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22 de fevereiro de 2017

TENTANDO ENTENDER... A NACIONALIDADE

Nos últimos anos tenho visto imensa discussão sobre a nacionalidade. E não estou a falar daquela simples "nacionalidade política" que podes adquirir legalmente, de acordo com as leis de cada país. Mas daquela “nacionalidade emocional" que muitos teimam em complicar, levando-a para o lado mais... racional(?). Já vou explicar-me melhor.

Para começar é preciso definir o que é um país. Um país define-se por um território criado por barreiras invisíveis e fictícias, por sobre a qual esvoaça uma bandeira (que tendemos a adorar como se fosse um deus, ou algo qualquer), regida aparentemente por leis próprias, e convencem-nos que a nossa vida é menos importante do que ele, e que é uma grande honra se morrermos por ele.

PARTE UM:
Hoje somos guineenses, e apregoamos isso aos quatro ventos como se fosse um feito nosso… mas não é, nós somos guineenses porque os colonialistas portugueses nos criaram. Eles chegaram, dividiram a África entre si, tomaram aquele pedaço de terra e disseram que é a Guiné-hoje-Bissau, e quando nos sacudimos da colonização (pelo menos a formal), nem sequer nos lembramos que do outro lado da estrada, onde agora é Senegal, vivia antes o nosso irmão, primo ou melhor amigo… não, começamos logo a dizer que nós somos guineenses e ele senegalês, portanto diferente, e que nós amamos melhor aquele pedaço de terra do que ele, e ele do seu lado proclama o mesmo. Mas por que devo amar apenas a terra que vai até à estrada? Quando chove ou faz sol, a natureza trata os dois lados da estrada por igual, por que faço eu a diferença? Lutamos contra o colonialismo, mas quando nos vimos “livres”, não apagamos aquelas divisões que ele criou na África, mantivemos essas fronteiras como ele as desenhou.

Foto de Neto Tonecas Betchiguê
PARTE DOIS:
A Guiné-Bissau é um pedaço de terra, chamado país, e só é país porque foi reconhecido internacionalmente por um conjunto de países, mais propriamente pelas Nações Unidas, se não fosse esse reconhecimento dos outros não seria país.

Vejamos por exemplo a Palestina, é reconhecida pela ONU como país, mas não por Israel e aliados de Israel. Ou mesmo, vejamos a Guiné-Bissau de 1973, era guineense na ONU, mas ainda continuava portuguesa para Portugal e amigos de Portugal. Então, pergunto, o que faz realmente um país ou cria uma nacionalidade? Utilizemos como referência a confusão que é o País Basco (é basco?, é espanhol?, é castelhano? é país? ou apenas uma região de um país?).

Posto isto aproveito para dizer àqueles que gostam de proclamar aos quatro ventos, que têm quatro avós guineenses ou algo assim, de que estão bem enganados. Porque a nacionalidade guineense nasceu em 1974, antes, os que viviam nesse território ou eram portugueses ou eram nada, e tornaram-se depois guineenses (politicamente) de nacionalidade adquirida.

PARTE TRÊS?
De qualquer forma, a Guiné-Bissau já é um país estabelecido com fronteiras, leis, bandeira e problemas próprios. E muitos já podem clamar, exclamar, proclamar, declamar, conclamar, aclamar ou reclamar a nacionalidade guineense. 

Mas o que faz alguém ser guineense? O que é um guineense?
  1. Será aquele que nasceu no território da Guiné-Bissau, podendo ter vivido lá o resto da vida ou mudado para outro país?
  2. Será aquele que viveu lá por algum tempo ou durante toda a sua vida, mesmo não tendo lá nascido?
  3. Será aquele que obteve os papéis legais que confirmem a sua nacionalidade?
  4. Será aquele que ama aquele território, não importando se nasceu lá ou não?
  5. Será aquele que nem sequer conhece aquele país, mas só porque um dos pais nasceu lá, ou ambos os pais nasceram, sente-se guineense?
  6. Será a “guineensedade” genética, que pode ser herdada dos pais, ou apenas uma construção social?
  7. É mais guineense o guineense que nasce, vive e trabalha na Guiné-Bissau do que aquele que vive e trabalha fora? (E quando o guineense que vive e trabalha na Guiné-Bissau é um político que só está a prejudicar o país?)

Guerra Civil, 7 de Maio de 1999, Hospital Simão Mendes
Podia fazer ainda mais questões, mas não quero aborrecer a ninguém. No entanto, faço esta observação sobre os que se dizem guineenses de raiz, gema e nata, só pelo fato de terem lá nascido. Eu conheço, por exemplo, uma pessoa que não nasceu na Guiné-Bissau, Teresa Montenegro, mas vive “o” país, e faz trabalhos extraordinários para a Guiné, será ela menos guineense que os tais políticos já referidos?

Não sei o que faz realmente a "nacionalidade", para mim continua a ser apenas uma questão legal e política, mas a forma como as pessoas se relacionam entre si ou com o território que habitam vai para além desses enquadramentos (legais e políticos). Por exemplo, eu nasci em Sonaco, e apesar de existirem muitos mandingas em Sonaco (e a terra ter um nome mandinga), eu sinto-me fula, mas vão dizer-me que não sou, porque não tenho pais fulas ou não sei falar fula, mas muitos que não viveram em comunidades fulas já podem ser fulas só porque um dos bisavôs foi. Faz sentido?

Não devemos esquecer que a nacionalidade é apenas uma questão política, que a terra, ou a Terra, não nos pertence, pois vamos morrer e ela vai ficar por cá, portanto, não devemos deixar que questões políticas ditem o nosso relacionamento, principalmente quando esta estúpida questão de nacionalidade é apenas a chama que ateia o fogaréu de nacionalismos e cria um dos vários problemas com que a sociedade global tem de lidar.

