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6 de maio de 2012

TRIPPING THE RIFT: THE MOVIE, 2009


Sempre que num título aparecer “The Movie”, não tenhas dúvida, ela é proveniente de alguma obra de um outro campo artístico, usualmente a nona arte ou a televisão, porque filmes baseados em livros (literatura, digamos assim) não trazem essa indicação.

Com isso quero dizer que Tripping… é uma série de televisão que, por acaso, nunca vi, mas pelo que vi no filme suponho ser ácido e satírico, um cruzamento bastardo de Futurama e South Park, mas que, no meu entender, só se limita a bulir com os famosos e não faz realmente uma crítica social, como o último, pelo menos no filme.

Tripping… não tem propriamente um argumento, é um conjunto de Sketches colados uns aos outros por uma desculpa cómica que pretende ser o argumento, que é a história do Arnie-1000, um palhaço robot que volta no tempo para matar Chode (o capitão da nave, que tem uma característica antagónica de todos os grandes capitães de ficção científica, por ser feio, porco e mau) com direito ao sotaque de Arnie e tudo, até algumas linhas como o famoso “I’ll be back!”. Pelo filme faz-se uma visita a Transilvânia, a terra do Conde Drácula, anda-se pelo Frankeinstein, pela Ilha de Tesouro, pela Donas de Casa Aborrecidas, quer dizer, Desesperadas, e provavelmente por algum outro filme ou série não alcançado pelos meus limites.

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Tripping... leva-nos a viajar com estes personagens crus e egoístas, mas que prezam a amizade que sentem um pelo outro. As características físicas dos personagens reflectem o seu lado psicológico também, mas isso pouco importa. Da tripulação fazem parte, Chode, o capitão sacana; Gus, o robot gay; Whip, um camaleão preguiçoso; T'nuk Layor (royal kunt), uma minotaura invertida; Six, uma cyborg programada para sexo; e Bob, o computador que controla a nave e é agoráfobo. São estes que tripulam o Júpiter 42 e proporcionam-nos momentos de riso, principalmente pelo politicamente incorrecto.

O filme é bem cómico, não para ver com as crianças devido ao seu tema sem nenhum propósito moral e à sua linguagem e cariz sexual, mas acho que serve para passar uns bons minutos, mesmo que seja só para ouvir a imitação do sotaque do Arnie, pois não é nada de imperdível.

1 de agosto de 2011

MARTE PRECISA DE MÃES, 2011 (Mars Needs Moms)


Ainda estou para saber por que raio gosto de filmes que todos massacram. Marte Precisa de Mães, uma animação da Disney, foi o último filme que vi e quando fui ao IMDB, tinha uma pontuação bastante rasca, nem sequer chegava a mediano. Hum, isso assusta, sabem, pois leva-nos a pôr em questão a nossa capacidade de apreciação, perguntar: por que raio só eu gosto disto? Mas não, mas não, não se trata de mim, acho que Marte Precisa de Mães tocou alguns pontos que para os americanos é uma blasfémia, o que resultou num ataque de críticos que se espalhou para o mundo todo, aliás, sabe-se que os críticos do lado de cá não fazem mais nada do que concordar com os americanos, se eles dizem lá que um filme é bom, estes aqui secundam, o que explica que filmes como A Ressaca tenham sido muito bem falados quando talvez só tenham piada para a cultura americana.

Marte Precisa de Mães é um filme que diverte, com bastante fluência e que se consome rapidamente, e vou revê-lo com os meus sobrinhos para tirar a prova dos nove. Porém, o que vou fazer aqui é tentar perceber por que razão o filme foi maltratado apesar do seu tema, o que fará com que tenha spoilers.

Eis a história: Milo, um rapazinho, num daqueles momentos frequentes de ira que todas as crianças têm, diz à sua mãe que estaria melhor sem ela, e os marcianos que precisavam de mãe, uma boa mãe que saiba educar, e que por acaso estavam de olho na mãe dele, resolveram raptá-la para ir educar as suas crianças. E Milo seguiu a mãe e entrou na nave, indo acabar em Marte, onde conhece Gribbles, um humano que há vinte e cinco anos atrás vira a sua mãe a ser raptado e que desde essa altura viveu nas catacumbas de Marte. A entrar na aventura aparece Ki, uma marciana sorridente (linda e com um sorriso cativante, deixem-me dizer, apesar da sua feição marciana) por quem Gribbles acaba se apaixonando. Como vilã temos a Supervisora, uma espécie de amazona que resolve criar uma sociedade livre de homens, porque os gajos são preguiçosos e infantis.

