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6 de agosto de 2011

A FORÇA DA FÉ (soneto)


Muitas pessoas se acotovelam 
Porque Jesus desce da montanha,  
O leproso no meio se emaranha 
Para ver esse Jesus por quem velam.  

Mas ao leproso as pessoas não deixam   
Realizar a planeada façanha:   
Achegar-se a Jesus que não se estranha    
Com nada que os homens dele desejam.  

Mas, aumentando o furor da insistência,   
Lá, o leproso, a amálgama passa:   
– Senhor, creio na sua indulgência,  

Se quiser, pode fazer-me sarado. 
«Quero», diz Jesus. E nem lhe abraça,  
O leproso, pela fé, fica curado.






Naquela época, já lá vai tempo, quando escrevi isto, ainda acreditava em Deus e em toda a sua prole cristã, no entanto, apesar de hoje me sentir ateu, ainda acredito na força da fé.

12 de junho de 2011

SE EU NÃO EXISTISSE... (poema)

E SE EU NÃO EXISTISSE...

E se eu não existisse
mas sempre actuasse
nos palcos e socalcos 

desta vida incerta,
e marcas imprimisse 

em quem me aceitasse,
em charcos não parcos 

o punha na certa…

E se eu não existisse 

e apenas vivesse,
urdindo e fruindo 

de sonhos bem tinto
de quem me seguisse 

e me recebesse
benvindo e luzindo 

de modo distinto…

E se eu não existisse e ninguém me visse
mas gentes contentes cantassem-me hinos…
e se eu não existisse, mas mentes ferisse.
eu crentes ardentes tinha e até assassinos…

E se eu não existisse, mas obtivesse posse
das armas que as almas no dentro transportam,
das crenças e crendices, de qualquer fé que fosse,
das karmas e dharmas que em tít’res as tornam…

E se eu não existisse... e o desejo me aguce
p'ras rédeas sem lérias tomar deste mundo,
mentiras, sem crise, que o vero encarapuce,
com sérias ideias espalhava facundo.




Parte da letra de DEUSdaRIMA - o rapper metido a poeta ou o poeta metido a rapper.


..................................................................................................................................
Nota de rodapé:

Quando comecei a cantar hip-hop, como todo o mundo, arranjei para mim um pseudónimo, mudei umas tantas vezes, até escolher XS O GURU. E quando, numa conversa, um amigo referiu-se às estruturas rímicas das minhas letras em contraposição às de muitos rappers que se apelidavam "Reis da Rima", dizendo que nesse sentido eu seria "deus da rima", adoptei, com toda a arrogância inerente ao título, o nome deus da rima, que grafo DEUSdaRIMA. 

3 de junho de 2011

HOMEM DA TERRA, O, 2007 (The Man From Earth)


Definir The Man From Earth (o título em português não é oficial) é muito fácil: estonteante. É um dos melhores filmes que vi este ano.

O seu realizador, Richard Schenkman, ou por ser muito simpático ou por saber que este não é um filme que triunfa no cinema (o filme é independente), deu autorização para ser pirateado e baixado na net por quem quiser, por isso, sem crise de consciência, deixo aqui o link para um site onde o encontrei: download aqui.

A história é formada sobre esta pergunta básica (e insana mesmo para Matusalém, convenhamos): E se alguém pudesse viver 14000 anos?

Sempre gostei de ficção científica, e quase todos os filmes de ficção que eu via ou eram ambientados no futuro ou tinham computadores super-inteligentes, ou aliens, ou armas que cuspiam luz, e a maior parte deles não tinha nenhum outro assunto realmente científico e podiam ser localizados em qualquer outro sítio que não fariam diferença nenhuma. Entretanto, The Man From The Earth (como alguns poucos) consegue ser exactamente o oposto: uma ficção científica que podia acontecer na nossa sala, ou na casa do vizinho, que não recorre a nenhuns efeitos especiais para dar a ideia de sofisticação, aliás, muito pelo contrário a fotografia ora granulada parece muitas vezes amadora e filmada a luz natural e com uma câmara descartável.

