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19 de fevereiro de 2021

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 6)

19 de fevereiro – o homem que lavou o racismo de Portugal

 

Os tugas têm uma relação estranha com a água. Não consigo entender nada. Têm muita água, mas só a usam para sacalata. Vou explicar: o tio Paulo Banho dissera-me uma vez que os tugas não gostam de tomar banho, mas passam o tempo lavar o carro.

Não entendia isso, o carro estar limpo é melhor do que a pessoa estar limpa? Mas depois percebi, que provavelmente o tio Paulo Bano também não deve ter conhecido muitos tugas. E os tugas de Portugal dizem aqui que os tugas de França é que não tomam banho, e os tugas de França dizem que os tugas do Canadá é que não tomam banho. Uai!, é cada um a acusar o outro que não dá para acompanhar. Mas nota-se a relação estranha dos tugas com a água.

Aqui as bombas funcionam bem, abres a torneira e sai água limpa puss, mas os tugas também não a bebem, preferem ir comprar na taberna. Ah, aqui eles não têm nar, têm chineses e indianos. As tabernas aqui são muito grandes, eles chamam de supermercado. Mas estava a dizer, têm água limpa na torneira, mas andam sempre com bidões de água. Aqui, se não tiveres dinheiro para comprar água, estás nhanido, porque os tugas não patem, não oferecem mesmo, comem à tua frente no comboio e tu ficas a olhar e a engolir alma e eles nem convidam. Mas já falo disso logo. Distraí-me de novo.

Os tugas não gostam de lavar, tinha dito o Tio Paulo Bano, mas eu descobri que os tugas lavam tudo e lavam muito. Por exemplo, há pouco tempo eles fizeram uma eleição onde apareceu um gajo chamado André Tontura... Tortura (?)... Sei lá, só sei que o miúdo é tonto, e ele disse que os tugas brancos são gente de bem, que os tugas pretos não são tugas e o que os tugas ciganos têm medo de sapos... Ehhhh! Lembrou-me que lá na Guiné também dizemos que os nar-kabras têm medo de kakris... (Kakris? São aquelas coisas que parecem com caranguejos). Hmm!, falando nisso, agora penso que lá na Guiné somos tão tontos como o André Tontura aqui... Adiante...

Esse tal de André Tontura vendeu ódio contra os tugas ciganos e os tugas pretos e os pretos que não são tugas, e lucrou com muitos votos, ele mandou uma tuga preta chamada Jassine para a sua terra, mas os chefes tugas disseram: "pá, isso é normal, é liberdade do expressionismo alemão". Liberdade do Expressionismo alemão é um estilo inventado por um tal pintor chamado Hitler. Mas não acabou bem, porque virou nazismo. Mas “está tudo bem assim e não podia ser doutra forma”, como dizia o antigo chefe tuga Salazar, os chefes tugas de hoje lavaram essa ação do tonto do André Tontura.

Os chefes tugas lavam tudo, lavaram o colonialismo, dizem que foi o melhor colonialismo do mundo, um colonialismo amoroso, a maior fábrica de mulatos de todos os colonialismos, e que não era um colonialismo racista, mas lusotropical… mas lusotropical só lá nos trópicos, aqui na Metrópole, bem branco. Mas isso do "melhor e maior do mundo" é tão normal nos tugas. Eles até tiveram um gajo chamado Fernando Pessoa, eles colocam-no em tudo, cartões de banco, paredes de metro, postais para turista, papel higiénico, etc, porque ele era a maior pessoa do mundo, tão maior que até era cinco em um, por isso o chamaram de Pessoa… acho eu.

Divagações… divagações…

O Tontura foi votado por muitos tugas para mandar a Jassine para a sua terra, mas os chefes tugas em vez de pensarem que algo está errado, disseram: “pá, isso é normal, é a democracia. Nem sequer é anticonstu… anticonstipacional… anticonstitucional”. Isso, anticonstitucional. O Tontura disse ao presidente Marmelo que os pretos são bandidos e que não são fotogénicos e o Marmelo sorriu paternalista… grande Marmelo, ele abraça a todos, sem distinção, mesmo os que são anti-abraços. Sabem, o Tontura tem três pretos de estimação: primeiro, a Jassine, segundo, o Mamade (na verdade, o nome dele não é Mamade, mas como muitas pessoas, tanto homens como mulheres, têm andado a escrever por aí #eusoumamado, logo eu tentei aqui manter o género neutro), e, terceiro, o Lombito, tsc, tsc (estou a piscar o olho esquerdo… dá-lhe no lombo, dá-lhe).

Outros partidos viram o sucesso de Tontura e bateram palmas, descobriram que a melhor forma de ganhar votos é criar uma relação de amor-ódio com os pretos, ou então perderiam para o Tontura. Então, tanto o Ru-Paul Rio, o travesti da direita, do PSD (Pípol Sem Direção), como o Menino Chiquinho, do CDS-PP (Cristãos Dealers de Submarinos – Paulo Portas) começaram a procurar os seus pretos de estimação, tipo o Lombito, porque a Jassine e o Mamade são sacos de pancada públicos, ninguém pode reclamar propriedade sobre eles.

Eis senão quando morre um preto chamado Marcelino Mata, e então foi corrida ao ouro: que preto é melhor que um preto morto? Pensaram os ditos-cujos. Que melhor forma de mostrar que Portugal não é racista e que o colonialismo tuga foi português suave e que há tugas pretos de bem (na verdade, apenas um tuga preto, os outros voltem para a sua terra)?

De repente, todos os tugas patriotas odiantes de pretos começaram a carregar o Marcelino Mata nos ombros, o herói nacional, só depois de ele ter morrido, é claro, o grande preto Português. Agora que Marcelino Mata voltou para a sua terra, aquela terra que não rejeita a ninguém, e que todos temos em comum, ele é o máximo. Agora só falta dizerem que vão fazer uma estátua dele no Estádio de Alvalade, porque o Estádio da Luz já tem Eusébio. Afinal, Portugal não é racista e gosta de pretos, desde que eles conheçam o seu lugar, mantenham a matraca fechada iem!, e só cumpram ordens, “sim senhor branco!, sim senhor branco!”, mesmo que essas ordens sejam odiar e matar outros pretos. Como escreveu uma vez um conterrâneo meu, Martinho que Pina:

“Deus!, havia soldados pretos, na mata, a nata que mata, nascidos na Guiné, lá dentro, bem no centro, que bateram o pé e se tornaram comandos africanos e lixaram os seus próprios manos.”

A coisa é que ninguém quer saber do Marcelino que Mata, ele era apenas bom para ser usado como um símbolo anti-racista português, mas infelizmente ele dera muitos tiros e nem foi pela culatra. Portugal não é racista, e nem é racista os representantes do país tomar com herói alguém que é considerado um sanguinolento criminoso de guerra (com todas as verdades e mitos à volta disso) no país onde nasceu e ao qual não podia voltar.

