7 de março de 2021

CARO AMIGO BRANCO (DA NEGAÇÃO)

Caro amigo branco,


Quando me queixo do racismo, não o faço para ser visto, mas é a minha alma que eu dispo, portanto é errado achares que és o alvo de tudo o que eu reclamo, porque tu és um bacano, meu mano, tu és tão és fixe e tão brando, que se matares uma mosca é porque a gaja fez uma coisa tosca.

Caro amigo, tu sentes-te aflito quando eu falo do racismo, e dizes com afinco que o racismo é um mito, blá blá blá isto, blá blá blá aquilo, que somos todos filhos da mesma raça... Pois, mas és tu quem passa, mesmo numa discoteca africana, e eu é que sou barrado à entrada. 

Se achas desconfortável para ti eu falar do racismo, imagina como me sinto, eu que vivo à sombra disso. 

Tu dizes que não vês cor, e eu digo, por favor, vai consultar um doutor, porque há algo de errado com a tua retina.

Caro amigo branco, quando eu falo que Portugal é racista, não estou a dizer que tu és racista, nem que todos os portugueses são racistas, mas estou a dizer que o sistema é racista e está construído sobre princípios racistas e de supremacia divisionista.

Vou dar-te um exemplo: o grande templo da história de Portugal é chamado de Descobrimentos, fala de um tempo de homens valentes que dobraram o mar heroicamente e saíram do continente para levar civilização para outras gentes, foram para outros mundos, através do mar profundo para levar a glória de Portugal para limpar povos imundos. Aliás, o hino nacional de Portugal diz: Herois do mar, nobre povo, nação valente e imortal. Entendes agora? 

Quando a postura oficial de Portugal é agigantar os assaltos do passado e tomá-los ainda hoje, apesar dos factos, não como atos feios, mas em grandes devaneios como feitos perfeitos de um povo eleito, então… Portugal é racista.

Quando te ensinavam na escola que pertences a um povo superior, que levou civilização a povos de cor, que os educou e que os tirou do estado selvagem e os levou para outras paragens e os vendeu em outras paisagens, e que os trouxe para este lado do oceano como escravos, diz-me: o que te vinha ao caco quando tiravas os olhos do quadro e olhavas para o teu colega preto sentado ao teu lado? Não achavas que a tua categoria não podia ser vista na mesma linha com a categoria de um limpa-pias cuja família foi um dia mera mercadoria? 

Tu foste doutrinado para te sentires superior a ele, tu foste doutrinado para sentires que este país te pertence, porque no passado não havia cá pretos. Mas, caro amigo branco, é aí que está o engano, porque mouros ou muçulmanos também já dominaram este pedaço de terra. Percebes agora a fraqueza do delírio do orgulho da tua herança genética que tu chamas de perfeita, só porque não tens uma pele preta?

Caro amigo branco, sabes o que é que acontece quando se junta na mesma gruta políticos racistas, direita extremista, jornalistas racistas, cientistas racistas, brancos com problemas de vista que acham que movimentos antirracistas promovem cultura marxista (sei lá que merda é isto), porque a cor não existe ou porque o racismo não existe? Quando se mistura tudo isto na mesma lista, abre-se a temporada de caça aos pretos, como que aconteceu há pouco tempo e como o que se incentiva neste momento nos comentários ignaros de gente demente na Intenet. 

E é disso que eu tenho medo. E também tenho medo de ti, meu caro amigo branco, cujo negacionismo promove o racismo, e que usas uma peneira de maneira a tapar a vista com vista a não ver como Portugal é racista.

Caro branco, se não fodes, então sai de cima.


19 de fevereiro de 2021

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 6)

19 de fevereiro – o homem que lavou o racismo de Portugal

 

Os tugas têm uma relação estranha com a água. Não consigo entender nada. Têm muita água, mas só a usam para sacalata. Vou explicar: o tio Paulo Banho dissera-me uma vez que os tugas não gostam de tomar banho, mas passam o tempo lavar o carro.