São oito pessoas no filme (os sete dias mais Deus, remetendo a Chesterton?), quatro cientistas, uma estudante, uma religiosa, uma amante, e o nosso homem. Entretanto, em hora e meia, todas essas pessoas são definidas e ganham dimensão, conseguimos saber como são e conseguimos isolá-los do grupo e decidir se queremos criar empatia com eles, não há (talvez tiremos a estudante) uma única personagem sem personalidade e clichet, se não contarmos com as características inerentes ao tipo de trabalho de cada um.

trailer

Eis o resumo: um professor universitário, depois de dez anos decide mudar de cidade, e recebe uma visita de despedida dos seus melhores amigos e ali conta-lhes que tem 14000 anos e que veio do paleolítico. A partir daqui segue o drama, a comédia, a filosofia, a psicologia, a História e o homem (a ciência e a fé, ora fundidas, ora divididas).

O cenário é bem resumido, mas o campo abarcado pelo filme é bastante, bastante extenso, e o filme cativa desde os primeiros minutos, principalmente porque começa com o essencial, o resumo acima acontece nos primeiros cinco minutos, o resto é do melhor. Raras vezes me diverti, me emocionei e aprendi ao mesmo tempo como com este filme. As suas falhas (como o facto de ele ter conhecido todas as pessoas notórias da antiguidade), e algumas soluções fáceis, são bem desculpáveis considerando o quadro geral. Além de ser uma prova de que não é uma carrada de dinheiro que faz um bom filme.

Conclusão: altamente recomendável.





29 de dezembro de 2010

BAUDOLINO, Umberto Eco (2000) - uma história de hoje


Esta visão já tem um ano, só a estou a transcrever.


Fechei Baudolino, de Umberto Eco, um autor muito bom na minha opinião (o que não conta nada, sendo que ele é considerado um dos melhores literatos vivos), que ensina a História e a Filosofia, através das lendas nos seus escritos ao mesmo tempo que vai contando a sua história, pelo menos nas duas das três obras de ficção que li dele: este Baudolino e O Nome da Rosa, mostrando também o fascínio que lhe inspira a Idade Média.


A outra obra que li dele, Apocalípticos e Integrados, diz que detrás da aparente superficialidade com que conta as suas histórias se esconde reflexões sérias, e se esta obra era totalmente académica, a sua revisita em modo mais ficcional, n’A Misteriosa Chama de Rainha Loana, onde ele apresenta um género literário totalmente novo (pelo menos para mim, que não conheço outro exemplo), percebe-se a riqueza das leituras e todo o universo que esse mundo pode conter.

Mas estava a falar de Baudolino. Baudolino, o personagem, é o filho de pobre aldeão que é adoptado por um rei, o arquétipo que a nossa sociedade adora (aquele que os americanos chamariam de self-made-man), o sonho de qualquer pobre, marcando assim o seu lado fabuloso, considerando que os contos de fadas e mitologias diversas estão repletos de personagens como ele. Baudolino é o Gato das Botas (não pensem em Shrek, pelo amor de deus, mas em Perrault), aquele que do nada cria um mundo, tal como um Deus, usando o verbo e mexendo na cabeça das pessoas. Mas ele é humano, rompendo-se assim com as fábulas, não é o pastel bidimensional, mas um homem que por vezes antipatizamos e odiámos e pomos em questão as suas acções. Porém este é Baudolino como personagem.

Baudolino como livro é deveras divertido. A história decorre durante a Idade Média – a Idade das Trevas (como lhe chamam os historiadores) -, as situações e as personagens são tão caricatas que muitas vezes pensámos: como é que as pessoas não viam o embuste atrás disto? Bem, se calhar por que nós da Idade Moderna (Idade da Informação ou das Luzes – não sei como a chamam) somos melhores ilustrados e mais inteligentes. Mas é aí o ponto forte de Baudolino, porque consegue estabelecer comparações e mostrar que somos tão estúpidos, crentes e manipuláveis como os da Idade das Trevas, querendo assim dizer que, provavelmente somos ainda mais estúpidos do que aqueles, porque embora tenhamos informação, deixamo-nos manipular, ou por outras palavras, por sermos muito informatizados, a manipulação vem através dela, tal como na Idade Média ela acontecia pela religiosidade. Em suma, pode-se dizer: os deuses mudaram, mas as pessoas não.

Baudolino viaja pelas lendas cristãs, tal como o Santo Graal, o santo Sudário, entre outras asnices do universo mitológico cristão, inclina-se sobre o espírito universitário, que, surpresa!, ainda não mudou séculos volvidos, ainda olha para a relação do poder entre os reis e reinos (hoje países e políticas), do qual vou citar um episódio: um rei apoia um povo para construir uma cidade, depois alia-se à outra cidade para atacar aquela que tinha ajudado a construir (isto não passa nos noticiários hoje?).

