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16 de maio de 2022

CARO AMIGO POLIAMORISTA (DA ETICIZAÇÃO)

Caro amigo poliamorista,

Espero que esta missiva te encontre de boa com a vida e na crista da onda, onde andas como especialista a fazer revista na tua boa lista de poliamoristas e outras em vista de te fazerem festinhas. A sério desejo mesmo que não estejas num ermo, a sentires-te enfermo, mas a curtir amores em cheio com o sucesso de envolvimentos plenos.

Caro amigo poliamorista, nós, seres humanos, somos todos falhos e metemo-nos em trabalhos, porque nunca queremos as mesmas coisas, cada um de nós poisa os seus ideais nas suas próprias notas, e é por isso que todos criamos regras e guias para as nossas vidas ou escolhemos seguir as linhas que o nosso indica como onde se respira mais sentido nesta via. Todavia, se algumas dessas regras parecem menos cegas ou são mesmo menos bestas que outras, não significa que não possam ser escrotas ou que sejam perfeitas e feitas para além da crítica. Cri e vi cá que o poliamorismo pode ser boa prática, sendo genérico, é certo; mas lá porque dizemos, às vezes histéricos, que o poliamorismo é "consentimento ético", não quer dizer que seja assim mesmo, e nem que o "consentimento ético" seja um exclusivo do poliamorismo.

É muito comum, sem freio nenhum, ver-te a chamar aos "monogâmicos" de traidores, quase como se fossem seres inferiores, que não sabem gerir os ciúmes e as dores e os ardores. E para provar quão errados são os monogâmicos, dizes que a monogamia é uma fantasia, uma construção social, logo está mal por não ser natural. Também dizes que a monogamia é da autoria do capitalismo, mas... hey... a monogamia é bem anterior ao capitalismo, pelo menos o capitalismo formal que conhecemos hoje, do qual até o diabo foge tomado de medo, e ao qual todos apontamos o dedo. E, caro amigo, o capitalismo também usa o poliamorismo, usa as não-monogamias e com todas as mordomias usa qualquer movimento capaz de aglutinamentos... o capitalismo não descura nichos, dá e tira com capricho e trata a todos como bichos.

Enfim... dizes assim e com tanta certeza: "Os animais na natureza não são monogâmicos, logo o ser humano não é feito para ser monogâmico." Bem concordo contigo, caro amigo, quando dizes que os animais não são monogâmicos...mas nem são poligâmicos... muito menos poliamoristas... todavia há espécies que só têm um parceiro e há os porreiros que não precisam de sequer do sexo e reproduzem por si e consigo mesmos, mostrando que a função do sexo talvez não seja meramente...Atenção, não estou com essa menção a dizer que a copulação serve só para reprodução, aliás nem define a reprodução, uma vez que, como acabei de dizer, há espécies que reproduzem sem foder... Largando este papo para outro espaço vou retomando: nem o ser humano é monogâmico ou poligâmico ou poliamorista, ele pode praticar tudo isso da lista, mas como espécie não o caracteriza. O ser humano não é um ser orientado apenas pelas básicas lógicas biológicas, mas faz as suas próprias, psicológicas e sociológicas. Destarte reduzir o ser humano a apenas uma camada: a animal, é negar que o pensamento e a organização social fazem parte da nossa evolução e nos ajuda com resoluções, e que foi o que nos ajudou a sobreviver a sérios novelos de desvelos, e paradoxalmente, a criar o antropoceno.

Nós deixamos de ser meramente "natural", quando começamos a criar, é só observar. Usamos óculos para melhorar os olhos, fones para ouvir melhor, adoçantes para o sabor, pacemaker para fazer bater o coração, e injeção e inoculação e vacinas para estender a vida, resistindo mais às adversidades biológicas. Transformamos e transformamos. Por exemplo, os dentes que que antes arreganhávamos para assustarmos os outros, hoje com novos modos arreganhamo-los como engodos, em sorrisos rasgados, para criar contactos. Ou por exemplo, hoje falamos tanto mesmo do problemático que é a masculinidade tóxica, da qual a gente não se quer próxima, filha da cultura do macho-alfa, e da qual se quer dar um basta, mas a natureza está cheia de exemplos de machos-alfa, o que, todavia, não nos faz falta, razão pela qual a ideia não se salva, pois não queremos descer a escarpa a louvar a cultura alfa. Em resumo: somos também construtos sociais e não mais apenas animais tintos com instintos não distintos.