Não entendia isso, o carro estar limpo é melhor do que a pessoa estar limpa? Mas depois percebi, que provavelmente o tio Paulo Bano também não deve ter conhecido muitos tugas. E os tugas de Portugal dizem aqui que os tugas de França é que não tomam banho, e os tugas de França dizem que os tugas do Canadá é que não tomam banho. Uai!, é cada um a acusar o outro que não dá para acompanhar. Mas nota-se a relação estranha dos tugas com a água.

Aqui as bombas funcionam bem, abres a torneira e sai água limpa puss, mas os tugas também não a bebem, preferem ir comprar na taberna. Ah, aqui eles não têm nar, têm chineses e indianos. As tabernas aqui são muito grandes, eles chamam de supermercado. Mas estava a dizer, têm água limpa na torneira, mas andam sempre com bidões de água. Aqui, se não tiveres dinheiro para comprar água, estás nhanido, porque os tugas não patem, não oferecem mesmo, comem à tua frente no comboio e tu ficas a olhar e a engolir alma e eles nem convidam. Mas já falo disso logo. Distraí-me de novo.

Os tugas não gostam de lavar, tinha dito o Tio Paulo Bano, mas eu descobri que os tugas lavam tudo e lavam muito. Por exemplo, há pouco tempo eles fizeram uma eleição onde apareceu um gajo chamado André Tontura... Tortura (?)... Sei lá, só sei que o miúdo é tonto, e ele disse que os tugas brancos são gente de bem, que os tugas pretos não são tugas e o que os tugas ciganos têm medo de sapos... Ehhhh! Lembrou-me que lá na Guiné também dizemos que os nar-kabras têm medo de kakris... (Kakris? São aquelas coisas que parecem com caranguejos). Hmm!, falando nisso, agora penso que lá na Guiné somos tão tontos como o André Tontura aqui... Adiante...

Esse tal de André Tontura vendeu ódio contra os tugas ciganos e os tugas pretos e os pretos que não são tugas, e lucrou com muitos votos, ele mandou uma tuga preta chamada Jassine para a sua terra, mas os chefes tugas disseram: "pá, isso é normal, é liberdade do expressionismo alemão". Liberdade do Expressionismo alemão é um estilo inventado por um tal pintor chamado Hitler. Mas não acabou bem, porque virou nazismo. Mas “está tudo bem assim e não podia ser doutra forma”, como dizia o antigo chefe tuga Salazar, os chefes tugas de hoje lavaram essa ação do tonto do André Tontura.

Os chefes tugas lavam tudo, lavaram o colonialismo, dizem que foi o melhor colonialismo do mundo, um colonialismo amoroso, a maior fábrica de mulatos de todos os colonialismos, e que não era um colonialismo racista, mas lusotropical… mas lusotropical só lá nos trópicos, aqui na Metrópole, bem branco. Mas isso do "melhor e maior do mundo" é tão normal nos tugas. Eles até tiveram um gajo chamado Fernando Pessoa, eles colocam-no em tudo, cartões de banco, paredes de metro, postais para turista, papel higiénico, etc, porque ele era a maior pessoa do mundo, tão maior que até era cinco em um, por isso o chamaram de Pessoa… acho eu.

Divagações… divagações…

O Tontura foi votado por muitos tugas para mandar a Jassine para a sua terra, mas os chefes tugas em vez de pensarem que algo está errado, disseram: “pá, isso é normal, é a democracia. Nem sequer é anticonstu… anticonstipacional… anticonstitucional”. Isso, anticonstitucional. O Tontura disse ao presidente Marmelo que os pretos são bandidos e que não são fotogénicos e o Marmelo sorriu paternalista… grande Marmelo, ele abraça a todos, sem distinção, mesmo os que são anti-abraços. Sabem, o Tontura tem três pretos de estimação: primeiro, a Jassine, segundo, o Mamade (na verdade, o nome dele não é Mamade, mas como muitas pessoas, tanto homens como mulheres, têm andado a escrever por aí #eusoumamado, logo eu tentei aqui manter o género neutro), e, terceiro, o Lombito, tsc, tsc (estou a piscar o olho esquerdo… dá-lhe no lombo, dá-lhe).