Baudolino não é daqueles livros que te obrigam a voltar a página seguinte com a avidez de o que vem depois, mas instiga a curiosidade obrigando-se a ser folheado por: o que vai inventar depois o personagem (acaba por ser o mesmo, não?). 

Baudolino parece um conjunto de contos, e se calhar é, mas é um romance, uma relegenda de lendas. Uma das grandes perguntas ao ler o livro é: até que ponto o que sabemos corresponde ao que é?



E Baudolino é atemporal, as reflexões que pode despertar sobre os homens de outrora e a forma de agir deles estampam-se à perfeição àquelas que devemos fazer sobre os homens hodiernos.

Baudolino é uma leitura obrigatória para qualquer cristão, considerando que fala da religião, e para qualquer um com olhar para a actualidade.

20 de outubro de 2009

DEUS E LÓGICA NÃO COMBINAM

Vezes e vezes recebi um mail, em todas as formas possíveis de mensagens correntes, em powerpoint, jpgs, simples textos, recomendando mandar seguir para não ter azar posteriormente. Hoje, apanhei de novo esse texto e resolvi responder.A primeira parte disto trata-se do referido texto. A segunda a minha resposta.


PRIMEIRA PARTE

Um professor ateu desafiou seus alunos com esta pergunta: – Deus fez tudo que existe? Um estudante respondeu corajosamente: – Sim, fez!– Deus fez tudo, mesmo? – Sim, professor – respondeu o jovem. O professor replicou: – Se Deus fez todas as coisas, então Deus fez o mal, pois o mal existe, e considerando-se que nossas acções são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mal. O estudante calou-se diante de tal resposta e o professor, feliz, se vangloriava de haver provado uma vez mais que a Fé era um mito. Outro estudante levantou sua mão e disse: – Posso lhe fazer uma pergunta, professor? – Sem dúvida, – respondeu-lhe o professor. O jovem ficou de pé e perguntou: – Professor, o frio existe? – Mas que pergunta é essa? Claro que existe, você por acaso nunca sentiu frio? O rapaz respondeu: – Na verdade, professor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é ausência de calor. Todo corpo ou objecto pode ser estudado quando tem ou transmite energia, mas é o calor e não o frio que faz com que tal corpo tenha ou transmita energia. O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe. Criamos esse termo para descrever como nos sentimos quando nos falta o calor. E a escuridão, existe? – continuou, o estudante. O professor respondeu: – Mas é claro que sim. O estudante respondeu: – Novamente o senhor se engana, a escuridão tampouco existe. A escuridão é na verdade a ausência de luz. Podemos estudar a luz, mas a escuridão não. O prisma de Newton decompõe a luz branca nas várias cores de que se compõe, com seus diferentes comprimentos de onda. A escuridão não. Um simples raio de luz rasga as trevas e ilumina a superfície que a luz toca. Como se faz para determinar quão escuro está um determinado local do espaço? Apenas com base na quantidade de luz presente nesse local, não é mesmo? Escuridão é um termo que o homem criou para descrever o que acontece quando não há luz presente. Finalmente, o jovem estudante perguntou ao professor: – Diga, professor, o mal existe? Ele respondeu: – Claro que existe. Como eu disse no início da aula, vemos roubos, crimes e violência diariamente em todas as partes do mundo, essas coisas são o mal. Então o estudante respondeu: – O mal não existe, professor, ou ao menos não existe por si só. O mal é simplesmente a ausência de Deus. É, como nos casos anteriores, um termo que o homem criou para descrever essa ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a Fé ou o Amor, que existem como existe a Luz e o Calor. O mal resulta de que a humanidade não tenha Deus presente em seus corações. É como o frio que surge quando não há calor, ou a escuridão que acontece quando não há luz. Texto que circula na Internet. Autor desconhecido.




