10 de maio de 2020

COMO ESCREVER EM KRIOL (PARTE 1)



Comecei este artigo a pensar: será que é coerente fazer um texto sobre a escrita de kriol em português, quando quem quero alcançar são os escreventes de kriol? Não seria mais lógico fazer o texto em kriol? Isso vou discutir depois, para já vamos ao que interessa.

Ver pessoas a escrever kriol cada vez mais pelas redes sociais e “messengers” deixa-me muito contente, porque estamos a abraçá-lo mais, e a discussão sobre a oficialização de kriol que teima em aparecer, então… mais contente ainda me deixa.

Entretanto, apesar de se escrever cada vez mais kriol, há uma série de “erros” que continuam a aparecer nessas escritas e vou elencar alguns de uma forma simplificada, mas que possa permitir posteriormente discussões mais profundas.



     1. FALTA DE COERÊNCIA ORTOGRÁFICA

É certo que não temos um sistema ortográfico normalizado, embora existam propostas, por isso cada um escreve com o sistema que lhe dá mais jeito, alguns utilizam o sistema português para o efeito outros sei lá qual. Todavia, não importa o sistema que se utilize, é preciso que haja coerência nos textos, que se “uniformize” a escrita dentro do sistema escolhido. Por exemplo:

1.A: “C” e “K”

Alguns escrevem, usando as letras “C” e “K” indiscriminadamente, uma vez escrevem “kana” outras, “cama”, umas “baka” outas “faka”. É certo que as duas letras fazem o som de “K” neste contexto, mas é bastante aleatório escrever com qualquer uma delas.

Sugestão: escolhe uma letra e fica por ela, ou escreve tudo com “K” ou “C”, mas não andes a djugutar de uma para outra aleatoriamente.

1.B: “S”, “Ç” e “SS”

Eu confesso que me estranha a utilização do “Ç” em kriol (mas isso sou eu). Na verdade, há poucas línguas no mundo que o usam e em algumas delas tem som diferente do “S”. E mesmo em português eu acho dispensável, o “S” dobrado, faria muito bem o “servisso" (mas isso é só uma opinião). Enfim… Também não me parece muito coerente escrever-se “bedjiÇa” e logo a seguir “garandeSa”, “malandriSa” ou “mufineSSa”, porque se se considerar que os sufixos se escrevem “EÇA e IÇA” eles não variam, portanto, é aconselhável (para os que usam o Ç) escrever tudo com “Ç” e evitar as variações (os sistemas publicamente propostos para kriol utilizam todos "S" simples, e nunca "Ç"). “RaÇa”, “raSSa” e “raSa" no mesmo texto para significar a mesma coisa é horrível.

Outra variação aleatória é entre “S” e “SS”. Umas vezes “kaSa”, aparecer ao lado de “mASSa”, “kuscuS” aparece ao lado de “djambakuSS”.

Sugestão: escolhe escrever todos os sons de “S” entre vogais com “SS”, ou então com “S” apenas. E se escolheres o “S” simples para representar o som de “S” entre vogais, também não o use para representar o som de “Z”, como em “atraso” ou “ranhoso”.

1.C: “R” E “RR”

Escrever “nha teRa sta na gueRRa”, ou “gaRan di mancaRRa” não faz muito sentido, principalmente porque nós não dizemos o “R” dobrado em kriol. “karu karu - caRRo caRo” “sera - seRRa” (di karfinteru) ou “sera - ceRa” (di bagera), é a mesma “sera” dizemos os dois da mesma forma, por que não escrever da mesma forma?

Sugestãoesquece o “RR”, escreve tudo com o “R”, assim vais errar menos quando até palavras que em português se escreve com “R” simples escreves com “RR”.

1.D: “U” e “O”

Eis outras letras que são usadas indiscriminadamente, principalmente no fim da palavra. “FanadO”, “bonitU”, “faladU”, “sintadO”, “mortU”, “rostU”, “komboiU”, e por aí fora.

Sugestão: escolhe acabar tudo com “O” ou com “U”, mas não fiques a saltar injustificadamente entre um e outro. E se escolheres acabar tudo com "O" então põe acento em "Ó" nas palavras que acabam com O aberto, como em "koko" ou "da bolo", para não ser lido como em português "coco" ou "dar bolo"

1.E: “CH” e “X”

Também escrever “chatu” e logo depois “xapa” parece uma escolha não consciente.