Outros partidos viram o sucesso de Tontura e bateram palmas, descobriram que a melhor forma de ganhar votos é criar uma relação de amor-ódio com os pretos, ou então perderiam para o Tontura. Então, tanto o Ru-Paul Rio, o travesti da direita, do PSD (Pípol Sem Direção), como o Menino Chiquinho, do CDS-PP (Cristãos Dealers de Submarinos – Paulo Portas) começaram a procurar os seus pretos de estimação, tipo o Lombito, porque a Jassine e o Mamade são sacos de pancada públicos, ninguém pode reclamar propriedade sobre eles.

Eis senão quando morre um preto chamado Marcelino Mata, e então foi corrida ao ouro: que preto é melhor que um preto morto? Pensaram os ditos-cujos. Que melhor forma de mostrar que Portugal não é racista e que o colonialismo tuga foi português suave e que há tugas pretos de bem (na verdade, apenas um tuga preto, os outros voltem para a sua terra)?

De repente, todos os tugas patriotas odiantes de pretos começaram a carregar o Marcelino Mata nos ombros, o herói nacional, só depois de ele ter morrido, é claro, o grande preto Português. Agora que Marcelino Mata voltou para a sua terra, aquela terra que não rejeita a ninguém, e que todos temos em comum, ele é o máximo. Agora só falta dizerem que vão fazer uma estátua dele no Estádio de Alvalade, porque o Estádio da Luz já tem Eusébio. Afinal, Portugal não é racista e gosta de pretos, desde que eles conheçam o seu lugar, mantenham a matraca fechada iem!, e só cumpram ordens, “sim senhor branco!, sim senhor branco!”, mesmo que essas ordens sejam odiar e matar outros pretos. Como escreveu uma vez um conterrâneo meu, Martinho que Pina:

“Deus!, havia soldados pretos, na mata, a nata que mata, nascidos na Guiné, lá dentro, bem no centro, que bateram o pé e se tornaram comandos africanos e lixaram os seus próprios manos.”

A coisa é que ninguém quer saber do Marcelino que Mata, ele era apenas bom para ser usado como um símbolo anti-racista português, mas infelizmente ele dera muitos tiros e nem foi pela culatra. Portugal não é racista, e nem é racista os representantes do país tomar com herói alguém que é considerado um sanguinolento criminoso de guerra (com todas as verdades e mitos à volta disso) no país onde nasceu e ao qual não podia voltar.

Repito, nem o Marmelo, nem os generais, nem o Tontura, nem o Ru-Paul Rio, nem o Chiquinho querem saber do Marcelino, ele é uma pedra no sapato na tugalidade de hoje e na ideia da grande e justa nação tuga, mas tem de ser defendido a todo o custo, porque, vamulá só ver:

Marcelino Mata foi um chefe de António Spínola, que lhe dava as missões e continuava a dar missões apesar de saber da sua alegada crueldade e sanguinolência. Mas Marcelino era uma boa ferramenta, e Spínola foi também quem lhe recomendava e lhe dava as missões, as nomeações e as distinções. Mas Spínola é um herói português, um dos capitães de Abril, um dos mentores da liberdade tuga. Sendo assim, negar a heroicidade e as distinções do Marcelino não seria colocar em questão a heroicidade e as distinções do Spínola, um dos seus titereiros? Spínola seria tão ou mais criminoso que Marcelino.

É preciso então, senão lavar a imagem do colonialismo português suave, pelo menos não a deixar sujar-se, porque para quê fazer uma mea culpa, se a culpa foi desses pretos turras que não queriam deixar-se montar por pessoas claramente superiores a elas. Até o Marcelino Mata percebeu isso, por isso ajudou. Mas também não entendo muito bem a polémica, as forças armadas de qualquer país servem para matar, para matar e destruir, em nome da nação, e quem mais mata leva mais medalhas, foi e é sempre assim, se queremos mesmo indignarmo-nos com os medalhamentos de soldados matadores, não será que devíamos condenar primeiro a existência de braços armados dos donos do poder?