SEGUNDA PARTE

Os colegas ficaram todos embasbacados com a resposta do estudante e começavam já a pensar se não deviam converter-se para a religião do brilhante colega que conseguiu reduzir a zero as pretensões de superioridade ateia do professor. Mas antes que tivessem oportunidade de o fazer, levanta-se um outro aluno e pede licença para falar.– Primeiro, reconheceria como bom o argumento do meu colega, se não fosse falacioso. Ele falou da inexistência do frio e do escuro, dizendo que a física não os estuda, mas apenas aos seus opostos, o calor e a luz, respectivamente. Depois falou da inexistência do mal no mesmo termo, classificando o mal como um conceito físico e não moral. Não devia estabelecer uma comparação directa entre os dois conceitos, pelo menos se não for de forma alegórica. Porém aceitando a sua justificação de que o mal é a ausência de Deus prova-se a inexistência deste pelas mesmas razões pelo colega apresentadas: Nós podemos medir e classificar o mal, através de estatísticas, dizendo quantos foram mortos, quantos foram assaltados, quantos foram violentados, classificando o tipo de morte, de assalto e de violação, podemos contabilizar de diversas maneiras as consequências do que chamamos de “mal”, e durante essa contabilização, podemos incluir autocarros explodidos, cidades invadidas, inocentes mortos em nome do sempre presente Deus, podemos incluir crianças violadas, pessoas intrujadas, casamentos e famílias desfeitas em nome de Deus, podemos incluir paranóias agudas, roubos de identidade e de liberdade de pensamento em nome de Deus, de tal maneira que Deus e Mal seriam sinónimos e não opostos como o colega quis mostrar. E se, o mal é ausência de Deus, e sendo que a toda a hora constatamos a presença do mal, significa que Deus nunca está presente, pois o escuro desaparece com a luz, e se Deus equivale a luz, não poderia de forma alguma existir o mal. Além de mais, a existência do mal é uma negação à omnipresença de Deus, sendo que Deus seria um mentiroso por se ter afirmado omnipresente.



Texto de Marinho de Pina




TERCEIRA PARTE


E o colega respondeu: – [alguém?]...

30 de abril de 2008

OS NOVE POLÍCIAS

O texto pertence a Mark I. Vuletic e foi catado do site www.ateus.net (link).


Anteriormente intitulado “Os Cinco Polícias” (2000), Vuletic atualizou este ensaio para incluir mais pontos de vista, agora nove ao todo.

Quando a Sr.ª K. foi lentamente violada e assassinada por um criminoso comum durante uma hora e cinqüenta e cinco minutos, à vista de nove polícias completamente armados que estavam fora de serviço e que ignoraram os gritos aterrorizados dela suplicando por ajuda e que se limitaram a olhar até que o ato foi levado ao seu fim horrível, dei por mim enfrentando uma crise pessoal. Os polícias tinham sido meus amigos pessoais muito próximos, mas agora vi a minha confiança neles completamente abalada. Felizmente, pude falar com eles depois e perguntei-lhes como puderam simplesmente ficar ali sem fazer nada, quando podiam ter facilmente salvo a Sr.ª K.

“Pensei em intervir”, disse o primeiro polícia, “mas ocorreu-me que obviamente era melhor para o assassino poder exercer o seu livre-arbítrio do que tê-lo restringido. Lamento profundamente as escolhas que ele fez, mas esse é o preço a pagar por se ter um mundo com agentes livres. Você preferiria que todas as pessoas do mundo fossem robôs? As ações do atacante com certeza não estavam sob o meu controle, portanto não posso ser responsabilizado pelas ações dele”.

“Bem”, disse o segundo polícia, “a minha motivação era um pouco diferente. Estava prestes a puxar a minha arma contra o assassino quando pensei: ‘Mas espere, não seria esta uma oportunidade perfeita para algum transeunte desarmado exercer heroísmo altruísta, caso passasse por ali? Se interviesse todas as vezes, como estava prestes a fazer, então ninguém poderia jamais exercer tal virtude. De fato, provavelmente ficariam todos muito mal habituados e centrados em si mesmos se impedisse todos os atos de violação e assassínio’. Foi por isso que não fiz nada. É pena que ninguém tenha aparecido para intervir heroicamente, mas esse é o preço a pagar por se ter um universo onde as pessoas podem mostrar virtude e maturidade. Você preferiria que o mundo fosse todo amor, paz e rosas?”

“Nem sequer considerei a hipótese de intervir”, disse o terceiro polícia. “Provavelmente tê-lo-ia feito se não tivesse tanta experiência da vida como um todo, pois a violação e o assassínio da Sr.ª K. parecem bastante horríveis quando considerados isoladamente. Mas quando você os coloca no contexto com o resto da vida, de fato acrescentam algo à beleza geral da imagem maior. Os gritos da Sr.ª K. eram como as notas discordantes que tornam uma excelente peça musical ainda melhor do que se todas as suas notas fossem perfeitas. De fato, quase não consegui evitar acenar com as minhas mãos à volta, imaginando que eu próprio estava a dirigir as deliciosas nuances da orquestra”.