Sugestão: opta pelo “x” ou pelo “ch”, e se optares pelo “X”, proponho que não o uses como “Z” em palavras como “ixami”, porque se depois escreveres “bruta di mexa”, fica difícil perceber se é “bruta di mecha” ou “bruta di mesa”… eu sei, estou a brincar, há sempre o contexto para ajudar, mas vamos tentar mais coerência.

1.F: “N” e “ N’ ”

As propostas ortográficas que foram publicadas até agora usam o “ N’ “ para dizer “EU”, por isso, em palavras com “ntindi”, “nventa” “ntrumpi”, etc, penso que não é preciso escrever o “ N’ “ com apóstrofo, pois sendo o “ N’ “  EU, então, “n’tindi” seria “eu tendi” não “eu entendi”, e mais fica quando se escreve “bu n’tindi”, pois assim fica “tu eu tendi”. Sim, o contexto, sim… mas é preciso acertar a ortografia e facilitar o trabalho a quem lê. “N’ ntindi” tem o sujeito “N’” e o verbo “ntindi”.

Sugestão: para as palavras “ntindi”, “ntrumpi” “ntera”, etc, penso que fica melhor não usar o apóstrofo depois do N (N’). Há quem não separe o “ N’ ”, sujeito, do verbo, escrevendo, por exemplo, “n’kunsi”, eu também não o fazia até há algum tempo e não me parece que isso seja um problema desde que haja coerência, mas para palavras como “N’NTINDI” não separar o sujeito do verbo torna a coisa um bocado mais complicada, mas se o separarmos ali, então sugiro que o separemos nos restantes.

1.G.: “N’A” e “NGHA”

Para as palavras como “N’ala”, “n’oroto”, alguns escrevem “nghala”, “nghoroto”, ou podia dizer aqui o contrário, para palavras como “nghala”, “nghoroto”, alguns escrevem “n’ala”, “n’oroto”, eu escrevo desta última forma. 

Sugestão: Não importa a forma que escolheres para escrevê-la, o que é preciso é que haja a famosa coerência. Para os que escrevem “N’ala”, vê-se aqui a necessidade de separar o sujeito do verbo, para que não se pense que a palavra é uma frase. 

Para os que escrevem “Nghala”, quando chegar a altura de escrever “N’ alinha”, também devem separar o sujeito do verbo, porque senão o sistema usado para representa o som “ N’ ” fica a parecer aleatório, pois “N’ghalinha” seria mais coerente dentro desse sistema (embora seja possível construir uma regra à parte para conjugações neste caso).




Vou ficar por aqui, por enquanto, depois mostro outros exemplos sobre os problemas em escrever kriol. Enquanto isso, podes dar uma vista de olhos nisto: SISTEMAS DE ESCRITA DE KRIOL.
http://montedepalavras.blogspot.com/2016/03/as-licoes-do-guineense-kriol-introducao.html


25 de março de 2020

POLITÍCA, CORONAVÍRUS E OS SEIS-QUARTOS NA GUINÉ-BISSSAU

O nosso "presidente" (acho que a esta altura já o posso chamar presidente sem aspas), Umaro Sissocó Embaló, publicou no seu twitter, em francês, que já temos dois casos confirmados na Guiné-Bissau, e acho que não há acontecimento mais oportuno do que este para ele consolidar o poder.

Nos últimos dias, ninguém quis saber se a presidência ou o governo atual da Guiné-Bissau é ilegal ou não, todos estão preocupados é com salvar a sua própria pele e como sempre preferimos deixar à responsabilidade "coerciva" dos outros o que podíamos simplesmente fazer nós mesmos, pobres crianças, clamamos por um governo e pela autoridade e por mão forte, pedimos até por estado de emergência.

Depois desta crise, que ninguém sabe até quando vai durar, quero ver quem vai se atrever a chamar ao nosso presidente de ilegal, quando neste momento todos estão a jogar a responsabilidade nas suas mãos. Domingos Simão Pereira tinha vindo dizer que as medidas do governo do Sissocó não faziam sentido e que o "governo" de Aristides iria fazer medidas próprias, porque só ele sabe lidar com crises desconhecidas; Aristides a dizer para não mandarem "ajuda endinheirada" para o país, porque os gajos no poder agora iriam desviá-lo... pelamordideus, Aristides, devias deixar outros falarem isso.

