22 de setembro de 2019

ALI SOL MANSI MAS

Ali sol mansi mas,
ma n'ka na sinti bem,
nha sunhu di bida rabida i fika
na dinheru di mafe.

Ali sol mansi mas,
ma n'ka osa firma de,
pabia fadiga inda na castiga,
i nheme tudu nha fe.


N'ta odja nha djintis na kuri-kuri son, 
diskansu ka tem na se korson;
Sol ta korda toki sol ta durmi mas, 
e na buska kil um son di kume son.

Ku bariga intchidu di kudadi garandi, 
pabia bianda ka tem pa nha stangu,
Kuntangu i uru dianti di nha udju, 
Barudju di fomi tomam atenson.



Nha vida na pasam dianti di rustu,
i na skua ma n'ka pudi dja mas nota,
kudadis mas tchiu di ki tchuba di agustu,
di diskansu n'ta pidi li so um gota.

N' na pidi dja tambi pa otcha kambansa
pabia speransa ka ta mata fomi,
n'ka misti pa nha fidjus bim panha es ardansa
ki sibi so kansa vida di um omi.


Ali sol mansi mas,
ma n'ka na sinti bem,
nha sunhu di bida rabida i fika
na dinheru di mafe.

Ali sol mansi mas,
ma n'ka osa firma de,
pabia fadiga inda na castiga,
i nheme tudu nha fe.


Ku kudadi na bariga, ku bianda na kabesa,
kontam de kuma ki n'pudi pensa?,
si kontra es vida i suma mufunesa,
i ka fomi, i ka tchur, tambi i ka duensa.

Bu falam pa n'muda sintidu,
pa n'vota diritu, pa n'sai pa n’obidu,
Ma kuma si tempu intidu
N'tem ki otcha djitu pa n'ka sta kotchotchidu?

Sintidu ta kurtu si saku ka firma,
Pabia bu gurdu ka bu tchia nha magresa.
Si n'pega ba na furtu pa vida ka ntiba,
Na mundu nim um purtu ka na laba es kombersa.

N'misti tambi muda sintidu
pa n'vota diritu, pa nkunsa n’obidu,
ma mostram kaminhu, larga boka sinhu,
Si bu na tchulim duensa, mostram tam mesinhu.

Ali sol mansi mas,
sol mansi mas, 
Ali sol mansi.

4 de agosto de 2019

CARA EUROPA (da restituição)


Cara Europa,


Escrevo-te, daqui, da Guiné-Bissau, com a missão de pôr na tua visão a noção de que temos a perceção da verdadeira intenção das tuas ações.

Europa, escrevo-te esta carta, como um filho da África, em nome da África, mas sei que é uma tática pouco prática, e é uma pândega esta audácia de eu, na minha pobre casca, falar em nome de toda a África, quando nem da minha casa eu sou o representante mais patente, pelo que muito menos posso ser o representante de todo um continente. Por isso, digo-te assim de fronte, só falo em meu próprio nome, mas não penses que é inconsequente este meu atrevimento. 

Europa, queria começar por enviar-te cumprimentos, mas vais ter de perdoar-me, porque neste momento estou em tormentos cujo comprimento é imenso; tormentos tão velhos como este lamento que me risca o peito e me deixa neste leito, desfeito, em trejeito de dores lancinantes que enlaçam as partes que lançam ares salutares nestes esgares que mostram os meus desaires. Pois tu tudo fazes para que tu e a África não sejam pares. Nunca serão comadres, Europa, enquanto desejares que a África continue à tua sombra… sabes…

Ahhhhh… puta que pariu, Europa. Não me fodas. Eu, África, sou muito velha, mas falas de mim como uma tola de uma cachopa, empurrando-me para a popa, enquanto tomas a proa. Mordes-e-assopras e pensas que ninguém te topa? Primeiro apregoas que eu não tenho história, e que só entrei nesta roda, porque tu organizaste a boda toda. Porra!, já me deixaste sem roupa, depenaste-me vezes sem conta e agora apostas nesta moda de mandar bocas de que me vais restituir as coisas que me tinhas tirado à força com a tua tropa odiosa para a qual só o lucro conta. E falas agora como se tivesses muita honra e como se fosses uma filantropa que me está a fazer um favor? Ó, por favor, tenha dó, Europa, tenho cara de tola? Não sou nenhuma tonta.

