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12 de novembro de 2022

COMO SER UM BOM COLONIALISTA

Há um tempo estive envolvido num filme (esperem por ele, será grande!). A cena que tínhamos que filmar não era nada simpática e mexia com os nervos como se não fosse ficção (aliás era ficcionar a realidade). Todos sabíamos que era uma coisa para um filme, mas todos, como boas pessoas que somos, não nos queríamos ver numa situação parecida. Eu, pelo menos, não me queria ver nisso, e já tinha vivido na realidade algo similar (talvez conte noutra altura).

A cena era sobre um branco num país africano que apresentava a um grupo de amigos (pretos "ocidentais') um serviçal preto africano como alguém bem amestrado. A pessoa que fazia de serviçal não era "ator" (eu também não sou, pelo menos não profissional, mas nem pensei nisso na altura), e o papel que fazia era similar a um dos seus muitos papéis na vida real: cozinhar e servir a mesa. Fez-me isso confusão, porque parecia que ele não saía do papel e tive dificuldade, eu (falando de mim), em separar os tempos entre a ficção e a realidade. Outras pessoas também se sentiam como eu, apesar do realizador nos ter preparado para a cena.

No fim, lá tivemos uma reunião com o realizador sobre a situação e sobre o incómodo em ver essa pessoa a fazer aquela cena, pelo que muitas cenas dele foram alteradas e história teve de ser suavizada, e ele teve menos participação do que o esperado. E estávamos sempre a agradecê-lo, ao "ator/serviçal", sempre que nos servia, porque nos sentíamos incomodados e queríamos mostrar que era "nosso igual", nós, pretos europeus.

Dias mais tarde, em Bissau, estava num restaurante e uma pessoa veio servir-me, disse-lhe o obrigado cortês de praxe, com direito a sorriso e tudo, e lá continuei a conversa com a pessoa com a qual estava, não senti nenhum incómodo por estar a ser servido, afinal era o "papel" dela, era um trabalho dela naquela altura, não era o que a definia. Então e o "ator/serviçal"?

Bateu-me naquele momento : "Que paternalista do caralho sou eu! Que colonialista".

Não nego que não haja exploração da imagem de pessoas, pretas africanas da África, principalmente (as redes sociais estão cheias disso), mas não era esse o caso, porque o "ator/serviçal" estava a ser pago para isso e tinha-lhe sido explicado tudo sobre o filme. O que me incomodava mesmo? O que me incomodava mesmo? O que me incomodava mesmo?

Achava-me iluminado e protetor da "ignorância" de outrem contra exploração? O que me incomodava mesmo? Achava que a dita pessoa não era inteligente o suficiente para saber o que estava a acontecer a sua volta? O que me incomodava mesmo?

O meu incómodo era porque achava que o "ator/serviçal" não estava iniciado nos caminhos do "pós-des-de-anti-colonialismo" e que estava a fazer esse papel porque não tinha escolha. Achava que ele não tinha a noção completa da situação, mas ele só não tinha "a minha" noção das coisas, tinha a dele, a sua própria perspectiva. E a verdade era que ele estava a divertir-se imenso com aquela merda, estava a gostar de participar no filme. Estava a "atuar", fazendo uma coisa que sabia fazer bem e que não se importava de fazer. E de repente vê-se numa reunião com todos a decidirem sobre a sua participação, porque "precisavamos de o proteger e à nossa consciência".

É isso ser colonialista. É pensar que tenho mais visão que o outro, que conheço melhor os meandros da exploração (ou do desenvolvimento) e por isso devo desenhar eu o caminho do outro. Mas se fizer tudo com estilo e usar termos como liberdade (de expressão, principalmente), democracia, direitos humanos, anti-isto-e-anti-aquilo, creio que serei um "bom colonialista", desde que a luta seja para não colocar o meu próprio conforto em causa, como no caso descrito. Chifres na cabeça de cavalo.

Isso lembra-me uma vez que uma conhecida ativista negra em Lisboa me mandou e a meus irmãos falarmos português, porque era desrespeitoso falar kriol numa mesa onde havia pessoas que não falavam a língua.

Na luta anti-colonial, é tão, mas tão, mas muito tão fácil ser o colonialista.

20 de dezembro de 2021

MANIFESTO DEPRIMENTE DO MOVIMENTO DEPRESSIVO

Deprimidos unidos, jamais serão vencidos.
Deprimidos unidos, jamais serão vencidos.
Deprimidos unidos, jamais serão vencidos.
Deprimidos do mundo inteiro, unamo-nos.
Juntos somos mais fortes e conquistaremos este monte de merda desta sociedade mercantil.
Unamo-nos contra os médicos e contra os psiquiatras e contra as farmacêuticas e, principalmente, contra os gurus e os vigaristas de auto-ajuda que se escondem atrás da capa da depressofobia só para nos entupir de pílulas e conceitos pífios de felicidade, yogados e ahuyascados.
Quem precisa de felicidade? Pfffft!
Sem chacota, mas felicidade no fim das contas é coisa para fracotes. Nós somos fortes, com força à fartote, por isso o nosso mote é navegar neste bote, culpando ou não a sorte.
Navegamos pela vida deprimidos, de peito enchido porque temos costas largas, temos costas fortes e aguentamos a pressão, por isso estamos deprimidos, mas não explodidos. Gente sem vértebra não se deprime, gente sem vértebra se comprime, pois vive no medo e besta, tira os dedos da testa e se suprime perante as regras patetas que a oprime. Mas nós, naaaaaaão, nós ficamos deprimidos, porque tentamos dar sentido a este mundo regido por regras ridículas.
Não dá para ser feliz sem ser egoísta, numa falsa conquista dos prazeres da vida; não dá pra ser feliz sem se ser hedonista e sugar a vida sem amanhã à vista e fazer vista grossa a toda a fossa à nossa volta, e praticar o culto antigo de venerar o próprio umbigo.

Felicidade, pfffft, isso é coisa pra fracotes, nós, deprimidos, nós somos fortes.
Estão a tentar enganar-nos, estão a tentar afundar-nos numa miséria séria e fétida para passarmos por essa vida etérea a sentirmos pena da nossa própria cena, mas é bem claro neste cenário quem é que envenena a quem.
Pensem bem, essa coisa de pensamento positivo, pfffft, é coisa de mente pequena. É claro que estar triste o tempo todo é de um modo um problema, mas estar a sorrir o tempo todo é de todo um problema.

