17 de maio de 2015

O QUE REALMENTE ACONTECEU?... A RESSUREIÇÃO DE CRISTO

Este artigo surge no seguimento desta nova série de artigos que pretendo fazer acerca das incongruências na vida de Cristo que aparecem nos relatos dos seus biográfos oficiais, como aqui referi.

Há bastantes incoerências nos relatos dos quatro evangelistas sobre a ressureição de Cristo, por exemplo, as conversas que os anjos tiveram com as mulheres, mas isso é a parte menor, vou elencar aqui algumas incongruências que verifiquei. Os textos transcritos do Novo Testamento, para servir de referência, encontram-se em baixo.



                 1. QUANTAS PESSOAS FORAM AO TÚMULO?
Mateus:   Duas mulheres: Maria Madalena | Outra Maria
Marcos:  A. Três mulheres: Maria Madalena | Maria, mãe de Tiago | Salomé
                   B. Nenhuma: Jesus foi ter com a Maria Madalena, logo cedo.
Lucas:    Três mulheres: Maria Madalena | Maria, mãe de Tiago | Joana
João:     Uma mulher: Maria Madalena

Mateus ainda diz que tinham guardas no túmulo e os outros nem se referiram a isso.


                  2. COMO ESTAVA O SEPULCRO?
Mateus:   Fechado. Um anjo rodou a pedra, à frente de muitas testemunhas.
Marcos:   Aberto. A pedra já estava rolada.
Lucas:     Aberto. A pedra já estava rolada.
João:      Aberto. A pedra já estava rolada.


                 3. QUANTOS ANJOS ESTAVAM NO TÚMULO?
Mateus:   Um anjo, parecia relâmpago, roupa branca como neve: do lado de fora do      túmulo, rodou a pedra e sentou-se sobre ela.
Marcos:   Um jovem vestido de branco, sentado à direita (anjo?).
Lucas:     Dois homens, vestidos de roupas brilhantes, de pé (anjos?).
João:     A. Nenhum: Maria Madalena nem entrou no sepulcro, viu a pedra removida e foi a correr chamar o Pedro e o João – o amante de jesus(?).
B. Dois anjos vestidos de brancos: sentados, à cabeça e aos pés de onde devia estar o defunto.




                  4. QUE DISSERAM ANJOS ÀS MULHERES E QUE FIZERAM ELAS?
Mateus:   1 Anjo: Vão dizer aos discípulos. As mulheres foram contar aos discípulos.
Marcos:   2 Anjos: Vão contar ao Pedro e aos outros: As mulheres não contaram nada a ninguém, por medo.
Lucas:   Os 2 anjos não lhes deram nenhuma ordem. As mulheres foram contar aos discípulos.
João:       A. Não houve anjos.
B. Os 2 anjos não deram nenhuma ordem.


                  5. JESUS E AS MULHERES?
Mateus:  Jesus apareceu às mulheres, elas adoraram-no.
Marcos:  Jesus só apareceu à Maria Madalena (não se falou do sepulcro).
Lucas:    Jesus não apareceu às mulheres.
João:     Jesus só apareceu à Maria Madalena no sepulcro.


                




Transcrição do livro: Novo Testamento, Sociedade Bíblica de Portugal, tradução Interconfessional do texto grego em português corrente, Terceira Edição (Expo 98) 1998, ISBN 972.9085.47.1



EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (28:1-9)
Depois do sábado, quando já rompia a manhã de domingo, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo. De repente houve um grande tremor de terra, porque um anjo do Senhor desceu dos céus, rodou para o lado a pedra da entrada do túmulo e sentou-se nela. O aspecto do anjo era como um relâmpago e a sua roupa branca como a neve. Os soldados que estavam de guarda, ao verem-no, começaram a tremer de medo e ficaram como mortos.
O anjo disse então às mulheres: «Não tenham medo. Eu sei que procuram Jesus que foi crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou conforme ele mesmo tinha dito. Venha cá ver o lugar onde ele estava. E agora vão depressa dizer aos discípulos: Ele já ressuscitou e vai antes de vocês para a Galileia. É la que o hão-de ver. Era isto o que eu tinha para vos dizer.»
Elas afastaram do túmulo a toda a pressa, atemorizadas, mas cheias de alegria, e foram a correr levar a notícia aos discípulos.
Nisto, o próprio Jesus foi ao encontro delas e saudou-as. Então elas aproximaram-se dele, agarraram-se-lhe aos pés e adoraram-no. Jesus disse-lhes: «Não tenham medo! Vão ter com os meus irmãos e digam-lhe que vão para a Galileia e lá me hão-de ver».


EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS (16:1-8)
Depois de passar o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para irem pôr no corpo de Jesus. Por isso, no domingo de manhã, ao nascer do sol, foram ao túmulo. Pelo caminho diziam umas às outras: «Quem no há-de rodar a pedra que está na entrada do túmulo?» É que a pedra era enorme. Mas quando lá chegaram, viram que já tinha sido arredada para o lado. Entraram no túmulo e viram lá dentro, sentado, à direita, um jovem vestido de branco. Ficaram muito assustadas, mas o jovem disse-lhes: «Não se assustem! Vêm procurar Jesus de Nazaré que foi crucificado, mas ele ressuscitou. Já não está aqui. Vejam o lugar onde o tinham posto. Vão já avisar Pedro e os outros discípulos e digam-lhes: Ele vai para a Galileia antes de vocês. Lá o hão-de ver, como ele vos tinha dito.»
Elas saíram do túmulo a correr, pois estavam a tremer de espanto. E não contaram nada a ninguém, de tão assustadas que estavam.

