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12 de novembro de 2022

COMO SER UM BOM COLONIALISTA

Há um tempo estive envolvido num filme (esperem por ele, será grande!). A cena que tínhamos que filmar não era nada simpática e mexia com os nervos como se não fosse ficção (aliás era ficcionar a realidade). Todos sabíamos que era uma coisa para um filme, mas todos, como boas pessoas que somos, não nos queríamos ver numa situação parecida. Eu, pelo menos, não me queria ver nisso, e já tinha vivido na realidade algo similar (talvez conte noutra altura).

A cena era sobre um branco num país africano que apresentava a um grupo de amigos (pretos "ocidentais') um serviçal preto africano como alguém bem amestrado. A pessoa que fazia de serviçal não era "ator" (eu também não sou, pelo menos não profissional, mas nem pensei nisso na altura), e o papel que fazia era similar a um dos seus muitos papéis na vida real: cozinhar e servir a mesa. Fez-me isso confusão, porque parecia que ele não saía do papel e tive dificuldade, eu (falando de mim), em separar os tempos entre a ficção e a realidade. Outras pessoas também se sentiam como eu, apesar do realizador nos ter preparado para a cena.

No fim, lá tivemos uma reunião com o realizador sobre a situação e sobre o incómodo em ver essa pessoa a fazer aquela cena, pelo que muitas cenas dele foram alteradas e história teve de ser suavizada, e ele teve menos participação do que o esperado. E estávamos sempre a agradecê-lo, ao "ator/serviçal", sempre que nos servia, porque nos sentíamos incomodados e queríamos mostrar que era "nosso igual", nós, pretos europeus.

Dias mais tarde, em Bissau, estava num restaurante e uma pessoa veio servir-me, disse-lhe o obrigado cortês de praxe, com direito a sorriso e tudo, e lá continuei a conversa com a pessoa com a qual estava, não senti nenhum incómodo por estar a ser servido, afinal era o "papel" dela, era um trabalho dela naquela altura, não era o que a definia. Então e o "ator/serviçal"?

Bateu-me naquele momento : "Que paternalista do caralho sou eu! Que colonialista".

Não nego que não haja exploração da imagem de pessoas, pretas africanas da África, principalmente (as redes sociais estão cheias disso), mas não era esse o caso, porque o "ator/serviçal" estava a ser pago para isso e tinha-lhe sido explicado tudo sobre o filme. O que me incomodava mesmo? O que me incomodava mesmo? O que me incomodava mesmo?

Achava-me iluminado e protetor da "ignorância" de outrem contra exploração? O que me incomodava mesmo? Achava que a dita pessoa não era inteligente o suficiente para saber o que estava a acontecer a sua volta? O que me incomodava mesmo?

O meu incómodo era porque achava que o "ator/serviçal" não estava iniciado nos caminhos do "pós-des-de-anti-colonialismo" e que estava a fazer esse papel porque não tinha escolha. Achava que ele não tinha a noção completa da situação, mas ele só não tinha "a minha" noção das coisas, tinha a dele, a sua própria perspectiva. E a verdade era que ele estava a divertir-se imenso com aquela merda, estava a gostar de participar no filme. Estava a "atuar", fazendo uma coisa que sabia fazer bem e que não se importava de fazer. E de repente vê-se numa reunião com todos a decidirem sobre a sua participação, porque "precisavamos de o proteger e à nossa consciência".

É isso ser colonialista. É pensar que tenho mais visão que o outro, que conheço melhor os meandros da exploração (ou do desenvolvimento) e por isso devo desenhar eu o caminho do outro. Mas se fizer tudo com estilo e usar termos como liberdade (de expressão, principalmente), democracia, direitos humanos, anti-isto-e-anti-aquilo, creio que serei um "bom colonialista", desde que a luta seja para não colocar o meu próprio conforto em causa, como no caso descrito. Chifres na cabeça de cavalo.

Isso lembra-me uma vez que uma conhecida ativista negra em Lisboa me mandou e a meus irmãos falarmos português, porque era desrespeitoso falar kriol numa mesa onde havia pessoas que não falavam a língua.

Na luta anti-colonial, é tão, mas tão, mas muito tão fácil ser o colonialista.

14 de janeiro de 2022

CARO AMIGO BRANCO (DA REVERSÃO)