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Eis a história e ao mesmo tempo os problemas do filme, vou elencar o que desgostou a crítica americana:
  1. A relação entre Gribbles e Ki, visto um ser humano e outro marciano. Se a relação entre um preto e um branco, na América ainda hoje não é considerado uma relação normal, precisando do apodo interracial para poder entrar na categoria de relação, imaginem como eles reagem à uma relação inter-especiés. Não importa que Ki manifeste emoção, não importa que seja tão inteligente ou mais inteligente que Gribbles, não importa que ela seja, permitam-me dizer, um ser superior, não, o que conta é que ela não é humana, portanto isso é bestialidade. Aliás, nem importa que Gribbles se sinta mais marciano do que terrestre por ter passado a vida toda em Marte e com os marcianos, não, ele não é marciano. Tal como os árabes não são americanos, tenham ou não nascidos ali, os pretos também não, os latinos, os chineses, etc, o que justifica os prefixos afro-americano, sino-americano, entre outros. Nesse sentido, aceitar o filme, e não classificá-lo mal, seria aceitar a ideia de uma relação inter-especial, o que para eles é de muito mau gosto.

  2. A ideia de que nós, os homens masculinos, somos realmente preguiçosos. No Marte há dois mundo o de cima, onde vivem as mulheres, e o de baixo, a lixeira, onde vivem os homens, enquanto o de cima é bem desenvolvido, as mulheres falam, escrever, são inteligentes, o de baixo, onde vão parar os homens é bastante primitivo, os homens nem falar sabem, a única coisa que fazem é esfregarem-se um no outro, revelando sentimentos homo-afectivos (por favor não confundir com homossexual). Parece que o filme quer dizer que os homens só são salvos de não serem gays pela existência da mulher, e os americanos não querem ver isso, não querem saber que em cada ser humano há um gay que nos leva a fazer amizades fortes e duradouras com pessoas do mesmo sexo, o que nos leva a querer a precensa do amigo tal como queremos da namorada, sendo a relação sexual o único diferencial.

  3. Esse mundo dividido de Marte, onde a vilã, a supervisora, é consequentemente feminina, é também um ataque aos feministas, pois para não o ser, se o mundo fosse governado por mulheres, tinha de ser justo e imparcial. Nesse sentido, os politicamente correctos americanos tinham de atacar o filme (embora, não me pareça que este ponto seja o que realmente os preocupa, mas sim a sua masculinidade arranhada) usando isso como desculpa.

  4. Outra desculpa talvez seja a questão mãe. Milos define a mãe como uma empregada que nos ama. E eles não gostam dessa definição, acham que o conceito mãe vai mais longe, e que essa é uma ideia errada para passar às crianças. Porém, na verdade, o que é mãe, senão aquela empregada, que ainda por cima é patroa, pois dá-nos ordens, porém que nos ama e por quem temos amor. Que mãe se importa de ser empregada do seu filho, desde que este lhe diga todos os dias que a ama ou lhe mostra todos os dias esse amor? O que irrita os americanos é terem de reconhecer que sim, que eles usam mesmo a mãe como empregada, por ela ser mãe, mulher, o segundo da hierarquia familiar.

  5. A referência ao comunismo, o planeta vermelho e tal, e o constante ataque americano  a ele pelos americanos, feito por Gribbles, porque é um golpe no orgulho capitalista. Ou seja, o filme é uma inversão polar de Marte Ataca, visto que estamos tanto a observar a eles, como eles a nós, e pelo que parece a objectivo deles é mais cândido.


Enfim, o filme mostra várias coisas, talvez até mesmo uma apoligia ao cannabis, mostrando como os hippies davam cores à vida, mostrando como Marte ficou mais animado depois, sob o lema: O poder da flores, todo esse conjunto, deixa de ser um ensaio, para ser uma ofensa para as crianças, portanto, para fazer do Marte Precisa de Mães um mau filme. No entanto, se 60% de adultos não conseguem fazer do filme esta leitura que eu fiz, imaginem se 90 % de crianças conseguiriam. Portanto, a desculpa para massacrar o filme é para salvar o ego e justificar as fobias de uma determinada classe americana e não porque o filme não diverte ou não ensina. Confesso que eu também fiquei preocupado com a relação inter-especial, mas será essa a razão para negar todo o valor do filme.

Em termos técnicos, a animação é muito boa, foi usada a técnica de captura, tendo actores reais interpretado os personagens, ou seja, não houve apenas uma interpretação de voz. E houve bastante realismo nas cenas, e mesmo na história, considerando que se tomou em conta a questão de gravidade, ou a impossibilidade de respirar fora da cápsula, e se puderam os marcianos a respirar como os humanos compreende-se que foi para dinamizar a história. Porém, isso não tem nada a ver com a técnica. O filme é visualmente aparatoso, algumas renderizações têm um aspecto plástico, mas no geral está bem definido e é magnificado pela utilização da luz e cor.

Marte Precisa de Mães, não se enganem pela crítica, vejam pelos próprios olhos, é um filme bem divertido, com, pelo menos, uma personagem carismática, e que arranca umas boas gargalhadas. Porém, também é um filme que diz: Oh, Disney, quando quiseres fazer uma animação, não te esqueças de levar a Pixar junto.