Repito, nem o Marmelo, nem os generais, nem o Tontura, nem o Ru-Paul Rio, nem o Chiquinho querem saber do Marcelino, ele é uma pedra no sapato na tugalidade de hoje e na ideia da grande e justa nação tuga, mas tem de ser defendido a todo o custo, porque, vamulá só ver:

Marcelino Mata foi um chefe de António Spínola, que lhe dava as missões e continuava a dar missões apesar de saber da sua alegada crueldade e sanguinolência. Mas Marcelino era uma boa ferramenta, e Spínola foi também quem lhe recomendava e lhe dava as missões, as nomeações e as distinções. Mas Spínola é um herói português, um dos capitães de Abril, um dos mentores da liberdade tuga. Sendo assim, negar a heroicidade e as distinções do Marcelino não seria colocar em questão a heroicidade e as distinções do Spínola, um dos seus titereiros? Spínola seria tão ou mais criminoso que Marcelino.

É preciso então, senão lavar a imagem do colonialismo português suave, pelo menos não a deixar sujar-se, porque para quê fazer uma mea culpa, se a culpa foi desses pretos turras que não queriam deixar-se montar por pessoas claramente superiores a elas. Até o Marcelino Mata percebeu isso, por isso ajudou. Mas também não entendo muito bem a polémica, as forças armadas de qualquer país servem para matar, para matar e destruir, em nome da nação, e quem mais mata leva mais medalhas, foi e é sempre assim, se queremos mesmo indignarmo-nos com os medalhamentos de soldados matadores, não será que devíamos condenar primeiro a existência de braços armados dos donos do poder?

Acho que foi para não colocar em questão a ideia da nação, a ideia do simbolismo spinólico e outras tretas nacionalistas, que o Marmelo e toda aquela gente foram ao funeral do Marcelino prestar honras ao homem que lavou o racismo de Portugal. Mas quem sabe!

Todavia o que não entendo mesmo são os outros odiantes de pretos que querem expulsar um tuga preto de Portugal, para manter o bom nome de um tuga preto que nem sequer conhecem e a quem provavelmente diriam, se tivessem que disputar com ele um lugar na fila da loja de cidadão: “volta para a tua terra”.

1 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 5)

1 de dezembro – dia dos restaurantes tugas


O tio Paulo Bano contou-me uma vez que os tugas de Portugal tinham sido colonizados pelos tugas da Espanha, e quando finalmente se libertaram dos tugas espanhóis, criaram o Dia da Restauração, onde iam todos eles a restaurantes para festejar. Não sei muito bem o que se passou, mas provavelmente devem ter ficado fartos dos tacos, dos gaspachos e das tortillas. Porque não vejo nada que justifique um dia só para restaurantes.

Mas o tuga adora comida. Uma boa comidinha que se reflete naquela barriguinha de cervejinha bem redondinha do tuga que é típico daquelas ilustrações dos postais para turistas que se vendem no Rossio e no Bairro Alto. Rossio fica em Lisboa, mas acho que todos os guineenses sabem disso, pois é onde tiramos postais para confirmar que viemos a Lisboa. Guineense que diga que veio a Lisboa, mas não tem um postal no Rossio, é mentiroso. Bem, desculpem-me a distração, vou voltar aos tugas.

Sabem, só agora descobri que há uma grande mentira na história dos tugas. Afinal, enquanto estavam lá nas Áfricas a dizer que esta ou aquela era a sua colónia (o que não era na verdade)… afinal, eles mesmo estavam colonizados… afinal, eles eram espanhóis… afinal, se as colónias eram para ser de alguém na altura seriam dos tugas espanhóis… afinal…

Este ano, na Tugalândia, ou Portugal, como eles gostam de a chamar, o dia da restauração não está a correr nada bem, por duas razões:

Primeira, os empresários tugas do dia da restauração resolveram fazer greve de fome, acho que ficaram com saudades dos tacos e das tortillas. Isso é muito preocupante, se os donos da comida fazem greve de fome, imagina quando chegar a vez dos mendigos. Se a moda pega, o sindicato dos políticos… os políticos têm sindicatos? Bem, pela forma como são tratados e insultados pelo povo, se ainda não têm, acho que deviam… Como estava a dizer, se a moda pega os políticos ainda vão começar a fazer greve contra a corrupção, e os banqueiros contra as altas taxas dos bancos, e, como disse a tia Luzia Roubado, os patrões contra a precariedade. Será que estou a confundir as lutas? Sei lá, mas que é confuso, é. Só quem tem a barriguinha cheinha se atreve a fazer greve de fome, porque sabe que depois da greve tem a comidinha à espera.

A segunda razão, relacionada à primeira, é que os chefes dos tugas, o Marmelo e o Crosta (acho que é assim, mas vou confirmar depois), decidiram não deixar os tugas saírem da casa hoje, porque é perigoso lá fora: há um bicho pequenino, chamado Covid, a apanhar os tugas lá fora (não apanha turistas, nem imigrantes, estes podem ir trabalhar à vontade, e nem apanha os tugas coitados que têm trabalho de merda), por isso, quando o sol está no zénite é hora de começar a voltar para a casa, porque é quando o bicho acorda para apanhar os tugas preguiçosos, e estes precisam de ficar em casa, para encomendar e receber tudinho no quentinho do seu sofazinho, enquanto vomitam críticas contra as pessoas que têm de ou que querem estar na rua.

Então, por conta disto, não se pode fazer o dia da restauração como deve ser, os tugas devem ir para as suas casas e fingir que é um restaurante, se não souberem cozinhar, problema deles. E é isso que enfurece os empresários tugas do dia da restauração: como é que querem matar séculos de tradição tuga? Mas os chefes tugas dizem que os tugas têm que ser menos egoístas e mais solidários com os outros tugas, porque não há camas e aparelhos suficientes nos hospitais para descovidar toda a gente. Então os tugas, obedientes, vão para a casa. Antes ficavam contentes com isso e até batiam palmas e tocavam panelas na varanda, mas já estão fartos disso.

Os chefes tugas gostam de apelar à solidariedade, porque não há camas suficientes nos hospitais. Há muitas camas em muitas casas vazias, mas muita gente sem teto a viver na rua e muita gente a rezar para que os chefes dos tugas não façam um sinal para ser despejada; há muitas casas vazias e muitos tugas a viverem na rua, mas descobri que para os chefes tugas parece que a solidariedade tem a ver apenas com as camas dos hospitais e apenas para doentes da Covid.

Os chefes tugas continuam a querer jogar dinheiro aos seus amigos tugas dos bancos, das TAPs, da saúde privada e fechar as pessoas em casa, ao invés de investir na saúde pública e comprar mais camas para não favorecer o bichinho, e, enquanto isso, os tugas coitados estão a ir para o desespero. E isto dá medo, pois, há muiiiiiiiitos anos quando os tugas entraram em desespero, encheram-se em barcos e foram para África brincar a empresários… e não correu nada bem, para os africanos, é claro. Mas agora, por conta de desespero os africanos também vêm cá à Tugalândia tentar brincar a empresários, mas são mandados logo para as obras.