Repito e remarco, a monogamia é tanto uma construção social quanto as não-monogamias. E de forma fria, também o amor é uma construção social, porque a noção do amor ou da sua demonstração também varia de sociedade para sociedade e é apreendido socialmente... Mas lá porque algo é uma construção social, não significa que seja do mal. "Não matarás! Não roubarás! Não foderás o teu vizinho... a não ser que ele peça com carinho!", são construções sociais, mas ajudam a sociedade a funcionar de forma mais capaz. 

Entendes caro amigo?, não obstante ser difundido como padrão e destruído formas de relação e de ligação, o conceito da monogamia não é problema por si mesmo e nem devia. Só quando os seus cônegos e crentes gastam fôlego e tempo e agem de modo cego a atacar as outras formas de relação, aí sim, entra a questão da problematização.

Hoje a monogamia é norma (regra, entenda-se)... as normas podem ajudar até deixarem de fazer sentido, até serem casos perdidos, ou começarem a causar mais mal do que bem, mas todos vivemos com normas, tanto que às vezes a forma como comportas com a questão do poliamor parece que não queres dar respostas, mas substituir uma norma pela outra, que ainda não tem a mesma expressão política e expressão opressora. Sim, falo de substituição e de opressão e não de alteridade, porque da forma como te vejo a policiar a poliamoridade parece-me que não queres deixar espaços para a liberdade de amar, embora seja o que andas a advogar. Caro amigo poliamorista, ama, deixa amar, deixe-se amar, sinta o amor, lambe-lhe a cor, toque-lhe o odor, olha o seu som, cheira-lhe a textura, sem gráficos complicados a qualificar os envolvimentos... aliás, não é o que pedimos aos monogamistas?

Caro amigo poliamorista, falas tanto do "consentimento etico", mas há muitas formas de relacionamentos que são éticas, como já tinha dito, e não é só o poliamorismo. A monogamia pode ser ética, a poligamia também pode ser ética, embora esteja a sua mais comum forma, a poliginia, fundamentada no poder macho (atemo-nos ao mundo humano, para evitar a cena dos alfas, embora o que não nos falta seja animalidade).

Sobre o consentimento ético, na Guiné-Bissau, a título de exemplo, é bastante comum a poliginia... o contrário não se verifica... todavia, apesar disso muitas vezes são questões acordadas, muitas vezes propostadas pela mulher, porque precisa de ajuda nos campos e na casa e no poço e nos trabalhos e nos trampos diários e no etecétera, enquanto o marido se senta o dia todo sozinho a sacudir moscas com um rabo de vaca ou a coçar os testículos numa outra tabanca. Claro que as suas circunstâncias é que as levam a isso, e se conhecessem ou vivessem noutra realidade, quereriam outra coisa com maior equidade. Apesar de tudo, algumas, dentro dessa sua prisão e da sua limitação, escolhem e consentem.

Anos antes do capitalismo pintar as sociedades guineenses, a poligamia (poliginia) já existia, e em uma dessas sociedades fala-se da existência outrora da poliandria, mas da qual nem sombra se vê hoje em dia, provavelmente resultado das evangelizações ou de outras razões. Quanto às sociedades poligínicas, o número das esposas dependia dos posses do homem, quanto mais campos e mais gados, mais esposas e mais filhos (mãos de obra). O capitalismo ainda não tinha ali chegado, a economia era centrada no sector primário e configurava e influenciava as relações ditas amorosas. Hoje ainda é a mesma coisa em todo o mundo, porque no fundo só a economia mudou, a relação do poder continuou.

Falei disto para dizer que nem a monogamia nem a poligamia são frutos imediatos do capitalismo, ou pelo menos do capitalismo formal moderno, embora, sim, sejam usados pelo capitalismo (tal e qual o poliamoriasmo). Há uma sociedade guineense que é poligínica, mas que tem mecanismos para a mulher vazar as suas frustrações com outro indivíduo masculino que lhe seja querido, não precisa do consentimento do marido, o marido pode até sentir-se traído, mas não há castigo, não há punição. E essa noção é a razão por que pode haver "consentimento" na "traição". E a chamada "traição", se calhar, não é de todo não-ético. Pessoas dormem com outras e "traem" por diferentes razões a que razão pode conhecer ou talvez não; algumas traições são necessárias pelas suas próprias razões, pode ser por sobrevivência mental ou material ou emocional ou social ou seja qual for, é preciso sempre contextualizar... a não ser que a ideia da ética seja mesmo uma forma de dogma. "Não matarás" é ético com certeza... mas... e se for em legítima defesa?

