentes que dobraram o mar heroicamente e saíram do continente para levar civilização para outras gentes, foram para outros mundos, através do mar profundo para levar a glória de Portugal para limpar povos imundos. Aliás, o hino nacional de Portugal diz: Herois do mar, nobre povo, nação valente e imortal. Entendes agora? 

Quando a postura oficial de Portugal é agigantar os assaltos do passado e tomá-los ainda hoje, apesar dos factos, não como atos feios, mas em grandes devaneios como feitos perfeitos de um povo eleito, então… Portugal é racista.

Quando te ensinavam na escola que pertences a um povo superior, que levou civilização a povos de cor, que os educou e que os tirou do estado selvagem e os levou para outras paragens e os vendeu em outras paisagens, e que os trouxe para este lado do oceano como escravos, diz-me: o que te vinha ao caco quando tiravas os olhos do quadro e olhavas para o teu colega preto sentado ao teu lado? Não achavas que a tua categoria não podia ser vista na mesma linha com a categoria de um limpa-pias cuja família foi um dia mera mercadoria? 

Tu foste doutrinado para te sentires superior a ele, tu foste doutrinado para sentires que este país te pertence, porque no passado não havia cá pretos. Mas, caro amigo branco, é aí que está o engano, porque mouros ou muçulmanos também já dominaram este pedaço de terra. Percebes agora a fraqueza do delírio do orgulho da tua herança genética que tu chamas de perfeita, só porque não tens uma pele preta?

Caro amigo branco, sabes o que é que acontece quando se junta na mesma gruta políticos racistas, direita extremista, jornalistas racistas, cientistas racistas, brancos com problemas de vista que acham que movimentos antirracistas promovem cultura marxista (sei lá que merda é isto), porque a cor não existe ou porque o racismo não existe? Quando se mistura tudo isto na mesma lista, abre-se a temporada de caça aos pretos, como que aconteceu há pouco tempo e como o que se incentiva neste momento nos comentários ignaros de gente demente na Intenet. 

E é disso que eu tenho medo. E também tenho medo de ti, meu caro amigo branco, cujo negacionismo promove o racismo, e que usas uma peneira de maneira a tapar a vista com vista a não ver como Portugal é racista.

Caro branco, se não fodes, então sai de cima.


3 de janeiro de 2021

CAROS PAIS (mãe e pai)

Caros pais,


Estou a escrever, não é por nada de mais, mas porque há algumas coisas que preciso dizer, para limpar a alma, superar o trauma e viver na maior calma. Como disse, tenho umas verdades para vos contar, podem não gostar, mas eu tenho de falar para me aliviar deste mal-estar que me está a maltratar.

Olhem, pá, como pais e educadores, vocês não tiveram lá muita atenção às minhas dores, não foram bons gestores, não perceberam que os vossos atos também tiveram muito impacto na formação do meu ser. Por acaso tentaram ver se o que faziam teria sequelas sérias no meu estado psicológico?

É lógico que eu vos culpar não foge do estereótipo, e é óbvio notar que o filho em qualquer sítio como um Édipo ou uma Electra brigará com os seus pais. Mas, no meu caso, não é por acaso, meus pais, eu tenho mesmo um vaso largo de muitos ais.
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Mamã, lembras-te daquela vez que me bateste e me chamaste de burro à frente de toda a gente? Foi um ato indigente e, consequentemente, eu senti-me mesmo doente.
Chamaste-me de burro, a mim... a mim, que sempre fui inteligente, e isso só porque eu tinha na mão um ferro quente e para poupar tempo queria passar a minha camisa sem tirá-la do meu corpo.
Não viste que eu só estava a ser engenhoso?
.

E tu, papá, tu, tu lixaste-me a adolescência, a minha vida foi uma miséria: todos os meus amigos a irem para o campo de férias e tu a dizer que não ias pagar por essas tretas, que eu não merecia coisas dessas, porque eu era um irresponsável e que estava de castigo.

Castigo, hein? Castigo porque eu podia ter morrido ao ter batido com o teu carro contra o muro da casa? Epá, baza.

Eu podia ter morrido, sim, mas não morri. Sim, podia ter-me magoado, mas apenas o muro foi derrubado. Sim, roubei o teu carro, mas porra, eu só tinha 17 anos, e foi só uma vez e não é como se eu pudesse repetir o feito outra vez, porque a merda do carro ficou todo arrebentado.

