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21 de junho de 2012

FEITIÇO DO TEMPO, O, 1993 (Groundhog Day)


O Feitiço do Tempo foi o filme que me calhou esta semana (já não sei qual semana, porque há já meses que tinha isto para transcrever); não gosto de rever filme, principalmente quando há muitos em fila a clamar pela minha atenção, no entanto tem aqueles que não conseguimos deixar de acarinhar… e este é um dos meus.

Não vou falar de Bill Murray, nem de Andie MacDowell (como é hábito não fazer, embora por vezes não consiga evitar), resumo os dois nisto: funcionam bem juntos.

O Feitiço do Tempo, por causa da abordagem, não parece um daqueles filmes que grita furiosamente: qual é o sentido da vida?, aliás, nem faz a pergunta, apenas ensina qual é o sentido da vida. Analisado o trama, é análogo aquelas teorias hindus de reencarnação, com a diferença de que aqui, o herói (ou a vítima) tem o conhecimento da sua vida anterior. Também o filme parece um dos inúmeros ensaios de Phillip K. Dick: e se eu tivesse o conhecimento do futuro? Um filme similar ao feitiço do tempo é “12:01”, similar na premissa, mas diferente na abordagem… e na qualidade, é claro.

Eis o enredo: Phill é um jornalista do tempo (isso faz sentido?), muito arrogante, egocêntrico e convencido da sua importância, que ao cobrir um acontecimento inútil e irrelevante numa cidade fica preso no mesmo dia, repetindo-o vezes e vezes sem conta. Torna-se desesperadamente solitário, visto ser o único que percebe que o dia não muda, e o seu único consolo acaba por ser a sua colega, Rita, por quem se apaixona e tenta diariamente fazer-lhe ficar apaixonada por ele.

trailer


Há diversas maneiras de abordar O Feitiço do Tempo, mas eu prefiro este: O que eu faria se eu tivesse o conhecimento do futuro? Aqui, por os dias serem todos iguais, o fardo é acrescido, porque não só se tem o conhecimento do futuro, como a monotonia é tanta que não faz sentido ficar nela preso; e por os dias serem o mesmo deixa de existir o Tempo: o futuro e o passado acabam por ser um eterno presente.

Se o filme tivesse um monte de frases filosóficas e tretas esotéricas à la Matrix (e houvesse o hype internáutico) poderia ter sido um cultuado filme de ficção científica, porém, embora aborde uma questão séria (?) ele não passa de uma comédia moralista para um domingo à tarde, que fala fundamentalmente de “egoísmo, abnegação e altruísmo”, estes últimos tornando-se a chave para resolver a questão, ficando a moral da história a ser:  a vida não tem graça se for vivida hedonisticamente, e a melhor forma de usá-la é em função dos outros.

Outra maneira de abordar o filme é a forma desconcertante como Phil tem manipulado os outros ao seu redor, com o conhecimento do que vai acontecer, e como o conhecimento é poder.  

Mas... como bónus, o filme tem uma óptima banda sonora.

23 de abril de 2012

A SOMBRA - HANS CHRISTIAN ANDERSEN (parte 1)

Quando criança, eu não gostava muito de Hans Christian Andersen, porque os seu contos eram, para mim, cruéis e demasiado trágicos, e considerando que eu estava mais habituado aos contos de faz-de-conta de Perrault, Grimm e companhia, e aos seus finais felizes e nada realistas, não conseguia atinar com as razões dos contos de Andersen serem tão lúgubres. 

Levei metade da minha vida até começar a perceber as razões, ou as supostas razões de Andersen, e começar a ver que os seus contos afinal espelham mais a realidade do que o ideal cor-de-rosa com que as crianças são alimentadas, como uma forma de as proteger da dureza do mundo real; embora os contos de Andersen manifestem um determinado tipo de esperança no final que nos leva a achar que tudo acabou bem (alguém se lembra do final d' O Labirinto de Fauno '?'), eles ainda continuam a mostrar a moral do nosso mundo, e manifestam um teor filosófico, podendo desta forma servir tanto para ilustrar adultos como crianças, sem perder o encanto e a magia. Os contos de Andersen, no entanto, apesar de gostar, deles, não os recomendo a crianças de tenra idade (pelo menos se não na versão Disney). 

Como quero falar aqui de um conto em particular, A SOMBRA, vou separar este post em duas partes, esta primeira servindo de introdução e apresentação do referido conto, que vou em seguida mostrar (está em português do Brasil, mas who cares?), e a segunda vai tentar dissecar o conto em si, e, mais ou menos, o grosso do trabalho de Andersen.



A SOMBRA
Hans Christian Anderson


Nos países quentes, o sol possui um outro ardor que o nosso não tem. As pessoas tornam-se acajus. Nas regiões mais quentes ainda, chegam a ser negras. 


Mas foi justamente para um desses países cálidos que um sábio de nossos países frios resolveu ir. Imaginava que poderia circular por ali como em nossa pátria; mas logo se desiludiu. 

Assim como todas as pessoas razoáveis, ele era forçado a ficar em casa, com as venezianas e as portas fechadas durante o dia inteiro. Dir-se-ia que todos dormiam na casa, ou que esta não era habitada. Além do mais, a rua onde ele morava ficava situada de tal maneira, que desde manhã o sol batia na casa toda. Era verdadeiramente insuportável. 

Este sábio dos Países frios era um homem jovem e inteligente. Parecia-lhe estar sobre um fogo em brasa. Como sofria. Emagrecia ao extremo, mesmo sua sombra diminuía. Estava bem menor do que em sua pátria. Estava ficando assim por causa do sol. Só se animava à noite, quando o sol desaparecia. Então era um prazer vê-lo e à sua sombra. 