Caro amigo poliamorista, tenha isto em perspetiva, não somos e nem percebemos mais ou melhor do amor do que monoamoristas, só por sermos ou por nos dizermos poliamoristas, apenas temos um diferente entendimento. Aliás o poliamorismo pode ser tão tóxico quanto o monogamismo, porque a questão, caro amigo, não é a prática, mas quem a pratica e a forma como a ela se dedica.

Sob a capa do poliamorismo, também abrimos abismos e também temos predadores sexuais, stalkers (reais e virtuais); também passio-dependentes que usam outras gentes para a satisfação pungente dos seus vícios; 
temos visto gente com medo de compromisso que por isso transita entre corações sofridos para se abster de se comprometer com alguém, magoando antes com medo do distante; temos machos a defender a política de pénis único, com argumentos túrgidos, ciumentos como tudo, a controlar e a abusar de mulheres;  temos pessoas traumatizadas a traumatizar outras almas; temos pessoas mentirosas, traidoras e manipuladoras; temos pessoas em dezenas de relações (superficiais) sem a consideração que o amor e a afeição exigem tempo e cuidado, e que o nosso coração pode ser uma imensidão, mas o nosso tempo não (não sei o que é o amor, mas sei o que para mim não é amor); temos pessoas a usarem a questão das relações como se de uma religião se tratasse, como se de um produto se tratasse, capitalizando dela, virando gurus de tudo e mais alguma coisas e manipulando almas confusas que abismos cruzam... enfim, resumo, por não poder elencar tudo, pode te parecer absurdo, repito, mas não é sobre a prática em si, mas sobre quem a pratica. E ser poliamorista não é ser anticapitalista, é só ser poliamorista.

Usar o poliamor como uma bandeira política é parte da vida, quando uma escolha consentida e objetiva. Mas quando o poliamorismo se revolve num ativismo extremo, que quer roubar os remos e que vemos a chamar a todos os monogâmicos de cegos, de imbecis e de carneirada afogada na traição e na ilusão, que não faz mais senão traição (como se a limitação da traição seja sexual ou como se a traição seja um exclusivo do monoamorismo), aí fica difícil acreditar que o teu poliamorismo não seja só clubismo. Até entendo que recém-convertidos ao poliamorismo sejam irritantes, porque como parece que descobriram uma novas verdades,  mas antes distantes, 
sentem-se arrogantes e tornam-se mais chatos que um recém-vegano ou um recém-ateu iniciado. Mas mais chato mesmo é um récem-ateu e recém-vegano recém-convertido ao poliamorismo. Por isso, há quem te supere, caro amigo.

Caro amigo poliamorista, o consentimento, esse vem em diferentes pacotes, com diversas texturas e diversos sabores e diversos toques e diversos odores, e, olha lá, embora se creia universal, a ética, se calhar, depende de contextos. Mas o que é certo certo certo certo mesmo é que o poliamor tem tanto peso e tanto problema quanto o monoamor, não fosse o poliamor uma prática desenvolvida por seres não perfeitos e tão insatisfeitos e inquietos como os humanos. Por isso, meu caro, às vezes, o mais claro é relaxarmos apenas, aliviar as penas, abrir as pernas (ou outras cenas) e vivermos a nossa verdade, protegendo-a, é claro, de ataques bárbaros, mas sem andarmos despertos e soberbos a emular os atacantes num jogo fedorento e, com asco, nos colocando no lugar do carrasco. 

A não-monogamia não é por si só ética. Ponto.