(Outra versão logo a seguir, no mesmo Marcos, 16:9-11)
Depois de ter ressuscitado, Jesus apareceu no domingo de manhazinha primeiramente a Maria Madalena, de quem antes tinha expulsado sete espíritos maus. Ela foi levar a notícia aos companheiros de Jesus, que estavam muito tristes e a chorar. Quando eles ouviram que Jesus estava vivo e que ela o tinha visto, não acreditaram.


EVANGELHO SEGUNDO SÃO LUCAS (24:1-12)
No domingo de manhãzinha, as mulheres levaram os perfumes que tinham preparado e foram ao túmulo. Nisto, viram que a pedra que tapava a entrada tinha sido rolada para o lado. Entraram, mas não encontraram o corpo de Jesus. Estavam sem saber o que haviam de fazer quando viram dois homens de pé junto delas, vestidos com roupas brilhantes. Elas baixaram os olhos para o chão, cheias de medo, mas eles disseram-lhes: «Porque procuram entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou. Não se lembram que ele vos disse, quando ainda estava na Galileia, que é preciso que o filho do Homem seja entregue ao poder dos maus, que seja pregado numa cruz e que ao terceiro dia ressuscite?» Elas então lembraram-se daquelas palavras. Saíram do túmulo e foram dizer tudo aos onze apóstolos e a todos os demais. Essas mulheres eram Maria Madalena, Joana, e Maria, Mãe de Tiago, e ainda outras que também confirmavam isso. Mas os apóstolos acharam que aquelas coisas que as mulheres comentaram não faziam sentido e não acreditaram nelas. No entanto, Pedro levantou-se e correu até ao sepulcro. Inclinou-se, viu apenas as ligaduras e voltou para a casa admirado com o que tinha acontecido.


EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO (20:1-10)
No domingo, Maria Madalena foi ao túmulo, logo de Manhã, fazendo ainda escuro e viu a pedra que o tapava já tinha sido retirada. Foi a correr ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e disse-lhes: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram.»
Então Pedro e outro discípulo saíram e forma o túmulo ver o que se passava. Iam a correr juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que o Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para ver e reparou que as ligaduras estavam no chão, mas não quis entrar. Logo a seguir chegou Simão Pedro. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver as ligaduras no chão e o pano que cobria a cabeça de Jesus dobrado a um canto e não misturado com as ligaduras. Depois entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro. Viu e acreditou. Na verdade ainda não tinham entendido a Sagrada Escritura, segundo a qual Jesus havia de ressuscitar. Depois disto, os discípulos foram-se embora para casa.

(Outra versão logo a seguir, no mesmo João, 20:11-18)
Maria estava junto ao túmulo da parte de fora, a chorar. Entretanto, inclinou-se para dentro do túmulo e viu dois anjos vestidos de branco. Estavam sentados no sítio onde tinha sido colocado o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles perguntaram-lhe: «Mulher, por que estás a chorar?» E ela disse-lhes: «Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.» Logo a seguir, voltou-se para trás e vou Jesus, de pé, mas não sabia que era ele. Perguntou-lhe Jesus. «Mulher, por que estás a chorar? Quem é que procuras?» Ela pensava que era o homem encarregado da propriedade e disse-lhe: «Se fosse tu que o tiraste, diz-me onde o puseste que eu vou lá buscá-lo.» Jesus chamou-a: «Maria!» Ela então exclamou: «Rabuni!» (palavra que quer dizer «meu Mestre»). E Jesus disse-lhe: «Deixa-me, porque ainda não voltei para o meu Pai. Vai ter com os meus irmãos e dá-lhes este recado: eu volto para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus.»
Maria Madalena foi dar a notícia aos discípulos e dizia: «Eu vi o Senhor!» E contou-lhes o que ele tinha dito.

15 de maio de 2015

O QUE REALMENTE ACONTECEU?... INTRODUÇÃO

A Bíblia foi copiada e recopiada várias vezes, e no processo foi corrigida, recorrigida, contracorrigida até que o maldito Gutenberg inventou a prensa e dificultou esse trabalho de ajustamento dos textos bíblicos. E depois do King James (Jaime I de Inglaterra) ter mandado traduzir a sua versão da Bíblia, esta passou a ser uma da versões mais famosas da Bíblia atual. Mas nem essa versão foi impassível de sofrer mudanças. Há vários linguistas de várias correntes cristãs e ateias que dizem que determinadas passagens bíblicas foram mal traduzidas, porque determinada palavra significa outra coisa na sua versão original. Na bíblia das Testemunhas de Jeová, por exemplo, onde na de King James Jesus diz: Em verdade te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso. Aparece o seguinte: Em verdade te digo hoje: estás comigo no Paraíso. Este simples movimento da pontuação altera eloquentemente o sentido das coisas. E onde todas as versões da Bíblias diz: cruz, a deles diz: estaca.

Eu não estou certo se a Bíblia não foi mais alterada desde King James, ou melhor, o exemplo acima mostra que foi, e acredito que existam já versões em que as milhentas contradições nela existentes foram sublimadas, o que queria dizer era: não estou certo se a própria versão de King James não foi alterada continuando a levar o cunho de King James. E nem a versão King James é garantia de fidelidade, na medida em que houve várias traduções nessa altura e em posteriores, e os especialistas que traduziram o King James também já receberam a sua quota de críticas.

