23 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - conclusão

É difícil medir a qualidade de vida, no entanto, para viver dentro dos parâmetros da boa vida da sociedade moderna, ou pelo menos como ela nos é publicitada, a qualidade de vida está proporcionalmente ligada à quantidade do dinheiro. Isto porque a nossa sociedade não premeia e nem leva em conta os valores espirituais (não confundir, por favor, com os valores religiosos), apenas os materiais. Vivemos num mundo de excesso e vivemos para o excesso, egoístas e hedonistas. Há empresas que fazem anualmente uma lista de cidades com melhor ou pior qualidade de vida (http://greensavers.sapo.pt/2015/03/04/as-cidades-com-melhor-e-pior-qualidade-de-vida-do-mundo-com-fotos/), lista essa baseada em comodidades ocidentais, como por exemplo, melhores hospitais, melhores serviços de transporte público, melhores praias, melhores discotecas, entres outros, mas sabemos que todas essas melhores coisas só podem se acedidas por quem tenha dinheiro, o que acaba por se resumir em: muito dinheiro, muita qualidade de vida. Os índios, por exemplo, a viverem na selva em plena comunhão com a natureza, com praias naturais, ar puro, alimentos não contaminados por químicos, não têm para nós uma boa qualidade de vida, porque não tem as comodidades que temos aqui. E quando vemos um habitat imaculado como o deles, o que fazemos? Expulsamo-los de lá e começamos a enviar turistas cobrando o uso do espaço.

A nossa sociedade está muito orientada para o dinheiro, o capitalismo impera e ficamos cegos para qualquer outra coisa que não seja o dinheiro. E achamos que não podemos viver sem o capitalismo, porque ele veste as capas da democracia, da liberdade e da justiça. 

Não é raro pensarmos que sem o capitalismo, ou com outras alternativas, como o comunismo ou socialismo, perderemos a democracia e a liberdade, mas a verdade é que o capitalismo não nos deixa livres e subverte todos esses ideais citados. O dinheiro elege os presidentes e os governos, o dinheiro compra a justiça, o dinheiro corrompe a democracia, deixando o povo apenas com a ilusão de escolha.

Henrique Monteiro - Gerações em Choque
Vemos hoje e temos a certeza de que o capitalismo é um sistema gasto e ultrapassado, mas que só continua a imperar porque o poder está nas mãos daqueles que o publicitam como a única hipótese, e que se beneficiam realmente com essa crença. E sofremos hoje cada vez mais lavagem cerebral para não nos preocuparmos com o preocupante e nos atermos apenas ao supérfluo, facilitando a nossa manipulação e o aceitar simples das mentiras que nos impingem, continuando na letargia mental, sem trabalhar para as mudanças.

Há hoje alternativa para o dinheiro ou para o capitalismo? 

Para o dinheiro dificilmente encontraremos alternativa, mas pra o capitalismo sim. É necessário haver uma transformação económica onde o dinheiro não seja o fim, mas apenas um meio, ou menos que isso, apenas uma ferramenta. Embora se diga que a Europa defende a igualdade, não é verdade; como é possível haver a igualdade se as pessoas só podem viver bem se tiverem poder de compra e os poucos que têm dinheiro usam-no para controlar os demais e limitar-lhes os passos? Uma sociedade sem dinheiro significaria que a economia subsistiria de permuta, mas a dimensão das sociedades modernas dificultaria a permuta. Há determinados trabalhos hoje que são puramente intelectual e que não geram produtos físicos passíveis de serem usados em permuta. Para compensar isso, teríamos de usar uma outra forma qualquer de equivalência, ou seja voltaríamos ao dinheiro.

