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1 de janeiro de 2014

TEMPO SUSPENSO, Philip José Farmer (1985) - a diversidade do mesmo

Quando mais novo, o meu género favorito era a ficção científica, tanto no cinema como na literatura. Gostava (ainda gosto) dessa temática, das teorias de máquinas de tempo, viagens interdimensionais, extraterrestres e tal, no entanto, eu considerava mais o aspecto exterior da ficção científica do que o interior: os ensaios que os bons autores fazem sobre a humanidade. E quando comecei a dar mais atenção ao segundo aspecto, deixei de considerar qualquer coisa que tivesse uma nave espacial de ficção científica, embora lesse tudo com essa classificação. Quando comecei a ler Tempo Suspenso, não estava à espera de nada, apenas de uma leitura leve, e foi o que encontrei, uma leitura leve, porém, com profundidade.

Tempo Suspenso é uma excelente leitura de ficção e um excelente entretenimento literário. O livro arrebata logo nas primeiras páginas e continua, em crescendo, a intrigar mais e mais. O tema é sobre a desesperança na humanidade. Ambientando num futuro distópico, pelo menos para nós aqui, sente-se nele influências do 1984, de Orwell, e do Admirável Mundo Novo, de Huxley, no entanto consegue ser fresco e original, e não fosse o facto de focar-se mais no contexto de aventura, de certeza que era capaz de ombrear com esses em profundidade.

Tempo Suspenso acontece no terceiro milénio, a humanidade sobreviveu, mas sobrelotou o planeta. Então para resolver o problema, o governo, absolutista, resolveu dar a cada pessoa um dia da semana para viver, passando os restantes numa câmara de suspensão. As pessoas vivem num dia qualquer, terça ou domingo, e à meia-noite estão na sua câmara, esperando pela próxima semana. Essas segundas, contavam-se dia a dia, como se fossem dias normais, ou seja os segunda-feiristas, tinhas os seus sete dias da semana completo, e com a tecnologia da suspensão, envelheciam normalmente cumprindo o ciclo biológico. Ninguém parecia ter problema com viver um dia, sendo que vivia todos, mas quem vivesse em todos os dias era considerado criminoso, do pior tipo, um quebra-dias.

Quando se tem um governo totalitário, ou de qualquer tipo que seja, existe sempre a oposição, e é aqui que entra o nosso herói, que é um quebra-dias, um criminoso, quase terrorista, e que vive com sete identidades, um para cada dia, para não ser descoberto, mas que trabalha para a oposição. Este é o mote para o desenvolvimento do Tempo Suspenso, no entanto várias questões, psicológicas e sociais, surgem durante a ocorrência.

Tempo Suspenso tem um belo ritmo e, como já disse, aposta muito na aventura, entretanto, sempre tem tempo para analisar a sociedade através de diferentes prismas. Tal como O Admirável Mundo Novo, mostra que as pessoas são condicionadas de diferentes maneiras e que na realidade, somos mais carneiros do que os próprios, e ao mesmo tempo, questionamos se quando existe a ordem e todos nós somos e estamos basicamente satisfeitos, se é mesmo problemático que esta ordem seja do tipo totalitário.

Farmer é magnífico em desenhar sociedades e idiossincrasias, cada dia apresentado tem etiquetas próprias, maneirismos, linguagens e vícios, podendo-se no entanto ver que não importa o verniz, o homem é sempre homem. E não importa o governo ou a oposição, quando a ideia é de dominar e de regular… bem, resumindo: o poder corrompe.

Uma bela e agradável leitura.

21 de junho de 2012

FEITIÇO DO TEMPO, O, 1993 (Groundhog Day)


O Feitiço do Tempo foi o filme que me calhou esta semana (já não sei qual semana, porque há já meses que tinha isto para transcrever); não gosto de rever filme, principalmente quando há muitos em fila a clamar pela minha atenção, no entanto tem aqueles que não conseguimos deixar de acarinhar… e este é um dos meus.

Não vou falar de Bill Murray, nem de Andie MacDowell (como é hábito não fazer, embora por vezes não consiga evitar), resumo os dois nisto: funcionam bem juntos.

O Feitiço do Tempo, por causa da abordagem, não parece um daqueles filmes que grita furiosamente: qual é o sentido da vida?, aliás, nem faz a pergunta, apenas ensina qual é o sentido da vida. Analisado o trama, é análogo aquelas teorias hindus de reencarnação, com a diferença de que aqui, o herói (ou a vítima) tem o conhecimento da sua vida anterior. Também o filme parece um dos inúmeros ensaios de Phillip K. Dick: e se eu tivesse o conhecimento do futuro? Um filme similar ao feitiço do tempo é “12:01”, similar na premissa, mas diferente na abordagem… e na qualidade, é claro.

