27 de agosto de 2011

POBRE TERRA, CRUÉIS HUMANOS

A pobre Terra está emprenhada
De cruéis humanos que não prestam,
Que apenas a põem estagnada
Em tramóia e males que a infestam.

A pobre Terra está padecendo
Cruelmente por nós destruída,
Pela guerra feroz que está vivendo
Na nossa vontade carcomida,
Que criando na vida planaltos,
Procura obrar nossos sonhos altos.

Da cruel guerra pelo sucesso,
Temos a guerra pelo descanso,
Uma guerra intensa no balanço
Duma vida compacta de excesso.

Temos guerra sem senso, nem nexo,
Que é a destruidora universal,
Feita com o consenso complexo
De todo o indivíduo racional,
E embora temamos seu amplexo
Damos-lhe o discurso principal.

A pobre Terra está derruindo
Empurrada plos que nela vivem,
Que ferozmente vão destruindo
Os dos melhores que nela existem:

Os patrimónios humanitários
Dos belos sonhos hereditários
De construir um novo p’raíso
Onde não haja mais sofrimentos,
Pra destruir o podre juízo
Que neste mundo cria tormentos.

A CAIXA DA PANDORA (soneto)

E Poderá este mundo ser mais belo?
Onde está o sol do nosso humanismo?
O homem olhado pelo realismo
Com a humanidade não tem elo.

Quentes relações criadas no gelo,
Alastrando-se em sombras de racismo,
Ocultas no manto de servilismo,
Quebram da caixa da Pandora o selo...

Desta moderna caixa da Pandora,
Que alberga mais males que a anterior
E que outros tantos transporta por fora,

Que raios de egoísmo ao mundo lança;
E desta vez o que é muito pior
É dentro já não trazer a esperança.

23 de agosto de 2011

SARA TAVARES - quando a voz mesmeriza


Querido Deus que estás no Céu, ou seja lá onde for que estejas, obrigado pela existência de Sara Tavares, isto é, se fores tu que fazes as pessoas e lhes atribuis capacidades. Querido Deus, por deus!, eu adoro a Sara Tavares.

Há uma semana que estou a ouvir a Sara Tavares e há uma semana que não consigo deixar de ouvi-la, o que contrasta fortemente com o facto de há uns cinco anos ao ouvi-la ter-me enfastiado depois de algumas músicas, aliás, das que tinha ouvido só me lembro de ter gostado de três, que, por acaso eram as mais publicitadas: Balancé, Mi Ma Bô e Nha Cretcheu, e talvez de mais uma ou outra. Agora eu sei que não estava preparado para Sara Tavares.

A primeira vez que ouvi falar de Sara Tavares foi praí em 1996, numa música de Black Company (que vai ganhar aqui o seu post), Snookar, fizeram uma referência a ela, e eu quis saber quem era, mas não conhecia a Internet nessa altura, e só dois anos mais tarde eu fuçaria nela pela primeira vez. O tempo passou e a Sara com ele, para em 2006 voltar de novo, quando vi na televisão o vídeo Balancê.


balancê (balancê)

Segundo a wikipedia foram cinco os álbuns de Sara Tavares, porém eu só ouvi quatro: Sara Tavares e Shout! (1996), Mi Ma Bô (1999), Balancê (2005) e Xinti (2009), e são deles que vou aqui falar.

SARA TAVARES E SHOUT!, como o nome indica é um trabalho de equipa feito pelos dois que deram o nome ao álbum. É um óptimo álbum de estreia, no entanto, não é muito empolgante, não sei por quê, talvez por causa da sua versatilidade, ou seja um grande leque de procura, que mostra todo o talento vocal de Sara Tavares, mas ao mesmo tempo é bastante disperso, passando a imagem de insegurança e de que ela ainda não tinha a certeza da sua veia, ou então que estava a tentar agradar aos troianos, mas não sabia quais. Ela anda aqui pelo soul, gospell, muito gospell, jazz, funk, fazendo covers que orgulham supermaneira os originais. É um álbum muito americano. Entretanto, vénia à retaguarda para os covers, destaco o tema de abertura, Escolhas, e os dois últimos, Barquinho de Esperança e Feira de Ladra, estes dois que apresentam uma pitada de música portuguesa, fado ou algo parecido, algum toque a morna cabo-verdiana, e, na falta de um termo, um ar de modernidade, e onde destaco o instrumento de percursão.

