6 de setembro de 2013

TENTANDO ENTENDER... A CRISE SÍRIA

Um dia, por acaso, estava a acompanhar um debate filosófico entre o meu sobrinho, de sete anos, e o seu amigo, de uns nove ou dez, acerca da mentira, quando o amigo saiu com essa conclusão depois de analisadas as premissas e apresentados os argumentos: “os adultos também mentem, e muito mais do que as crianças”. Não manifestei a minha opinião, pois… onde estaria a solidariedade adultícia se eu confirmasse aos miúdos que eles tinham razão?

Numa analogia similar, considerando que os países ricos são os adultos, e os pobres são os miúdos, cuja opinião não é solicitada, nem levada em conta, eu percebo a solidariedade dos G20 com os americanos na questão de invasão à Síria. Solidariedade sim, porque embora saibam que se trata do interesse económico de um punhado de americanos superricos, aqueles que lucram imenso com a sua máquina de guerra (nada a ver com Van Damme), não vão agir em contradição e tudo o que pedem é um aval da ONU (outro pau mandado dos States). Bem, mas compreende-se, os países ricos têm interesse em não perder o seu domínio, e a melhor maneira de o não fazer é não embater de frente com o mais rico e poderoso deles. Sendo assim, os G20, ou melhor os G19, vão, de qualquer forma apoiar o G1, ou quanto muito, não fazer nada quando este decidir levar a sua avante. Trata-se da solidariedade adultícia.

Pode ter havido ataque com gás sarin na Síria – como pode não ter –, pode ter sido um trabalho tanto do governo i-“legítimo” – como pode ter sido da oposição – (o i- é para dizer ao Passos Coelho que a legitimidade do governo, mesmo que tenha 100% de votos, perde-se quando põe em risco a sua população em benefício de interesses económicos alheios), mas numa coisa todos concordam, milhares de sírios desgraçados estão a morrer massacrados pela ganância de uns quantos. Pois vê-se que tanto do lado sírio como do americanos há muitas coisas a aparecerem que cheiram a completas manipulações.

Diz-se que há mais ou menos 110 mil mortos desde o início da guerra civil síria, mas isso não interessava aos americanos, nem aos G19, são sírios, porra, nem pessoas são. No entanto, quando se fala que uns 100 sírios morreram com gás sarin, levanta-se a América, toda indignada: Isso é uma barbaridade!  Pois, claro que é! Onde já se viu? Matem-se com armas, com canhões, matem-se com garfadas no olho um do outro, aliás, até podem usar a piada mortal dos Monty Python, matem-se à paulada, matem milhões, matem bilhões, porra, mas não usem o gás, pois isso é barbaridade. Gás só é permitido nas prisões americanas, ninguém mais deve usá-lo.

Obama vai atacar a síria, retaliação, disse ele. Mas que raio fizeram os sírios à América para estes terem de retaliar?

Mas todos sabemos que o G1 não se importa com o que os outros pensam, ele apenas faz, no entanto, do lado de cá, vejo notícias sobre a crise síria que me deixam perplexos. Quem entende os média? Num artigo dizem que existem provas que atestam o ataque em Síria com armas químicas pelo governo, para logo no outro dizerem, em letras miúdas, que a ONU ainda não fez exames conclusivas, para logo a seguir, voltarem a carga em letras garrafais que houve provas e ADN sobre o uso do sarin e que o Cameron tem provas conclusivas, como se não soubessem que Powell, Bush e Blair já tinham apresentado provas conclusivas aquando do ataque ao Iraque? Por que carga d’água os média não usam a palavra “alegadamente” quando apresentam essas notícias em vez de servi-las com factuais, sabendo que muitos nem pensam sobre o que ouvem e partem logo do princípio que os jornalistas não mentem (ai, tenho de avisar o meu sobrinho).