Bem, toda esta introdução não é para fazer uma análise da fidelidade da Bíblia com os textos mais antigos conhecidos, ainda mais porque vou centrar-me apenas nos Quatro Evangelhos, e nem pretendo confrontar esses com os textos mais antigos, na medida em que não tenho nem material, nem faculdade para isso. E tem que se levar em conta que os quatro evangelhos, contidos no Codex Sinaiticus (o texto nem tão original, mas mais importante, rivalizando-se apenas com o Codex Vaticanus) apresentam muitíssimas alterações, sem esquecer que esses textos para serem sagrados foram votados democraticamente no Concílio de Niceia, escolhidos por bolas pretas e bolas brancas, no ano 325 d.C.. Por outras palavras, os textos sagrados mais antigos sobre a vida de Cristo só existiram 325 depois do mesmo. Entenda-se: não foram escritos nesse mesmo ano, mas antes, porém de qualquer forma muito posterior ao Cristo, as cópias mais antigas conhecidas datam de uns 200 anos. Eram vários romancistas que escreviam sobre Jesus, e o Concílio escolheu quatro deles para os Quatro Evangelho Sagrados – Palavras de Deus. Por Palavra de Deus e Sagrada Escritura só era considerado o que passou a ser conhecido por Antigo Testamento (Torá e Pentateúco), por isso era necessário sacralizar um novo grupo de textos para ser sacro-cristão porque o antigo testamento, na verdade, pertencia aos judeus e só contemplava a eles.

Tudo bem, aceita-se que uma questão de Espírito Santo e tão Sagrado quanto Deus possa ser democraticamente determinada, criando dogmas posteriores para garantir a sua sacralidade. Dogmas essas que por vezes entram em contradição com o próprio Deus. Por exemplo: Deus disse, nos 10 Mandamento: “Não façais para ti imagens… Eu Sou único… Não tenhais outros deuses”, a Igreja disse: Jesus é Deus… Maria é mãe de Deus, merece louvor… Vamos fazer imagens sagradas para reverenciar a Deus e é excomungado quem dizer que são profanasE é excomungado que negar os nossos dogmas… Excomungaram o próprio Deus no processo.

Vou aceitar que os Quatro Evangelhos são realmente Palavra de Deus, infalíveis e que contém em si a própria noção da verdade e do verdadeiro. E é a partir daqui que está série de artigos vai começar, e a pergunta que se vai fazer é: o que realmente aconteceu?

12 de maio de 2015

MONEY AS DEBT (a criação do dinheiro)

MONEY AS DEBT (Dinheiro como Dívida) é um documentário animado de 2006, feito pelo artista canadiano Paul Grignon, acerca do sistema monetário dos bancos modernos. O filme mostra o processo da criação do dinheiro pelos bancos, o seu enquadramento histórico e adverte sobre a sua insustentabilidade subsequente.

O filme tem continuações: Money as Debt II (2009) and Money as Debt III: Evolution Beyond Money (2011).

O filme introduz com uma história, A Aventura de Goldsmith (Ourives), uma breve e clara alegoria da história dos bancos, e termina identificando algumas alternativas para o sistema moderno dos bancos, tais como a nacionalização dos bancos e o pagamento dos dividendos ao público, estabelecer sistemas locais de trocas e câmbio (organismos sem fins lucrativos) ou a impressão do dinheiro pelos governos.
fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Money_as_Debt

24 de abril de 2015

UMA QUESTÃO DE... VIDA

Quem salva uma vida salva um mundo inteiro, diz o Talmude. 

Se pensarmos na frase, o que vamos concluir é que neste nosso mundo vivem vários outros mundos, ou seja cada um de nós é um mundo. E em cada um de nós vivem mundos, pessoas, paixões, amores, desejos, sonhos, fantasias, anseios, inquietações, medos e fantasmas. Em cada um de nós há sementes para mais vidas, e há oportunidades para sermos significativos nas vidas dos outros.

Agora põe-se a questão: será que somos? O que fazemos com a nossa vida para ajudar outras vidas?

Os religiosos dizem que deus criou tudo e entregou na mão de Adão para gerir, colocando o homem no centro do universo. O sol, o céu, a lua, as estrelas, os mares, a chuva, as árvores, os animais, os peixes, enfim, tudo o que está na terra e fora dela foi criado para o nosso deleite. Tudo na terra, mas tudo mesmo... bem, talvez não a melga e o vírus da SIDA.

Os evolucionistas, por seu turno, dizem que fomos mais hábeis e inteligentes que os outros animais, que desenvolvemos a linguagem e a comunicação de uma maneira mais complexa e completa, e que foi isso que ganhámos vantagem e que aprendemos a pensar e tornamo-nos melhor adaptados, e, portanto, merecemos gerir a Terra.

Pode-se ver que independentemente da abordagem que fizermos, seja religiosa, seja científica, a conclusão é a mesma: somos os gestores do planeta.

Isto, meus caros, demonstra apenas uma coisa: somos arrogantes até não mais poder. Achamo-nos no direito de manipular, conduzir, catalogar e definir a natureza, porque temos o poder para isso. Afinal ela não nos pertence?

E assim, para acrescentar mais questões àquelas que já tinha feito, faço outra: o que é para nós a vida?