Acho que foi para não colocar em questão a ideia da nação, a ideia do simbolismo spinólico e outras tretas nacionalistas, que o Marmelo e toda aquela gente foram ao funeral do Marcelino prestar honras ao homem que lavou o racismo de Portugal. Mas quem sabe!

Todavia o que não entendo mesmo são os outros odiantes de pretos que querem expulsar um tuga preto de Portugal, para manter o bom nome de um tuga preto que nem sequer conhecem e a quem provavelmente diriam, se tivessem que disputar com ele um lugar na fila da loja de cidadão: “volta para a tua terra”.

24 de janeiro de 2021

VIAGENS


Nasci sem forma
e não vou morrer quadrado.
Saio, viajo,
expando o meu quadro,
falo com mortos
no conforto do meu quarto,
conheço tantos mundos,
porque, meu, eu leio muito.


Falo com mortos
no conforto do meu espaço
através de livros
livres do tempo e do espaço;
falo com mortos
no conforto do meu quarto,
na verdade, eu não falo,
só escuto e sinto-me sábio.


Bolso vazio,
viajei na biblioteca,
quando tive um pouco mais:
Viagens na minha terra!,
e mais à frente,
tive o suficiente
e quebrei a corrente,
Navegar é preciso!


Mudei de continente,
saltei fronteiras
e expandi a minha esfera
mental,
então, assim e tal,
levantei o meu astral,
e tornei-me neste madjé
policultural.


Por universos inteiros
fechados num acorde
que me acorda com um toque
e a minha alma não dorme,
viajei pelos tons, pelos sons,
viajei na música,
conheci várias,
conheci músicas únicas:


Kussundé, gumbé, kunderé.
funana, morna, forró,
fado, samba, semba,
kizomba, jazz, hip-hop,
salsa, valsa, mazurca,
kuduru, bossa nova e rock,
conheci blues, pimba,
djambadon, conheci amor.


Viajei na pintura,
viajei na literatura,
viajei no cinema
e na imaginação pura,
viajei também na língua,
errando numa boa,
viajei por filosofias,
viagem que não se esgota.


Sozinho ou com outros,
viajo como louco,
por Sonaco ou por Lisboa,
viajar é o meu foco.
E sempre que eu conheço
novas pessoas,
eu sinto aqui dentro
que viajo mais um pouco


17 de janeiro de 2021

UMA QUESTÃO DE... EMPATIA

Sentados em Bissau, a tomar umas cervejas enquanto esperávamos pelo jantar num restaurante nada barato para o padrão de vida guineense, um amigo português (ainda não era amigo na altura) começou a falar da precariedade. E eu, no alto da minha indignação, achei que ele não devia falar de precariedade, sendo que era um privilegiado e que iria gastar nesse jantar o que muitas famílias na Guiné gastariam numa semana.

Mais tarde, só muito mais tarde, notei que, na verdade, eu nem sequer estava disposto a ouvi-lo ou a entendê-lo, só estava concentrado nas suas palavras e na minha arrogância. Eu andava frustrado com a precariedade que tinha visto na Guiné, na qual vivia parte da minha própria família, e estava tão imerso nisso que me esqueci da precariedade que existe em Portugal e na qual vive outra parte da minha família, e com a qual ele se identifica.
Para piorar, a precariedade da qual o amigo falava também me abarcava, porque temos o mesmo patrão e desenvolvemos o mesmo tipo de trabalho e depois de findar o nosso "contrato", vamos para a mesma merda.