Assim que ele levava a luz para o apartamento, a sombra se alongava na parede até o teto. Crescia e se estendia a fim de refazer as forças. O sábio ia para a varanda e assim que as estrelas luziam no céu claro, ele era inundado de uma vida nova. Em todas as varandas rua – e nos países quentes quase todas janelas possuem a sua varanda – as pessoas se mostravam. Pois é preciso tomar ar, mesmo quando se está acostumado a ser acaju. 

A vida se manifestava em todas as formas. Muitas pessoas andavam pelas ruas; levavam para fora as mesas e cadeiras; havia luzes por todos os lados. 

Conversavam e cantavam; havia uma multidão de transeuntes e de carros. Cavalos e mulas passavam tilintando, pois possuíam campainhas. 

Enterravam seus mortos em meio aos cânticos; as crianças faziam barulho; os sinos das igrejas tocavam. Havia vida e movimento nas ruas. Somente a casa que ficava em frente à do sábio estrangeiro permanecia silenciosa. 

No entanto, ali devia habitar alguém; pois na varanda havia flores que aproveitavam esplendidamente o calor do sol, o que não seria possível se não fossem regadas, o que queria dizer que alguém as regava. 

Forçosamente morava alguém naquela casa. Além do mais, a porta se abria também à noite; mas o interior era sombrio, pelo menos no primeiro aposento, pois ouvia-se música vinda do fundo. Esta parecia ao sábio incomparavelmente bela. 

Talvez fosse fruto da sua imaginação: ele acharia tudo maravilhoso nos países cálidos, se o sol não fosse tão forte. O senhorio do estrangeiro dizia não saber quem alugara a casa em frente: jamais se via alguém. Quanto à música, na sua opinião, era muito enfadonha; achava que uma criatura exercitava uma peça muito difícil para ela, e, já que não conseguia tocá-la satisfatoriamente, tornava a recomeçá-la. 

- Acabará conseguindo, não há dúvida. 

Mas por mais que tocasse, não o conseguia. Certa noite o estrangeiro acordou. Ele dormia perto da porta aberta da varanda, da qual pendia uma cortina que balançava ao vento. Pareceu-lhe que da varanda em frente vinha uma luz extraordinária. No meio das flores que brilhavam com as cores mais magníficas, encontrava-se uma jovem amável e bonita. Parecia até que ela também brilhava. Ele ficou completamente cego; lá não havia nada de extraordinário; ele abrira demais os olhos e acabava de sair do sono. De um salto, ele abriu a cortina. Mas a moça desaparecera e, com ela, toda a luminosidade. As flores não – brilhavam mais e só tinham a sua beleza costumeira. 

A porta estava encostada. E do fundo do apartamento vinha uma música agradável, suave, própria para despertar os mais doces pensamentos. Era um verdadeiro encantamento. Quem moraria ali? E onde ficava a entrada? No rés-do-chão as boutiques se seguiam e era impossível passar por ali constantemente. Certa noite, o estrangeiro estava também na sua varanda. Atrás dele, em seu quarto, a luz estava acesa. E assim, era natural que sua sombra se desenhasse na parede em frente. Sim, ela estava lá, na varanda, no meio das flores, e de cada vez que o estrangeiro fazia um movimento, a sombra fazia outro correspondente. 

- Creio que minha sombra é tudo o que possa existir de vivo lá dentro – disse o sábio. – Como é ela graciosa assim no meio das flores! A porta não está senão encostada. Ela poderia ser bem sabida para entrar, examinar o que há no interior, e, ao voltar, contar-me o que viu. Sim, sim – disse ele brincando. – Você bem podia prestar-me esse serviço. Faça o favor de entrar. Vamos, você não quer ir? Debruçou-se sobre a sua sombra que lhe respondeu: - Vá! mas não fique muito tempo. 

O estrangeiro levantou-se. Na sua frente, na varanda, sua sombra levantou-se também. Ele virou-se e a sombra fez o mesmo. E se alguém prestasse atenção, veria a sombra passar pela porta entreaberta da varanda da frente, justamente no momento em que o estrangeiro penetrava em seu quarto, deixando cair a cortina atrás dele. 

Na manhã seguinte, o sábio saiu a fim de tomar café e comprar os jornais. 

- Que é isso? – gritou ele assim que ficou sob o sol. - Eis que eu não tenho mais sombra! Então ela partiu ontem à noite e não mais voltou. Isso é muito estranho! 

Não era tanto a perda da sombra que lhe trazia tanto mau humor. Mas na terra dele, nos países frios, todos conheciam a história do homem que perdera a sombra. Atualmente, se ele voltasse ao seu país e contasse sua aventura, iriam chamá-lo de plagiário. E isso o contrariava. Eis por que resolveu não dizer nada, o que era muito sensato. 

À noite ele voltou à sua varanda; colocara a luz bem atrás de si, sabendo que a sombra exige que seu dono esteja entre ela e a luz. Mas não conseguiu fazê-la voltar. Abaixou-se e levantou-se. Não possuía mais sombra, não apareceu nenhuma. 

- Hum! hum! – fez ele. O que não adiantou de nada. 

Era verdadeiramente enfadonho. Felizmente tudo passa depressa; no fim de oito dias, ele se deu conta, para grande alegria, que, assim que chegava ao sol, uma nova sombra começava a estender-se aos seus pés. Três semanas mais tarde, ele já possuía uma sombra bem razoável. 

E quando voltou para o seu pais, em direção ao Norte, ela crescia à medida que ele viajava, crescendo tanto, que dentro em breve alcançou a metade do seu tamanho. O sábio voltou para casa e escreveu sobre o belo, a verdade e o bem no mundo. Passaram-se anos. Um longo tempo se passou. 



Uma noite em que estava sentado em seu apartamento, bateram ligeiramente na porta. 

