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6 de março de 2015

HISTÓRIA DE DEUS, UMA, Karen Armstrong (1993)

Há coisa de treze anos eu li pela primeira vez Uma História de Deus, de Karen Armstrong, um estudo teológico que me foi bastante útil e esclarecedor. Nessa altura, eu tinha começado a minha conversão para o ateísmo, era mais ou menos um agnóstico, pois acreditava no deus cristão, e o livro, embora a sua autora não negue a existência de deus, ensinou-me como Deus, Javé, o deus judaico-cristão que depois derivou em Alá, foi inventado pelos homens. Um outro livro da mesma autora, Jerusalém – Uma Cidade, Três Religiões (sobre o qual talvez escreva aqui um dia), porteriormenete, fez-me perceber a situação sociopolítica que esteve na origem da religião judaico-cristo-islâmico.

Uma História de Deus é um livro que toda a gente devia ler, principalmente porque a religião e os mitos que lhe estão à montante fazem parte da vida de qualquer pessoa que viva nesta sociedade, quer queira quer não. Vemos constantemente pessoas a justificarem as suas ações, boas ou más, com motivos religiosos e estamos mesmo à beira de uma guerra religiosa. Karen Armstrong não escreve numa perspectiva de conspiração, aliás ela nem sequer é ateia, mas monoteísta que busca deus em todas as doutrinas religiosas (para mim isso é ainda pior do que pertencer a um único credo).

O livro é volumoso, mas fácil de ler, fala de Deus em diferentes perspetivas, judaíca, cristã, islâmica, mística, filosófica, ateia e outra mais. A bibliografia revela um pesquisa extensa e cuidada e a apresentação dos temas é clara e convida sempre a seguir com a leitura. Os temas também estão escritos de maneira a que, com um conhecimento básico da teologia e da filosofia, seja possível começar de qualquer capítulo sem se sentir perdido.

Basicamente Uma História de Deus, mostra-nos como o deus dos judeus, que foi depois chamado Javé, ou El, nasceu do deus dos cananeus El Shadai, ifluenciado pelos deuses babilónicos, aliás, o próprio Javé falou com Abrão na montanha e apresentou-se como El Shadai. Os judeus que criaram a religião monoteísta que deus originou os monoteísmo mais conhecidos agora, inspiraram-se no zoroastrismo, com o seu conceito de dualidade entre o bem e o mal, no entanto, no início, eram tão politeístas como todos os outros povos que o rodeavam.

O monoteísmo judaíco começou a ganhar forma e a ser um símbolo de unidade, na altura em que o povo hebreu estava de cativeiro na Babilónia, que foi a altura em que a Bíblia começou a ser compilada. Os estudiosos mostram que há cinco fontes diferentes para a Bíblia, o que demonstra que Deus se chamava El e Javé, consoante os seus escritores. O que os judeus fizeram foi eleger um Deus dos do panteão assírio, e promoveram-no a Deus Supremo, mas eles ainda eram politeístas acreditavam na existência de vários deuses, de tal maneira que nos 10 Mandamentos, explicitamente El disse: Não tenhas outros deuses diante de mim, pois eu sou o único. E só muitos anos mais tarde, divididos por guerras intestinas (reino de Israel, reino de Jusá) é que Josias, o rei na altura, descobriu convenientemente o livro de lei, no templo que foi reconstruir, que por acaso era o Pentateuco, a base da Bíblia (o Torah), que começou a servir de legislação para o povo hebreu. Depois de libertos de Babilónia, lá solidificaram as suas crenças, absorvendo e transformando muito da mitóliga babilónica (sumérica). 

Nota de outras fontes: A Bíblia fala que deus criou o mundo em sete dias, o que coincide com a cosmogonia suméria. Entretanto, como os sumérios adoravam o Sol, foi o Sol que criou tudo; os israelitas para mostrarem aos sumérios que o deus deles (El, Javé) era ainda mais importante que o Sol, fizeram com que o Sol só fosse criado no quarto dia na sua cosmogonia e a Luz foi criada no primeiro, porém esqueceram-se (ou não sabiam) que a luz vem do Sol, portanto, não pode ter sido criado antes deste. Também, os israelitas  disseram que Deus criou o mundo em sete dias (como se fosse Deus a estabelecer a semana), mas a semana de sete dias também foi outra criação dos matemáticos sumérios.  

O maior rival de El foi sempre Baal, agora o rival de Deus é o Satã, mas na Bíblia Satã era simplesmente um anjo, o advogado de acusação, não era um anjo expulso, nem nada como isso. Leviatã, hoje também considerado uma das encarnações de Satã, era um monstro de sete cabeças conhecida por Lotan na mitológia suméria. E Satã era diferente de Lúcifer, que Isaías chamou de A Estrela da Manhã, e que se confundiu depois com Cristo, visto que João chamou a Cristo de A Estrela da Manhã no Apocalipse. Cristo este que tem muitas similaridades com muitos outros deuses pagãos, o que fez com que os judeus nunca tivessem aceitado a sua existência com messiánica.  E não puseram em causa a mentira da sua invenção, porque a sua própria invenção de Javé iria abaixo por arrasto, além do mais ganha-se muito dinheiro com essa crença (nota minha).