Primeiro dizes que eu não tenho história, agora queres ser a mostradora da minha glória? E eu, eu não tenho voz própria para determinar as minhas escolhas, terei de seguir sempre as notas das tuas folhas? Por que está tão interessada em devolver-me as estátuas? É porque já não tens mais espaços no armazém. Pois bem…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Diz-me, caramba, por que estás tão interessa em devolver-me as estátuas, pedaços de pedra e de madeira… mas do ouro, da prata, do marfim, dos diamantes, do silício e da riqueza que custa o suplício do meu povo que vive em sacrifício para que possas manter vivo o teu vício de consumo em nome de bom serviço, sobre isso é só silêncio…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Falei do ouro, falei da prata, mais ainda não falei dos escravos e das pessoas extraviadas das suas terras e jogadas de repente em contextos alienígenas e de alienação completa, sem aliados e sem alianças, com crises de identidade que ainda hoje de forma indigesta se manifestam nos seus descendentes. E, tu, Europa, que te arrogas e te vestes da defensora dos direitos humanos… humanos, desculpa, queria dizer brancos… como cura da escravatura, indemnizaste os brancos, donos de escravos, por perderem o gado humano africano trazido do outro lado do oceano, pois tu estavas preocupada com reparos justificados. Mas quando te falam de reparos aos africanos feitos escravos, aí, assumes a postura de injustiçada e falas que não deves ser cobrada pelos erros do passado. Sim, é claro, então por que dizes que queres devolver-me as estátuas para pagar pelo erro do passado? Queres pagar pelos erros ou apagar os erros?

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa. Euroooopa! Queres tanto devolver-me as estátuas, tu, ó generosa senhora, porque estás tão preocupada em descolonizar a mente, em descolonizar o conhecimento, em descolonizar a cultura, em descolonizar a puta-que-pariu… hein é isso? Mais fácil colonizas Marte do que descolonizas a mente, porque um colonizador não descoloniza, um colonizador recoloniza, um colonizador se reorganiza para se manter sempre em cima. Quando és tu que desenhas as linhas da descolonização, jogando com maestria a tua filosofia sobre o mundo que te rodeia, não vais mudar as tuas ideias, só vais cobri-las com novas teias, mas elas no fundo continuarão feias, pois a maquilhagem não muda a essência. A qualquer ideia não-europeia, tu colocas um sufixo, por isso, enquanto falas de afro-literatura, etno-literatura ou de etno-filosofias não como literaturas ou filosofias, mas como categorias alternativas, não importa o que digas, vai ser uma coisa pífia, pois não queres descolonizar uma pívia. O teu discurso é sensacional, mas a prática… meh… só mantém tudo como está.

Que são minhas, as estátuas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa, se quiseres devolver-me as minhas estátuas, então larga essa atitude fátua, sua crápula, pára com as fábulas e vamos falar da prática.

Estás preocupada com o meu bem-estar? Ai, que boa, és tão fixe, Europa. És tão boa, tão boa que me afogas com as tuas instituições e as tuas ONGs que só fazem cá a manutenção da pobreza e dos problemas. Dizes que mandas para cá dinheiro, para salvar o povo inteiro, mas não tens uma cheta para pagar uma merda de um bote para retirar do teu mar pessoas a afogar, mas tens 1001 barcos a pescar o meu mar. E pior de tudo, ainda vês se encalabouças aqueles que tiveram a força e a coragem de usar o privilégio e a vantagem para serem humanos de verdade para ajudarem humanos necessitados.

Europa, Europa, Europa. Tu vendes as tuas armas no meu quintal, incitas guerras para me poderes explorar, pois a minha instabilidade é fundamental para que possas continuar a dar cartas e a falar mal de mim, como se eu fosse um débil mental, e achas que o me preocupa são as porras das estátuas?

Que são minhas, são minha. Mas já que daqui as tiraste, e por anos com elas ficaste, considera-as arrendada. Vai ver aquelas que tens às mostras nas tuas montras e faz as contas e manda para cá o dinheiro.

Hey, espera!, se prometeres não mais mandar para cá as tuas as tuas armas, as tuas doenças, o teu desenvolvimento sustentável e o teu capitalismo selvagem, que não me trazem nenhumas vantagens, eu juro-te que te ofereço as todas as estátuas do mundo.