- Entre – disse ele. 

Mas não entrou ninguém. Então ele mesmo foi abrir. 

Na sua frente estava um ente magro ao extremo, que lhe causou uma estranha impressão, mas que, ao examiná-lo, o sábio viu que estava elegantemente vestido. Devia ser alguma pessoa de bem. 

- A quem tenho a honra de falar? perguntou o sábio. 

- Ah! bem que eu duvidava que você não me reconheceria – disse o homem elegante. – Tornei-me muito material. 

Ganhei carne e ossos. E, sem dúvida não pensava em me ver em tão bom estado. Não reconhece a sua velha sombra? Certamente não esperava que eu voltasse. Tive uma sorte extraordinária, depois que o deixei. Consegui meios sob todos os pontos-de-vista. E tive a possibilidade de me livrar da minha servidão. Ao mesmo tempo fez soar uma quantidade de berloques preciosos que pendiam de seu relógio e passou a mão por uma corrente de ouro maciço que trazia ao pescoço. Em todos os seus dedos diamantes lançavam chispas. E nenhuma dessas jóias era falsa. 

- Não, não posso acreditar! – disse o sábio. – Como é possível? 

- Não é muito comum, realmente disse a sombra. 

- Mas você também não é uma pessoa comum, e eu, sabe-o muito bem, segui-o desde a infância. Assim que me julgou bastante amadurecido para deixar-me só no mundo, segui a minha própria vida. Encontro- me numa situação das mais brilhantes. Mas uma espécie de nostalgia tomou conta de mim e a vontade de vê-lo mais uma vez antes da sua morte, pois você – é claro – vai morrer um dia. Além do mais, queria rever este país; sempre se ama a própria pátria. Sei que arranjou uma outra sombra. Tenho algo a pagar-lhe, ou a ela? Peço-lhe o favor de dizer-me. 

- Não! Então é você mesmo! – disse o sábio. – É maravilhoso. Nunca pensei que poderia ver novamente a minha velha sombra sob uma forma humana. 

- Diga-me o quanto tenho de pagar disse a sombra. – Não gosto de ter dívidas. 

- Como pode falar dessa maneira – disse o sábio. 

- Não se trata de dívida. Use a sua liberdade como todo mundo faz. Estou muito contente com a sua felicidade. Sente-se, meu velho amigo. e conte-me tudo o que lhe aconteceu e o que você viu nos países quentes na casa do meu vizinho da frente. 

- Contarei tudo – disse a sombra sentando-se – mas prometa-me em troca que não dirá a ninguém aqui, nesta cidade onde terá várias ocasiões de encontrar-me, que eu fui sua sombra. Estou pretendendo ficar noivo. Possuo o suficiente para manter uma família. 

- Pode ficar tranqüilo – disse o sábio. – Não contarei a ninguém quem você é na realidade. Prometo. Um verdadeiro homem só tem uma palavra. 

- Um verdadeiro homem só tem uma palavra – repetiu a sombra que era obrigada a se exprimir assim. 

Era realmente espantoso constatar como ele se tornara um homem perfeito. Seu traje negro era do tecido mais fino; usava botinas de verniz e um chapéu de coco elegante, sem falar nos berloques que já conhecemos, da corrente de ouro e dos anéis. Sim, a sombra estava impecavelmente trajada e é justamente isso que faz um homem. 

- Vou contar-lhe – disse a sombra pousando o mais forte que pôde o pé calçado de verniz sobre a nova sombra do sábio, que jazia à sua frente como um travesseiro, fosse por orgulho ou por querer descansar. 

A nova sombra, porém, quedou-se tranqüila: sem dúvida queria saber também como poderia livrar-se de seu amo. 

- Sabe quem morava na casa nossa vizinha? – perguntou a sombra. - O que há de mais belo; a poesia. Fiquei lá três semanas, as quais aproveitei como se tivesse vivido três mil anos, lendo todos os poemas e todas as obras dos sábios. Estou dizendo a verdade. Li tudo e aprendi tudo. 

- A poesia! – exclamou o sábio. - Sim, sim, ela vive solitária nas grandes cidades. A poesia vi-a um breve instante, mas dormia ainda. Ela estava na varanda, entrou pela porta e depois … 

- Depois eu fui até a antecâmara prosseguiu a sombra. – Não havia luz; reinava uma espécie de penumbra. Os aposentos numerosos estavam dispostos em fila e pelas portas abertas podia-se vê-los com um só olhar. Estavam tão claros como em pleno dia e a violência desse mar de luz certamente me teria matado, se eu me aproximasse da jovem. Mas fui prudente e soube o que fazer. 

- Que viu a seguir? – perguntou o sábio. 

- Eu tudo vi. Vi tudo e sei de tudo! 

- Como eram os aposentos lá dentro? interrogou o sábio. 

- Eram como na fresca floresta? Como uma santa igreja? As salas eram como um céu de estrelas, como quando se está nas altas montanhas? 

- Tudo estava lá – disse a sombra. Não entrei totalmente; permaneci na primeira peça, na penumbra, mas encontrava-me perfeitamente bem. Sei tudo e vi tudo. Eu estava na corte da poesia, na sua antecâmara. 

- Mas que foi que viu? Os deuses da antigüidade estavam nas grandes salas? Os antigos heróis e os combatentes? Crianças amáveis brincavam e narravam seus sonhos? 

- Vou contar-lhe e você vai compreender o que eu vi e o que havia para ver. Passando pelo outro lado, passaria pelos limites da humanidade. Eduquei-me, aprendi a conhecer a minha própria natureza e minhas relações com a poesia. Outrora, quando estava ao seu lado, eu não raciocinava. Desde que o sol nascia e se punha, eu me tornava bastante grande. 