Eis o enredo: Phill é um jornalista do tempo (isso faz sentido?), muito arrogante, egocêntrico e convencido da sua importância, que ao cobrir um acontecimento inútil e irrelevante numa cidade fica preso no mesmo dia, repetindo-o vezes e vezes sem conta. Torna-se desesperadamente solitário, visto ser o único que percebe que o dia não muda, e o seu único consolo acaba por ser a sua colega, Rita, por quem se apaixona e tenta diariamente fazer-lhe ficar apaixonada por ele.

trailer


Há diversas maneiras de abordar O Feitiço do Tempo, mas eu prefiro este: O que eu faria se eu tivesse o conhecimento do futuro? Aqui, por os dias serem todos iguais, o fardo é acrescido, porque não só se tem o conhecimento do futuro, como a monotonia é tanta que não faz sentido ficar nela preso; e por os dias serem o mesmo deixa de existir o Tempo: o futuro e o passado acabam por ser um eterno presente.

Se o filme tivesse um monte de frases filosóficas e tretas esotéricas à la Matrix (e houvesse o hype internáutico) poderia ter sido um cultuado filme de ficção científica, porém, embora aborde uma questão séria (?) ele não passa de uma comédia moralista para um domingo à tarde, que fala fundamentalmente de “egoísmo, abnegação e altruísmo”, estes últimos tornando-se a chave para resolver a questão, ficando a moral da história a ser:  a vida não tem graça se for vivida hedonisticamente, e a melhor forma de usá-la é em função dos outros.

Outra maneira de abordar o filme é a forma desconcertante como Phil tem manipulado os outros ao seu redor, com o conhecimento do que vai acontecer, e como o conhecimento é poder.  

Mas... como bónus, o filme tem uma óptima banda sonora.

3 de abril de 2012

BLACK MIRROR, 2011 (série britânica)


BLACK MIRROR é uma mini-série inglesa com três capítulos, três histórias independentes, situadas em tempos diferentes, que, no entanto, tratam do mesmo tema: a tecnologia da informação e o seu impacto social, ou, por outras palavras, a nossa sociedade actual, toda ela bigbroderiana, youtubista, consumista e onde o maior e mais vulgar sonho das pessoas é ser famoso. Se dessem a escolher aos dos tempos de hoje ente ser rico (a outra meta mais procurada) e ser famoso, acredito que a maior parte das escolhas recairá sobre o segundo ítem.

trailer

A forma como estes temas foram abordados, a carga dramática e o final de cada uma delas, seca (manifestando desesperança) e realista (que não diz nada de novo e apenas carimba as coisas como elas são), fazem de Black Mirror uma série impactante, de cortar o fôlego e emaranhar os nervos, mostrando-nos o pouco controlo que temos das nossas vidas, e que as coisas que julgamos úteis e necessárias só nos limitam ainda mais esse controlo.


No primeiro episódio, THE NATIONAL ANTHEM, uma história situada num hoje alternativo, a princesa britânica é raptada e a exigência é o primeiro-ministro fazer sexo com um porco em directo pela televisão.
Este episódio traz à tona questões como a censura (vemos como a tentativa de controlar a consternação do povo, escondendo-lhe determinadas informações foi frustrada pelo próprio povo), os meios de informação da modernidade e o nosso voyeurismo mórbido (que foi simplificado numa cena onde as pessoas se submetem a sofrer náuseas extremas só para assistir a um programa de sexo doentio na TV). Entretanto, apesar disso, também mostra o poder do povo e como pode influenciar as decisões, mas, lamentavelmente, apenas se preocupa com “uma bica e futebol”, no caso português.

sneak peak


No segundo episódio, FIFTEEN MILLIONS MERITS, uma sociedade futurística e consumista, onde tudo o que as pessoas podem fazer é pedalar o dia todo para produzir energia para a cidade, ganhando assim dinheiro para viver – ou sobreviver, dependendo da perspectiva (parece com a nossa sociedade?), onde a natureza está totalmente lixada, e até mesmo as frutas são sintetizadas em máquinas, as pessoas estão divididas em pelo menos cinco castas: os donos da televisão (que controlam tudo), as estrelas da televisão, os operadores da televisão, os pedaladores e os limpadores.

Se no episódio anterior se mostrou o poder do povo, neste mostrou-se a sua inutilidade, inutilidade (porque somos completamente manipulados, embora julgamos que estamos no controlo), porque somos alimentados por sonhos fúteis que vemos na caixa-mágica e nem nos damos ao trabalho de pensar se nos serve realmente. Somos compelidos a consumir e a desejar esses sonhos vãos porque nos parece que é a única maneira de nos livrarmos destas celas para podermos sermos mais importantes e menos controlados, mas não percebemos que apenas mudamos para uma cela maior.