Caro amigo branco, posso parecer chato, mas não penses, no entanto, que sou apenas um gajo irritado e frustrado a descarregar o seu desagrado em ti, escrevendo, assim tanto, caro branco, porquanto os textos que endereço aos amigos pretos costumam ser mais extensos.. (a comparação com o preto é só para te deixar mais brando)... Dito isso, prossigo.
Caro amigo branco, para ser franco, sim, sinto-me frustrado, frustrado por não conseguir ter um intercâmbio calmo contigo quando o assunto é racismo. Mal pronuncio o termo, parece que te desperto medos, ou mexo no teu credo, pois quase recebo um decreto de degredo, pois acendo em ti um fogo com que te coloco logo em modo de guerra, com paus e pedras, a sentires-te atacado e pronto para dar o pago por te ter incomodado. Quando falo de racismo, dizes que faço extremismo e dizes que a minha conversa é uma pista de que os pretos são ainda mais racistas.
Dizes que os pretos são mais racistas, e... bem, nisso até concordo contigo, alguns são, pelo visto, mas por motivo distinto, pois está mais que visto que o preto é o objeto do racismo, e que o racismo diminui o preto no seu humanismo e o transforma num bicho ou num lixo perante a superioridade branca. A bronca é que há tanta, mas tanta gente preta que aceita essa ideia da chamada superioridade branca, e por via disso reproduz o racismo e trata outros pretos com desdém, reproduzindo o que convém para manter a superioridade do branco. Nesse caso, claro, o preto é mais racista, e mais do que isso, é burro, porque alimenta uma cena que só o prejudica. Pior racista é o auto-racista. Nisso concordo contigo, repito. Mas, caro amigo, quando vens com o termo racismo-reverso, penso aqui dentro que não estás a ser honesto, nem comigo, nem contigo...
Vá lá, calma, eu explico.
Caro amigo branco, é mais do que claro que o racismo é branco. É tão branco, tão branco, tão branco que quando és discriminado por um preto, nem o chamas de racismo, mas de racismo-reverso. Será que consideras que a discriminação preta não tem o pedigree necessário para ser racismo, mas é apenas um tipo ou uma amostra ou uma tentativa de emular a coisa? Às vezes até admiro que não o chames de afro-racismo ou etno-racismo, como fazes com tudo o resto que não está no centro do teu ocidentalismo, como por exemplo, músicas étnicas, vestimentas étnicas, etno-filosofia, afro-literatura, etno-matemática, entre outros exemplos. Sei que pareço repetitivo com isto, mas infelizmente tenho de repeti-lo tantas vezes para que o seu sentido te fique no ouvido.
Caro amigo branco, nota, por favor, nota que consideras o branco como a cor padrão, razão por que com vazão chamas a todas as outras pessoas de pessoas de cor, porque o branco não tem cor, naaaaá, não tem, não. Mas se passares pano nos teus autos, verás, no entanto, que branco é uma autodenominação. Os pretos chamam-vos de brancos, porque vocês se chamaram a si mesmos de brancos. Os pretos, podes estar certo, conhecem a cor-branca, meu caro amigo cara-pálida (como vos chamaram os "vermelhos"), e a cor branca não é nada parecida com a vossa cor-de-rosa. Se fossem os pretos a denominar-vos, e se calhar até denominaram mas vocês rejeitaram, talvez vos chamassem de "couro-de-porco" ou de "ânus-de-porco", devido a similaridade cromática... Naaaaaaaaaá, não é minha prática, longe de mim querer insultar-te, caro amigo branco (tsc, tsc, estou a piscar o olho esquerdo, meu caro).
Vocês criaram a cor para os outros, porque o branco é aquele que é por si mesmo, feito a imagem de deus, não é como o preto que, segundo a tua bíblia, é o filho amaldiçoado por Noé para ser escravo dos irmãos brancos justos e puros, essa bíblia que empunharam, junto com outras armas, e com a qual amansaram até ao sopé da sua alma os desesperados pretos, e essa bíblia que nós empunhamos agora em auto-flagelo... Está bem, aceito, não acreditas em Deus, és ateu, mas não te esqueças da ciência da raça que criaste para a desgraça dos outros... Não foste tu? Como não? Se dizes que levaram a língua e civilização a povos pretos, se dizes que fizeram os descobrimentos, se dizes que fizeram tudo isso, por que queres retirar-te agora do plano do racismo?
Caro amigo branco, quando as pessoas falam do racismo, falam de um sistema ridículo construído por uns brancos ricos no alto do seu imperialismo e que tem diminuído vários indivíduos, arrastando-os para um abismo de auto-depreciação. O racismo é uma ação baseada no poder e na dominação, o racismo aliou-se ao capitalismo, o racismo é parte de um sistema económico, político e social de controlo das mentes, que atira gentes contra gentes, convencendo gentes de que são mais gentes do que outras gentes.
Não há lugar para racismo-reverso quando o balanço do poder continua o mesmo. Além do mais, o racismo é racismo, no seu verso, no inverso e no reverso. Atitudes discriminatórias baseadas na pele, é, sim, racismo, vindo da parte de quem venha. Sim, os pretos podem ser racistas e os pretos também são racistas. Mas quando um preto te discrimina, ele está em defensiva, usando a ofensiva que os brancos criaram. Mas quando um preto te discrimina, o que é que te acontece? Nada! Sentes-te discriminado e ferido e injustiçado e dás ali por isso tudo por terminado, pois não te sentes nem perdido, nem desnorteado, porque tens um mundo para te apoiar e ainda te elogiar pelo teu aproximar, e ele ainda até é visto como o bicho ingrato que mordeu a mão que lhe deu um prato; porém quando tu discriminas um preto, não é só esse teu gesto sem afeto que o afeta, mas tens de ter tento que tens do teu lado todo um sistema perverso e um universo de dejetos construído em séculos de sofrimento de povos opressos que esmagam o desgraçado.
Entendeste por que não faz sentido o teu hino de racismo-reverso? Não? Então, pensa num gigante com luvas de aço a boxear contra um magricelas sem um braço e com os olhos vendados e com o árbitro do outro lado, e ainda o gigante a dizer todo exaltado que é um confronto equilibrado porque é entre dois humanos. Não é justo, pois não? De facto! E neste cenário perturbante és tu o gigante.
Volto a dizer a mesma coisa que antes, os pretos também são racistas. Vai à Guiné, caro amigo branco, e vais notar que vais ser tratado melhor que os outros fulanos, só pelo simples fato de seres branco, porque o tom da tua pele está associado a mais dinheiro e a mais poder e a mais influência, portanto é bom que caias nos nossos encantos para que nos beneficie de algum modo. E relacionamos tanto o branco ao dinheiro que chamamos de branco a um preto vindo da Europa com aparente matéria na carteira. Caro amigo branco, há pretos a serem racistas com pretos em favor do branco, porque fomos assim ensinados desde que fomos colonizados, e quando falamos que escapamos desse antro, notamos que evacuamos para um campo minado, a reproduzir a todo o pano atos que só nos causam dano ("no sai na pilon, no kai na balei"). E tu ainda vens com esse papo de racismo-reverso?
Vai à África e verás tantos tontos a tintar a pele, a tragar tolices e a estragar a pele, tentando ser mais "brancos" para corresponderem a uma ideia de superioridade idiota. Vai à África e verás um culto aos mulatos e um ódio aos mulatos porque são mais brancos que pretos, mas não são brancos o suficiente para serem tratados com cuidado e portanto são os melhores alvos de ódio deslocado. Vai à Guiné e verás mulatos (vermelhos) a discriminarem pretos, a tratarem-nos como insectos, porque se acham "mais" superiores e mais corretos, porque se veem como intersectos do mundo branco. E ainda falas de racismo-reverso? Pelamordideus, caro amigo branco, tira o crânio do próprio rabo e analisa os dados que te são dados. Porque praticado pelo branco, praticado pelo preto, quem é beneficiado pelo ato és tu, ó caro branco.
Quando se fala de anti-racismo, não se está a falar de te quebrar, está-se a falar de quebrar um sistema, um sistema que não te afeta por não teres a cor preta. Quando se está a falar do anti-racismo e se está a falar de destruir os teus privilégios, não é racismo-reverso, é simplesmente porque os privilégios, os sociais, pelo menos, significam para outros ausência de direitos.

