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7 de janeiro de 2014

ANÉIS DE RADBURN - princípio urbanístico

Com o aparecimento do automóvel e a sua popularização, nos anos 20, começaram a aparecer novas questões urbanas. O número de acidentes de peões e automóveis aumentavam consideravelmente, pelo que era urgente e necessário encontrar soluções para esse problema.

Radburn, desenvolvida por Clarence Stein, entre 1928 e 1929, foi planeada tendo em conta o automóvel, como disse Edward Relph (A Paisagem Urbana Moderna, Edições 70),  foi planeada para a idade do motor. No entanto, manteve presente alguns princípios urbanos, como os da  cidade-jardim de Howard e os das unidades de vizinhança de Clarence Pery. Aliás, Radburn reuniu todas as técnicas de planeamentos urbanos desenvolvidos desde 1900.

O Princípio de Radburn apresenta como maiores particularidades à separação sistemática da circulação de veículos e pedestres, a superquadra suburbana que consistia numa área de parque delimitada por casas, com estas voltadas para o parque e para os caminhos dos peões e a ampla utilização de cul-de-sac, e ruas estreitas para velocidadede moderada que permitem o acesso dos automóveis às ruas colectoras.

Stein sintetizou os preceitos básicos de seu modelo de organização espacial em cinco pontos:
1. A substituição dos quarteirões por blocos habitacionais, não cortados por vias;
2. A hierarquização das ruas;
3. Separação da circulação de peões da circulação de automóvel por meio de desníveis;
4. Orientação dos espaços principais das casas para jardins;
5. Criação de faixas de verdura formando um parque ramificado a toda a cidade. A superfície dos jardins individuais é reduzida em proveito de áreas livres para uso público.


Em Lisboa, o princípio é visível em Pedrouços (embora o desenho siga claramente a ideia de cidade-jardim de Ebenezer Howard). Há uma clara hierarquização das ruas, quarteirões não cortadas por ruas, casas contíguas a jardins, faixas de verde que formam uma espécie de parque ramificado por todo o bairro, os jardins privados parecem mais pequenos que o públicos, e aplicação dos culs-de-sac.

E em Telheiras, há zonas em que  também é possível ler o mesmo princípio. O Trânsito é separado, e criou-se espécies de parques dentro dos blocos, servindo de respiradouro e ao mesmo tempo de estacionamento, fazendo os culs-de-sac. A circulação dos peões acontece, em alguns casos, separados da dos automóveis, através de passagens aéreas.



3 de agosto de 2012

OLMSTED E A ARQUITECTURA PAISAGÍSTICA


Nota introdutória

O presente texto vai ser focado no conceito da cidade do teórico urbano Frederick Law Olmsted. Pretende-se explorar esse conceito para comparar com os padrões actuais da concepção da cidade e ver até que ponto a sua influência se estende, ou se não teve influência nenhuma.


Breve biografia


Frederick Law Olmsted (1822-1903), considerado o pai da arquitectura paisagística norte-americana[1], foi um teórico urbano muito importante, senão um dos mais influentes, nos finais do Séc. XIX e início do Séc. XX. Desenhou Central Park de Nova Iorque, Prospect Park de Brooklyn, South Park de Chicago, entre outros, analisou projectos chaves iniciados em 250 áreas urbanas dos EUA e elaborou estratégias e programas que foram bem sucedidos e outros também que falharam[2]. O seu livro Civilizing American Cities: Writings on City Landscapes, explica o conceito urbano por ele defendido.
Olmsted foi uma personagem deveras interessante, foi marinheiro, comerciante e jornalista, e teve uma brilhante carreira nesta última profissão.
Em 1850 viajou para a Inglaterra para visitar jardins públicos onde foi profundamente impressionado pelo parque Joseph Paxton Birkenhead; viagem que posteriormente, em 1852, relatou no seu livro Walks and Talks of an American Farmer in England.
O seu amigo e mentor Andrew Jackson Downing, arquitecto paisagista, foi quem primeiro propôs uma reforma do Central park de Nova Iorque; foi através deste que conheceu o arquitecto Calvert Vaux. Após a trágica morte de Downing, em 1858, Olmsted, em equipa com Vaux, resolveu participar no concurso público para Central Park com um projecto em honra do amigo morto e ganhou o concurso[3]. 

A concepção do Central Park norteava-se em torno da ideia de igualdade social. Para Olmsted defendia que o espaço verde comum deve ser acessível a todos os cidadãos, independentemente da classe. Esta ideia que agora um dado adquirido e inerente ao conceito de parque público, não o era nessa altura. Era uma ideia à parte e revolucionária, de ordem tal que o mandato de Olmsted como comissário do parque se transformou numa longa luta para a preservar.

Em 1885, Olmsted criou, em parceria com os filhos, o que foi considerado a primeira firma de arquitectura paisagista a tempo inteiro.

Em 1895, com 65 anos, forçado a abandonar o negócio por senilidade, deixou os seus filhos a continuar o seu legado. Morre em 1903, deixando um importante trabalho sobre arquitectura paisagista[4]. 