A Síria vai ser invadida para fazer um cerco ao Irão? A Síria vai ser invadida para meter medo aos norte-coreanos e aos iranianos? A Síria vai ser invadida porque, pelos visto, a retirada das tropas de Afeganistão poderá criar desemprego para o milhares de mercenários americanos? A Síria via ser invadida por uma posição estratégica contra a Rússia? A Síria será invadida para um teste cabal dos drones e robots de combate? 

Mas quem raio legitimou a América como a polícia do mundo?

Acho que essas (ou algo como isso) deveriam ser algumas das questões que deviam ser levantadas e analisar a legitimidade de um país invadir o outro. Invadam então Portugal, porque o governo está a usar bombas decretatórias para liquidar a população... ai, por favor, não invadam, estava só a brincar.

Que Obama pôde ter mudado alguma da política americana… sim, ele pôde. No entanto, tal como já vaticinara, ele tem de cumprir as promessas feitas as multinacionais que financiaram a sua campanha, e ele é apenas um outro fantoche da grande e verdadeira América (os bancos e as multinacionais).


Tentei aqui entender a crise síria, mas continuo como quando comecei a escrever isto, não entendi nada.




1 de junho de 2013

MOVIMENTO CIDADE BELA - contexto e consequência

 A exposição é bastante breve e, consequentemente, não pode explicar todo o Movimento Cidade Bela (City Beautiful Movement), pelo que para mais informações convém fazer mais leituras e pesquisas sobre a matéria. Até lá, no entanto...

Até os finais do Séc. XIX, as cidades nos EUA cresciam desordenadamente, motivada pela ausência de planeamento para as cidades, pois a cidade não passava de um mero objecto de especulação económica e exploração imobilária. Os chamados os bosses ofereciam serviços urbanos mínimos aos imigrantes em troca de votos eleitorais. Não havia critérios de embelezamento e saneamento, e não havia nenhuma interferência das autoridades nos controles de uso e ocupação do solo; ao contrário de Paris, controlado por Haussmann.

Diferentemente da Europa em que os prefeitos ordenavam as reformas, nos Estados Unidos elas aconteceram através dos movimentos populares. O movimento City Beautiful (Cidade Bela), movimento cultural de referência da arquitectura americana de embelezamento das cidades, foi um deles e, talvez, o que mais impacto teve.

A exposição de maquetes de cidades modernas do Chicago em 1983, Columbian World’s Fair, apresentava cidades com traçados novos, por exemplo, eixos definidos, lagos, amplas avenidas, recintos com vistas grandiosas, paisagens soberbas e asseio geral, era uma expressão completamente diferente e ideal da cidade, mostrava uma paisagem imaginária sem comparação com as das cidades reais norte-americanas. E teve por isso um grande impacto sobre o planeamento urbano, tornando-se os conceitos nela apresentados princípios orientadores da Cidade Bela.

A exposição foi realizada por arquitectos do movimento das Belas Artes e que foram precursores da Cidade Bela, que obteve desta forma grande impulso. Aliás, a exposição foi dirigida por Daniel Burnham, o principal planeador da Cidade Bela, que foi muito influenciado pelo planeamento das cidades europeias, especialmente Roma e Paris de Haussmann.

A meta da Cidade Bela era, segundo Jane Jacobs, a cidade monumental. Os edifícios eram agrupados para criar um efeito o mais grandioso possível, dando ao conjunto um tratamento de unidade completa, separada e bem definida. No entanto, para Olmsted, a Cidade Bela não se baseava apenas nos edifícios monumentais, o objectivo do movimento consistia na dimensão e forma das ruas, dimensão dos edifícios e localização em relação recíproca com os espaços públicos, disposição das zonas sem edificação, e sobretudo, tratamento das zonas sem edificação com ruas, postes, árvores e valetas.

Northbourne Avenue, Canberra
Os defensores da Cidade Bela pretendiam que através do embelezamento da cidade podia-se resolver os problemas sociais, morais e cívicos; fazer as cidades americanas emular culturalmente com as cidades europeias; e o uso dos serviços públicos indiscriminado, tanto pela classe alta como pela "ralé".