Dois pesos... Dois medos... Dois dedos de testa e atesta-te com pensamentos isentos do teu privilégio e verás como é perverso o teu credo de racismo-reverso. Podes ser vítima da "branquitude", podes ser vítima do capitalismo, mas não és vítima do racismo.
Resumindo, quando um preto te discrimina na base da tua cor, o ato é racista, sim, e aquela tua dor é aflitiva, sim. Mas não te atrevas a comparar um ato (o seres discriminado uma vez por ano, por uns dois bacanos zangados, num canto qualquer do Bairro Alto) com um sistema (o seres discriminado todos os dias do ano por todo um estado e por uma horda de asnos que nem sabem que o fazem e que o negam em grandes espasmos de virtuosidade, batendo no peito, torcendo os ventres e rasgando as vestes), um sistema que faz ainda seres discriminado pelos teus próprios manos apanhados naquele buraco no racismo criado. Não te atrevas, caro amigo branco, não te atrevas porque estarias a mijar no rio Sado com o plano de deixá-lo salgado.

18 de maio de 2021

HOSSANA AO FILHO DE DAVID - O BRANCO REDENTOR VOLTOU

Quando Jesus chegou a Jerusalém, as pessoas... peraaaa!, filme errado.


Quando o Marcelo Ribelo?... Ribeiro?... Aiiiii.... Quando Marcelo R. Sousa chegou à Guiné-Bissau, com muito orgulho fomos mostrar porque aquele país continua na merda e o quão desocupados somos. Fomos buscá-lo ao aeroporto e enchemos as ruas com cartazes para o receber, pois afinal, já que os quatro aviões árabes não chegam com o bilião de dolares, vamos ver se o Marcelo tem algumas moedas de dois aeoros para dispensar.

Alguém se lembra de como os portugueses encheram o aeroporto com grupos de mandjuandade e se alinharam nas ruas para receber o Sissoco quando ele veio passear a Portugal?... Alguém?... Alguém?... Ninguém?... Eeeeepá!

Até mesmo os mais ferrenhos apoiantes guineenses do Sissocó que vivem em Lisboa não o foram buscar ao aeroporto, porque tinham de ir, usando as palavras de alguém, entregar o pau-do-corpo ao patrão branco. Estavam ocupados e além do mais, Sissoco não é a Seleção-Portuguesa-Depois-de-uma-Vitória-Importante e nem é o Papa, que são duas figuras que movimentam fanáticos.

Mas nós, guineenses, adoramos toca-palmices, estamos sempre prontos para bater palmas a quem o chefe mandar, sem posição crítica. Sei de pessoas no governo atual com, aparentemente, muito senso crítico sobre o domínio europeu e que acharia essa recepção do Marcelo um culambismo ao homem branco, e uma submissão colonizante, mas que por conta de politiquices e chuchices nem se manifestaram. E ainda admiramos que fomos colonizados e que estamos colonizados.

Já agora um vídeo sobre como recebemos também o pai do Marcelo, que era o Ministro das Colónias, quando chegou à Guiné e façamos as contas. Qualquer semelhança com o ontem não é mera coincidência.


A propósito, acham que o Marcelo foi à Guiné porque gosta dos guineenses ou apenas para reforçar a influência de Portugal e tentar com que o Macron não nos roube dele com os seus aeoros que bondosamente prometeu aos países africanos?

(para quem tiver tempo de sobra, um artigo: http://montedepalavras.blogspot.com/.../lideres-os...)

19 de fevereiro de 2021

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 6)

19 de fevereiro – o homem que lavou o racismo de Portugal

 

Os tugas têm uma relação estranha com a água. Não consigo entender nada. Têm muita água, mas só a usam para sacalata. Vou explicar: o tio Paulo Banho dissera-me uma vez que os tugas não gostam de tomar banho, mas passam o tempo lavar o carro.

Não entendia isso, o carro estar limpo é melhor do que a pessoa estar limpa? Mas depois percebi, que provavelmente o tio Paulo Bano também não deve ter conhecido muitos tugas. E os tugas de Portugal dizem aqui que os tugas de França é que não tomam banho, e os tugas de França dizem que os tugas do Canadá é que não tomam banho. Uai!, é cada um a acusar o outro que não dá para acompanhar. Mas nota-se a relação estranha dos tugas com a água.

Aqui as bombas funcionam bem, abres a torneira e sai água limpa puss, mas os tugas também não a bebem, preferem ir comprar na taberna. Ah, aqui eles não têm nar, têm chineses e indianos. As tabernas aqui são muito grandes, eles chamam de supermercado. Mas estava a dizer, têm água limpa na torneira, mas andam sempre com bidões de água. Aqui, se não tiveres dinheiro para comprar água, estás nhanido, porque os tugas não patem, não oferecem mesmo, comem à tua frente no comboio e tu ficas a olhar e a engolir alma e eles nem convidam. Mas já falo disso logo. Distraí-me de novo.

Os tugas não gostam de lavar, tinha dito o Tio Paulo Bano, mas eu descobri que os tugas lavam tudo e lavam muito. Por exemplo, há pouco tempo eles fizeram uma eleição onde apareceu um gajo chamado André Tontura... Tortura (?)... Sei lá, só sei que o miúdo é tonto, e ele disse que os tugas brancos são gente de bem, que os tugas pretos não são tugas e o que os tugas ciganos têm medo de sapos... Ehhhh! Lembrou-me que lá na Guiné também dizemos que os nar-kabras têm medo de kakris... (Kakris? São aquelas coisas que parecem com caranguejos). Hmm!, falando nisso, agora penso que lá na Guiné somos tão tontos como o André Tontura aqui... Adiante...