“Quando cheguei ao local, de fato saquei o revólver e apontei-o mesmo à cabeça do violador”, confessou o quarto polícia, com um olhar muito culpado na face. “Estou profundamente envergonhado de ter feito isso. Sabes quão perto cheguei de destruir todo o bem do mundo? Quero dizer, todos sabemos que não pode haver qualquer bem sem mal. Felizmente, lembrei-me disso mesmo a tempo, e invadiu-me uma onda de náusea tão forte quando me apercebi do que quase tinha feito, que fiquei prostrado no chão. Safa, foi por pouco”.

“Olha, é realmente inútil tentar explicar-te os detalhes”, disse o quinto polícia, a quem tínhamos posto a alcunha ‘Crânio’ porque tinha um conhecimento enciclopédico de literalmente tudo e um QI que rebentava com a escala. “Há uma excelente razão pela qual não intervim, mas é demasiado complicada para tu perceberes, por isso nem sequer me vou dar ao trabalho de tentar explicar. No entanto, para que não haja qualquer mal-entendido, deixa-me sublinhar que ninguém podia ter se preocupado com a Sr.ª K. mais que eu, e que sou, de fato, muito boa pessoa. Isto resolve o assunto”.

“Teria defendido a Sr.ª K.”, disse o sexto polícia, “mas isso simplesmente não era exeqüível. Você está a ver, quero que toda gente acredite livremente que sou boa pessoa. Mas se interviesse constantemente quando ocorrem violações e assassínios, isso forneceria a todos a evidência de que precisam sobre a minha bondade, e desse modo forçá-los-iaa acreditar que sou bom. Consegue imaginar uma violação do livre-arbítrio mais diabólica que essa? Obviamente, foi melhor afastar-me e deixar a Sr.ª K. ser violada e assassinada. Agora todas as pessoas podem escolher livremente acreditar na minha bondade”.

“Vou contar-lhe um segredo”, disse o sétimo polícia. “Momentos depois de a Sr.ª K. ter falecido, fiz com que ela ressuscitasse e fosse transportada para uma ilha tropical onde está agora gozando bênçãos extraordinárias, e o sofrimento dela não passa de uma memória distante. Estou certo que você concordará que isso é uma compensação mais do que adequada para o sofrimento dela, portanto o fato de ter simplesmente ficado ali a olhar em vez de intervir não tem nada que ver com a minha bondade”.

O oitavo polícia surpreendeu-nos todos quando revelou um segredo surpreendente sobre a Sr.ª K. “Criei-a através de engenharia genética a partir do nada. Eu a fiz, portanto é minha propriedade, e posso fazer o que quiser com ela. Eu próprio podia violá-la e assassiná-la se estivesse inclinado a fazê-lo, e isso não teria sido pior do que você rasgar uma folha de papel que lhe pertence. Portanto, não se põe a questão de eu ser uma má pessoa por não ajudá-la”.

E, por fim, falou o nono polícia. “Contratei o oitavo polícia para criar a Sr.ª K. para mim, pois queria alguém que me amasse e adorasse. Mas quando abordei a Sr.ª K. sobre o assunto, ela afastou-se de mim, como se conseguisse encontrar significado e felicidade com outra pessoa qualquer! Por isso decidi que a coisa amorosa a se fazer seria vergar o espírito dela fazendo com que fosse violada e assassinada por um criminoso comum, para que ela, no seu extraordinário sofrimento, se virasse para mim, cumprindo assim o propósito para o qual ela tinha sido criada. Bem, estou feliz por dizer: missão cumprida! Alguns segundos antes de morrer, ela estava tão enlouquecida com o terror, a dor e o desespero que, de fato, convenceu-se de que me amava, pois sabia que só isso poderia pôr fim ao sofrimento. Nunca esquecerei o amor nos seus olhos quando me olhou uma última vez, suplicando por misericórdia, mesmo antes de o criminoso se inclinar e lhe cortar a garganta. Foi tão belo que ainda me traz lágrimas aos olhos. Agora só tenho de ir àquela ilha para que ela possa reclamar o prêmio por me ter servido”.