O movimento da Cidade Bela procurava separar funções públicas e culturais e descontaminá-las da cidade real. Objectivava não só melhorar a estética, apresentando uma cidade visualmente agradável, mas também dava respostas às questões de comércio, indústria e transportes, aos parques e à margem do lago, ao crescimento populacional e ao futuro caminho do desenvolvimento regional da cidade.

Aliás, foi o primeiro plano director à escala da cidade a definir pormenorizadamente como seria a cidade num determinado ponto do futuro, criando objectivos prévios.

Aplicou-se os princípios da Cidade Bela no planeamento de Camberra, em 1913. E esteve por trás da concepção de Central Park por Olmsted. Também esteve presente na criação do parque Lincoln Memorial de Washington, e em Government Center, Cleveland, em Benjamin Franklin Parkway, Filadélfia, e em alguns outros casos.


14 de abril de 2013

UMA QUESTÃO DE... LIBERDADE DE EXPRESSÃO


O senso comum diz: onde acabam os teus limites começam os meus, sustentando-se no princípio de boa convivência.

Entretanto o mais certo é que isso não é assim tão simples como se diz, na medida em que esses limites na maior parte das vezes são marcas invisíveis e imperceptíveis, ou visíveis, porém, ilusórias, nada mais do que miragens. De qualquer forma não há como negar que este simples princípio consegue estabelecer algum equilíbrio, no entanto, quando as pessoas invocam a liberdade e os direitos, aí a coisa complica.

A liberdade nunca pode ser plena, ela é ultra-condicionada tanto por outros factores como por ela própria (considerando que a nossa liberdade e o direito a ela tem de se submeter, na maior parte das vezes – e para a maioria dos mortais, conforme a sua importância social –, à liberdade e o direito a ela de outras pessoas). Somos livres mas não tanto ao ponto de entrar numa casa alheia e usar as coisas dela, por exemplo… oh… essa foi demasiado básica… somos livres, mas não tanto ao ponto de nos mandarmos embora de um emprego quando temos contas por pagar no final do mês, ou para nos darmos ao luxo de não ter uma conta num banco qualquer, ou para não nos submeter às filhadaputices das leis governamentais que nos tramam... hem!, somos livres mas não tanto ao ponto de agredir física ou emocionalmente outras pessoas.

E é sobre esta parte complicada da liberdade que eu quero reflectir: a liberdade de expressão. A liberdade de expressão é uma das mais confusa, tramada e opressora forma de liberdade de que eu tenho conhecimento; muita gente pretende que pode dizer o que bem lhe dá na telha sob a alçada da liberdade da expressão, mas não percebe que embora pareça que possa, talvez não deva usar essa aparente liberdade (e não, não quero ir para o sempre aclamado e vulgar direitos e deveres).

Em nome da liberdade de expressão faz-se declarações difamatórias, publica-se o ódio, publica-se a estupidez, chama-se de estúpido aos estúpidos, aos iluminados e aos pseudo-iluminados, sem discriminação, desde que não estejam de acordo com a nossa forma de pensar. Eu mesmo que estou praqui a falar, por exemplo, ao escrever uma crítica sobre um filme que não gostei, chamei de pseudo-intelectuais àqueles que disseram que gostaram, e digo, em minha desculpa, que tenho os meus motivos para isso e justifico-os. E é isso que toda a gente faz quando usa da chamada liberdade de expressão, agride os demais e justifica a agressão.


O que não faltam por aí são artigos escritos por pessoas cultas (considerando as citações que fazem), académicas (por causa da estrutura séria dos seus textos) e bons escritores (porque os textos têm ritmo e são bem redigidos e apelativos), feitos à bandeira da liberdade de expressão, mas que não passam de um atropelo à expressão da liberdade: textos misóginos, textos racistas, textos homofóbicos, textos partidários, textos religiosos, textos ateus, textos eteceteristas; e quanto com mais cultura são escritos, mais perigosos são, porque se baseiam sabiamente (mas de forma errada) em justificações bem manipuladas que, sem um pensamento crítico da parte de que os lê, induzem em erro.