9 de dezembro de 2021

CATORZINHAS... UM PROBLEMA DE HOMENS ADULTOS (cronices crónicas)

Há uns anos escrevi sobre Clara de Sabura (http://montedepalavras.blogspot.com/.../a-guine-bissau...), um filme que abordou ligeiramente mais ou menos e involuntariamente a questão das "catorzinhas", mas de uma forma terrível, colocando-as, através da protagonista, no lugar de perpetradoras, em vez de vítimas. E depois, quando escrevi o artigo "ajoelhou vai ter que rezar" (http://montedepalavras.blogspot.com/.../ajoelhou-vai-ter...), prometi que iria discorrer sobre o tema "catorzinhas", mas fui deixando passar até agora. Só me referi a isso porque os dois textos vão ajudar-me a construir o análise. Bora!
Catorzinhas, segundo o vocabulário popular, são miúdas de catorze anos (e menos) que se envolvem em relações sexuais com homens adultos. Consideradas miúdas terríveis, destruidoras de casamento, putas, entre outras caracterizações mais simpáticas. São as "meninas que estão a estragar a nossa sociedade", na fala de alguém.
O fenómeno não é só guineense. Depois da guerra civil em Bissau, muitas pessoas refugiaram-se em Cabo Verde e quando voltaram trouxeram a expressão "pikena", para se referirem às namoradas (na Guiné dizíamos e ainda dizemos "mininu" e é só aplicado às raparigas com quem se tem relacionamento sexual, não propriamente ou necessariamente como namorada). Pensando sobre a provável origem dos termos não me pareciam algo nascido entre os jovens, porque pessoas da mesma idade não chamariam meninos uns aos outros (lembro-me que uma vez uma “menininha” foi fazer queixa do meu irmão à minha mãe e referiu-se a ele como "aquele rapaz" - ele tinha 5 anos - rimo-nos do tratamento, porque rapaz seria eu que tinha 12, embora eu fosse também menino para a minha mãe). O termo "pikena" e "mininu", terão certamente sido originado de adultos que se relacionam com miúdas novas, diria mesmo, menores de idade, "mininus" (no Braziu é novinha).
Na questão das catorzinhas, na Guiné, quem é vista de revés e como problemática são as próprias meninas que se relacionam com homens que deviam ser considerados pedófilos. A exploração delas é celebrada pelos homens adultos e, atrevo-me mesmo a dizer, pela sociedade guineense que não vê mal nisso, pelo menos da parte do homem.
Tabanka Djass, nos anos 90, cantou uma música, SUB-17, onde o protagonista diz que dormiu com uma menina que no fim lhe diz "amor, só tenho 15 anos", falava de meninas abaixo dos dezassete anos, menores. Okay! Vamos dizer que ele não sabia até a revelação final, mas ainda no mesmo álbum tinha a música "RUSGA DI 7 I MEIA", com história do "Ntoni Mansebu" que "paka mininus na skola, leba kubiku" (engata miúdas na escola e leva para o quarto). Aquilo era e é a normalidade de Bissau, ninguém estranha ouvir isso numa música, a própria música não foi feita para questionar a prática, apenas para contar a história de um "maaaaaaacho".
Ramiro Naka, mais recentemente canta "NDURO TENE PO GROS" (o Nduro tem o pau grosso), na qual diz" atenson katorzinhas" (e quinzenhas e dezasseiszinhas e dezassetezinhas... nunca chegou às 18zinhas, serão velhas demais?). Tudo em modo de celebração (bem, a Guiné é um local onde até músicas de exéquias são feitas em modo celebrativo, olhem a tina por exemplo). De qualquer maneira esses artistas não problematizam, mas normalizam a pedofilia (aceite socialmente) em torno das catorzinhas.

Chachá di Charmi também tem a sua música sobre ir buscar uma catorzinha para festa, "katorzinha djanti de, abo k Cha na pera" (Catorzinha vem depressa, és tu que o Cha deseja), é para festeja porque não igual a catorzinha. Se os outros não são tão muito explícitos, a música de Chachá é declaradamente um hino pedófilo.
Como disse antes, as catorzinhas são as más da fita, são elas que "vestem tchunas para atrair homens mais velhos e nossos maridos e não querem andar com os seus colegas, porque esses não têm dinheiro para lhes dar".
Mário de Max Poss na música, "RELATÓRIO", diz "katorzinhas ta durmi ku kolegas di se pape" (as catorzinhas dormem com pessoas da idade dos seus pais). É verdade, também. Mas o problemático mesmo nessa relação são os pais que dormem com colegas das suas filhas, menores.