20 de maio de 2019

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. XII

A HUMANIDADE É SIMPLES

A humanidade é tão complicada que acaba por ser simples, ou seja, por ter uma definição simples, ou simplista, resumida em: a humanidade é complicada. Entretanto, filósofos e promotores de autoajuda têm andado a tentar convencer-nos de que não, que a humanidade não é complicada, que nós é que assim a fazemos. Daí põe-se a questão: se nós não somos complicados como conseguimos complicar? Não consigo perceber como é que o simples consegue complicar, da mesma maneira que me faz espécie que Deus, um ente perfeito, tenha criado a imperfeição.

Se o homem fosse simples não teria complicado o seu viver. Tentamos fugir da complicação criando sistemas binários ou dualistas, resumimos tudo em ou bem ou mal, ou preto ou branco, ou ser ou não-ser, ou 1 ou 0, mas todos sabemos que tirando os computadores e as pilhas, nada funciona com dois polos apenas, até mesmo os bebés sabem que por vezes têm de deixar de chorar e de ceder aos caprichos dos pais.

Eu entendo como um insulto à natureza humana chamá-la de simples quando na verdade ela não é, e quando quanto mais complicada mais o homem gosta. Senão vejamos, aplaudimos mais os discursos que não entendemos. “Oh, ele falou tão bem e tão bonito… mas não entendi nada”. Gostamos mais de poemas complicados e com vocábulos que não conhecemos, despendemos tempo a observar e a elogiar um quadro que não nos diz nada, simplesmente porque desconfiamos que haja sempre uma montanha de significados obscuros ou simples quaisquer escondidos atrás dessas coisas que não entendemos, e temos o receio de dizer gritar simplesmente: o rei vai nu! Pois! Vai! Mas e não estiver nu? Se todos o vêm vestido quem somos nós para dizermos que vai nu? Eu vejo-o nu, mas será essa a verdade? Pois! Não se sabe, porque na verdade… na verdade a verdade é verdadeiramente variável, tanto pode ser como não ser sem deixar de ser verdadeira. Eu explico: pense-se nos conceitos da lógica aristotélica e na álgebra booleana dentro da tigela da teoria da relatividade. A observação depende do ponto de vista do observador e o simples facto de haver um observador altera o resultado da observação. Não sei quem disse isso, mas acredito nele. Sendo assim, pode-se dizer que existe o Ser, o Não-ser, o Ser-que-não-é e o Não-ser-que-é, sendo que o Ser-que-é é o Ser, e o Não-ser-que-não-é é, neste caso, em vez de Ser, um reforço à negação do Não-ser. Mas o Ser para um pode, ao mesmo tempo, ser o Não-Ser para outro, como sabiamente se diz: a boa-vida do carrapato é a dor do cão.

Pode-se ver nas últimas frases como é tão complicadamente simples a humanidade. Ou por outras palavras, a humanidade não é simples, nós é que a queremos simples e o less is more, dito por não sei quem [agora sei que é uma frase de Van Der Rohe], é uma ilusão, nós desejamos mais, mais e mais, e cada vez mais complicado, porque a simplicidade é aborrecida. Mas, quando não nos sentimos capazes, queremos tudo simples, pelo menos para nós, os outros que o tenham complicado.

Dizemos que a humanidade é simples, porque preferimos crer que assim seja, acreditando que a fé move montanha. E, se calhar, sim, a fé move montanha… montanha de treta. É uma metáfora, eu sei, não era para ser levada à letra, mas eu diria, os braços movem montanha, a fé só incentiva os braços a moverem, quando o chicote não o faz (o caso do imperador romano que mandou cortar uma montanha que lhe tapava a vista, ou os egípcios que erigiram as montanhas-esfinges). A fé, não importa de que tipo, é um grande motivador e um item muito importante para fazer as coisas acontecer. Que seria de nós sem a fé? Sem a fé e sem a esperança? Até nem sei dizer qual das duas é mais importante ou mais útil, visto que uma gera a outra. 