Há uma confusão constante, as pessoas julgam que a liberdade de expressão é uma expressão de liberdade, pois devia ser, mas considerada no plano ético, onde temos o tríptico: eu, tu e nós, vemos que restringimos a nossa liberdade quando só respeitamos um dos elementos desta santíssima trindade e fazemos pouco caso dos outros. Quando só olhamos para o próprio umbigo, quando só julgamos que a nossa opinião é que conta e quando fazemos tudo para defender essa opinião e o direito de a ter, o que poderemos esperar que a alteridade faça? É aqui que triunfa o príncipio de os meus limites e os teus.

Por exemplo, lembro-me de alguém justificar que tem o direito de não gostar dos gays e de não os querer perto de si. Pois, faz sentido, tanto quanto o meu sobrinho tem o direito de não gostar de repolhos. Porém, os repolhos são para serem comidos, não têm decisão na matéria, mas um gay tem (ou devia ter) os mesmos direitos que esse alguém que não os quer por perto, e, voltando à santíssima trindade, percebe-se facilmente que apenas o elemento eu fica em desvantagem diante dos outros dois.

A questão da liberdade é complicada, a da liberdade de expressão é estupidamente mais complicada ainda, mas talvez se simplifique se pensarmos que se com ela estamos a pôr em questão a liberdade de outras pessoas é porque não faz sentido e é prejudicial. Como por exemplo disse alguém inteligente, se há muitas pessoas heterossexuais solteiras que não querem casar-se e acham ridículo o casamento, mas ninguém lhes acusa de estragar a seriedade casamento por isso, por que raio acham que os homossexuais que querem casar-se (entenda-se, respeitam essa instituição) é que vão pôr em risco o seu significado?

Sem esticar mais, e não me sentindo muito claro e inteligente hoje, vou acabar aqui o artigo e deixar a sugestão de que quando a nossa liberdade de expressão agride qualquer expressão de liberdade, pondo em risco o tu e o nós (considerando que se o eu atacar o tu, este reage atancando o eu, e o nós deixa de existir), então o mais certo é não fazermos o uso dela.

1 de abril de 2013

LOOS ORNAMENTAL, 2008


O documentário Loos Ornamental, relizado por Heinz Emighloz é tão maçante e dá mais sono do que ouvir o Vítor Gaspar nos seus monocórdicos discursos a fazer ensaios fictícios sobre como saldar a dívida com a Troika. Eu explico (não a parte do Vítor, é claro).

Cinema, do grego, movimento (hoje também tido como o espaço onde se projectam filmes), é uma técnica de usar uma sequência de fotografias de modo a criar a ilusão de movimento, é uma forma de contar uma história.

O cinema mudou muito ao longo do tempo, mas uma constante, desde os primórdios da sua existência, quando os homens da caverna projectavam sombras nas paredes para contar como é que foi um emocionante dia da caça, foi sempre o movimento. Cinema é um conjunto de imagens sequenciais, de fotografias interligadas para dar um sentido, um conjunto de pontos que forma uma linha, geometricamente falando. E assim mostra-se, senão superior, pelo menos maior que a fotografia.

Dito isto, quando se vê Loos Ornamental, o que se chega à cabeça é: mas que raio, isto não é cinema!, e não no sentido de um filme caseiro qualquer não ser também cinema, aliás, a própria ideia de filme é violada com Loos Ornamental.

excerto do filme

Podia-se dizer que Heinz Emighloz simplesmente inverteu o conceito de pôr a fotografia em movimento para fazer cinema, e revolveu pôr o cinema em estática para parecer fotografia. Teoricamente é um bom exercício de masturbação mental, o conceito, é certo; mas na prática funciona tão bem como a licenciatura do Relvas. Quer dizer, a licenciatura está lá porque foi dada e é assim chamada, mas é tão vazia de sentido e sem conteúdo.