Nesta altura, tinha ficado claro para mim que qualquer dificuldade que pudesse ter tido em reconciliar a suposta bondade dos polícias com o seu comportamento naquele dia era infundada, e que qualquer pessoa que tomasse posição contra eles, só o podia fazer por gostar da vitória do mal sobre o bem. Afinal, qualquer pessoa que tenha experimentado a amizade deles do mesmo modo que experimentei sabe que são bons. A bondade deles até é manifestada na minha vida – eu estava num estado de confusão mental antes de os conhecer, mas agora todas as pessoas reparam na pessoa mudada que sou, muito mais bondoso e feliz, visivelmente possuído de uma calma interior. E encontrei tantas pessoas que se sentem exatamente da mesma maneira sobre os polícias – tantas pessoas que, como eu, conhecem em seus corações a verdade que outros tentam racionalizar com seu frio raciocínio e sua lógica estéril. Estou envergonhado de alguma vez ter duvidado que os nove polícias merecem a minha lealdade e amor.

Quando me preparava para ir embora, o primeiro polícia falou outra vez. “A propósito, também acho que deves saber que quando ficamos ali a ver a Sr.ª K. sendo violada e apunhalada vez após vez, nós estávamos a sofrer juntamente com ela, e sentimos exatamente a mesma dor que ela, ou talvez até mais”. E todos que estavam ali, incluindo eu, acenaram a cabeça concordando.



Pós-escrito

Líderes religiosos, não fiquem ofendidos. Fiz esta parábola de forma tão descarada quanto pude, mas o meu objetivo não é insultar ou blasfemar. Reparei que crentes religiosos são muitas vezes condicionados a aceitar soluções simplistas para o problema do sofrimento, e que é impossível abalar esse condicionamento através de uma análise fria. A tentação de oferecer a uma entidade um cheque em branco simplesmente porque alguém lhe colou o rótulo de “Deus” é esmagadora na nossa cultura teísta. Daí esta tentativa de enfatizar a questão através de um meio tão afastado da análise fria quanto possível. Mas, repito, é para enfatizar esta questão, não é para ferir ninguém. Não escrevi nada que não desejasse que me fosse dirigido quando eu próprio era um crente religioso.



Agradecimentos

Gostaria de agradecer a Michael S. Valle e Jeffery Jay Lowder por reverem versões anteriores deste artigo.

11 de março de 2008

ESCLARECENDO A BÍBLIA



Encontrei o texto que se segue num site chamado www.ateus.net.


Laura Schlessinger é uma personalidade do rádio americano que distribui conselhos para pessoas que ligam para seu show.

Recentemente [bom, não sei quão recente] ela disse que a homossexualidade é uma abominação de acordo com Levíticos 18:22 e não pode ser perdoada em qualquer circunstância. O texto abaixo é uma carta aberta para Dra. Laura, escrita por um cidadão americano e também disponibilizada na Internet.

“Cara Dra. Laura

Obrigado por ter feito tanto para educar as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas pessoas quantas posso. Quando alguém tenta defender o homossexualismo, por exemplo, eu simplesmente o lembro que
Levíticos 18:22 claramente afirma que isso é uma abominação. Fim do debate. Mas eu preciso de sua ajuda, entretanto, no que diz respeito a algumas leis específicas e como segui-las:

1. Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que isso cria um odor agradável para o Senhor (Levíticos 1:9). O problema são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para eles. Devo matá-los por heresia?

2. Eu gostaria de vender minha filha como escrava, como é permitido em
Êxodo 21:7. Na época actual, qual você acha que seria um preço justo por ela?

3. Eu sei que não é permitido ter contacto com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (
Levíticos 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a ela? Eu tenho tentado, mas a maioria das mulheres toma isso como ofensa.

4.
Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses. Você pode esclarecer isso? Por que eu não posso possuir canadenses?

5. Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados.
Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo mesmo?

6. Um amigo meu acha que mesmo que comer moluscos seja uma abominação (
Levíticos 11:10), é uma abominação menor que a homossexualidade. Eu não concordo. Você pode esclarecer esse ponto?

7.
Levíticos 21:20 afirma que eu não posso me aproximar do altar de Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100%, ou pode-se dar um jeitinho?

8. A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos 19:27. Como eles devem morrer?

9. Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (
Levíticos 11:6-8), mas eu posso jogar futebol americano se usar luvas? (as bolas de futebol americano são feitas com pele de porco).

10. Meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levíticos 19:19 plantando dois tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também viola Levíticos 19:19 porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes de tecido (algodão e poliéster). Ele também tende a xingar e blasfemar muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para apedrejá-los (Levíticos 24:10-16)? Nós não poderíamos simplesmente queimá-los em uma cerimónia privada, como deve ser feito com as pessoas que mantêm relações sexuais com seus sogros (Levíticos 20:14)?