Há uma organização chamada Projecto Vénus, que publicita finalidades humanitárias e faz observações críticas sobre o sistema de governo atual, dominado pelo capitalismo, pelo consumismo e pela busca desenfreada do lucro à custa do planeta. Ela acredita que possui a solução para os problemas do capitalismo: abolir o dinheiro e desenvolver a economia de recursos. No entanto, o Projeto Vénus em vez de dinheiro, fala de créditos, e os créditos seriam usados apenas para ter acesso aos recursos e não para criar a clivagem social como a que temos hoje e que tivemos desde sempre, na verdade, desde que o homem inventou o dinheiro. Muitas de ideias do Projecto Vénus são boas, mas as explanações sobre o sistema social que promove são fracas, parece o comunismo mas sem a maturação adequada.

Quanto ao capitalismo, Margaret Thatcher garantia ferinamente que não havia alternativa ao capitalismo, de tal maneira que o seu TINA (There Is No Alternative) passou a ser a oração preferida no Wall Street, dos bancos e, subsequentemente, dos governos pelo mundo fora. Mas há sim alternativas para o capitalismo e podem ser: 

1. Fora do capitalismo: socialismo democrático, maior controlo do estado sobre as empresas, a economia e os mercados em benefícios das famílias e dos indivíduos, afinal se o estado somos nós, por que razão quem sai a ganhar são as empresas? No entanto, que não seja do tipo do controlo que assistimos atualmente, onde multinacionais multimilionárias fazem lobby junto aos governantes para obterem ferramentas para canibalizar as empresas mais pequenas, usando as máquinas do governo a seu favor. (Por exemplo, vemos agora o governo a cobrar coercivamente os cidadãos através do aparelho das finanças para pagar às grandes empresas, mas não faz essa cobrança para toda e qualquer empresa, mostrando assim como é manipulado e nós com ele). 

2. Dentro do capitalismo: o cooperativismo, começado por Robert Owen e cuja maior expressão se encontra na Corporação Mondragon, pode ser a solução para o sistema que temos, na medida em que a distribuição dos benefícios é maior entre os intervenientes, em vez de cem pessoas trabalharem para uma enriquecer, neste sistema as cem dividem o lucro de maneira equitativa, o que beneficia os indivíduos em maior escala. Se pensarmos na Pirâmide de Maslow e confrontarmos com o sistema atual, vemos como dificilmente um empregado pode sentir-se motivado num emprego de que não gosta. Aliás, falamos de liberdade, mas considerando que a maior parte das pessoas está num emprego que não gosta só porque tem compromissos que só pode cumprir se possuir um salário facilmente concluímos que somos escravos nesta sociedade de liberdade.


O que podemos então fazer? Gerir as nossas vidas, evitar o consumismo exacerbado, usar economias alternativas e cuidar do nosso habitat. Se o dinheiro nos custa tanto a ganhar, não o devemos dar a qualquer vendedor que nos mostre um produto que só tem seis meses de vida (a conspiração da lâmpada). Se não temos poder para mudar as coisas no aspeto macro, mudemo-las no aspeto micro, mudemos as nossas formas de consumo. Contenhamo-nos. 

22 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte V

Papa ajoelhado em ouro para mostrar a sua humildade
Thorstein Veblen defendia, em 1899, com o seu livro, A Teoria da Classe Ociosa, de que os ricos cultivam o ócio, gastam o dinheiro em excentricidades apenas manifestar o posse, porque despertar a inveja nos outros é a forma que encontram para mostrar a sua importância e demarcar-se dos demais. Para a classe ociosa, ou rica, a utilidade é secundária à futilidade, por exemplo, gastam um valor abissal num rabisco chamado quadro de que nem sequer gostam para pendurar na parede da sala. E essa forma de gastar, segundo o mesmo, era nobre, investir no ócio, na arte e nas veleidades é que estabalecia uma espécie de sistema de casta que diferenciavas as populações. Um século depois dessa visão veblenista (ou devia ser vebleniano) as coisas não modificaram.