15 de julho de 2011

TARTARUGA E A LEBRE, A - A REVANCHE DO SÉCULO, 2008 (Unstable Fables: Tortoise vs Hare)


Era uma vez uma lebre e uma tartaruga que se desafiaram para uma corrida. A lebre, muito rápida, em três tempos já estava perto da meta, deixando a tartaruga a comer poeira, porém, gabarolas como era, achou que ainda podia tirar uma soneca antes de acabar a prova. O resultado: ficou a dormir, enquanto a tartaruga, nos seus passos lentos, a ultrapassou, cortando a meta. Sim, basicamente é isto. A fábula é bem antiga e quem não a conhece deve ser da geração Toy Story, ou seja, viu mais desenhos de que leu livros ou ouviu contos.

Quando vi o título fiquei curioso, A Tartaruga e A Lebre - A Revanche do Século fiquei curioso, uma história tão simples e tão básica, que truques poderão torná-la interessante? Bem, e não é que não a fizeram interessante.

Eis a sinopse: 15 anos depois da famosa corrida, acontecimento que teve um destaque televisivo, a Lebre, ou devo dizer, o Sr. Lebre que ainda não conseguiu recuperar-se da trágica decisão de ter dormido no momento da corrida, e o Sr. Tartaruga, que ainda puxa lustro à sua vitória, ainda mantêm uma rivalidade constante, metendo toda a família ao barulho. E eis que há uma outra corrida na cidade e os dois resolvem participar com os seus filhos, o Sr. Lebre para dar a revida, o Sr. Tartaruga, para mostrar que o seu lema devagar e constante, com o qual ganhou a vida, continua a ser o mais indicado e que vai ridicularizar o vizinho… sim, os dois são vizinhos.

Ri-me o filme todo, situações engraçadas não faltaram. Tem umas piadas adultas que, no entanto, são bastante inocentes, nada como a erecção de Lorde Farquuad ao ver a imagem de Fiona no filme de Shrek.

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Ainda aproveita para ensinar que a dança é o remédio para o mal do mundo. Não é para ser tomado à letra, mas a verdade é que o mote é: faz amor e não a guerra, um tanto hippie, porém real. Os conflitos nascem da competição. Não sou contra a competição, no entanto, a maior parte é supérflua e alteia mais barreiras do que as derruba; por exemplo, a competição para ser o mais rico do mundo, resulta em empobrecer milhares para chegar a esse ponto. Os vizinhos competem, os países competem, irmãos competem entre si, quando se se unissem mais facilmente chegariam a um objectivo que pudesse satisfazer a ambos e manter o clima de dança. Houve um momento no filme que se ouve uma frase como esta: bomba neste país. A frase, casual e deslocada, mostra no entanto o descontentamento e o cepticismo em relação à melhoria deste planeta e a unidade e harmonia. Hum… o meu texto está muito animado e com uma, sei lá, ingenuidade utópica marcante, e devo isso ao filme, mérito dele.

Ainda temos referências ao mundo televisivo, aos cameramens que filmam desgraças sem ajudar, como se fossem documentaristas da National Geographic, dos paparazzos, e da incidência da média na vida privada que eleva à catastrófica um simples problema de uma figura pública. Algumas piadas ácidas e situações que remetem para o estado actual da coisas,  não entendíveis pelos mais desatentos, porém que fazem a boa graça do filme.

Quanto à parte técnica, A Tartaruga e A Lebre, tem uma animação é bem fluída, mas a modelação parece bem tosca, dando a entender que os produtores não tinham muito dinheiro (bem, também o filme foi direito para o vídeo), pois pareciam mais bonecos de plasticina do que modelos computorizados. Gostei bastante do filme e é bem divertido, faz rir e aguenta bem os seus setenta minutos. Um bom filme para ver com as crianças.

8 de julho de 2011

RAPAZ FORMIGA, O, 2006 (The Ant Bully)


Foram vários filmes que vi nas três últimas semanas e que me fizeram querer falar sobre eles, entretanto, o que mais se destacou no meu conceito foi O Rapaz Formiga (The Ant Bully) – conhecido pelas bandas da Terra de Vera Cruz por Lucas, Um Intruso no Formigueiro –, porque é um filme de criança muito educacional e bem adulto.

Ok, eu sei que não é o primeiro do género que aborda temas como a comunhão de espécies, e é por vezes bastante cliché, no entanto, o seu ponto moral de a união faz a força é algo do qual parece que precisamos constantemente de ser lembrados.

A história d’ O Rapaz Formiga é a seguinte: Lucas, um rapazinho que apanha dos colegas da vizinhança por ser pequeno, torna-se intratável e mal-humorado, e para compensar-se da violência que sofre, destrói as colónias das formigas do seu jardim. Entretanto, um fomiga-mago resolveu castiga-lo reduzindo-lhe o tamanho, obrigando-o assim a sentir na pele o que ser formiga.