Ao luar eu ficava do seu tamanho. Naquele tempo eu não conhecia a minha própria natureza; só percebi a sua essência na antecâmara da poesia: tornei-me um homem. Somente, como ser humano, envergonhava-me de sair como estava: faltavam-me roupas, sapatos, todo o verniz que dá significação à humanidade. 

Procurei um abrigo, e – posso confessar-lhe, pois que você não vai dizer a ninguém – encontrei-o nas vestes de uma cozinheira. A honesta mulher nunca soube da proteção que me deu. Parti naquela mesma noite. E corri para cá e para lá, na rua, sob o luar. Encostava-me nas paredes. Corri da direita para a esquerda, olhei pelas mais altas janelas dos apartamentos e sobre os tetos. Lancei um olhar até onde ninguém pode fazê-lo e onde ninguém me poderia ver. Afinal, o mundo é mau. 

«Não gostaria de ser homem, se não fosse admitido comumente que ser homem significa algo. Eu vi, em casa de homens e mulheres, nas casas de pais de crianças doces e angélicas, as coisas mais incríveis. 

«Eu vi, disse a sombra, o que ninguém deveria saber, mas que todo mundo precisava conhecer, a maldade de seus vizinhos. 

«O que eu teria de leitores se possuísse um jornal! Mas eu escrevi da mesma forma às pessoas interessadas. 

«O terror tomou conta de toda as cidades onde eu chegava. Como me temiam, comportavam-se corretamente para comigo. Os professores me elevaram à sua condição, os alfaiates deram-me roupas novas, de maneira que pude andar bem vestido. 

«Deram-me também dinheiro e as mulheres diziam que eu era lindo. Foi assim que me transformei no que sou hoje. Agora vou dizer-lhe adeus. Aqui está o meu cartão. Moro do lado do sol, e, quando chove, fico sempre em casa.» 

Depois disso, a sombra se foi. 

- Eis uma coisa notável – disse o sábio. 



Passaram-se alguns anos e a sombra voltou inopinadamente. 

- Como vão as coisas? 

- Ora! – respondeu o sábio – escrevi sobre a bondade, a verdade e a beleza; mas para isso só existe gente surda. Estou desesperado, pois isso me entristece muito. 

- Nunca me entristeço – respondeu a sombra. 

- É por isso que engordo, o que deve ser a finalidade de todo indivíduo razoável. Você continua a não entender o mundo. Acabará ficando doente. É preciso viajar. Vou fazer uma viagem neste verão. Quer me acompanhar? 

Eu gostaria muito de tê-lo comigo. Pagarei a viagem. 

- Você vai muito longe? – inquiriu o sábio. 

- Isso depende – disse a sombra. 

Uma viagem vai restabelecer-lhe as forças. Se vier como minha sombra, farei todos os gastos. 

- É uma loucura – disse o sábio. 

- Assim é o mundo – disse a sombra. E assim ficará. A sombra partiu sem dizer mais nada. 

O sábio não ia bem. Estava cheio de ansiedade e aborrecimento. O que ele dizia sobre a verdade, a beleza e o bem, era, para a maioria, o que são as pérolas para os porcos. Finalmente caiu verdadeiramente doente. 

- Você tem mesmo o ar de uma sombra – diziam-lhe os outros. 

E, a esse pensamento, o sábio tremia. 

- Você precisa mesmo viajar – disse a sombra quando foi visitá-lo. 

- Não há outro meio. Nós somos velhos conhecidos, eu o levo. Pagarei a viagem. Você poderá escrever mais tarde sobre a mesma e, ao mesmo tempo, ajudar-me-á a não me aborrecer. Quero ir para uma estação de águas: minha barba não cresce como deve. Também é uma doença, pois todos devem ter barba. Seja condescendente, aceite a minha proposta; viajaremos juntos. 

Partiram. Agora a sombra era o mestre e o mestre transformara-se em sombra. Viajaram juntos, de carro ou a cavalo, lado a lado, ou um atrás do outro, de acordo com a posição do sol. A sombra ficava sempre ao lado do seu mestre, sem que o sábio dissesse nada. Tinha muito bom coração, era doce e amável. 

Eis por que ele disse um dia à sombra: 

- Já que agora nós somos companheiros de viagem, e que, além do mais, estamos; ligados desde a infância, não poderíamos beber à nossa fraternidade? Nossa amizade ficará ainda mais sólida. 

- Você acaba de dar a sua opinião – disse a sombra, que agora era o mestre. – Falou com a liberdade do coração e eu farei o mesmo, já que é sábio, deve saber o quanto a natureza é caprichosa. Muitas pessoas não podem ouvir barulho de papel, outras ficam nervosas quando se arranha um vidro com um alfinete. Eu ficava assim quando era obrigado a tratá-lo como senhor. Veja que não se trata de orgulho, mas de sensação. Mas já que você não se incomoda, faço questão que, de agora em diante, me trate como senhor. 

E assim, o antigo mestre passou a ser tratado como servo. E o sábio, quisesse ou não, tudo suportava. 

No entanto, os dois chegaram à estação de águas. Muitos estrangeiros descansavam no local, e, entre eles, havia a graciosa filha de um rei, cuja doença consistia em ter uma vista muito aguda, o que não deixa de ser uma coisa séria. 

E assim ela logo percebeu que o recém-chegado não era uma pessoa igual aos outros mortais. 

– Ele está aqui para fazer crescer a barba, é o que dizem; mas eu vejo bem qual o verdadeiro motivo: ele não tem sombra. 

Teve um grande desejo de conhecê-lo; assim que pôde iniciou conversa com o estrangeiro, durante um passeio. 

Sendo a filha de um rei, ela não precisava usar de muitas cerimônias. 