Os amigos tugas dos chefes dos tugas estão a despedir muitos tugas coitados e quando isso acontece, sempre mandam os tugas coitados emigrar. Por exemplo, há não muitos anos, um chefe tuga chamado Caço Coelhos também fez o mesmo, deu muito dinheiro aos seus amigos tugas donos dos bancos e despediram os tugas coitados e mandaram-nos emigrar. “Vá!, todos para o Norte, emigrem para a Europa, saiam da Tugalândia.” Nada mais fazia sentido para mim, eu a vir para a Tugalândia e o tuga, todo complacente e piegas, a fugir da Tugalândia.

Mas eu tenho um objetivo na vida, eu vim a Portugal para ajudar os tugas, para lhes ensinar a ser de cara menos fechada e mais sorridentes, para pararem de arrastar o corpo pelas estações do metro de manhã, como cadáveres vivos. Vou criar uma ONG aqui para ajudar os tugas a serem mais firmes e a saberem o que são os direitos humanos e a conhecerem a democracia, para não terem de aceitar complacentemente tudo dos seus chefes ditadores tugas, enquanto ficam em casa a serem piegas e a escreverem na Internet.

A minha ONG vai ser sem fins lucrativos, mas eu e os meus colaboradores que vou mandar vir de África, temos de ter um salário chorudo, afinal a Guiné-Bissau não é assim tão perto e eu sou um expatriado, não imigrante, imigrante é coisa de pobres, como os tugas coitados. E os tugas com quem vou trabalhar aqui podem fazer voluntariado, dou sandes e sumo todos os dias e tá-se. Vou chamar o tio Paulo Bano para coordenar, porque ele é um especialista em Estudos Tugas. Vamos fazer workshops sobre “como ser um bom cidadão tuga”, e ensinar aos tugas a culinária guineense, pois acredito que é a única forma de honrar o dia da restauração tuga, senão os restaurantes aqui vão continuar todos fodidos. Os meus alvos mais imediatos são a PSP e o Parlamento, a TVI fica para a segunda fase.

A sério, é preciso e é urgente restaurar o tuga e criar “homem novo tuga”, porque estes tugas estão cada vez mais a namorar com os bafientos netos do Salazar, porque não sabem realmente o que a democracia é. É bom que saiam do armário, sim, é bom, por isso é que a minha ONG tem o trabalho missionário de recebê-los e civilizá-los, para largarem esses hábitos selvagens e essa falsa religião e o seu Papa Ventura, que os leva a adorar o Santo Salazar e o Santo Hitler. Desta vez não vou falar que PORTUGAL É RACISTA, para evitar polémicas vazias.

Eu só estou aqui para educar os tugas sobre a sua própria história e civilizá-los, porque há uns anos vi o pedido de ajuda do chefe tuga Sovaco?… Babaco?… Palhaço?… bahhhh, não interessa, está na foto. Acho que ele estava com saudades dos tacos e das tortillas.

17 de outubro de 2020

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 4)

17 de outubro – etnólogo dos enólogos

 

Os problemas da Covid não me têm ajudado muito em focar-me nos últimos meses. Queria escrever sobre tanta coisa, mas falta tempo, quer dizer, tenho muito tempo de sobra, só não sei o que fazer com ele. É que os tugas, tanto os de Portugal, como os tugas da Europa têm andado a obrigar as pessoas a ficarem fechadas dentro das suas casas, dizendo que é para não apanharem Covid. Não entendo nada, primeiro diziam que os seus velhotes andavam sem-vida, agora por causa da Covid, mandam-nos ficar em casa, sem visitas e sem-vida, e ainda chamam à doença de Covid. Qual com vida!

O tio Paulo Bano Bajanca tinha-me ensinado para ficar desconfiado quando os tugas me mandam ficar em casa, ele disse assim: “Sobrinho!, fica desconfiado quando os tugas te mandam ficar em casa e te dizem para não sair, porque, de repente, quando te mandam sair, já nem a tua casa te pertence. Foi o que fizeram na Guiné.”

Eu, às vezes, pensava que o tio Paulo Bano exagerava, mas descobri que não. Toda a história dos tugas da Europa é desse tipo, tios que matam sobrinhos para tomar o poder, irmão que mata a irmã, irmã que guerreia irmã, primo que mata o sobrinho, tio que casa a sobrinha, uiiiiii.

Aqui em Portugal, por exemplo, os tugas têm aquele gajo que eles chamam de Avenida Don Afonso Henriques, aprendi que o rapaz da mãe dele entregou-lhe um castelo, e ele, de repente, disse que o castelo lhe pertencia e mandou bater na mãe e ficou com o castelo e foi lá que ele que inventou Portugal, ou descobriu Portugal, nem estou certo. Os tugas tiveram assim um mau arranque, estás a ver?, mas o pior é que ficaram a copiar o seu inventor, foram à Mouraria, fingiram que foram ver azulejos e tomaram aquilo, foram ao Algarve, fingiram que só tinham ido à praia e ficaram com aquilo (agora os tugas ingleses estão a fazer-lhes a mesma coisa) , chegaram ao Brasil, fingiram que eram amigos e tomaram aquilo, foram à Guiné, fingiram que eram amigos e tomaram aquilo, Angola, Moçambique, Timor, os impostos dos outros tugas coitados. Por isso é que o tipo Paulo Bano diz que os tugas são como macacos, se lhes estenderes a mão, eles sobem-te pelos ombros. Mas também, disse ele: “Toma muito cuidado, conhece primeiro alguém antes de julgar esse alguém. Não é a cor ou a raça de alguém que faz com esse alguém seja bom alguém… por exemplo, olha só para os que mandam na nossa terra.”

Hoje, como os tugas tomadores já não podem tomar de qualquer maneira as coisas dos outros de outras terras, então os chefes dos tugas tomadores começaram a tomar as coisas dos outros tugas mais coitados. Por exemplo, arranjam um amigo tuga, metem-no num banco, esse rouba muito dinheiro às pessoas tugas coitadas e as pessoas tugas coitadas ficam sem dinheiro e choram; então os chefes dos tugas tiram o amigo tuga do banco, metem outro amigo tuga e tiram novamente o dinheiro às pessoas tugas coitadas para pagar o estrago que o primeiro amigo tuga fez, e enquanto isso o novo amigo tuga fica a tirar o dinheiro às pessoas tugas coitadas outra vez e, de repente, às pessoas tugas coitadas ficam sem casas, sem empregos, porque o amigo tuga dos chefes dos tugas tomou-lhes o dinheiro todo. Muitos desses tugas coitados acabam por desesperar e matar a cabeça. Mas achas que os chefes tugas se importam? Nem pliu.

Quando contei isso ao tio Paulo Bano, ele disse: “Olha só para veres!, se eles fazem isso com os seus irmãos tugas, achas que é a ti que vão perdoar?”.