Não sei o que se passa na Guiné-Bissau, não sei se há mesmo casos confirmados ou não (não me admiraria nada se mentissem nesse sentido), mas sei que existe um oportunismo político nesta crise do Corona que nenhum poder político, poder económico ou poder militar deixa passar em vão. E nós não somos menos maniqueístas.

À população, apelo, tenham todos os cuidados necessários, mas não se esqueçam a quantas "catástrofes locais" nós sobrevivemos e temos sobrevivido todos os dias, paludismo, cólera, influência, zyka, tripanossomíase, sida, e isto por causa da solidariedade social, porque sabemos todos como o nosso sistema de saúde de saúde só tem o nome e não dá respostas nenhumas a nada.

Se nesta crise nos esquecermos da solidariedade, aí, sim perderemos a "guinendadi" que temos andado a perder com as cíclicas crises políticas e com a divisão de "idolatria política" que se instalou no país.

Lembro-me de há umas duas semanas andarem aqui a partilhar um texto de Miguel de Barros, onde ele dizia que nós temos experiências em lidar com "catástrofes de contágio" (estou a parafrasear). É verdade, mas por que de repente mudamos completamente e esquecemos essa experiência acumulada e andamos todos à espera de indicações europeias para criarmos medidas de contenção? Sim, é verdade que é um vírus que não conhecemos muito bem, mas não deixa de ser um vírus. Mesmo aqui as informações oficiais têm mudado acerca do mesmo.

O "distanciamento social" pode funcionar na Europa, porque têm infraestruturas adequadas para manter as pessoas isoladas, porque têm dinheiro para isso (embora muitas famílias vão sair disto em prantos por falta de meios de subsistência), mas nós não temos essas possibilidades. Quantas pessoas podem fazer teletrabalho na Guiné-Bissau? Quantos serviços de entrega ao domicílio existem? Quantas famílias tem possibilidade de comprar e armazenar provisões em sua casa? O preço de tudo disparou, porque outra vez estamos a esquecer da solidariedade. Já tinha acontecido na Guerra 7 de Junho, os preços dos transportes quadruplicaram porque havia população aflita a necessitar sair de Bissau, mas essa gente que aumentou o preço continuou mais rico? Duvido imenso. Outros, jovens principalmente, em desespero (ou por desporto) começaram a assaltar pessoas e a formar quadrilhas, fenómenos que se têm intensificado cada vez mais. Acham que com o pânico que estão a criar, quando o desespero atingir as pessoas, vai ser diferente? Não é como se já não tivéssemos exemplos.

Apelo, não vamos esquecer que isto vai passar e nós vamos ficar, por isso, sejamos solidários.

Naquelas palavras de Miguel de Barros devíamos perceber que temos de criar as nossas orientações para enfrentar o problema de acordo com a nossa realidade e as nossas limitações. Vejo gente a tirar fotos em suas casas enormes e quintal grande, dentro dos seus carros ou dos seus gabinetes, a dizer que o governo deve impor "estado de emergência" e obrigar as pessoas a ficar em casa, que o governo deve cancelar os transportes públicos (isso é fácil dizer quando temos o nosso carro particular). Entretanto, há famílias que só têm uma refeição por dia, e a qualidade da mesma depende de quanto limões (por exemplo) conseguiram vender nesse mesmo dia na feira, têm de ir às oito de manhã ao mercado para poder comer às quatro da tarde. Que respostas estão a ser criadas para essas famílias?


SEIS-QUARTOS, UM PROBLEMA

É fácil de falar de isolamento em casa, quando tenho uma casa grande, numa área de 500 m2 (25x20), quando os meus filhos podem brincar no quintal sem terem contacto com os filhos dos outros, mas todos sabemos que a maioria das pessoas, principalmente em Bissau, vive em SEIS-QUARTOS. E muitas vezes, em cada um desses quartos (de entre 10 a 12 m2) vive uma família de quatro a seis pessoas. Sabemos que para muita gente nessa condição, a casa é simplesmente um lugar para se recolher à noite para dormir, e um lugar de deixar as coisas; como é que conseguimos pedir com tanto afinco uma medida de isolamento quanto temos boa parte de famílias nessa condição?

Pessoalmente, não conheço nenhum SEIS-QUARTOS coberto com telha, a maioria tem cobertura de zinco, e má ventilação, o que faz com que a casa fique sobreaquecida e ninguém queira ficar dentro na parte da manhã (e mesmo à noite, ficamos com o dilema de ir enfrentar os mosquitos lá fora ou submeter ao calor cá dentro). Isto é um dos motivos porque os "bas-di-mangus" são muito apetecíveis e as bancadas (alinhando o calor com a situação política e económica do país) proliferam.