- Sua doença – disse ela – consiste em que o senhor não pode projetar uma sombra. 

- Vossa Alteza Real – replicou a sombra – está melhorando muito. O mal de que sofria, de ter a vista muito aguda, desapareceu. Está curada: eu possuo, pelo contrário, uma sombra extraordinária. Não vê a pessoa que não deixa de me acompanhar? Os outros possuem uma sombra comum, mas eu não gosto do que é comum. Da mesma forma que alguns fazem seus servos se vestirem melhor do que eles mesmos, eu transformei a minha sombra em homem. Como pode ver, eu cheguei a dar-lhe até uma sombra própria. 

«Sem dúvida é uma fantasia dispendiosa, mas gosto de ter algo para mim só.» 

Como?, pensou a princesa. Estarei verdadeiramente curada? Esta estação de águas é certamente a mais proveitosa para o meu estado. A água deve ter virtudes milagrosas. Mas, de qualquer forma, não vou partir daqui, pois isto começa a ficar interessante. Gosto muito deste estrangeiro. Contanto que a sua barba não cresça! Senão ele iria embora imediatamente. 

A noite, na grande sala de baile, a filha do rei dançou com a sombra. Por mais leve que ela fosse, ele o era ainda mais; jamais ela vira um tal bailarino. Contou-lhe de onde vinha. E ele conhecia seu país; lá estivera, mas ela não se encontrava em casa. Ele olhara por todas as janelas, altas e baixas e observara tudo. 

Pôde assim responder à filha do rei e dar-lhe indicações que a deixaram estupefata. Devia ser o homem mais sábio do mundo. Levou a sua sabedoria em grande consideração. E quando dançaram uma segunda vez juntos, ela apaixonou-se perdidamente por ele, o que a sombra percebeu muito bem. Ao dançar novamente, ela esteve a ponto de confessar seu amor. Mas pensou um pouco em seu país, seu reino e em tudo aquilo que teria de governar um dia. Trata-se de um homem sábio, dizia ela para si mesma. Dança maravilhosamente bem. Mas o importante é saber se possui também conhecimentos fundamentais. Vou fazer-lhe um exame. Então ela começou a fazer-lhe as perguntas mais difíceis. Ela mesma não seria capaz de respondê-las. A sombra fez um gesto singular. 

- O senhor não poderá responder ­– dizia a filha do rei. 

- Mas eu sei o que me pergunta desde os tempos da escola – respondeu a sombra. – Chego até a pensar que minha sombra, que está encostada na porta, poderá responder. 

- Sua sombra! – replicou a filha do rei. – Eis uma coisa que seria admirável! 

- Não afirmo que ela o faça – continuou a sombra – mas acredito que sim. Há tantos anos que me acompanha e me ouve. Mas Vossa Alteza Real me permite dizer-lhe que ela tem o orgulho de passar por um homem e que, se estiver de bom humor – e ela deve estar para poder responder convenientemente – é preciso tratá-la como tal. 

- Gosto de um tal orgulho – disse a filha do rei. Foi reunir-se ao sábio, na porta, e falou-lhe sobre o sol e a lua, sobre o homem exterior e interior. E ele respondeu bem e inteligentemente. 

Como deve ser o homem que tem uma sombra tão sábia!, pensava ela. Será uma verdadeira bênção para meu povo e para o Estado se eu o tomar para marido. Vou fazê-lo. E suspirou. 

- Você tem um caráter nobre – disse a filha do rei. 

À noite, toda a cidade foi iluminada. O canhão troou e a filha do rei e a sombra acertaram tudo. Todavia, ninguém devia saber de seus planos antes que ela entrasse em seu reino. 

- Ninguém, nem mesmo a minha sombra – disse a sombra. Estava pensando em algo. 

Logo eles se encontraram no país da filha do rei. 

- Ouça, meu bom amigo – disse a sombra ao sábio: - Atualmente eu me tornei mais feliz e poderoso do que qualquer outra pessoa no mundo; e vou fazer por você algo de excepcional. Morará constantemente comigo no castelo, viajará em minha carruagem real e terá um grande ordenado anual. Somente é preciso que não diga a ninguém que é um homem; e, uma vez por ano, quando eu estiver sentado ao sol para que todos me vejam, você se deitará aos meus pés, como convém a uma verdadeira sombra. Confio-lhe que vou me casar com a filha do rei; o casamento será celebrado esta noite. 

- Não, isso é uma loucura! – disse o sábio. – Não quero e não o farei. Seria enganar o país inteiro, e, sobretudo, a filha do rei. Vou contar tudo: que o homem sou eu e que você é somente uma sombra que veste roupas de homem. 

- Ninguém vai acreditar – disse a sombra. - Tenha juízo, senão chamarei os guardas! 

- Vou procurar a filha do rei – disse o sábio partindo. 

- Também vou – gritou a sombra. – E você irá para a prisão. 

Foi o que aconteceu, pois os guardas lhe obedeceram, sabendo que a filha do rei o escolhera para marido. 

- Está tremendo? – perguntou a filha do rei à sombra que chegava. - Aconteceu alguma coisa? Não deve ficar doente justamente na noite de nossas núpcias. 

- Aconteceu-me a coisa mais espantosa que se poderia conceber – disse a sombra. – Imagine só – é verdade que um pobre cérebro de uma sombra não pode ser muito sólido – imagine: minha sombra enlouqueceu. Ela acha que sou eu e que eu sou a sua sombra! 

- É incrível! – disse a princesa. – Prenderam-na? 

- Sim, mas tenho medo de que nunca mais recupere a razão. 

- Pobre sombra! – replicou a princesa. – Deve ser muito infeliz. Seria uma boa ação, realmente, dispensá-la da sua vida de sombra. Quanto mais penso, mais me parece de bom alvitre desembaraçarmo-nos dela sem escândalo. 