Em lugar de “guineense”, cada um pode colocar a nacionalidade que quiser para fazer a questão... e no caso dos guineenses, pode ainda colocar o grupo étnico.

1 de novembro de 2014

TENTANDO ENTENDER... A DITADURA


Há uma diferenciação bem simples e explicativa entre os regimes ditatoriais e os regimes democráticos: a separação dos poderes. 

O estado moderno (e dito democrático) é gerido por três poderes: legislativo, executivo e judiciário. Os três são independentes uns dos outros e controlam-se (ou deviam controlar-se) para não haver corrupção e abuso de poder. Quando esses três poderes funcionam saudavelmente o regime chama-se democrático. E quando não, chama-se ditadura. 

Porém, há ainda outro elemento diferenciador que é a vontade dos governados. Quando é o povo a escolher o governante, dizem que é democracia (poder do povo, entenda-se), quando o governante impõe-se sem consultar o povo é ditadura.

Como disse, a explicação é bem simples e expõe bastante bem as diferenças… ou melhor, podia expor, se na verdade não vivêssemos num mundo extremamente baralhado e sem balizamentos claros.

Há estados modernos ocidentais que se dizem democráticos, mas que são REINOS (ditadura por nascença). A Espanha, o Reino Unido, a Holanda, entre outros, que são monárquicos, têm grupos de pessoas que não precisam de fazer nada senão nascer na família certa para serem consideradas importantes e terem o resto do povo a trabalhar para eles. E influenciam bastante os poderes no estado e são politicamente ativos, sem, no entanto, terem de se preocupar com as mudanças das ideologias políticas, esquerdas e direitas vêm e vão, e eles lá permanecem. Mas não foram votados pela população, ganharam o seu poder há muito tempo e conservaram-no pelas intrigas e força das armas, e hoje, quando confrontados com as mudanças, eles (e os seus adeptos) advogam que tem de se respeitar a tradição, e continuam ali, no pódio… ditatorialmente.


Há ainda estados, defensores da democracia, os EUA e todo o Ocidente rico, que de quatro a quatro anos vão trocando as pessoas que estão no poder, mas que mantém o círculo de poder e de influência, e que mesmo através de uma análise superficial percebe-se que só usam a democracia para trasvestir a… aristocracia?… oligarquia?... capitalocracia.

Esses estados têm os três poderes acima citados, separados uns dos outros, mas eles não são independentes como devia ser. Por exemplo, num caso recente nos EUA, a tal medida chamada OBAMACARE, foi considerada anticonstitucional por um grupo de tribunais de uns estados americanos ao mesmo tempo que foi considerado constitucional por outro grupo. A diferença na avaliação estava no facto de os juízes que o fizeram serem ou democratas ou republicanos, cada um puxando a sardinha para a sua brasa. Consultou-se o povo? Não, o povo é um burro que só é consultado para escolher quem o vai montar. A democracia moderna está desenhada para servir o capital.

No Brasil, recentemente houve eleições, três partidos eram fortes: PT, PSDB, PSB. O PT durante todo o seu mandato esteve envolvido em corrupção, embora dissesse possuir uma política orientada para o povo; o PSDB foi o corrupto antes do PT, e oferecia um governo de estado mínimo todo a favor do capital; o PSB perdia-se ali no meio de um de outro, aparecendo com algo novo e não experimentado. O PSB foi massacrado pela campanha agressiva que os outros dois desenvolveram contra ele. Por quê perdeu?, porque provavelmente não tem ligação com as grandes empresas, que controlam o dinheiro como os dois outros partidos.

Em suma, os partidos vencedores das eleições democráticas são aqueles que investem uma soma milionária na campanha para chegarem ao poder, e que para isso precisarão de investimento dos que na verdade controlam o dinheiro. E como se sabe que uma empresa não investe sem lucro em vista, mesmo quando diz que o faz filantropicamente, é sabido que a seguir vão cobrar ao governo que ajudaram a eleger e será o povo a pagar.
O povo é que escolhe, sim, é claro. Mas quais são as hipóteses que tem para escolher? Na maior parte do mundo acabam por ser só duas as escolhas: democratas ou republicanos nos EUA, Trabalhista ou Conservador no UK, PT ou PSDB no Brasil, PS ou PSD em Portugal. Claro que existem muitos outros partidos em todos esses países, mas não são relevantes. George Carlin dizia algo assim: quando tens de escolher uma coisa séria como quem governa, só te dão duas hipóteses, mas vai ao supermercado e para tudo tens centenas de escolhas.

Como se sabe, pode existir a democracia sem partidos políticos (embora o Ocidente chame a qualquer país com regime desse tipo de ditatorial - mas vejamos o exemplo dos fundadores da democracia - que, em boa verdade, de democráticos tinham nada), e pode haver eleições com patidos políticos que são puras representações de ditaduras. Por exemplo, conhecem algum deputado independente em Portugal? Quem são os que se podem candidatar-se a deputados senão os que são nomeados pelos partidos? O povo alguma vez indicou alguém para o representar ou apenas escolhe da ementa que lhe é apresentado?

Partidos pobres e sem influências, por melhores ideias que tenham para o povo, não têm chance nenhuma de vencer as eleições, e o mais estranho é que são crucificados pelo próprio povo. Isso acontece principalmente porque as eleições estão desenhadas para serem vencidas por quem tem dinheiro. E como tudo o que é bom para o povo vai contra o capital e vice-versa, percebe-se quem realmente tem o poder. 