Ontem um dos chefes dos tugas, o Marmelo ou Martelo, não me lembro direito do seu nome, só me lembro que ele gosta de abraçar os tugas coitados. Ele e o Papa Francisco, um tuga que vive na Itália e pensa que fala com Deus (mas ninguém o mete no centro mental), eles parecem estar numa competição de quem abraça mais coitados. E ficam tanto a falar dos coitados e da coitadeza, enquanto comem do bom e do melhor. Ah, quase que me esquecia, sou muito distraído… O tuga Marmelo disse que muitos outros países democráticos obrigam as pessoas a usar máscaras, logo está bem Portugal obrigar as pessoas a usar máscaras. O Marmelo esqueceu-se que muitos países democráticos invadem outros países e fazem merdas em outros países (como a frança e o seu Franco CFA na África Ocidental), sem deixarem de se chamar democráticos, mas não quer dizer que isso é bom ou justo… naaaaaá, acho que ele sabe, porque pelo visto, lê muito quando não está ocupado a abraçar os pobres.

O tio Paulo Bano disse que quando Amílcar Cabral estava a lutar para libertar a Guiné dos tugas maus, ele publicou lá na Inglaterra, com o nome Abel Djassi, um trabalho que mostrava o mal que os tugas faziam na Guiné. Mas... que esses mesmos ingleses que apoiaram a publicação, estavam na África do Sul a castigar os pretos. “Não te fies, sobrinho, os poderosos sempre ficam do lado um do outro e apoiam-se uns aos outros e dão aqueles prémios chamados Prémios Ignóbeis de Paz um ao outro, enquanto o resto do mundo continua em guerras”.

Depois de ter ouvido estas palavras do tio Paulo Bano fiquei muito preocupado com a Guiné-Bissau, a terra que deixei para trás por causa desta minha vontade de etnólogo de estudar a raça tuga. Os chefes dos tugas estão agora a olhar muito para a Guiné-Bissau, a prepararem visitas e tal, e eu fiquei com a pulga atrás da orelha, será que querem é ir atrás da madeira?, pois parece que da última vez perderam para os tugas da China. E agora que os nossos tugas-de-terra começaram a sangria de novo, os tugas de Portugal não querem ficar de fora. Ou será que é por causa do Petróleo que vai ser cavado na Guiné numa zona protegida como Reserva da Biosfera? Ou têm é outra ideia na forja?

Epá, esses chefes tugas são mesmo como o Avenida Don Afonso Henriques, querem tomar tudo para si e para os seus compadres e compadriagens. Agora querem é entrar no nosso telemóvel… entrar é fácil, o problema vai ser tirá-los de lá depois, pois uma vez dentro, vão começar a arranjar outras razões para lá ficarem. Não se deve dar aos ivan dráculas a permissão de entrarem na tua casa, é um mau precedente. Perguntem à mãe do Avenida, ela que vos diga.

Mas os chefes dos tugas sabem que conseguem fazer o que querem dos tugas, porque os restantes tugas, tanto os coitados como os assim-assim, aqueles chamados de Zé Povinho, são todos uns porreiros: reclamam, escrevem artigos na Internet, dão entrevistas, escrevem livros, mas depois "bebem vinho verde e vão às putas" , disse um tuga europeu qualquer, e ficam todos calmos e vão pagar impostos de novo para salvar algum banco ou alguma TAP. Os tugas são enólogos, sabem tudo sobre vinhos, desde que haja vinho, está tudo bem, bebem até na autoestrada. E se os tugas Zé Povinho deixam os chefes tugas meterem a mão nos seus bolsos, achas que é um aplicativo no telemóvel que os vai preocupar?

Adoro os tugas, pá, são tão calmos e tão passivos com os seus chefes tugas, que até se entalam e morrem num portão lá em Martim Moniz só para deixar os chefes tugas contentes. A única maneira de espevitar os tugas é dizer-lhes que Portugal é racista. Aí, juro, cai o Cravo e a Maternidade.

 

P.S.: Disseram-me que Covid afinal não significa com-vida, e que não foi o tuga português que o descobriu. Ai, que descobrimento.

13 de junho de 2020

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 3)

13 de junho – o tuga e os símbolos

 

Não tenho feito registos nos últimos tempos, mas não foi por ter perdido interesse em estudar e entender os tugas, foi, sim, por falta de tempo. Não é fácil estudar os tugas ou estudar qualquer coisa que seja quando se tem que se levantar às seis da manhã para ir bumbar nas obras e voltar para a casa com os ossos todos moídos.

Na verdade, mesmo nas obras aprendo com os tugas, sei que eles gostam de ser chefes e de mandar em pessoas, e quando a pessoa não sabe falar português bem, uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, eles não dão tempo mesmo, eles dizem que falas pretuguês. Espera, mas isso é quando és preto, porque os ucranianos simplesmente não sabem falar bem português, os brasileiros falam brasileiro, só os tugas falam português. Alguns deles, preocupados com o meu pouco desenvolvimento linguístico, disseram-me assim: “Um dia hádes falar bem português. Mas, caralho, tu estivestes a trabalhar á treuze meses atrás com agente apenas e ainda não cabeu na tua cabeça aprender a falar bem. Não é que ténhamos de te ensinar, mas que perca de tempo.” Claro que coube, mas como diz o meu amigo brasuca: “O portugueis edifício, mermão”.

O tuga tem muito orgulho do português, tanto orgulho que muitas vezes o mistura com o inglês ou o americano... uadevá... mas tem tótil orgulho da tugalidade, tanto orgulho que até tem um dia para a liberdade tuga, um dia para a língua tuga, outro dia para a raça tuga e ainda outro dia para a república tuga. Quando eu descobri isso só pude pensar: “Santo António Vieira de meninos índios!, tantos dias! Que complexo estão a tentar esconder com essas tantas lembranças da tugalidade?” Ah, quase que me esquecia do dia para a Virgem Maria Tuga e do dia para o Santo António. A propósito, o que é isso do Santo António estar sempre rodeado de meninos ou de colocar o menino no colo? Isso é alguma espécie de pornografia doentia para os padres? Oh, já estou de novo a divagar.

Os tugas são até gajos fixes, muito fixes mesmo. Estão sempre preocupados comigo e com como vão as coisas no meu país e dizem-me: “Epá, estais a ver, desde que saímos do teu país, vocês só andaram a fazer merda. Mas a culpa é nossa, por causa que não sabiemos vos dar uma boa independência”.

O tio Paulo Bano Badjanca já me tinha falado que os tugas acham que só eles são grandes e sabem fazer as coisas e que ninguém mais sabe nada. Disse que os tugas quando fazem qualquer coisa, metem lá um símbolo. O tio Paulo contou-me que aquela estátua enorme da Maria da Fonte em Bissau quem na verdade a construiu foram os guineenses, que nem foram bem pagos ou sequer foram pagos, mas quando acabaram a estátua, os tugas pegaram na estátua, disseram que foram eles que a fizeram e chamaram-na “Esforço da Raça”, mas não era o esforço da raça guineense, não, mas esforço da raça tuga, como se tivessem sido eles que derramaram ali suor e sangue. O tio Paulo Bano disse que os tugas têm orgulho e vaidade nesses símbolos de poder, de violência e de opressão, e que não toleram quem não os respeite. Os tugas chegaram à Guiné, destruíram todos os símbolos das pessoas, dizendo que eram maus símbolos, e colocaram os símbolos deles. Contou-me, por exemplo, que os tugas têm uma cantiga e que obrigavam a toda a gente na Guiné a aprender essa cantiga, porque era uma forma de mostrar como eram importantes e como eram grandes e como até o próprio mar era nada diante de um tuga. O tio Paulo sabia a cantiga de cor e dizia assim:

“Herói do nada, pobre povo

são-lazarento imoral.