Devias mesmo era me teres dado um prémio por ter conseguido sair daquela merda ileso.
.

Bah… vocês não entendem nada como foram injustos para mim, como me transformaram nisto aqui… A culpa é toda vossa.

Não sei qual culpa, nem quero saber, mas é vossa... Tchau.

17 de agosto de 2020

CARO IRMÃO REVOLUCIONÁRIO (os 10 mandamentos)

Caro irmão revolucionário,


Espero que esta carta te encontre de boa saúde, a gozar a juventude em toda a sua plenitude, que nunca madures e que continues sempre cheio de ideais nobres de uma mudança que valha o seu nome, pois, meu caro, da forma como isto anda nesta banda, esta demanda de mudar o mundo está cada vez mais a ir para o fundo e eu acho, meu caro revolucionário, que neste caso, ao contrário do que proclamamos, o problema somos nós. Pois…

… Enchemos a cabeça de conceitos e preconceitos, e achamos que daqui somos os melhores sujeitos, os poucos com a visão clara do que é o mundo; e dizemos facundos que este mundo absurdo é imundo; que este conjunto de humanos moribundos no fundo não são mais que defuntos; e que nesta baia todos são da mesma laia, vistam calças ou vistam saia, escravos do capital, dominados e formatados pelo sistema social, a fazer um caminho trivial, vivendo com mordaças na andança de um Sísifo, sonhando com o idílico num pesadelo nítido, mas com os olhos húmidos e túmidos, empurrando montanhas, comprando banhas de cobra, por isso só lhes sobra a nhanha que transborda pela boca, pois nem uma foda decente este povo invoca; todos Sísifos estúpidos que vivem em falácias.

Até memorizamos os nomes dessas falácias, em latim, pois assim dá pra fazer mais chinfrim e mostrar que somos a nata beata desta casta de intelectuais, e mais, usamos os nomes dessas falácias para atirarmos com audácia, cagança e pujança na cara de todos os outros, porque os outros são uns grossos. Intelectuais?... os intelectuais somos nós, sim, podem ser os outros, mas só uns poucos e só um pouco, só na medida em que concordam connosco. Reclamamos todos nós, no alto da intelectualidade de sermos os donos da verdade, ou quando muito somos os amigos dos donos. E como o resto do mundo está enganado, cabe então a nós a tarefa de acordá-lo.

Caro irmão revolucionário, a revolução será desta vez, pois somos donos da sensatez, somos fiéis às nossas fés de que vamos desfazer à desfaçatez dessa gente incoerente sem viés decente. Será a revolução final, pois será a revolução mental, por isso, é preciso ensinar a esses tipos que querem fazer este serviço os 10 MANDAMENTOS para ser um revolucionário convicto.

Revolucionários! Em marcha!



ARTIGO PRIMEIRO: O revolucionário tem que ser porreiro. Então dá jeito teres uma camisola à altura, que manifeste a tua postura. Revolucionário que se preze dever ter uma camisa estampada com a cara de Che Guevara, comprada ali na Zara ou em qualquer outra banca… coitado do Che Guevera, que odiava o capitalismo e agora é vendido pelos tipos contra os quais lutava aos tipos que dizem que o amam... mas na falta de Che Guevara aceita-se um pano estampado com uma folha de canábis, pois revolucionário de verdade tem que puxar no haxix, pois isso é que é fixe, e tem de dizer que o mundo só é infeliz porque aqui o haxixe é tratado como se fosse um vício, por isso lá na Jamaica é que é o paraíso, pois pelo visto ali é só festa e dança e o sofrimento não existe.

ARTIGO SEGUNDO: O revolucionário tem de parecer imundo. Por isso, pára de te pentear, o tempo à frente do espelho é para desarranjar, só desta forma é que mostras que cagas nas normas. Usa dreadlocks, cortes loucos, penteados a Zé, camisa de Bob Marley, pano camuflado, gorros jamaicanos e charros, é claro. Se puderes, vai mais além e pára de te lavar, com essa atitude vais mostrar que estás ciente dos teus privilégios, aproveita esse ensejo de não banhar para mostrar que ao poupar água estás a ajudar as pobrezinhas das criancinhas na África que não têm água potável nem sequer para beber.