O povo não é mais que um joguete. Votamos em quem aparece mais na televisão e em quem os nossos patrões dizem para votarmos, principalmente porque somos egoístas. Voto no partido do meu patrão, porque se ele perder as suas influências eu poderei perder o meu emprego. Voto no partido do meu patrão, porque se contradizer as suas opiniões perderei o meu emprego, e como o ouço todas as vezes sem contrariar e criticar, acabo por simplesmente fazer minhas as suas opiniões.

Tal e qual na missa só levamos com a opinião do padre, sem poder responder, e acabamos evangelizados, com a televisão acontece o mesmo. Quem tem dinheiro para comprar mais tempo de antena, ganha as eleições. Mas isso é durante as campanhas oficiais, e a campanha não se faz apenas nesse período. Passamos quatro anos a ouvir baterias de comentadores na televisão a lavarem-nos o cérebro, e são sempre dos mesmos (agora estou em Portugal), ou são do PS ou do PSD, e para cada comentador de um partido da esquerda, temos quase uma dezena destes dois partidos. Porquê? Por capitalocracia.

Meses atrás estava em debate se a Guiné Equatorial (GE) podia ou devia entrar na CPLP. (Antes de prosseguir, tenho de avisar: não pretendo fazer de advogado do diabo e nem quero enaltecer qualquer tipo de ditadura, o que estou a fazer com este artigo é entender a ditadura.) Os argumentos contra eram que 1) o Presidente da GE é ditador e que está no poder há mais de não-sei-quantos anos e que 2) é nepotista e beneficia os seus filhos e que 3) o país é a favor da pena de morte.

Bem, ponto um: o presidente angolano está no poder há muito tempo, é nepotista, e a sua filha já é dona de boa parte de Portugal, possuindo já poder para influenciar, inclusive, as eleições aqui… e Angola está na CPLP. Ponto dois: O filho de Durão Barroso acaba de ser nomeado para Banco de Portugal sem um concurso público (tal e qual os filhos de muitos outros políticos e poderosos que obtém cadeiras importantes sem precisar de suar, só, porque, como já tinha dito, nasceram na família certa ­ - faço, no entanto, a mesma ressalva que aqui, quando me referi à filha de Clinton). Ponto três: há pena de morte nos EUA, mas nenhum país usaria esse facto para negar uma cooperação com eles.

Falando agora da separação de poder, no caso português, vemos que praticamente não existe. Os casos escandalosos de corrupção que afetam a política e povo nunca são julgados e os julgamentos dão em nada. O caso BPN, por exemplo, e agora o BES, dão em nada, porque na verdade o capital entrelaça e manipula todos os três poderes. Os prevaricadores, nestes casos referidos, continuam com as suas benesses e os seus bens, e o povo vai pagar pelo abuso de poder que fizeram, porque os três poderes que deviam proteger o povo afinal são servis aos primeiros. 

O Caso da Citius, por exemplo, mostra claramente um problema da gestão do poder judicial, afinal é o governo ou os tribunais que deve gerir essa parte da questão?

Outro exemplo, é deste Governo de PSD que apesar de atropelar várias vezes e deliberadamente a constituição não é chamada para o tribunal sob acusação de crime. No meu entendimento a constituição é um documento legal e portanto uma transgressão a um documento legal é passível de julgamento. Por que não se julga o governo? Será que é porque mesmo os constitucionalistas do TC são membros de um dos partidos mais poderosos e trabalham também para o capital. Ainda ontem ouvi o Marinho e Pinto a dizer que há escritórios de advogados (privados) com sócios que são do governo e que recebem milhões em honorários mensais pagos com o dinheiro público; e ainda disse que os advogados agora ajudam os governos e as empresas a fazerem trafulhices explorando as brechas legais. Eis a justiça no seu melhor.

Quando os poderes legislativo e judicial são dominados pelo partido que está no executivo, o que se pode esperar que não seja ditadura? Esta coligação que agora governa só leva as leis para aprovar no parlamento por praxe, porque sabe que as vai aprovar. E as leis que tem sido aprovadas beneficiam em quê o povo? E o que vai acontecer daqui a um ano? Essas leis serão anuladas? Não haverá simplesmente uma troca de cadeiras? E essas cadeiras estão no lombo de quem? Do povo, é claro.

Na ditadura africana as pessoas chegam ao poder com a força das armas e, na maior parte, só de lá saem da mesma forma. Os três poderes (legislativo, executivo e judicial) continuam a existir, pois há nomeados, mas funcionam tão bem quanto na ditadura ocidental, ou seja, só servem a quem está no poder. Mas, se na ditadura africana quem está no poder é quem manda (sabemos quem é), na ocidental, quem está no poder está lá a mando de uns poderosos capitalistas (não sabemos quem são). Essa é a grande força do capitalismo, dissimulação (lê aqui).

Como disse, não estou a lavar a ditadura africana. Estou apenas a comparar as situações. 

A ditadura ocidental, sem falar do capital, centrando-se apenas na política, é mais discreta, mas não deixa de ser ditadura. A vontade pelo poder, o egotismo e o egoísmo dos governantes é o mesmo. Se alguns ditadores do terceiro mundo não têm tempo e nem paciência para chegar ao poder pela manipulação e enriquecer à custa do povo, com o apoio do próprio burro… desculpa, povo… os ditadores do ocidente fazem-no. De Abril de 1974 para cá vão 40 anos, e em 40 anos ainda Mário Soares tem o poder de puxar cordelinhos, embora não esteja ali à frente. E por Mário Soares lê-se Cavacos, Sampaios, Barrosos, entre outros tantos. Ou mesmo vamos ver o caso de Juncker, que foi governante de Luxemburgo por quase 20 anos (sem falar que mandou no dinheiro durante um década - perfazendo quase 30 anos de grande poder) e que agora está a governar a Europa por mais 10 anos. Não será isto ditadura?