4 de maio de 2019

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA

04 de maio – introdução

 

O meu interesse pela Europa, bem, herdei-o de um tio meu. Não era mesmo meu tio, mas um homem-grande lá da tabanca que toda a gente chamava de tio. O tio Paulo Bano Badjanca tinha vindo a Europa uma vez e tinha visto tugas. Ele contou que os tugas eram muito coitados, estavam sempre a correr de um lado para outro, com a cara fechada e muito infeliz, e alguns deles não tinham nem mesmo onde morar, nem roupas, andavam com trusses e calcinhas e deitavam-se na areia, perto do mar. O tio Paulo tinha sentido muita pena deles, pois parecia que já tinham desistido de viver e só estavam à espera que o mar subisse e os levasse, coitados!

Essa impressão do tio Paulo despertou em mim um sentimento intenso e eu decidi que quando fosse grande iria até Europa para ajudar a sua gente a ser menos pobre e mais feliz. 

Então comecei a estudar sobre os tugas e sobre a Europa para os entender melhor. Primeiro falei, na Guiné, com aqueles que tinham conhecido brancos ou a Europa, para ter uma base, depois passei a ler livros sobre a Europa. Isso confirmou que a ideia do tio Paulo Bano de que eles eram mesmo infelizes estava certa. Eu li livros enormes, mas eram só sobre guerras e guerras; guerras tão grandes que eles as chamavam de mundiais, guerra de cem anos, guerra fria, guerra de golfe (ou de golpe, ou de golfo, já nem me lembro), guerra de… Bolas!, era tudo sobre guerra! Guerras e problemas, dinheiro, dinheiro, dinheiro, guerras, guerras, guerras, problemas, problemas, problemas…

Não entendia como é que os tugas conseguiam viver na Europa e por que gostavam tanto de escrever sobre problemas. Eu pensava que eles também deviam ter coisas boas, como a música, por exemplo… mas disseram-me que os brancos não sabem dançar, e isso eu não entendia muito bem, visto que também eu li que eles tinham pimba, valsa, passo doble, gavotte, mazurka, dança da roda, branle, quadrilha… entre outros nomes difíceis. Eu sempre achei a cultura da Europa muito interessante e tão exótica, e acho tão engraçado os tugas terem todos esses tipos de danças e não saberem dançar.

Voltando ao assunto, depois da pesquisa, decidi vir à Europa conhecer os tugas. Queria mesmo vir também tirar-lhes a medida dos pés, das mãos, da cabeça, do pénis… ah, dizem que eles têm pénis muito pequeno. Talvez seja por isso que não têm muitos filhos e não gostam nada dos pretos. Também sei que as mulheres tugas gostam muito de sexo, um colega meu, etnólogo guineense, WJ, que estudou também os tugas, falou disso no seu trabalho “Nha Carta”, numa frase dirigida à sua namorada que ficou na Guiné-Bissau: “si kontra bu fixi, nha fofa, fixi mas tem li; si kontra bu bagri, nha fofa, bagri mas tem; si bu bom na kama, brankus, kilas e ta fasi nam filmi”.

Bom talvez tenha de falar agora de uma questão confusa aqui, pois ao que parece tugas não significa brancos, mas portugueses. Aconselharam-me, portanto, a usar o termo de maneira menos preguiçosa e mais exata, e para não confundir os tugas com os europeus, porque nem todos os europeus são tugas. Mas se essas mesmas pessoas falam de africanos como um grupo único, e falam da cultura africana como se fosse única, e falam de gente preta como sendo automaticamente africana, então, não entendo, por que razão não posso chamar a tugas de brancos, ou a brancos de tuga, ou de europeus.

Eu vim à Europa para estudar a etnia tuga e é isso que vou fazer, e é sobre isso que vou continuar a escrever.

20 de janeiro de 2019

OS MESSÍASES: AMÍLCAR CABRAL E JESUS CRISTO - cronices crónicas

Eu fui criança nos anos 1980, quando ainda o PAIGC era o único partido legal autorizado, e outros como o Fling tinham sido amordaçados e eram perseguidos se se atrevessem a falar de democracia ou multipartidarismo.


As escolas serviam para criar seguidores do PAIGC, os heróis nacionais eram comemorados, contava-se sobre Amílcar Cabral e sobre a luta de libertação de uma forma básica, propagandista, doutrinária e superficial (e depois no ciclo tínhamos Formação Militante), mas contava-se, sabíamos alguma coisa sobre o processo da Luta, sabíamos sobre outros resistentes africanos, o que infelizmente não acontece hoje.