Caramba! Caramba!

sobra a guerra, sobra o mal.

Caramba! Cramba!

Há carrapata no ar,

coçar os colhões

murchar, murchar!”

Mas o tuga não vê nenhum sinal de violência nesta cantiga, para ele é simplesmente uma cantiga sagrada e que não deve ser conspurcada, pois o tuga é aquele que dá “novos mundos ao mundo”, como se o velho mundo do mundo fosse uma coisa má.

O tuga adora símbolos, mas só os seus, os dos outros são afrontas, são para serem substituídos pois não têm valor e não refletem a importância de quem os tem (se não forem americanos, é claro. – E falando em tugas americanos, esses mataram há uns dias um gajo chamado Jorge Freud, o gajo que fez aqueles filmes chatos sobre o sexo, e parece que os tugas de Portugal não gostaram nada, mas vou falar disso depois).

Mas… como estava a dizer antes, o tuga adora símbolos, porque esses símbolos mostram a sua grandeza, por isso os meus colegas do trabalho disseram-me: “Já comestes pastel de Belém, caralho? Epá, não podes dizer que vivestes enquanto não comeres um pastel de Belém, representa Portugal. A receita foi dada aos três pastorinhos pela Virgem Maria em pessoa, é o mesmo pastel que ela fazia para o menino Jesus em Belém.”

Santo António do menino Jesus me acuda!, o tio Paulo Bano não me tinha dito que até Deus adora os tugas. Será que é por isso que os pastéis de Belém se fazem perto de um mosteiro?

4 de maio de 2019

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA

04 de maio – introdução

 

O meu interesse pela Europa, bem, herdei-o de um tio meu. Não era mesmo meu tio, mas um homem-grande lá da tabanca que toda a gente chamava de tio. O tio Paulo Bano Badjanca tinha vindo a Europa uma vez e tinha visto tugas. Ele contou que os tugas eram muito coitados, estavam sempre a correr de um lado para outro, com a cara fechada e muito infeliz, e alguns deles não tinham nem mesmo onde morar, nem roupas, andavam com trusses e calcinhas e deitavam-se na areia, perto do mar. O tio Paulo tinha sentido muita pena deles, pois parecia que já tinham desistido de viver e só estavam à espera que o mar subisse e os levasse, coitados!

Essa impressão do tio Paulo despertou em mim um sentimento intenso e eu decidi que quando fosse grande iria até Europa para ajudar a sua gente a ser menos pobre e mais feliz. 

Então comecei a estudar sobre os tugas e sobre a Europa para os entender melhor. Primeiro falei, na Guiné, com aqueles que tinham conhecido brancos ou a Europa, para ter uma base, depois passei a ler livros sobre a Europa. Isso confirmou que a ideia do tio Paulo Bano de que eles eram mesmo infelizes estava certa. Eu li livros enormes, mas eram só sobre guerras e guerras; guerras tão grandes que eles as chamavam de mundiais, guerra de cem anos, guerra fria, guerra de golfe (ou de golpe, ou de golfo, já nem me lembro), guerra de… Bolas!, era tudo sobre guerra! Guerras e problemas, dinheiro, dinheiro, dinheiro, guerras, guerras, guerras, problemas, problemas, problemas…

Não entendia como é que os tugas conseguiam viver na Europa e por que gostavam tanto de escrever sobre problemas. Eu pensava que eles também deviam ter coisas boas, como a música, por exemplo… mas disseram-me que os brancos não sabem dançar, e isso eu não entendia muito bem, visto que também eu li que eles tinham pimba, valsa, passo doble, gavotte, mazurka, dança da roda, branle, quadrilha… entre outros nomes difíceis. Eu sempre achei a cultura da Europa muito interessante e tão exótica, e acho tão engraçado os tugas terem todos esses tipos de danças e não saberem dançar.

Voltando ao assunto, depois da pesquisa, decidi vir à Europa conhecer os tugas. Queria mesmo vir também tirar-lhes a medida dos pés, das mãos, da cabeça, do pénis… ah, dizem que eles têm pénis muito pequeno. Talvez seja por isso que não têm muitos filhos e não gostam nada dos pretos. Também sei que as mulheres tugas gostam muito de sexo, um colega meu, etnólogo guineense, WJ, que estudou também os tugas, falou disso no seu trabalho “Nha Carta”, numa frase dirigida à sua namorada que ficou na Guiné-Bissau: “si kontra bu fixi, nha fofa, fixi mas tem li; si kontra bu bagri, nha fofa, bagri mas tem; si bu bom na kama, brankus, kilas e ta fasi nam filmi”.

Bom talvez tenha de falar agora de uma questão confusa aqui, pois ao que parece tugas não significa brancos, mas portugueses. Aconselharam-me, portanto, a usar o termo de maneira menos preguiçosa e mais exata, e para não confundir os tugas com os europeus, porque nem todos os europeus são tugas. Mas se essas mesmas pessoas falam de africanos como um grupo único, e falam da cultura africana como se fosse única, e falam de gente preta como sendo automaticamente africana, então, não entendo, por que razão não posso chamar a tugas de brancos, ou a brancos de tuga, ou de europeus.

Eu vim à Europa para estudar a etnia tuga e é isso que vou fazer, e é sobre isso que vou continuar a escrever.

1 de novembro de 2018

SINTIDUS - REVISTA DE ESTUDOS CIENTÍFICOS E INTERDISCIPLINARES (1º número)


Durante muito tempo só existia uma revista científica na Guiné-Bissau, ou melhor, produzida na Guiné-Bissau: Soronda, uma revista do INEP, que desde 1986, durante 10 anos foi semestral, fez uma pausa de um ano, voltou em 1997 e durante 8 anos tornou-se anual; fez outra pausa de 13 anos e voltou a publicar em 2017, e só espero que não mantenha a frequência.

Para não deixar a Soronda sozinha, eis que aparece, em 2018, SINTIDUS (Revista de Estudos Científicos e Interdisciplinares da Universidade Lusófona da Guiné), que publicou o primeiro número, em formato eletrónico e, agora, físico.

É hábito estudantes (guineenses) dizerem que não há muito material científico sobre a Guiné-Bissau, eu não concordo, quer dizer, em certas áreas há mais que em outras, e podia-se produzir mais. Sem falar da Soronda que contraria essa ideia, a SINTIDUS está a mostrar também agora que ela não é verdadeira.