ARTIGO TERCEIRO: O revolucionário deve ser expresso. Tens que criar uma marca para a revolução, uma marca que abarca a tua preocupação, mesmo que seja uma coisa banal, por exemplo… hmmm… usa um chapéu como o de Amílcar Cabral, um boné caído à Pantera Negra, usa a cor preta, combina-a com verde, vermelho e amarelo. Não importa se esses cotas eram autênticos e originais e que todo o mundo topa que sem tento te esvais a fazer cosplay. Vai lá, vai! O teu nome original é ordinário para revolucionário, escolhe um nome de uma paleta africana (?), escreve-o com YpsYlon, dabliW e Kappa, porque essas letras são africanas(?), percebes a manha?... Não? Lê o MYA KOWTO e vais entender a piada. Como bom revolucionário, tens de vestir sempre um pano de batik, mesmo que esse pano seja originário de Indonésia, não tem problema, porque nesta cena, tudo o que não é branco privilegiado é então irmão amado, além do mais, esse pano é agora africano.

Revolucionários! Em marcha!


ARTIGO QUARTO: O revolucionário tem de odiar os bancos (e brancos, se der jeito, mesmo que sejas um, mesmo que só a fingir). Por isso não pára de mostrar a este povo ordinário que se mata a trabalhar para um mísero salário, de que o melhor a fazer é despedir-se, e que só ganha mal porque quer continuar nesse trabalho infernal que só alimenta o capital. Grita a plenos pulmões que odeias o capital, mas não faças o pecado de negar de herdar o dinheiro do papá… ou da mamã. Fala mal da burguesia, mas não largues a mordomia de ter o pilim todos os dias. Passa o tempo nos bares a fazer esgares, em conferências de copos, onde possas gritar como louco de como é um nojo que o nosso povo insosso não tenha nem um pouco para encher o bojo.

ARTIGO QUINTO: O revolucionário tem de ser distinto. O motivo mais lindo de um revolucionário é também fazer um trabalho de missionário. Lembras-te do Che Guevara, o homem que nunca parava, que andava de terra em terra atrás de uma boa guerra? Pois, não te peço esse preço, mas tens que mostrar o teu apreço indo para a África ajudar os pobres pretos, pois isso é o mais certo. Mas enquanto estás em aqui no centro, podes continuar cego às pessoas ao teu cerco, pois este esterco europeu não merece o teu zelo, aliás nem tem estilo ajudar esses matrapilhos, porque se fizeres fotos não ganhas muito gostos como os que ganhas quando fazes fotos com miúdos pretos. Louco, hein!, certo?

ARTIGO SEXTO: O revolucionário tem de ter um doutoramento. Não podes ser um pé-de-chinelo intelectual, tens de saber te movimentar pelas filosofias de quintal, conhecer os autores e citá-los tal e qual, mas ao mesmo tempo não te podes calar, tens que continuar a falar mal do sistema académico, enquanto preparas a tua tese respeitando o arquétipo para saíres dali doutorado e com mérito. Um bom revolucionário é aquele que é um dos três A: ou Académico, ou Artista ou Ativista, mas se fores um A3 ou um Triplo A, acredita, revolucionário mais chato que tu não há.

Revolucionários! Em marcha!


ARTIGO SÉTIMO: O revolucionário deve ser ético. Mas não deixes que isto de ser ético te torne caquético, porque se fores muito reto a tua revolução vai falhar. Tens de batalhar pelo teu politicamente correto, desde que não te afete, entretanto, não vás com jeito de olhar para os campos cinzentos, agarra-te apenas ao teu conceito, mesmo que se torne abjeto falar em nome da tua liberdade para asfixiar a liberdade de outras gentes.

ARTIGO OITAVO: O revolucionário deve defender os direitos humanos. Não tem necessariamente de ser todos os humanos, mas quanto mais fulanos tiveres debaixo dos teus braços ou cobrires com as tuas asas, melhor é para as tuas causas. Não faças pausas, continua, faz a luta, se faltarem inimigos, espeta o próprio umbigo; vá, continua, cria figuras, inventa brumas, ebraceja, donquixoteia, afinal os moinhos estão aí mesmo para isso. E se não te chegarem os humanos, há os direitos de animais, mas não queiras ser vegano, nem partilhar com os demais, pois todos os animais são iguais, mas um revolucionário é o mais igual dos animais.