Arquitectura paisagista

A história da arquitectura confunde-se durante um certo período com a história de jardinagem, todavia diferem. Ambas as artes estão preocupadas com a composição da plantação, o terreno, água, pavimentação e outras estruturas, mas, o design de jardins é orientado para espaços privados e vedados, enquanto que a o design da paisagem reflecte-se tanto em espaços fechados como espaços abertos (praças, parques e vias verdes). A arquitectura paisagista entretanto, não é uma arte recente, pois remonta ao tratamento de espaços exteriores ancestrais por sucessivas culturas antigas, da Pérsia e Egipto à Grécia e Roma. Durante o Renascimento, este interesse pelo espaço exterior, que havia diminuído durante a Idade Média, foi revivido com esplêndidos resultados na Itália e deu origem às vivendas ornamentadas, jardins, e grandes praças exteriores.

No Séc. XVIII, a Inglaterra tornou-se o foco de um novo estilo de desenho paisagem; muitos dos parques desenhados nessa altura ainda perduram hoje. 

O termo arquitectura paisagista foi pela primeira vez utilizado por Gilbert Laing Meason no título do seu livro sobre a Arquitectura Paisagística dos Grandes Pintores da Itália. Era sobre o tipo de arquitectura paisagística encontrado em pinturas. O termo foi, no entanto, no Séc. XIX, retomado à luz de um novo conceito por J.C. Loudon e A.J. Downing.

Através do Séx. XIX, o planeamento urbano tornou-se mais importante, e era uma combinação de planeamento moderno com a tradição de jardinagem e tornou-se o foco da arquitectura paisagista. Foi na segunda metade do século XIX que apareceu Olmsted, com as suas teorias e sobre a arquitectura paisagista e desenhos de parques que ainda continuam a influenciar esta arte[5].

O parque surge como facto urbano relevante e tem seu pleno desenvolvimento, com ênfase maior na reformulação de Haussmann em Paris, e o Park Movement liderado por Frederick Law Olmsted e seus trabalhos em New York, Chicago e Boston.



Park Movement e Olmsted

Tal como o nome indica foi um movimento que revolucionou a forma da concepção da paisagem urbana, nomeadamente, na concepção de espaços verdes, por outras palavras, na criação de pulmões para a cidade, criando parques.

Para Olmsted, parque é um lugar com amplitude e espaço suficientes e com todas as qualidades necessárias que justifiquem a aplicação a eles daquilo que pode ser encontrado na palavra cenário ou na palavra paisagem, no seu sentido mais antigo e radical, naquilo que os aproxima muito de cenário. Ou seja, parque tem que ser um lugar artístico com uma identidade própria e adequado ao uso (recreação, espraiamento e embelezamento da paisagem).

Olmsted defendia a utilização económica dos espaços livres, criando oportunidades de recreação e também de preservar os recursos naturais, controlo de enchentes, proteger os mananciais, entre outras coisas, para obter espaços agradáveis para passear e morar. Esses trabalhos, além de inspirar a criação de inúmeros parques, mudaram o conceito de qualidade ambiental urbana. Segundo ele, o movimento se resumiria em alguns objectivos operativos, entre eles: a dimensão e forma das ruas; a dimensão, carácter dos edifícios e sua localização em relação recíproca com os espaços públicos; a disposição das zonas sem edificação; e o tratamento dessas zonas sem edificação com eventual presença de ruas, com distribuição dos objectos emergentes sobre elas, com árvores, postes, valetas, etc[6]. 

A constituição dos parques era a primeira escala de uma intervenção mais complexa de planificação física e social. Olmsted considera os parques como demonstração da saúde mental do povo e instrumento de luta contra a congestão e instrumento de redistribuição de riqueza. Acreditava ainda que o parque era o símbolo de uma nova vida comunitária e emergiria como lugar de alegria, onde fosse possível cultivar todas as actividades espirituais impedidas na cidade. 

Para Olmsted, o parque substituía o edifício religioso que havia simbolizado o espírito unitário da comunidade primitiva. A cidade, organizando-se em torno de seus próprios espaços verdes, voltava a encontrar a unidade desfeita, reconstruindo um símbolo laico da comunidade perdida. Além disso, para Olmsted, o parque traduzia-se em justiça social e participação democrática: as classes inferiores não estavam mais segregadas na cidade, podendo gozar da natureza igualitariamente acessível, ou seja, o parque era um instrumento de nivelamento social e de educação do povo para a responsabilidade colectiva do bem-estar. 


Nota conclusiva

Através destes conceitos um tanto utópicos defendido por Olmsted, superou-se o modelo de parque anterior, idealizado em bairros burgueses e para exibição social, migrou-se para concepção de espaços verdes destinados a uso colectivo, procurando recriar as condições naturais que a vida urbana insiste em negar, local de sociabilidade onde o povo encontre suas origens, no contacto físico e activo com a natureza. 

Começa-se assim a criar lugares de socialização para jogos e ginástica, como o Volkspark, na Alemanha[7].




