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24 de setembro de 2013

UMA QUESTÃO DE... PROSTITUIÇÃO


A prostituição é uma prática social degradante?, acho que sim, dependendo do contexto., embora a História e a literatura nos tenham apresentado certas damas das camélias, poderosas e influentes, que, não obstante a sua profissão, atingiram um estatuto invejável.

Acredito que, porque a prostituição envolve, inegavelmente, o sexo, e porque o sexo é para nós um assunto que, conforme diz a cartilha, tem de envolver uma afinidade emocional, ou melhor, afectiva, e cumplicidade a nível profundo, devendo ser usado como uma extensão de amor, afigura-se-nos imoral quando é usado como mercadoria, o que revolta de tal maneira que chamamos às prostitutas de mulheres de vida fácil. Porém, cometemos logo com isso uma injustiça, pois não me parece haver nenhuma facilidade em ter de ir para a cama com desconhecidos, que tanto podem ser carinhosos como violentos, limpos como porcos, etc. como etc., em troca de dinheiro. Sei de pessoas que engatam desconhecidos após desconhecidos, mas fazem-no por prazer, e não porque são obrigadas (excluo os erotómanos, que são compelidos a isso por uma necessidade psicológica).

As prostitutas, sim, acho que não precisava de dizer isso, são pessoas como nós, e, não, não é porque são prostitutas que significa serem moralmente mais falhos que o resto de nós, aliás, em termo comparativos, elas prostituem o próprio corpo, enquanto a maioria prostitui a ideologia, a ética, e alguns o próprio país e o povo pelo qual é responsável.

As prostitutas são do nosso meio social, e por isso moldadas pelos mesmos princípios báscicos morais que nós, e o óculo pelo qual as vemos é o mesmo pelo qual elas se veem, daí é que se sentem párias, simples objectos, e perdem a sua auto-estima, principalmente porque estamos nós sempre de facho aceso, prontos para a queimança, a mostrar-lhes o quão miserável é a sua vida, de forma que acabam mesmo a aceitar que são menos dignas e simples dejectos sociais.

Temos prostitutas e prostitutas, eu sei. Há aquelas de luxo, que ganham numa noite apenas um tanto milhares de euros, e eu tenho ainda alguma dificuldade em compreender a prostituição de luxo. (Deixem-me só esclarecer, eu defendo que cada um deve usar o seu corpo da forma que entender, desde que não ponha terceiros em risco, se há alguém disposto a pagar para o que podemos oferecer quando o podemos oferecer, se não vermos problemas nisso, por que não? – os prostitutas políticos estão fora desse plano, porque põem todo um país em risco.) Como estava a dizer, tenho dificuldade em compreender a prostituição de luxo, porque está envolto num clima de falso glamour (ou real mesmo), muitas meninas são enganadas e julgam que vão tornar-se estrelas ou algo como isso e são sugadas por esse mundo, e daí começam a fazer fotos com casacos de inverno e de repente estão a fazer vídeos com as pernas abertas… já estou a tergiversar.

Vi na SIC Radical (um canal orientado para adolescentes) um programa que mostra um bordel, nos States, onde as meninas são exploradas por um casal de meia-idade. Parecem sempre todos felizes e sentem-se importantes porque aparecem na televisão. A ideia passada pelo programa é que aquele trabalho e igual a qualquer outro (sim, e por que não? – concordo que devemos levantar o estigma e as cercas morais sobre o assunto), no entanto, desconsidera todos os demais factores. Desconsidera que aquelas meninas estão a servir a um casal de proxenetas (ou talvez a uma organização mais complexa), visto que a casa fica com boa percentagem dos ganhos, e que a prostituição é “supostamente” ilegal. Além de que o programa está a fazer publicidade aquelas casas e às suas meninas.

Uma curiosidade acerca dos States, parece que só um estado americano tem a prostituição legalizada, mas se o acto sexual for filmado deixa de ser prostituição e para a ser considerado pornografia, que é legal – como se ela não se processasse nos mesmos moldes que a prostituição, como se não fosse sexo em troca de dinheiro. 

Aquele programa desconsidera que a nossa sociedade desvaloriza as prostitutas, por isso vai insistindo em dizer que aquelas meninas são tratadas com respeito e cavalheirismo, mesmo quando elas mesmo dizem aos clientes: podes fazer tudo o que quiseres comigo… “pois pagaste, és o meu dono”. (Aspas minhas). Quando elas mostram que ganharam 2.000 euros por uma sessão de sexo com um cliente que teve ejaculação precoce, o que vão pensar as milhares de adolescentes a ver o programa? Não é melhor largar a escola (que, por acaso, é garantia de nada) e começar a treinar os meus dotes da Fanny Hill (não as literárias, é claro)? Eu sei que há prostitutas que ganham muito mais do que isso, sorte delas, mas são exceções.



Sou a favor da prostituição, mas sou contra o aliciamento expresso que fazem às adolescentes, principalmente porque elas vão ser exploradas por terceiros. Se a prostituição fosse legalizada, e houvesse uma estrutura legal que protegesse as mulheres de abusos tanto dos clientes como de nós cá que as condenamos, eu não veria problemas nenhum nesse tipo de aliciamento, porque saberia que elas iriam trabalhar, manter a sua auto-estima e não seriam postas de parte. Eu sei que pessoas como a Sasha Grey, ou Jenna Jameson, são endeusadas, porque ficaram ricas e são famosas, embora sejam ou foram prostitutas, desculpa, artistas do sexo, mas elas são exceções das exceções.

O que queria dizer é que há diferentes níveis de prostituição, e eu queria aqui a escrever sobre o nível mais baixo, aquele onde as mulheres têm de se vender para sustentar os filhos e os maridos, ou das estudantes que precisam disso para as propinas da faculdade, e acabei por desviar-me.


vidas em saldo - reportagem da sic

Bem, é certo que pode haver uma ou outra que goste mesmo de prostituir-se, que junta o útil ao agradável, mas pelas estatísticas, são casos raros.