ARTIGO NONO: O revolucionário dever mover o povo. Até aqui, nada de novo, pois esta sociedade move-se como uma roda, e todo grande conservador já foi um passado revolucionário, e todo o grande revolucionário é um futuro ditador. Por isso, tens de começar a treinar novas formas de despotismo, cria novos classismos, novos ismos, mesmo que cópias maquilhadas de ismos já antes urdidos, porque depois da revolução vais reclamar com vazão o direito de ser potestade, porque foi o teu ativismo que libertou a sociedade.

Revolucionários! Em marcha!


ARTIGO DÉCIMO: O revolucionário deve escrever textos. O revolucionário escreve longos textos para debitar as suas rimas e as suas críticas vazias, onde fala de problemas sociais, de outros tantos e muito mais; onde fala de revolucionários bem-intencionados que não fazem um caralho para ajudar os outros ao seu lado, e que só procuram estrelato usando os outros como planos; fala de revolucionários perdidos em questões existências e que não sabem mais o que procuram e então se entretêm a brincar a anti-isto e anti-aquilo, mas que não arredam um centímetro e mandam tudo para os brejos quando se mexem com os seus privilégios; fala que a sociedade está zumbificada, parecendo por vezes que ele conhece a estrada; fala, num discurso igual, que é preciso uma mudança radical para acabar com o capital, mas consumista também não vive sem comprar e nem quer abandonar o conforto de um lar, de uma casa e de uma cama, e no resto dos dias da semana, também anda com a manada. Mas a contragosto, diz ele, vê-se no meu rosto. 

E... o revolucionário gosta de cenas alternativas, se é preto vai à música céltica, se é branca vai ao B'leza.

Revolucionários! Em marcha!



Caro irmão revolucionário, perdoa-me pelo comprimento deste texto, eu quis explorar a maior parte dos contextos, e perdi-me em subtextos, mas podes usar isto como um pretexto para protesto contra o que eu acabei de dizer. Eu queria mostrar-te algum caminho, mas confesso que também estou perdido e ando nisto muita vezes sem saber se é por raciocínio ou apenas por instinto… instinto de sobrevivência. Mas caro irmão revolucionário, não é só uma questão da resistência, mas também... da existência.

4 de agosto de 2019

CARA EUROPA (da restituição)


Cara Europa,


Escrevo-te, daqui, da Guiné-Bissau, com a missão de pôr na tua visão a noção de que temos a perceção da verdadeira intenção das tuas ações.

Europa, escrevo-te esta carta, como um filho da África, em nome da África, mas sei que é uma tática pouco prática, e é uma pândega esta audácia de eu, na minha pobre casca, falar em nome de toda a África, quando nem da minha casa eu sou o representante mais patente, pelo que muito menos posso ser o representante de todo um continente. Por isso, digo-te assim de fronte, só falo em meu próprio nome, mas não penses que é inconsequente este meu atrevimento. 

Europa, queria começar por enviar-te cumprimentos, mas vais ter de perdoar-me, porque neste momento estou em tormentos cujo comprimento é imenso; tormentos tão velhos como este lamento que me risca o peito e me deixa neste leito, desfeito, em trejeito de dores lancinantes que enlaçam as partes que lançam ares salutares nestes esgares que mostram os meus desaires. Pois tu tudo fazes para que tu e a África não sejam pares. Nunca serão comadres, Europa, enquanto desejares que a África continue à tua sombra… sabes…

Ahhhhh… puta que pariu, Europa. Não me fodas. Eu, África, sou muito velha, mas falas de mim como uma tola de uma cachopa, empurrando-me para a popa, enquanto tomas a proa. Mordes-e-assopras e pensas que ninguém te topa? Primeiro apregoas que eu não tenho história, e que só entrei nesta roda, porque tu organizaste a boda toda. Porra!, já me deixaste sem roupa, depenaste-me vezes sem conta e agora apostas nesta moda de mandar bocas de que me vais restituir as coisas que me tinhas tirado à força com a tua tropa odiosa para a qual só o lucro conta. E falas agora como se tivesses muita honra e como se fosses uma filantropa que me está a fazer um favor? Ó, por favor, tenha dó, Europa, tenho cara de tola? Não sou nenhuma tonta.