A Revista nº 1 tem artigos de qualidade e de relevância sobre a Guiné-Bissau. Sem dizer que tem a pinta de fazer os resumos todos em kriol. Estudantes, investigadores e curiosos hão de gostar das matérias. 

O primeiro número consiste da observação sobre a observação da Guiné do ponto de vista de um “observador ou investigador” português, e passa pela relação entre os fulas e o mandingas no Kaabu, que apesar de analisar o passado é bastante pertinente para a situação atual e para a compreensão a parte da nossa sociedade, passando pela literatura e análise social pela escrita, ainda pela questão do kriol e da necessidade de normalizar a sua escrita, e também pela questão da justiça na Guiné-Bissau e relação entre o poder do estado e o poder tradicional nessa esfera, até ao assunto das alterações climáticas e seus indicadores, o que é bastante importante, considerando o que vimos neste último ano em Bissau. Por fim, a revista fecha com um ensaio fotográfico sobre a cidade, que apenas critico porque quer mostrar a África através da Guiné-Bissau, quando nem pode mostrar a Guiné-Bissau através de Bissau, por causa da miríade cultural guineense, o que me faz bradar: “DEUS DO CÉU!, ÁFRICA NÃO É UM QUINTAL NUM BAIRRO! ÁFRICA É IMENSA, PAREM COM SIMPLIFICAÇÕES”.

SINTIDUS encontra-se agora em formato físico e pronto para ficar na tua biblioteca e auxiliar-te nas tuas investigações e se não o quiseres aí, podes sempre adquiri-lo para oferecer a um amigo, e para isso precisas apenas de escrever sintidus.revista@gmail.com ou (se estiveres em Bissau) contactar +245 955977108 ou ir à Universidade Lusófona perguntar, ou mandar menino.

Aproveita e vai comprar que o número é limitado. Kim ki tchiga prumeru siti ku liti bas di kama di si mame.

Eu já tenho o meu. Na verdade, tenho mais dois outros outros e vou oferecer um à primeira pessoa que me responder a esta pergunta: Si kinkinhin kankanhan i “prenhada bambu n’ utru”, nton ke ki kankanhan kinkinhin? Pa konvensim, bu tem nam k' kontam kal ki signifikadu di es dus palabra.

O segundo livro, para ser justo para os meus amigos não falantes de kriol, vai para quem responder a esta pergunta: “uma meia meia feita, outra meia por fazer, quantas meias são?

N.º 1, 2018
AUTOR
ARTIGO
Raul Mendes Fernandes
Manuel Bívar & Sadjo Papis Mariama Turé
Jorge Otinta
Luigi Scantamburlo
Sara Guerreiro
Orlando Mendes
Gustavo Lopes Pereira & Ana Filipa Lacerda



4 de julho de 2018

SORONDA - REVISTA DE ESTUDOS GUINEENSES (Lista dos artigos da 1ª série)

É muito comum os guineenses, inclusive "professores", dizerem: não há estudos sobre a Guiné-Bissau. Eu também o disse durante muitos anos até ter descoberto o contrário. 

É verdade, todavia, que há uma diferença abismal entre o que se fez e o o que poderia ser feito, significando que muitos estudos estão por fazer; e é certo que há muitas áreas negligenciadas (a arquitetura e o urbanismo, por exemplo), mas em qualquer delas, existe sempre um ou outro exemplar. 

SORONDA -  REVISTA DE ESTUDOS GUINEENSES, uma publicação do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas), reúne vários artigos de interesse sobre a Guiné-Bissau. Os números produzidos encontram-se digitalizados e disponíveis nesta página: Casa Comum

Duas séries foram produzidas: a primeira, semestral, de 1986 a 1995, com 20 números; a segunda (Nova Série), anual, de 1997 a 2004, produziu 8 números, foi interrompida até 2017, e lançaria o 9º número em julho desse ano.

Como as revistas estão em formato de imagens não pesquisáveis, é sempre uma chatice encontrar artigos que me interessem ou voltar a eles depois de encontrados, por fiz esta lista para me ajudar nessa tarefa e creio que poderá também ter alguma utilidade para alguns investigadores ou curiosos sobre a matéria da Guiné-Bissau.

Aqui, contudo, só disponibilizo a lista da primeira série; quando acabar de listar a segunda, vou também partilhá-la. Aproveitem.



SORONDA, 1ª Série


N.º 1, janeiro de 1986
AUTOR
ARTIGO
Carlos Lopes
A Guiné-Bissau à procura de uma modelo social 
Carlos Cardoso & David Gonzalez
A reconstrução da história contemporânea da Guiné-Bissau através da oralidade
Diana Handem
O arroz ou a identidade dos Balanta-brassa
Gertrud Achinger
Família guineense: estabilidade e transformação
Abdulai Silá
Aproveitamento da energia solar na Guiné-Bissau: perspectivas e problemas
Rui Ribeiro
Os censos e as sociedades camponesas
Alexandre Furtado
Investigação sobre a história do ensino na Guiné-Bissau
Jean Pierre Lepri
Contribuição para a análise sociológica da Guiné-Bissau actual
David Gonzalez
25 anos de estudos africanos na América Latina
1. Jean Pierre Lepri
2. D. Vicente
Notas de leitura:
1. Guinea Bissau: from shadow toward light? (ou da sombra para a luz), de Carlos Lopes
2. A primeira visão de conjunto sobre a missionação na Guiné, de Henrique Pinto Rema

N.º 2, junho de 1986
AUTOR
ARTIGO
Diana L. Handem
Ciências sociais e políticas de desenvolvimento
Carlos Cardoso
Sociedade-Indivíduo-Crime: Contribuição para uma nova abordagem criminológica
Jean Pierre Lepri
Sobre as Causas do insucesso escolar
Jean Louis Rouge
Uma hipótese sobre a formação do crioulo da Guiné-Bissau e da Casamansa
Djibril Baldé; Serifo Mané & Graça Santos
Estudos e Pesquisas sobre a Música Tradicional
A. Fonseca
Reflexões sobre o Sector da Energia
Carlos Lopes
O desenvolvimento desigual no pensamento de Samir Amin
1. Mário Santos
2. Jean Pierre Lepri
Notas de leitura:
1. Guinea-Bissau alfabeto: um momento de reflexão sobre a realidade nacional
2. A lição bijagó

N.º 3, janeiro de 1987
AUTOR
ARTIGO
Carlos Lopes
Homenagem a Aquino de Bragança
Carlos Cardoso & Rui Ribeiro
Considerações sobre as estruturas sócio-económicas das sociedades agrárias e a sua evolução histórica: um estudo de caso
Pablo Sdersky
As relações de trabalho numa sociedade de cultivadores de arroz: o caso dos Balantas de Tombali
Yvan Avena
A industrialização é possível na Guiné-Bissau?
Wilson Cruz
Análise da rentabilidade económica da barragem hldro-eléctrica do Saltinho
Diana Lima Handem
A Guiné-Bissau: adaptar-se à crise
lbrahima Djalo
Contribuição para uma reflexão-educação: multilinguismo e
unidade nacional
Eve Crowley
Análise de uma infelicidade: religião e interpretações pessoalistas
Vasco Cabral
A necessidade de cooperação técnica entre os países em desenvolvimento: uma reflexão