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O Rapaz Formiga mostra um contraponto a nossa sociedade actual, onde as pessoas do mesmo ninho vivem isoladas umas das outras, sob o lema de cada um por si, o que piora cada vez mais, porque antes ainda pelo menos se dizia: e deus por todos, e esse contraponto é a organização de uma colónia de formigas. Formigas pequeninas que conseguem criar e transportar enormes quantidades de comida e porcarias porque trabalham em conjunto e para um bem comum.

O Rapaz Formiga também foca um outro aspecto, o bullying, que funciona por deslocação de agressão, e que aqui é justificada por: eu sou grande e tu és pequeno. Uma justificativa bem simples, mas bem preocupante, porque realmente nos fazemos mal uns aos outros, não porque temos um fim nobre em vista (o que a princípio já é uma contradição), mas porque podemos… só isso. Só nos sentimos poderosos quando podemos pôr os outros em aflição, ajudar não conta, porque o altruísmo é distorcidamente um sinal de fraqueza. E ainda, embora de maneira leve, roça uma questão: o sucesso dos videojogos violentos é um sinal de transferência de agressão ou é a manifestação da nossa agressividade e que nos leva a ser mais violentos?

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como podem ver, o bom trabalho do casting reflecte na qualidade do filme

Duvido muito que O Rapaz Formiga pretenda dizer aos putos para não inundarem as colónias dos insectos, ou às pessoas para não pulverizarem as suas casas, mas sim tocar num ponto da nossa moral doentia que justifica a nossa crueldade em relação às outras espécies com a nossa superioridade animal e necessidade de sobreviver. O filme mostra que a natureza usa a natureza para sobreviver e que nesse processo há a destruição de outras espécies, mas, antes de tudo, isso não se dá por simples necessidade lúdica. Aliás, quando numa conversa Lucas refere-se a diversidade humana, a questão é transportada para outra vertente, que não a do choque entre as diferentes espécies, mas aos problemas sociais originados por diferenças de todo o género: do tamanho, do credo, da raça, da orientação sexual, da orientação política e etecetera, aliás, parece que somos mais preocupados a procurar as diferenças uns nos outros do que a similaridade.

Outro questão que o filme toca, mas de pouca relevância aqui, é necessidade de uma fé, de um ser superior que trará maná, leite e mel e fará toda a gente viver em paz, há quem acredita que seja um deus, houve quem acreditasse que seria a ciência, de qualquer maneira, Deus nunca vemos, mas o mal, esse sim, existe e aparece.

Tecnicamente falando, O Rapaz Formiga sustenta-se bem, o filme já tem os seus cinco anos, e como já vi vários mais recentes e com uma animação de melhor qualidade, não consigo evitar comparações. Mas a qualidade, de qualquer maneira, está à altura e não afecta em nada o desenvolvimento da história. E o antagonista principal parece metido ali à marretada. Entretanto, O Rapaz Formiga é um filme que deve ser visto com as crianças e que a seguir deve ser acompanhado com uma explicação dos adultos, para que elas não se foquem apenas no de aventura da história. Procuremos a nossa formiga interior para podermos viver melhor em paz e trabalharmos em prol de um fim comum. Um filme a ver.

o puto aqui de certeza que viu o filme



13 de junho de 2011

PANDA DO KUNG FU 2, O, 2011 (Kung Fu Panda 2)



Por que prefiro animações aos filmes real motion(?)? Ora, simples, porque a maior parte dos filmes para… não vou dizer adultos, para não ser confundido com pornográfico… portanto, os filmes para gente graúda tratam-nos como miúdos, enquanto a animação para miúdos tenta tratar-nos (sim, nós, também me considero criança) como graúdos, e quando vamos a eles, não o fazemos à espera de construções grandiosas ou profundas, personagens complexas, etecétera, porém de fábulas simples e directas, bastante óbvia e de fácil digestão.

Nesse espírito é que fui ao Panda do Kung Fu 2, em 3D, e senti-me bastante realizado. É claro que o primeiro PANDA foi muito mais divertido em termos de comédia, pois estivemos cinco pessoas (só?) na sala, três eram crianças, e fui o único que me ri o sessão todo, e, por incrível que pareça, das piadas mais óbvias e pastéis. Houve aqui piadas forçadas como o Louva-a-Deus que insistia na história de uma fêmea para lhe comer a cabeça, o que talvez tivesse graça se o público soubesse que as louva-a-deus matam os seus machos depois da cópula, arrancando-lhe a cabeça (o quê? pensavam que só as aranhas, viúva-negra, faziam isso?). Como comédia ficou aquém do primeiro, mas no que se refere à acção é muito melhor construído e mais divertido que o primeiro, com uns toques a Jackie Chan, não apenas como actor de voz, mas também na coreografia das lutas e na mímica do panda, e que coreografia!