Esse tal de André Tontura vendeu ódio contra os tugas ciganos e os tugas pretos e os pretos que não são tugas, e lucrou com muitos votos, ele mandou uma tuga preta chamada Jassine para a sua terra, mas os chefes tugas disseram: "pá, isso é normal, é liberdade do expressionismo alemão". Liberdade do Expressionismo alemão é um estilo inventado por um tal pintor chamado Hitler. Mas não acabou bem, porque virou nazismo. Mas “está tudo bem assim e não podia ser doutra forma”, como dizia o antigo chefe tuga Salazar, os chefes tugas de hoje lavaram essa ação do tonto do André Tontura.

Os chefes tugas lavam tudo, lavaram o colonialismo, dizem que foi o melhor colonialismo do mundo, um colonialismo amoroso, a maior fábrica de mulatos de todos os colonialismos, e que não era um colonialismo racista, mas lusotropical… mas lusotropical só lá nos trópicos, aqui na Metrópole, bem branco. Mas isso do "melhor e maior do mundo" é tão normal nos tugas. Eles até tiveram um gajo chamado Fernando Pessoa, eles colocam-no em tudo, cartões de banco, paredes de metro, postais para turista, papel higiénico, etc, porque ele era a maior pessoa do mundo, tão maior que até era cinco em um, por isso o chamaram de Pessoa… acho eu.

Divagações… divagações…

O Tontura foi votado por muitos tugas para mandar a Jassine para a sua terra, mas os chefes tugas em vez de pensarem que algo está errado, disseram: “pá, isso é normal, é a democracia. Nem sequer é anticonstu… anticonstipacional… anticonstitucional”. Isso, anticonstitucional. O Tontura disse ao presidente Marmelo que os pretos são bandidos e que não são fotogénicos e o Marmelo sorriu paternalista… grande Marmelo, ele abraça a todos, sem distinção, mesmo os que são anti-abraços. Sabem, o Tontura tem três pretos de estimação: primeiro, a Jassine, segundo, o Mamade (na verdade, o nome dele não é Mamade, mas como muitas pessoas, tanto homens como mulheres, têm andado a escrever por aí #eusoumamado, logo eu tentei aqui manter o género neutro), e, terceiro, o Lombito, tsc, tsc (estou a piscar o olho esquerdo… dá-lhe no lombo, dá-lhe).

Outros partidos viram o sucesso de Tontura e bateram palmas, descobriram que a melhor forma de ganhar votos é criar uma relação de amor-ódio com os pretos, ou então perderiam para o Tontura. Então, tanto o Ru-Paul Rio, o travesti da direita, do PSD (Pípol Sem Direção), como o Menino Chiquinho, do CDS-PP (Cristãos Dealers de Submarinos – Paulo Portas) começaram a procurar os seus pretos de estimação, tipo o Lombito, porque a Jassine e o Mamade são sacos de pancada públicos, ninguém pode reclamar propriedade sobre eles.

Eis senão quando morre um preto chamado Marcelino Mata, e então foi corrida ao ouro: que preto é melhor que um preto morto? Pensaram os ditos-cujos. Que melhor forma de mostrar que Portugal não é racista e que o colonialismo tuga foi português suave e que há tugas pretos de bem (na verdade, apenas um tuga preto, os outros voltem para a sua terra)?

De repente, todos os tugas patriotas odiantes de pretos começaram a carregar o Marcelino Mata nos ombros, o herói nacional, só depois de ele ter morrido, é claro, o grande preto Português. Agora que Marcelino Mata voltou para a sua terra, aquela terra que não rejeita a ninguém, e que todos temos em comum, ele é o máximo. Agora só falta dizerem que vão fazer uma estátua dele no Estádio de Alvalade, porque o Estádio da Luz já tem Eusébio. Afinal, Portugal não é racista e gosta de pretos, desde que eles conheçam o seu lugar, mantenham a matraca fechada iem!, e só cumpram ordens, “sim senhor branco!, sim senhor branco!”, mesmo que essas ordens sejam odiar e matar outros pretos. Como escreveu uma vez um conterrâneo meu, Martinho que Pina:

“Deus!, havia soldados pretos, na mata, a nata que mata, nascidos na Guiné, lá dentro, bem no centro, que bateram o pé e se tornaram comandos africanos e lixaram os seus próprios manos.”

A coisa é que ninguém quer saber do Marcelino que Mata, ele era apenas bom para ser usado como um símbolo anti-racista português, mas infelizmente ele dera muitos tiros e nem foi pela culatra. Portugal não é racista, e nem é racista os representantes do país tomar com herói alguém que é considerado um sanguinolento criminoso de guerra (com todas as verdades e mitos à volta disso) no país onde nasceu e ao qual não podia voltar.

Repito, nem o Marmelo, nem os generais, nem o Tontura, nem o Ru-Paul Rio, nem o Chiquinho querem saber do Marcelino, ele é uma pedra no sapato na tugalidade de hoje e na ideia da grande e justa nação tuga, mas tem de ser defendido a todo o custo, porque, vamulá só ver:

Marcelino Mata foi um chefe de António Spínola, que lhe dava as missões e continuava a dar missões apesar de saber da sua alegada crueldade e sanguinolência. Mas Marcelino era uma boa ferramenta, e Spínola foi também quem lhe recomendava e lhe dava as missões, as nomeações e as distinções. Mas Spínola é um herói português, um dos capitães de Abril, um dos mentores da liberdade tuga. Sendo assim, negar a heroicidade e as distinções do Marcelino não seria colocar em questão a heroicidade e as distinções do Spínola, um dos seus titereiros? Spínola seria tão ou mais criminoso que Marcelino.

É preciso então, senão lavar a imagem do colonialismo português suave, pelo menos não a deixar sujar-se, porque para quê fazer uma mea culpa, se a culpa foi desses pretos turras que não queriam deixar-se montar por pessoas claramente superiores a elas. Até o Marcelino Mata percebeu isso, por isso ajudou. Mas também não entendo muito bem a polémica, as forças armadas de qualquer país servem para matar, para matar e destruir, em nome da nação, e quem mais mata leva mais medalhas, foi e é sempre assim, se queremos mesmo indignarmo-nos com os medalhamentos de soldados matadores, não será que devíamos condenar primeiro a existência de braços armados dos donos do poder?