Mas como se demarca hoje um rico dos demais? Nesta época da reprodutibilidade técnica, conforme o chamou Walter Benjamin no seu trabalho, A Obra da Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, nesta era onde a arte é determinada pela sua capacidade de gerar dinheiro, onde réplicas de David de Miguel Ângelo, réplicas de Monna Lisa de Leonardo da Vinci podem ser encontradas em estabelecimentos comerciais vários, onde o cinema e a televisão fazem o entretenimento das massas, onde todos podem comprar e alguns compram, mesmo a troco dos olhos da cara, objetos caros que antes do Fordismo-Taylorismo eram exclusivos aos ricos; hoje que até um pé-rapado (usando a expressão de Marinho e Pinto) pode comprar um i-phone ou i-pad, como se demarcam os ricos dos demais? Bem, elevando a fasquia. Pondo de parte a utilidade, compram bolsas ou pedaços de panos para assoar o nariz por um preço exorbitante a partir de mercados elitistas. Há mercados que criam produtos que afastam os pobres, produtos por diferenciação, sobrevivem por essa razão e enriquecem-se assim porque os ricos, como já foi observado, não compram pela utilidade, mas exatamente para alimentar a vaidade. E aumentar os dígitos bancários enquanto veem na televisão que muitos morrem à fome, talvez lhes dê essa satisfação vaidosa de se encontrarem no topo do mundo (mas isso talvez seja para os sádicos). O cinema é popular, mas o teatro nem tanto assim, os festivais rocks e não-sei-quantas são populares, mas a ópera é mesmo para quem pode pagar, e acredito que a maior parte dos ricos que frequentam a ópera nem têm sensibilidade para apreciar a obra. Ou seja, encontram sempre a forma de usar a arte de forma demarcatória.

Estas características, no entanto, de demarcação vaidosa, não é exclusiva dos ricos, todos a têm. As pessoas todas hoje consomem mais pela vaidade do que pela utilidade, há pessoas pobres que preferem passar fome e possuir telemóveis da última geração, apenas e nada mais do que apenas para dar nas vistas, porque dessa forma sentem-se niveladas com os ricos, pelo menos nesse aspeto.

As pessoas trabalham hoje, a maioria para sobreviver, é certo, mas com aquele desejo secreto de poder investir no ócio e na vaidade, comprando o supérfluo em detrimento do útil, e os paradigmas sociais, filhos da publicidade, garantem-nos que a felicidade se encontra nas coisas materiais e no sentido de posse, o que só podemos obter através do dinheiro. 

O ócio é necessário para qualquer ser humano, por essa mesma razão é que se tornou num produto. Dividiu-se o tempo em três partes: oito horas para trabalhar, oito para o ócio, e oito para dormir (a verdade é que esta divisão é apenas idílica); depois de passarmos as primeiras oitos horas a gerar dinheiro para outras pessoas, passamos as segundas oito horas a usar o dinheiro que ganhamos nesse processo nos vendedores do ócio, e passamos a restantes oito horas a ter pesadelos sobre a falta de dinheiro e as dívidas por pagar. 

Divertir-se é a ordem do dia, afinal a vida não é feita só de trabalhos. Sim, é verdade, mas não há diversão gratuita, ou pelo menos tentam convencer-nos de que não há, pois as gratuitas não valem a pena porque até um pé-rapado o pode ter, e como todos nós queremos ser diferentes, lá somos arrastados para as diversões pagas. O mercado de ócio é o que mais cresceu com a terceira rutura.

O estilo de vida que adotamos hoje e a lavagem cerebral que recebemos pelos médias (cinema, televisão, livros, músicas, internet e outros), garantem-nos que precisamos de dinheiro para não passarmos de uns falhados. Dividimo-nos hoje, como na sociedade americana, em winners e losers, conforme o dinheiro que ganhamos, ou melhor, os materiais que ostentamos. E ninguém quer ficar no segundo grupo. Assim, tudo o que ganhamos com o nosso consumismo desenfreado é a destruição do planeta e dos nossos habitats.