Tanto o riso como o choro lavam a alma, portanto neguemos essa barca onde gente se enfarta nos remos a todos os termos a tentar rejeitar os sentimentos que temos e a chamá-los de prejudiciais.
Há quem ria mais, há quem chore mais, há quem seja capaz de transformar um sentimento num outro de outro tento, há quem veja tristeza na alegria, há quem veja alegria na tristeza, há quem suje a pureza, há quem se refastele com sageza no sujo.
Ninguém está feliz, andam todos por aí a empinar o nariz numa atitude que diz que são os maiorais no sorrir, mas, é, camaradas, tudo a fingir. Tudo a fingir.
Nós, nós temos o dever de manifestar a propriedade da nossa depressão, e com isso acordar o resto da população estrangulada, a quem é empurrada a obrigação de ser feliz.
Pensamentos positivos a tempo inteiro é doentio. A tristeza faz parte da vida, faz parte do balanço, todas as emoções fazem parte da vida. Não devemos é deixar uma dominar as restantes, mas agora quando todos nos dizem que somos errados porque estamos com depressão, porra, isso é opressão.
Deprimidos de todos o mundo, unamo-nos, porque só um idiota, sem capacidade de reflexão e de análise, passa por esta vida, neste mundo demente de fundo deprimente, sem se sentir deprimido.
Quando nos sentirmos sufocados e sem saída, só temos que ver que nesta vida há tanta e muita gente como nós e em cuja voz questões como as nossas são refletidas. Muita coisa assim muda, pois se a nossa alma estiver muda, só temos de pedir ajuda, pois há muitos deprimidos à escuta. Mas livros de auto-ajuda... não, nada, só ajudam a quem os escreve, o teu bolso fica leve, mas a tua alma ainda ferve. Eles só estão interessados em explorar a tua fragilidade, não te querem e nem podem ajudar de verdade, pois, senão, com tantos livros de auto-ajuda, teríamos menos gente deprimida e mais gente autoconsciente, menos gente iludida e menos gente a dizer lérias para ganhar dinheiro com a nossa miséria.
Deprimidos unidos, jamais serão vencidos.
Deprimidos unidos, jamais serão vencidos.
Deprimidos unidos, jamais serão vencidos.


18 de maio de 2021

HOSSANA AO FILHO DE DAVID - O BRANCO REDENTOR VOLTOU

Quando Jesus chegou a Jerusalém, as pessoas... peraaaa!, filme errado.


Quando o Marcelo Ribelo?... Ribeiro?... Aiiiii.... Quando Marcelo R. Sousa chegou à Guiné-Bissau, com muito orgulho fomos mostrar porque aquele país continua na merda e o quão desocupados somos. Fomos buscá-lo ao aeroporto e enchemos as ruas com cartazes para o receber, pois afinal, já que os quatro aviões árabes não chegam com o bilião de dolares, vamos ver se o Marcelo tem algumas moedas de dois aeoros para dispensar.

Alguém se lembra de como os portugueses encheram o aeroporto com grupos de mandjuandade e se alinharam nas ruas para receber o Sissoco quando ele veio passear a Portugal?... Alguém?... Alguém?... Ninguém?... Eeeeepá!

Até mesmo os mais ferrenhos apoiantes guineenses do Sissocó que vivem em Lisboa não o foram buscar ao aeroporto, porque tinham de ir, usando as palavras de alguém, entregar o pau-do-corpo ao patrão branco. Estavam ocupados e além do mais, Sissoco não é a Seleção-Portuguesa-Depois-de-uma-Vitória-Importante e nem é o Papa, que são duas figuras que movimentam fanáticos.

Mas nós, guineenses, adoramos toca-palmices, estamos sempre prontos para bater palmas a quem o chefe mandar, sem posição crítica. Sei de pessoas no governo atual com, aparentemente, muito senso crítico sobre o domínio europeu e que acharia essa recepção do Marcelo um culambismo ao homem branco, e uma submissão colonizante, mas que por conta de politiquices e chuchices nem se manifestaram. E ainda admiramos que fomos colonizados e que estamos colonizados.

Já agora um vídeo sobre como recebemos também o pai do Marcelo, que era o Ministro das Colónias, quando chegou à Guiné e façamos as contas. Qualquer semelhança com o ontem não é mera coincidência.


A propósito, acham que o Marcelo foi à Guiné porque gosta dos guineenses ou apenas para reforçar a influência de Portugal e tentar com que o Macron não nos roube dele com os seus aeoros que bondosamente prometeu aos países africanos?

(para quem tiver tempo de sobra, um artigo: http://montedepalavras.blogspot.com/.../lideres-os...)

25 de abril de 2021

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 7)

25 de Abril – a revolução d’escravos

 

Todos os anos, mas todos os anos, no 25 de Abril, os tugas entram na rua para comemorar a Revolução d’Escravos, mas coitados, acho-os tão confusos que nem entendem as suas próprias datas.

É assim, os tugas disseram que o 25 de Abril de 1974, foi o dia da Revolução d’Escravos, que os capitães do Abril foram tomar o poder lá na Grândola da Vila Morena, porque o povo ordena. Na verdade, o povo nada ordena, o povo é ordenado, porque os tugas não conseguem fazer nada por si mesmos, precisam sempre e têm mania de capitães, os quais adoram e até lhes fazem estátuas. Quando chegaram ao Brasil tinham um capitão, à Guiné, outro capitão, ao Moçambique, mais um capitão, e na Madeira é o Cristão Ronaldo o capitão.

Os tugas dizem: 25 de Abril de 1974 é a revolução que trouxe a democracia para o país, e é aí que eu fico confuso… mas então e o PREC?, e o Verão Quente?, e o 25 de Novembro de 1975?

Vou explicar tintins por tintins.

O PREC era um ogroooooo… hmmmm, desculpa, esse era o Shrek.