Como não podia deixar de ser, eu fiz parte dos “Flores de Setembro” e depois “Pioneiros” e a minha aspiração na altura era chegar a “JAAC – Juventude Africana Amílcar Cabral” quando fosse grande, para depois ser membro do partido, PAIGC, tal era a doutrinação. Eu era tão orgulhoso de ser um “Pioneiro” e por ter Cabral no meu nome dizia (porque pensava) que era parente de Amílcar Cabral, afinal erámos os dois vermelhos e descendentes de cabo-verdianos (eu era parcialmente) e ele e a minha avó tinham sido vizinhos em Cabo Verde.

Naquela altura, todavia, Cabral era um enorme quebra-cabeça para mim. Era algo que não conseguia entender, principalmente quando diziam “CABRAL KA TA MURI”, mas todos os 20 de Janeiro, “celebrava-se” o assassinato de Cabral. Como se falava de Cabral Imortal e de assassinato, levou-me algum tempo até perceber que assassinar era matar, e que Cabral tinha sido morto. E era isso que eu não entendia, como alguém imortal estava morto?

Duas figuras iam para além da minha compreensão: Amílcar Cabral e Jesus Cristo, e para mim eram similares.

1. Jesus Cristo tinha morrido para salvar o mundo. Cabral tinha morrido para salvar a Guiné-Bissau. (Eu achava que a morte de Cabral fazia mais sentido, porque a de Jesus não salvara a Guiné, mas o meu catequista, João Lima, disse-me que falar esse tipo de coisas podia levar-me para o inferno, e eu tinha seis ou sete anos, portanto fiquei cheio de medo). Em suma: eram ambos Messias.

2. Na escola nunca tinha aprendido nem sobre o pai de Cabral, muito menos sobre a sua mãe. Por isso pensava que ele também tinha nascido de uma virgem. E ele tinha um meio-irmão, Luís Cabral, que estava sempre com ele, como Jesus que tinha o seu meio-irmão Tiago.

3. Todos os anos, tinham feriados e “comemoravam-se” os dias de nascimento, morte, ressurreição tanto de Cristo como de Cabral (para mim a ressurreição de Cabral comemorava-se no dia 24 de Setembro).

4. Cristo tinha 12 apóstolos, Cabral tinha os seus companheiros e outros heróis nacionais: Domingos Ramos, Pansau Na Isna, Francisco Mendes (estavam no dinheiro), Luís Cabral, Nuno Vieira, Aristides Pereira (blá, blá, blá, conseguia contar-lhe 12 companheiros).

5. Jesus tinha sido traído por Judas e condenado tanto por romanos (dominadores) como por judeus (dominados). Cabral tinha sido traído por Momo (da Guiné), Seco Turé (de Conacri) e Spínola (de Portugal) – as minhas informações não eram coerentes – ou seja, tanto por portugueses (colonialistas) como por guineenses (colonizados). E depois, como todo o mundo varria palha ao Nino Vieira, o discurso era que Luís Cabral também tinha traído o sonho do irmão, por isso é que se fez o golpe de 1980, portanto, eu considerava Luís Cabral também uma espécie de Judas.

6. Jesus tinha a Maria Madalena. Cabral tinha Titina Silá. Eu pensava que eles eram casados.

7. Tanto Jesus como Cabral tinham sido mortos, mas ambos eram imortais.

8. Tanto Jesus como Cabral tinham morrido para salvar as pessoas, mas os problemas ainda continuavam a existir e pelo que me diziam, eu tinha ainda de continuar a trabalhar para salvar a minha alma, ou para garantir o meu futuro e o futuro da Guiné. No final, parecia-me que os dois tinham morrido amonton, porque eu ainda tinha de fazer o trabalho todo (dizer isso foi-me desaconselhado tanto pelo meu catequista como pelo meu formador de pioneiro, Aliu Nhamadjó).

9. Tanto Jesus como Cabral tinham deixado adoradores. Uns chamavam-se cristãos, outros chamavam-se guineenses. (Se fosse hoje teria dito, uns chamam-se cristãos, outros cabralistas, mas provavelmente 95% deles nunca leu a Bíblia ou os escritos de Cabral).

