Há algum tempo alguém me passou um conjunto de três foto-montagens intitulado “Projecto de Reabilitação de Chapa de Bissau”, não liguei nenhuma porque me disse que tinha sido o projecto de um estudante qualquer. Depois soube que o troço de Chapa de Bissau estava a ser reabilitado, mas nunca cheguei a relacionar as duas coisas. Só agora, surpreendentemente, soube que afinal o conjunto que me foi mostrado é exactamente o projecto pelo qual se orienta a reabilitação de Chapa de Bissau.
Primeiro, não acreditei, não, há bastante bom senso nos dirigentes da CMB para aprovarem um projecto tão não-funcional quanto aquilo que vi nas fotomontagens; depois fui ao site da Câmara e fiquei estupefacto ao atestar que realmente os dois projectos são exactamente o mesmo e, pior, já está em andamento. Logo esta crítica vem tarde, mas, pelo menos, veio.
Sou arquitecto licenciado, e a duas cadeiras de mestrado (reclamo assim uma determinada autoridade), e pareceu-me que (não consegui descobrir nome do projectista) o autor deste projecto ou não conhece a realidade guineense, ou então viveu demasiado tempo na Europa que passou a julgar que transferências de layouts europeus são o ponto-chave da aculturação e, logo, do desenvolvimento, sem perceber que isso é a propaganda europeia para vender os seus produtos. Todavia, o mais risível foi acompanhar o projecto com o apelido “sustentável”. Que pensa o projectista que significa sustentável?, aliás, que pensam os promotores do projecto que significa sustentável? Sustentáveis são as estradas que um ano depois de serem construídas precisam de remendos por todos os lados, porque alguém andou a dar topadas? Sustentável é investir em alcatrão, quando esgotos abertos ladeiam as estradas por toda a sua extensão e mostram toda a vergonha sanitária do país quando chove? Sustentável é ter o Hospital Simão Mendes a cair de roto para que os carros de alguns não partam o amortecedor?

Sustentável é fazer um investimento a longo prazo que requeira poucas intervenções futuras e essas quando feitas são com a finalidade de facilitar e baixar o custo da manutenção ou então melhorar; ou seja, esta é a definição mais básica do sustentável.
Porém, está bem, vou confinar-me apenas à questão da estrada, sem falar do horror entre ela e os passeios, quando esses existem, e os problemas de saúde que causam e a ineficácia do controle desses problemas; afinal sustentabilidade tem a ver com prioridade, mas quando as prioridades se confundem torna-se difícil apelar à razão. Eis a "razão" por que vou focar-me apenas na área da minha competência.
O projecto Chapa de Bissau é todo ele lindo, porque aparece bem colorido sobre um fundo triste e cinzento (eis um dos truques mais elementares para desviar a atenção dos professores – eles mesmo já o usaram – e dos clientes), e quem não está acostumado com imagens do género deixa-se sempre embasbacar, porém o projecto é todo ele entrópico. O Projecto Chapa de Bissau baseia-se num conceito de auto-estrada aplicado a uma via rápida, revelando-se um erro a partir deste ponto.
Vamos analisar por outras áreas: o ponto de maior movimento da cidade de Bissau é entre Chapa e a Mãe-de-Água, por outras palavras, a economia urbana é marcadamente viva nesse troço e não há outro sítio que movimente tanto dinheiro (não incluamos os canais não conhecidos); então, bloquear todo o acesso com separadores rodoviários é como tentar cortar a garganta ao Mercado de Bandim, o que, de certeza, já sabem, não parece ser possível, visto que ele reencarna a hidra.
A circulação rodoviária determina-se em duas espécies: transportes públicos e transportes privados. Confinar os toca-tocas a uma via, sendo eles o modelo mais próximo do transporte público europeu onde o autor foi decalcar a ideia, não funciona, não só por a faixa que lhes é destinada ser estreita, como ao contrário do modelo europeu, os toca-tocas não têm um limitado número de proprietários e capazes de os organizar com uma tabela horária. Além de mais, atribuir essa faixa ao uso exclusivo de toca-tocas aborta a ideia de um transporte colectivo do género “Siló Diata” e “Caetano Um Cuntu”, que já funcionaram e podem (e devem – e virão) vir a funcionar. E sem dizer que a via deixada aos toca-tocas, limitada pela estandardização rodoviária, não permite ultrapassagem, o que vai gerar um caos do pior tipo. (Viram quantos limitados usei aqui?)
