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13 de agosto de 2012

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano musical


Nos artigos anteriores em que falei sobre o erótico ou pornográfico, referi-me ao plano cinematográfico e ao plano literário, desta vez pretendo falar dos dois no plano musical. E, vou evitar falar dos vídeos, porque embora sejam complementos da música actualmente entram mais no plano visual, e por não serem cinema, talvez venham a ganhar um artigo independente. Posto isto, avanço:

Eu gostava de Roberta Miranda, acho que ainda gosto, embora já faz um bom tempo que não a escuto. Ela tinha esta música, Atração Fatal, que me custava um tanto cantar em voz alta, por causa das imagens que evoca na refrão que dizia: tou querendo tudo em mim, te sentir bem animal, ai ai ai ai ai… É que eu era muito católico e lá em casa não podíamos usar a palavra S… ok!, sexo, já disse. Para o meu pai dizer sexo implicava vontade de o fazer ou algo assim no género e portanto era palavra proibida… mas qual quê, contávamos entre nós muitas histórias que envolviam sexo, o famoso peixinho, peixinho, na praia de bambadinca e anedotas de traição… enfim.

Essa introdução é só para reforçar o que todo o mundo já sabe: o sexo faz parte da nossa vida, mercantilizada, moralizada, religionizada, poetizada, e de diferentes outras formas. Ao mesmo tempo que a moral estipula o sexo “correcto”, ele nos é apresentado como necessário e fundamental à nossa saúde, e inevitável, sob a tutela da mesma unidade vigilante e moralizadora. Um moralismo hipócrita.

É certo que o tanto o erótico como o pornográfico têm a mesma função: mexer-nos com a libido e excitar os sentidos; e sendo assim muito dificilmente se considera a música como erótico ou pornográfico, todavia, se ficarmos atentos ao seu teor e à sua imagem facilmente vemos isso nelas.

Por exemplo, as músicas de Quim Barreiros ou da Rosinha apesar de virem carregados de um duplo sentido e implicitamente sexuais, dificilmente se podem considerar pornográficas ou eróticas, no entanto, algumas músicas metidas a românticas acabam por não falar dos ditos nobres sentimentos mas de folguedos sexuais, perdendo-se entre o erótico e o porno. Entretanto, considerando que o pornográfico é mais explícito que o romântico, podemos encontrar mesmo na música essa diferença.

Não sei bem em quê se enquadraria a Ai, se eu te pego de Michael Telô, se para mim é pornográfica, considerando as palavras que usa e a insinuação aberta, para alguns não passa de um monte de palavras, entretanto, alguém acredita que essa música seria famosa se não fosse pelo seu tom sexual? Pode-se argumentar que há músicas mais explícitas e sexuais e melhor cantadas e tocadas do que essa do Michael mas não são famosas, para dizer que não foi o componente sexual que lhe deu a fama, mas a verdade é que a dissimulação existente na Ai, se eu te pego faz todo o seu trunfo, como disse uma amiga fã da música: ela não diz nada, mas diz tudo.

Do Brasil temos músicas abertamente pornográficas chamadas de funk, todas dizendo a mesma coisa, e se ouvires cem delas acredito que terás aprendido metade da kamasutra. Mas não é apenas do Brasil que temos músicas dessas, vêm de toda a parte do mundo. Vou citar um exemplo português, feito pelo rapper Valete, com a sua Roleta Russa, onde faz um bem descritivo episódio sexual, para no fim fingir que a ideia por trás de tudo é avisar sobre a necessidade do uso do preservativo… nada a ver uma coisa com a outra, porque quando fazemos um aviso, ilustramos com consequência, e a música era inconsequente. De igual modo temos o rapper Azagaia que fez o mesmo (não me lembro do título) e com melhores resultados, depois de uma extenuante descrição sexual, no fim choca-nos com a ideia de que está a falar da exploração sexual infantil, consegue ser melhor que o primeiro, mas se realmente pretendesse passar uma mensagem não limitaria o público sendo pornográfico. Xeg, por exemplo, com a sua Vaca de Merda, não é nem erótico, nem pornográfico, mas simplesmente ordinário, usando palavras de um adolescente despeitado para fazer toda uma música. Enfim...

Como disse antes, somos invadidos pelo erótico e pelo pornográfico de tal maneira que não sabemos separar as duas coisas, e todos os nossos sentidos são bombardeados por eles, ou melhor, pelo sexo. Quando vemos axe na televisão a prometer sexo fácil, ou vemos uma publicidade de um carro que nos promete mulheres se comprarmos o modelo, e no dia seguinte sentir-mos o cheiro de axe ou vermos a imagem do carro, não conseguimos evitar a sexualização do produto e acordar em nós imagens eróticas. A música faz a mesma coisa connosco e de uma maneira mais substancial.