Quando no 25 de Abril se fez o primeiro golpe de estado… desculpa, revolução, golpe de estado é coisa de terceiro mundo… a revolução fez instalar no poder um bando de comunistas que diziam: “o povo é que mais ordena, portanto vamos tirar dos ricos e distribuir aos pobres”. Os ricos disseram: “calma aí, que história é esse de PREC pra aqui e PREC praí, o povo que vá ordenar lá no seu quintal e não entrem nas nossas propriedades que herdamos honestamente com a ajuda da ex-monarquia e do Santo António Salazar”. E a Igreja disse: “os únicos Antónios que reconhecemos como santos é o Santo António Vieira dos meninos índios, o Santo António do menino Jesus, e o Santo António Salazar… quanto ao António Spínola, já vamos ver, se ele se converter, santificamo-lo.” Claro que o Spínola se converteu, pois a coisa não fluía como ele queria, e ele intentou um novo golpe contra o primeiro que tinha dado... uma revolução em Março de 1975, que não correu bem.

O tio Paulo Bano Bajanca disse-me que os Capitães de Abril na verdade estavam mais preocupados com a sua própria vida, a sua posição (estava-se a criar demasiados capitães) e o problema de salário, e que foi isso que motivou o golpe (mas avisou-me para que não dissesse isso em voz alta em público, porque hoje os capitães são sagrados e algum jihadista tuga poderá atacar-me).

O tio Paulo Bano ainda disse que os capitães de Abril estavam na Guiné, no Moçambique e em Angola (a sua maior parte na Guiné, onde começou tudo), e os que eles chamam turras estavam a complicar-lhes a vida seriamente e a anular-lhes a vantagem tática militar, e eles começaram a questionar a "sustentabilidade" da Guerra. Se estivessem a ganhar a guerra, continuariam a ser capitães de todos os meses, mas lá nas áfricas. E enquanto eram apenas os soldados limpa-pias, miúdos brancos pobres e os pretos pobres alistados, que morriam, não havia problema, dava para continuar a ser capitão, mas quando milicianos alegadamente começaram a ser nomeados capitães, a coisa começou a feder, os que viriam a ser os de Abril disseram: “Então, pá, que história é esta, pá, estão a estragar a classe, pá!”, e depois quando não lhes quiseram dar salários mais chorudos eles disseram: “Foda-se, Marmelo Rebel… Marcelo Catana, pá, estás a cortar em tudo, pá, pensas que és o Caço Coelhos ou quê, pá? Mau, mau, menino. Vamos dar-te um golpinho, pá, ai, vamos. Não sabes que não se deve meter com os militares e com os ricos, pá, ou queres levar com uma revoluçãozinha, pá?” O Marcelo Catana, padrinho do nosso Marmelo Rebelde, como não estava atento, foi ele mesmo cortado, pumba, toma, 25 de Abril. Meteram-se com os militares, golpe de estado, queriam o quê?

Mas aí é que está a cena, não era nenhuma Revolução d’ Escravos, mas da burguesia militar ... alguma vez soldados limpa-pias fizeram golpe? Hmmmmm! O golpe depois foi sequestrado pela burguesia civil. O Zé Povinho tem lá tempo para revolucionar, ele continua escravo.

Mas é verdade que havia bons capitães, com ideais mais nobres e mais sociais do que a mera questão do salário e da classe. Até havia capitães comunistas que queriam abolir mesmo a classe. E esses juntaram-se lá com os comunistas e começaram a tomar tudo dos ricos e os grandes donos do dinheiro, amigos do Santo Salazar, bazaram para o Brasil, outros converteram-se imediatamente ao comunismo, para escapar à inquisição e começaram a gritar: “Viva a revolução! Viva a revolução!”.

Então os gajos dos PREC disseram-lhes, “uiiii, ainda bem que concordam, precisamos das vossas terras e dos vossos prédios por causa dos retornados que estão a chegar em catadupa. E queremos criar sindicatos para que possam receber melhores salários e não serem assim tão explorados!”. Os gajos do PREC ainda disseram “ouve lá, tipo a nossa cena é muita cool e tipo muita alternativo, tipo meio hippie, meio yuppie, meio hipster, tipo, sabem, tipo não queremos um socialismo tipo CCCP (Cuidado Com os Camaradas do Partido), nem uma cena tipo capitalista, mas, tipo, vamos fazer um socialismo tipo democrático, tipo o de Bernie Sandes, aliás, tipo, não se esqueçam que tipo até fizemos eleições já!".

Então os ricos recém-convertidos, disseram: “Porra, pá, a revolução é bem-vinda, pá, mas que fique longe das nossas posses, pá. Estão a dar as nossas coisas aos retornados, pá, e eles, pá, nem são portugueses de verdade, pá! Fechem as fronteiras, pá, eles que voltem para as suas terras, pá. Precisamos de uma nova revolução, pá".

Então apareceu o Super Mário Só Ares, como salvador dos ricos (ele mesmo, como o Marmelo Rebelde de Sousa, filho de um antigo ministro das colónias), criou uma fundação que foi financiada pelos americanos da TIA que tinham vindo cá passar um Verão Quente em 1975, com barcos e tudo (o que inspirou o Paulo Tortas a comprar submarinos e o Sócrático a ir passar o verão em França, financiado pela MÃE), e pumba, toma, 25 de Novembro. Meteram-se com os ricos, revoluçãozinha, queriam o quê?


(Os tugas e o 25, meu!, desde que Jesus começou essa moda em dezembro, pegou seriamente)!

Com o 25 de Novembro de 1975, ano e meio depois do 25 de Abril de 1974, a segunda revolução, correram com os comunistas do poder, estes ficaram nos sindicatos. Disseram que os comunistas estavam a comunistar o país e que iriam torná-lo numa Correia do Norte ou numa Venezuela de Está Ali Né (ou Esta Aline, o tio Paulo Bano não sabe como se pronuncia), e que isso não era democrático, pois os comunistas começariam a comer criancinhas (isto já foi a Igreja preocupada com a concorrência). O democrático é deixar os ricos manterem as suas posses e os pobres, o proletariado e os retornados que se fodam, afinal por que não escolheram nascer em bons berços, ou por que fizeram um pé-de-meia em vez de bolsos fundos protegidos pelo Estado? A Igreja, os Espíritos Santos, os Chupalimões, os Souteu Mayor, entre outros, recuperam os seus poderes e a sua influência e continuaram na berra, a lixar o povo desde então.