N.º 4, junho de 1987
AUTOR
ARTIGO
Mário Santos
Algumas considerações sobre a nossa situação sociolinguística
Jean-Pierre Lepri
A pesquisa-desenvolvimento em matéria de educação:
elementos para uma teoria
Rui Ribeiro
Barragens em Bolanhas de água salgada
Gertrud Achinger
Família guineense: estabilidade e transformação
Raul Mendes Fernandes
Nhomingas e Bidjogos - da pesca de «subsistência»
à pesca «comercial»
Eve Crowley & Rui Ribeiro
Sobre a medicina tradicional e formas da sua colaboração
com a medicina moderna
Jop de Jong; G. Klein & Tern Horn
Estudo básico sobre perturbações mentais no país
José Filipe Fonseca
A formação e a assistência técnica na agricultura e desenvolvimento rural
Carlos Cardoso
A importância crescente da informação e suas regularidades em Africa
Manuel Rambotlt Barcelos
Documentos para uma educação endógena na África Subsariana
Lars Rudbeck
Notas de leitura: Sobre Ulrich Schilfer

N.º 5, janeiro de 1988
AUTOR
ARTIGO
Joop T. V.M. de Jong
O irã, o fulano e a doença
Alexandre Chalyi
Normas do direito internacional na ordem jurídica da República da Guiné-Bissau
Vasco Cabral
Colonização e religião: da primeira evangelização à colonização dos povos da Guiné
Yvan Avena
Da experiência cooperativista na Guiné-Bissau
Lars Rudebeck
Observações sobre a economia política do desenvolvimento de r
uma aldeia aficana
Jean Pierre Lepri
Formação de professores, locais, materiais escolares e insucesso escolar na Guiné-Bissau
Documentos
Relatório da delegação do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde ao Seminário Económico Afro-Asiático (1965)
Eric Gable
Nota de leitura: Guiné-Bissau: Política, Economia e Sociedade, de Rosemary Galli e Jocelyn Jones

N.º 6, janeiro de 1988
AUTOR
ARTIGO
Yarisse Zoctizoum
O Estado e Reprodução Étnica em África
Carlos Lopes
Crise Ecológica e Conflitos Sociais na Guiné-Bissau
Mário Santos
Os Valores tradicionais e o Direito Consuetudinário no Contexto da Problemática da Delinquência Juvenil
Joop T.V.M de Jong
Investigação dos distúrbios mentais encontrados nas crianças atendidas pelas instituições de saúda na Guiné-Bissau
Erica Sabourin
Reflexões sobre as dinâmicas associativas e comunitárias na Guiné-Bissa
Grupo dos A.H. sob a coordenação de Carole Laurin
Instrunento de Pesquisa da Colecção Fotográfica dos Arquivos Históricos do INEP
Documentos
Mensagem de Vasco Cabral apresentada no Congresso Internacional dos Intelectuais em Varsóvia
Carlos Cardoso
Nota de Leiruta: Sociedade Agrárias na África de Expressão Oficial Portuguesa, de Peter Meyns (Editor)

N.º 7, janeiro de 1989
AUTOR
ARTIGO
Carlos Lopes
Resistências Africanas ao controle do território - Alguns casos da Costa da Guiné no séc. XIX
Mamadú Mané
O Kaabú - Uma das grandes entidades do Património Histórico Senegambiano
Carlos Cardoso
Conflitos interétnicos - Dissolução e reconstrução de unidades políticas nos rios da Guiné e de Cabo Verde (1840-1899)
Jorge Cabral
A política externa da Guiné-Bissau
Documentos
Estratégia para o desenvolvimento do sector da educação (aprovado pelo conselho de Ministros em 1988)
Ana Maria Delgado
Os filhos da revolução, filme de Flora Gomes

N.º 8, julho de 1989
AUTOR
ARTIGO
Raul Mendes Fernandes
O espaço e o tempo no sistema político bidjogó
Christine Henry
Marinheiros bidjogós: passado e presente
Mamadú Jao
Estrutura "política" e relações de poder entre os Brâmes ou Mancanhas
Faustino M'Bali
O Estado e os camponeses perante o constrangimento do desenvolvimento
Rosemary E. Gallí
Estado e sociedade na Guiné-Bissau
Huuntondjí Paulin
Investigação e extraversão: elementos para uma sociologia da ciência nos países da periferia
Documentos
Documentos dos Fundos de Arquivos da Circunscrição Civil de Cacheu sobre a sucessão dos régulos manjacos (1951 e l 952)

N.º 9, janeiro de 1990
AUTOR
ARTIGO
Boubacar Barry
A Senegâmbia do séc. XV ao séc. XX: Em defesa de uma história subregional da Senegâmbia
Peter Karibe Mendy
A economia colonial da Guiné-Bissau: “Nacionalização” e exploração, 1915-1959
George Brooks
Notas genealógicas de proeminentes famílias luso-africanas no séc. XIX na Guiné
Leopoldo Amado
A literatura colonial guineense
Roy van der Drift
O desenvolvimento da produção e do consumo de álcool entre os Balanta Brassa da aldeia de Foia, no sul da Guiné-Bissau
Documentos
Documentos coloniais: A terra para quem a trabalha?
Lars Rudebeck
Notas de leitura: Richard Lobban e Joshua Forrest, Historical Dictionary of the Republic of Guinea-Bissau, de Richard Lobban e Joshua Forrest

N.º 10, julho de 1990
AUTOR
ARTIGO
Carlos Cardoso
Ki-Yang-Yang: Uma nova religião dos Balantas?
Carlos Lopes
Relações de poder numa sociedade malinké: O Kaabu do séc. XIII ao séc. XVIII
Elly M. Opazo
Notas sobre a evolução fonética do português para o kriol
Philip J. Havik
A pesquisa sobre a transformação rural na Guiné-Bissau: Breve inventário de temas e autores após a independência
Documentos
Documento dos Fundos de Arquivos da Circunscrição Civil os Bijagós: O teatro colonial ou a invenção do real
Ronald H. Chilcote
Notas de leitura: Poder Popular e luta revolucionária

N.º 11, janeiro de 1991
AUTOR
ARTIGO
George E. Brooks
Bolama: centro de interesses imperialistas africanos, europeus, euro-africanos e americanos
Carlos Lopes
Uma perspectiva histórica da cooperação técnica em África
Fernando Padovani
O programa de Ajustamento na Guiné-Bissau e a discussão de um modelo
IngerTvedten
Programas de Ajustamento Estutural e implicações locais: o caso dos pescadores artesanais na Guiné-Bissau
Magnus Alvesson & Mario Zejan
Guiné-Bissau: o impacto do Programa de Ajustamento Estrutural sobre o bem-estar dos pequenos proprietários rurais
Documentos
Políticas e instrumentos, Comissão Económica para a África
Notas de leitura:
1. George E. Brooks
2. Daniel A. Pereira
1. Naissance de la Guiné. Portugais et Africains en Sénégambie (1841-1936), de René Pélissier
2. História da Guiné-Bissau. Portugueses e africanos na Senegâmbia (1841-1936), de René Pélissier