Acho que pouca gente já pensou sobre o que significa a vida. Sim, eu sei que toda a gente pensa sobre a vida, a sua, simplesmente... outros até procuram descobrir qual é o sentido da vida. No entanto, muito pouca gente pensa sobre o que é a vida no geral.

Todo o mundo está de acordo a vida é muito valiosa, talvez seja mesmo o que que temos de mais valor. E todo o mundo concorda que se algo pode morrer significa que tem vida. Mas se há essa concordância sobre o valor da vida, porque então se mata indiscriminadamente? Não estou sequer a falar das vidas humanas tiradas em nome do petróleo, dos dólares ou da religião, nem das florestas que destruímos em nome do consumismo, mas das outras vidas que desvalorizamos: a vida dos animais.

Por que é que a vida dos animais não é valorizada?

A religião, inclusive o próprio Talmude, já se viu a braços com esse problema e encontrou a resposta para continuarmos com a nossa crueldade sem nenhuma crise de consciência. A religião disse: os animais não têm alma, só os humanos têm, por isso a vida deles não é comparável à nossa. Sim, resposta simples e prática. No entanto, a religião depois nos diz que a nossa alma irá para o paraíso e ali brincaremos com os leões que estarão a brincar com os cabritos, tudo isso na santa paz de deus. E aqui complica-se tudo, afinal os animais têm alma ou não? Como é que vão parar então ao paraíso?

Mas como não vou aqui discutir a religião, vou falar da abordagem científica.

A ciência diz-nos que a vida dos animais não tem o mesmo valor que a vida humana, porque, meus caros, nós… somos… o topo da cadeia alimentar. Fantástico! Nós pensamos, decidimos, criámos, inventámos, cultivamos... e eles não. Somos os chefes, somos os Passos Coelho e companhia, os restantes são meros funcionários, são simplesmente o povo, nada mais que votos e estatística, vamos, portanto, monopolizar os privilégios para nós e abusar da nossa posição. Só nós importamos, os animais não importam. E como pensamos e somos mais evoluídos cerebralmente, estamos então no direito de os comer. 

A ciência aceita isso tranquilamente, ao mesmo tempo que critica os religiosos que acreditam num deus ultra-mega-superior aos humanos, por não entenderem a lógica ou a moral desse deus (ponhamo-nos no lugar de animais e ponhamos deus no nosso lugar e vamos ver que fazemos tanto sentido quanto deus). Aliás, na mesma perspectiva, se uns extraterrestes muito mais avançados do que nós chegarem à Terra estarão no direito de nos usar para refeição e de nos abrir em laboratórios, usarem-nos em jaulas e brincarem com a nossa vida. Na verdade, nem precisamos de extraterrentes, se esticarmos este pragmatismo científico, vamos perceber que mesmo a vida humana não tem o mesmo valor. Foi o pragmatismo científico que inventou a teoria da raça no Séc. 18, para favorecer os europeus (brancos, entenda-se), dizendo que eram superiores e podiam escravizar todos os outros povos diferentes, e assim abusaram dos africanos, dos índios, dos chineses, dos indianos e de tudo o que tinha uma cor diferente. A ciência criava e ainda cria vários artifícios para desvalorizar a vida. 

A ciência não diminui o nosso valor, humanos, apesar de ridicularizar a religião, os físicos quânticos até afirmam que uma simples decisão nossa entre uma camisa e outra cria um universo pararelo, ou seja, nós somos criadores, mesmo que inconsciente, de universos. Deuses! Uau!

Hoje, a ciência diz que os animais são inteligentes, têm linguagem, aprendem parte da nossa linguagem, outras espécies como os gorilas ou os cães até compreendem melhor a nossa linguagem corporal do que nós mesmos, os gibões têm linguagem articulada, etecétera e tal, mas mesmo assim a vida destes animais continuam a não ter a mesma importância que a nossa, porque nós estamos no topo da cadeia alimentar, somos o topo da cadeia alimentar. E por que não estaríamos? Afinal fomos nos que criamos essa teoria. Pusemo-nos lá em cima quando devíamos colocar lá os pequenos vírus que anualmente dizimam milhões de vidas humanas.

Esta nossa arrogância permite-nos fazer mal aos animais e permite-nos dizer que a vida dos animais não importa ou porque estamos no topo da cadeia ou porque deus os criou para o nosso deleite. Por isso, fazemos touradas, e fazemos touradas porque amamos o touro, afinal se não fosse por nós o touro nunca teria chegado a visitar a cidade e teria vivido toda a sua vida em total ignorância. E se não fosse por nós, a espécie dos touros usada nas touradas já estaria extinta.

Somos tão arrogantes que, ao contrário dos bosquímanos, a tribo africana do Kalari, ou algumas tribos índias da amazonas, matamos indiferentemente os animais e matamos grande quantidade de animais, para depois deitar a carne fora, em nome de lucro. Estes povos que mencionei quando vão caçar têm o trabalho de explicar ao animal que precisam da sua carne para sobreviver (é certo que o animal prefereria continuar vivo e que eles se lixassem, mas... ok...) e nunca matam mais do que necessitam, porque, para eles, toda a vida tem valor… bem, talvez não a dos mosquitos.