Eis a razão porque não entendo essa história de que o 25 de Abril foi a revolução que trouxe a democracia, pois pelo visto, ele iria trazer mas sim o comunismo do Esta Aline. Sendo assim, logo foi o 25 de Novembro que trouxe a democracia. O 25 de Abril ainda falou do povo, mas os que ficaram com o poder depois do 25 do novembro, só falaram do dinheiro.

Imaginem que em 2021, hoje, chegasse uma massa de portugueses como a quantidade dos retornados que veio depois do 25 de Abril, sem os comunistas e os esquerdalhas para os acolher, morreriam todos afogados no mediterrâneo.

Se a revolução do 25 de Abril foi contrarevolucionada pelo 25 de Novembro, porque se fala ainda do 25 de Abril?

Se o 25 de Abril foi a Revolução d’ Escravos (o que duvido muito), e é representado pelos cravos, o 25 de Novembro é então a Revolução dos Donos d’ Escravos, representado pelo algodão(?). Ahhhhh, agora entendi, o primeiro soa melhor e é mais publicitável. Por isso foi sequestrado pelos contrarevolucionários capitalistas.

Agora andam por aí a dizer que o 25 de Abril foi para libertar as colónias, ui, que nobreza, e para acabar com os escravos e outras cenas de opressão, mas como escreve aí um amigo de um conterrâneo meu, chamado Apolo do Caralho:

"Se por revolução se intende 'rotura radical', em que medida um acontecimento pode assim ser chamado se mantém tantas coisas do passado como por exemplo um hino e uma bandeira erguendo inclusive, esses símbolos, à qualidade de 'dogmas' constitucionais que ninguém pode contestar sob pena de punição? (...) Se por revolução entendemos momento de acertar as contas e construir novos pactos, porque razão os criminosos de guerra não foram julgados? Se entendemos que uma verdadeira revolução só o povo pode fazer, só ele é autor, porque razão tantos títulos de 'heróis' são atribuídos a militares tão só?"

Se Spínola tentou um golpe contra o golpe que lhe deu fama, e se houve outro golpe que golpeou o golpe de Spínola, por que ele é visto com um revolucionário e herói português?

 

Ai que confusão! Vou colocar a cabeça em gelo e escrever um pedido de desculpa formal aos jihadistas nacionalistas portugueses.


12 de março de 2021

LEI DE KON: A RAIZ DA VIOLÊNCIA (cronices crónicas)

NÃO, NÃO e NÃO! NÃO FOI ASSIM. VIOLÊNCIA NÃO É EDUCAÇÃO!

Já me cruzei com esta imagem (e outras similares) em vários lugares na internet, com pessoas a enaltecerem isto como boa educação. Mas olhemos atento para a imagem e leiamos a violência que emana.

Violência não é educação, nunca foi e nunca será. Se violência fosse educação, por causa daquilo que passamos na mão dos tugas teríamos sido dos povos mais educados do mundo. Essa fala de que “apenas o sute endireita o guineense” é mais uma daquelas estupidezes que repetimos sem sequer pensar.

O sute nunca endireitou ninguém, o sute nunca educou ninguém. O que o sute faz é criar submissão e medo, não respeito, medo. O sute faz as pessoas dobrarem-se ante o medo e não aceitarem erguidas a razão. E o sute é um dos maiores problemas da nossa sociedade guineense, senão o maior.

Somos educados com mantampa. Mantampeados e tcherninhados por dá cá aquela palha, desde crianças é-nos ensinada a “LEI DE KON”: o kon maior bate no kon menor, e assim progressivamente. Mesmo entre os kons duvido que essa lei funcione, mas nós não somos nenhuns macacos, somos humanos, com maior capacidade de reflexão e de pensamento… bem, olhando para o estado do mundo, tenho dúvidas sobre esta minha afirmação… ohhhhhhkay… temos alegadamente maior capacidade de reflexão, portanto, já era mais que tempo para começarmos a reformular determinados conceitos que claramente não funcionam.

A violência na qual somos educados, que na sua maior parte é gratuita e desproporcional, não é nada mais do que a incapacidade dos nossos educadores lidarem com a sua frustração. Pessoas mantampeiam crianças que estão a chorar, ao mesmo tempo que dizem “para de chorar, para!, cala a boca!”, mas como elas vão parar de chorar se estão a bater nelas? Já vi educadores a baterem em crianças bem pequenas, porque não querem comer ou por outra razão qualquer e julgam que estão a educar. Mas, vamulá, se mesmo a conversar com essas crianças será difícil fazer-lhes entender o porquê de não fazer certas coisas, muito menos elas irão entender o problema do que fizeram batendo apenas nelas.

Algumas pessoas já me disseram, quando discutimos este assunto, “eu concordo com mantampas, a mim foi o sute que me endireitou” e eu pergunto-lhes sempre: “mas o que estava errado antes?”

Eu, por exemplo, quando ia brincar com os colegas e voltava depois da hora do almoço, levava tareia lá em casa. Sim, evitava chegar depois do almoço para não levar tareia. Mas se calhar, proibirem-me de comer podia ter sido mais eficiente, eu sei lá (comia na casa dos amigos). A cena é que, como sabia que já tinha sute à espera, quando a hora do almoço, que variava muito, me apanhava na rua com os amigos, eu já só voltava à hora do jantar, porque sabia que a tareia era inevitável… ao menos não interrompia as minhas brincadeiras e brincava muito antes. (Depois fazia todo aquele ritual de pedrinhas para escapar do sute: uma debaixo da língua para colocar no pote de água, outra para atirar pelas costas quando estava perto da casa sem olhar para trás e coisa assim… que muitas vezes resultava).

A questão da violência não é específica apenas aos educadores, mas a toda a nossa sociedade que vive sob a “LEI DE KON”. Os mais velhos (mais fortes) batem nos mais novos (mais fracos) sem precisarem de outra razão fora de porque podem, na discarna mesmo. Um miúdo parado no meio do caminho pode levar a coquida de um adulto só porque está parado e ele quer passar, mesmo que o adulto pudesse desviar-se facilmente. O que faz o miúdo que foi coquido? Vai à procura de um outro miúdo mais fraco para, por sua vez, coquir também. E de repente vemos um miúdo de dois anos a riquitir um bebé de dois meses, e dizemos que não entendemos a razão do beliscão? É agressão transferida.