O pior é que muitas vezes, um conjunto de até seis casas SEIS-QUARTOS tem de partilhar o mesmo "cerco" (latrina), se fizermos uma média de apenas 2 pessoas em casa quarto, mesmo assim serão 72 pessoas a partilhar o mesmo cerco.

E vamos ainda mais longe, e pensamos no acesso à água, pela pessos que vivem nos SEIS-QUARTOS. Deve haver muito poucos SEIS-QUARTOS com água potável canalizada, pessoalmente só conheço duas, e a água é exterior e serve aos outros vizinho também (eis a solidariedade). A maioria, quando não tem uma torneira pública no bairro, onde a boa parte da população do mesmo vai buscar água, tem de recorrer ao poço para ter água, e então em ambos os casos fazem as filas que vemos de manhã e a tarde.

E para cúmulo, a maior parte daquelas famílias a que eu referi atrás, que só comem uma vez por dia, vive em SEIS-QUARTOS.


OLHAR O CONTEXTO

ISOLAMENTO SOCIAL não é a solução para a Guiné-Bissau, não podemos nos dar ao luxo desse tipo de medidas, sem matar e excluir a maior parte da população. Pelamordideus, estamos a falar de um país onde, segundo o Banco Mundial em 2015, 80% das pessoas vive ABAIXO (ABAIXO, ABAIXO, tomem atenção) do limiar da pobreza. Mesmo aqui, o isolamento (ou distanciamento social) condena famílias pobres, porque os ricos, quando se vêm a braços com o Corona vão para clínicas privadas, e os pobres que não podem ser recebidos no hospital, têm de ficar confinados com as próprias famílias e contaminá-las lá, sem dizer que os pobres são os que têm de sair diariamente para ir trabalhar em empregos de merda e mal pagos para depois trazer o risco para as próprias casas.

Mas voltemos à Guiné-Bissau. Eu li uma notícia de que não há forma de controlar as fronteiras, que nem uma bicicleta os polícias tinham, e perguntei-me: A sério, mas o que se passa connosco? Na Europa as pessoas preocupadas com o papel higiénico e na Guiné-Bissau, preocupadas com patrulhar fronteiras, fronteiras que durante o tempo todos estão basicamente escancaradas (como deviam sempre estar). Esqueçam as fronteiras, as terrestres pelos menos, isso nunca conseguimos controlar, o risco para a Guiné vem mais de "fronteiras aéreas" do que as terrestres, concentrem-se nas populações e nas formas de suportar as pessoas sem reprimi-las.

Pensemos em alternativas para o problema, pensemos localmente a ajamos localmente, não façamos da crise uma arma política, embora saiba que isso é mais fácil de dizer do que fazer.

Reúnam-se com pessoas que já trabalharam em diversas "crises de saúde" no país, e criem alternativas para esta, com as informações disponíveis. Não sejamos radicais, paremos, por favor, de fazer COCÓ (cortar e colar) as directrizes europeus que não funcionam na nossa sociedade, principalmente porque não temos assim tanto papel higiénico.

Apelo, não vamos esquecer que isto vai passar e nós vamos ficar, por isso, sejamos solidários.

3 de novembro de 2019

KILA I KE















(escrevi isto no tempo de Kumba Yala, mas ainda serve)

Pape, kila i ke?
Mame, kila i ke?
Fidjus, netus,
Ermons kila i ke?

Djintis tchiu na kasa,
manga di kusa na pasa,
Utrus pega garasa
pabia utrus na masa brasa.
Esis so bom rasa,
kilas so karkasa,
Kil utrus na mara tarpasa
pa toma di kasa pa leba pa prasa.

Fidjus pega kabesa
pabia pape sta ku dudesa,
I panha fidju i serka di mesa,
na badjudesa di faimadesa.
Fidju tene duensa,
ma pape nim bu ka na pensa...
Mbe pape, larga turpesa,
djubi fidju tem pasensa.

Kredi o, pape,
fidjus i ka karnel,
Bu panha fidjus
bu mara na padja,
Bu na kema bu ninhu,
grandi kanadja,
Bu na foga na kuspinhu
son na djitu di nega tarbadja.