E falando em mosquitos, o que será que determina o valor que damos a vida? Será a proximidade doméstica: a vida de um cão é mais valiosa que a de uma cabra? Ou será o tamanho do animal: a vida de uma baleia é mais valiosa que a de um rouxinol? Será a beleza que atribuímos ao animal: a vida do coelho é mais valiosa que a do crocodilo? Ou será que os animais que não comemos, pelo menos na nossa cultura, como o gato ou o cão terão a vida mais valiosa que o porco ou a vaca? Já vi, e inclusive, já participei em marchas a favor de cães e gatos, e depois fomos a um restaurante comer um grande prato de bife de vaca. Grande hipocrisia, não?

Sim, não sou nem vegano, nem vegetariano. Eu como os animais. Gostava de ser mais evoluído e poder deixar de comê-los porque a sociedade atual oferece-me muitas alternativas. No entanto, sinto-me mais evoluído do que as pessoas que vejo a deitarem fora muita comida, sem pensarem que dessa forma só estão a contribuir para a morte de mais animais. 

Não estou a dizer a ninguém para se tornar vegetariano, estou é a tentar chamar a atenção para o encorajamento que damos às indústrias da morte que só querem saber do lucro. Eu trabalhei num supermecado, a carne era muitas vezes reciclada, lavada e etiquetada de novo para levar mais tempo, mas mesmo assim grande quantidade acabava por ser deitada fora.


Bem, quero voltar às questões que lá em cima coloquei, como já devem ter visto, não tenho resposta para elas. Porém isso não quer dizer que por falta de respostas elas não devam ser feitas. O que eu sei é que desvalorizamos a vida, somos cruéis com os animais e destruímos a natureza, simplesmente porque podemos e simplesmente porque ou não pensamos nas consequências ou não queremos sair da nossa zona de conforto para pensarmos nelas.

E assim, fecho esta exposição com a frase com que comecei: O Talmude diz: quem salva uma vida, salva um mundo inteiro. No entanto, gostaria que fizéssemos todos a nós mesmos esta questão: o que é uma vida? 

23 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - conclusão

É difícil medir a qualidade de vida, no entanto, para viver dentro dos parâmetros da boa vida da sociedade moderna, ou pelo menos como ela nos é publicitada, a qualidade de vida está proporcionalmente ligada à quantidade do dinheiro. Isto porque a nossa sociedade não premeia e nem leva em conta os valores espirituais (não confundir, por favor, com os valores religiosos), apenas os materiais. Vivemos num mundo de excesso e vivemos para o excesso, egoístas e hedonistas. Há empresas que fazem anualmente uma lista de cidades com melhor ou pior qualidade de vida (http://greensavers.sapo.pt/2015/03/04/as-cidades-com-melhor-e-pior-qualidade-de-vida-do-mundo-com-fotos/), lista essa baseada em comodidades ocidentais, como por exemplo, melhores hospitais, melhores serviços de transporte público, melhores praias, melhores discotecas, entres outros, mas sabemos que todas essas melhores coisas só podem se acedidas por quem tenha dinheiro, o que acaba por se resumir em: muito dinheiro, muita qualidade de vida. Os índios, por exemplo, a viverem na selva em plena comunhão com a natureza, com praias naturais, ar puro, alimentos não contaminados por químicos, não têm para nós uma boa qualidade de vida, porque não tem as comodidades que temos aqui. E quando vemos um habitat imaculado como o deles, o que fazemos? Expulsamo-los de lá e começamos a enviar turistas cobrando o uso do espaço.

A nossa sociedade está muito orientada para o dinheiro, o capitalismo impera e ficamos cegos para qualquer outra coisa que não seja o dinheiro. E achamos que não podemos viver sem o capitalismo, porque ele veste as capas da democracia, da liberdade e da justiça. 

Não é raro pensarmos que sem o capitalismo, ou com outras alternativas, como o comunismo ou socialismo, perderemos a democracia e a liberdade, mas a verdade é que o capitalismo não nos deixa livres e subverte todos esses ideais citados. O dinheiro elege os presidentes e os governos, o dinheiro compra a justiça, o dinheiro corrompe a democracia, deixando o povo apenas com a ilusão de escolha.

Henrique Monteiro - Gerações em Choque
Vemos hoje e temos a certeza de que o capitalismo é um sistema gasto e ultrapassado, mas que só continua a imperar porque o poder está nas mãos daqueles que o publicitam como a única hipótese, e que se beneficiam realmente com essa crença. E sofremos hoje cada vez mais lavagem cerebral para não nos preocuparmos com o preocupante e nos atermos apenas ao supérfluo, facilitando a nossa manipulação e o aceitar simples das mentiras que nos impingem, continuando na letargia mental, sem trabalhar para as mudanças.

Há hoje alternativa para o dinheiro ou para o capitalismo? 

Para o dinheiro dificilmente encontraremos alternativa, mas pra o capitalismo sim. É necessário haver uma transformação económica onde o dinheiro não seja o fim, mas apenas um meio, ou menos que isso, apenas uma ferramenta. Embora se diga que a Europa defende a igualdade, não é verdade; como é possível haver a igualdade se as pessoas só podem viver bem se tiverem poder de compra e os poucos que têm dinheiro usam-no para controlar os demais e limitar-lhes os passos? Uma sociedade sem dinheiro significaria que a economia subsistiria de permuta, mas a dimensão das sociedades modernas dificultaria a permuta. Há determinados trabalhos hoje que são puramente intelectual e que não geram produtos físicos passíveis de serem usados em permuta. Para compensar isso, teríamos de usar uma outra forma qualquer de equivalência, ou seja voltaríamos ao dinheiro.