Eu devia era ser solidário, mas todos os meus canais de empatia estavam nesse momento bloqueados e eu só conseguia agir dentro da racionalidade fria de medir o tamanho dos pen... dos pensamentos?... dos privilégios. Não quis saber sequer que a vida dele não se resumia apenas à Guiné-Bissau e, portanto, eu não devia usar apenas o parâmetro guineense para o criticar a ele e à sua precariedade (que na verdade é nossa).
Enquanto houver meios sociais diferentes, vai haver sempre perspetivas diferentes, os privilégios e as precariedades serão sempre diferentes. Mesmo que eu só conhecesse a realidade guineense e não a portuguesa, nunca conseguiria falar com esse meu amigo se quisesse focar-me (como fiz) apenas nas nossas respetivas realidades. Só muito mais tarde, cá em Portugal, quando dei conta disso, lhe pedi desculpas.
Os privilégios serão sempre diferentes, as precariedades serão sempre diferentes, mas os sentimentos que os mesmos provocam penso que serão similares; por isso, ao invés de medirmos materialmente as coisas, podemos tentar outro entendimento.

Fala-me do que sentes, não do que tens, e eu falo-te do que sinto. É certo que o que se sente é também motivado pelo que se tem, mas se conseguirmos perceber o sentimento do outro, talvez consigamos perceber também como esse sentimento é motivado por aquilo que ele não tem (ou tem) e dessa forma consigamos entendê-lo melhor. A verdade é que mesmo que tentemos ver as coisas pela perspetiva de outrem, os olhos serão sempre nossos, os filtros serão sempre nossos. Mas podemos sempre tentar mais empatia.
Nas lutas anti-racistas, anti-fascistas, anti-homofóbicas, anti-transfóbicas, feministas, entre outras, temos a tendência de dizer... tu és branco, não sabes o que é racismo, portanto, cala-te... tu és gajo, não sabes o que é ser mulher, portanto, cala-te... Sim, é "tu és tu, não és eu", o que não deixa de ser verdade, mas creio que todos nós, todo o ser humano, independentemente da sua posição de privilégio ou de precariedade, terá sofrido discriminação e injustiça alguma vez na vida. Se em vez de hierarquizarmos o grau da injustiça, tentarmos falar sobre o sentimento que essa injustiça provoca, talvez consigamos falar melhor uns com os outros. Talvez eu consiga falar da injustiça contra a mulher da minha perspetiva de pessoa racializada, talvez a mulher consiga falar da injustiça contra os trans da sua perpetiva feminina... pois conseguir falar leva a conseguir entender, creio eu.
Penso que podemos treinar mais conversar pelos sentimentos, em vez de nos focarmos apenas nas racionalidades espistemetodomerdológicas que não falam muito às emoções; penso que devemos tentar alargar mais um bocado os chamados lugares de fala.

3 de janeiro de 2021

CAROS PAIS (mãe e pai)

Caros pais,


Estou a escrever, não é por nada de mais, mas porque há algumas coisas que preciso dizer, para limpar a alma, superar o trauma e viver na maior calma. Como disse, tenho umas verdades para vos contar, podem não gostar, mas eu tenho de falar para me aliviar deste mal-estar que me está a maltratar.

Olhem, pá, como pais e educadores, vocês não tiveram lá muita atenção às minhas dores, não foram bons gestores, não perceberam que os vossos atos também tiveram muito impacto na formação do meu ser. Por acaso tentaram ver se o que faziam teria sequelas sérias no meu estado psicológico?

É lógico que eu vos culpar não foge do estereótipo, e é óbvio notar que o filho em qualquer sítio como um Édipo ou uma Electra brigará com os seus pais. Mas, no meu caso, não é por acaso, meus pais, eu tenho mesmo um vaso largo de muitos ais.
.

Mamã, lembras-te daquela vez que me bateste e me chamaste de burro à frente de toda a gente? Foi um ato indigente e, consequentemente, eu senti-me mesmo doente.
Chamaste-me de burro, a mim... a mim, que sempre fui inteligente, e isso só porque eu tinha na mão um ferro quente e para poupar tempo queria passar a minha camisa sem tirá-la do meu corpo.
Não viste que eu só estava a ser engenhoso?
.

E tu, papá, tu, tu lixaste-me a adolescência, a minha vida foi uma miséria: todos os meus amigos a irem para o campo de férias e tu a dizer que não ias pagar por essas tretas, que eu não merecia coisas dessas, porque eu era um irresponsável e que estava de castigo.