A história deste episódio é sobre duas pessoas que se apaixonam: uma é talentosa artisticamente e a outra é talentosa filosófica e revolucionariamente e que, provavelmente, devido a sua situação social de pedalador, concluiu que a sua sociedade é vã e deve mudar. No meio disso incentiva a sua amiga a concorrer aos Ídolos… desculpem, Hot Shot, um programa de televisão clone do nosso Ídolos, achando que podia transformar a vida dela. Depois acaba ela mesma acaba por concorrer ao mesmo programa.

A história destas duas pessoas mostra como a inocência é corrompida em nome da fama e apoiada pelas mesmas pessoas que a criticam, o culto da beleza, e também os milhares revoltados ou anti-capitalistas ou anti-consumistas que são absorvidos pelos sistemas que tanto criticam sem que nada mude (por exemplo, os inúmero gurus, os incontáveis autores best-sellers de livros de auto-ajuda e críticos sociais que falam da necessidade de mudança, mas só mudam a sua conta bancária e só “criticam” para isso).
E como bónus, temos uma interpretação magistral de Daniel Kaluuya (que já citei aqui e aqui), actor que tenho vindo a admirar, e que aqui solidificou os motivos da minha admiração numa cena que me deixou em suspenso durante toda a sua duração.

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O terceiro episódio, THE ENTIRE HISTORY OF YOU, que me deixou com um gosto amargo, conta a história de um casal que vive num mundo onde tudo o que vê é gravado e catalogado. À primeira vista parece ser uma bênção, visto que, como foi logo mostrado, dá para rever perspectivas que inconscientemente deixamos escapar, além de mais permite partilhar as tuas férias com os amigos e livrar-se da inconveniência de carregar uma câmara ou da chatice não ter tido um dedo rápido no obturador ou de ter faltado a bateria ou espaço na máquina num momento crucial. 

No entanto, o facto de o ser humano possuir uma memória selectiva significa que precisa dela para o equilíbrio, as boas memórias costumamos armazenar num local de fácil acesso, as más mandamos para o fundo do armazém, procurando reprimi-las, portanto, não pode de jeito nenhum ser bom termos ao nosso alcance todas as nossas memórias detalhadas ao ínfimo pormenor, pois isso só pode tornar-se num pesadelo. E é o que acontece ao casal da história deste episódio: o marido desconfia que a mulher o trai e analisa todos os pedaços da sua memória para determinar se tinha ou não razão; entretanto, ao mesmo tempo que mantém vívida essa memória de traição, também vívida mantém a memória dos bons momentos que tiveram juntos e todos os pequenos detalhes que lhe fez amá-la. E assim, como dois sentimentos contraditórios, ele tenta gerir a situação.

A análise proposta neste episódio é bastante interessante. De uma maneira sumarizada, acho que posso dizer que o que foi se quis mostra foi: porque não há gravações da Sala Oval, Bill Clinton e Monica Lewinsky hoje são rumores, mas Paris Hilton terá sempre a sua Uma Noite em Paris.

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Em termos conclusivos: para mim Black Mirror não é propriamente uma série, pela sua linguagem cinematográfica e considerando que todas as histórias são independentes e apenas o tema é o mesmo, porém isso pouco importa, a verdade é que vai deixar-te abalado, independentemente do que achares que é. Definitivamente, merece ser visto.

8 de fevereiro de 2012

OUTRA TERRA, A, 2011 (Another Earth)


Quem me lê está farto de saber que gosto de ensaios filosóficos, mas não gostei d’A Outra Terra, não por causa do tema, mas pela abordagem, porque de repente comecei a sentir-me untado com banha de cobra.

A Outra… parece-me (e é realmente) dois filmes que foram ligados violentamente por choque lateral, resultando daí que as perguntas que poderia ter levantado permaneceram no caixão estiradas. Vejam por vocês mesmos, vou fazer a sinopse:

Rhoda faz um acidente de viação que resulta na morte da mulher e do filho de um músico famoso. Quatro anos na prisão por homicídio por homicídio involuntário ela saí destruída e destituída de propósito. Então para corrigir o passado entra na vida do destruído músico sorrateiramente e acaba por criar um novo propósito para este, ganhando ela mesmo o seu.

Paralelamente, surge uma Terra para lá do Sol, igualzinha à nossa e a tentativa de contactar essa Terra demonstra que não só era uma cópia exacta da nossa, como as pessoas que lá vivem são também reproduções nossas e tiveram o mesmo percurso.