Os pais são agredidos pelos patrões, que são agredidos pelo Estado, e frustrados, sem poder dar respostas, vão bater (na mulher, no marido”?”) e nos filhos, e os filhos nos irmãozinhos, e então a “LEI DE KON” é padronizada dessa forma.

Professores batem nos alunos, com palmatórias de madeira, mantampa de serra, cinto, chicote, porque estes confundiram o P com R ou com o B. Eu fui obrigado várias vezes, quando aluno de primária, a ficar de joelhos sobre cascas-de-karus ou pedrinhas, não porque não sabia as lições, mas porque chupava os meus dedos, e diziam que eu já tinha idade mais que suficiente para deixar de chupar os dedos (chupei-os até aos nove, e só parei porque a certa atura deixou de saber bem, nenhum sute me impediu de os chupar)… os meus dedos… os meus próprios dedos… vá, se andasse a chupar os dedos de outras pessoa até poderia entender, e tenho a certeza de que me matariam se ao invés dos dedos eu andasse a chupar o pé… eeeeeeeepá.

Somos educados no sute, na “LEI DE KON”, e não conhecemos outra coisa e aceitamos isso como parte nuclear da educação, e aceitamos a hierarquia violenta inerente dessas práticas. Por isso, sempre que nos tornamos poderosos, oprimimos os outros e achamo-nos no direito de o fazer: filhos que oprimem os próprios pais quando envelhecem; polícias e militares que não sabem o seu papel e pensam que é bater nas pessoas; o “n’ na mostrau bu lugar”; governantes que acham que podem mandar prender e bater nos outros porque têm esse poder (que não consta em nenhumas das nossas leis escritas); e o povo que aceita tranquilamente o exercício desse tipo de poder (não só violência física), porque “eeeeeeeeee, pa pa pa pa pa, abo bu na kirtika nan sefi!”.

Não, violência não é educação. A “LEI DE KON” é estúpida e vazia. Se o sute fosse educação teríamos o melhor povo de mundo e o Prémio Nobel da Educação iria para.

 

29 de maio de 2020

WAKA-QUÊ? - BLACK PANTHER (uma treta de representatividade)

Resisti imenso a falar aqui sobre o filme Black Panther… o ficcional. Mas alguém ter citado Wakanda por conta do que se está a passar hoje nos EUA levou-me a escrever. Quando o capitalismo se apossa das causas sociais, temos isto.

O filme, apesar da estética e do formalismo maravilhoso, é narrativamente bastante fraco, um filme onde o vilão consegue ser mais consistente e mais sólido que o herói. Mas tirando todas as falhas do conceito e da execução do filme, o marketing do mesmo foi genial.

Black Panther foi vendido como um filme negro, um filme para negros, um filme afro-futurista(?), e o marketing foi tão bem feito com ajuda dos próprios movimentos negros e o filme ganhou o hype que ganhou (e o dinheiro que ganhou). Mas na verdade Black Panther é um filme tão negro-representativo como Wonder Woman é um filme feminista, aliás, eu já vi filmes pornos mais feministas que Wonder Woman.

Voltando ao Black Panther, o que faltou na análise é que a história do filme não representa sequer a África ou os negros. Black Panther é a história de privilegiados que querem manter os seus privilégios. Wakanda é todo futurista, assim como Nova Iorque é cheia de prédios, mas como vivem as pessoas, como vivem os pobres? Por que é preciso um sistema monárquico e todo à la Rei Leão (inclusive com o herói a ter visão do pai)? Por que é preciso um sistema de força onde machos-alfas lutam pela coroa? Por que o herói que perdeu a luta, dentro das leis locais, volta para cometer um golpe de estado? Por que o vilão que é mais coerente e que só quer liberdade para o seu povo teve a sua filosofia distorcida, tornando-o um genocida? Há mais coisas.

Para simplificar a leitura, mostro alguns problemas da representação do filme que mostra com ele é bem branco e panfletariamente americana:

1. Dentro de Wakanda, uma sociedade ultra-desenvolvida, a questão da liderança é resolvida à força através de lutas tribais.

2. A tribo "Jabari" que não quer a tecnologia é representada como "primitiva", nem veste roupas, anda o tempo todo pintado e quando aparece fica a ulular.

3. A CIA que foi inimiga dos Black Panthers reais é representada no filme como amigo, e até Wakanda que é fechada à restante África foi aberta ao amigo branco da CIA.

4. O príncipe acha que agora Wakanda vai abrir-se para o mundo, então a primeira coisa que faz foi ir para os Estados Unidos abrir um centro qualquer, em vez de fazer acordos com os países africanos que sofrem da opressão do capitalismo.


Black Panther é um filme com atores negros, trabalhadores negros, mas, não é um filme sobre negros ou sobre a luta dos negros, aliás a única pessoa que representa a luta dos negros é o vilão (entendem a relação?). E no final do dia, com todos os negros a comprarem bilhetes, brinquedos, camisolas e merchandises de Black Phanter (ou mulheres, no caso de Wonder Woman), quem fica ainda muito mais rico no final do dia são os donos dos estúdios americanos, homens brancos e ricos como os Harvey Weinstein.

Africanistas a dizer Wakanda Forever… pelamordideus, basta de masturbação. Voltem para a realidade. Resumo: se não desenharmos nós mesmos as nossas lutas, fora dos sistemas controladores, vamos continuar a wakandar forever enquanto a situação continua a mesma.

Ah, a propósito, a cena de cruzar o braços em X é muito mais antiga do que Black Panther.


4 de agosto de 2019

CARA EUROPA (da restituição)


Cara Europa,


Escrevo-te, daqui, da Guiné-Bissau, com a missão de pôr na tua visão a noção de que temos a perceção da verdadeira intenção das tuas ações.

Europa, escrevo-te esta carta, como um filho da África, em nome da África, mas sei que é uma tática pouco prática, e é uma pândega esta audácia de eu, na minha pobre casca, falar em nome de toda a África, quando nem da minha casa eu sou o representante mais patente, pelo que muito menos posso ser o representante de todo um continente. Por isso, digo-te assim de fronte, só falo em meu próprio nome, mas não penses que é inconsequente este meu atrevimento. 