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A história do Panda de Kung Fu 2 é esta: Po, depois de no primeiro filme nos mostrar que podemos ser o que queremos se não limitarmos o espírito e a vontade, aqui ensina que o passado é apenas um lugar e o hoje é que nos constrói, e no hoje o que conta não é o que fomos ou o que poderíamos ter sido, mas o que somos e quem são os que nos amam e apoiam. Acho que contei a moral do filme, em vez de fazer uma sinopse… Avante… Houve um regresso às origens, contando como Po foi parar à responsabilidade do seu pai adoptivo e tudo o que estava por detrás disso, apresentando um inimigo ainda mais mortal que o tigre do primeiro filme, por ser inteligente, tecnólogo e belicista, o qual só podia ser vencido conquistando a paz interior. Será que é uma metáfora dos argumentistas para dizer que neste mundo materialista cultivar a espiritualidade nos ajudará a viver melhor? Eu sei lá.

Tecnicamente, bem, qualquer filme em 3D, quer dizer, modelado no computador, que se preze apresenta os seguintes elementos: luz (clareiras, alvoradas, ocaso, nevoeiros, poeiras, etc…), água (ou líquidos, ou vidros) - abusando da cáustica - e, recentemente, detalhes. E Panda de Kung Fu 2 apresenta com maestria os três elementos, ficando atrás da Lenda dos Guardiões, de Zack Snyder, quanto à água e luz, e talvez perdendo para o Carros 2 no que se refere a detalhes (neste caso, os elementos do envolvente). No entanto, ver os pelos do Shi-fu ou de Po, seco ou molhado, cria uma vontade de lhe acariciar tamanho é o realismo. E a técnica usada na abertura do filme e nos flashback também funcionam muito bem e são visualmente atraente pelo kitsch.

Em resumo e conclusão: Panda de Kung Fu 2 cumpre competentemente a sua função: entretém. Apesar de alguns erros de edição e da normal dificuldade de trabalhar com estereoscopia no que se refere à questão de distância, que provavelmente só incomoda a uns pouquíssimos, não se fica indiferente durante a sessão. Não me parece o melhor filme actualmente no cinema, mas é uma boa opção e um bom filme de acção, com lutas a filmes de Hong Kong, com perseguições que reduzem Ong Bak a uma miséria, com direito a nitro e tudo, não estivéssemos ainda na era de Velocidade Furiosa, e para melhorar, com uma maior carga dramática para melhor humanizar as personagens.
Panda de Kung Fu 2 quase cumpre o que promete, porque se tem o dobro da acção, do drama(?),  apenas possui metade da comédia.

P.S.: Depois do cliffhanger no final, fiquei curioso sobre o que vai sair no terceiro filme.


19 de maio de 2011

MÁGICO, O, 2010 (L'Illusioniste)


Tenho escrito sobre filmes, e embora opine e seja absolutamente o meu ponto de vista, não são críticas, pelo menos no modo tradicional, aliás tento focar-me mais no filme em si, e na mensagem que transmite (ou na sua ausência), ou seja, leio os filmes como se fossem livros.

Comecei por dizer isso acima, porque acabei de ver um filme, uma animação, que não tenho a certeza se entendi, e que não tenho a certeza de saber explicar, mas que apesar disso acho soberbo, e não estou nem aí para a mensagem que me escapou. O Mágico, eis o título (não entendi por que o traduziram assim, se o original é: L'Illusioniste... ou será que é para o diferenciar d'O Ilusionista, com Edward Norton?).

O Mágico mostra a história de um ilusionista francês que por motivos financeiros vai parar na Escócia onde conhece uma jovem órfã, suponho, uma Pele-de-Burro, com quem faz amizade, esta acaba por abandonar o lugar onde estava hospedado para seguir o ilusionista, e este adopta-a. A jovem julga que o ilusionista é um mágico (para quem não sabe, apesar de popularmente as duas parecerem a mesma coisa, não são iguais: um mágico – mago - cria do nada, o ilusionista, este trapaceia - o que faz a tradução do título impróprio, principalmente porque isto é uma das mensagens do filme). E o ilusionista, decepcionado com a sua vida gris resolve criar cores para a vida da órfã, mimando-a de maneira exagerada, satisfazendo-lhe todos os caprichos; e, talvez para dar mais significado à vida, mesmo as pequenas coisas ele fazia em grande, como se quisesse dizer até o mais ínfimo pormenor, ampliado, pode dar um quadro. Por exemplo, se tivesse de passar à órfã nem que fosse uma colher, não a apanhava simplesmente e estendia, mas fazia uma de mágico e uma grande cena e pantomina para no fim resumir-se a entregar a colher.

O filme é sem diálogo, lembrando-me do Idiotas e Anjos, ou melhor há diálogos, mas as palavras são imperceptíveis e, porque os dois falavam línguas diferentes, mas entendiam-se bem, julgo que foi uma maneira do realizador dizer que o amor é a língua universal.