Esta parte das Terras podia criar infinitas interrogações se os argumentistas tivessem trabalhado apenas nessa premissa, porque a outra, aquela de cima, funciona bem e independente desta, mas não o fizeram. E assim A Outra não tem nada a ver com a outra Terra, e quando muito só faz umas sugestões que faz pedir por mais e, sadicamente, não no-lo dá. O filme mesmo é sobre Rhoda e sobre as perguntas que todo o mundo faz: poderia eu ter uma vida melhor que esta? No entanto prometem um espelho que nos podia mostrar essa possibilidade e logo a seguir cobrem-no com um pano e tudo o que podemos fazer é pensar: só podem estar a gozar comigo!

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Não obstante, A Outra… é um filme digestível, não se se bem, não sei se mal, pois tem um ritmo calmo, quase parado, quase disperso, uma ar experimentalista, fotografia granulada que pretende parecer amadora, por vezes destoante (tem cenas em que os cortes mostram fotografias diferentes parecendo ter sido filmadas em cenários diferentes) deixando a questão se aquilo é um erro ou se tem algum propósito estético ou metafórico (como no filme Mary e Max), afinal está-se a falar de, senão duas terras, pelo menos dois estados de espírito.

E realmente não sei qual é mesmo a questão substancial do filme: se a penitência, se a ressurreição, se o poder regenerativo do amor, se “o que faria um outro eu na minha posição?”. Por isso digo, A Outra Terra é uma bela treta, uma banha de cobra, promete-nos algo, deixa-nos a babar por ele, e não tem a decência de no-lo dar, talvez por não saber como, talvez por nem estar aí para isso. 

20 de julho de 2011

X-MEN, O INÍCIO, 2011 (X-Men - First Class)


A minha veia nérdica levou-me a ver os filmes mais nerds que andam pelo cinema, e de todos escolhi um para falar, e procedendo a um processo de selecção, comecei por afastar o Transformer 3, por não ser propriamente instrutivo, mas diversão pura, resumindo-o em: De qualquer maneira Michael Bay sabe dar um espectáculo e a sua estereoscopia é a melhor que já vi, em termos perspectográfico, no cinema. Depois o Lanterna Verde (da DC COMICS) e o Thor (da MARVEL) que, superficiais e imberbes, não aquecem nem arrefecem, preferindo antes os seus respectivos desenhos: Lanterna Verde – O Primeiro Voo e Thor – Contos de Asgard, que serviram para introduzir o pessoal menos nerd ao universo fantástico destas personagens.

Escolhi falar de X-Men ­– O Ínicio, pois levou-me a ver de novo a série toda. E adianto desde já que é a melhor e mais consistente série de super-heróis no cinema, e o filme em causa é o melhor da série.

Não é preciso conhecer o universo de X-Men para gostar do filme, visto que os personagens foram bem introduzidos e os que têm um impacto substancial no desenvolvimento da história foram suficientemente bem caracterizados, tirando os coadjuvantes que estiveram ali mais para mostrar o fantástico desse mundo e a sua diversidade. Nesse sentido, conhecer o universo X-Men da BD, ou mesmo dos filmes anteriores, considerando que o reboot criou desfasamentos, apesar de pegarem na abertura do primeiro filme de série com o magneto no campo de concentração quando puto, para abrir este, pretendendo dizer com isso que houve uma continuidade cronológica, tal foi falso. Aliás, a cronologia dos três X-Men, do Wolverine, e deste não batem, nem entre si, nem com o universo do BD, mais uma razão para separá-los. Essa é a parte que os fãs odeiam, por exemplo (spoiler! Spoiler!) vermos aqui Darwin, o mais poderoso herói Marvel, com cabelo e a morrer às mãos do Rei Negro, ele que sobreviveu na BD à própria Hela (a deusa da morte), é um tanto irritante, mas separando os contextos, aceita-se, pois não se pode seguir tudo à risca considerando que são universos diferentes, o cinema e o papel.

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Agora vamos ao filme em si. X-Men em qualquer universo, BD, cinema ou televisão, tem tido uma constante: a questão da diferença. Não é possível ver X-Men sem estabelecer parâmetros com as várias minorias da nossa sociedade e com a maneira como elas são tratadas. E quando tratamos mal a alguém não será justificável o seu ódio quando voltado contra nós?