Há muitas músicas a falar mal das catorzinhas, muitas mesmas e ainda não ouvi (pode existir, eu é que não sei, porque nunca ouvi)... ainda não ouvi uma única a colocar-se do lado das catorzinhas e a culpar ou responsabilizar os adultos que fomentam essa prática.
O filme CLARA DE SABURA fala de uma menina que se safa na vida a dormir com pessoas. Pessoalmente, nada contra, cada um usa as habilidades que dispõe para sobreviver e estar confortável, o problema é quando retiram a alguém todas as possibilidades e só lhe resta essa. Mas o maior problema, no filme, é que Clara estava na ciclo preparatório e dormia com o professor (subentenda-se professores) para passar e depois com um ministro(?). É a realidade. Todavia, o filme sobre isso não disse nada e em vez de questionar essas figuras de poder que se aproveitavam dela, batia o tempo inteiro na Clara, deixando-a basicamente na posição daquela que corrompia os pobres homens.
Parece que não se quer ver que o problema das catorzinhas é de facto uma questão de homens adultos.
Há duas situações que concorre(ra)m para normalizar o fenómeno catorzinha na Guiné: i) a dita tradição, e ii) a pobreza.
Há duas situações que concorre(ra)m para normalizar o fenómeno catorzinha na Guiné: i) a dita tradição, e ii) a pobreza.
Sobre a primeira: Guiné-Bissau, tal como o resto do mundo, é machista e patriarcal e, como praticamente todos os países africanos que conheço, poligínica (não sou contra este último modelo, desde que as partes estejam de acordo e não por causa de uma tradição machista patriarcal e desde que a poliandria seja permitida).
Todavia, enquanto que em algumas partes do mundo, apesar de muito precariamente, as meninas são "protegidas" de abusos pela lei, essa estrutura é praticamente inexistente na Guiné. Ainda hoje há casamentos forçados, meninas, meninas mesmo, menores de idade, são obrigadas a casar com homens maduros (alguns, velhos a cair de encurbadeça), e se isso é uma prática dita não-assim-tão-normal hoje, na geração do meu pai era bastante normalizada, e eles ainda controlam as coisas, e nós aprendemos com eles e reproduzimos.
Estamos habituados a que um homem tenha muitas esposas, habituados a marcar casamentos quando se descobre que a pessoa nasceu com uma vagina (e ainda nem sequer lhe demos um nome), às vezes, o casamento é marcado com homens já com outras esposas e com netas mais velhas que a recém-nascida. Habituados a que o homem possua mulheres (em todas acepções da palavra), que quando vemos um homem a desfilar com catorzinhas, assumimos simplesmente que ele está no seu direito e que ela é que é puta.
Segunda situação: pobreza.
Numa conversa, com um alguém (ele sabe quem é), ele estava a acusar as catorzinhas de vida fácil e de falta de perspectiva (nisso concordo, e já explico), e que os homens não têm culpa porque muitas vezes são seduzidos por causa do que podem oferecer, e quando lhe perguntei se não tinha medo que a sua filha, menor, fosse seduzido por um desses gajos e o que diria, se acontecesse, ele sentiu-se ofendido e respondeu: "não, não estou, pois não há sequer essa possibilidade! eu eduquei muito bem os meus filhos e nunca lhes faltou nada, dei-lhes sempre tudo, não são ilusionados". A conversa todavia não desenvolveu porque outra pessoa chegou. Depois tive um quase eureka: "os homens aproveitam-se das catorzinhas porque sabem que elas não têm tudo, então seduzem-nas com bens materiais" É da carência. Sabemos que a carência fragiliza as afirmações e facilita o exercício de poder, por isso alimentamos a prática e mantemos o ciclo.
A Guiné é um país de machos, uma sociedade onde um homem ameaça outro homem dizendo-lhe "n na bidantau mindjer!" (vou tornar-te numa mulher!), para mostrar a sua força . Duas ideatices se refletem nesta frase: i) que um homem é superior à mulher, por isso é humilhante um homem ser reduzido a essa posição. ii) tornar alguém mulher faz-se com o pénis... bater na pessoa não bastará, será preciso violá-la? (eu vejo nisto, na verdade, um incofesso desejo homo-erótico, também nada contra, desde que não seja por violência).
O que tem essa descrição atrás a ver com a pobreza? Se calhar nada e eu só quis falar dela. Todavia, o cerne é que o macho tem que mostrar poder, não podes ter força se não tiveres muitas mulheres e nas nossas sociedades mais terra-a-terra, quanto mais ricos os homens, mais mulheres "possuem". O que se verifica no facto de mal um homem ascender a uma posição social mais endinheirável, começa a colecionar "casas dois" por tudo o que é canto.