Reclamamos que a terra é nossa, aliás que deus criou o universo e nos colocou no centro para o governarmos, inflamos a nossa importância, quando, na verdade, no panorama geral, em termos comparativos, não passamos da sombra de uma mancha microscópica numa partícula de um grão de poeira na ferrugem do prego que suporta o quadro Monna Lisa e julgamos que somos nós a obra de arte.

O consumismo desenfreado só nos leva à nossa extinção e alguns já previram isso, razão porque querem colonizar Marte, mas somos tão tolos e tão pouco ponderados que continuamos simplesmente a comprar o nosso fim conforme que nos dizem e a gastar irrefletidamente, sem pensar nas alternativas existentes.

É certo que não podemos viver sem dinheiro hoje, não se quisermos viver na modernidade, com todos estes confortos que custam tão caros e que nos custam o planeta. Há pessoas que conseguiram fugir destas masmorras sociais modernas e que mudaram radicalmente a sua forma de viver, conseguindo fazê-lo sem dinheiro. No entanto, para a maioria, a alternativa está em promover a uma gestão financeira adequada à necessidade e não à futilidade.

Não vivemos em pequenas comunidades razão porque a permuta não pode funcionar muito bem atualmente, por isso o trabalho continua a ser medido em dinheiro e não em outros benefícios, mas se sempre que pudermos fazer a permuta o fizermos não só reduziremos os desperdícios como poderemos poupar mais e aumentar a nossa qualidade de vida (um conceito totalmente subjetivo, é certo, porque se para uns significa comer todos os dias nas grandes cadeias de fast-food para outros é ter tempo para ler um bom livro ou visitar um museu).

21 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte IV

Com o aparecimento da Internet, talvez possamos dizer que talvez estejamos às portas de uma QUARTA GRANDE RUTURA (se é que já não entramos por ela), começando especificamente com o Web 2.0, a segunda geração da Internet, aquela que permite a todo e qualquer um carregar as suas própria informações ou os seus próprios produtos na rede.  

A segunda geração da Internet modificou grandemente a sociedade, mas o que a Internet trouxe de novo em termo de dinheiro são os bitcoins, há empresas que contratam pessoas (ou escravizam) para jogarem na Internet a fim de converter essas moedas eletrónicas em digitais, por exemplo numa consulta feita no dia 07/04/15 (http://br.investing.com/currencies/btc-usd-converter) um Bitcoin (1 BTC) valia 249, 19 USD, ou seja é uma moeda com muita confiança. Estamos a passar da moeda-eletrónica para a moeda-digital. E os grandes mercados (bancos e multinacionais) estão a mudar de novo as suas práticas comerciais, considerando a grande vantagem que já obtiveram em relação a policiamento que os governos faziam, tornando-se cada vez mais a serem eles a governar. Porém a história tratará de estabelecer as balizas, não eu.


O desenvolvimento deste texto até aqui é um tanto parcial, na medida em que aparentemente me foquei mais no lado negativo da questão do dinheiro, porém, é necessário esta abordagem para o tema a que o blog se propõe (afinal no que está bom não se deve tocar, senão para melhorar, no mau é que se trabalha). É inegável que com cada uma destas ruturas houve mudanças sociais significativas para o bem, a arquitetura, a medicina, o ensino e as demais áreas beneficiaram muito com essas modificações que aconteceram. Porém, o que quero aqui apontar é a evolução de um grupo de humanoides que viviam em comunidades, protegiam-se e trabalhavam para um bem comum, para a nossa sociedade atual totalmente individualista, hedonista e egoísta, onde o acumular é a atitude mais louvável. Não é raro vermos serem apontados como pessoas mais influentes do planeta os homens mais ricos, e por que não?, afinal são eles que decidem o rumo das coisas. Vejamos o exemplo dos antigos heróis mitológicos, eram pessoas que faziam coisas extraordinárias, hoje os nossos heróis são pessoas que ganham muito dinheiro. Nenhum dos nossos talentos tem hoje qualquer valor se não rende dinheiro. Por exemplo, há bons pintores nos passeios à frente do Mosteiros dos Jerónimos a ganharem moedinhas de turistas admirados, mas nunca serão reconhecidos, apesar de muitas vezes terem bons quadros dignos de uma galeria de topo. E quando são chamados de artistas, são artistas menores, porque não vendem por somas elevadas os seus trabalhos.
  