Foi o que X-Men - O Início tenta mostrar. O vilão dos outros filmes, Magneto, aqui é mostrado de um ângulo menos parcial, quando ainda tentou acreditar na esperança de um mundo único, quando ainda estava disposto a morrer pela humanidade. Tirando Shaw, o Rei Negro, os restantes personagens, pelo menos os principais, não podem ser considerados nem imorais, nem amorais, mas simplesmente lidaram com uma escolha: seguir o princípio darwiniano da sobrevivência do mais forte, como a lição do Professor Xavier no início diz sobre os neandertais, ou acreditar numa utopia que vai contra as evidências. Nem se pode culpar ao Mutante, nem aos governantes que o levaram ao ponto onde ele chegou, porque se queremos sobreviver ao mais forte temos de lhe anular as vantagens. Mas isso quando a questão é vista num contexto de guerra. Por isso, o sonho de Xavier parece o mais equilibrado, não é preciso uma guerra, uma eliminação forçada, mas sim uma convivência pacífica, deixando a natureza seguir o seu curso. 

Não falei tanto e nem fui ao fundo como gostaria, , mas X-Men - O Início é um filme que agradará a todos, seja se forem em busca de aventura, seja de um filme sério, porque foi bem doseado e é perpassado por várias outras questões, como o do potencial que não desenvolvemos gastando a nossa energia em tentar encaixar em contextos mais cómodos, etc, e etc, aspecto que foi muito bem desenvolvido por Mística e Hank, e pela relação fugaz entre os dois, e também que explica a dedicação da Mística ao Magneto na primeira trilogia. 

É um filme que recomendo e, para mim, é claro, o melhor filme de super-heróis, sendo muito mais sério que a trilogia X-Men, e muito mais divertido que a primeira metade do primeiro Homem-Aranha de Sam Raimi (a metade boa).


P.S.: Alertado por Fernando Borges, que escreve Reflexão Geral, venho assim retractar, X-Men é o segundo melhor filme de super-heróis, Watchmen é o primeiro. 

15 de junho de 2011

MISTÉRIO DA RUA 7, 2011 (Vanishing on 7th Street)


Stephen King tem uma história no seu livro Meia Noite e Dois chamado Os Langoliers, que por acaso ganhou uma minissérie (The Langoliers) má po cará… ok!, bastante má, como 90% dos filme feitos à base do trabalho do autor. Nessa história, as personagens passam por uma fenda no tempo e todas desaparecem, sobrevivendo apenas as que se encontravam a dormir, e depois há o nada, que me lembra História Interminável (grande filme da minha infância), que faz desaparecer tudo.

No entanto, não vou aqui falar d’ Os Langoliers, e se comecei por ele foi pela semelhança que encontrei com o filme Mistério da Rua 7, que inicia com as pessoas a desaparecerem numa sessão de cinema, ficando só coisas inorgânicas: roupas e etéceteras, consumidas pelo nada, ou melhor pela escuridão. Vi o filme atraído pela sinopse e lembrei-me do mestre ali em cima. Por isso mal o desaparecimento aconteceu, comecei a procurar semelhanças para poder identificar por que razão alguns não desapareceram, sobreavisado pelo enredo da estória supracitada, e foi fácil: a luz, o que me foi confirmado uns tantos minutos depois, querendo dizer que o argumentista leu a mesma história.

Quando acabei de ver Mistério da Rua 7, fui ler as críticas e não houve nenhuma boa, todos falam mal do filme, queixando-se ou dos actores (que de facto andaram por lá aborrecidos), ou do enredo com muito por explicar (quando muito explicado também se queixam) ou da falta do propósito da história, e ainda houve um que disse que a intenção do realizador era satanizar o Adam Sandler e enaltecer a religião, comparando o filme com O Livro de Eli.

Pois bem, eu aqui gostei do filme, não que isso interessa. E a quem disse que não encontrou propósito ou mensagem eu recomendo ver de novo. E aviso desde já, isto vai carregado de spoilers.


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Mistério da Rua 7 começa num cinema, como já dissera, o projectista conversa com alguém, falando com nariz torcido do filme de Sandler que estava a ser projectado, razão: o enredo é sempre o mesmo e as mesmas piadas fáceis, mas as pessoas estupidamente continuam a ver esse mesmo filme, aliás, a prova disso é o The Hangover II acabadinho de estrear, que não mais nada que o recalibrar do primeiro, segundo os que viram. Ou alguém já viu o filme Professora Baldas?, só vi o trailer, ali ela põe os alunos a ver filmes em vez de ler, advogando que os filmes são os novos livros. Aqui o projectista do cinema é mostrado a ler e mais tarde percebemos que é um nerd, com todos os clichés: muito conhecimento, desejo e medo de mulher. É o único instruído, o único que lê, apesar de ser aquele que põe o cinema a funcionar, porém, só tem teorias não age. E para o cinema acontecer tem de haver escuro, mataforando, as trevas, o emburrecimento, digamos assim. De repente acontece um apagão e todo o mundo desaparece. E mais tarde percebemos que a escuridão (que parece vindo de Ghost - Espírito de Amor) é que consome as pessoas e as tornam em nada mais que sombras.