Primeiro dizes que eu não tenho história, agora queres ser a mostradora da minha glória? E eu, eu não tenho voz própria para determinar as minhas escolhas, terei de seguir sempre as notas das tuas folhas? Por que está tão interessada em devolver-me as estátuas? É porque já não tens mais espaços no armazém. Pois bem…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Diz-me, caramba, por que estás tão interessa em devolver-me as estátuas, pedaços de pedra e de madeira… mas do ouro, da prata, do marfim, dos diamantes, do silício e da riqueza que custa o suplício do meu povo que vive em sacrifício para que possas manter vivo o teu vício de consumo em nome de bom serviço, sobre isso é só silêncio…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Falei do ouro, falei da prata, mais ainda não falei dos escravos e das pessoas extraviadas das suas terras e jogadas de repente em contextos alienígenas e de alienação completa, sem aliados e sem alianças, com crises de identidade que ainda hoje de forma indigesta se manifestam nos seus descendentes. E, tu, Europa, que te arrogas e te vestes da defensora dos direitos humanos… humanos, desculpa, queria dizer brancos… como cura da escravatura, indemnizaste os brancos, donos de escravos, por perderem o gado humano africano trazido do outro lado do oceano, pois tu estavas preocupada com reparos justificados. Mas quando te falam de reparos aos africanos feitos escravos, aí, assumes a postura de injustiçada e falas que não deves ser cobrada pelos erros do passado. Sim, é claro, então por que dizes que queres devolver-me as estátuas para pagar pelo erro do passado? Queres pagar pelos erros ou apagar os erros?

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa. Euroooopa! Queres tanto devolver-me as estátuas, tu, ó generosa senhora, porque estás tão preocupada em descolonizar a mente, em descolonizar o conhecimento, em descolonizar a cultura, em descolonizar a puta-que-pariu… hein é isso? Mais fácil colonizas Marte do que descolonizas a mente, porque um colonizador não descoloniza, um colonizador recoloniza, um colonizador se reorganiza para se manter sempre em cima. Quando és tu que desenhas as linhas da descolonização, jogando com maestria a tua filosofia sobre o mundo que te rodeia, não vais mudar as tuas ideias, só vais cobri-las com novas teias, mas elas no fundo continuarão feias, pois a maquilhagem não muda a essência. A qualquer ideia não-europeia, tu colocas um sufixo, por isso, enquanto falas de afro-literatura, etno-literatura ou de etno-filosofias não como literaturas ou filosofias, mas como categorias alternativas, não importa o que digas, vai ser uma coisa pífia, pois não queres descolonizar uma pívia. O teu discurso é sensacional, mas a prática… meh… só mantém tudo como está.

Que são minhas, as estátuas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa, se quiseres devolver-me as minhas estátuas, então larga essa atitude fátua, sua crápula, pára com as fábulas e vamos falar da prática.

Estás preocupada com o meu bem-estar? Ai, que boa, és tão fixe, Europa. És tão boa, tão boa que me afogas com as tuas instituições e as tuas ONGs que só fazem cá a manutenção da pobreza e dos problemas. Dizes que mandas para cá dinheiro, para salvar o povo inteiro, mas não tens uma cheta para pagar uma merda de um bote para retirar do teu mar pessoas a afogar, mas tens 1001 barcos a pescar o meu mar. E pior de tudo, ainda vês se encalabouças aqueles que tiveram a força e a coragem de usar o privilégio e a vantagem para serem humanos de verdade para ajudarem humanos necessitados.

Europa, Europa, Europa. Tu vendes as tuas armas no meu quintal, incitas guerras para me poderes explorar, pois a minha instabilidade é fundamental para que possas continuar a dar cartas e a falar mal de mim, como se eu fosse um débil mental, e achas que o me preocupa são as porras das estátuas?

Que são minhas, são minha. Mas já que daqui as tiraste, e por anos com elas ficaste, considera-as arrendada. Vai ver aquelas que tens às mostras nas tuas montras e faz as contas e manda para cá o dinheiro.

Hey, espera!, se prometeres não mais mandar para cá as tuas as tuas armas, as tuas doenças, o teu desenvolvimento sustentável e o teu capitalismo selvagem, que não me trazem nenhumas vantagens, eu juro-te que te ofereço as todas as estátuas do mundo.