O que torna a ditadura política ocidental mais assustadora que a ditadura do terceiro mundo, é que lá pelo menos sabe-se que é uma pessoa apenas a controlar aquilo, e aqui são um grupo de indivíduos que criaram um círculo, no qual se movimenta e do qual não vai sair e que se mantém no poder por muito tempo, criando filhos e sobrinhos políticos e bem distribuídos na esfera do poder para continuarem com o seu legado, uma espécie de monarquia dissimulada (vejamos apenas o caso dos Bush ou da família Clinton).

Vá lá, digam-me lá se isto não é ditadura.


Para deixar claro, sou contra a ditadura, de qualquer tipo e não me perguntem qual é a ditadura preferível, porque é como me perguntarem se prefiro ter SIDA ou CANCRO. Não me peçam para escolher entre a ditadura africana ou ocidental, principalmente porque esta última estende a sua asa e incentiva, abençoa e protege a africana, enquanto os seus interesses vigorarem.

Não falei da ditadura socialista (a histórica da URSS), porque essa todos já conhecem, mas não é diferente da ditadura capitalista, na medida em que tem por finalidade acumular benesses e privilégios a custa do povo. Como disse Orwell: Todos são iguais, mas alguns são mais iguais. Até agora, o que consegui com este exercício de pensamento é achar que todo o regime é ditatorial.

6 de setembro de 2013

TENTANDO ENTENDER... A CRISE SÍRIA

Um dia, por acaso, estava a acompanhar um debate filosófico entre o meu sobrinho, de sete anos, e o seu amigo, de uns nove ou dez, acerca da mentira, quando o amigo saiu com essa conclusão depois de analisadas as premissas e apresentados os argumentos: “os adultos também mentem, e muito mais do que as crianças”. Não manifestei a minha opinião, pois… onde estaria a solidariedade adultícia se eu confirmasse aos miúdos que eles tinham razão?

Numa analogia similar, considerando que os países ricos são os adultos, e os pobres são os miúdos, cuja opinião não é solicitada, nem levada em conta, eu percebo a solidariedade dos G20 com os americanos na questão de invasão à Síria. Solidariedade sim, porque embora saibam que se trata do interesse económico de um punhado de americanos superricos, aqueles que lucram imenso com a sua máquina de guerra (nada a ver com Van Damme), não vão agir em contradição e tudo o que pedem é um aval da ONU (outro pau mandado dos States). Bem, mas compreende-se, os países ricos têm interesse em não perder o seu domínio, e a melhor maneira de o não fazer é não embater de frente com o mais rico e poderoso deles. Sendo assim, os G20, ou melhor os G19, vão, de qualquer forma apoiar o G1, ou quanto muito, não fazer nada quando este decidir levar a sua avante. Trata-se da solidariedade adultícia.

Pode ter havido ataque com gás sarin na Síria – como pode não ter –, pode ter sido um trabalho tanto do governo i-“legítimo” – como pode ter sido da oposição – (o i- é para dizer ao Passos Coelho que a legitimidade do governo, mesmo que tenha 100% de votos, perde-se quando põe em risco a sua população em benefício de interesses económicos alheios), mas numa coisa todos concordam, milhares de sírios desgraçados estão a morrer massacrados pela ganância de uns quantos. Pois vê-se que tanto do lado sírio como do americanos há muitas coisas a aparecerem que cheiram a completas manipulações.

Diz-se que há mais ou menos 110 mil mortos desde o início da guerra civil síria, mas isso não interessava aos americanos, nem aos G19, são sírios, porra, nem pessoas são. No entanto, quando se fala que uns 100 sírios morreram com gás sarin, levanta-se a América, toda indignada: Isso é uma barbaridade!  Pois, claro que é! Onde já se viu? Matem-se com armas, com canhões, matem-se com garfadas no olho um do outro, aliás, até podem usar a piada mortal dos Monty Python, matem-se à paulada, matem milhões, matem bilhões, porra, mas não usem o gás, pois isso é barbaridade. Gás só é permitido nas prisões americanas, ninguém mais deve usá-lo.

Obama vai atacar a síria, retaliação, disse ele. Mas que raio fizeram os sírios à América para estes terem de retaliar?

Mas todos sabemos que o G1 não se importa com o que os outros pensam, ele apenas faz, no entanto, do lado de cá, vejo notícias sobre a crise síria que me deixam perplexos. Quem entende os média? Num artigo dizem que existem provas que atestam o ataque em Síria com armas químicas pelo governo, para logo no outro dizerem, em letras miúdas, que a ONU ainda não fez exames conclusivas, para logo a seguir, voltarem a carga em letras garrafais que houve provas e ADN sobre o uso do sarin e que o Cameron tem provas conclusivas, como se não soubessem que Powell, Bush e Blair já tinham apresentado provas conclusivas aquando do ataque ao Iraque? Por que carga d’água os média não usam a palavra “alegadamente” quando apresentam essas notícias em vez de servi-las com factuais, sabendo que muitos nem pensam sobre o que ouvem e partem logo do princípio que os jornalistas não mentem (ai, tenho de avisar o meu sobrinho).