O uso dos separadores parece ter-se focado sobre o comportamento dos guineenses, da maneira como as regras de trânsito não são respeitadas e do modo como funciona o “salve-se quem puder”, por isso torna-se como uma espécie de aplicativo preventivo e regularizador que manterá “cada macaco no seu ramo” (medida esta cujo o lugar onde devia ser urgentemente aplicada fica fora das estradas), no entanto, é como varrer para debaixo do tapete (sem falar nos problemas rodoviários que causará), porque não curará os vícios, apenas esconderá a fonte, eventualmente até se perceber a sua não funcionalidade e fazer-se um novo orçamento para a sua remoção das estradas. Aliás quem quer tenha tirado carta de condução sabe que existe na estrada linhas contínuas e linhas tracejadas que servem o mesmo fim e são mais baratas. E como todos sabem, a educação com medidas físicas é apenas coerção e mostra de tirania, pois a verdadeira dá-se atribuindo responsabilidade aos participantes.
O uso de separadores justifica-se quando, por exemplo, há vias secundárias que servem a via principal e seja necessário criar entradas e pontos de serviço a esta (há um esquema visível e perceptível disso desde a Estátua Maria da Fonte até à Estátua de Amilcar Cabral no Porto de Pindjiguiti), e não porque temos de manter os azul-e-amarelos à direita e os restantes à esquerda. E os táxis, onde é que entram? Como é que os taxistas vão despejar os passageiros? As pessoas deixarão de usar táxis porque não poderão, num troço de mais ou menos 500 metros, descer onde lhes apetecer? E o passeio entre as faixas de rodagem serve então para quê, se nem é ilha de segurança?
Se o projectista tivesse lido a Imagem da Cidade, de Kevin Lynch, teria percebido que a estrutura rodoviária que desenhou quebra aquela zona da cidade em duas partes mais marcadas do que as já existentes, o que levará posteriormente ao isolamento de umas delas, a não ser que se aplique medidas arquitectónicas que tornem ambas as partes sedutoras e complementares para promover a movimentação entre elas, pois de uma outra maneira haverá uma paralisação localizada. O livro supracitado, mais A Paisagem Urbana de Gordon Culler, os trabalhos de Dieter Prinz, ou o Compêndio Elementar de Prática de Urbanismo, de Fernando Varanda (que é mesmo elementar), forneceriam ao projectista as bases para fazer um trabalho realmente urbanístico para o nosso contexto social e não um simples COCÓ (COpiar e COlar) de um contexto europeu isolado.
Não posso acostar-me a todos os pontos que tornam inviável este projecto, para não transformar isto numa crítica académica, e sendo assim vou ficar-me por uma última questão que é o uso das passagens pedonais aéreas para compensar a ausência da comunicação entre os dois lados da estrada.
A sustentabilidade, na estrutura urbana, primariamente, baseia-se em considerar os meios de deslocação e atribuir a cidade às pessoas e não aos veículos motorizados (pelo menos é o que defende a Carta do Novo Urbanismo), e começa-se por pensar nas pessoas com mobilidade reduzida (idosos e deficientes motores). Como é que vão circular as bicicletas nesse novo plano urbano? Terão de partilhar as vias com os toca-tocas ou ariscarem-se num atropelamento na via central? Como é que vão as pessoas com mobilidade reduzida transladar a estrada? As passagens pedonais aéreas, mesmo no modelo europeu, são elementos remediadoras, e é por essa razão que contratam bons arquitectos para as tornarem atraentes e agradáveis de percorrer, porque as outras mais simples, na maior parte dos casos acabam abandonadas. A impraticabilidade dessas passagens aéreas inevitavelmente vai resultar nas pessoas criarem alternativas de circulação, tentarem romper as barreiras dos separadores para dubriar um percurso de atalho.
A sustentabilidade não é fazer renderizações bonitas, com o fim de usar alcatrão e cimento, em sistemas condenados a priori, para justificar movimentações de capital; a sustentabilidade é pensar no sistema urbano em elo com o sistema ecológico. A sustentabilidade é estudar a sério para poder fazer projectos verdadeiramente sustentáveis, o que neste caso passaria por reunir uma equipa de sociólogos, economistas e outros intervenientes em questões urbanas (competentes, é claro, e que não estão apenas à espera de uma contrapartida financeira) a fim de evitar este tipo de vergonha insustentável.
O desenvolvimento começa-se de algum ponto, e com pequenas coisas, mas não de pontos errados e de coisas absurdas, porque isso levará a um ciclo de remediação eterna, onde aliás parece que estamos metidos. E pela primeira vez, não culpo ao governo por um erro táctico sobre o país, mas ao projectista; e caso não tenham notado que apresentei uma possível solução ao invés de me ter limitado a criticar releiam o penúltimo parágrafo.
Arqº Geraldo de Pina