MI MA BÔ é um trabalho espectacular, aqueles tiques que no álbum anterior Sara Tavares já tinha mostrado no álbum anterior aqui confirmam-se. Com uma maior segurança ela navega pelas sonoridades diversas, não parecendo procurar às cegas ou tentar apenas mostrar a sua incrível voz, mas parecia fazer o que gosta e quer mesmo com uma maior confiança, parece menos um álbum da editora do que o anterior. Aqui ela experimenta mais, usa uma base cabo-verdiana, com as mornas, coladeras, à qual funde outros ritmos, fado, soul, slow, e outros ritmos africanos. Apesar da tanta diversidade como no álbum anterior, este aqui é mais consistente, porque apresenta uma maior estabilidade e ligação entre os diferentes ritmos das faixas. Aqui só encontro uma música que digo não gostar e é logo aquela que abre o álbum, I’ve Got a Song in My Heart, por me parecer um tanto vulgar para o talento de Sara Tavares e não porque não seja boa. Entretanto destaco Mi Ma Bô, Nha Cretcheu, Eu Sei e, estrela das estrelas, Voá Borboleta (esta chamou-me lágrimas aos olhos, não me perguntem por quê). Mi Ma Bo é definitivamente um álbum flawless.


mi ma bô (mi ma bô)

BALANCÊ, considerando os trabalhos anteriores de Sara Tavares (a diferença rítmica entre o primeiro e o segundo), diz que ela se encontrou, ou, pelo menos, encontrou o seu estilo. Onde Mi Ma Bo parecia ser experimentação, Balancê faz parecer ser definitivação. A base africana, propriamente cabo-verdiana, existente aqui permite uma leitura única e contínua do álbum, considerando que aparece em todas as faixas; é certo que há variações estilísticas, no entanto, é mais coeso. O álbum abre estupendamente com a música homónima Balancé, faz um percurso dividido entre a calma e a agitação, destacando-se One Love, Amor É, Planeta Sukri, fechando com maestria com De Nua, um fusão de fado e batuque. Balancê é um álbum sólido, mas inferior a Mi Ma Bô.

one love (balancê)

XINTI, ou sentir em português (sei lá por que estou a traduzir os títulos) e calmo e embalante, tem uma alma diferente dos outros álbuns apesar da mesma impressão digital. Xinti é uma versão mais calma de Balancê, aliás, um contraste; se Balancê convida a balançar, Xinti convida a escutar. As bases são as mesmas e as músicas podiam misturar-se à vontade que não se perceberia a diferença. Por causa dos instrumentos que Sara Tavares usa e dos acordes similares, algumas músicas de Xinti cheiram a Balancê, o que inevitavelmente leva à comparação dos dois álbuns, no entanto a tónica diferente dois é que faz a cisão. Em Xinti destaco Sumanai, Ponto de Luz, Di Alma e Queda Livre, e uma menção honrosa para Caminhante (embora este não seja propriamente uma música, mas poesia). Xinti é para mim o segundo melhor álbum de Sara Tavares.

ponto de luz (xinti)

Sara Tavares tem uma bela poesia, uma voz de diamante (superior a ouro, é claro) e uma musicalidade própria, não que ela inventou esse género de fusão musical entre a africana e a ocidental, ou mais especificamente entre os ritmos tradicionais e o soul ou outro (da Guiné-Bissau, Zé Manel - vou falar dele aqui - faz o mesmo), mas ela criou o seu próprio estilo. Sara Tavares é uma música e uma poetisa que gostaria muito de saber voar e está sempre com os olhos nos caminhos e atenta aos seus passos, quer dizer, pela quantidade das vezes que repete isso nas suas músicas é o que deixa a entender.