Castigo, hein? Castigo porque eu podia ter morrido ao ter batido com o teu carro contra o muro da casa? Epá, baza.

Eu podia ter morrido, sim, mas não morri. Sim, podia ter-me magoado, mas apenas o muro foi derrubado. Sim, roubei o teu carro, mas porra, eu só tinha 17 anos, e foi só uma vez e não é como se eu pudesse repetir o feito outra vez, porque a merda do carro ficou todo arrebentado.

Devias mesmo era me teres dado um prémio por ter conseguido sair daquela merda ileso.
.

Bah… vocês não entendem nada como foram injustos para mim, como me transformaram nisto aqui… A culpa é toda vossa.

Não sei qual culpa, nem quero saber, mas é vossa... Tchau.

31 de dezembro de 2020

AS PALAVRAS

este texto já tem quase uns 20 anos, da altura em que achava que chegaria a ganhar o prémio nobel do rap. o texto não é tão fluído, porque me faltava prática - embora eu já me achasse um perito -, fazendo com que muitas rimas fossem mesmo apenas pela rima e não fizessem muito sentido dentro do contexto.



AS PALAVRAS

As palavras têm vidas, algumas são sentidas,
Outras abrem feridas, outras são perdidas.
Há palavras esquecidas, obstruídas e sem saídas,
Contidas e oprimidas, comprimidas e deprimidas.

Há palavas que são brigas, outras querelas antigas,
Algumas enchem barrigas, com outras só te perigas.
Palavras que são cantigas, são intrigas ou dão fadigas,
Palavras com que mendigas, palavras em que te abrigas.

Há palavras vividas, repetidas, escritas e imprimidas,
Que são precisas para que alegria exista nas nossas vidas,
Palavras que metem te numa fria, por teres a cabeça quente,
E há palavras que esfriam até mesmo os mais combatentes.

Há palavras que mentem à mente e faz a mente demente,
Que me deixam doente só de se chegarem à frente,
Há palavras eloquentes, quentes e imponentes,
Mas a falar com outras gentes são tão impotentes.


Caso as palavras e componho o raciocínio,
Mas caso nas palavras que ponho perca o domínio,
Começo a cosê-las como fazes em malhas,
O começo é cozê-las em fases sem falhas.



Palavras belas, mas que exprimem nada,
Palavras feias, cheias de ideias elaboradas,
Palavras, uma a uma, somadas dão um romance,
Palavras, há algumas apanhadas só de um lance.

As palavras que falo são duras e têm calos,
Mas com aquelas que eu calo o meu âmago escalo,
Com regalo consigo atravessá-lo num estalo,
E me abalo no halo das palavras que não calo.

Já vi ideias, ideais, feias e letais,
Cheias e anormais, sérias e banais,
Velhas e mortais, plenas de ais,
Obscenas e canibais, sem cenas de paz,

Medonhas e sepulcrais, não as ponhas no meu cais.
Olha onde vais, encolha que não sais,
Trolha, estás a mais, olha que eu sou ás,
Tu és bolha eu sou gás, põe rolha e dou-te paz.


Caso as palavras e componho o raciocínio,
Mas caso nas palavras que ponho perca o domínio,
Começo a cosê-las como fazes em malhas,
O começo é cozê-las em fases sem falhas.



A palavra que sai da minha boca,
toca, parece louca, evoca lembranças gordas,
invoca tamanhas forças e derroca, sem sacrifícios,
os edifícios de suplícios morais com artifícios amorais.

Emaranho as palavras, ficam viscosas como ranho,
Apanho as palavras faço-as vistosas dou nelas banho,
Uso verbos e advérbios, temática da gramática,
lógica matemática?... não sei… tenho prática.

Só sei que com as palavras sinto-me um rei,
De usar e abusar delas sempre eu hei,
Pra domá-las e forjá-las faço eu mesmo a lei,
A ideia é ser um poeta que palavreia bué cá!

Uso tantas palavras que parecem não ter sentido,
São estas as lavras em que sei ser perito,
Uso o raciocínio e palavreio com fascínio,
No meu raciocínio não há freio nem domínio.