Acho que foi para não colocar em questão a ideia da nação, a ideia do simbolismo spinólico e outras tretas nacionalistas, que o Marmelo e toda aquela gente foram ao funeral do Marcelino prestar honras ao homem que lavou o racismo de Portugal. Mas quem sabe!

Todavia o que não entendo mesmo são os outros odiantes de pretos que querem expulsar um tuga preto de Portugal, para manter o bom nome de um tuga preto que nem sequer conhecem e a quem provavelmente diriam, se tivessem que disputar com ele um lugar na fila da loja de cidadão: “volta para a tua terra”.

17 de outubro de 2020

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 4)

17 de outubro – etnólogo dos enólogos

 

Os problemas da Covid não me têm ajudado muito em focar-me nos últimos meses. Queria escrever sobre tanta coisa, mas falta tempo, quer dizer, tenho muito tempo de sobra, só não sei o que fazer com ele. É que os tugas, tanto os de Portugal, como os tugas da Europa têm andado a obrigar as pessoas a ficarem fechadas dentro das suas casas, dizendo que é para não apanharem Covid. Não entendo nada, primeiro diziam que os seus velhotes andavam sem-vida, agora por causa da Covid, mandam-nos ficar em casa, sem visitas e sem-vida, e ainda chamam à doença de Covid. Qual com vida!

O tio Paulo Bano Bajanca tinha-me ensinado para ficar desconfiado quando os tugas me mandam ficar em casa, ele disse assim: “Sobrinho!, fica desconfiado quando os tugas te mandam ficar em casa e te dizem para não sair, porque, de repente, quando te mandam sair, já nem a tua casa te pertence. Foi o que fizeram na Guiné.”

Eu, às vezes, pensava que o tio Paulo Bano exagerava, mas descobri que não. Toda a história dos tugas da Europa é desse tipo, tios que matam sobrinhos para tomar o poder, irmão que mata a irmã, irmã que guerreia irmã, primo que mata o sobrinho, tio que casa a sobrinha, uiiiiii.

Aqui em Portugal, por exemplo, os tugas têm aquele gajo que eles chamam de Avenida Don Afonso Henriques, aprendi que o rapaz da mãe dele entregou-lhe um castelo, e ele, de repente, disse que o castelo lhe pertencia e mandou bater na mãe e ficou com o castelo e foi lá que ele que inventou Portugal, ou descobriu Portugal, nem estou certo. Os tugas tiveram assim um mau arranque, estás a ver?, mas o pior é que ficaram a copiar o seu inventor, foram à Mouraria, fingiram que foram ver azulejos e tomaram aquilo, foram ao Algarve, fingiram que só tinham ido à praia e ficaram com aquilo (agora os tugas ingleses estão a fazer-lhes a mesma coisa) , chegaram ao Brasil, fingiram que eram amigos e tomaram aquilo, foram à Guiné, fingiram que eram amigos e tomaram aquilo, Angola, Moçambique, Timor, os impostos dos outros tugas coitados. Por isso é que o tipo Paulo Bano diz que os tugas são como macacos, se lhes estenderes a mão, eles sobem-te pelos ombros. Mas também, disse ele: “Toma muito cuidado, conhece primeiro alguém antes de julgar esse alguém. Não é a cor ou a raça de alguém que faz com esse alguém seja bom alguém… por exemplo, olha só para os que mandam na nossa terra.”

Hoje, como os tugas tomadores já não podem tomar de qualquer maneira as coisas dos outros de outras terras, então os chefes dos tugas tomadores começaram a tomar as coisas dos outros tugas mais coitados. Por exemplo, arranjam um amigo tuga, metem-no num banco, esse rouba muito dinheiro às pessoas tugas coitadas e as pessoas tugas coitadas ficam sem dinheiro e choram; então os chefes dos tugas tiram o amigo tuga do banco, metem outro amigo tuga e tiram novamente o dinheiro às pessoas tugas coitadas para pagar o estrago que o primeiro amigo tuga fez, e enquanto isso o novo amigo tuga fica a tirar o dinheiro às pessoas tugas coitadas outra vez e, de repente, às pessoas tugas coitadas ficam sem casas, sem empregos, porque o amigo tuga dos chefes dos tugas tomou-lhes o dinheiro todo. Muitos desses tugas coitados acabam por desesperar e matar a cabeça. Mas achas que os chefes tugas se importam? Nem pliu.

Quando contei isso ao tio Paulo Bano, ele disse: “Olha só para veres!, se eles fazem isso com os seus irmãos tugas, achas que é a ti que vão perdoar?”.

Ontem um dos chefes dos tugas, o Marmelo ou Martelo, não me lembro direito do seu nome, só me lembro que ele gosta de abraçar os tugas coitados. Ele e o Papa Francisco, um tuga que vive na Itália e pensa que fala com Deus (mas ninguém o mete no centro mental), eles parecem estar numa competição de quem abraça mais coitados. E ficam tanto a falar dos coitados e da coitadeza, enquanto comem do bom e do melhor. Ah, quase que me esquecia, sou muito distraído… O tuga Marmelo disse que muitos outros países democráticos obrigam as pessoas a usar máscaras, logo está bem Portugal obrigar as pessoas a usar máscaras. O Marmelo esqueceu-se que muitos países democráticos invadem outros países e fazem merdas em outros países (como a frança e o seu Franco CFA na África Ocidental), sem deixarem de se chamar democráticos, mas não quer dizer que isso é bom ou justo… naaaaaá, acho que ele sabe, porque pelo visto, lê muito quando não está ocupado a abraçar os pobres.

O tio Paulo Bano disse que quando Amílcar Cabral estava a lutar para libertar a Guiné dos tugas maus, ele publicou lá na Inglaterra, com o nome Abel Djassi, um trabalho que mostrava o mal que os tugas faziam na Guiné. Mas... que esses mesmos ingleses que apoiaram a publicação, estavam na África do Sul a castigar os pretos. “Não te fies, sobrinho, os poderosos sempre ficam do lado um do outro e apoiam-se uns aos outros e dão aqueles prémios chamados Prémios Ignóbeis de Paz um ao outro, enquanto o resto do mundo continua em guerras”.