O poder, em todas as suas formas, ainda está concentrado na mão dos homens, e um bom homem, na nossa concepção, é aquele capaz de pôr almoço e jantar em cima da mesa. Agora imagina que esse homem põe isso e ainda põe teto sobre a cabeça, roupa sobre o corpo, saldo no telemóvel, luz em casa, água canalizada no quintal, saldo no telemóvel, carro na garagem, dinheiro no bolso, saldo no telemóvel, entre outras coisas, torna-se em não um bom homem, mas num espetacular homem.
As mulheres são treinadas desde criança a fisgar um bom homem e a estar numa boa porta de casamento, porque oportunidades para as mulheres sempre foram poucas, portanto elas têm de trabalhar muito para não serem trocadas e serem Apilis (https://www.youtube.com/watch?v=-tqtYw-dKts), o que significa aceitar a submissão. Estando os homens a ocupar as posições de poder, dormir com um bem posicionado é a forma mais rápida para encontrar trabalho ou um bom cargo, conforme a ambição, é certo, desde trabalhar na presidência da república, a conseguir uma bolsa de estudos, umas notas favoráveis, a lavar a roupa de um zé-ninguém qualquer capaz de pagar o suficiente para pôr mafé em arroz branco. O corpo passa a ser uma moeda de troca. Então com tudo nas mãos dos homens, o que resta às mulheres? O que restas às catorzinhas?
A adolescência é a idade onde somos mais impressionáveis. Quem de nós já não esteve apaixonado por uma figura de autoridade que levante um braço. Eu pessoalmente, houve um ano em que só apanhava 20 em biologia porque estava apaixonado pela professora. E experiências dessas repetiram-se várias vezes. No caso das meninas, professores homens aproveitam-se disso para abusarem das suas alunas.
Adolescentes apaixonam-se por pessoas mais velhas, adolescentes são impressionáveis, e num contexto onde uma menina vê muitas à sua volta com um simples relógio que ela não pode obter, pensem no quão fácil é ela ser seduzida por um telemóvel. Elas estão na idade de experimentação e de desafiar o mundo, muitas vezes acham que é uma afirmação da sua identidade e da sua autonomia dormir com um adulto. Portanto, cabe sempre ao adulto o trabalho de não corromper e de não facilitar.
Há situações em que é a catorzinha que põe o pão na mesa, porque dorme com este ministro ou com aquele comerciante lá do bairro, ou porque vai para os hotéis com homens da idade do pai (e os hotéis não querem saber da sua idade). A primeira vez que entrei num hotel de 5 estrelas, fartei-me de mandar fotos às pessoas, agora imaginem a impressão que isso não terá numa menina que nunca dormiu num molaflex antes.
Os pais fecham os olhos porque não há alternativa, o governo já não paga há 9 meses e estão a viver de mon-di-timba, o pai vive com vergonha, passa o tempo a cobar-mal à filha para levantar a cara à frente dos vizinhos, mas não deixa de exigir o peito de frango na sua tigela, embora desde há muito tempo que não dá o dinheiro de mafé e o pouco dinheiro que desenrasca é para a sua casa-dois ou para a catorzinha que ele por sua vez quer impressionar. A mãe também finge entre saber e não saber, mas lá aconselha quando estão sozinhas "faz um jeito para apanhares barriga, porque esse kriston-matchu tem dinheiro".
Não há emprego para jovens na Guiné, os gajos passam tempo nas bancadas, e elas, cuidadoras da casa e da família desde mais novas, arranjam alternativas para alimentar os irmãos, futuros maaaaaachos, sentados nas bancadas a falar mal das catorzinhas e a moldarem-se no machismo. Essa falta de oportunidades, essa falta de perspetiva é que pesa sobre as meninas e que lhes molda o caminho. Se mesmo mulheres formadas e super-inteligentes precisam de dormir com presidentes e presidentes de assembleias e ministros e deputados e diretores e ministros e professores e padres e ministros e cobradores de toca-toca e/ou qualquer um que tenha algum poder, e isso é tão normal, qual é a perspetiva para uma catorzinha?
Recentemente alguém me falou que houve em Bissau, numa discoteca (não vou dizer o nome, porque má publicidade é publicidade), um evento chamado de algo como "festa das catorzinhas arrombadas" (aposto que foi um gajo nos seus quarenta ou cinquenta a organizar aquilo), isto é o que eu disse atrás, uma celebração da pedofilia e da impunidade.
Queria ver os governantes a tomar uma posição sobre esta questão, mas sendo eles os maiores financiadores da prática, não tenho fé nisso. Portanto, temos de ser nós a tomar atitude, a discutir cada vez mais o assunto, a chamar pedófilo aos pedófilos e a largar o pé das catorzinhas. Não me venham pra cá com merdas de tradição.