Europa, queria começar por enviar-te cumprimentos, mas vais ter de perdoar-me, porque neste momento estou em tormentos cujo comprimento é imenso; tormentos tão velhos como este lamento que me risca o peito e me deixa neste leito, desfeito, em trejeito de dores lancinantes que enlaçam as partes que lançam ares salutares nestes esgares que mostram os meus desaires. Pois tu tudo fazes para que tu e a África não sejam pares. Nunca serão comadres, Europa, enquanto desejares que a África continue à tua sombra… sabes…

Ahhhhh… puta que pariu, Europa. Não me fodas. Eu, África, sou muito velha, mas falas de mim como uma tola de uma cachopa, empurrando-me para a popa, enquanto tomas a proa. Mordes-e-assopras e pensas que ninguém te topa? Primeiro apregoas que eu não tenho história, e que só entrei nesta roda, porque tu organizaste a boda toda. Porra!, já me deixaste sem roupa, depenaste-me vezes sem conta e agora apostas nesta moda de mandar bocas de que me vais restituir as coisas que me tinhas tirado à força com a tua tropa odiosa para a qual só o lucro conta. E falas agora como se tivesses muita honra e como se fosses uma filantropa que me está a fazer um favor? Ó, por favor, tenha dó, Europa, tenho cara de tola? Não sou nenhuma tonta.

Primeiro dizes que eu não tenho história, agora queres ser a mostradora da minha glória? E eu, eu não tenho voz própria para determinar as minhas escolhas, terei de seguir sempre as notas das tuas folhas? Por que está tão interessada em devolver-me as estátuas? É porque já não tens mais espaços no armazém. Pois bem…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Diz-me, caramba, por que estás tão interessa em devolver-me as estátuas, pedaços de pedra e de madeira… mas do ouro, da prata, do marfim, dos diamantes, do silício e da riqueza que custa o suplício do meu povo que vive em sacrifício para que possas manter vivo o teu vício de consumo em nome de bom serviço, sobre isso é só silêncio…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Falei do ouro, falei da prata, mais ainda não falei dos escravos e das pessoas extraviadas das suas terras e jogadas de repente em contextos alienígenas e de alienação completa, sem aliados e sem alianças, com crises de identidade que ainda hoje de forma indigesta se manifestam nos seus descendentes. E, tu, Europa, que te arrogas e te vestes da defensora dos direitos humanos… humanos, desculpa, queria dizer brancos… como cura da escravatura, indemnizaste os brancos, donos de escravos, por perderem o gado humano africano trazido do outro lado do oceano, pois tu estavas preocupada com reparos justificados. Mas quando te falam de reparos aos africanos feitos escravos, aí, assumes a postura de injustiçada e falas que não deves ser cobrada pelos erros do passado. Sim, é claro, então por que dizes que queres devolver-me as estátuas para pagar pelo erro do passado? Queres pagar pelos erros ou apagar os erros?

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa. Euroooopa! Queres tanto devolver-me as estátuas, tu, ó generosa senhora, porque estás tão preocupada em descolonizar a mente, em descolonizar o conhecimento, em descolonizar a cultura, em descolonizar a puta-que-pariu… hein é isso? Mais fácil colonizas Marte do que descolonizas a mente, porque um colonizador não descoloniza, um colonizador recoloniza, um colonizador se reorganiza para se manter sempre em cima. Quando és tu que desenhas as linhas da descolonização, jogando com maestria a tua filosofia sobre o mundo que te rodeia, não vais mudar as tuas ideias, só vais cobri-las com novas teias, mas elas no fundo continuarão feias, pois a maquilhagem não muda a essência. A qualquer ideia não-europeia, tu colocas um sufixo, por isso, enquanto falas de afro-literatura, etno-literatura ou de etno-filosofias não como literaturas ou filosofias, mas como categorias alternativas, não importa o que digas, vai ser uma coisa pífia, pois não queres descolonizar uma pívia. O teu discurso é sensacional, mas a prática… meh… só mantém tudo como está.

Que são minhas, as estátuas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa, se quiseres devolver-me as minhas estátuas, então larga essa atitude fátua, sua crápula, pára com as fábulas e vamos falar da prática.

Estás preocupada com o meu bem-estar? Ai, que boa, és tão fixe, Europa. És tão boa, tão boa que me afogas com as tuas instituições e as tuas ONGs que só fazem cá a manutenção da pobreza e dos problemas. Dizes que mandas para cá dinheiro, para salvar o povo inteiro, mas não tens uma cheta para pagar uma merda de um bote para retirar do teu mar pessoas a afogar, mas tens 1001 barcos a pescar o meu mar. E pior de tudo, ainda vês se encalabouças aqueles que tiveram a força e a coragem de usar o privilégio e a vantagem para serem humanos de verdade para ajudarem humanos necessitados.

Europa, Europa, Europa. Tu vendes as tuas armas no meu quintal, incitas guerras para me poderes explorar, pois a minha instabilidade é fundamental para que possas continuar a dar cartas e a falar mal de mim, como se eu fosse um débil mental, e achas que o me preocupa são as porras das estátuas?

Que são minhas, são minha. Mas já que daqui as tiraste, e por anos com elas ficaste, considera-as arrendada. Vai ver aquelas que tens às mostras nas tuas montras e faz as contas e manda para cá o dinheiro.

Hey, espera!, se prometeres não mais mandar para cá as tuas as tuas armas, as tuas doenças, o teu desenvolvimento sustentável e o teu capitalismo selvagem, que não me trazem nenhumas vantagens, eu juro-te que te ofereço as todas as estátuas do mundo.

20 de maio de 2019

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. XII

A HUMANIDADE É SIMPLES

A humanidade é tão complicada que acaba por ser simples, ou seja, por ter uma definição simples, ou simplista, resumida em: a humanidade é complicada. Entretanto, filósofos e promotores de autoajuda têm andado a tentar convencer-nos de que não, que a humanidade não é complicada, que nós é que assim a fazemos. Daí põe-se a questão: se nós não somos complicados como conseguimos complicar? Não consigo perceber como é que o simples consegue complicar, da mesma maneira que me faz espécie que Deus, um ente perfeito, tenha criado a imperfeição.