1 de dezembro de 2020

DIÁRIO DE UM ETNÓLOGO GUINEENSE NA EUROPA (dia 5)

1 de dezembro – dia dos restaurantes tugas


O tio Paulo Bano contou-me uma vez que os tugas de Portugal tinham sido colonizados pelos tugas da Espanha, e quando finalmente se libertaram dos tugas espanhóis, criaram o Dia da Restauração, onde iam todos eles a restaurantes para festejar. Não sei muito bem o que se passou, mas provavelmente devem ter ficado fartos dos tacos, dos gaspachos e das tortillas. Porque não vejo nada que justifique um dia só para restaurantes.

Mas o tuga adora comida. Uma boa comidinha que se reflete naquela barriguinha de cervejinha bem redondinha do tuga que é típico daquelas ilustrações dos postais para turistas que se vendem no Rossio e no Bairro Alto. Rossio fica em Lisboa, mas acho que todos os guineenses sabem disso, pois é onde tiramos postais para confirmar que viemos a Lisboa. Guineense que diga que veio a Lisboa, mas não tem um postal no Rossio, é mentiroso. Bem, desculpem-me a distração, vou voltar aos tugas.

Sabem, só agora descobri que há uma grande mentira na história dos tugas. Afinal, enquanto estavam lá nas Áfricas a dizer que esta ou aquela era a sua colónia (o que não era na verdade)… afinal, eles mesmo estavam colonizados… afinal, eles eram espanhóis… afinal, se as colónias eram para ser de alguém na altura seriam dos tugas espanhóis… afinal…

Este ano, na Tugalândia, ou Portugal, como eles gostam de a chamar, o dia da restauração não está a correr nada bem, por duas razões:

Primeira, os empresários tugas do dia da restauração resolveram fazer greve de fome, acho que ficaram com saudades dos tacos e das tortillas. Isso é muito preocupante, se os donos da comida fazem greve de fome, imagina quando chegar a vez dos mendigos. Se a moda pega, o sindicato dos políticos… os políticos têm sindicatos? Bem, pela forma como são tratados e insultados pelo povo, se ainda não têm, acho que deviam… Como estava a dizer, se a moda pega os políticos ainda vão começar a fazer greve contra a corrupção, e os banqueiros contra as altas taxas dos bancos, e, como disse a tia Luzia Roubado, os patrões contra a precariedade. Será que estou a confundir as lutas? Sei lá, mas que é confuso, é. Só quem tem a barriguinha cheinha se atreve a fazer greve de fome, porque sabe que depois da greve tem a comidinha à espera.

A segunda razão, relacionada à primeira, é que os chefes dos tugas, o Marmelo e o Crosta (acho que é assim, mas vou confirmar depois), decidiram não deixar os tugas saírem da casa hoje, porque é perigoso lá fora: há um bicho pequenino, chamado Covid, a apanhar os tugas lá fora (não apanha turistas, nem imigrantes, estes podem ir trabalhar à vontade, e nem apanha os tugas coitados que têm trabalho de merda), por isso, quando o sol está no zénite é hora de começar a voltar para a casa, porque é quando o bicho acorda para apanhar os tugas preguiçosos, e estes precisam de ficar em casa, para encomendar e receber tudinho no quentinho do seu sofazinho, enquanto vomitam críticas contra as pessoas que têm de ou que querem estar na rua.

Então, por conta disto, não se pode fazer o dia da restauração como deve ser, os tugas devem ir para as suas casas e fingir que é um restaurante, se não souberem cozinhar, problema deles. E é isso que enfurece os empresários tugas do dia da restauração: como é que querem matar séculos de tradição tuga? Mas os chefes tugas dizem que os tugas têm que ser menos egoístas e mais solidários com os outros tugas, porque não há camas e aparelhos suficientes nos hospitais para descovidar toda a gente. Então os tugas, obedientes, vão para a casa. Antes ficavam contentes com isso e até batiam palmas e tocavam panelas na varanda, mas já estão fartos disso.