Há uma organização chamada Projecto Vénus, que publicita finalidades humanitárias e faz observações críticas sobre o sistema de governo atual, dominado pelo capitalismo, pelo consumismo e pela busca desenfreada do lucro à custa do planeta. Ela acredita que possui a solução para os problemas do capitalismo: abolir o dinheiro e desenvolver a economia de recursos. No entanto, o Projeto Vénus em vez de dinheiro, fala de créditos, e os créditos seriam usados apenas para ter acesso aos recursos e não para criar a clivagem social como a que temos hoje e que tivemos desde sempre, na verdade, desde que o homem inventou o dinheiro. Muitas de ideias do Projecto Vénus são boas, mas as explanações sobre o sistema social que promove são fracas, parece o comunismo mas sem a maturação adequada.

Quanto ao capitalismo, Margaret Thatcher garantia ferinamente que não havia alternativa ao capitalismo, de tal maneira que o seu TINA (There Is No Alternative) passou a ser a oração preferida no Wall Street, dos bancos e, subsequentemente, dos governos pelo mundo fora. Mas há sim alternativas para o capitalismo e podem ser: 

1. Fora do capitalismo: socialismo democrático, maior controlo do estado sobre as empresas, a economia e os mercados em benefícios das famílias e dos indivíduos, afinal se o estado somos nós, por que razão quem sai a ganhar são as empresas? No entanto, que não seja do tipo do controlo que assistimos atualmente, onde multinacionais multimilionárias fazem lobby junto aos governantes para obterem ferramentas para canibalizar as empresas mais pequenas, usando as máquinas do governo a seu favor. (Por exemplo, vemos agora o governo a cobrar coercivamente os cidadãos através do aparelho das finanças para pagar às grandes empresas, mas não faz essa cobrança para toda e qualquer empresa, mostrando assim como é manipulado e nós com ele). 

2. Dentro do capitalismo: o cooperativismo, começado por Robert Owen e cuja maior expressão se encontra na Corporação Mondragon, pode ser a solução para o sistema que temos, na medida em que a distribuição dos benefícios é maior entre os intervenientes, em vez de cem pessoas trabalharem para uma enriquecer, neste sistema as cem dividem o lucro de maneira equitativa, o que beneficia os indivíduos em maior escala. Se pensarmos na Pirâmide de Maslow e confrontarmos com o sistema atual, vemos como dificilmente um empregado pode sentir-se motivado num emprego de que não gosta. Aliás, falamos de liberdade, mas considerando que a maior parte das pessoas está num emprego que não gosta só porque tem compromissos que só pode cumprir se possuir um salário facilmente concluímos que somos escravos nesta sociedade de liberdade.


O que podemos então fazer? Gerir as nossas vidas, evitar o consumismo exacerbado, usar economias alternativas e cuidar do nosso habitat. Se o dinheiro nos custa tanto a ganhar, não o devemos dar a qualquer vendedor que nos mostre um produto que só tem seis meses de vida (a conspiração da lâmpada). Se não temos poder para mudar as coisas no aspeto macro, mudemo-las no aspeto micro, mudemos as nossas formas de consumo. Contenhamo-nos. 

22 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte V

Papa ajoelhado em ouro para mostrar a sua humildade
Thorstein Veblen defendia, em 1899, com o seu livro, A Teoria da Classe Ociosa, de que os ricos cultivam o ócio, gastam o dinheiro em excentricidades apenas manifestar o posse, porque despertar a inveja nos outros é a forma que encontram para mostrar a sua importância e demarcar-se dos demais. Para a classe ociosa, ou rica, a utilidade é secundária à futilidade, por exemplo, gastam um valor abissal num rabisco chamado quadro de que nem sequer gostam para pendurar na parede da sala. E essa forma de gastar, segundo o mesmo, era nobre, investir no ócio, na arte e nas veleidades é que estabalecia uma espécie de sistema de casta que diferenciavas as populações. Um século depois dessa visão veblenista (ou devia ser vebleniano) as coisas não modificaram.

Mas como se demarca hoje um rico dos demais? Nesta época da reprodutibilidade técnica, conforme o chamou Walter Benjamin no seu trabalho, A Obra da Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, nesta era onde a arte é determinada pela sua capacidade de gerar dinheiro, onde réplicas de David de Miguel Ângelo, réplicas de Monna Lisa de Leonardo da Vinci podem ser encontradas em estabelecimentos comerciais vários, onde o cinema e a televisão fazem o entretenimento das massas, onde todos podem comprar e alguns compram, mesmo a troco dos olhos da cara, objetos caros que antes do Fordismo-Taylorismo eram exclusivos aos ricos; hoje que até um pé-rapado (usando a expressão de Marinho e Pinto) pode comprar um i-phone ou i-pad, como se demarcam os ricos dos demais? Bem, elevando a fasquia. Pondo de parte a utilidade, compram bolsas ou pedaços de panos para assoar o nariz por um preço exorbitante a partir de mercados elitistas. Há mercados que criam produtos que afastam os pobres, produtos por diferenciação, sobrevivem por essa razão e enriquecem-se assim porque os ricos, como já foi observado, não compram pela utilidade, mas exatamente para alimentar a vaidade. E aumentar os dígitos bancários enquanto veem na televisão que muitos morrem à fome, talvez lhes dê essa satisfação vaidosa de se encontrarem no topo do mundo (mas isso talvez seja para os sádicos). O cinema é popular, mas o teatro nem tanto assim, os festivais rocks e não-sei-quantas são populares, mas a ópera é mesmo para quem pode pagar, e acredito que a maior parte dos ricos que frequentam a ópera nem têm sensibilidade para apreciar a obra. Ou seja, encontram sempre a forma de usar a arte de forma demarcatória.