- É realmente penoso – disse a sombra. – Sempre foi um leal servidor. 

Os soldados apresentaram armas. Era a noite do casamento. A filha do rei e a sombra apareceram no balcão para que fossem vistos e saudados mais uma vez pela multidão. 

O sábio ficou ignorando toda essa solenidade: haviam-lhe tirado a vida.




8 de fevereiro de 2012

OUTRA TERRA, A, 2011 (Another Earth)


Quem me lê está farto de saber que gosto de ensaios filosóficos, mas não gostei d’A Outra Terra, não por causa do tema, mas pela abordagem, porque de repente comecei a sentir-me untado com banha de cobra.

A Outra… parece-me (e é realmente) dois filmes que foram ligados violentamente por choque lateral, resultando daí que as perguntas que poderia ter levantado permaneceram no caixão estiradas. Vejam por vocês mesmos, vou fazer a sinopse:

Rhoda faz um acidente de viação que resulta na morte da mulher e do filho de um músico famoso. Quatro anos na prisão por homicídio por homicídio involuntário ela saí destruída e destituída de propósito. Então para corrigir o passado entra na vida do destruído músico sorrateiramente e acaba por criar um novo propósito para este, ganhando ela mesmo o seu.

Paralelamente, surge uma Terra para lá do Sol, igualzinha à nossa e a tentativa de contactar essa Terra demonstra que não só era uma cópia exacta da nossa, como as pessoas que lá vivem são também reproduções nossas e tiveram o mesmo percurso.

Esta parte das Terras podia criar infinitas interrogações se os argumentistas tivessem trabalhado apenas nessa premissa, porque a outra, aquela de cima, funciona bem e independente desta, mas não o fizeram. E assim A Outra… não tem nada a ver com a outra Terra, e quando muito só faz umas sugestões que faz pedir por mais e, sadicamente, não no-lo dá. O filme mesmo é sobre Rhoda e sobre as perguntas que todo o mundo faz: poderia eu ter uma vida melhor que esta? No entanto prometem um espelho que nos podia mostrar essa possibilidade e logo a seguir cobrem-no com um pano e tudo o que podemos fazer é pensar: só podem estar a gozar comigo!

trailer

Não obstante, A Outra… é um filme digestível, não se se bem, não sei se mal, pois tem um ritmo calmo, quase parado, quase disperso, uma ar experimentalista, fotografia granulada que pretende parecer amadora, por vezes destoante (tem cenas em que os cortes mostram fotografias diferentes parecendo ter sido filmadas em cenários diferentes) deixando a questão se aquilo é um erro ou se tem algum propósito estético ou metafórico (como no filme Mary e Max), afinal está-se a falar de, senão duas terras, pelo menos dois estados de espírito.

E realmente não sei qual é mesmo a questão substancial do filme: se a penitência, se a ressurreição, se o poder regenerativo do amor, se “o que faria um outro eu na minha posição?”. Por isso digo, A Outra Terra é uma bela treta, uma banha de cobra, promete-nos algo, deixa-nos a babar por ele, e não tem a decência de no-lo dar, talvez por não saber como, talvez por nem estar aí para isso. 

18 de janeiro de 2012

SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE, Italo Calvino (1979) - frutos de determinismos ou próprios deterministas


Quando comecei a ler Se Numa Noite… (da primeira vez, há coisa de uns dez anos) logo nas primeiras páginas parei, em sinal de desafio, queria encontrar uma posição de leitura que o autor não tinha previsto no seu livro para lhe ganhar no próprio jogo, e encontrei: pendurei-me na cabeceira da cama com a barriga dos joelhos (? – não sei como se chama a parte de dentro dos joelhos, a junta entre a barriga da perna e a coxa; alguém sabe?), de cabeça para baixo (porque embora ele tivesse previsto de cabeça para baixo, pelo menos não falou nada sobre pendurar-se pelos joelhos). No entanto era ridículo, acho que nem o próprio Drácula lê de cabeça para baixo; então deixei-me levar e não forçar a oposição, deliciando-me com a leitura.

Se Numa Noite… conta a história de um leitor que compra um livro de Italo Calvino intitulado Se Numa Noite de Inverno um Viajante cuja primeira história (se não contarmos com a do leitor, tratado por tu – ou seja tu que lês o livro), se chama Se Numa Noite de Inverno um Viajante, e depois o leitor percebe que alguém está a escrever a sua história, e entra em contacto com o seu escritor, e ainda conhece uma leitora que o lê também (deixando então o leitor de ser um “tu” assexuado para ser masculino), nesse livro que o leitor, tu, está a ler e que o escritor escreveu, embora faça parte da sua própria escrita (já te perdeste?, aposto que sim).

Essa odisseia da leitura do leitor, tu, na procura de um entendimento, de um sentido da sua história e do, talvez, existir, encontra-se entremeada por dez contos, dez contos cujos títulos ligados formam uma frase poética que, de uma certa maneira, resume toda a viagem no livro, e todos os protagonistas dos contos acabam por ser tu mesmo, o leitor, que lês o livro, ainda mais porque são narrados na primeira pessoa. Então em toda essa viagem e mudança de perspectiva, perdes-te na absurda irrealidade da existência e encontras-te a perguntar pelo sentido de tudo, principalmente pela peculiaridade das histórias que terminam sempre abruptamente deixando-te com água na boca e quando retomam são já outras incarnações.

Se Numa Noite… é um magistral ensaio filosófico sobre a vida, ao mesmo tempo que é uma magistral peça de literatura, e talvez um quebra-cabeça que depois de leres outra vez se abre diante de ti de uma maneira diferente, mostrando o que o livro mostra: a constante mudança, e a ignorância sobre a necessidade da maior parte dessas mudanças, e te sentes compelido a juntar outra vez as peças para lhes dar forma, principalmente porque ele se pode armar de maneiras diferentes.