Bu na kulka fidjus
na Bande dja,
Ma tira mininus
na bandeja.
Bu pui binhu na dinginhu,
kabesa dismantcha,
Bu fidjus na bindidu,
abo bu dismadja.



Mame, o, ali foronta,
djubi fidju ka bu pera,
Kokoko, tempu na konta,
ma bu ntola na kansera.
Bu nega prasa, bu nega ponta,
bu fika so na nbera,
Tempu na pasa, ma bu tonta,
bu na papia inda di gera.

Ko o ko, mame,
djubi son kau di pui pe,
Djubi son de, bu na nguli son de,
bu sapa mon de… anta i ke?
Fidju misti mel,
ma bu na dal son fel.
Mame tchoma pape,
sinta ku el, papia ku el.

Nim bu ka na sinti
kuma kampu sta nam kinti,
Bu pega inda na brinka ku djintis,
bu na da elis dur di dinti.
Netus boka disminti
na kasabi di tenta ntindi
Kuma se kasa ki bu na bindi,
se futuru ki bu na pirdinti.

Fidjus kotchotchidus,
nhongolidus, ual-ualidus,
Na n’uli midju di vizinhus,
ku sintidu fungulidu.
Ermons misti son bua,
pabia e kansa dja pupa,
Utrus firma na rua
e na punta: “nunde tugas?”

22 de setembro de 2019

ALI SOL MANSI MAS

Ali sol mansi mas,
ma n'ka na sinti bem,
nha sunhu di bida rabida i fika
na dinheru di mafe.

Ali sol mansi mas,
ma n'ka osa firma de,
pabia fadiga inda na castiga,
i nheme tudu nha fe.


N'ta odja nha djintis na kuri-kuri son, 
diskansu ka tem na se korson;
Sol ta korda toki sol ta durmi mas, 
e na buska kil um son di kume son.

Ku bariga intchidu di kudadi garandi, 
pabia bianda ka tem pa nha stangu,
Kuntangu i uru dianti di nha udju, 
Barudju di fomi tomam atenson.



Nha vida na pasam dianti di rustu,
i na skua ma n'ka pudi dja mas nota,
kudadis mas tchiu di ki tchuba di agustu,
di diskansu n'ta pidi li so um gota.

N' na pidi dja tambi pa otcha kambansa
pabia speransa ka ta mata fomi,
n'ka misti pa nha fidjus bim panha es ardansa
ki sibi so kansa vida di um omi.


Ali sol mansi mas,
ma n'ka na sinti bem,
nha sunhu di bida rabida i fika
na dinheru di mafe.

Ali sol mansi mas,
ma n'ka osa firma de,
pabia fadiga inda na castiga,
i nheme tudu nha fe.


Ku kudadi na bariga, ku bianda na kabesa,
kontam de kuma ki n'pudi pensa?,
si kontra es vida i suma mufunesa,
i ka fomi, i ka tchur, tambi i ka duensa.

Bu falam pa n'muda sintidu,
pa n'vota diritu, pa n'sai pa n’obidu,
Ma kuma si tempu intidu
N'tem ki otcha djitu pa n'ka sta kotchotchidu?

Sintidu ta kurtu si saku ka firma,
Pabia bu gurdu ka bu tchia nha magresa.
Si n'pega ba na furtu pa vida ka ntiba,
Na mundu nim um purtu ka na laba es kombersa.

N'misti tambi muda sintidu
pa n'vota diritu, pa nkunsa n’obidu,
ma mostram kaminhu, larga boka sinhu,
Si bu na tchulim duensa, mostram tam mesinhu.

Ali sol mansi mas,
sol mansi mas, 
Ali sol mansi.

4 de agosto de 2019

CARA EUROPA (da restituição)


Cara Europa,


Escrevo-te, daqui, da Guiné-Bissau, com a missão de pôr na tua visão a noção de que temos a perceção da verdadeira intenção das tuas ações.

Europa, escrevo-te esta carta, como um filho da África, em nome da África, mas sei que é uma tática pouco prática, e é uma pândega esta audácia de eu, na minha pobre casca, falar em nome de toda a África, quando nem da minha casa eu sou o representante mais patente, pelo que muito menos posso ser o representante de todo um continente. Por isso, digo-te assim de fronte, só falo em meu próprio nome, mas não penses que é inconsequente este meu atrevimento. 