No entanto, o que me admira acima de tudo é as pessoas continuarem a fazer-se de admiradas e a fingirem não entender a razão das criança serem cada vez mais sexualmente precoces.

4 de julho de 2011

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano cinematográfico


Este artigo é um tanto longo e disperso, porque não o escrevi a pensar em publicá-lo, mas apenas para limpar as ideias. Resolvi dar umas polidas nele e tentar deixá-lo mais coerente, de maneira a poder postá-lo, por isso vou ainda apenas publicar uma parte.


pecado original, angelina jolie e antonio banderas
No cinema, a diferença entre o erótico e o pornográfico costumava ser mais explícita do que na literatura, quer dizer, ainda continua a ser, no entanto, muitas vezes o limite é trasposto e chamam a isso de arte.

Não tenho nada contra a pornografia, nada mesmo, aliás sou um pornófilo e não acho que seja o sexo a razão de existirem tantas pessoas amorais, por isso tanto se me faz como se me fez que quebrem ou não a barreira entre o erótico e o pornográfico no cinema.

Todavia, o que me faz espécie é a hipocrisia que envolve a questão. E desta vez não vou falar de moralistas, porque esses já sabemos mais ou menos como são e como têm medo de sair da sua zona de conforto, mas de artistas, porque se armam em progressivos e cultivam a abertura mental, razão por que promoverem eles um controlo hipócrita vai contra o fundamental da ideologia artística: a liberdade.

Ok! Eu sei que o cinema não é controlado apenas por artistas, mas principalmente por executivos e negociantes; porém quando falamos de prémios do cinema, suponho que nos referimos à parte artística (não falando dos Oscar, é claro), o que se vê nos muitos filmes que nunca conseguirão triunfar no cinema, mas que são premiados nos diversos festivais, principalmente nos europeus.

No entanto, a despeito da arte, hoje para um filme ser premiado em qualquer desses festivais só precisa de uma coisa: sexo; e quanto mais ousado e explícito, mais artístico

Contudo, as limitações existem, duas pessoas felizes a ter sexo nesse antro cinematográfico é pornografia, mas um para de drogados, ou uma adolescente e um cinquentão, ou qualquer outro par ou conjunto que choque os costumes, é artístico, progressivo e leva prémios e menções honrosas... ou críticas acirradas, mas que não escondem o fascínio. 

Se a ideia devia ser mostrar o quanto banal o sexo é, esse tratamento que lhe dão nos festivais acaba por projectar uma ideia oposta, a ideia de importância e sacrossantice, de tal maneira que os argumentistas que vão frequentá-los dão a entender que escrevem primeiro umas cenas de sexo, e quanto mais chocante, melhor, e depois escrevem o resto para contextualiza-las ou interligá-las, metendo umas pitadas de questão existencial, algumas imagens dúbias e sem sentido (mas que todos nós procuramos atribuir um, porque somos sábios demais para reconhecer que o rei vai nu), uns apelos a filosofia e filosofices, um bocadinho de droga, e, ou, o melhor trunfo: a fascinante degradação humana… e, voilá, eis a fórmula para… Cannes, por exemplo. 

Eu sei que os filmes com cenas desses quando lá chegam são vaiados pelos críticos que se mostram chocados, mas já pensaram por que apesar disso continuam sempre a ir para lá?   

Para mim sexo e pornografia são duas coisas diferentes, não obstante a arma da pornografia ser o sexo. No entanto, sexo explícito costumava ser pornográfico, e o outro tipo mais sugestivo, erótico, mas nesses festivais, sexo não é pornografia, nem erotismo, e por mais violência e choque que manifeste, ele é considerado arte. 

E a minha questão é: por quê?

14 de agosto de 2009

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano literário



Há uns bons pares de anos, na Inglaterra, um senhor chamado John Cleland resolveu escrever um livro pornográfico e imoral, contrário aos costumes de bons cristãos e civilizados - na altura -, o que lhe valeu a cadeia, - hoje -, um clássico da literatura erótica, e não só.

Cleland descrevia no seu livro aspectos sexuais, considerados libertinos, mas que eram mais praticados pelas próprias pessoas que publicamente os condenavam, estou a falar da classe média alta. Ainda hoje, as pessoas que mais se entretém com práticas sexuais de toda a sorte, que realizam grandes orgias e poderiam ser os mais sexualmente pervertidos se escrevessem duas linhas das práticas em que se envolvem, são os da classe alta, pessoas endinheiradas, pois têm-no... o dinheiro... são eles os políticos, os moralistas, os religiosos, os pais defensores da moral, etc. Enquanto estão a dar cara na televisão, nos jornais, atacam o sexo com todas as armas que têm, cantam a moral e glorificam a abstenção, mas longe dos olhos da média, a história já é outra.