Eu acho que a prostituição deve ser legalizada, afinal já existe prostituição legalizada chamada de cinema pornográfico. No entanto, repito, também acredito que vai ser preciso muitas medidas milagrosas para tentar que as mulheres sejam menos exploradas. A legalização da prostituição não deveria ser de maneira a favorecer aos proxenetas, mas às próprias prostitutas, aquelas que ou optam por ela ou são forçadas a ela porque têm de sobreviver. A prostituição por si não é problema, o problema é tirar todas as oportunidades às pessoas, restando-lhe apenas isso para sobreviver. 

Se a prostituição não for legalizada, as prostitutas que só a têm como opção para sobreviver, vão trabalhar nisso a vida toda e no fim, quando forem velhas e acabadas e ninguém as quer, simplesmente ficam lixadas, entretanto, se for legalizada, elas pelo menos podem descontar para o estado e garantir uma reforma ou algo parecido. A prostituição é uma necessidade, má ou boa, mas necessidade (não entendam, necessário, pelamordideus).

Não falei do machismo que envolve a prostituição e nem falei da prostituição masculina, porque tirando aquela referente aos gays, a nossa sociedade chauvinista admira os gigolos, mesmo que secretamente, pois fazem sexo e ainda são pagos para isso.

E qual é a diferença entre a prostituição e a pornografia? por que a segunda é legal e a primeira não?

13 de agosto de 2012

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano musical


Nos artigos anteriores em que falei sobre o erótico ou pornográfico, referi-me ao plano cinematográfico e ao plano literário, desta vez pretendo falar dos dois no plano musical. E, vou evitar falar dos vídeos, porque embora sejam complementos da música actualmente entram mais no plano visual, e por não serem cinema, talvez venham a ganhar um artigo independente. Posto isto, avanço:

Eu gostava de Roberta Miranda, acho que ainda gosto, embora já faz um bom tempo que não a escuto. Ela tinha esta música, Atração Fatal, que me custava um tanto cantar em voz alta, por causa das imagens que evoca na refrão que dizia: tou querendo tudo em mim, te sentir bem animal, ai ai ai ai ai… É que eu era muito católico e lá em casa não podíamos usar a palavra S… ok!, sexo, já disse. Para o meu pai dizer sexo implicava vontade de o fazer ou algo assim no género e portanto era palavra proibida… mas qual quê, contávamos entre nós muitas histórias que envolviam sexo, o famoso peixinho, peixinho, na praia de bambadinca e anedotas de traição… enfim.

Essa introdução é só para reforçar o que todo o mundo já sabe: o sexo faz parte da nossa vida, mercantilizada, moralizada, religionizada, poetizada, e de diferentes outras formas. Ao mesmo tempo que a moral estipula o sexo “correcto”, ele nos é apresentado como necessário e fundamental à nossa saúde, e inevitável, sob a tutela da mesma unidade vigilante e moralizadora. Um moralismo hipócrita.

É certo que o tanto o erótico como o pornográfico têm a mesma função: mexer-nos com a libido e excitar os sentidos; e sendo assim muito dificilmente se considera a música como erótico ou pornográfico, todavia, se ficarmos atentos ao seu teor e à sua imagem facilmente vemos isso nelas.

Por exemplo, as músicas de Quim Barreiros ou da Rosinha apesar de virem carregados de um duplo sentido e implicitamente sexuais, dificilmente se podem considerar pornográficas ou eróticas, no entanto, algumas músicas metidas a românticas acabam por não falar dos ditos nobres sentimentos mas de folguedos sexuais, perdendo-se entre o erótico e o porno. Entretanto, considerando que o pornográfico é mais explícito que o romântico, podemos encontrar mesmo na música essa diferença.

Não sei bem em quê se enquadraria a Ai, se eu te pego de Michael Telô, se para mim é pornográfica, considerando as palavras que usa e a insinuação aberta, para alguns não passa de um monte de palavras, entretanto, alguém acredita que essa música seria famosa se não fosse pelo seu tom sexual? Pode-se argumentar que há músicas mais explícitas e sexuais e melhor cantadas e tocadas do que essa do Michael mas não são famosas, para dizer que não foi o componente sexual que lhe deu a fama, mas a verdade é que a dissimulação existente na Ai, se eu te pego faz todo o seu trunfo, como disse uma amiga fã da música: ela não diz nada, mas diz tudo.

Do Brasil temos músicas abertamente pornográficas chamadas de funk, todas dizendo a mesma coisa, e se ouvires cem delas acredito que terás aprendido metade da kamasutra. Mas não é apenas do Brasil que temos músicas dessas, vêm de toda a parte do mundo. Vou citar um exemplo português, feito pelo rapper Valete, com a sua Roleta Russa, onde faz um bem descritivo episódio sexual, para no fim fingir que a ideia por trás de tudo é avisar sobre a necessidade do uso do preservativo… nada a ver uma coisa com a outra, porque quando fazemos um aviso, ilustramos com consequência, e a música era inconsequente. De igual modo temos o rapper Azagaia que fez o mesmo (não me lembro do título) e com melhores resultados, depois de uma extenuante descrição sexual, no fim choca-nos com a ideia de que está a falar da exploração sexual infantil, consegue ser melhor que o primeiro, mas se realmente pretendesse passar uma mensagem não limitaria o público sendo pornográfico. Xeg, por exemplo, com a sua Vaca de Merda, não é nem erótico, nem pornográfico, mas simplesmente ordinário, usando palavras de um adolescente despeitado para fazer toda uma música. Enfim...

Como disse antes, somos invadidos pelo erótico e pelo pornográfico de tal maneira que não sabemos separar as duas coisas, e todos os nossos sentidos são bombardeados por eles, ou melhor, pelo sexo. Quando vemos axe na televisão a prometer sexo fácil, ou vemos uma publicidade de um carro que nos promete mulheres se comprarmos o modelo, e no dia seguinte sentir-mos o cheiro de axe ou vermos a imagem do carro, não conseguimos evitar a sexualização do produto e acordar em nós imagens eróticas. A música faz a mesma coisa connosco e de uma maneira mais substancial.

No entanto, o que me admira acima de tudo é as pessoas continuarem a fazer-se de admiradas e a fingirem não entender a razão das criança serem cada vez mais sexualmente precoces.