Europa, queria começar por enviar-te cumprimentos, mas vais ter de perdoar-me, porque neste momento estou em tormentos cujo comprimento é imenso; tormentos tão velhos como este lamento que me risca o peito e me deixa neste leito, desfeito, em trejeito de dores lancinantes que enlaçam as partes que lançam ares salutares nestes esgares que mostram os meus desaires. Pois tu tudo fazes para que tu e a África não sejam pares. Nunca serão comadres, Europa, enquanto desejares que a África continue à tua sombra… sabes…

Ahhhhh… puta que pariu, Europa. Não me fodas. Eu, África, sou muito velha, mas falas de mim como uma tola de uma cachopa, empurrando-me para a popa, enquanto tomas a proa. Mordes-e-assopras e pensas que ninguém te topa? Primeiro apregoas que eu não tenho história, e que só entrei nesta roda, porque tu organizaste a boda toda. Porra!, já me deixaste sem roupa, depenaste-me vezes sem conta e agora apostas nesta moda de mandar bocas de que me vais restituir as coisas que me tinhas tirado à força com a tua tropa odiosa para a qual só o lucro conta. E falas agora como se tivesses muita honra e como se fosses uma filantropa que me está a fazer um favor? Ó, por favor, tenha dó, Europa, tenho cara de tola? Não sou nenhuma tonta.

Primeiro dizes que eu não tenho história, agora queres ser a mostradora da minha glória? E eu, eu não tenho voz própria para determinar as minhas escolhas, terei de seguir sempre as notas das tuas folhas? Por que está tão interessada em devolver-me as estátuas? É porque já não tens mais espaços no armazém. Pois bem…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Diz-me, caramba, por que estás tão interessa em devolver-me as estátuas, pedaços de pedra e de madeira… mas do ouro, da prata, do marfim, dos diamantes, do silício e da riqueza que custa o suplício do meu povo que vive em sacrifício para que possas manter vivo o teu vício de consumo em nome de bom serviço, sobre isso é só silêncio…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Falei do ouro, falei da prata, mais ainda não falei dos escravos e das pessoas extraviadas das suas terras e jogadas de repente em contextos alienígenas e de alienação completa, sem aliados e sem alianças, com crises de identidade que ainda hoje de forma indigesta se manifestam nos seus descendentes. E, tu, Europa, que te arrogas e te vestes da defensora dos direitos humanos… humanos, desculpa, queria dizer brancos… como cura da escravatura, indemnizaste os brancos, donos de escravos, por perderem o gado humano africano trazido do outro lado do oceano, pois tu estavas preocupada com reparos justificados. Mas quando te falam de reparos aos africanos feitos escravos, aí, assumes a postura de injustiçada e falas que não deves ser cobrada pelos erros do passado. Sim, é claro, então por que dizes que queres devolver-me as estátuas para pagar pelo erro do passado? Queres pagar pelos erros ou apagar os erros?

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa. Euroooopa! Queres tanto devolver-me as estátuas, tu, ó generosa senhora, porque estás tão preocupada em descolonizar a mente, em descolonizar o conhecimento, em descolonizar a cultura, em descolonizar a puta-que-pariu… hein é isso? Mais fácil colonizas Marte do que descolonizas a mente, porque um colonizador não descoloniza, um colonizador recoloniza, um colonizador se reorganiza para se manter sempre em cima. Quando és tu que desenhas as linhas da descolonização, jogando com maestria a tua filosofia sobre o mundo que te rodeia, não vais mudar as tuas ideias, só vais cobri-las com novas teias, mas elas no fundo continuarão feias, pois a maquilhagem não muda a essência. A qualquer ideia não-europeia, tu colocas um sufixo, por isso, enquanto falas de afro-literatura, etno-literatura ou de etno-filosofias não como literaturas ou filosofias, mas como categorias alternativas, não importa o que digas, vai ser uma coisa pífia, pois não queres descolonizar uma pívia. O teu discurso é sensacional, mas a prática… meh… só mantém tudo como está.

Que são minhas, as estátuas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa, se quiseres devolver-me as minhas estátuas, então larga essa atitude fátua, sua crápula, pára com as fábulas e vamos falar da prática.

Estás preocupada com o meu bem-estar? Ai, que boa, és tão fixe, Europa. És tão boa, tão boa que me afogas com as tuas instituições e as tuas ONGs que só fazem cá a manutenção da pobreza e dos problemas. Dizes que mandas para cá dinheiro, para salvar o povo inteiro, mas não tens uma cheta para pagar uma merda de um bote para retirar do teu mar pessoas a afogar, mas tens 1001 barcos a pescar o meu mar. E pior de tudo, ainda vês se encalabouças aqueles que tiveram a força e a coragem de usar o privilégio e a vantagem para serem humanos de verdade para ajudarem humanos necessitados.