N.º 12, julho de 1991
AUTOR
ARTIGO
Fernando Padovani
Novos fantasmas no mato
Diana Lima Handem
Desenvolvimento na Base e Participação Popular: uma alternativa?
Sylvain Panneton
O Balafon de Tabato
Fafali Koudawo
Educação e sociedade na África pré-colonial
Ramiro Delgado Salazar
Etnia, espaço étnico e colonialismo
Julio D. Dávila
Planeamento urbanístico e territorial na Guiné-Bissau
Documentos
Um olhar sobre a história dos recenseamentos coloniais: o censo de 1950
Patrick Chabal
Notas de leitura: O ideal socialista em África
Carlos Cardoso
Educação e endogeneidade: o caso da Guiné-Bissau

N.º 13, janeiro de 1992
AUTOR
ARTIGO
Abdulai Silá
Estratégias de desenvolvimento e alternativas tecnológicas: um estudo de caso (Guiné-Bissau)
Peter Karibe Mendy
Conquista mililar da Guiné: da resistência à «pacificação» do Arquipélago dos Bijagós
Mamadú Jao
Aspectos da vida social dos Mancanhas: a cerimónia do Ulém
Teresa Montenegro
Kasisas: marginais deste e do outro mundo
Carlos António Gomes
Psiquiatria e saúde mental na medicina tradicional dos países em desenvolvimento
Samba Mbuub
Educação e conflito cultural: a experiência do Senegal na utilização das línguas nacionais
Documentos
A nova lei da imprensa na Guiné-Bissau
Raul Mendes Fernandes
Notas de leitura: Promotores e promovidos

N.º 14, julho de 1992
AUTOR
ARTIGO
Faustino lmbali
Um olhar sobre o sistema alimentar balanta: o caso das tabancas de Mato Farroba e Cantone
Carlos Cardoso
A ideologia e a prática da colonização portuguesa na Guiné e o seu impacto na estrutura social, 1926-1973
Gertrud Achinger
Efeitos do Programa de Ajustamento Estrutural sobre as condições económicas e sociais das mulheres da zona rural
Carlos Franco Liberato
Os conceitos de etnia e classes sociais: uma primeira aproximação dos instrumentos de análise da realidade africana
Hildo Honório do Couto
As consonantes pré-nasalizadas do crioulo da Guiné-Bissau
Documentos
Relatório do Residente de Cacheu em 1911
Alain Kihm 
Notas de leitura: Os 3 N'kurbados de Fernando Júlio

N.º 15, janeiro de 1993
AUTOR
ARTIGO
Jorge Cabral
O desafio da afirmação do português como língua de comunicação internacional
Patrick Chabal
O Estado pós-colonial na África de expressão portuguesa
Joshua B. Forrest
Autonomia burocrática, política económica e política num Estado 'suave': o caso da Guin􀁹­Bissau pós-colonial
Eve L. Crowley
Chefes de posto e chefes da terra: dinâmica de dominação e autodeterminação na região de Cacheu
Teresa Montenegro
Breve notícia da Revolução Triunfante
Carlos Lopes
Notas de leitura: Amílcar Cabral, 20 anos depois
T. Bruno Mukendi
África e a recusa do desenvolvimento: um pensamento controverso

N.º 16, julho de 1993
AUTOR
ARTIGO
Peter Karibe Mendy
A herança colonial e o desafio da integração
Raul Mendes Fernandes
Partido único e poderes tradicionais
Filomena Embaló
Os desajustes do Programa de Ajustamento
Wilson Trajano Filho
A tensão entre a escrita e a oralidade
Fafali Koudawo
A ajuda económica como instrumento político:
uma perspectiva histórica
Cornélia Giesing
Agricultura e resistência na história dos Balanta-Bejaa
Documentos
Ofício do Comandante de Farim à Secretaria do Governo da Guiné (1895)
Johannes Augel
Notas de leitura: Bissau – Estratégias de sobrevivência numa cidade da Africa Ocidental, de Josef Kasper


N.º 17, janeiro de 1994
AUTOR
ARTIGO
Carlos Cardoso
A transição democrática na Guiné-Bissau: um parto difícil
Raul Mendes Fernandes
Processo democrático na Guiné-Bissau
Manuel Nassum
Política linguística pós-colonial: ruptura e continuidade?
Renato Aguilar & Mario Zeján
Ajustamento estrutural na Guiné-Bissau
Rosematy E. Galli
A ausência de capitalismo agrário na Guiné-Bissau durante o regime do Estado Novo
João Dias Vicente
Padre Henrique Lopes Cardoso, um sacerdote guineense digno de ser conhecido
Documentos
Correspondência sobre o padre Henrique Lopes Cardoso (1884-1902), João Dias Vicente
Johannes Augel
Notas de leitura: Mulher. Ritual e Poder

N.º 18, julho de 1994
AUTOR
ARTIGO
Carlos Lopes
A pirâmide invertida: historiografia africana feita por africanos
Mário Espinosa
Ponteiros na Guiné-Bissau: o processo de concessão de terras
Teresa Montenegro
Provérbios crioulos: a arquitetura das imagens
Wilson Trajano Filho
Invisíveis e liminares: a sociedade crioula e os seus heróis
Moema Parente Augel
A prosa literária guineense
Charles de Lespina
Toponímia e língua baynuk como indicadores da história de Casamansa antes do século XVI
Documentos
Auto de acquisição da Ilha de Orango (1861), Raul Mendes Fernandes
Fafali Koudawo
Notas de leitura: Quando a luta continuava

N.º 19, janeiro de 1995
AUTOR
ARTIGO
David González
Os primeiros guineenses em Cuba
Philip J. Havík
Relações de género e comércio: estratégias inovadoras de mulheres na Guiné-Bissau
Gustavo Callewaerr
Algumas definições de programas de língua de ensino em situações de multilinguismo
Luiz de Sena
Uma experiência de integração da educação na Guiné-Bissau
Fafali Koudawo
Educação e teorias de desenvolvimento:
o que há de novo?
Documentos
Dez anos de INEP
Fafali Koudawo
Notas de leitura: À Procura do Cristo Mancanha

N.º 20, julho de 1995
AUTOR
ARTIGO
Lars Rudebeck
Reler Cabral vinte anos depois
Mamadú Jao
A questão da etnicidade e a origem étnica dos Mancanhas
lnger Callewaert
Fyere Yaabte: um movimento terapêutico de mulheres na sociedade balanta
Raul Mendes Fernandes
Contradições entre linhagens dominantes
e classes de idade nos Bijagó
Jean-Louis Rougé
A propósito da formação dos crioulos de Cabo Verde e da Guiné
Carlos Lopes
Basta! Para um diagnóstico alternativo da crise africana
Roy van der Drift
Notas de leitura: À procura dos outros