Os chefes tugas gostam de apelar à solidariedade, porque não há camas suficientes nos hospitais. Há muitas camas em muitas casas vazias, mas muita gente sem teto a viver na rua e muita gente a rezar para que os chefes dos tugas não façam um sinal para ser despejada; há muitas casas vazias e muitos tugas a viverem na rua, mas descobri que para os chefes tugas parece que a solidariedade tem a ver apenas com as camas dos hospitais e apenas para doentes da Covid.

Os chefes tugas continuam a querer jogar dinheiro aos seus amigos tugas dos bancos, das TAPs, da saúde privada e fechar as pessoas em casa, ao invés de investir na saúde pública e comprar mais camas para não favorecer o bichinho, e, enquanto isso, os tugas coitados estão a ir para o desespero. E isto dá medo, pois, há muiiiiiiiitos anos quando os tugas entraram em desespero, encheram-se em barcos e foram para África brincar a empresários… e não correu nada bem, para os africanos, é claro. Mas agora, por conta de desespero os africanos também vêm cá à Tugalândia tentar brincar a empresários, mas são mandados logo para as obras.

Os amigos tugas dos chefes dos tugas estão a despedir muitos tugas coitados e quando isso acontece, sempre mandam os tugas coitados emigrar. Por exemplo, há não muitos anos, um chefe tuga chamado Caço Coelhos também fez o mesmo, deu muito dinheiro aos seus amigos tugas donos dos bancos e despediram os tugas coitados e mandaram-nos emigrar. “Vá!, todos para o Norte, emigrem para a Europa, saiam da Tugalândia.” Nada mais fazia sentido para mim, eu a vir para a Tugalândia e o tuga, todo complacente e piegas, a fugir da Tugalândia.

Mas eu tenho um objetivo na vida, eu vim a Portugal para ajudar os tugas, para lhes ensinar a ser de cara menos fechada e mais sorridentes, para pararem de arrastar o corpo pelas estações do metro de manhã, como cadáveres vivos. Vou criar uma ONG aqui para ajudar os tugas a serem mais firmes e a saberem o que são os direitos humanos e a conhecerem a democracia, para não terem de aceitar complacentemente tudo dos seus chefes ditadores tugas, enquanto ficam em casa a serem piegas e a escreverem na Internet.

A minha ONG vai ser sem fins lucrativos, mas eu e os meus colaboradores que vou mandar vir de África, temos de ter um salário chorudo, afinal a Guiné-Bissau não é assim tão perto e eu sou um expatriado, não imigrante, imigrante é coisa de pobres, como os tugas coitados. E os tugas com quem vou trabalhar aqui podem fazer voluntariado, dou sandes e sumo todos os dias e tá-se. Vou chamar o tio Paulo Bano para coordenar, porque ele é um especialista em Estudos Tugas. Vamos fazer workshops sobre “como ser um bom cidadão tuga”, e ensinar aos tugas a culinária guineense, pois acredito que é a única forma de honrar o dia da restauração tuga, senão os restaurantes aqui vão continuar todos fodidos. Os meus alvos mais imediatos são a PSP e o Parlamento, a TVI fica para a segunda fase.

A sério, é preciso e é urgente restaurar o tuga e criar “homem novo tuga”, porque estes tugas estão cada vez mais a namorar com os bafientos netos do Salazar, porque não sabem realmente o que a democracia é. É bom que saiam do armário, sim, é bom, por isso é que a minha ONG tem o trabalho missionário de recebê-los e civilizá-los, para largarem esses hábitos selvagens e essa falsa religião e o seu Papa Ventura, que os leva a adorar o Santo Salazar e o Santo Hitler. Desta vez não vou falar que PORTUGAL É RACISTA, para evitar polémicas vazias.

Eu só estou aqui para educar os tugas sobre a sua própria história e civilizá-los, porque há uns anos vi o pedido de ajuda do chefe tuga Sovaco?… Babaco?… Palhaço?… bahhhh, não interessa, está na foto. Acho que ele estava com saudades dos tacos e das tortillas.