4 de julho de 2011

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano cinematográfico


Este artigo é um tanto longo e disperso, porque não o escrevi a pensar em publicá-lo, mas apenas para limpar as ideias. Resolvi dar umas polidas nele e tentar deixá-lo mais coerente, de maneira a poder postá-lo, por isso vou ainda apenas publicar uma parte.


pecado original, angelina jolie e antonio banderas
No cinema, a diferença entre o erótico e o pornográfico costumava ser mais explícita do que na literatura, quer dizer, ainda continua a ser, no entanto, muitas vezes o limite é trasposto e chamam a isso de arte.

Não tenho nada contra a pornografia, nada mesmo, aliás sou um pornófilo e não acho que seja o sexo a razão de existirem tantas pessoas amorais, por isso tanto se me faz como se me fez que quebrem ou não a barreira entre o erótico e o pornográfico no cinema.

Todavia, o que me faz espécie é a hipocrisia que envolve a questão. E desta vez não vou falar de moralistas, porque esses já sabemos mais ou menos como são e como têm medo de sair da sua zona de conforto, mas de artistas, porque se armam em progressivos e cultivam a abertura mental, razão por que promoverem eles um controlo hipócrita vai contra o fundamental da ideologia artística: a liberdade.

Ok! Eu sei que o cinema não é controlado apenas por artistas, mas principalmente por executivos e negociantes; porém quando falamos de prémios do cinema, suponho que nos referimos à parte artística (não falando dos Oscar, é claro), o que se vê nos muitos filmes que nunca conseguirão triunfar no cinema, mas que são premiados nos diversos festivais, principalmente nos europeus.

No entanto, a despeito da arte, hoje para um filme ser premiado em qualquer desses festivais só precisa de uma coisa: sexo; e quanto mais ousado e explícito, mais artístico. 

Contudo, as limitações existem, duas pessoas felizes a ter sexo nesse antro cinematográfico é pornografia, mas um para de drogados, ou uma adolescente e um cinquentão, ou qualquer outro par ou conjunto que choque os costumes, é artístico, progressivo e leva prémios e menções honrosas... ou críticas acirradas, mas que não escondem o fascínio. 

Se a ideia devia ser mostrar o quanto banal o sexo é, esse tratamento que lhe dão nos festivais acaba por projectar uma ideia oposta, a ideia de importância e sacrossantice, de tal maneira que os argumentistas que vão frequentá-los dão a entender que escrevem primeiro umas cenas de sexo, e quanto mais chocante, melhor, e depois escrevem o resto para contextualiza-las ou interligá-las, metendo umas pitadas de questão existencial, algumas imagens dúbias e sem sentido (mas que todos nós procuramos atribuir um, porque somos sábios demais para reconhecer que o rei vai nu), uns apelos a filosofia e filosofices, um bocadinho de droga, e, ou, o melhor trunfo: a fascinante degradação humana… e, voilá, eis a fórmula para… Cannes, por exemplo. 

Eu sei que os filmes com cenas desses quando lá chegam são vaiados pelos críticos que se mostram chocados, mas já pensaram por que apesar disso continuam sempre a ir para lá?   

Para mim sexo e pornografia são duas coisas diferentes, não obstante a arma da pornografia ser o sexo. No entanto, sexo explícito costumava ser pornográfico, e o outro tipo mais sugestivo, erótico, mas nesses festivais, sexo não é pornografia, nem erotismo, e por mais violência e choque que manifeste, ele é considerado arte. 

E a minha questão é: por quê?

21 de abril de 2011

SETE MINUTOS, OS, Irving Wallace (1969) - sexo não é crime

Os Sete Minutos de Irving Wallace é uma obra simplesmente soberba e avassalante, capaz de abalar até mesmo os menos conservadores, na medida em que autopsia comportamentos sociais que sabemos que existem, mas que talvez nunca tenhamos gastado o tempo a observar para lhes entender os porquês. 

A obra fala de um livro chamado Os Sete Minutos, que lhe deu o nome, considerado o mais obsceno de todos os tempos (mas é ficcionário), porque usa linguagem franca para explicar episódios de cama. Sete minutos é o tempo médio do orgasmo feminino, ou melhor que a mulher leva para chegar ao orgasmo, (não sei comprovar essa afirmação e nem para aqui importa) e o livro dentro do livro descreve o que passa na cabeça da autora durante esses sete minutos; e como agravante o facto do prazer sexual ser negado à mulher naquela altura, onde boa parte considerava o orgasmo feminino um mito, e quando verdadeiro um perigo à estabilidade social.

O livro estava à venda por um livreiro que foi preso acusado de vender pornografia [a pornografia só foi legalizada nos EUA por volta de 1974]. A acusação é feita por um Promotor público que espera com isso conseguir projecção política, pois é sabido que todo o mundo, quando se fala abertamente do sexo, fica com um pé atrás, embora com os ouvidos distendidos. E para complicar a situação, um rapaz comete uma violação e alega que foi incitado a isso pelo livro. E, por fim, um advogado ambicioso arrisca-se a sacrificar um futuro promissor para defender o livro. Eis a base para uma das mais esplêndidas leituras que fiz este ano [foi em 2006 que escrevi isto]. Li o livro com um pantagruelismo que eu mesmo nem conhecia, 600 páginas em 2 dias. 

O autor, Irving Wallace, revela conhecimentos profundos (para mim que sou leigo) sobre a posição do sexo no sistema judicial americano e o mecanismo do sistema em si, e parece ter feito um belo trabalho de base antes de se lançar à escrita d’ Os Sete Minutos. Uma das frases mais sonantes e reveladoras sobre a questão sexo que aparecem no livro é: assassinato é crime [e imoral e antiético], mas escrever sobre assassinato não é crime [nem imoral, nem antiético], sexo não é crime [nem imoral(?), nem antiético], mas escrever sobre sexo é crime [e imoral e antiético]. É verdade que hoje falar sobre o sexo não é crime, mas continua a considerar-se imoral e antiético, pelo menos quando não leva o cunho de científico.  
recentemente, em 2009, um livro que reproduzia esta imagem de um pintor francês na capa foi apreendido e proibido de vender pela PSP, porque foi considerado ofensivo, quando qualquer  banca de jornais que se preze expõe revistas pornográficas ou eróticas sem que isso seja considerado atentado ao pudor
Durante a leitura, dei-me por mim a consolidar a minha opinião acerca das perguntas que já tinha vindo a fazer: será o sexo sujo? Será que a forma de agir que consideramos a melhor não foi simplesmente estipulada por uma cultura exsicada e hipócrita? Até que ponto somos manietados e outorgamos nós mesmos aos mais poderosos o direito de nos usarem como joguetes? Até que ponto o nosso receio de não sermos aceite ou de sermos ridicularizados nos levam a agir por conveniência e a destruir o melhor de nós? Podem crer que fazemos mil outras perguntas durante a leitura. 