Se o homem fosse simples não teria complicado o seu viver. Tentamos fugir da complicação criando sistemas binários ou dualistas, resumimos tudo em ou bem ou mal, ou preto ou branco, ou ser ou não-ser, ou 1 ou 0, mas todos sabemos que tirando os computadores e as pilhas, nada funciona com dois polos apenas, até mesmo os bebés sabem que por vezes têm de deixar de chorar e de ceder aos caprichos dos pais.

Eu entendo como um insulto à natureza humana chamá-la de simples quando na verdade ela não é, e quando quanto mais complicada mais o homem gosta. Senão vejamos, aplaudimos mais os discursos que não entendemos. “Oh, ele falou tão bem e tão bonito… mas não entendi nada”. Gostamos mais de poemas complicados e com vocábulos que não conhecemos, despendemos tempo a observar e a elogiar um quadro que não nos diz nada, simplesmente porque desconfiamos que haja sempre uma montanha de significados obscuros ou simples quaisquer escondidos atrás dessas coisas que não entendemos, e temos o receio de dizer gritar simplesmente: o rei vai nu! Pois! Vai! Mas e não estiver nu? Se todos o vêm vestido quem somos nós para dizermos que vai nu? Eu vejo-o nu, mas será essa a verdade? Pois! Não se sabe, porque na verdade… na verdade a verdade é verdadeiramente variável, tanto pode ser como não ser sem deixar de ser verdadeira. Eu explico: pense-se nos conceitos da lógica aristotélica e na álgebra booleana dentro da tigela da teoria da relatividade. A observação depende do ponto de vista do observador e o simples facto de haver um observador altera o resultado da observação. Não sei quem disse isso, mas acredito nele. Sendo assim, pode-se dizer que existe o Ser, o Não-ser, o Ser-que-não-é e o Não-ser-que-é, sendo que o Ser-que-é é o Ser, e o Não-ser-que-não-é é, neste caso, em vez de Ser, um reforço à negação do Não-ser. Mas o Ser para um pode, ao mesmo tempo, ser o Não-Ser para outro, como sabiamente se diz: a boa-vida do carrapato é a dor do cão.

Pode-se ver nas últimas frases como é tão complicadamente simples a humanidade. Ou por outras palavras, a humanidade não é simples, nós é que a queremos simples e o less is more, dito por não sei quem [agora sei que é uma frase de Van Der Rohe], é uma ilusão, nós desejamos mais, mais e mais, e cada vez mais complicado, porque a simplicidade é aborrecida. Mas, quando não nos sentimos capazes, queremos tudo simples, pelo menos para nós, os outros que o tenham complicado.

Dizemos que a humanidade é simples, porque preferimos crer que assim seja, acreditando que a fé move montanha. E, se calhar, sim, a fé move montanha… montanha de treta. É uma metáfora, eu sei, não era para ser levada à letra, mas eu diria, os braços movem montanha, a fé só incentiva os braços a moverem, quando o chicote não o faz (o caso do imperador romano que mandou cortar uma montanha que lhe tapava a vista, ou os egípcios que erigiram as montanhas-esfinges). A fé, não importa de que tipo, é um grande motivador e um item muito importante para fazer as coisas acontecer. Que seria de nós sem a fé? Sem a fé e sem a esperança? Até nem sei dizer qual das duas é mais importante ou mais útil, visto que uma gera a outra. 





3 de novembro de 2018

TEM BONS DENTES?... NÃO? ENTÃO FORA…

Theresa May disse que depois de efetivar o Brexit vai passar a ser o Reino Unido a escolher e a decidir quem entra no território e só vão ser “pessoas qualificadas”.

Nem o tema, nem o processo são estranhos. Durante o comércio de escravos também só eram levadas as “pessoas qualificadas” para a Europa (ou América), pois elas trabalham e geram riquezas (a condição do trabalho não importa aqui, desde que elas trabalhem). E a questão não se encontra circunscrita ao Reino Unido, mas é toda uma postura da Europa. Recentemente, durante a crise de refugiados, fartamo-nos de ouvir e ver argumentos iguais por tudo o que é lado.

O coordenador do Observatório da Emigração disse que Portugal precisa urgentemente de imigrantes para resolver o problema da falta de mão de obra. A política de imigração de Merkel foi de facilitar a entrada de pessoas “educadas” na Alemanha. Macron há pouco tempo deu documentos a um herói escalador de paredes… enfim…

Cá em Portugal, os do “contra-imigrantes” dizem: “esses PRETOS (como se os imigrantes fossem só pretos, os do norte europeu são bem-vindos, ó, expatriados) só vêm cá para viver da segurança social e dos nossos impostos e não querem trabalhar um corno”. E os “pró-emigrantes”, da esquerda, dizem: “os né... os AFRICANOS são gente produtiva que trabalha bastante para sustentar a família, por isso devemos abrir-lhes as portas, pois eles são comprometidos com o trabalho e nem todos são maus”.

Pois, claro que não, nem todos são maus, alguns têm bons dentes, servem para bumbar nas obras, para jogar na seleção, para correr no atletismo, e para pintar algumas fotos “à la Benetton” para podermos falar da diversidade e da solidariedade. Enquanto isso, só vamos abrir portas à gente “qualificada”.

Abomino as reportagens a mostrar como os imigrantes se enquadraram bem na sociedade europeia, se aculturaram e se tornaram produtivos… é uma lógica esclavagista.

A única forma em que isto difere dos tempos do comércio triangular é que os imigrantes (guineenses neste caso - pelo menos são os que conheço) vêm para cá “voluntariamente” para serem escravizados, principalmente quando a qualificação não é académica ou atlética, mas força nos braços para limpar casas de banho e centros comercias.

Será possível falar da imigração fora de uma perspetiva capitalista e nacionalista, mas humanista?

25 de julho de 2017

MACRON E SEUS APÓSTOLOS (CEDEAO)

Há umas semanas o famoso presidente Emmanuel Trump dizia que as mulheres mexicanas tinham muitos filhos… Peço desculpas, tenho que repetir a sentença de forma mais calma, pois ando a confundir muito estas duas figuras.