10. Invejava os dois porque tinham lutado e morrido por “causas nobres” e eu pensava que não já não tinham mais causas nobres pelas quais lutar ou morrer. (Só recentemente alguém me fez ver o quão é mórbido uma criança pensar em morrer por alguma causa. Na altura, eu julgava que isso faria de mim um imortal e que valeria a pena, pois ressuscitaria… não é como se fosse perder muito na verdade. Por isso sempre pensei que o “sacrifício” de Cristo não foi lá muita coisa, porque depois foi ressuscitado e deram-lhe o universo para governar como prémio).

Ainda hoje se fala de Cabral em todos os 20 de Janeiro. Alguns políticos não o fazem, porque isso é como dar visibilidade ao PAIGC, uma vez que não se pode separar do partido a figura. E desta forma a figura da nossa única referência parece desbotar-se da memória coletiva, sendo conhecida mais como sobra de alguma coisa de que como uma imagem vívida.

Na escola estudamos na História (só em três anos):

No 7º ano, a origem do ser humano, as raças humanas (caucasianos, mongoloides e negroides – nem dizem brancoides), o paleolítico, o neolítico. Não sei os capítulos todos porque a greve sempre interrompe as aulas.

No 8º ano, o império de Gana, Mali, Songai, o império de Gabu é o último capítulo, mas eu não lá cheguei porque a greve sempre interrompe as aulas.

No 9º ano, os três setores da produção, a revolução industrial, as teorias malthusianas, não sei os próximos capítulos porque a greve sempre interrompe as aulas.

Enfim, estuda-se sobre tudo, mas estudar sobre a Guiné-Bissau e a sua história, nada, porque os outros partidos parecem temer que estudar sobre isso é favorecer a doutrinação paigcista. Mas como querem separar o PAIGC da História da Guiné? Lubu, negal te, ma ka bu dal padja di bobra. E o pAIGC tem medo que se descubra que fazem tudo menos seguir os preceitos do homem que usam como bandeira (pois atuam como se fosse o PAIGC que gerou Cabral e não o oposto).

As disciplinas chamadas “Educação Social” que podiam focar-se sobre a sociedade Guineense, ao invés pareciam introdução ao direito internacional; a única coisa que me lembro disso é que andei a estudar a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e tive de fazer um exame onde o professor perguntava algo como “o que diz a 15ª lei, ponto 2, alínea c), da declaração”? Ou seja, mesmo essa coisa era para ser memorizada e não entendida.

E isso eu estudei entre 1991 e 1994, e pelo que me disseram, o programa escolar continua a ser, em 2019, a mesma merda.

Para quando vamos começar a estudar Cabral e as suas ideias na escola? E para quando vamos começar a estudar sobre as outras figuras (femininas, princialmente), como a Titina Silá que hoje está completamente esquecida?

20 de novembro de 2018

UM PROBLEMA CHAMADO VERBO SER

Quando Moisés foi à montanha falar com a sarça ardente que, por acaso, era deus, este se definiu assim: EU SOU. (Se não estivesse com preguiça agora, iria tergiversar que ele incendiou alguma árvore aromática que lhe proporcionou um belo... hmm... trip. Mas, vamulá!).

Estava eu no EU SOU.


Deus definiu-se como EU SOU, talvez para dizer o quão grandioso e omnipresente era, tipo, eu sou o céu, eu sou a terra, eu sou o jagudi, eu sou o falcão, eu sou o padre com a bíblia na mão, eu sou a mercadoria escrava a ser abençoada antes de ser embarcada no porão... 'tás a topar a cena?... eu sou o fogo que queima as bruxas, mas... caramba!... eu sou também a puta da bruxa. Enfim, eu sou a contradição.

Mas se o EU SOU de deus trazia a ideia de englobar tudo, o EU SOU humano é apenas uma locução para individualizar, separar e classificar.

O VERBO SER parece SER o fundamento da existência. "Eu penso, logo existo", definirá o ser? A mesa existe, mas não pensa. Mas a mesa também É, sem se proclamar SER. Não sei o que define o SER, mas sei que é uma assunção completamente  humana, pelo menos dentro do espectro do pensamento conhecido; pois não faço ideia se também as bactérias no interior dos vírus dos nossos cérebros reclamam para si o sentido do ser, ou da existência.

Creio que o SER e o EXISTIR, como já discorri algures , são categorias diferentes. Assumo o ser como uma existência consciente e o existir como um estar presente de maneira contável, classificável ou indicável.