Não vou descrever um livro de mais de 400 páginas em meia folha, por isso fico por aqui, principalmente porque sei que o pouco do conteúdo que revelei vai ser o principal motivo para afastar alguns de o lerem, pois ninguém quer pôr em questão a sua fé, prefere simplesmente acreditar. Aliás este pouco que descrevi só trata de uma pequena parte do livro e não está com a mesma clareza.

Uma História de Deus, volto a salientar, é um livro para ler antes de morrer.



27 de abril de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - Contextualizando


Quando tinha 12 anos, dois anos após descobrir a minha primeira biblioteca, fizera várias tentativas de escrever, acabando por desistir por diversas razões.

Confiante de que dominava melhor as palavras, aos 16 anos, ainda estávamos em guerra na minha terra, e o sítio onde eu me encontrava era mais entediante que o Paraíso, para me divertir só tinha uma caixa com 40 CDs de música clássica (o que me fez criar ouvidos para esse género), comecei a escrever, para ocupar o tempo, levando-me, no entanto mais a sério nessa arte. O caderno que comecei acabei por perdê-lo depois de uns três meses a riscar nele, na pressa de encontrar um lugar mais seguro, quando a cidade foi atacada, e para dizer a verdade, a minha escrita não ia muito bem, era difícil escrever do nada.

Acabou a guerra, eu tinha 17 anos, e pude voltar para a minha casa de novo, e um encontro com um livro de contos de Mark Twain foi um momento bastante feliz. Mark Twain tem um conto sobre Noé, com ele a ter problemas com um fiscal portuário; inspirei-me nisso, e escrevi uma história com Aladin e o seu tapete que não cumpria nenhuma regra aeronáutica. 

Mas isso não me satisfez, porque era um decalque ridículo, resolvi então usar o Noé Bíblico, misturando-o com outros Noés mitológicos para fazer uma história, acreditando que seria mais fácil, pois tudo o que tinha de fazer era reescrever, visto a linha já estar toda montada. Afinal o próprio Pitigrilli tinha escrito um final alternativo para A Dama das Camélias de Alexandre Dumas, sem que isso se considerasse plágio.

Escrevi Noé - O Primeiro Messias, e foi mais fácil do que as minhas primeiras tentativas. E decidi usar a Bíblia como fonte e reescrever o Génesis. E como os autores que mais gostava na altura eram humoristas, e como aquelas histórias só teriam sentido se fossem contado pelo ridículo, não pude escapar de tentar fazer humor com elas. Então escrevi Adão e Eva - O Mundo Perdido, (referência a Jurassic Park) depois soube que Mark Twain tinha escrito também um conto chamado Adão e Eva, li esse conto e imprimi a sua conclusão na conclusão do meu Adão e Eva e retrabalhei o meu, copiando alguns tiques de Mark Twain. 

Quando acabei de reescrever o Génesis, sob a perspectiva de Lúcifer, usando com guias livros de Robert Charroux e A História de Deus de Karen Armstrong, ainda criei uma história que explicasse a descoberta do seu diário, e envolvia anjos e demónios que tentavam matar e proteger a prostituta drogada que deveria sofrer inseminação artificial da esperma divina para dar à luz um novo messias, que finalmente resolveria a questão do Apocalipse. Eu estava muito herético na altura, culpa do filósofos que andava a ler.

Entretanto, tive uma recaída religiosa e senti que tinha ofendido gravemente a Deus, e disse a mim mesmo que não acreditava no que escrevi, mas isso não aplacou a minha consciência, fiz então o que qualquer bom cristão faria: apaguei os ficheiros do computador, queimei os manuscritos e parti as disquetes que os continham, para não cair na tentação. Foi difícil, porém senti-me em paz quando acabei de o fazer, tinha 19 anos nessa altura e acabara de mandar para o diabo dois anos de trabalho.

Umas duas semanas mais tarde (não durou muito), ao reler A História de Deus, a minha fé ateia renasceu e quase fiquei louco por causa da asneira que tinha cometido (na altura sentia-me mais à-toa do que ateu). De todo o trabalho, só consegui salvar dois que tinha impresso e dado a um amigo para ler, felizmente ele não os tinha destruído (quando lhe pedi para o fazer, foi mais sensato e disse que ficaria com eles para se rir) e algumas partes das outras que ficaram em computadores onde tinha trabalhado. Depois tentei reescrever de novo a reescrita do Génesis mas já não tinha piada, refiz José - O Pesadelo dos Irmãos (lembrando-me do Freddy Krueger), todavia, ficou seca, portanto desisti; e a história do Apocalipse que serviria de ligação às outras também morreu.

No entanto, como acho que devo completar essas partes que tinha salvo, pois depois de 10 anos, talvez consiga dar um novo sumo às suas piadas (ou não), sem dizer que estou numa crise escrítica (durante 5 não conseguindo escrever ficção, largando sempre as histórias na página 20), e espero que a fórmula funcione de novo e liberte-me a veia literária, vou postar Memórias de Lúcifer, parte a parte, obrigando-me assim a, quando chegar às historias deixadas ao meio, conclui-las.