Adolf Loos, como aqui já referi, é o meu arquitecto de eleição, por isso a expectativa com que fui para o documentário e o entusiasmo eram muito altos, e fomos defraudados, tanto eu como Loos, considerando que o filme podia ter sido feito em Power Point com melhores resultados, na medida em que é um conjunto de planos estáticos das obras de Loos filmadas por uma câmara, e quando não há uma cortina a mexer tornam-se indistinguíveis de fotografias. As imagens, como se pode ver no excerto, são intevaladas por uns dez segundos ou mais, e assim, em sequência fazem o filme, sem narrativa e sem música (ai, que chato).

É certo que as obras de Adolf Loos falam por sim, mas se o próprio dizia que não gostava de fotografias porque manipulam a visão do espaço, como é que Heinz Emighloz vem fazer-lhe uma homenagem usando fotografias apenas, quando possui uma ferramenta que lhe permite ir mais além? (aliás, mesmo que Loos gostasse de fotografias, o filme continua mau) É como sair de submarino para ir fazer vela (nenhuma conotação com o Portas, entenda-se.)

Bruno Zevi, no seu Saber Ver Arquitectura (livro do qual ainda vou apresentar uma resenha aqui), dizia que as revista não ensinam a ver arquitectura porque falta-lhes a dimensão do movimento, a quarta dimensão, e por isso, quando Heinz Emighloz pretere da ilusão da quarta dimensão para mostrar arquitectura, o resultado só pode ser um: mau. E o pior é a ausência de narrativa e existir apenas o barulho natural de fundo quando filma em espaços exteriores, o que também não resultou muito bem, pois vários documentaristas (Herzog, por exemplo) fazem-no e resulta bem, pois cria momento quando o recurso é usado pautadamente, mas quando é uma constante, aborrece.

Entretanto, o pior de tudo é mostrar obras de Loos sem falar de Loos.

Loos dizia-se contra ornamento, mas referia-se às mariquices da art decor entre outras coisas, porque os seus espaços interiores eram muito bem ornamentados (e caros, só para quem pudesse pagar), e convinha dizer isso, pois quem não sabe de Loos, vê o documentário e no final, continua a não saber de Loos. É necessário falar das técnicas de Loos, das suas ideias, mostrar as plantas, etc, porque de contrário, o que se obtém é um filme para turistas comuns (usando a comparação de Zevi), quer dizer, vê-se tudo e mais alguma coisa, sempre com a pressa de seguir em frente para ver mais, mas sem perceber claramente a dimensão do que se viu.

Loos Ornamental não seria mau se tivesse sido uma exposição ou um livro, no entanto, tem uma boa nota no IMDB, provavelmente atribuído por alguns intelectuais, daqueles que mastigam papel e filosofam que não sabe a lasanha porque a realidade é ilusória (os que não vêem que vai o rei nu - adoro esta metáfora). Mau Emighloz, mau.



20 de fevereiro de 2013

APRENDENDO A DESENHAR (locais, lugares e sítios - cap. II)

E aqui estão mais uns bocadinhos de imagens da minha odisseia no campo de aprendizagem de desenho. Alguns destes já têm quase um ano ou mais, porém...


rio douro (acho eu), vista do palácio de cristal, porto
camioneta, interior 
cruzamento, à frente da piscina municipal de são joão da madeira
um refeitório qualquer
comboio 
um restaurante qualquer
chelas, não sei o que é aquilo
rio douro, vista de jardim do morro
desenho conceptual
auditório da lusófona
aula de projecto
estação de benfica

18 de dezembro de 2012

SERÃO OS AMERICANOS HUMANOS?

Uns meses atrás, por causa de umas pessoínhas de uns afegãos que de manhã foram notícia e à tarde passaram à nota de rodapé, eu perguntei: serão os afegães humanos? Claro que não eram, só foram notícia por causa do americano envolvido na questão. Mas desta vez, por todos os envolvidos serem americanos, e por causa de quatro dias da mesma notícia, eu então pergunto: serão os americanos humanos?