A Síria vai ser invadida para fazer um cerco ao Irão? A Síria vai ser invadida para meter medo aos norte-coreanos e aos iranianos? A Síria vai ser invadida porque, pelos visto, a retirada das tropas de Afeganistão poderá criar desemprego para o milhares de mercenários americanos? A Síria via ser invadida por uma posição estratégica contra a Rússia? A Síria será invadida para um teste cabal dos drones e robots de combate? 

Mas quem raio legitimou a América como a polícia do mundo?

Acho que essas (ou algo como isso) deveriam ser algumas das questões que deviam ser levantadas e analisar a legitimidade de um país invadir o outro. Invadam então Portugal, porque o governo está a usar bombas decretatórias para liquidar a população... ai, por favor, não invadam, estava só a brincar.

Que Obama pôde ter mudado alguma da política americana… sim, ele pôde. No entanto, tal como já vaticinara, ele tem de cumprir as promessas feitas as multinacionais que financiaram a sua campanha, e ele é apenas um outro fantoche da grande e verdadeira América (os bancos e as multinacionais).


Tentei aqui entender a crise síria, mas continuo como quando comecei a escrever isto, não entendi nada.




17 de novembro de 2012

TENTANDO ENTENDER... A GREVE

Não perguntes o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer por ela, JFK. 

Estamos habituados a ouvir esta frase, e por ser tão boa tornou-se religiosa na boca dos políticos. Mas não é senão uma frase de controlo, uma arma perfeita para calar os reaccionários, similar à: bem-aventurados os pobres de espírito (leia-se estúpidos ou pessoas que não questionam), porque deles é o reino dos céus. Não conheço nenhuma outra frase que apele ao patriotismo e à inacção do povo melhor que esta, talvez apenas aquela fábula de Esopo d’ As Mãos, o Estômago e o Corpo. 

Entretanto, eu digo não perguntes: o que posso fazer pela pátria?, nem: o que fiz pela pátria?, mas pergunta: o que fez ela por mim? 

Se comummente chamamos a pátria de mãe, então facilmente se aplicará esta comparação: uma boa mãe é aquela pessoa que nos protege, nos educa e orienta, ensinando-nos o certo e o errado, guiando-nos para aprendermos a fazer o próprio caminho, logo uma pátria-mãe que nos leve a fazer a questão que abriu este artigo devia ser uma boa mãe; no entanto, se não damos o direito de nos exigir nada a uma mãe que falhou redondamente na nossa educação e nunca quis saber de nós senão para os próprios benefícios, por que razão não devemos revogar esse direito a uma pátria-mãe que age da mesma forma? Principalmente quando a pátria-mãe, na verdade, é um pai ausentemente presente e chama-se governo.


Se o governo fosse justo e equilibrado, o governo desejado por Platão, formado por homens ilustrados e equânimes, sim, podíamos e devíamos nos perguntar: o que fizemos pela pátria?, mas quando a despeito de todos os nossos esforços e do enorme sacrifício e das cargas que nos põem sobre o lombo, o governo ainda nos empobrece mais e beneficia os seus (vejamos o caso fresco dos subsídios não retirados aos nomeados do governo), que atitude moral tem ele para nos pedir alguma coisa? 

Então, repito, não perguntemos o que fizemos pela pátria (entenda-se governo), mas o que fez por nós ela. Acredito que talvez só assim consigamos perceber a dimensão da GREVE GERAL de há dois dias, que os média tentam, com todos os esforços, demonificar, usando um processo de desacreditação através de comentaristas políticos e sociais, chamando aos grevistas de não-patrióticos, visto que só serviram para piorar a situação já frágil do estado português no panorama internacional. A pergunta que andam a fazer é: qual foi a utilidade da greve? (Utilidade, hein?!!! Qual foi a utilidade do 1º de Maio de 1886?) Foi prejudicar o país, fazendo-o perder muito dinheiro que será preciso para saldar a dívida contraída com a Troika, porque os grevistas, egoístas, não pensaram no país, mas apenas em si. Sim, palavras para provocar ressentimento, mas haverá melhor forma de pensar senão em nós mesmos quando põem em risco a nossa sobrevivência, não só psicológica como física?


Os comentaristas, que ganham bem só de aparecer na televisão (sendo isso a sua fonte de rendimento extra), podem andar a falar por lá, lavando a cabeça da metade da população, levando-a a uma mea culpa idiota e imprópria, jogando-a contra a outra metade que se mantém sã nas suas revindicações, mas nós, os desempregados, os trabalhadores de verdade, os não-políticos e não-governantes, nós, que somos a máquina do país, sabemos que se não fizermos mais greves, os do governo não ficarão com medo de ver o país parar e, portanto, de verem em risco as suas posições; e se isso não acontecer continuarão a não se preocupar connosco, e a descarregar sobre nós os problemas que eles mesmos criaram e ainda por cima a exigirem-nos sacrifícios.

O que fizeram os políticos pela pátria a mais do que nós para ganharem reformas vitalícias, salários soberbos, terem férias subsidiadas que a todos é cortado, ou para não baixarem os próprios salários ou cortar nos benefícios? Por que não fazem eles sacrifícios? Por que sempre que se fala da forma como usam o dinheiro a seu favor e os valores que usam parece-nos pornografia?

Porém, o povo é o pior inimigo de si mesmo, em vez de se manter unido em prol do que lhe beneficia, fragmenta-se em diversas frentes e dilui o essencial com superfluidades. Hoje anda o próprio povo a fala mal da greve de há dois dias e a chamar aos outros de não-patrióticos e sem bom-senso, simples ferramentas dos sindicalistas (que na verdade são também políticos, mas que nos beneficiam ao mesmo tempo que a si mesmos) que só contribuíram para empobrecer mais o país.