Estas características, no entanto, de demarcação vaidosa, não é exclusiva dos ricos, todos a têm. As pessoas todas hoje consomem mais pela vaidade do que pela utilidade, há pessoas pobres que preferem passar fome e possuir telemóveis da última geração, apenas e nada mais do que apenas para dar nas vistas, porque dessa forma sentem-se niveladas com os ricos, pelo menos nesse aspeto.

As pessoas trabalham hoje, a maioria para sobreviver, é certo, mas com aquele desejo secreto de poder investir no ócio e na vaidade, comprando o supérfluo em detrimento do útil, e os paradigmas sociais, filhos da publicidade, garantem-nos que a felicidade se encontra nas coisas materiais e no sentido de posse, o que só podemos obter através do dinheiro. 

O ócio é necessário para qualquer ser humano, por essa mesma razão é que se tornou num produto. Dividiu-se o tempo em três partes: oito horas para trabalhar, oito para o ócio, e oito para dormir (a verdade é que esta divisão é apenas idílica); depois de passarmos as primeiras oitos horas a gerar dinheiro para outras pessoas, passamos as segundas oito horas a usar o dinheiro que ganhamos nesse processo nos vendedores do ócio, e passamos a restantes oito horas a ter pesadelos sobre a falta de dinheiro e as dívidas por pagar. 

Divertir-se é a ordem do dia, afinal a vida não é feita só de trabalhos. Sim, é verdade, mas não há diversão gratuita, ou pelo menos tentam convencer-nos de que não há, pois as gratuitas não valem a pena porque até um pé-rapado o pode ter, e como todos nós queremos ser diferentes, lá somos arrastados para as diversões pagas. O mercado de ócio é o que mais cresceu com a terceira rutura.

O estilo de vida que adotamos hoje e a lavagem cerebral que recebemos pelos médias (cinema, televisão, livros, músicas, internet e outros), garantem-nos que precisamos de dinheiro para não passarmos de uns falhados. Dividimo-nos hoje, como na sociedade americana, em winners e losers, conforme o dinheiro que ganhamos, ou melhor, os materiais que ostentamos. E ninguém quer ficar no segundo grupo. Assim, tudo o que ganhamos com o nosso consumismo desenfreado é a destruição do planeta e dos nossos habitats.

Reclamamos que a terra é nossa, aliás que deus criou o universo e nos colocou no centro para o governarmos, inflamos a nossa importância, quando, na verdade, no panorama geral, em termos comparativos, não passamos da sombra de uma mancha microscópica numa partícula de um grão de poeira na ferrugem do prego que suporta o quadro Monna Lisa e julgamos que somos nós a obra de arte.

O consumismo desenfreado só nos leva à nossa extinção e alguns já previram isso, razão porque querem colonizar Marte, mas somos tão tolos e tão pouco ponderados que continuamos simplesmente a comprar o nosso fim conforme que nos dizem e a gastar irrefletidamente, sem pensar nas alternativas existentes.

É certo que não podemos viver sem dinheiro hoje, não se quisermos viver na modernidade, com todos estes confortos que custam tão caros e que nos custam o planeta. Há pessoas que conseguiram fugir destas masmorras sociais modernas e que mudaram radicalmente a sua forma de viver, conseguindo fazê-lo sem dinheiro. No entanto, para a maioria, a alternativa está em promover a uma gestão financeira adequada à necessidade e não à futilidade.

Não vivemos em pequenas comunidades razão porque a permuta não pode funcionar muito bem atualmente, por isso o trabalho continua a ser medido em dinheiro e não em outros benefícios, mas se sempre que pudermos fazer a permuta o fizermos não só reduziremos os desperdícios como poderemos poupar mais e aumentar a nossa qualidade de vida (um conceito totalmente subjetivo, é certo, porque se para uns significa comer todos os dias nas grandes cadeias de fast-food para outros é ter tempo para ler um bom livro ou visitar um museu).

21 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte IV

Com o aparecimento da Internet, talvez possamos dizer que talvez estejamos às portas de uma QUARTA GRANDE RUTURA (se é que já não entramos por ela), começando especificamente com o Web 2.0, a segunda geração da Internet, aquela que permite a todo e qualquer um carregar as suas própria informações ou os seus próprios produtos na rede.  

A segunda geração da Internet modificou grandemente a sociedade, mas o que a Internet trouxe de novo em termo de dinheiro são os bitcoins, há empresas que contratam pessoas (ou escravizam) para jogarem na Internet a fim de converter essas moedas eletrónicas em digitais, por exemplo numa consulta feita no dia 07/04/15 (http://br.investing.com/currencies/btc-usd-converter) um Bitcoin (1 BTC) valia 249, 19 USD, ou seja é uma moeda com muita confiança. Estamos a passar da moeda-eletrónica para a moeda-digital. E os grandes mercados (bancos e multinacionais) estão a mudar de novo as suas práticas comerciais, considerando a grande vantagem que já obtiveram em relação a policiamento que os governos faziam, tornando-se cada vez mais a serem eles a governar. Porém a história tratará de estabelecer as balizas, não eu.