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Pelo meio cruzam-se personagens um tanto caricatos, mostrando a antítese da vida, todos são personagens circenses, três malabaristas (que só pensam ir para cima, mesmo quando descem), um palhaço triste e suicida, um ventríloquo cuja única companhia é o boneco do seu espectáculo. Todos os três, inclusive o ilusionista, são pessoas cuja arte é o divertimento e o riso, mas cuja vida é cinza e triste. Aliás, (spoiler!), vemos que o ventríloquo, desesperado acaba por pôr no prego o seu único amigo e depois vemos que esse amigo só para ele tem valor, ou seja o amor que lhe dirige é que lhe faz importante. E uma outra personagem é um folgado, beberão (suponho), que passa a vida a gaiatar, talvez a personagem mais feliz de todo o filme.

O Mágico é uma animação muito bem feita, as personagens movem-se graciosamente pela história, e graficamente, não atingindo o realismo de um Reinassance, ou de um A Valsa com Bashir, mas parecendo coreografados para o ritmo do filme. A banda sonora, com a música principal que parece tirada de uma caixa-de-música e cria um vazio algo melancólico que faz com absorvamos com mais alma o filme, foi bem escolhida e confere à história uma estrutura sólida e embaladora.

Digo de novo, ainda não sei bem do que falou o filme, ou do que pretende falar, tem umas cenas que não consegui ler bem (algo a Édipo e Jocasta), mas isso nada importa, eu gostei do filme e recomendo. O Mágico é uma história do amor simples (a história, não o amor) e muito bem contada, um filme que deve ser visto.

17 de abril de 2011

BOOGIE, O AZEITOSO, 2009 (Boogie, El Aceitoso)


Quem é Boogie, o Azeitoso? 

Bem, em poucas palavras: se o feminismo fosse religião, Boogie seria o Satã. Boogie é um assassino de aluguer, um filho da mãe odiento e psicopata que se sente um tonto sentimental porque acaba com uma pessoa ferida que podia ter sobrevivido, que… peraí, se contar quem é o Boogie, vou fazer um spoiler. Bah, aliás, o cartaz não engana a ninguém... só se esqueceu de dizer que é também racista, desenhando os pretos com aqueles traços típicos do tempo em que ainda só diziam "uga-uga" nas bandas desenhadas.

Boogie, O Azeitoso é tão violento que acaba por ser hilariante. E eis o seu pomo de discórdia, suponho, porque muitos poderão pensar que se trata de uma apologia à violência quando, na verdade (ou pelo menos, para mim), é uma sátira ao nosso sistema, e um apontar de dedo à maneira como estamos cada vez mais acostumados com a violência.

Se Tarantino fizesse uma animação, seria Boogie, ok!, boogie não gasta em conversas triviais que dão um ar de realidade à história (mas tirando isso, parece um trabalho feito à base dos trabalhos do mestre), porém faz referências e homenageia vários filmes, vários cartazes e vários géneros: numa das cenas mais soberbas, temos um confronto a la western, que simplesmente delicia, ou a cena perto do final no tribunal, ui. E tem um cena que talvez seja uma referência a Lucky Luke, quando numa confusão com galinha, Boogie perde o cigarro com que andou o filme todo, e fica com uma pena na boca. Resumindo para depois avançar: Boogie roça a genial.

A fotografia, ou o gráfico, sei lá, considerando que aquilo foi gerado no computador e desenhado a mão, é muito boa. Ora cheira a 300 de Snyder, ora a luz de Afrosamurai, Ressurection, e tem umas pontas de Sin City de Rodriguez (ainda tem outras técnicas de animação que já vi em outros filmes mas não consigo lembra onde). O cenário, tridimensional, foi gerado no computador, as personagens foram desenhados à mão, parecendo emprestadas de uma história de Corto Maltese. Mas tudo isso, apesar de emprestados, faz de Boogie único. Bem, não li a BD que deu origem ao filme e não conheço o ambiente do livro, mas que essas referências supracitadas existam... sim existem e bem perceptíveis.


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Não aprendi nada com Boogie, tirando as suas situações violentas que de tão violentas se tornam hilariantes, como já referi, não tem nada de novo, o enredo já é tão batido, com algumas modificações ligeiras, todo ele previsível, mas diverti-me à beça com ele. Outras situações e falas são puramente anedóticas, mas não é que não funcionam, por exemplo (spoilers!), uma cena, uma conversa entre mãe e filha, acerca de Boogie:

Mãe: Ele continua a bater-te?
Filha: (todo apaixonada) Não... não com a mesma intensidade! 

Ou esta situação:

Boogie: Espere um minuto McCoy, Gary está vivo, mas não durará... parece um comercial de plasma. Tem uma grande hemorragia.
McCoy: Fala?
Boogie: Disse hemorragia, não verborragia.
McCoy:  Faça um torniquete, rápido! Enviarei um médico da companhia.
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Médico: Boa noite! Sou o médico da companhia. Mas este homem está morto! Aplicou o torniquete?
Boogie: Sim. Como a ferida era no peito, apliquei no pescoço.