Andam os políticos a usar o vandalismo cometido durante a manifestação por umas quantas pessoas para pôr em questão a legitimidade da greve, porém isso é manobra de diversão. Mas, hey, também tem uma coisa: eu não gosto da polícia que protege os governantes, mas se não vamos atirar pedras aos últimos para quê atirá-las à primeira? A greve foi legítima, porque é a única arma que temos para desestabilizar os manda-chuvas e levar-lhes a dar-nos alguma atenção. 

Pode o Cavaco dizer que também foi trabalhar, pode o Passos fingir que fez o mesmo, podem os big bosses dos média dizer que foi passada uma imagem negativa do país lá fora, nada boa para o contexto económico actual (errata: para o governo actual), podem dizer tudo o que quiserem, no entanto, o certo é perguntarmos: se eu fiz pela pátria, se trabalhei e descontei, se elegi os meus proxenetas (que não só a mim f…ixam como à própria pátria), se me são impostos sacrifícios por causa das asnices das pessoas que não se sacrificam, será que não devo perguntar: O QUE FEZ A PÁTRIA POR MIM? 

Claro que devo perguntar, principalmente quando está mais que claro que a pátria me viola de todas as maneiras possíveis e inimagináveis, e como farei isso? COM GREVES, CAMARADAS.

11 de julho de 2012

TENTANDO ENTENDER... O CAPITALISMO

O Capitalismo está gasto e defunto… bem, talvez não defunto, talvez zombie, precisando de cérebro alheios para ficar com a sensação de sobrevivente, quando na verdade é só um walking dead que zombiefica todos ao seu contacto. 

Houve ideais nobres no capitalismo?, acredito que houve, e não apenas uma substituição melhor organizada e disfarçada da escravatura e do feudalismo através de termos mais civilizados, onde em vez de condenar as pessoas à forca, vende-se-lhes a corda e ainda lhes são cobradas as expensas mortuárias. O Capitalismo é ultra-canibal e necrófago, porém, o seu maior trunfo é ser um mestre de ilusões.

Como se costuma dizer, o maior truque do Diabo foi convencer ao mundo que não existe, também o maior truque do Capitalismo é similar, no entanto oposto: ele convence-nos que sem ele o mundo colapsará e reduz-nos as expectativas com distopias bem cozinhadas, impedindo-nos de imaginar o mundo sem ele, levando-nos a acreditar em ilusórias vantagens de maneira a acharmos que qualquer outro sistema é inimigo. 

Vamos só ver um exemplo: nos EUA, em plena crise de 1929, enquanto o povo (aqui falo da ralé, a classe baixa, nós) malhava forte no ferro frio para sobreviver, esse mesmo povo atacava outros ideais e defendia os seus exploradores, chegando mesmo a linchar comunistas e bolcheviques, mesmo nessas alturas negras uma das maiores ofensas era ser chamado de comunista, vermelho e afins, e quando confirmavam que alguém defendia esse ideal, ele era ostracizado e culpado pelos males da aldeia (alguma similaridade com a idade média?). E será que hoje é diferente? Nada! Se não fosse porque cultivamos mais "tolerância" hoje (não graças ao capitalismo, que o capitalismo existe há muito tempo e não é tolerante) ainda continuar-se-ia a linchar comunistas, zeitergeistas e outros istas. Eis a maestria do Capitalismo, tornou-se não necessário, mas imprescindível.

Uma das artimanhas do Capitalismo para garantir a supremacia foi misturar-se com a democracia, parecendo que são sistemas gémeos e co-dependentes. No entanto, a história prova-nos que isso é ilusão. Os gregos já tinham democracia enquanto ainda eram esclavagistas, e o próprio capitalismo é uma transformação do feudalismo, usando como diferencial apenas o assalariamento. Antes que se criassem leis que tentassem defender mais aos assalariados o capitalismo era tão cru como está a ser agora com neo-liberalismo, voltando às raízes antigas, usando como desculpa a crise económica para poder sugar-nos melhor o cérebro (mas isso já é outra história). É mais que certo que nenhum dos exemplos conhecidos do socialismo (senão a sombra do socialismo existente na Venezuela que também balança entre a ditadura e a democracia) foi democrático (isto se considerarmos que democracia é fazer eleições periódicas), e assim, por comparação directa, como o socialismo é antagónico ao capitalismo e a ditadura é-o à democracia, logo pensa-se que o capitalismo é que garante a democracia. 

Mas a verdade é que são questões diferentes o capitalismo e a democracia; e a democracia capitalista é apenas uma capa da ditadura, a ditadura do capital, quem tem mais dinheiro tem mais votos. Somos iludidos que há balanço, quando excepções como pobres (Lula, por exemplo) ou pretos (caso Obama – no mundo branco) ou mulheres (Soong Ching-ling – um raro caso chinês que é mais monárquico, porém histórico) são eleitos presidentes, passando a ideia de que tudo é possível no capitalismo, mas visto à lupa, vemos que por trás destas figuras há empresas e máquinas de propaganda que investiram muito dinheiro à espera de dividendos, favores e facilitismos e que apenas se aproveitam do espírito do tempo para apresentar um produto que melhor resultado lhes traga. Ou seja a democracia capitalista é apenas um negócio como qualquer outro, investe-se e espera-se por lucros, não é nada um sistema como imaginado pelos gregos que pretendia um equilíbrio social. E como busca sempre lucros por isso espalha sementes da guerra, da irascibilidade e da fome por toda a parte do mundo, para continuar no controlo. 