O desenvolvimento deste texto até aqui é um tanto parcial, na medida em que aparentemente me foquei mais no lado negativo da questão do dinheiro, porém, é necessário esta abordagem para o tema a que o blog se propõe (afinal no que está bom não se deve tocar, senão para melhorar, no mau é que se trabalha). É inegável que com cada uma destas ruturas houve mudanças sociais significativas para o bem, a arquitetura, a medicina, o ensino e as demais áreas beneficiaram muito com essas modificações que aconteceram. Porém, o que quero aqui apontar é a evolução de um grupo de humanoides que viviam em comunidades, protegiam-se e trabalhavam para um bem comum, para a nossa sociedade atual totalmente individualista, hedonista e egoísta, onde o acumular é a atitude mais louvável. Não é raro vermos serem apontados como pessoas mais influentes do planeta os homens mais ricos, e por que não?, afinal são eles que decidem o rumo das coisas. Vejamos o exemplo dos antigos heróis mitológicos, eram pessoas que faziam coisas extraordinárias, hoje os nossos heróis são pessoas que ganham muito dinheiro. Nenhum dos nossos talentos tem hoje qualquer valor se não rende dinheiro. Por exemplo, há bons pintores nos passeios à frente do Mosteiros dos Jerónimos a ganharem moedinhas de turistas admirados, mas nunca serão reconhecidos, apesar de muitas vezes terem bons quadros dignos de uma galeria de topo. E quando são chamados de artistas, são artistas menores, porque não vendem por somas elevadas os seus trabalhos.
  
A capacidade de gerar dinheiro é que determina o estado das coisas hoje, mesmo as religiões – que publicitam o plano espiritual – estão mais orientadas a fazer dinheiro, pois quanto mais têm mais conhecidas são, mais publicidade fazem e mais adeptos atraem, vou apontar a fenómenos recentes como a IURD, a Cientologia, ou a Igreja Zumbi, esta última se aproveita da Internet e do descontentamento das pessoas contra o estado para criar mais adeptos e ganhar a isenção fiscal destinada a organizações religiosas, mas daqui a duas gerações terá crentes fervorosos.

Hoje tudo é um produto, as pessoas, a fé, o gosto, as ideias, o talento, a vida, assim como a morte, e o valor desses produtos está na sua capacidade de gerar dinheiro, aliás, acumular dinheiro, porque a maior parte do dinheiro que as pessoas geram é para encher os bolsos de outrem. Não conseguimos viver sem pagar a outros, e não é o nosso trabalho que paga, visto que trabalhamos só para uns poucos se enriquecerem. Temos de pagar pela água, pela comida, pelo teto, pelo entretenimento, pela informação entre outras, e nossa vida é determinada não pela nossa capacidade de trabalhar mas pela capacidade de pagar.

Há pessoas a trabalharem dezasseis horas por dia e ganharem ridiculamente mal, levando-nos a perguntar: afinal onde está recompensa na promessa feita aos trabalhadores? Onde está a verdade na frase: “O trabalho dignifica!”, se a essas pessoas ninguém dá valor? E as outras que dirigem instituições importantes (mas que nunca sabem o que lá acontece - este, este e este e mais este) são tratadas com deferência tanto pelos políticos como pelos juízes mesmo quando roubam uma dessas instituições, continuando a ser sentadas à cabeça das mesas. Onde se encontra a dignidade, então? Decerto não no trabalho, mas no valor acumulado. 
  
O Preço da Diginidade - Henrique Monteiro
A física mede o trabalho em termos da energia e da força, mas a economia mede o trabalho em termos de salário e do dinheiro gerado, e quando falamos do trabalho na sociedade moderna referimo-nos à sua relação com o dinheiro, ou seja no seu conceito económico. Um grupo de voluntários que limpam a rua, porque não geram receita para si não são considerados trabalhadores, portanto não são dignos, mas um grupo de mandriões a discutir num programa na televisão sobre as cores das meias do Cristiano Ronaldo já são dignos porque ganham muito dinheiro com isso, são “trabalhadores”. No entanto, os dignos, ou melhor, os trabalhadores de verdade, são tratados com lixo e cidadãos de terceira, sendo atiradas para o meio da rua quando faltam ao pagamento da prestação da casa, enquanto os CEO de grandes empresas directores de instituições públicas que, como já tinha dito, depois vêm ao público dizer que não sabiam o que se passava na organização que dirigem (outro, outro e outro e  mais outro) quando acontece algum escândalo, são beneficiados e são tratados com deferência e luvas de pelica não pela dignidade de serem trabalhadores – porque nestes termos não o podem ser –, mas pela do dinheiro acumulado.

A Oxfam – uma organização contra a fome – garante que, em 2016, 51% da riqueza mundial ficará nas mãos de 1% da população mundial, estimada em 7,5 mil milhões (ou 7,5 bilhões, segundo a leitura brasileira ou americana). Este número mostra o enorme desequilíbrio existente na distribuição da renda e reafirma a divisão social que prevalece desde a primeira rutura, o senhor e os escravos, embora hoje com configurações diferentes. O que diz este número é que para cada rico há milhões de pobres.

É a falta do dinheiro o problema? A verdade é que o dinheiro existe, está nos grandes bancos, mas o sistema financeiro só sobrevive se existir o desequilíbrio social, tanto em termos económicos como em outros. O sistema vive das diferenças sociais.