Depois de ter ouvido estas palavras do tio Paulo Bano fiquei muito preocupado com a Guiné-Bissau, a terra que deixei para trás por causa desta minha vontade de etnólogo de estudar a raça tuga. Os chefes dos tugas estão agora a olhar muito para a Guiné-Bissau, a prepararem visitas e tal, e eu fiquei com a pulga atrás da orelha, será que querem é ir atrás da madeira?, pois parece que da última vez perderam para os tugas da China. E agora que os nossos tugas-de-terra começaram a sangria de novo, os tugas de Portugal não querem ficar de fora. Ou será que é por causa do Petróleo que vai ser cavado na Guiné numa zona protegida como Reserva da Biosfera? Ou têm é outra ideia na forja?

Epá, esses chefes tugas são mesmo como o Avenida Don Afonso Henriques, querem tomar tudo para si e para os seus compadres e compadriagens. Agora querem é entrar no nosso telemóvel… entrar é fácil, o problema vai ser tirá-los de lá depois, pois uma vez dentro, vão começar a arranjar outras razões para lá ficarem. Não se deve dar aos ivan dráculas a permissão de entrarem na tua casa, é um mau precedente. Perguntem à mãe do Avenida, ela que vos diga.

Mas os chefes dos tugas sabem que conseguem fazer o que querem dos tugas, porque os restantes tugas, tanto os coitados como os assim-assim, aqueles chamados de Zé Povinho, são todos uns porreiros: reclamam, escrevem artigos na Internet, dão entrevistas, escrevem livros, mas depois "bebem vinho verde e vão às putas" , disse um tuga europeu qualquer, e ficam todos calmos e vão pagar impostos de novo para salvar algum banco ou alguma TAP. Os tugas são enólogos, sabem tudo sobre vinhos, desde que haja vinho, está tudo bem, bebem até na autoestrada. E se os tugas Zé Povinho deixam os chefes tugas meterem a mão nos seus bolsos, achas que é um aplicativo no telemóvel que os vai preocupar?

Adoro os tugas, pá, são tão calmos e tão passivos com os seus chefes tugas, que até se entalam e morrem num portão lá em Martim Moniz só para deixar os chefes tugas contentes. A única maneira de espevitar os tugas é dizer-lhes que Portugal é racista. Aí, juro, cai o Cravo e a Maternidade.

 

P.S.: Disseram-me que Covid afinal não significa com-vida, e que não foi o tuga português que o descobriu. Ai, que descobrimento.

4 de agosto de 2019

CARA EUROPA (da restituição)


Cara Europa,


Escrevo-te, daqui, da Guiné-Bissau, com a missão de pôr na tua visão a noção de que temos a perceção da verdadeira intenção das tuas ações.

Europa, escrevo-te esta carta, como um filho da África, em nome da África, mas sei que é uma tática pouco prática, e é uma pândega esta audácia de eu, na minha pobre casca, falar em nome de toda a África, quando nem da minha casa eu sou o representante mais patente, pelo que muito menos posso ser o representante de todo um continente. Por isso, digo-te assim de fronte, só falo em meu próprio nome, mas não penses que é inconsequente este meu atrevimento. 

Europa, queria começar por enviar-te cumprimentos, mas vais ter de perdoar-me, porque neste momento estou em tormentos cujo comprimento é imenso; tormentos tão velhos como este lamento que me risca o peito e me deixa neste leito, desfeito, em trejeito de dores lancinantes que enlaçam as partes que lançam ares salutares nestes esgares que mostram os meus desaires. Pois tu tudo fazes para que tu e a África não sejam pares. Nunca serão comadres, Europa, enquanto desejares que a África continue à tua sombra… sabes…

Ahhhhh… puta que pariu, Europa. Não me fodas. Eu, África, sou muito velha, mas falas de mim como uma tola de uma cachopa, empurrando-me para a popa, enquanto tomas a proa. Mordes-e-assopras e pensas que ninguém te topa? Primeiro apregoas que eu não tenho história, e que só entrei nesta roda, porque tu organizaste a boda toda. Porra!, já me deixaste sem roupa, depenaste-me vezes sem conta e agora apostas nesta moda de mandar bocas de que me vais restituir as coisas que me tinhas tirado à força com a tua tropa odiosa para a qual só o lucro conta. E falas agora como se tivesses muita honra e como se fosses uma filantropa que me está a fazer um favor? Ó, por favor, tenha dó, Europa, tenho cara de tola? Não sou nenhuma tonta.

Primeiro dizes que eu não tenho história, agora queres ser a mostradora da minha glória? E eu, eu não tenho voz própria para determinar as minhas escolhas, terei de seguir sempre as notas das tuas folhas? Por que está tão interessada em devolver-me as estátuas? É porque já não tens mais espaços no armazém. Pois bem…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Diz-me, caramba, por que estás tão interessa em devolver-me as estátuas, pedaços de pedra e de madeira… mas do ouro, da prata, do marfim, dos diamantes, do silício e da riqueza que custa o suplício do meu povo que vive em sacrifício para que possas manter vivo o teu vício de consumo em nome de bom serviço, sobre isso é só silêncio…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Falei do ouro, falei da prata, mais ainda não falei dos escravos e das pessoas extraviadas das suas terras e jogadas de repente em contextos alienígenas e de alienação completa, sem aliados e sem alianças, com crises de identidade que ainda hoje de forma indigesta se manifestam nos seus descendentes. E, tu, Europa, que te arrogas e te vestes da defensora dos direitos humanos… humanos, desculpa, queria dizer brancos… como cura da escravatura, indemnizaste os brancos, donos de escravos, por perderem o gado humano africano trazido do outro lado do oceano, pois tu estavas preocupada com reparos justificados. Mas quando te falam de reparos aos africanos feitos escravos, aí, assumes a postura de injustiçada e falas que não deves ser cobrada pelos erros do passado. Sim, é claro, então por que dizes que queres devolver-me as estátuas para pagar pelo erro do passado? Queres pagar pelos erros ou apagar os erros?