O Capitalismo é definido pela frase mais cliché dos filmes sobre Wall Street: queres estar aqui tens de ser um tubarão… e o tubarão come peixes miúdos. Sim, eis o Capitalismo na sua essência mais pura e ele não tem nada a ver com a democracia. Aliás, vejamos apenas como boa parte dos países árabes são capitalistas mas não democráticas, ou melhor, até a China, que se diz comunista, aplica uma política externa também capitalista para engolir o resto do mundo. Ponto, acho que já consegui explicar que o capitalismo é diferente da democracia. Mas que o capitalismo seja um proxeneta da democracia, não há dúvida. E será a própria democracia o melhor sistema? Credo!, não! Mas sobre isso vou falar com mais detalhe num outro artigo.

Quais as vantagens do capitalismo? Todo o mundo pode fazer dinheiro… se conseguir; todo o mundo pode aspirar a ir para a cama com a democracia… se tiver um investidor; todo o mundo pode arranjar um investidor… se tiver ideias (e não menos importante, sorte de encontrar alguém isento que não lhe roube a ideia); todo o mundo pode processar quem lhe roube a ideia… se tiver advogado; todo o mundo pode ter advogado… se tiver dinheiro (se não tiver o governo atribui-lhe um que vai ter que dividir com muitos outros); em suma, todo o mundo pode ter dinheiro… se tiver dinheiro.

O capitalismo está cheio de exemplos de self-made-men (e tantos filhos do papá que assim se denominam), homens que foram tubarões e que se empenharam bastante para conseguir um lugar no aquário com os graúdos, mas para 98% de cada um desses há centenas a chorar de exasperação.

O capitalismo é uma outra espécie de monarquia que, grande parte das vezes, não se atém ao mérito (patranha sobre o qual vou falar num outro post), mas ao sobrenome; só isso explica a eleição do Bush Júnior, ou por exemplo, a recente aquisição da filha de Clinton pela CNN [escrevi isto praí em Novembro do ano passado] – longe de mim desmerecer a mulher por causa do nome que carrega, mas está claro que a aquisição da CNN virou notícia exactamente por causa do nome dela. Ok! Eu sei que isto não é um defeito exclusivo do capitalismo, mas não deixa de ser uma marca do sistema.

Em alternativa ao capitalismo o que é que proponho? O socialismo? O zeitgeist?

Não, nenhum dos dois. Não proponho o socialismo, pelo menos não nos modelos que já vimos ou lemos: o russo, o cubano ou o chinês (embora este último está a parecer-me ultimamente um tanto viável, considerando que quebra com a hegemonia ocidental, vencendo o ocidente no seu próprio jogo), que se tornaram opressivo ao invés de equilibrados como no início os seus mentores idealizaram, acabando a adoptar a máxima dos porcos de Orwell: somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que outros! E será que alguns não devem ser mais iguais que os outros? Será que aquele que estudar por mais de vinte anos para ser médico e bom, deve ganhar o mesmo que aquele que andou esse tempo todo a estudar rótulos de garrafas de álcool para depois se tornar, sei lá, arrumador de carros? E aquele que passa a vida debaixo da terra a escavar carvão para aquecer ao médico, pondo em risco a sua vida, por que não deve ganhar mais? Não sei a resposta disto, por enquanto está-me a parecer que devemos ser premiados pelo "mérito", mas o que realmente define o mérito? (como disse, isto é matéria para outro fórum). No entanto, a realidade hoje é que não importa a quantidade do tempo que andaste a estudar, podes ter estudado vinte anos, mas perdes sempre por alguém que estudou um ano e tenha no diploma Oxford ou Cambridge ou Harvard (entre alguns) mostrando como o dinheiro ou a falta dele influencia o mérito no sistema capitalista.

E por que não proponho o Projeto Vénus? Simpatizo com o sistema, como já dissera aqui, no entanto, parece-me muito filho do capitalismo e mais uma substituição desequilibrada, da maneira como se apresenta pelo menos, do que propriamente uma solução fiável.

Mas o que proponho em substituição ao Capitalismo? Definitivamente o comunismo marxista e a descentralização dos poderes.

19 de junho de 2012

TENTANDO ENTENDER... A CRISE


Muitas vezes ouvi pessoas a dizer: então, se a crise é uma questão de falta de dinheiro, por que não se pode simplesmente imprimir mais dinheiro? Pois, por que não? Bem, porque a estrutura económica decidiu que não é assim tão simples. 

E a verdade é que a crise não é necessariamente uma questão de falta de dinheiro, mas do excesso do mesmo, porque há mais dinheiro  electrónico do que físico e se o físico precisa de ser impresso, o electrónico cria-se automaticamente a partir de uma promessa de dívidas ou juros ou benefícios. Por exemplo: vais sem dinheiro comprar qualquer coisa, o banco autoriza a compra e não te dá dinheiro físico, faz transferência electrónica para o vendedor, e, voilá, essa quantidade que requereste acaba de ser criada, e depois, como vais pagá-la com juros, novas quantidades se criam a partir dessa. E sendo que o que não falta hoje são dívidas, conclui-se facilmente que não é o dinheiro que está em falta, além do mais, se há uma coisa que contraria a teoria do Lavoiser é o dinheiro, ela é a única coisa na natureza que não desaparece (quer dizer, até desaparece dos nossos bolsos), pois não é natural, apenas muda de mão. Portanto a pergunta devia ser: para onde foi o dinheiro?

Considerando isto, entende-se que a crise não existe por falta de dinheiro, mas porque um grupo de bilionários ficou entediado e resolveu monopolizar os bancos, legitimado pelo sistema, controlando a circulação monetária, desequilibrando ainda mais balança desequilibrada, pondo na corda bamba os países menos poderosos, para a partir disso, comprar os governos e ganhar o controlo do mundo. De momento parece que os donos da Europa são a Alemanha e a França (representados por Merkel e Sarkozy), mas se formos mais analíticos percebemos que não são verdadeiramente os dois países que controlam a Europa, mas um punhado de pessoas que usa os dois representantes como o seu pau-mandado. 