Depois vemos outra personagem, uma enfermeira, a procurar pelo filho no hospital, para contextualizar que a luz, o esclarecimento, a razão (metaforando outra vez), é que salva. Como vemos ainda na sequência seguinte quando nos é mostrado um apresentador de televisão todo cheio de si mesmo, que sai de um edifício de vinte ou mais pisos (imaginem a quantidade de pessoas que vivem ou trabalham num edifício desse tamanho) e vai até a rua sem dar conta de que as pessoas desapareceram. Primeiro pensei, que merda de distracção forçada, mas depois compreendi a mensagem logo a seguir quando ele nega ajuda a uma pessoa em risco de vida: aquele só quer saber de si mesmo e acha que o mundo gira à sua volta, por isso demorou a notar que os outros já não existem.

Depois aparece, cada um por sua ordem, duas crianças cujos maiores propósitos só são mostrados no fim.

Quatro dessas pessoas vão acabar num bar que tem um gerador auxiliar a funcionar e mostram ali as suas personalidades de uma maneira mais explícita: o projectista é cheio de teorias, mas só fica nisso; a enfermeira é uma crente e acha que Deus está a punir o mundo pelos pecados; o apresentador é egocêntrico, não lhe importa um corno do porquê daquilo, só quer sobreviver; a criança é uma criança um vaso para encher e que todos eles enchiam. A outra criança que sobreviveu, conseguiu-o afastando-se dos adultos.

Quando as personagens são ameaçados pela escuridão põe-se todas a declamar: eu existo!, eu existo!, repetidamente. E quem se lembrar de Cogito, Ergo Sum, de Descartes, talvez note que eu existo quer dizer eu penso, eu penso quer dizer tenho luz, porque a burrice é a escuridão; e tenho luz, segundo Kant, quer dizer eu ajo, e eu ajo passaria por eu pondero. E aquilo pelo que o nosso planeta está a passar demonstra tudo menos ponderação: destruímos o mundo em nome do lucro, temos o aquecimento global, a poluição, as guerras, a fome, males de toda a sorte em nome do egoísmo, das crenças, tanto científicas como religiosas, e ainda assim dizemos: somos racionais. Sempre gostava de saber quem definiu o homem como racional, Oscar Wilde.

Devo ter sido o único que encontrou mensagens no Mistério da Rua 7, o único que esteve atento ao facto das personagens terem sido salvas por energia fotovoltaica, ou que ouviu referências à cidade verde e às usinas nucleares. Ainda temos o sol, está tudo bem, mas e quando perdermos o sol e quando queimarmos o céu (The Animatrix, alguém se lembra?)? A menininha do filme salvou-se porque tinha uma lâmpada que nunca apagava porque funcionava com o Sol (a fonte da luz), e a escuridão não conseguia apagá-la como fez com as outras fontes de luz, o rapaz salvou-se por causa de pequeno grão de fogo, querendo dizer que a luz (o eclarecimento), mesmo que em pequena dose ajuda-nos a livrar da escuridão. Ou alguém notou que os animais não desaparecem? Ainda no fim, temos um novo Adão e Eva, não brancos, mas preto e branca, uma referência à miscigenação anti-racista. O filme não é religioso (quer dizer se ignorarmos os 3 dias, o número 7, os triângulos que insistiam em aparecer), mas político, filosófico e ideologista.


Ok! Agora a parte má: Mistério da Rua 7 tem um tanto de parvoíces, dos quais cito: a enfermeira a procurar o filho no hospital quando o tinha deixado em casa, ou depois de 3 dias ainda andava aos berros por causa dele, como se não tivesse visto o mundo todo a desaparecer. Queria então dizer que o amor dos pais é sempre estúpido e cheio de esperança? Ainda essas pessoas dizem terem sido apanhadas pela escuridão mas que escaparam, um deles disse que a sua luz voltou e foi por isso, ou seja talvez todos eles dever tem escapado por causa de alguma fagulha, mas isso ficou por explicar porque esse mesmo ainda disse ter estado preso na escuridão durante 3 dias (o número mágico do esoterismo, comparação com os dias que Cristo viveu na escuridão, ou andou na escuridão quando morto?), e depois mandado para a luz. E mais a lenda de Croatoan só faz perder o carácter de seriedade do filme, principalmente quando a palavra aparece escrito, deitando abaixo a seriedade das mensagens antes passadas.