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa. Euroooopa! Queres tanto devolver-me as estátuas, tu, ó generosa senhora, porque estás tão preocupada em descolonizar a mente, em descolonizar o conhecimento, em descolonizar a cultura, em descolonizar a puta-que-pariu… hein é isso? Mais fácil colonizas Marte do que descolonizas a mente, porque um colonizador não descoloniza, um colonizador recoloniza, um colonizador se reorganiza para se manter sempre em cima. Quando és tu que desenhas as linhas da descolonização, jogando com maestria a tua filosofia sobre o mundo que te rodeia, não vais mudar as tuas ideias, só vais cobri-las com novas teias, mas elas no fundo continuarão feias, pois a maquilhagem não muda a essência. A qualquer ideia não-europeia, tu colocas um sufixo, por isso, enquanto falas de afro-literatura, etno-literatura ou de etno-filosofias não como literaturas ou filosofias, mas como categorias alternativas, não importa o que digas, vai ser uma coisa pífia, pois não queres descolonizar uma pívia. O teu discurso é sensacional, mas a prática… meh… só mantém tudo como está.

Que são minhas, as estátuas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa, se quiseres devolver-me as minhas estátuas, então larga essa atitude fátua, sua crápula, pára com as fábulas e vamos falar da prática.

Estás preocupada com o meu bem-estar? Ai, que boa, és tão fixe, Europa. És tão boa, tão boa que me afogas com as tuas instituições e as tuas ONGs que só fazem cá a manutenção da pobreza e dos problemas. Dizes que mandas para cá dinheiro, para salvar o povo inteiro, mas não tens uma cheta para pagar uma merda de um bote para retirar do teu mar pessoas a afogar, mas tens 1001 barcos a pescar o meu mar. E pior de tudo, ainda vês se encalabouças aqueles que tiveram a força e a coragem de usar o privilégio e a vantagem para serem humanos de verdade para ajudarem humanos necessitados.

Europa, Europa, Europa. Tu vendes as tuas armas no meu quintal, incitas guerras para me poderes explorar, pois a minha instabilidade é fundamental para que possas continuar a dar cartas e a falar mal de mim, como se eu fosse um débil mental, e achas que o me preocupa são as porras das estátuas?

Que são minhas, são minha. Mas já que daqui as tiraste, e por anos com elas ficaste, considera-as arrendada. Vai ver aquelas que tens às mostras nas tuas montras e faz as contas e manda para cá o dinheiro.

Hey, espera!, se prometeres não mais mandar para cá as tuas as tuas armas, as tuas doenças, o teu desenvolvimento sustentável e o teu capitalismo selvagem, que não me trazem nenhumas vantagens, eu juro-te que te ofereço as todas as estátuas do mundo.

3 de novembro de 2018

TEM BONS DENTES?... NÃO? ENTÃO FORA…

Theresa May disse que depois de efetivar o Brexit vai passar a ser o Reino Unido a escolher e a decidir quem entra no território e só vão ser “pessoas qualificadas”.

Nem o tema, nem o processo são estranhos. Durante o comércio de escravos também só eram levadas as “pessoas qualificadas” para a Europa (ou América), pois elas trabalham e geram riquezas (a condição do trabalho não importa aqui, desde que elas trabalhem). E a questão não se encontra circunscrita ao Reino Unido, mas é toda uma postura da Europa. Recentemente, durante a crise de refugiados, fartamo-nos de ouvir e ver argumentos iguais por tudo o que é lado.

O coordenador do Observatório da Emigração disse que Portugal precisa urgentemente de imigrantes para resolver o problema da falta de mão de obra. A política de imigração de Merkel foi de facilitar a entrada de pessoas “educadas” na Alemanha. Macron há pouco tempo deu documentos a um herói escalador de paredes… enfim…

Cá em Portugal, os do “contra-imigrantes” dizem: “esses PRETOS (como se os imigrantes fossem só pretos, os do norte europeu são bem-vindos, ó, expatriados) só vêm cá para viver da segurança social e dos nossos impostos e não querem trabalhar um corno”. E os “pró-emigrantes”, da esquerda, dizem: “os né... os AFRICANOS são gente produtiva que trabalha bastante para sustentar a família, por isso devemos abrir-lhes as portas, pois eles são comprometidos com o trabalho e nem todos são maus”.

Pois, claro que não, nem todos são maus, alguns têm bons dentes, servem para bumbar nas obras, para jogar na seleção, para correr no atletismo, e para pintar algumas fotos “à la Benetton” para podermos falar da diversidade e da solidariedade. Enquanto isso, só vamos abrir portas à gente “qualificada”.

Abomino as reportagens a mostrar como os imigrantes se enquadraram bem na sociedade europeia, se aculturaram e se tornaram produtivos… é uma lógica esclavagista.

A única forma em que isto difere dos tempos do comércio triangular é que os imigrantes (guineenses neste caso - pelo menos são os que conheço) vêm para cá “voluntariamente” para serem escravizados, principalmente quando a qualificação não é académica ou atlética, mas força nos braços para limpar casas de banho e centros comercias.

Será possível falar da imigração fora de uma perspetiva capitalista e nacionalista, mas humanista?

2 de setembro de 2018

LÍDERES: O PROBLEMA DA GUINÉ-BISSAU - cronices crónicas


Quando há séculos os portugueses chegaram àquelas paragens hoje conhecidas como Guiné-Bissau e quando resolveram começar a desenvolver o negócio de escravos, foram os nossos líderes, os nossos reis (ou régulos) que tratavam de fornecer a mercadoria.

Diz-se que o régulo papel, Incinha Té, teria dito aos portugueses que queriam se instalar em Bissau e fazer um forte “que não criaria no seu quintal uma onça que depois o mataria”. Mas lá se fez o forte (depois virou Amura) e lá se criou a onça. Motivo: deram-lhe bastante prendas que hoje para nós são ninharias: tecidos vermelhos e tabaco, principalmente. Na altura, para ele, tinha feito um bom negócio.