[1] http://www.soniaa.arq.prof.ufsc.br/arq5605/Arquiteturadapaisagemdefinindoaprofissao.htm
[2] http://mitpress.mit.edu/catalog/item/default.asp?ttype=2&tid=6887
[3] http://www.fredericklawolmsted.com/Lifeframe.htm
[4] http://en.wikipedia.org/wiki/Frederick_Law_Olmsted
[5] http://en.wikipedia.org/wiki/Landscape_architecture
[6] http://aprender.unb.br/mod/resource/view.php?id=26770
[7] http://aprender.unb.br/mod/resource/view.php?id=26770


P.S.: não faço ideia do que aconteceu com o resto do final do texto.

5 de janeiro de 2012

LIVROS DE URBANISMO


Não vou fazer uma "observação" destes livros, porquanto não os li na íntegra; porém, garanto a sua utilidade por os já ter usado vezes e vezes em trabalhos de urbanística.

Portanto, estes dois livros de urbanismo, tenho a certeza, vos serão úteis. Intitulam-se URBANISMO I - Projecto Urbano e URBANISMO II - Configuração Urbana, ambos escritos por Dieter Prinz.

Como disse, não os li todo, só os uso como material de consulta, e, felizmente com acesso físico, entretanto, ao procurar na net informações sobre eles vi que grande parte de teses de mestrados em urbanismo que encontrei têm sempre os dois títulos ou um deles citado na fonte bibliográfica, sendo esta a razão mais forte suficiente para garantir que vale a pena, senão ler, pelo menos dar uma vista de olhos.


No link que se segue vão os dois títulos em PDF.


25 de dezembro de 2011

EXPOSIÇÃO - UTILITAS INTERRUPTA (museu da água)


A primeira coisa que me chegou à cabeça quando adentrei o Museu da Água para ver a exposição Utilitas Interrupta foi: De facto não brincamos quando o negócio é sujar o planeta.

Como me foi explicado pela guia, a exposição trata-se de obras arquitectónicas e de engenharia abandonadas e hoje sem uso; algumas delas abandonadas antes mesmo de começarem a ser usadas, a outras, no entanto, aconteceu, a determinada altura, ao tentar alterar-lhe o “uso”, o projecto acabou abandonado.

«Esta exposição investiga dezassete case studies recolhidos transversalmente em vários ponto no tempo e no espaço. A infra-estrutura tornada obsoleta pela pressão inexorável do progresso tecnológico; a infra-estrutura da paranóia da vaidade, sem propósito excepto enquanto prova da sua própria existência; a infra-estrutura falida dos ideais dignos e das intenções por cumprir; a infra-estrutura frustrada pelo infortúnio e pela catástrofe, deixada em lenta decomposição; a infra-estrutura do absurdo, do cómico e do trágico – histórias de actos em que cura é assumidamente pior que a doença. Se a paisagem é o teatro onde se encena a epopeia da história, estas cicatrizes infra-estruturais são uma eloquente recordação de que a história tal como a conhecemos e apenas um dos inúmeros – e igualmente plausíveis – guiões possíveis.», palavras de Joseph Grima, Curador da exposição.

Eu não diria que todas as obras apresentadas na exposição são falidas de ideais, porque há ali algumas que chamam atenção tanto pela imponência como pela estética e pela forma, entretanto concordo que todas sejam cicatrizes e marcas da “insustentabilidade” humana. Vi, como já tinha referido, sobre obras arquitectónicas e obras de engenharia que ferem a paisagem, no entanto, não vi, e acho que era também interessante, obras que sujam até mesmo o espaço sideral, tais como satélites abandonados no espaço.

A nossa vontade de construir só é comparável à de destruir, e, pelo que parece, não conseguimos construir coisas bonitas sem deixar outras tantas feias por perto. E a estratégia da exposição exemplifica essa ideia muito bem. No Museu da Água, onde a exposição é mais audiovisual e projectada na tela, temos dos dois lados da tela principal, duas outras, uma à esquerda e outra à direita, que projectam uma paisagem árida e uma paisagem “molhada”, ambas as paisagens, porém, naturais. E na tela principal, vemos a alteração da paisagem feita pelo homem.

Tanto a forma da exposição, como a sua ideia manifestam que tudo o que construímos pode ser recuperado, aliás, os museus servem mesmo para recuperar o “passado” e não deixá-lo como um pedaço de lixo que macula o “presente”.

E outra coisa em que pensei durante a visita foi em como o Ocidente, pela sua influência económica, dita o que deve ser construído e o que não deve; digo isto referindo aos hotéis no médio-oriente que começaram a ser construídos e que depois foram abandonados porque ficaram sem potencial turístico devido a zonas onde se encontravam. E também vemos muitas infra-estruturas abandonadas porque o seu perfil económico alterou-se e não tinham mais esse potencial. Ou seja, é, principalmente, a economia que cria o lixo paisagístico, e a arquitectura está entre um dos maiores criadores de lixo no planeta.



P.S.: A exposição já acabou.