5 de maio de 2021

A MÚSICA TAMBÉM PODE SER PROBLEMA

Buba. 2019. 1 de Maio. Praia. Um grupo de jovens sentados, a beber e a conversar, outros a dançar. De repente a música "larga nha kodjon" e os que estavam sentados, rapazes e raparigas, gritaram todos: uaaaaaaaa, e lá se meteram a dançar e a cantar com a música, todos, até crianças.

Bissau. 2021. Abril. Cuntum. Tocava música lá fora. De repente: "Bo rastam, bo lebam..." e ouvi: uaaaaaaaa, e toda a gente a cantar e, suponho, a dançar. A música é fixe, dou-lhe isso, mas a letra é horrível. Claramente escrito por um homem.

Há meses que tenho visto a campanha "Mindjer i ka Tambur" a tentar sensibilizar as pessoas para assuntos de violência contra as mulheres. Lidamos constantemente com violências do tipo que a música invoca, onde mulheres são arrastadas e a suas perucas lhes são retiradas e ela são violadas, tratadas como carne e não pessoas. Essa música reforça a prática.

Se fosse uma mulher a escrever e a cantar a música... bem, continuaria a ser problemático, mas menos... sabem?, a cada uma a sua preferência sexual.

É assim, já me disseram, é só uma música, é brincadeira. Não, não é brincadeira. Não digo que a intenção consciente do autor seja apelar à violação, mas é isso que a música faz.

As piadas, os estereótipos, entre outros ditos problemáticos reforçam as ideias, porque nunca pensamos que são perigosos até que se tornam. É como um bebé que quando insulta os outros nos rimos da sua inocência, até que nos insulta a nós e já não achamos graça e depois notamos que ele ao crescer normalizou o insulto e depois fica difícil corrigi-lo. Kana seku...

Não brinquemos com a violência, ou com coisas que destroem a vida de outras pessoas, ou com coisas que diariamente causam vítimas.

WJ numa música, "Nha Carta", romantiza a violência, diz que bate na sua fofa, dá-lhe rasteiradas e deixa-a fungulida. Isso não é amor, é só violência e sentimento de posse.

Maio Copé canta: "kusta n' bafa mindjer, ma n' ten di toma noiba". Não, se bafares uma mulher é para seres preso, não é para casares com a pessoa que violaste. Ahdeuss! Então é assim? Isso reduz a mulher a um objeto conquistável enfiando-se nele o pénis.

Vi mulheres a dançar e a cantar "bo rastam, bo lebam", e pensei se não deviam ficar preocupadas, falei com uma amiga e ela respondeu: "não é sobre mim". É verdade, não era sobre ela.

Lembro-me de uma música de Tino Trimó que dizia "si dinheru sta ba na po, mindjeris na kasa ku santchu", ideia que é ainda veiculada na Guiné. Até o meu irmão mais novo de 20 anos que não tope nem "koko na kadera" (não tenho problemas com palavrões), também diz que as raparigas de Bissau só querem dinheiro. E ele tem muitas namoradas e nenhum dinheiro. Se as mulheres só quisessem dinheiro, mais de 80% dos guineenses seriam virgens. E os jovens então, uiiiiiiii... Na altura dessa música do Tino, lembro-me de uma tia responder, quando alguém perguntou por que as mulheres gostavam do Tino se ele falava mal delas: "Ele canta bem [e canta e como!] e é sobre outras mulheres, eu não sou assim".

É sempre sobre outras mulheres, mas quando o estereótipo pega, nenhuma mulher fica de fora, e quando o mal se espalha, todas as mulheres sofrem, e com elas a sociedade.

Ussumane Grifom escreveu um artigo sobre este tema de músicas problemáticas e relacionou a causa com a falta da educação formal (escolas). Eis a coisa, precisamos de nos reeducarmos formal e informalmente, e discutirmos cada vez mais estes assuntos.