Boogie, o filme, é todo  assim, e não é diferente do protagonista, que a cada dez minutos, vai debitando one-liners bem cómicos, e com algum significado por vezes; a construção dos diálogos mostra que o autor sabe brincar com as palavras e com os seus vários sentidos, mas não sei se isso se deve ao argumentista ou ao autor da banda desenhada que criou o filme. E para quem se importa, é um filme argentino.

Eis um filme para uma sessão de riso com os amigos.

7 de abril de 2011

IDIOTAS E ANJOS, 2008 (Idiots and Angels)

Primeiro houve o cinema mudo, Deus viu que era bom, mas Hollywood não se contentou e aumentou som: música ou banda sonora e diálogos. E Deus viu que era ainda melhor, e não meteu mais a colher. Depois Bill Plympton – que Matt Groening diz ser Deus – resolve fazer um filme sem diálogo e, pronto!, temos o Idiot and Angels. (Nota de rodapé que vai aparecer agora: Não sei se Bill Plympton foi o primeiro a fazer uma longa-metragem sem diálogo, mas pelo menos foi o primeiro que vi, e até ver ou saber de outro vou assumir que este é o primeiro).

Idiotas e Anjos é uma animação, com uma técnica única e com a melhor transição entre cenas que já vi. Quem viu The Tune (costumava passar no canal MOV todas as madrugadas, e acho que se não passa mais é porque desgastou o disco) sabe do que estou a falar. Além da curiosa forma de contar história, da história em si, há o bom gosto pela música.

O filme é sobre um gajo muito sacana, doentio, egoísta, hedonista e merdoso, que filhadaputeia todos os outros, e só se importa consigo (já tinha dito que era egoísta, não disse?). Pois bem, eis que de repente, crescem asas de anjos ao nosso sacana que o levam a tomar atitudes que ele despreza. Entretanto, essas asas não só criam modificações nele, como nas pessoas à sua volta. E as sequências da sua luta contra a personalidade invasora são ora hilariantes ora de cortar (literalmente) o fôlego.

Um dos pontos bons, no entanto é como as personagens, todos eles um tanto clichés e recorrentes nas fábulas, são psicologicamente caracterizadas sem o tal diálogo (ou monólogo ou qualquer espécie de logo), uma sequência com uma borboleta definiu-os a quase todos. Lá pelo fim, o filme assumiu o seu carácter fabuloso, tornando-se num conto de moral, do género: se Hitler tivesse um par de asas talvez abrisse uma cadeia de hamburgers na nova Zelândia e não assasse judeus só à toa. Enfim cada um interpreta como quer.


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O filme não é só fábula, nem só drama e comédia (ou comédia e drama), ou um motivo para mostrar que sabe fazer arte, mas também uma crítica social, uma crítica à alienação que impomos a nós mesmo e, talvez sem notar, aos outros, e como somos forçados pelos outros por caminhos que talvez nunca tomaríamos. Temos uma cena (spoiler!) de um homem que assalta um bar onde foi maltratado. Mas, como disse, sem diálogos, as interpretações variam ainda mais, porque as  falas pelo menos criam balizas interpretativas. E temos outra onde bandos de bêbados sofrem diariamente atentados homicidas em bares e tabernas, mas todos os dias continuam atrás da bebida, entremeando-o com visitas médicas. Aqui é mais simples, só temos que trocar a bebida por algum outro vício, ou pelo vício mais generalizado e disfarçado da sociedade: o trabalho e a busca desenfreada por dinheiro (pelo menos no caso dos grandões).

Idiots e Angels é um filme muito bom, independentemente do olhar com que é visto, como alegoria, como sequências sem um ponto específico, ou simplesmente como uma concatenação de piadas de mau gosto. E outro dos seus pontos positivos é a banda sonora eximiamente seleccionada, do qual destaco a versão de St. James Infirmary tocada por não sei quem. E tem o Terry Gilliam, embora não saiba o que anda por ali a fazer.

11 de março de 2011

MARY E MAX, 2009 (Mary and Max)

Mary and Max… a melhor comparação que encontro para o filme é o tango, não a música, mas a dança, ora com movimentos calmos, calculados e sensuais, ora com enérgicas, fugazes e impacientes.

Eu esperava uma história a Disney quando comecei a ver o filme, alguma fantasia como Coraline, principalmente porque ambos são em stop-motion e ouvi falar de ambos na mesma altura, e a surpresa foi tanta e muito positiva quando o filme nem passou por perto. Contado por um narrador é uma animação... "cadavérica"... feita para adultos.