Europa, Europa, Europa. Tu vendes as tuas armas no meu quintal, incitas guerras para me poderes explorar, pois a minha instabilidade é fundamental para que possas continuar a dar cartas e a falar mal de mim, como se eu fosse um débil mental, e achas que o me preocupa são as porras das estátuas?

Que são minhas, são minha. Mas já que daqui as tiraste, e por anos com elas ficaste, considera-as arrendada. Vai ver aquelas que tens às mostras nas tuas montras e faz as contas e manda para cá o dinheiro.

Hey, espera!, se prometeres não mais mandar para cá as tuas as tuas armas, as tuas doenças, o teu desenvolvimento sustentável e o teu capitalismo selvagem, que não me trazem nenhumas vantagens, eu juro-te que te ofereço as todas as estátuas do mundo.

20 de maio de 2019

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. XII

A HUMANIDADE É SIMPLES

A humanidade é tão complicada que acaba por ser simples, ou seja, por ter uma definição simples, ou simplista, resumida em: a humanidade é complicada. Entretanto, filósofos e promotores de autoajuda têm andado a tentar convencer-nos de que não, que a humanidade não é complicada, que nós é que assim a fazemos. Daí põe-se a questão: se nós não somos complicados como conseguimos complicar? Não consigo perceber como é que o simples consegue complicar, da mesma maneira que me faz espécie que Deus, um ente perfeito, tenha criado a imperfeição.

Se o homem fosse simples não teria complicado o seu viver. Tentamos fugir da complicação criando sistemas binários ou dualistas, resumimos tudo em ou bem ou mal, ou preto ou branco, ou ser ou não-ser, ou 1 ou 0, mas todos sabemos que tirando os computadores e as pilhas, nada funciona com dois polos apenas, até mesmo os bebés sabem que por vezes têm de deixar de chorar e de ceder aos caprichos dos pais.

Eu entendo como um insulto à natureza humana chamá-la de simples quando na verdade ela não é, e quando quanto mais complicada mais o homem gosta. Senão vejamos, aplaudimos mais os discursos que não entendemos. “Oh, ele falou tão bem e tão bonito… mas não entendi nada”. Gostamos mais de poemas complicados e com vocábulos que não conhecemos, despendemos tempo a observar e a elogiar um quadro que não nos diz nada, simplesmente porque desconfiamos que haja sempre uma montanha de significados obscuros ou simples quaisquer escondidos atrás dessas coisas que não entendemos, e temos o receio de dizer gritar simplesmente: o rei vai nu! Pois! Vai! Mas e não estiver nu? Se todos o vêm vestido quem somos nós para dizermos que vai nu? Eu vejo-o nu, mas será essa a verdade? Pois! Não se sabe, porque na verdade… na verdade a verdade é verdadeiramente variável, tanto pode ser como não ser sem deixar de ser verdadeira. Eu explico: pense-se nos conceitos da lógica aristotélica e na álgebra booleana dentro da tigela da teoria da relatividade. A observação depende do ponto de vista do observador e o simples facto de haver um observador altera o resultado da observação. Não sei quem disse isso, mas acredito nele. Sendo assim, pode-se dizer que existe o Ser, o Não-ser, o Ser-que-não-é e o Não-ser-que-é, sendo que o Ser-que-é é o Ser, e o Não-ser-que-não-é é, neste caso, em vez de Ser, um reforço à negação do Não-ser. Mas o Ser para um pode, ao mesmo tempo, ser o Não-Ser para outro, como sabiamente se diz: a boa-vida do carrapato é a dor do cão.

Pode-se ver nas últimas frases como é tão complicadamente simples a humanidade. Ou por outras palavras, a humanidade não é simples, nós é que a queremos simples e o less is more, dito por não sei quem [agora sei que é uma frase de Van Der Rohe], é uma ilusão, nós desejamos mais, mais e mais, e cada vez mais complicado, porque a simplicidade é aborrecida. Mas, quando não nos sentimos capazes, queremos tudo simples, pelo menos para nós, os outros que o tenham complicado.