No livro de Cleland, são visto nobres senhoras e os seus nobres senhores reduzidos a nada diante da fome sexual, ou da satisfação dessa fome, contrariando o adágio de que apenas a morte iguala os homens. A classe média alta pode fazer o que lhe dá na gana, mas até estas satisfações mais básicas querem e tentam retirar aos mais desfavorecidos na hierarquia das castas.
Ontem, Fanny Hill, As Memórias de uma Mulher de Prazer, era considerado um livro imoral e pornográfico, não obstante tivesse sido um best-seller na mesma época em que foi condenada, atestando desta maneira a hipocriasia que norteia os julgadores.
Eu não cheguei a ler Fanny Hill, só vi filmes, três versões, o que li foi A Filha de Fanny Hill, de autor anónimo, mas que se crê ter sido escrito pelo próprio Cleland, visto quando foi libertado por causa do Fanny Hill lhe ter sido imposto não voltar a escrever coisa do género, e, segundo o prefaciador, o estilo dos dois é similar.
Se o estilo é similar, sendo delicioso A Filha de Fanny Hill, e sendo uma sequela, presumo que Fanny Hill também seja delicioso. Ainda hoje deve haver certamente quem chame a este livro de pornográfico e imoral, (eu pessoalmente não sei distinguir a literatura, em prosa, pornográfica da erótica), mas se pornográfico consiste em utilização dos vocábulos "xungas", tal como caralho, cona, etc, então o livro não é, e muitos outros livros que não tratam de sexo, são pornográficos, aliás, o livro nem usa termos anatómicos, como pénis, vagina, e companhia, mas fala de lanças, botãos, heranças, e outros. O livro foi um dos mais éróticos que já li, senão o mais, mas vem numa linguagem que não chocaria nem a madre Teresa.

Na altura em que li A filha de Fanny Hill, li muitos outros, alguns títulos colhidos do Sete Minutos de Irving Wallace, um dos meus escritores preferidos... estava em constrante procura de materiais para as minhas sessões de onanismo... e, sim, concordo quando dizem que alguns livros são pornográficos e imorais (embora continue sem saber o que isso quer dizer), li o Trópico de Câncer ou do Capricórnio, já não lembro qual deles (vi o título num filme com Robert de Niro, Cabo de Medo e depois no Sete Minutos), a ideia era ler a trilogia de Henry Miller, mas fiquei-me nesse porque era simplesme sem sentido, palavras atiradas à toa no meu entender. O livro não era erótico, por não estimulava nada, não era literatura porque eram só palavras ordinárias e referências ordinárias, embora isso não significa nada, pois li um tal Bobowski, ou não-sei-quê (não me lembro do nome), Mulheres, esse era ordinariéssimo e vulgar, mas era boa leitura e conseguia ser erótico.

Agora vou voltar ao Fanny Hill. Lembrei-me de escrever este post, porque há dois dias, vi, coisa estranha, no comboio quatro senhoras a ler o mesmo título, Fanny Hill, os livros eram os mesmos, ou seja, da mesma editora, o que me fez pensar: Fanny Hill está em voga outra vez e a vender como o diabo, e por quê?, porque as pessoas torcem o nariz quando se fala de sexo, mas aguçam os ouvidos. Eu não leio livros eróticos simplesmente pela literatura e prazer de ler, como já referi, mas pelas minhas práticas solitárias propriamente, e fiquei admirado que, tal como ninguém gosta de ver pornografia em público, as senhoras estivessem a ler no público o Fanny Hill. Se elas estivessem a ler Milos Manara seria mais agressivo do que estarem a ler Cleland? É esta a diferença entre a pornografia e o erótico? Manara é porno, porque tem imagens? Nos filmes eu sei que quando não há penetração explícita (não falemos de sexo explícito que isso é para enganar), diz-se erótico, mas na literatura, como classificar? Em banda desenhada, como distinguir o porno do erótico? Engraçado, já em banda desenhada eu leio mais o erorismo pela arte do que propriamente pela recolha mental de material.

E Agora, outra questão, qual é o ponto deste post, juro que não sei. Mas a ditas senhoras no comboio, eram mais corajosas do que eu, a não ser que estivessem a pensar que ninguém saberia pelo título do conteúdo do livro, tendo em conta que a maioria só vê televisão e só conhece as bibliotecas pela fachada, e embora eu pensasse que estou quase livre dos preconceitos sexuais, não estou, pois fiquei chocado naquela altura que senhoras estivessem a ler Fanny Hill em público.