O EU SOU categoriza-me, procura dar-me uma definição básica... EU SOU qualquer coisa, e é como se essa qualquer coisa não pode ser outra coisa na mesma categoria de coisas. EU SOU não te deixa a hipótese de não ser. EU SOU guineense, EU SOU português, EU SOU homem, EU SOU mulher, EU SOU preto, EU SOU branco, EU SOU um trolha, EU sou um arquiteto, EU SOU EU SOU Marinho, EU SOU da gasolina... Mas se EU SOU tanta coisa, qual é a validade do EU SOU?

Aristotélicamente falando, os conceitos universais da lógica humana baseiam-se na "IDENTIDADE": "algo" é sempre "algo", esse "algo"; na "NÃO-CONTRADIÇÃO: se "algo" é igual a "aquilo", então "aquilo" é igual a "algo"; e ainda no "TERCEIRO-EXCLUÍDO": "algo" não pode ser "algo" e "não-ser-algo" ao mesmo tempo. Matematicamente, a=a, se a=b, então

b=a, e se a=b=c então c=/a não pode ser. Mas na realidade nós somos humanos, somos os que provam matematicamente que 1=2 (vá, google).

Concentrando-me no SER. O VERBO está tão presente, que até Tarzan começou por aprender: "mim, Tarzan; tu, Jane.". Sim, eu sei que, como já dissera, o ser define a consciência, que é o óculo pelo qual percebemos o mundo. Talvez seja por isso que sempre que vamos aprender uma língua nova, começamos pelo VERBO SER.

O que vou chamar aqui a base da língua, o VERBO SER, combinado com os PRONOMES PESSOAIS (há línguas que até têm pronomes para "existências" que não são pessoas), demarca já a forma das relações e como nos vamos ver ou como temos de ver os outros. É natural, sim é, uma vez que o entendimento é pessoal e nasce da combinação entre as perceções e as sensações de cada um de nós, codificados em experiências e memórias às quais recorremos sempre quando estamos em frente de novas situações. Portanto, sem exceção, o entendimento do mundo é sempre pessoal. Todavia, enterramo-nos tanto nessa ideia de EU que temos tanta dificuldade em nos colocarmos na última categoria do VERBO SER, o que em nada atrapalharia a formulação do SER.


A organização dos pronomes pessoais também não está por acaso.

EU SOU - primeiro eu, mesmo que tu já estivesses cá antes. Aqui entra o sentido da identidade, sem no entanto envolver a noção de "idêntico"; é, portanto, mais identidade, no sentido de "unicidade". Eu, ego, o meu mundo, a minha existência que estou a partilhar com... TU.

TU ÉS - és um corpo fora do EU, mas que reconheço a existência. És o segundo nível do ser. És o "próximo" com quem estou em contacto direto, de quem tanto posso querer proximidade como afastamento.

EL/ É - o terceiro nível. Uma referência mais distante geralmente. O EL/ costuma referir-se ao ausente.

NÓS SOMOS - aqui entra a identidade, com um sentido mais próximo do "idêntico". Quando aparece quer dizer que houve inclusão de TU, TUs, e talvez de EL/.

VOCÊS SÃO (VÓS SÓIS) - outra categorização de outros, também fora do sentido da individualidade, ou talvez num sentido de individualidade agrupada, mais ainda assim, também com uma demarcada próximidade.

EL/S SÃO - o último nível do ser. El/s são é até mais distante do que EL/ É, pois enquanto este individualiza, o outro generaliza e esteriotipa.

 

O EU SOU até poderia não ser tão problemático se logo a seguir não viesse o TU ÉS. E na verdade, nem o TU ÉS seria também problemático se não servisse apenas para categorizar o OUTRO. Eu sei que podem ambos servir para outra coisa, mas vou focar-me aqui no facto de apenas fronteirizarem e distinguirem. Quando o TU ÉS aparece, o EU SOU começa a analisar os pormenores à procura de semelhanças para ser atraído para o TU ou então para justificar um afastamento. O OUTRO carrega sempre um valor de fronteiras. Os mandingas chamaram aos fulbés de "fulas", significando "dois", proutras palavras, mandinga primeiro, fula depois, e os fulas aceitaram o títulos e retorquiram que significa que um fula vale por dois mandingas e os últimos o sabem.

Ah, estava a divagar dentro da minha própria divagação... altamente, isso eleva em grande a qualidade divagatória.