Ainda vemos no livro como é que as pessoas sacrificam tudo para defender aquilo em que acreditam (as corajosas e são raras), ou outras para esconder-se da vergonha (a maioria)... e vemos também como é que por causa de terceiros se lixam os… quartos.


Embora o sexo esteja tão banalizado hoje na literatura, noutras formas de artes, e na nossa própria vivência, não pensem que o livro esteja desactualizado ou que não ira trazer nada de novo, pois embora o livro fale de sexo em particular, no geral trata da liberdade individual. Acreditem que o livro (foi escrito nos anos 60) é ainda bastante actual e continuará actual por muito tempo, e chocante. Chocante porque embate contra a forma como aceitamos imposições no nosso plano sexual e como ainda sacralizamos o sexo.


Para não me perder em tergiversações baratas, (pois para falar de tudo o que o livro mostra e ensina, eu precisaria de escrever outro livro) digo que depois de ter acabado de ler Os Sete Minutos, senti-me mais inteligente e mais livre e encorajado a enfrentar certos preconceitos que já vinha a considerar estupidez. 

8 de março de 2011

A VINGANÇA DE JENNIFER, 2010 (I Spit on Your Grave unrated)

Tem remakes que valem a pena ser feitos, quando há uma actualização do tema e perspectivas novas de exploração, mas a maioria dá aquela vontade de sair para a rua levantar os dois braços para o ceú, imaginando uma câmara em picado perfeito a afastar-se, e gritar: “por quê?”. Bem, este filme não é o caso, não porque sirva para alguma coisa, mas porque não se destruiu um bom filme neste remake.

I Spit on Your Grave (expressão que significa desrespeito absoluto, tendo em conta que quando mortos somos temporariamente boas pessoas), ganhou título em português, A Vingança de Jennifer, talvez por ausência de uma expressão equivalente na língua lusa, porém eu sugeria alternativas como Cago no Teu Cadáver, o que duvido que a censura deixaria passar. Bem, voltando ao tema.

Eu era muito jovem, na verdade, uma criança, quando vi o original pela primeira vez, deixou-me tremendamente chocado. Porém, há uns anos voltei a ver o filme… bem, o choque não foi assim tanto, talvez porque faltou-me a paciência para o filme, daí que o vi em velocidade 2x. O filme resume-se em duas palavras: sexploitation e snuff, e testa-nos os nervos durante a visualização. O que me arranca esta pergunta: por que raio as pessoas têm prazer em ver outras a serem violentadas?

I Spit on Your Grave (1978) é um bom filme no seu género, porque consegue o que quer: incomodar, mas não é um bom filme, cinematograficamente falando, pois tirando a violentada, mais ninguém convence, e talvez a violentada só convença porque criamos por ela empatia (ou pela sua personagem).

Mas, este post não era para falar do filme original, mas do remake. Tem um jogo que eu costumo fazer no imdb, que é, por exemplo, partir do nome de Van Damme e chegar a Matthew Broderick, sem ter que digitar nada, e em menos passos possíveis. E é assim: Van Damme contracenou com Dolph Lundgren (Máquinas de Guerra), este com Bruce Willis (Os Mercenários), e este com Tom Hanks (A Fogueira das Vaidades), e este com Denzel Washington (Filadélfia), e este com Matthew Broderick (Tempo de Glória). Pois, bem, eu estava a jogar este jogo (já não me lembro o que queria ligar) e fui parar ao I Spit on Your Grave: Unrated, a princípio nem percebi que o cartaz era diferente, o que mais me chamou a atenção foi o unrated, pois o o outro era day of the woman e foi assim que percebi que se tratava de um remake. Bem, despertou-me a curiosidade, afinal se até mesmo Piranhas ganhou remake, porque não este, vamos lá ver se a ousadia de hoje supera a dos anos 70.


trailer

Deixem-me dizer, deviam deixar o cultuado I Spit On Your Grave (1978) onde estava, porque este remake não só não traz nada de novo (tirando transformar a protagonista numa aprendiz de Jigsaw, o que se vê mesmo pelo cartaz do filme que respira a Saw), como os actores parecem bem pior ou tão maus como os primeiros (não posso precisar nada, porque vi o outro filme há uma coisa de três anos já).

Entretanto, o que se pode aprender com este filme:

1. Que as cidades do interior não são boas para as férias, porque a ausência de acção cria mandriões violentos.

2..       Que as mulheres não devem passar as férias sozinhas e que devem sempre ser acompanhadas do parceiro para não serem violentadas (e que o realizador não viu Eles, de Moreau).

3.       Que as mulheres não devem vestir roupas curtas diante de homens desconhecidos, principalmente quando estão isoladas com eles.


4.       Pá, não me lembro de um quarto.

No geral, despindo aquela violência gráfica toda (ah, nesse aspecto este remake mantém-se aquém do original), o tema é muito importante. Temos dois pontos fortes e actuais no filme: o voyeurismo e a objectificação sexual.