Dizemos que a humanidade é simples, porque preferimos crer que assim seja, acreditando que a fé move montanha. E, se calhar, sim, a fé move montanha… montanha de treta. É uma metáfora, eu sei, não era para ser levada à letra, mas eu diria, os braços movem montanha, a fé só incentiva os braços a moverem, quando o chicote não o faz (o caso do imperador romano que mandou cortar uma montanha que lhe tapava a vista, ou os egípcios que erigiram as montanhas-esfinges). A fé, não importa de que tipo, é um grande motivador e um item muito importante para fazer as coisas acontecer. Que seria de nós sem a fé? Sem a fé e sem a esperança? Até nem sei dizer qual das duas é mais importante ou mais útil, visto que uma gera a outra. 





4 de maio de 2019

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA

04 de maio – introdução

 

O meu interesse pela Europa, bem, herdei-o de um tio meu. Não era mesmo meu tio, mas um homem-grande lá da tabanca que toda a gente chamava de tio. O tio Paulo Bano Badjanca tinha vindo a Europa uma vez e tinha visto tugas. Ele contou que os tugas eram muito coitados, estavam sempre a correr de um lado para outro, com a cara fechada e muito infeliz, e alguns deles não tinham nem mesmo onde morar, nem roupas, andavam com trusses e calcinhas e deitavam-se na areia, perto do mar. O tio Paulo tinha sentido muita pena deles, pois parecia que já tinham desistido de viver e só estavam à espera que o mar subisse e os levasse, coitados!

Essa impressão do tio Paulo despertou em mim um sentimento intenso e eu decidi que quando fosse grande iria até Europa para ajudar a sua gente a ser menos pobre e mais feliz. 

Então comecei a estudar sobre os tugas e sobre a Europa para os entender melhor. Primeiro falei, na Guiné, com aqueles que tinham conhecido brancos ou a Europa, para ter uma base, depois passei a ler livros sobre a Europa. Isso confirmou que a ideia do tio Paulo Bano de que eles eram mesmo infelizes estava certa. Eu li livros enormes, mas eram só sobre guerras e guerras; guerras tão grandes que eles as chamavam de mundiais, guerra de cem anos, guerra fria, guerra de golfe (ou de golpe, ou de golfo, já nem me lembro), guerra de… Bolas!, era tudo sobre guerra! Guerras e problemas, dinheiro, dinheiro, dinheiro, guerras, guerras, guerras, problemas, problemas, problemas…

Não entendia como é que os tugas conseguiam viver na Europa e por que gostavam tanto de escrever sobre problemas. Eu pensava que eles também deviam ter coisas boas, como a música, por exemplo… mas disseram-me que os brancos não sabem dançar, e isso eu não entendia muito bem, visto que também eu li que eles tinham pimba, valsa, passo doble, gavotte, mazurka, dança da roda, branle, quadrilha… entre outros nomes difíceis. Eu sempre achei a cultura da Europa muito interessante e tão exótica, e acho tão engraçado os tugas terem todos esses tipos de danças e não saberem dançar.

Voltando ao assunto, depois da pesquisa, decidi vir à Europa conhecer os tugas. Queria mesmo vir também tirar-lhes a medida dos pés, das mãos, da cabeça, do pénis… ah, dizem que eles têm pénis muito pequeno. Talvez seja por isso que não têm muitos filhos e não gostam nada dos pretos. Também sei que as mulheres tugas gostam muito de sexo, um colega meu, etnólogo guineense, WJ, que estudou também os tugas, falou disso no seu trabalho “Nha Carta”, numa frase dirigida à sua namorada que ficou na Guiné-Bissau: “si kontra bu fixi, nha fofa, fixi mas tem li; si kontra bu bagri, nha fofa, bagri mas tem; si bu bom na kama, brankus, kilas e ta fasi nam filmi”.

Bom talvez tenha de falar agora de uma questão confusa aqui, pois ao que parece tugas não significa brancos, mas portugueses. Aconselharam-me, portanto, a usar o termo de maneira menos preguiçosa e mais exata, e para não confundir os tugas com os europeus, porque nem todos os europeus são tugas. Mas se essas mesmas pessoas falam de africanos como um grupo único, e falam da cultura africana como se fosse única, e falam de gente preta como sendo automaticamente africana, então, não entendo, por que razão não posso chamar a tugas de brancos, ou a brancos de tuga, ou de europeus.

Eu vim à Europa para estudar a etnia tuga e é isso que vou fazer, e é sobre isso que vou continuar a escrever.