Todos sabemos a resposta. Tal e qual os afegãos não são humanos, os americanos também não são; mas se os primeiros são pessoínhas, os segundos são deuses, e é por isso que as suas vidas são tão valorizadas, tão valorizadas, que se tornam notícias mundiais porque vinte crianças morreram (lamentos pelos pais e familiares), quando ao mesmo tempo estão a morrer pessoínhas (crianças, adultos, famílias inteiras) sírias, palestinas, iraquianas e eteceterianas, mortas pelas guerras americanas (ou com o dedo americano), e nem sequer levantam comoção.

Não estou contente com a morte desses meninos inocentes, se passei essa ideia perdoem-me, odeio matanças, não vejo justificação nenhuma em matanças, ao contrário do Bento XVI que falava de violência não justificada, pois para mim todas as vidas humanas importam da mesma maneira.


No entanto, por serem deuses, temos de velar e ficar compenetrados pelas vidas recentemente ceifadas nesse pequeno massacre na América (sim, estou a usar termos comparativos de propósito), e não nos lixarmos pelas outras tiradas pelas armas, pelas bombas, pelos soldados e drones americanos, ou pelos soldados do petróleo, e nem devemos ficar compenetrados pelos sírios que se estão a matar, ou irritados pelos abusos israelitas sobre os palestinos. Isto por quê? Porque pessoínhas não se medem com deuses.

A América é uma terra de deuses, por isso é que pode ser toda às avessas, por isso é que acreditam que as suas emendas publicadas séculos atrás continuam hoje tão boas e com infalibilidade bíblica e dogmática que não precisam de revisão; por isso é que permitem a jovens de 18 anos irem morrer na guerra, entrar em filmes pornos, poder portar armas de fogo e matar os outros, mas não não lhes permitem beber uma cerveja; por isso é que vão levar para a discussão outra vez  a questão de porte de arma, embora todos eles já saibam o vai resultar daí: nada; por isso é que os Obamas e tal vão chorar lágrimas de crocodilo e depois ficarão à espera de uma nova matança; por isso é que esta matança não tem nada de novo, visto ser nada mais do que outro eco.

Para fechar, digo, lamento pelos familiares, mas basta de hipocrisia, as vidas americanas não são mais importantes do que nenhuma outra vida, por isso por quê a tanta hipocrisia mediática em torno do assunto?

17 de novembro de 2012

TENTANDO ENTENDER... A GREVE

Não perguntes o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer por ela, JFK. 

Estamos habituados a ouvir esta frase, e por ser tão boa tornou-se religiosa na boca dos políticos. Mas não é senão uma frase de controlo, uma arma perfeita para calar os reaccionários, similar à: bem-aventurados os pobres de espírito (leia-se estúpidos ou pessoas que não questionam), porque deles é o reino dos céus. Não conheço nenhuma outra frase que apele ao patriotismo e à inacção do povo melhor que esta, talvez apenas aquela fábula de Esopo d’ As Mãos, o Estômago e o Corpo

Entretanto, eu digo não perguntes: o que posso fazer pela pátria?, nem: o que fiz pela pátria?, mas pergunta: o que fez ela por mim? 

Se comummente chamamos a pátria de mãe, então facilmente se aplicará esta comparação: uma boa mãe é aquela pessoa que nos protege, nos educa e orienta, ensinando-nos o certo e o errado, guiando-nos para aprendermos a fazer o próprio caminho, logo uma pátria-mãe que nos leve a fazer a questão que abriu este artigo devia ser uma boa mãe; no entanto, se não damos o direito de nos exigir nada a uma mãe que falhou redondamente na nossa educação e nunca quis saber de nós senão para os próprios benefícios, por que razão não devemos revogar esse direito a uma pátria-mãe que age da mesma forma? Principalmente quando a pátria-mãe, na verdade, é um pai ausentemente presente e chama-se governo.


Se o governo fosse justo e equilibrado, o governo desejado por Platão, formado por homens ilustrados e equânimes, sim, podíamos e devíamos nos perguntar: o que fizemos pela pátria?, mas quando a despeito de todos os nossos esforços e do enorme sacrifício e das cargas que nos põem sobre o lombo, o governo ainda nos empobrece mais e beneficia os seus (vejamos o caso fresco dos subsídios não retirados aos nomeados do governo), que atitude moral tem ele para nos pedir alguma coisa? 