Com a Internet, o cinema e todos os meios áudio-visuais, sem falar das revistas e outdoors, a sociedade foi ficando cada vez mais sexualizada, e não estou a falar do aspecto psico-científico da palavra, mas sim do hedonismo. Por exemplo, os perfumes são vendidos com promessa de granjear mulheres (a propósito, aproveito para reclamar contra a Axe, pois andei usando mas não resultou como prometido; publicidade enganosa), carros, roupas, até mesmo uma caneta porta a promessa de uma vida sexual mais intensa, e notem que digo intenso e não melhor. Se antes só os homens primavam pela quantidade, hoje as mulheres também (e não tenho nada contra, pois só tenho ganhado com isso), e os registos dessas conquistas são deixados na net, para todo o mundo ver. A pornografia tornou o sexo entediante, de maneira que muitas pessoas já não se satisfazem com uma relação normal a duas (também nada contra) e daí partem para bondages e sadomasoquismo, sendo estes os normais, os anormais vão pelo estupro, pedofilia, necrofilia entre outras filias perigosas. Não pretendo, no entanto, que essas taras são frutos da pornografização da comunicação social, ou da sua erotização (para ser mais brando) visto que a história e a literatura atestam a sua existência antes mesmo do aparecimento dos irmãos Lumière. E essa parte voyeurístico-exicibionista é retratado pelo jovem que filma todas as cenas.

Voltando para o filme, outra coisa que vemos é um dos violadores ser um bom pai, bom esposo e representante da lei. Extrapolando as comparações, o pior género de hipócrita que existe, os doentios representantes da moral e da censura, disfarçados de religiões, de governos e de outras formas de opressão, mas que longe de olhares são os verdadeiros símbolos da perversão. Ficando só no filme, quebra-se o estereótipo de que só os jovens solteiros e punheteiros, ou maridos bêbados e violentos constituem perigos sexuais.

Enfim, para não me esticar mais, o filme não é grande coisa, aliás, é um nada, continuo a preferir original, mas pelo menos o tema continua actual, e o seu componente voyeurístico dá-lhe uns pontos positivos.

12 de novembro de 2010

E O ÓSCAR VAI PARA...


Não me ocorreu nenhum título melhor para este artigo, aliás, confesso o título até parece uma injustiça para o pessoal lá do Hollywood, na medida em que eles claramente negoceiam o fingimento. Por isso, finjam que estamos a falar de fingidores profissionais e vamos em frente.

Carlos Pinota, para quem não tenha lido jornais ou visto TV ultimamente, é o jornalista proxeneta que está na ribalta por motivos errados, errados na visão da nossa sociedade hipócrita. O senhor foi indiciado porque gere sites (ou site, não sei bem) de prostituição, numa palavra mais bonita, por lenocínio.

Na sua lista foi encontrada nome de políticos, juízes e figuras importantes, pelo menos é o que diz o jornal Correio da Manhã, que cita várias vezes o nome de Carlos Pinota, mas nenhuma o dessas figuras.

Pois bem, o caso é este. Porém a mim faz-me mossa que o senhor Carlos seja indiciado por lenocínio e os jornais portugueses, o próprio Correio da Manhã (CM), não sejam; qual é a diferença entre a publicidade das duas entidades? Em termos de acessibilidade o CM é mais acessível do que o site de Carlos, que segundo o primeiro, cobra por volta de 170 Euros para publicitar uma prostituta. Não sei se Carlos ganha alguma percentagem da venda dos seus publicitandos (ou lá como se diz), mas tirado essa parte, faz a mesma coisa que o Correio da Manhã, mas como ele não tem a protecção do governo é feito réu, e o CM não, e ainda por cima o CM pode ir cobrir o acontecimento e falar sobre ele nas suas páginas, quando nas páginas seguintes tem exemplos caricatos da mesma actividade do réu (nem sei se fui literariamente coerente aqui).

A pergunta que continuo a fazer é: Por que raio o governo abençoa uma actividade para uns e a impede aos outros? Isto lembra-me uma frase de Pitigrilli: o ladrão quando quer roubar infrige uma lei, o governo quando quer roubar promulga uma lei (ou algo como isso). Será que ao CM é permitido lenocínio só porque paga impostos e é um dos jornais mais vendidos do país? Ainda estou a pensar no assunto.

Uma outra questão é sobre os figurões cujos nomes constam dessa lista. Eu não tenho nada contra a prostituição e todo esse alarde que se faz à volta do assunto para mim é simplesmente fruto de moralismo exacerbado misturado com preconceitos religiosos, portanto, é normal para mim que constem nomes nessa lista, e de figurões, considerando o dito valor que os trabalhadores de prazer pagam para serem publicitados por Carlos. Só acho também hipócrita que são essas mesmas figuras de destaque que atacam a prostituição em primeiro lugar a e à porta aberta, conhecendo bem o alcance das suas palavras, para depois usarem o serviço às escondidas. Deviam ir todos para a cadeia para aprenderem. 

Ainda outra questão é o jornal Correio da Manhã (não sei de outros) referir-se às prostitutas brasileiras. Carlos não publicita prostitutas, não, que ideia!, publicita prostitutas brasileiras. Não se trata apenas do CM, todos os jornais e os media portugueses (temendo exagerar se disser sociedade portuguesa) tem essa tendência de associar prostituição às brasileiras. Não tive acesso às publicitandas de Carlos, não sei se são mesmo apenas brasileiras, mas a prostituição em Portugal não é praticada apenas por elas. 

Essa publicidade negativa das brasileiras é perigosa. Este vídeo de Francisco Menezes (comediante que eu prezava muito, mas que caiu na minha consideração depois disso) em resposta a umas declarações em vídeo da Maité Proença, demonstra essa ideia que se tem das brasileiras. 


Aliás, pessoalmente já fui testemunha de um ataque directo, em tom de brincadeira, de um português a um brasileiro, dizendo aquele: Não conheces nenhuma brasileira?, ganha-se muito com o Pinto da Costa. Ao que este responde: Pelo menos ganham algo, pois as portuguesas eu como de graça. Na altura eu nem percebi o que queriam dizer um ao outro, só depois de ele me ter explicado é que apanhei a peça.

Voltando então à questão principal, o melhor era parar com esse fingimento de anti-prostituição, ou então indiciar também o Correio da Manhã e outros tantos órgãos da média, por "pecado" duplo: o de lenocínio  e o da propagação de preconceito. Aliás nem sei se publicitar é lenocínio.