Receio não ter sido muito claro no parágrafo anterior, e para não me lançar em pseudo-filosofias tentando ouvir o livro, vou simplesmente fazer o resumo pelas próprias palavras do autor, unindo os dez títulos dos dez contons: Se numa noite de Inverno um viajante, fora da povoação de Malbork, debruçando-se da encosta íngreme sem temer o vento e a vertigem, olha para baixo onde a sombra se adensa numa rede de linhas que se entreleçam, numa rede de linhas que se intersectam no tapete de folhas iluminadas pele lua em torno de uma fossa vazia, - Que história lá em baixo espera um fim? – pede, ansioso por ouvir a narrativa.

Em resumo, não sabemos nada da vida, nem o que vai acontecer depois, está tudo coberto por pontos de interrogações, mas isso não nos tira o ímpeto de querer vivê-la e de tentar descortinar tudo o mais.

Se Numa Noite de Inverno um Viajante é uma OBRA-PRIMA e não há nenhuma desculpa para não o ler, a não ser, é claro, que prefiras tudo mastigado... e mesmo neste caso não  sais defraudado.

31 de julho de 2011

LINHAS DE UMA VIDA


uma alma, só uma alma,

num pingo de um então,
entroncada em calma e cerzindo os agoras,
cabisbaixa o ego esta alma, nessa horas,
quando perdida se sente num mundo atada,
num mundo atado de nós cegos,
atormentada de sossego e deitada em pregos
não vê o passado, não vê o presente,
só o hoje, só o hoje,
e por vezes foge com pernas chumbadas
em nulas coordenadas,
por vezes desperta, sonha,
por vezes desperta de sonhos,
confusa de confusão,
obtusa de dogmas,
contusa de regras,
reclusa de normas,
oclusa de ideias é um espelho esta alma,
barrada em vírgulas reflectidas de pontos,
sem entendimento, sem entendimento,
não se entende, e não se entende,
o que que quer? o que não quer?
não sabe o que sabe, mas, curioso!,
sabe o que não sabe.

30 de julho de 2011

ONDE ESTÁ A VERDADE? (soneto)



Milhentas frases com verdades sondem…
Verão mil ocas, e algumas tão veras, 
Outras mui mansas, muitas como feras
Retalham os véus que as clarezas escondem.

Milhentas frases sem verdades que as rondem, 
Prenhes de engano viveram mil eras, 
Gordas de anseio, mas luzindo esperas… 
Mil erros, mil, sem certezas que os mondem.

Milhentos profetas apregoando o falso, 
Mas crentes fazem de um magote cego 
Semeando em vidas alheias percalço.

Milhentos profetas negando o mundo,
Porque perderam da verdade o apego 
E acham mais cómodo do falso o fundo.

28 de julho de 2011

QUEDA, A - Albert Camus (1972) - viagem ao centro da alma


Um dos livros mais surpreendentes que já li (bem, por esta altura já devem estar enfastiado de ler aqui esta frase) foi A Queda, de Albert Camus, que já foi o Nobel da Literatura 1957, porque o livro parece ter sido escrito por mim. Peraí, não me entendam mal, não estou a reclamar o talento do autor, nem a comparar o génio, mas porque senti que o autor estava a analisar-me nessa obra.

A Queda, começando do fim, é um livro obrigatório e que ninguém nesta vida devia passar sem ler, é um livro necessário porque leva a uma auto-análise e parte dele parece uma versão alargada do Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos. Eis a sinopse:

Um advogado, que costumava ser um indiferente, por um acaso qualquer, viu uma mulher a suicidar-se no rio Sena. Não tendo reagido para ajudar a mulher, preferindo esconder-se por isso não ser o seu problema, é perseguido depois pelo fantasma dela, a sua própria consciência. Resolve então mudar o ser e ganhar a redenção, mas é aí então que perde o controlo de si próprio, acreditando que existe uma melhor maneira de utilizar a vida, mas não sabendo qual é essa maneira.

Não acredito que exista algum ser humano que leia A Queda e não se identifique com o protagonista. Camus debruça-se sobre pequenos vícios, idiossincrasias e costumes das pessoas, extirpa-os e revela-os ao sol. Creio que esteve a fazer uma auto-análise, usando o advogado como uma imagem para não parecer autobiográfico, no entanto, ao mesmo tempo, a analisar o mundo todo, o que faz com uma maestria incrível, pois ainda faz com que esse nosso autoconhecimento seja divertido e vejamos como ridículos somos.

A Queda, por verificar o homem, consequentemente verifica o seu meio (não o físico, mas o social: o ideológico, o cultural e outros subjacentes) e, portanto, foca sobre diversos aspectos éticos: o homem consigo próprio, o homem com o outro e o homem e o outro com terceiros (a comunidade ou a sociedade) e, ou, os terceiros com o homem e o outros. É certo que o homem é um ser social, mas será realmente que o inferno são os outros (como disse Sartre)?, será que os outros é que nos corrompem? A Queda atribui a cada um de nós a tarefa de fazer o mundo um lugar melhor, pois somos todos culpados. Aliás numa passagem que quem já leu o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, de certeza se lembrará, ele disse que até Cristo não é inocente, visto que foi salvo de ser morto, enquanto centenas de criança morriam por sua causa. No entanto, como vamos fazer deste mundo o melhor? Receio que o protagonista não sabe explicar, mas sugere que devemos fazer uma auto-análise.