Alguém já perguntou a quem responde a Troika? O Banco Europeu, o Banco Central e o FMI são bancos pertencentes a uma coligação de países ou são simplesmente bancos privados (com acções distribuídas por quem as puder comprar, é claro, e que não é qualquer um)? A Troika não responde a nenhum governo ou estado ou coligação de nações, nem nada, a Troika responde a uns grupos de capitalistas que sempre que sentem que lhes está a fugir o controlo, ou se sentem aborrecidos com o estado do mundo, apertam as cordas ao redor do pescoço dos governos que praticamente fazem tudo o que lhes é mandado. Por exemplo, vejamos o caso de Portugal, um país, soberano, que se encontra refém dos bancos.

Não é preciso imprimir mais dinheiro, porque o dinheiro existe, e como já tinha dito, mesmo que não exista, é criado, senão como é que se explica que haja crise e suposta falta de dinheiro e mesmo assim a Troika consegue injectar biliões a qualquer país que se submeta aos seus caprichos? Ou será que eles estão a dar dinheiro que não têm aos países em desespero? Estarão a aplicar um esquema de Ponzi?

Aliás, bem visto as coisas, os bancos funcionam todos à base do esquema de Ponzi, a única diferença é que são legitimados pela lei para aplicar o esquema, porque supostamente pagam impostos, quando na verdade sugam impostos por causa das cagadas constantes dos seus administradores. Vamos ver, o banco promete-te 20% (ou qualquer outro valor) de retorno sobre o teu investimento (reconheço não ser bom com esses termos técnicos, mas creio que me faço perceber) sendo que tudo o que tens de fazer é deixar com eles o teu dinheiro, e sabemos que dinheiro parado não gera dinheiro, ou seja, o que eles vão fazer com o teu dinheiro é salvaguardar a promessa que tinham feito a outrem dando-lhe o seu valor inicial mais o acréscimo em juros proporcionados pelo teu dinheiro, e quando chegar a tua vez, fazem-no com o dinheiro de alguém (ou pelo menos é o que dizem, porque na verdade, eles continuam a criar dinheiro a partir de cada empréstimo que alguém faz, necessitando mais que as pessoas façam empréstimos, sendo os pagamentos simples bónus). 

Imaginemos uma situação (como já aconteceu com uns bancos do meu país): a corrida ao banco, toda a gente ou a maioria resolve ir levantar o seu dinheiro com os benefícios prometidos, o banco colapsa porque não consegue responder a todos os pedidos, além de mais quando o levantamento é feito, o cliente recebe o dinheiro físico e como eles têm mais dinheiro electrónico do que físico, percebe-se o embuste com o qual nos têm controlado. Mas não importa, a eles é permitido o esquema de Ponzi, desde que se unam com os governos nessa ladroagem. E é exactamente o mesmo esquema que a Troika está a aplicar aos governos agora, e eles encontram-se de mãos atadas por terem sido eles a legitimar o processo.

A Troika está a dar o dinheiro que não tem aos governos endividando-os ainda mais? Ou será ela a fabricante mundial de dinheiro? E quem a legitimou como tal? Foi um acordo tácito ou uma espécie de imposição feita com a cumplicidade dos países mais poderosos (ou melhor das pessoas mais poderosas dos países mais poderosos)? O sistema é claramente canibal e está a alimentar-se dos mais fracos.

Não sei a resposta; nem estou a escrever isto para tentar esclarecer nada a ninguém, antes para tentar elucidar-me a mim mesmo, mas uma coisa eu sei: existe dinheiro e a crise é só uma fantasia para destilar mais as classes sociais, acabando com a classe média e as tentativas de homogeneização. 

Algumas pessoas podem pensar que todos poderem usar a net, ou comprar iPod, iPad, iPhone, Ai-meu-deus!, ou assistir a um concerto de um artista qualquer no mesmo estádio, não importa o preço do bilhete, garante a igualdade, mas enquanto existirmos apenas para contar os tostões para uns poucos se refocilarem com o que suamos, não podemos pensar nem na igualdade, muito menos na liberdade. Aliás, mesmo para recebermos o nosso salário, suposta compensação do nosso esforço, somos obrigados a dar pelo menos uns sessenta euros anuais a um banco qualquer (sem falar dos impostos agressivos) porque estão todos de conveniência com as empresas e com os governos. Não te é pago simplesmente o salário para guardares em casa, tens de ir buscá-lo a um banco qualquer. E se falo muito aqui dos bancos é porque eles são os tentáculos dos mais poderosos, como a Troika, por exemplo, e os principais gestores da crise. E note-se que nos países do terceiro mundo quase não se fala da crise, considerando que estão em "crise" constante, a crise afecta principalmente o ocidente (primeiro mundo), pois os restantes já foram e são melhor controlados.  

E por que razão se toda a crise gira em torno dos bancos, parasitas dos povos, ao injectarem dinheiro para salvaguardar o país da crise, injectam-no nesse mesmo sistema bancário que a criou? Não é, no mínimo, ridículo?

Que os governos vão acabar por ser controlados pelas multinacionais e corporativas como a Troika (mais indiscretamente quero eu dizer), se continuarmos como estamos, não há menor dúvidas; estamos cada vez mais perto de uma dominação mundial escancarada promovida por empresários multi-trilionários… pois efetivamente já existe há muito tempo... mas até lá…