14 de agosto de 2009

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano literário



Há uns bons pares de anos, na Inglaterra, um senhor chamado John Cleland resolveu escrever um livro pornográfico e imoral, contrário aos costumes de bons cristãos e civilizados - na altura -, o que lhe valeu a cadeia, - hoje -, um clássico da literatura erótica, e não só.

Cleland descrevia no seu livro aspectos sexuais, considerados libertinos, mas que eram mais praticados pelas próprias pessoas que publicamente os condenavam, estou a falar da classe média alta. Ainda hoje, as pessoas que mais se entretém com práticas sexuais de toda a sorte, que realizam grandes orgias e poderiam ser os mais sexualmente pervertidos se escrevessem duas linhas das práticas em que se envolvem, são os da classe alta, pessoas endinheiradas, pois têm-no... o dinheiro... são eles os políticos, os moralistas, os religiosos, os pais defensores da moral, etc. Enquanto estão a dar cara na televisão, nos jornais, atacam o sexo com todas as armas que têm, cantam a moral e glorificam a abstenção, mas longe dos olhos da média, a história já é outra.

No livro de Cleland, são visto nobres senhoras e os seus nobres senhores reduzidos a nada diante da fome sexual, ou da satisfação dessa fome, contrariando o adágio de que apenas a morte iguala os homens. A classe média alta pode fazer o que lhe dá na gana, mas até estas satisfações mais básicas querem e tentam retirar aos mais desfavorecidos na hierarquia das castas.
Ontem, Fanny Hill, As Memórias de uma Mulher de Prazer, era considerado um livro imoral e pornográfico, não obstante tivesse sido um best-seller na mesma época em que foi condenada, atestando desta maneira a hipocriasia que norteia os julgadores.
Eu não cheguei a ler Fanny Hill, só vi filmes, três versões, o que li foi A Filha de Fanny Hill, de autor anónimo, mas que se crê ter sido escrito pelo próprio Cleland, visto quando foi libertado por causa do Fanny Hill lhe ter sido imposto não voltar a escrever coisa do género, e, segundo o prefaciador, o estilo dos dois é similar.
Se o estilo é similar, sendo delicioso A Filha de Fanny Hill, e sendo uma sequela, presumo que Fanny Hill também seja delicioso. Ainda hoje deve haver certamente quem chame a este livro de pornográfico e imoral, (eu pessoalmente não sei distinguir a literatura, em prosa, pornográfica da erótica), mas se pornográfico consiste em utilização dos vocábulos "xungas", tal como caralho, cona, etc, então o livro não é, e muitos outros livros que não tratam de sexo, são pornográficos, aliás, o livro nem usa termos anatómicos, como pénis, vagina, e companhia, mas fala de lanças, botãos, heranças, e outros. O livro foi um dos mais éróticos que já li, senão o mais, mas vem numa linguagem que não chocaria nem a madre Teresa.

Na altura em que li A filha de Fanny Hill, li muitos outros, alguns títulos colhidos do Sete Minutos de Irving Wallace, um dos meus escritores preferidos... estava em constrante procura de materiais para as minhas sessões de onanismo... e, sim, concordo quando dizem que alguns livros são pornográficos e imorais (embora continue sem saber o que isso quer dizer), li o Trópico de Câncer ou do Capricórnio, já não lembro qual deles (vi o título num filme com Robert de Niro, Cabo de Medo e depois no Sete Minutos), a ideia era ler a trilogia de Henry Miller, mas fiquei-me nesse porque era simplesme sem sentido, palavras atiradas à toa no meu entender. O livro não era erótico, por não estimulava nada, não era literatura porque eram só palavras ordinárias e referências ordinárias, embora isso não significa nada, pois li um tal Bobowski, ou não-sei-quê (não me lembro do nome), Mulheres, esse era ordinariéssimo e vulgar, mas era boa leitura e conseguia ser erótico.

Agora vou voltar ao Fanny Hill. Lembrei-me de escrever este post, porque há dois dias, vi, coisa estranha, no comboio quatro senhoras a ler o mesmo título, Fanny Hill, os livros eram os mesmos, ou seja, da mesma editora, o que me fez pensar: Fanny Hill está em voga outra vez e a vender como o diabo, e por quê?, porque as pessoas torcem o nariz quando se fala de sexo, mas aguçam os ouvidos. Eu não leio livros eróticos simplesmente pela literatura e prazer de ler, como já referi, mas pelas minhas práticas solitárias propriamente, e fiquei admirado que, tal como ninguém gosta de ver pornografia em público, as senhoras estivessem a ler no público o Fanny Hill. Se elas estivessem a ler Milos Manara seria mais agressivo do que estarem a ler Cleland? É esta a diferença entre a pornografia e o erótico? Manara é porno, porque tem imagens? Nos filmes eu sei que quando não há penetração explícita (não falemos de sexo explícito que isso é para enganar), diz-se erótico, mas na literatura, como classificar? Em banda desenhada, como distinguir o porno do erótico? Engraçado, já em banda desenhada eu leio mais o erorismo pela arte do que propriamente pela recolha mental de material.

E Agora, outra questão, qual é o ponto deste post, juro que não sei. Mas a ditas senhoras no comboio, eram mais corajosas do que eu, a não ser que estivessem a pensar que ninguém saberia pelo título do conteúdo do livro, tendo em conta que a maioria só vê televisão e só conhece as bibliotecas pela fachada, e embora eu pensasse que estou quase livre dos preconceitos sexuais, não estou, pois fiquei chocado naquela altura que senhoras estivessem a ler Fanny Hill em público.

5 de março de 2009

É O INCESTO CRIME?


Há algum tempo li sobre dois irmãos alemães que tiveram quatro filhos, não me chocou, amavam-se. Entretanto, recentemente encontrei-me oura vez com a mesma notícia e fonte diferente a dizer que o irmão tinha sido condenado à prisão por essa razão, isto sim, chocou-me. Eu sei que vai parecer bem desactualizado falar disso só agora, visto que se passaram dois anos sobre o assunto, entretanto, nunca é tarde para questionar: por quê?