Estava a dizer, Emmanuel Macron disse que o problema da pobreza na África é as mulheres terem muitos filhos. As mulheres africanas, olhem só!, essas parideiras descerebradas que não sabem fazer nada senão receber esperma e cuspir mais pretinhos para este mundo.

Já era mau por si só se Trump… desculpem, se Macron tivesse dito que os africanos terem muitos filhos é o problema da pobreza na África, mas não, não se trata dos africanos sequer, mas das suas Evas, essas encantadoras de serpentes. Nesta única frase, Macron mostrou as suas cores, é tão oco quanto Trump e tão racista quanto Trump e Le Pen, mas não é tão honesto como estes dois, pois eles ao menos assumem-se como são.

E feminismo à parte, Macron está preocupado com a superpopulação africana porque o destino dos jovens acaba por ser a Europa, e o destino dos jovens migrantes africanos das ex-colónias (?) costuma ser o país ex-colonizador. Estranha dinâmica. Só que em vez de Macron recomendar um muro, recomenda o controlo da natalidade numa base malthusiana idiota.

Sabe Macron qual é a taxa da mortalidade na África? Só sabe que cada mulher chega a ter oito filhos, mas sabe quantos destes sobrevivem de guerras criadas na África por interesses ocidentais, inclusive da própria França? Sabe quantas morrem de doenças ou de medicamentos fora de prazo vendidos por farmacêuticas ocidentais, incluindo as francesas? Sabe Macron quantas pessoas morrem de fome, porque o governo do seu país tem de continuar a pagar à França o direito de usar Franco CFA (ex-Franco de Colónias Francesas Africanas), em vez de lhes fornecer ajuda básica? Sabe Macron quantos desses jovens das suas chamadas ex-colónias têm de fugir do seu país para França iludidos com a ideia de uma vida melhor? Claro que deste último ele sabe e bem, e é o que o procupa.

Mas falemos das ex-colónias. Quando é que as ex-colónias francesas deixaram de ser colónias? Se até hoje França está a colonizar mais territórios. Guiné-Bissau já está lá quase desde que adotámos o Franco CFA e começamos a tornarmo-nos colónia de uma colónia (colónia do Senegal, que é colónia de França). A França quando não consegue controlar, destrói. Quantas ex-colónias francesas estão em Guerra Civil e quantas já enfrentaram golpes de estado quando os seus líderes dizem que não querem alinhar com os interesses franceses? Aliás, o conflito que hoje se vive na Guiné-Bissau não adveio do jogo de influências entre França e Portugal no país?

O discurso de Macron apenas demonstra a aura colonizadora da França e a sua necessidade de controlo. Mas, isso não é sequer estranho, ou não seria Macron um neoliberal, trocado em miúdos, imperialista capitalista. Vejamos só este caso caricato, enquanto algumas ex-colónias africanas estão a pedir compensação monetária pela colonização (por exemplo a Namíbia a pressionar a Alemanha), a França encontra-se nas antípodas continuando as extorquir as ex-colónias, como se estivesse a pedir compensação por deixar de oficialmente as colonizar.

Vamulá, França é França, Macron é Macron, defendem interesses próprios. Só tínhamos de nos irritar com eles e continuarmos a tentar desenhar as nossas próprias soluções. E desta forma esta história seria facilmente varrida para os anais das crónicas de idiotices ocidentais. Mas tal não foi possível, pois eis que, de repente, um grupo de “bons alunos”, que têm a função de empurrar a agenda da França na África, a CEDEAO (gerente do Franco CFA), levanta-se e vem dizer que Macron tem razão e que vão reduzir para três o número máximo de filhos por MULHER.

Lá está de novo, MULHER, quer dizer, um homem pode engravidar dezassete mulheres, sem crise, mas ai da mulher se se engravidar mais de três vezes.

E pelo amor de deus, será que nem Macron nem a CEDEAO sabem que a economia africana não se baseia apenas na medida do PIB? Vais para um sítio onde as pessoas vivem da agricultura e agropecuária e vais medir a riqueza dessas pessoas com um 1 dólar por dia? Consigo entender que Macron não saiba, pois cresceu numa realidade e foi doutrinado com verdades próprias e aplicáveis para o seu meio, mas que os africanos da CEDEAO embarquem nesta cantiga é por demais preocupante.

Uma das razões porque eu não gosto da ideia de comemorar 25 de Maio é mesmo esta: por que comemorar o dia de África, quando a África é tão fracionada e a ideia do pan-africanismo já nem cadáver mais é? Fala-se da África como se fosse um corpo único e com ideais alinhados, quando na verdade, não se trata disso, ainda mantemos as mesmas fronteiras que os nossos senhores criaram e as nossas grandes instituições, como a CEDEAO, por exemplo, ainda dançam sob os cordéis dos interesses europeus.

Queremos uma África desenvolvida, todos falamos de uma África desenvolvida, mas não como uma África de africanos, que tenha em conta a nossa cultura e realidade. Queremos negar o que somos para sermos como os nossos senhores. Deus do céu!, o mais assustador é verificar que mais de sessenta anos depois, Frantz Fanon continua a ter razão, o preto quer ser branco.

A CEDEAO vai controlar a natalidade das mulheres africanas. Mas como? Eu sei que a China tem uma longa prática disso e podemos aprender muito com ela, mas, diabos!, até a China já está a seguir uma direção oposta.

Se a CEDEAO ainda não sabe que o problema da África não se trata da quantidade dos filhos das MULHERES, pois não são muitos filhos que geram a pobreza, mas talvez o oposto, a pobreza (no contexto socioeconómico moderno) é que gera muitos filhos… pois numa sociedade camponesa, muitos filhos significam muitos braços de trabalho e muita comida para a família… Como estava a dizer, se a CEDEAO não sabe que o problema da África não se trata disso, mas de alinhar com interesses ocidentais em detrimento do próprio continente, e também de seguir cegamente essas doutrinas ocidentais que já todos sabemos que não funcionam, então está mais que na hora de reformarem as botas.

Que a França tenha Macron, pode ser bom para a França. Mas que a Guiné-Bissau tenha CEDEAO a tentar decidir por ela, não abona a nosso favor. Espero que o nosso presidente sequer vai tentar embarcar nesta ideia abominavelmente idiota.