 


7 de maio de 2018

AJOELHOU, VAI TER QUE REZAR!


Mas que mer… já pensaram que alguém pode ter-se ajoelhado apenas porque pode, ou simplesmente para meditar… ou melhor, já pensaram que ELA até poderia ter querido rezar, mas que também tem direito de mudar de ideias?

Há poucos dias, no comboio, um homem guineense a falar com uma mulher dizia: “larguei o meu bode, que cada um segure a sua cabra”. Eu pensei, um tanto chocado: “Bolas!, isto ainda se diz?”, mas chocado mesmo fiquei quando a mulher respondeu positivamente àquela besteira. 

Que os homens guineenses, com alguma idade, principalmente, sejam idiotas machistas não me faz espécie, afinal viemos de uma cultura de poligamia onde a mulher costumava ser negociada como mercadoria, e ainda continua a ser (e eu nem sou contra a poligamia, desde que a mulher possa também se casar com tantos quantos quiser). O maior problema foi ouvir a mulher a defender essa posição, essa mulher que um dia, na conceção do tal homem, já foi também cabra.

Esta mentalidade machista, essas frases idiotas, que aparecem nas músicas populares e tidas como engraçadas, justificam, perpetuam e incentivam as violações que diariamente ocorrem, não só em Bissau, mas em toda a parte do mundo.

Se uma violação acontecer na rua, começa-se por querer saber se foi “de noite” (o que ela estava a fazer na rua a essa hora? por que tinha de ir à discoteca? estava a pedi-la.), se ela tinha vestido um “tchuna” ou “toma-nha-numur” (vestido dessa forma! estava a pedi-la.), se ela tinha muitos namorados ou nenhum (já estava acostumada com a coisa. estava a pedi-la.); se a violação acontecer no quarto de um rapaz (o que ela foi buscar no quarto de rapaz? estava a pedi-la.). 

A rapariga está sempre a pedir para ser violada ou porque quando dança rebola demasiado ou porque é muito atrevidinha ou porque é “catorzinha” (disso eu falo num outro artigo). Os homens… não, não pensamos, afinal o mundo gira à volta do nosso pénis.

Cresci a ouvir histórias de rapazes que bicharam (de fazer bicha) uma rapariga, e eram contadas com os rapazes no lugar de heróis e contadas de tal maneira que eu também desejava estar nessa bicha, levou-me bastante tempo a perceber que eram nada mais que violações e não um jogo que "os meninos machos fazem".

Os rapazes são ensinados de que as raparigas são umas fingidas, mesmo quando querem, dizem: “Não!”. Por isso, não ligam sequer para os "nãos". Algumas raparigas também são ensinadas que têm de fingir e dizer “não”, mesmo quando querem, o que por vezes atrapalha completamente a coisa. Assusta-me ouvir homens, ao contar as suas conquistas, a dizer coisas como: “ah, agora que me fizeste despir é que vais dizer ‘não’”, ou seja, uma vez que a rapariga manifeste algum interesse nele, uma vez que ela entre no seu quarto, não há volta a dar, “ela tem de rezar”. 

Mas já pensaram que quando nos vê despidos pode ter-lhe passado todo o brio? Ou que a nossa atrapalhação nos preliminares pode matar o desejo? Ou que ela de repente se lembrou de alguma coisa que lhe tenha cortado o desejo? 

Não, porque pensamos que os nossos desejos devem ser satisfeitos a todo o custo. Mas não sabem que existem óleos de todo o tipo e feitio, sabão, sabonete, ou pensam que a saliva é apenas para ajudar a engolir… cuspam na palma da mão, caramba.

E quando queremos não importa que ela diga não, mas... não é não! Temos de aprender a viver com isso. Quando ela diz “não”, é para ser levado a sério como um “não”.

Muitas vezes vamos a uma entrevista de emprego, tudo corre bem e no dia seguinte dizem-nos que encontraram candidato melhor ou que não éramos o que pretendiam, o que fazemos? forçamo-nos na empresa porque nos tinham entrevistado antes? Os políticos prometem-nos mundos e fundos e depois dizem "não" (aliás, nem dizem, só nos viram as costas). Mas se sabemos aceitar esses tipos de “não”,  por que não o “não” de uma mulher?