Camus manifesta n’A Queda uma pouca fé na humanidade? Eu sei lá, no entanto duvido. Como em todos os seus títulos que li, parece procurar pelo sentido da vida ou pela sua ausência, se n’O Estrangeiro o protagonista era um indiferente, n’A Peste um altruísta, aqui, n’A Queda, é um indeciso, no entanto em comum todos os protagonistas têm a mesma característica: introspecção.

A Queda é uma leitura profunda, que dá muito o que pensar, mas ao mesmo tempo, tal como só os grandes autores conseguem fazer, a queda é uma leitura divertida e aparentemente superficial, que provoca bons risos e se lê de uma assentada. Eu li A Queda em diferentes fases da minha vida, a primeira, talvez com 16 ou 17 anos, quando me veio a pancada por filósofos, e embora estivesse no começo da minha aprendizagem de ler dentro dos livros, gostei logo. Dos títulos de Camus é o meu preferido (por ser o que mais está ao meu alcance mental) e é o personagem com quem mais me identifico. 

24 de junho de 2011

HOMEM QUE ERA QUINTA-FEIRA, O, G. K. Chesterton (1908) - o mito dos opostos



Sempre me fascinaram premissas absurdas nos trabalhos de ficção, e mesmo que me sinta depois desiludido pelo desenvolvimento, não consigo evitar de ler (ou ver, no caso do cinema) para me inteirar da forma como o autor trabalha o material e como com ele navega.

Praí em 1997, ao ler lombadas nas estantes da biblioteca do INEP, uma actividade costumeira que me dá a ilusão de ter lido mais livros do que na realidade li, eu vi O Homem que era Quinta-Feira de G. K. Chesterton, e pensei: mas como?, abri o livro e comecei a ler, não deu mais para parar, faltei à escola nesse dia e, quando a biblioteca ia fechar, sem eu ter acabado a leitura, dei um jeito de levar comigo o livro. Não, não o roubei, mas como tinha emprestado outros, não podia levar mais nenhum, porém como sempre fui o cliente mais assíduo e mais novo dessa biblioteca (porque não tinha livros infantis), todos os bibliotecários me conheciam e deixaram-me levar comigo o livro, divertidos com as minhas súplicas. No dia seguinte, ao voltar, já tinha lido duas vezes o livro.

O Homem que Era Quinta-Feira, Odisseia, de Homero, e O Elogio da Loucura, de Erasmus, são os primeiros da lista dos meus livros de sempre, por quê?, não sei dizer, talvez pela impressão que criaram em mim quando ainda puto.

Gostei d’O Homem que era Quinta-Feira pela maneira como Chesterton conduziu a história tornando-a numa aventura surpreendente. Anos depois, praí em 2000, após a reabertura da biblioteca[1], encontrei de novo o livro e ao relê-lo fiquei ainda mais fascinado, porque não só mantinha o espírito de aventura que eu tinha percebido da primeira vez, como também tinha filosofices e reflexões filosóficas e sociais, e nessa altura eu era louco por filósofos.

Eis a história de O Homem que era Quinta-Feira, Gabriel Syme, um poeta conhece num parque um anarquista, aparentemente um desses rebeldes sem causa que atacam toda a ordem por não terem mais nada para fazer, porém por causa de uma discussão ridícula, este resolveu mostrar-lhe que falava a sério e convidou-o para uma das suas reuniões clandestinas. O que ele não sabia era que Gabriel era um polícia, um polícia poeta, lembrando o que o Platão disse algures n’A República e qualquer coisa como: se formos governados por homens ilustrados seremos melhor governados. Gabriel entra assim para a organização anarquista descobrindo que eles tinham uma estrutura que se dividia em seis chefes, todos conhecidos por um dia da semana, que por sua vez, reportavam ao chefe supremo, o Sabbat, que devido a catolização do Sábado, aqui é conhecido por Domingo. Inflitrando-se na organização, Gabriel acaba por ocupar o lugar de Quinta-Feira, e aí descobre que estava iminente um ataque terrorista que poria em risco toda a ordem (ou devia ser a Ordem), e tinha que descobrir uma maneira para o parar.

O Homem que era Quinta-Feira é todo ele cheio de reflexões filosóficas, políticas e teológicas, talvez mesmo utópicas, porém, a visão de um crente sobre o mundo e a ordem. É também uma reflexão sobre a questão existencial, uma análise do mito dos opostos, somos ou o bem ou o mal, ou somos o bem e o mal, ficando connosco a tarefa de destacar mais um deles?  Não posso falar mais para não criar spoilers, no entanto, tenho uma resenha sobre o livro da qual não sei o paradeiro, mas que no dia ou ano em que a encontrar, vou certamente postá-la. Chesterton escreveu aqui uma das melhores apologias de Deus que já li, e não obstante eu ser ateu, e prefira substituir onde ele escreve deus por outras causas, ou por ausência de causa, centrando-me apenas no homem, o seu livro continua fascinante (aliás ele nunca falou directamente em Deus). Uma leitura obrigatória tanto para cristãos como para ateus.

Não garanto a todos que vão gostar d’O Homem que era Quinta-Feira como eu gostei, porque há uns três anos, recomendei-o a uma pessoa que disse não ter visto grande coisa nele, razão porque tive medo de relê-lo para não estragar as lembranças, mas há coisa de dois meses ganhei coragem e voltei a ler, e ainda continuo a gostar, pois ele parece-me como um primeiro amor; no entanto, garanto que de alguma maneira vão gostar, principalmente os leitores do fantástico.



P.S.: Estranha-me que ao falar de um dos meus melhores livros de sempre não tenha conseguido um artigo excitante.



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[1] Com a guerra de 1998, os militares aquartelaram-se na biblioteca de INEP e no Museu Etnográfico Nacional, destruindo boa parte dos livros e itens do museu, tornando culturalmente mais pobre o país.