É certo que para ser um filme de terror falta-lhe muita acção, e apesar do arrastar um tanto desnecessário de algumas sequências, o filme foi suficientemente rápido. Podia ser melhor trabalhado para agradar tanto aos gregos como aos troianos, mas este troiano aqui não reclama. A parte técnica também mandou bem, particularmente destaco a fotografia (que lembra muito a The Walking Dead, principalmente na cena final). Eu gostei e encontrei mensagens, por isso fecho assim: O Mistério da Rua 7 é recomendável, mas se queres acção e susto, fácil ou difícil, e não usar o cérebro, passa longe.


Actualizado: vi o filme de novo no início de 2017, era muito mau. Nem sei onde tinha a cabeça quando o vi pela primeira vez e que motivou este post. 



6 de junho de 2011

ESTRELAS O MEU DESTINO, Alfred Bester (1956) - por que somos limitados


Há oito anos, indo visitar uma pessoa, ao passar junto a um monte de lixo vi um livro, tinha a capa intacta, mas não conservada, e estava seco, apanhei-o, faltavam-lhe umas tantas páginas no fim, e não sei por que não o deitei fora, pois aquilo era um bom portador de bactérias, o título era Estrelas O Meu Destino, escrito por Alfred Bester. Não encontrei a pessoa que tinha ido visitar, não tínhamos telemóvel na altura, por isso só me restava esperar por ela, e aí fiz o maior erro daquele período, comecei a ler o livro, jactando-me de tê-lo achado.  Depois estive muito doente, quase às portas da morte, mas não foi por causa do livro, foi porque apanhei sarampo.

Estrelas O Meu Destino, conta a história de Gulliver Foyle, um homem amoral e mentalmente, hum!, reduzido, que deixado no espaço para morrer resolve vingar-se destruindo a nave que não lhe deu socorro. Gulliver é mentiroso, devasso, abutre, cancro ambulante, mas, pudera!, a sua época , como começa o livro, era uma idade de ouro, uma época de grandes aventuras, de desafios constantes e de morte violenta... mas ninguém pensava assim. Era um futuro de fortunas e de roubos, de pilhagens e de saques, de cultura e de vício... mas ninguém o admitia. Era um século de extremos, com todo os fascínio da extravagância e da excentricidade... mas ninguém o amava. 

E nesse seu intento ele entra em contacto com o dono da companhia que, obviamente, não quer a sua nave destruída e que além disso tem outros interesses em Gulliver, Gully Foyle, pois ainda que o próprio não saiba, é o melhor jauntador de sempre. Jauntar foi assim nomeado porque a primeira pessoa que o fez e o documentou chamava-se Jaunte, mas para nós, hodierno, ainda é conhecido por teleporte. Gully consegue teletransportar-se a distâncias inimagináveis tanto no tempo como no espaço e isso faz dele a pessoa mais especial da sua época; e isso acaba por mandá-lo para uma "prisão", onde o "reduzido" Gulliver trata de aprender para poder efectuar a sua vingança (cheira a Dumas, não cheira?).

Estrelas o meu destino é um livro arrebatador, ritmo rápido, quase cinema, entre arriscado e seguro, e uma crítica às corporações e o seu sistema, que não hesitam e tirar vidas em nome de lucro, corporações essas que podem vestir-se de diferentes maneiras, tanto como multinacionais como governos. Se tivesse 500 páginas e fosse relançado hoje seria um best-seller.

Estrelas O Meu Destino, também conhecido por Tigre! Tigre! é um dos meus livros de ficção de sempre, principalmente porque não o acabei de ler, devido às páginas que faltavam, o que causou o meu arrependimento, visto que tenho desde essa altura procurado por ele, para ver se o conseguia acabar, tanto em bibliotecas como na net. Hoje encontrei um pdf em espanhol, e oito anos depois… uffffa, vou acabá-lo.

O livro é muito bom, e por ser simples, sem aparentes mensagens profundas, lê-se com bastante facilidade, principalmente pelo humor e leveza da pena do autor. E por referir-se ao espírito humano e às barreira que impomos a nós mesmos, ou que a descrença dos outros nos impõem, às nossas vanidades e veleidades que temos como a razão da existência, merece, contudo, um outro olhar. Recomendo-o a quem o consiga achar. Eu vou relê-lo, mesmo que em espanhol, para, talvez, depois voltar a falar nele.

25 de maio de 2011

DISTRITO 9, 2009 (District 9)


Se me perguntassem qual foi o melhor filme que vi em 2009, eu nem hesitaria em responder: Distrito 9.