Sara Tavares é uma artista que merece e deve ser conhecido, na minha plêiade de músicos ela já entrou e com pompa e circunstância.


bónus
voá borboleta (mi ma bô)


21 de agosto de 2011

DONA DO MEU AMOR


– O que o traz por aqui
A esta hora, meu senhor?
«Das pombas por aí
Vim ver o resplendor.»

– Por aqui nunca passam
Tais pombas, meu senhor,
Pois os homens as caçam
Co’ esp’rito matador.
Pombas cá nunca vi,
diga, o que o traz aqui?

«Sobre a terra o seu fulgor
vim pras ’strelas que vazam.»
– Inda as ’strelas se atrasam,
Brilha o sol com calor.

Nunca algo igual eu vi,
Diga, o que o traz aqui?
«Pla flor aqui eu vim
Que enrica este jardim,
E pla ave que há em mim
Pondo o alegre em ruim.»

– Rosas não vi, senhor,
nem ave tão cantor,
nem jardim tão s’dutor,
Diga o certo, senhor.

«Pois, só vê cá balelas,
Mas não menti, senhora;
As pombas e as estrelas,
Vejo-as mesmo agora,
A ave, o jardim e a flor
Você é, dona do me’ amor.» 


20 de agosto de 2011

ILUDIDOS (soneto)

'Stão a arrancar-se das árvores os galhos,
Já lá estavam quase a ficar velhos,
Como que trocando entre si conselhos,
Saíram da inércia dos espantalhos,

Quiseram fazer a si próprios alhos,
Juraram procurar novos bodelhos,
Para de si poderem ser espelhos,
E ter sabedoria sem trabalhos.

Mas, por todos seus percorridos trilhos,
Só viram dificultosos escolhos
Que não puderam transpor sem sarilhos.

Tardiamente abriram-se-lhes os olhos,
Pra ver que os filhos entram em entulhos,
Quando enganam 
a mãe criando empulhos.

14 de agosto de 2011

GUERRA (sextos)

 Combate de Marte e Minerva
 por Jacques-Louis David 
Guerra, fera de manha cruel,
Alimentando-se de balbúrdia
Vives contente num mar de fel,
Ofertando ao homem a discórdia.

Guerra, histeria secular,
Os sonhos humanos tu desfazes,
Cruel os apeias do seu lar,
Deixando-lhes assim incapazes
De parar a tua maldita onda
Que os seus idílios sem pena monda.

Guerra, ó trovador sepulcral,
Morrem inocentes escacadas
Pla raiva das balas alheadas,
Caindo para um fundo abismal.

Guerra, da vida o cruel contraste,
O mundo tu tens carbonizado,
Cravaste-nos na alma do ódio a haste
E o sonho deixas martirizado;
Té o belo amor tu envenenaste,
O viver deixando atemorizado.

Guerra, abominável canibal,
Que rega o chão com sangue e pavor,
Fazes o homem virar animal,
Negando assim as graças do amor.

Guerra, ó selvagem assassina,
Que com o dissídio nos domina,
Destróis sonhos feitos com calor,
Cada vez que a vida faz progresso,
Embebendo-a em lágrimas de dor,
Tu obriga-la a vir de regresso.
 

13 de agosto de 2011

A VIOLÊNCIA, A SOLUÇÃO (soneto)

Ensinaram-me de leite na boca, 
Que a violência só resolve nada, 
Pois ela é igual à afiada espada 
Que desune os vínculos que toca. 


Mas vejo que a paz que o mundo invoca, 
Sequer um degrau dessa longa escada, 
Ou desta vida um degrau da estrada, 
Ela, no seu caminhar, se desloca. 


Diziam que por ela, a violência, 
A paz edificada se dissolve 
Apenas em ruínas de decadência; 


Mas o problema melhor se resolve, 
Diz-se hoje, quando a violência fala 
E a clara evidência, apenas, cala.