Eu sei que você estudou essas coisas a fundo, então estou confiante que possa ajudar. Obrigado novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e imutável. Seu discípulo e fã ardoroso.”

14 de fevereiro de 2008

E O AMOR É...

O Amor tem várias definições conforme os seus definidores.

Entretanto, seja como for, todas essas definições têm algo em comum: o amor é sempre alguma coisa. Ninguém se lembra que o amor podia ser apenas amor, e não o transvertir em definições duvidosas que dependem de uma determinada época para serem aceites. E eu como não sou diferente dos demais, também defino o amor à minha maneira.

Após um longo tempo de análise e passeando por diversas perspectivas do amor, cheguei á conclusão de que o amor é meramente uma desculpa para as pessoas terem sexo de consciência tranquila. Devo explicar? Não tem problema, cá vai ela.

Quando se pergunta por estas bandas o que é amor, duvido que a pergunta se refira ao tipo de amor que os irmãos têm entre si, que os pais têm para os filhos (ágape dos gregos), que os amigos têm (aliás, isso até é chamado de amizade, os gregos: filia), porém do amor erótico (eros, dos gregos – parece que eles são mais inteligentes e sabem diferenciar melhor estes sentimentos), ou melhor, para desanuviar o termo desse tom pesado: o amor entre homem e mulher.

Agora, se estivermos de acordo quanto ao que disse lá em cima, vamos pensar: qual é a manifestação suprema do amor erótico? Quando os namorados pedem prova de amor, o que é que pedem? Nos filmes, quando duas pessoas estão apaixonadas ou se amam como é que o mostram? Acho a resposta óbvia: fazem sexo, e para não se sentirem sujas ou imorais, preferem o termo: fazer amor. 


Mas todos sabemos que a fisiologia dos dois actos é o mesmo, e mesmo quando um dos dois pensa que está a fazer amor (com floreados) outro pode pensar que está a fazer sexo (seco e directo). Agora, falando do sexo; com quem é que as meninas sonham perder a virgindade? Com a pessoa que amam, a pessoa que vai ficar ao seu lado a vida inteira (eh, eis outra característica do amor ou da lavagem cerebral social).


Agora, basta disso tudo. Pensando na nossa condição de animal e tendo o sexo como um acto que nos é natural (embora muitos não o considerem uma necessidade homeostática porque, dizem, ninguém morre de não fazer sexo), e vindo no tempo até aparecerem as religiões que proíbem relações sexuais e fazem do sexo um acto impróprio e imundo a não ser quando praticado com o cônjuge (posteriormente – porque não se pôde domar o animal – com a pessoa que se ama). 

Todos sabemos como os romanos e os gregos glorificavam o nu, e como o nu agora é visto de través; como os templos indianos eram ornamentados com figuras kamusútricas sem que isso ofendesse a ninguém (aliás, hoje fazem as delícias dos turistas); em suma, depois do cristianismo o sexo tornou-se mau, muito mais mau do que sempre foi. 


Fomos educados a vê-lo assim e não podemos fazer nada contra isso. Mas também nos foi ensinado que sexo é puro e divino quando é praticado com amor… e é disso que estou a tentar falar há muito tempo. 


Quando vemos num filme ou numa leitura duas pessoa a terem sexo, valorizámos mais isso quando a história diz que existe amor entre elas, aliás, até somos mais tolerantes com os homossexuais quando dizem que se amam. Aliás, quando queremos ir para a cama com uma pessoa, não é dizendo-lhe que a amamos o caminho mais rápido?

9 de novembro de 2006

SERÁ O SEXO SUJO?

Entrámos no quarto, o calor era tanto, todo o nosso corpo estava em ebulição, as roupas começaram a abandonar o nosso corpo, precisávamos de satisfazer a nossa fome animal.


A citação não é de ninguém, de momento não me ocorre nenhum escritor conhecido que tenha usado frase semelhante, mas frases do género abundam na literatura, principalmente na literatura cor-de-rosa barata. Fi-la para poder perguntar: por que raio o sexo é considerado animal? Por que é que a nossa animalidade tem que se reflectir no sexo? Será que todos os impulsos homeostáticos são animais (embora o sexo não seja enquadrado por alguns nessa tabela, porque se considera que não põe em risco a existência do indivíduo)? O que quero discutir não é se o sexo é ou não um impulso homeostático, mas sim se é animal, ou melhor, se for animal, se é sujo.