Pessoas do mesmo sangue não podiam ter filhos, o povo é inteligente, o conhecimento empírico nem sempre falha, porque nasciam com malformações e outros problemas; atribuiu-se à causa, não a sangue, mas a deus, castigando os consanguíneos que se uniram.

Agora, séculos depois de os primeiros macacos terem estabelecido esse tabu estranha-se que, apesar dos conhecimentos científicos que hoje temos, ainda continua a imperar e, como se não bastasse, como um crime.

Por que não podem se amar maritalmente dois irmãos? Porque vai contra o senso comum, apenas por isso. Porque as pessoas não estando habituadas a verem tal coisa, levantam-se logo para gritarem contra, como se isso tivesse a ver directamente com eles.

Eu conheço casos de incesto, conviviv já com duas pessoas que se diz serem resultado de um incesto pai-filha, convivi com outra família cujas más línguas diziam que o chefe dela era incestuoso, pondo-se o avô nas netas. Odiei tomar o conhecimento deste segundo caso, porque estava apaixonado por uma das netas e ela só tinha 13 anos (eu tinha já 16), isso constitiu um abuso e sou contra.

Entretanto, se houver consentimento mútuo entre pai e filha, irmão e irmã, mãe e filho, por que não podem ter relações sexuais e viverem como um casal normal? Jocasta viveu com Édipo e foram felizes até o Sófocles decidir que já não deviam mais ser. Enquanto não sabiam da verdade, nada os impedia de ser feliz, a sua relação não chocava a ninguém, tiveram filhos e viveram bem, mas quando se soube da verdade, a opinião de todo o mundo mudou. Mas fica a pergunta, algum deles deixou de ser o que era? Jocasta deixou de ser Jocasta? Édipo deixou de ser Édipo? Não, tinha que acabar em tragédia para agradar ao senso comum, mas na verdade, podiam continuar a viver bem.

Os animais não pensam no incesto, simplesmente praticam-no e nem o chamamos de incesto, por que nós já temos de condenar os que decidem por esse modelo? 

Dois irmão gostam um do outro, tal e qual como toda a gente, têm direito de obter o objecto do seu desejo. Mas não, não podem, porque nós condenamos, qual temos alguma coisa a ver com a decisão deles, qual a sua escolha nos vai afectar.

Ensinados pelo Freud a reprimir instintos incestuosos, Freud pelo povo, percebe-se muito bem que ele existe e que tanto pode ser casual como não.

Lembro-me de ler algures a entrevista de um pai de uma dessas muitas estrelas que vai posar nua para o playboy dizer que está orgulhoso e que sempre comprou a revista e que sabe que a filha é um belo pedaço. Eu perguntei-me será que ele vai bater uma pela filha? Ou tipo, se fizerem a edição e substituírem a cara da filha ele não irá gostar de ver o corpo? Agora, se não lhe incomoda ver a filha nua nem deitar-se com ela, por que devia incomodar-nos a nós?

Vi um filme há já um bom par de anos, onde um homem entrou num encontro às cegas, tinham de lhe vendar os olhos, e foi dormir com a sua irmã, que também estava de olhos vendados, apaixonaram-se, e depois começaram a procurar a pessoas com quem estiveram e acabaram por descobrir a verdade. Pergunto agora, o que é que mudou da atracção que sentiram quando estiveram de olhos vendados, quando eram um para outro simplesmente homem e mulher, senão o facto de descobrirem que afinal eram irmãos que viviam na mesma casa e nesse caso a sociedade os condena? O filme só foi ao fundo do assunto à moda porno, pois era porno, ou seja, não o explorou devidamente.

Pá, sejamos mais flexíveis, deixem cada um fazer a sua escolha desde que essa escolha não magoe a ninguém, e nem sequer usemos a palavra devassidão para casos desses.

14 de fevereiro de 2008

E O AMOR É...

O Amor tem várias definições conforme os seus definidores.

Entretanto, seja como for, todas essas definições têm algo em comum: o amor é sempre alguma coisa. Ninguém se lembra que o amor podia ser apenas amor, e não o transvertir em definições duvidosas que dependem de uma determinada época para serem aceites. E eu como não sou diferente dos demais, também defino o amor à minha maneira.

Após um longo tempo de análise e passeando por diversas perspectivas do amor, cheguei á conclusão de que o amor é meramente uma desculpa para as pessoas terem sexo de consciência tranquila. Devo explicar? Não tem problema, cá vai ela.

Quando se pergunta por estas bandas o que é amor, duvido que a pergunta se refira ao tipo de amor que os irmãos têm entre si, que os pais têm para os filhos (ágape dos gregos), que os amigos têm (aliás, isso até é chamado de amizade, os gregos: filia), porém do amor erótico (eros, dos gregos – parece que eles são mais inteligentes e sabem diferenciar melhor estes sentimentos), ou melhor, para desanuviar o termo desse tom pesado: o amor entre homem e mulher.

Agora, se estivermos de acordo quanto ao que disse lá em cima, vamos pensar: qual é a manifestação suprema do amor erótico? Quando os namorados pedem prova de amor, o que é que pedem? Nos filmes, quando duas pessoas estão apaixonadas ou se amam como é que o mostram? Acho a resposta óbvia: fazem sexo, e para não se sentirem sujas ou imorais, preferem o termo: fazer amor. 


Mas todos sabemos que a fisiologia dos dois actos é o mesmo, e mesmo quando um dos dois pensa que está a fazer amor (com floreados) outro pode pensar que está a fazer sexo (seco e directo). Agora, falando do sexo; com quem é que as meninas sonham perder a virgindade? Com a pessoa que amam, a pessoa que vai ficar ao seu lado a vida inteira (eh, eis outra característica do amor ou da lavagem cerebral social).


Agora, basta disso tudo. Pensando na nossa condição de animal e tendo o sexo como um acto que nos é natural (embora muitos não o considerem uma necessidade homeostática porque, dizem, ninguém morre de não fazer sexo), e vindo no tempo até aparecerem as religiões que proíbem relações sexuais e fazem do sexo um acto impróprio e imundo a não ser quando praticado com o cônjuge (posteriormente – porque não se pôde domar o animal – com a pessoa que se ama). 