Então, repito, não perguntemos o que fizemos pela pátria (entenda-se governo), mas o que fez por nós ela. Acredito que talvez só assim consigamos perceber a dimensão da GREVE GERAL de há dois dias, que os média tentam, com todos os esforços, demonificar, usando um processo de desacreditação através de comentaristas políticos e sociais, chamando aos grevistas de não-patrióticos, visto que só serviram para piorar a situação já frágil do estado português no panorama internacional. A pergunta que andam a fazer é: qual foi a utilidade da greve? (Utilidade, hein?!!! Qual foi a utilidade do 1º de Maio de 1886?) Foi prejudicar o país, fazendo-o perder muito dinheiro que será preciso para saldar a dívida contraída com a Troika, porque os grevistas, egoístas, não pensaram no país, mas apenas em si. Sim, palavras para provocar ressentimento, mas haverá melhor forma de pensar senão em nós mesmos quando põem em risco a nossa sobrevivência, não só psicológica como física?


Os comentaristas, que ganham bem só de aparecer na televisão (sendo isso a sua fonte de rendimento extra), podem andar a falar por lá, lavando a cabeça da metade da população, levando-a a uma mea culpa idiota e imprópria, jogando-a contra a outra metade que se mantém sã nas suas revindicações, mas nós, os desempregados, os trabalhadores de verdade, os não-políticos e não-governantes, nós, que somos a máquina do país, sabemos que se não fizermos mais greves, os do governo não ficarão com medo de ver o país parar e, portanto, de verem em risco as suas posições; e se isso não acontecer continuarão a não se preocupar connosco, e a descarregar sobre nós os problemas que eles mesmos criaram e ainda por cima a exigirem-nos sacrifícios.

O que fizeram os políticos pela pátria a mais do que nós para ganharem reformas vitalícias, salários soberbos, terem férias subsidiadas que a todos é cortado, ou para não baixarem os próprios salários ou cortar nos benefícios? Por que não fazem eles sacrifícios? Por que sempre que se fala da forma como usam o dinheiro a seu favor e os valores que usam parece-nos pornografia?

Porém, o povo é o pior inimigo de si mesmo, em vez de se manter unido em prol do que lhe beneficia, fragmenta-se em diversas frentes e dilui o essencial com superfluidades. Hoje anda o próprio povo a fala mal da greve de há dois dias e a chamar aos outros de não-patrióticos e sem bom-senso, simples ferramentas dos sindicalistas (que na verdade são também políticos, mas que nos beneficiam ao mesmo tempo que a si mesmos) que só contribuíram para empobrecer mais o país.

Andam os políticos a usar o vandalismo cometido durante a manifestação por umas quantas pessoas para pôr em questão a legitimidade da greve, porém isso é manobra de diversão. Mas, hey, também tem uma coisa: eu não gosto da polícia que protege os governantes, mas se não vamos atirar pedras aos últimos para quê atirá-las à primeira? A greve foi legítima, porque é a única arma que temos para desestabilizar os manda-chuvas e levar-lhes a dar-nos alguma atenção. 

Pode o Cavaco dizer que também foi trabalhar, pode o Passos fingir que fez o mesmo, podem os big bosses dos média dizer que foi passada uma imagem negativa do país lá fora, nada boa para o contexto económico actual (errata: para o governo actual), podem dizer tudo o que quiserem, no entanto, o certo é perguntarmos: se eu fiz pela pátria, se trabalhei e descontei, se elegi os meus proxenetas (que não só a mim f…ixam como à própria pátria), se me são impostos sacrifícios por causa das asnices das pessoas que não se sacrificam, será que não devo perguntar: O QUE FEZ A PÁTRIA POR MIM? 

Claro que devo perguntar, principalmente quando está mais que claro que a pátria me viola de todas as maneiras possíveis e inimagináveis, e como farei isso? COM GREVES, CAMARADAS.