Mary e Max é um filme de amor, o melhor que vi este ano (ainda estamos em Março, espero ver melhores ou pelo menos outros à altura até ao final do ano), o amor entre duas pessoas, um senhor de meia-idade (44 é meia-idade?) e uma menina de oito anos, três meses e nove dias, que, apesar de não se conhecerem, têm muito em comum: falta de amigos, uma específica série de desenhos animados e chocolate. Mas isso é só o ponto de partida para a torrente de emoções que se despencam ao longo de hora e meia. Com um bom ritmo, uma fotografia pálida, e a animação dos personagens um tanto tosca, sem referir a banda sonora que por vezes atribui alguma teatralidade ao filme (destaco – spoilers! – a cena da primeira carta de Max e a que antecede a ressurreição de Mary, simplesmente soberbos), todos esses elementos destacam o lado “anormal” dos personagens e do tema a tratar. Julgo que a história funcionou melhor assim do que se tivesse uma foto mais convencional e colorida e animação fosse mais vivida. Também note-se que a própria fotografia mostra dois mundos diferentes, o mundo de Max é todo ele cinza, ou seja, irremediavelmente sem remédio, enquanto o mundo da Mary é mais animado, é castanho, significando perspectivas futuras.

O filme trata do desequilíbrio social, congelando a parte do amor, dos que não se conseguem encaixar, dos marginalizados ou auto-marginalizados que não conseguem ser normais; e todos os normais do filme tinham a sua anormalidade, como foi mostrado: o vizinho era homofóbico (na verdade agorafóbico, como a Mary depois aprendeu); a mãe era cleptómana e bêbada; o pai, que tem um trabalho monótono, praticava taxidermia, para curar a sua monotonia, quando na verdade só a agrava; Damien era gago (a sua revelação final não se foi intenção do realizador mostrá-lo com anormal, o que eu apontaria como um erro, ou como uma espécie de epifania, o encontro libertador consigo mesmo). São todos pessoas normais.

No entanto, porque Max é um "aspie", sofre de síndrome de Asperger, ou seja tem dificuldades em exprimir e interpretar emoções, tendo uma mente muito literal, e não compreendendo as interações sociais não faz com que precise de ser arranjado, ou que seja anormal, como os outros pretendem, pois é tão normal como qualquer um.

Vemos que praticamente, como diria Sartre, o inferno são os outros, todos os problemas destas pessoas é porque, de algum modo não se encaixam no padrão social, e não respondem ao que lhes é exigido, diluírem-se na normalidade. Por exemplo, a marca da máquina de lavar pratos da Vera é “Dishlex”, que remete à dislexia; os livros que Ravioli lê são todos de auto-ajuda e um deles, posso dizer, foi escrito por Dale Carnegie (uma autoridade nessa área); jogam os estereótipos como parte da do processo da normalização. Note-se que Max consulta um psiquiatra, e a presença deste é tão constante no filme, como o nome de Jesus numa missa de Natal, e eu suponho que isso foi intencional, para mostrar que os psiquiatras e a normalidade são hoje, respectivamente, os sacerdotes e religião moderna. O mendigo por exemplo, que tenta vender abraços, conselhos, beijos, até no final perceber que ninguém quer isso, visto que ele continua onde está, acabando por se contentar por pedir as pessoas para guardarem o seu dinheiro (bem, a sociedade não é assim tão honesta).


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E a razão de o realizador usar muito da escatologia é algo que não entendo. Temos durante o filme todo coisas a saírem ou a entrarem pelo ânus, será que quis dizer com isso que embora pretendemos a normalidade escondemo-nos de coisas normais? Por exemplo, houve um momento em que comparou um peido com a honestidade. Ou uma das palavras preferidas de Max ser “testículos”, ou a fruta “cumquat”, não são provocações à normalidade e para deixar os normais desconfortáveis, visto que ele está a escrever para uma menina de mais ou menos onze anos? E assim também temos o tema da pedofilia visitado, embora não tão aprofundado. Podíamos repreender – spoilers! - embora o façamos, a Vera de não querer que Max comunique com a filha?

Mary e Max é soberbo, começa por ser uma comédia inteligente, mas como qualquer boa tragédia(?), prende-nos, faz-nos gostar dos personagens, leva-os a superarem-se para logo depois fazer uma viragem para o ângulo oposto, e deixarem-nos desconfortáveis. Houve uma cena, lá perto do fim, com a Mary, tão carregada de tensão e magistralmente dirigida - e não consigo imaginar música mais perfeita para ela - que me deixou de respiração suspensa e aperto no estômago, e só isso podia valer o filme todo.

spoiler visual


Como não consigo seguir uma linha de pensamento sequencialmente clara, vou terminar aqui. Acredito que há mais no filme do que aquilo que consegui captar, embora não me tenha referido aqui a todos os elementos alegóricos que encontrei, ou pelo menos, há mais referências que me passaram despercebidas, no entanto, o que ficou é muito intenso. E sem ver o filme pelo lado analítico das mensagens, cinematograficamente falando, é um bom filme e hora e meia bem aplicada, banda sonora bem escolhida, fotografia adequada ao tema, em suma: uma obra-de-arte.