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23 de setembro de 2017

PRAÇA DE PINDJIGUITI E MON DI TIMBA - PATRIMÓNIOS NACIONAIS

Este artigo escrevi-o desde 2015, mas ainda vai a tempo e vai ser como vou festejar o 24 de setembro, dia da independência da Guiné-Bissau.

Mais de 300.000.000 de Franco CFA, na língua Euro, mais de 457.347,05. Quase meio milhão de euros foram utilizados para reabilitar a Praça de Pindjiguiti e a estátua Mon di Timba ou Sinku Dedus.

O projeto era para ser todo sustentável, respeitar o património e reavivar aquela área da cidade que, devido à sua localização de difícil acesso para a maioria, principalmente à noite, e com falta de programas ao redor que possam atrair pessoas para lá, é praticamente deserta, sendo mais um espaço de passagem do que um espaço de estar.

Para fazer um trabalho sustentável é preciso mobilizar muito dinheiro, porque temos que pensar a longo prazo… entendo a lógica, a sério. Só não entendi nada quando falaram que iriam usar a calçada portuguesa para fazer parte do pavimento da praça, menos ainda quando a usaram. Desde quando calçada portuguesa na Guiné-Bissau é sustentável? Em Portugal talvez seja, porque é portuguesa, produz-se aqui e usa-se aqui, retirando o custo de transporte e importação, e utiliza material local na construção local.

Porém, o que se vê no resultado final parece ainda pior do que existia na altura, principalmente no que se refere à estátua Mon di Timba e o busto de Amílcar Cabral, que, para começar, não parece com Amílcar Cabral, pelo menos aquele que conheço pelas fotos (tem súmbia, barbas e óculos, e fica por aí a semelhança), mas acreditando que as pessoas que o encomendaram, fizeram e inauguraram, conviveram com Cabral, não tenho muitos argumentos.

Quiseram fazer uma espécie de espelho de água frente ao busto, para embelezar o espaço, no entanto, todos sabemos que aquilo seria apenas mais um viveiro de mosquitos, mas fizeram-no na mesma, e não sei agora, mas na altura ainda estava por utilizar.

457.347,05 Euros foram usados para reabilitar uma estátua e o que se conseguiu foi torná-la pior do que estava antes. Pode-se olhar para a foto e perceber os erros absurdos e ridículos, tanto da decisão do arquiteto (se é que houve algum), como da parte dos executores e ainda da fiscalização.

As pedras que anteriormente revestiam a estátua Mon di Timba estavam perfeitamente alinhadas, perfeitamente cortadas e fixas no corpo principal por parafusos. O que se fez agora foi usar cola para fixar uns ladrilhos de aparência tão reles que parecem comprados em saldo, numa sexta-feira 13, na Fera-di-Kirintim. Os mesmos foram fixos sem grande cuidado (ou nenhum cuidado), sem alinhamentos, com a cola a verter sobre eles, manchando-os. Vejam as fotos e poupo palavras.








As obras foram inauguradas no dia 03/08/2015 e as minhas fotos feitas em 01/12/2015, mas mesmo nas fotos da inauguração que se podem encontrar na Internet, vê-se que a estátua não sofreu uma degradação super-acelerada, mas que foi mesmo mal feita. O busto de Amílcar Cabral parece ter sofrido ainda destino pior, com a escolha do ladrilho. Por Deus!, feito em taipe talvez isso até ficasse mais bonito.







Tirando o desrespeito absoluto pelo património histórico (e arquitetónico) nacional, a pergunta de 457.347,05 Euros é: onde meteram o raio do dinheiro?


Com todo esse dinheiro, eu reabilitava a estátua era para ficar como na foto abaixo.


10 de julho de 2017

PALOMBAR E SEUS AMIGOS

Quando especialistas se juntam para discutir se bombardear Pyongyang ou bombardear Síria é sustentável ou não, sabemos logo que algo não está bem. 

E a questão nem sequer está na destruição premeditada em nome do capital, mas no uso do termo "sustentável", que é agora bastante indiscriminado e quase sempre confundido com "lucrativo". Isto faz com que ações realmente “sustentáveis”, desenvolvidas por pessoas com visão de “sustentabilidade”, passem despercebidas, diluídas no meio destas vacuidades que por aí proliferam.

Só há poucos meses ouvi falar da PALOMBAR (até pensava que era uma fabricante de sanitários, enganado pelo seu logótipo), é uma organização cuja missão é de preservar o património natural e construído, e tive a oportunidade de cooperar com ela, no 5º Encontro de Arquitectura Tradicional e Sustentabilidade, e de conhecer e descobrir a dimensão dos trabalhos que ela tem desenvolvido em função da sua missão.

Andei durante três dias espantado pela forma como uma associação que coordena dezenas de jovens voluntários vindos dos quatro continentes, consegue funcionar com uma fluidez, rigor e simplicidade, num ambiente todo calmo e descontraído… Mas agora acho que a resposta se encontra nos cabelos precocemente brancos dos seus dois jovens dirigentes.

Através da PALOMBAR pude conhecer outras organizações que trabalham também na defesa do património construído e no ensino e propagação da bionconstrução, como FUNDACIÓ EL SOLA e a ESPIGA (que desenvolveram, respetivamente, os seguintes sites WIKIPEDRA e a BIOCONSTRUPEDIA) e ainda conheci estudantes do património arquitetónico tradicional e profissionais e defensores da utilização dos materiais e técnicas tradicionais e da necessidade de aprender com os construtores de passado para melhorarmos o futuro. Por exemplo, a utilização da terra (adobe, taipe, taipa, tabique, entre outros), tão rejeitada nas últimas décadas, está a voltar à vida pelas mãos de arquitetos famosos, como se pode ver neste site de Elisabetta Carnavalle.

A defesa do património tradicional (material ou imaterial) e a defesa do meio ambiente são ações sustentáveis e para as quais devemos prestar atenção e contribuir da melhor forma que pudemos. É bom verificar que existem por aí organizações como a Palombar e tantas pessoas individuais envolvidas neste trabalho que às vezes parece infrutífero. Mas se a Talmude diz que quem salva uma vida salva um mundo, então…

Envolvam-se.