 

O VERBO SER é categórico, não flexibiliza. O VERBO SER é redutor. O VERBO SER justifica as diferenças e as diferenciações. O VERBO SER é fodjido, cara.

Geralmente o EU SOU valida o mundo através de si mesmo, o que até faz sentido uma vez que o mundo que conhece depende da sua capacidade perceptora. E como recentemente fui ensinado, a morte é branca, uma vez que o escuro é a consciência de ter os olhos fechados; e a morte pressupõe ausência da consciência. O meu mundo cessa com a morte do EU SOU, portanto, o EU SOU valida o mundo pela própria perspetiva.

 E... o EU SOU não se casa muito bem com EL-É, porque geralmente só cita o EL-É quando está com o TU ÉS, e o EL-É está ausente, ou quando quer meter o EL-É em alguma caixa, independentemente da vontade deste. E nesse então entra em jogo o NÓS SOMOS, aparentemente agregador, todavia, separatista.

O VERBO SER diz NÓS SOMOS isto, vocês e ELES SÃO aquilo, e é através do SER que ou vamos comer juntos ou separados.


Mas eu só gostava de poder NÃO-SER, imagina a liberdade e a fluidez que poderiam advir do NÃO-SER. Imagina não ter de ser guineense só porque nasci na Guiné, não ter de precisar de um passaporte para viajar entre fronteiras fictícias; imagina não ter de ser homem para ser considerado capaz e merecedor de oportunidades; imagina não ter de ser preto para não ter de andar sempre a levantar escudos contra o racismo ou a entrar em discussões estúpidas e vazia; imagina não ter de ser branco para não ter de passar o tempo todo a justificar o não-racismo; imagina... e imagina poder ser cristão, muçulmano, ateu, jeová, adventista, budista e filhodaputista, tudo ao mesmo tempo.

 

Epá, o NÃO-SER abre imensas possibilidades

3 de novembro de 2018

TEM BONS DENTES?... NÃO? ENTÃO FORA…

Theresa May disse que depois de efetivar o Brexit vai passar a ser o Reino Unido a escolher e a decidir quem entra no território e só vão ser “pessoas qualificadas”.

Nem o tema, nem o processo são estranhos. Durante o comércio de escravos também só eram levadas as “pessoas qualificadas” para a Europa (ou América), pois elas trabalham e geram riquezas (a condição do trabalho não importa aqui, desde que elas trabalhem). E a questão não se encontra circunscrita ao Reino Unido, mas é toda uma postura da Europa. Recentemente, durante a crise de refugiados, fartamo-nos de ouvir e ver argumentos iguais por tudo o que é lado.

O coordenador do Observatório da Emigração disse que Portugal precisa urgentemente de imigrantes para resolver o problema da falta de mão de obra. A política de imigração de Merkel foi de facilitar a entrada de pessoas “educadas” na Alemanha. Macron há pouco tempo deu documentos a um herói escalador de paredes… enfim…

Cá em Portugal, os do “contra-imigrantes” dizem: “esses PRETOS (como se os imigrantes fossem só pretos, os do norte europeu são bem-vindos, ó, expatriados) só vêm cá para viver da segurança social e dos nossos impostos e não querem trabalhar um corno”. E os “pró-emigrantes”, da esquerda, dizem: “os né... os AFRICANOS são gente produtiva que trabalha bastante para sustentar a família, por isso devemos abrir-lhes as portas, pois eles são comprometidos com o trabalho e nem todos são maus”.

Pois, claro que não, nem todos são maus, alguns têm bons dentes, servem para bumbar nas obras, para jogar na seleção, para correr no atletismo, e para pintar algumas fotos “à la Benetton” para podermos falar da diversidade e da solidariedade. Enquanto isso, só vamos abrir portas à gente “qualificada”.

Abomino as reportagens a mostrar como os imigrantes se enquadraram bem na sociedade europeia, se aculturaram e se tornaram produtivos… é uma lógica esclavagista.

A única forma em que isto difere dos tempos do comércio triangular é que os imigrantes (guineenses neste caso - pelo menos são os que conheço) vêm para cá “voluntariamente” para serem escravizados, principalmente quando a qualificação não é académica ou atlética, mas força nos braços para limpar casas de banho e centros comercias.

Será possível falar da imigração fora de uma perspetiva capitalista e nacionalista, mas humanista?