Todos sabemos como os romanos e os gregos glorificavam o nu, e como o nu agora é visto de través; como os templos indianos eram ornamentados com figuras kamusútricas sem que isso ofendesse a ninguém (aliás, hoje fazem as delícias dos turistas); em suma, depois do cristianismo o sexo tornou-se mau, muito mais mau do que sempre foi. 


Fomos educados a vê-lo assim e não podemos fazer nada contra isso. Mas também nos foi ensinado que sexo é puro e divino quando é praticado com amor… e é disso que estou a tentar falar há muito tempo. 


Quando vemos num filme ou numa leitura duas pessoa a terem sexo, valorizámos mais isso quando a história diz que existe amor entre elas, aliás, até somos mais tolerantes com os homossexuais quando dizem que se amam. Aliás, quando queremos ir para a cama com uma pessoa, não é dizendo-lhe que a amamos o caminho mais rápido?

9 de novembro de 2006

SERÁ O SEXO SUJO?

Entrámos no quarto, o calor era tanto, todo o nosso corpo estava em ebulição, as roupas começaram a abandonar o nosso corpo, precisávamos de satisfazer a nossa fome animal.


A citação não é de ninguém, de momento não me ocorre nenhum escritor conhecido que tenha usado frase semelhante, mas frases do género abundam na literatura, principalmente na literatura cor-de-rosa barata. Fi-la para poder perguntar: por que raio o sexo é considerado animal? Por que é que a nossa animalidade tem que se reflectir no sexo? Será que todos os impulsos homeostáticos são animais (embora o sexo não seja enquadrado por alguns nessa tabela, porque se considera que não põe em risco a existência do indivíduo)? O que quero discutir não é se o sexo é ou não um impulso homeostático, mas sim se é animal, ou melhor, se for animal, se é sujo.

Silogisticamente, se nós somos animais, e os impulsos são nossos, logo os nossos impulsos são (de) animais. Mas não se trata disso, porque quando referem ao sexo como impulso animal relegam-no ao plano da nossa primitividade. E isso por quê? Porque sexo é algo com que todos os animais praticam, ou porque é algo que já foi praticado pelos nossos antepassados da caverna? Mas, se foi por esses motivos que o chamam de animal, eu pergunto se comer, beber, respirar e defecar não serão também impulsos animais. E... diferentemente dos animais, nós possuímos algo chamado sexualidade.


Um punhado de moralista de toda a sorte e a Igreja (principalmente a Igreja) resolveram considerar o sexo impudico (animal), algo que um homem de bom senso deveria praticar com moderação (e como definem a moderação neste caso: sete vezes por semana, tês vezes por dia, uma vez por mês, só no natal e nos feriados?), e para agravar conectaram umas séries de palavras que se relacionam com o sexo ao impudor. Já ninguém pode dizer foder, cona ou outras palavras do género, porque é devasso. Mas até aceitam, em certos contextos, que se diga pénis, vagina, fazer amor e muitas outras coisas como se a imagem que a palavra pénis invoca não fosse igual à invocada pela palavra caralho. E, condenando o significante, condenaram também o significado.


O nudismo, embora esteja a ser praticado cada vez em mais larga escala é ainda considerado uma espécie de depravação, porém recuemos à era dos criadores da democracia – uma das culturas mais admiráveis até agora – e veremos homens nus a praticar desporto nas olimpíadas, sem que isso constituísse um escândalo; lemos poesias latinas e vemos que cantam o falo (estão a ver que até não digo pila) e a vagina, sem que se tratasse de devassidão ou pornografia.

Acho a nossa cultura demasiado hipócrita e pretensiosa, prenhe de pessoas que praticam uma coisa, gostam de praticá-la, mas dizem que é suja.

Vamos lá perguntar: quem é que anda com a boca tapada? Ninguém (tirando o Michael Jackson). Não, ninguém tapa a boca, só temos que tapar as partes ligadas ao sexo, os genitais, as mamas e o rabo… mas não será a boca também um órgão sexual? Aliás, o maior órgão sexual. Não é a boca que faz elogios, que convida o parceiro, que combina o sexo, que começa os beijos, que faz um broche ou um minete (desculpem se eu não disse felação ou cunnilingus - cona-língua - mas não seria mais explícito?)? Já Freud falava da boca como o primeiro ponto de erotismo, ou melhor, o primeiro órgão erótico de um indivíduo. E, na minha opinião, a boca é o mais desenvolvido órgão sexual que existe. Mas ninguém censura a boca, nem é indecente dizer boca, enquanto que dizer caralho já é.

Por exemplo, costumamos ler: Ele saiu da água e escondeu com as mãos as suas partes vergonhosas. É uma citação muito frequente, chamar ao sexo (órgão sexual) de partes vergonhosas. Eu pelo menos não tenho vergonha do meu sexo, e, para dizer a verdade, se não sou nudista talvez não seja por causa de mostrar o meu sexo, mas sim das minhas canelas que são tortas. Sim, as minhas partes vergonhosas são as minhas canelas. E o que para os outros devia ser a minha parte vergonhosa, só me envergonha por ser pequeno.

Li algures uma anedota sobre a mulher de um sultão que caiu do camelo e deixou as suas partes vergonhosas (as palavras são deles) expostas ao olhar de toda a gente, e o sultão ficou contente porque a cara da mulher não se mostrou. Então, afinal, qual é mesmo a parte vergonhosa? Também já vi documentários sobre tribos que nem sequer andavam com tanga, mas a câmara evitava decentemente filmar a parte genital. Se a eles não causa nenhum mal andarem nus, e se não fazem balbúrdia por causa de sexo (eles, considerados primitivos), por que raio fazemos nós (que nos consideramos a nós mesmo super-civilizados)?

Eu não pretendo apelar a pessoas a aderirem ao nudismo, nem que andem a dizer na rua palavras que certamente a maioria consideraria palavrões e indecências, mas sim para nos tornarmos indulgentes com as pessoas que usam dessas palavras, porque são apenas palavras e servem para representar algo. 

Se não é devassidão falar de Deus, porque é Ele que nos dá a vida, por que será devassidão falar do sexo se é através dele (e de todos os seus componentes) que ganhamos a vida?