Quando fui vê-lo, não tinha lido nada sobre ele, nem visto trailer, a única coisa que sabia dele era ser produzido por Peter Jackson e ter extraterrestres, mas eu sempre desconfio quando usam nomes de pessoas que já fizeram bom trabalho para vender mercadorias. Porém, um dia resolvi ver Distrito 9, estava à espera de uma comédia, porque o cartaz lembrava-me da Arma Infrutífera, com Samuel Jackson e Emílio Estevez, e o título remetia-me ao B13, aquele filme francês de parkour. Com uma expectativa assim tecida, por ser o Distrito 9 como é, apanhou-me totalmente desprevenido e chocou-me sobremaneira.

O início do filme, com aquele carácter de reportagem, criou logo a sensação de algo real, comecei a pensar que talvez o filme é sobre um desses tantos loucos que proliferavam nos anos 70 jurando terem sido abduzidos por aliens. Não sabia bem do que estava à espera, mas ainda contava com uma comédia, mas uma comédia muito realista. Não pude não me sentir parte daquele universo, por estar acostumado às notícias na TV. Além de passar a mensagem: apareceu na TV, é verdade.

No filme (cuidado com spoilers!) temos um grupo de alienígenas que vieram refugiar na terra, provavelmente porque o Titanic deles afundou. Não se pôde especificar bem do que estavam a fugir (se é que estavam) ou para onde iam, mas pelo menos, vemos um deles a planear voltar para a casa para ir buscar ajuda, ou seja, a estrutura social do planeta deles continuava ainda intacta. Sobre o aliens, chamados gafanhotos pelos humanos não se sabe muita coisa.

Para começar os aliens foram parar à África do Sul, país que ainda está a tentar curar-se do Apartheid. E… pausa para os problemas raciais, e abertura para os problemas especiais (leia-se de espécie), alguém dizendo no filme: ao menos fossem humanos. É, pois é! Até mesmo Aristóteles quando definiu a ética não contemplou outra vida senão a humana, porque aparentemente as outras são despidas de psique. Tal como ao longo da História os europeus consideraram os africanos desprovidos de alma.

É curioso ver que os aliens apesar da sua supremacia tecnológica e bélica deixaram-se ser abusados pelos humanos, confinados a um campo de concentração. Outro paralelo para os diversos campos de refugiados espalhados pelos países vizinhos a países em guerra, onde as pessoas são arrebanhadas, sem direito, sem consideração, onde têm filhos que crescem nesses mesmos campos até à idade adulta, mas sem cidadania (situação que abunda pela África), ou então paralelo aos bairros sociais e favelas espalhados pelo mundo inteiro, onde as pessoas são estereotipadas e estigmatizadas, proibidas de uma certa maneira, de relacionar normalmente com a “sociedade da elite”. E mais, como vizinhos, nesses campos, têm apenas um monte de pretos.

Sem falar da manipulação da verdade em nome do poder, das relações hierárquicas, da necessidade de domínio, que são umas das tantas imagens que vemos no Distrito 9, só a relação entre as pessoas, como o herói e a sua esposa, é uma ideia já forte que o filme trata. Mostra que, por vezes, os casais criarem conchas para se protegerem até que não é mau de todo. E as imagens metafóricas são também várias, como a "comida de gato", uma droga usada para controlar o comportamento dos gafanhotos, como a televisão e outras drogas nos controla a nós, ou, por exemplo, o símbolo da organização vilã do filme que remete para a águia do emblema americano.

trailer

Queria escrever isto há uns dias atrás, logo depois de ter revisto o filme, mas fui adiando, adiando, até hoje, e praticamente todas as notas mentais que fiz durante o visionamento perderam-se, mas lembro ainda vivamente de uma cena: os heróis, o terrestre e o alienígena invadem o laboratório, e imitando John Connor, o terrestre ordena ao outro para não matar ninguém. E quando o terrestre dispara sobre uma pessoa, o alien pergunta qualquer coisa como isto: “então não era para ser sem morte?”, ao que o terrestre responde: “ele tentou me matar”. Pois então a sobrevivência legitima o tirar a vida aos outros? Sim, se a vida for humana (leia-se dos poderosos) as restantes merecem ser sacrificadas para a preservação dessa.

O filme tem alguns buracos no argumento e tem cena estúpidas, como a parte final em que os aliens que durante 20 anos levaram dos humanos e sempre se mantiveram quietos mesmo quando um deles era morto abusivamente, resolveram se rebelar por causa de um mestiço (o herói hibrído).

Distrito 9 é um filme de ficção, um ensaio sobre a ética, e porque não podia deixar de ser, um filme de acção. A dada altura teve que largar a viagem no psique humano para se tornar apenas num filme de acção, afinal nem todos são Christopher Nolan ou Vincenzo Natali, mas nem por isso perde o seu poder e é um filme para ver e reflectir.