Os líderes “guineenses” participaram no mercado de escravização, eram tão escravocratas quanto os europeus que iam à Guiné comprar pessoas. Balantas, papéis, biafadas, bijagós, fulas e mandingas vendiam-se uns aos outros e a moeda de compra era, usualmente, o tabaco. Vendiam os próprios irmãos pelo tabaco (bem, eles não se consideravam irmãos na altura, mas reinos e povos diferentes). Os povos da Guiné estavam muito bem organizados social e estruturalmente, na Crónica de Guiné, Zurara conta que eles, os portugueses, eram mortos quando desciam no território, razão porque os primeiros aventureiros tugas só nomeavam os rios e não as terras. Eles não tinham poder para entrar num território e arrebanhar pessoas para encher os navios; se isso acontecesse, faria das sociedades africanas agrupamentos desestruturadas e sociedades de animais, e não falaríamos hoje da escravatura ou da colonização, mas da domesticação.    

A ganância dos líderes de então e a estrutura do poder que os os permitia dispor do seu povo como se fosse seu pertence é que permitiram a instalação dos colonialistas na Guiné; a ganância e as quezílias entre as diferentes sociedades que habitavam esses territórios permitiram que fossem atirados uns contra os outros, pavimentando a via para a sua dominação; a ganância dos nossos líderes levou-os a alinharem-se com os colonialistas na luta contra o PAIGC ou na luta a favor do PAIGC; a ganância dos líderes levou também ao assassinato do Amílcar Cabral porque exigia um suicídio da classe.

Quando o PAIGC tomou o poder, e a liderança mudou, começou por fuzilar publicamente os líderes que se tinham aliados com os colonialistas e a tirar poder aos régulos, por achar que eles eram “não intelectuais” e não aptos para governar. Essa atitude, todavia, não era nada diferente da dos colonialistas com que lutaram ou desses próprios líderes que eles estavam a fuzilar. O PAIGC mudou-se a si mesmo com o golpe de estado de 1980, fruto da violência do poder e do poder da violência, desconfiando de si mesmo e da sua própria sombra, vai prendendo, espancando e matando pessoas pelo caminho, como aconteceu mais patentemente em 1985, em 1998 e 2009, e ainda hoje acontece. Quando um líder diz que tem poder para mandar prender e torturar e matar, quando um líder acha que por ser líder se torna a pessoa mais importante do país, e pode dispor das pessoas e do território como bem entender, percebemos que nada mudou.

A ganância de PAIGC levou o país ao seu estado de desgoverno atual. E a fome de "mandar", porque nem sequer falamos de "liderar" na Guiné, levou a que um país de cerca de 1.800.000 de habitantes tenha, em 45 anos, 45 partidos, a maior parte deles e os mais poderosos deles vindo diretamente da escola paigcista.

De 1974 até hoje, apenas a liderança mudou, o procedimento?, nada. Os régulos ainda vendem terra para benefício próprio, possuem quilómetros de terra, porque os herdaram dos seus avós e ninguém questiona. No problema de desmatamento de há uns anos, muitos régulos recebiam dinheiro e permitiam que se cortassem árvores nas zonas que dizem sob sua responsabilidade. Os régulos vendem e influenciam os votos das pessoas por quem são responsáveis, em troca de uns poucos benefícios que só aparecem durante as campanhas e que só ajudam a si próprios e não às suas gentes. Portanto, quando depois se levantam para falar mal contra os nossos governante, não lhes vejo autoridade nenhuma.

E os nossos governantes, que agregam mais poderes que os régulos? Se antes se vendia pessoas, hoje vendem os recursos naturais, vendem a terra, vendem as ilhas, vendem droga, vendem tudo. E se antes os europeus iam à Guiné comprar, hoje os nossos governantes é que vêm cá apregoar e garantir privilégios em troca do “investimento estrangeiro”.

Projetos de exploração de recursos naturais, projeto da central hidroelétrica para a Lagoa de Cufada, a turistificação dos bijagós traduzido em tirar terras aos locais, ou o projeto Augustus para Bolama, que trata aquele espaço como terra de ninguém e inabitado, são exemplos do alinhamento dos nossos líderes com o colonialismo que nunca deixou de existir e apenas mudou de capa.

Neste momento, confiantes da sua vantagem, "líderes", ou melhor, os nossos mandantes, não se preocupam muito, pois ganham muito dinheiro no processo, só que aparentemente não estudaram a história para perceber que os régulos na altura do primeiro colonialismo também não se preocupavam, porque tinham poder… até deixarem de o ter.

Eu costumava culpar apenas a Portugal pela escravatura, pois foi o que aprendi com os livros de PAIGC, até descobrir que os nossos próprios mandantes tinham tomado parte nisso. Ainda hoje, 45 anos depois, culpamos a Portugal pelos problemas da Guiné: ou porque a colonização foi má, ou porque a descolonização não foi bem feita, ou porque Portugal só se preocupa com Cabo Verde e não nos trata como "filhos"(?). 

Colocar o problema da Guiné na "descolonização" é um tanto estúpido e desrespeitoso para os que morreram para alcançar a independência (que é diferente da descolonização). Sobre culpar a Portugal por não nos tratar como "filhos", nem vou comentar... E a colonização?, claro que a colonização foi má… mas se sabemos isso, por que ainda os nossos mandantes continuam a praticá-la e a forçá-la sobre os nossos? A colonização do passado já não é uma desculpa válida. Os nossos mandantes são cúmplices na colonização que hoje se pratica. Lutamos pela independência para nos responsabilizarmos pelas nossas própria ações e devíamos fazê-lo.

Hoje culpamos o Ocidente (forças capitalistas) pelos problemas da Guiné, e sim, operam para manter a desestruturação, com o seu FMI, o seu Banco Mundial e as suas tantas ONGs e outras estratégias mais diretas, mas a verdade é que os nossos mandantes são agentes dessas forças e, como não têm estratégias para os seus povos, simplesmente se deixam enganar pelo conforto que arrecadam para si próprios... ou nem sequer podemos falar de engano, porque alguns são bem estudados e bem conscientes dos seus atos.

Os nossos líderes não se responsabilizam e não são responsabilizados pelos seus próprios atos, o problema são sempre os outros, como já tinha falado aqui (Até Quando?)

Vou parar aqui, por agora. Desenvolvo o tema mais tarde.