Silogisticamente, se nós somos animais, e os impulsos são nossos, logo os nossos impulsos são (de) animais. Mas não se trata disso, porque quando referem ao sexo como impulso animal relegam-no ao plano da nossa primitividade. E isso por quê? Porque sexo é algo com que todos os animais praticam, ou porque é algo que já foi praticado pelos nossos antepassados da caverna? Mas, se foi por esses motivos que o chamam de animal, eu pergunto se comer, beber, respirar e defecar não serão também impulsos animais. E... diferentemente dos animais, nós possuímos algo chamado sexualidade.


Um punhado de moralista de toda a sorte e a Igreja (principalmente a Igreja) resolveram considerar o sexo impudico (animal), algo que um homem de bom senso deveria praticar com moderação (e como definem a moderação neste caso: sete vezes por semana, tês vezes por dia, uma vez por mês, só no natal e nos feriados?), e para agravar conectaram umas séries de palavras que se relacionam com o sexo ao impudor. Já ninguém pode dizer foder, cona ou outras palavras do género, porque é devasso. Mas até aceitam, em certos contextos, que se diga pénis, vagina, fazer amor e muitas outras coisas como se a imagem que a palavra pénis invoca não fosse igual à invocada pela palavra caralho. E, condenando o significante, condenaram também o significado.


O nudismo, embora esteja a ser praticado cada vez em mais larga escala é ainda considerado uma espécie de depravação, porém recuemos à era dos criadores da democracia – uma das culturas mais admiráveis até agora – e veremos homens nus a praticar desporto nas olimpíadas, sem que isso constituísse um escândalo; lemos poesias latinas e vemos que cantam o falo (estão a ver que até não digo pila) e a vagina, sem que se tratasse de devassidão ou pornografia.

Acho a nossa cultura demasiado hipócrita e pretensiosa, prenhe de pessoas que praticam uma coisa, gostam de praticá-la, mas dizem que é suja.

Vamos lá perguntar: quem é que anda com a boca tapada? Ninguém (tirando o Michael Jackson). Não, ninguém tapa a boca, só temos que tapar as partes ligadas ao sexo, os genitais, as mamas e o rabo… mas não será a boca também um órgão sexual? Aliás, o maior órgão sexual. Não é a boca que faz elogios, que convida o parceiro, que combina o sexo, que começa os beijos, que faz um broche ou um minete (desculpem se eu não disse felação ou cunnilingus - cona-língua - mas não seria mais explícito?)? Já Freud falava da boca como o primeiro ponto de erotismo, ou melhor, o primeiro órgão erótico de um indivíduo. E, na minha opinião, a boca é o mais desenvolvido órgão sexual que existe. Mas ninguém censura a boca, nem é indecente dizer boca, enquanto que dizer caralho já é.

Por exemplo, costumamos ler: Ele saiu da água e escondeu com as mãos as suas partes vergonhosas. É uma citação muito frequente, chamar ao sexo (órgão sexual) de partes vergonhosas. Eu pelo menos não tenho vergonha do meu sexo, e, para dizer a verdade, se não sou nudista talvez não seja por causa de mostrar o meu sexo, mas sim das minhas canelas que são tortas. Sim, as minhas partes vergonhosas são as minhas canelas. E o que para os outros devia ser a minha parte vergonhosa, só me envergonha por ser pequeno.

Li algures uma anedota sobre a mulher de um sultão que caiu do camelo e deixou as suas partes vergonhosas (as palavras são deles) expostas ao olhar de toda a gente, e o sultão ficou contente porque a cara da mulher não se mostrou. Então, afinal, qual é mesmo a parte vergonhosa? Também já vi documentários sobre tribos que nem sequer andavam com tanga, mas a câmara evitava decentemente filmar a parte genital. Se a eles não causa nenhum mal andarem nus, e se não fazem balbúrdia por causa de sexo (eles, considerados primitivos), por que raio fazemos nós (que nos consideramos a nós mesmo super-civilizados)?

Eu não pretendo apelar a pessoas a aderirem ao nudismo, nem que andem a dizer na rua palavras que certamente a maioria consideraria palavrões e indecências, mas sim para nos tornarmos indulgentes com as pessoas que usam dessas palavras, porque são apenas palavras e servem para representar algo. 

Se não é devassidão falar de Deus, porque é Ele que nos dá a vida, por que será devassidão falar do sexo se é através dele (e de todos os seus componentes) que ganhamos a vida?