A capacidade de gerar dinheiro é que determina o estado das coisas hoje, mesmo as religiões – que publicitam o plano espiritual – estão mais orientadas a fazer dinheiro, pois quanto mais têm mais conhecidas são, mais publicidade fazem e mais adeptos atraem, vou apontar a fenómenos recentes como a IURD, a Cientologia, ou a Igreja Zumbi, esta última se aproveita da Internet e do descontentamento das pessoas contra o estado para criar mais adeptos e ganhar a isenção fiscal destinada a organizações religiosas, mas daqui a duas gerações terá crentes fervorosos.

Hoje tudo é um produto, as pessoas, a fé, o gosto, as ideias, o talento, a vida, assim como a morte, e o valor desses produtos está na sua capacidade de gerar dinheiro, aliás, acumular dinheiro, porque a maior parte do dinheiro que as pessoas geram é para encher os bolsos de outrem. Não conseguimos viver sem pagar a outros, e não é o nosso trabalho que paga, visto que trabalhamos só para uns poucos se enriquecerem. Temos de pagar pela água, pela comida, pelo teto, pelo entretenimento, pela informação entre outras, e nossa vida é determinada não pela nossa capacidade de trabalhar mas pela capacidade de pagar.

Há pessoas a trabalharem dezasseis horas por dia e ganharem ridiculamente mal, levando-nos a perguntar: afinal onde está recompensa na promessa feita aos trabalhadores? Onde está a verdade na frase: “O trabalho dignifica!”, se a essas pessoas ninguém dá valor? E as outras que dirigem instituições importantes (mas que nunca sabem o que lá acontece - este, este e este e mais este) são tratadas com deferência tanto pelos políticos como pelos juízes mesmo quando roubam uma dessas instituições, continuando a ser sentadas à cabeça das mesas. Onde se encontra a dignidade, então? Decerto não no trabalho, mas no valor acumulado. 
  
O Preço da Diginidade - Henrique Monteiro
A física mede o trabalho em termos da energia e da força, mas a economia mede o trabalho em termos de salário e do dinheiro gerado, e quando falamos do trabalho na sociedade moderna referimo-nos à sua relação com o dinheiro, ou seja no seu conceito económico. Um grupo de voluntários que limpam a rua, porque não geram receita para si não são considerados trabalhadores, portanto não são dignos, mas um grupo de mandriões a discutir num programa na televisão sobre as cores das meias do Cristiano Ronaldo já são dignos porque ganham muito dinheiro com isso, são “trabalhadores”. No entanto, os dignos, ou melhor, os trabalhadores de verdade, são tratados com lixo e cidadãos de terceira, sendo atiradas para o meio da rua quando faltam ao pagamento da prestação da casa, enquanto os CEO de grandes empresas directores de instituições públicas que, como já tinha dito, depois vêm ao público dizer que não sabiam o que se passava na organização que dirigem (outro, outro e outro e  mais outro) quando acontece algum escândalo, são beneficiados e são tratados com deferência e luvas de pelica não pela dignidade de serem trabalhadores – porque nestes termos não o podem ser –, mas pela do dinheiro acumulado.

A Oxfam – uma organização contra a fome – garante que, em 2016, 51% da riqueza mundial ficará nas mãos de 1% da população mundial, estimada em 7,5 mil milhões (ou 7,5 bilhões, segundo a leitura brasileira ou americana). Este número mostra o enorme desequilíbrio existente na distribuição da renda e reafirma a divisão social que prevalece desde a primeira rutura, o senhor e os escravos, embora hoje com configurações diferentes. O que diz este número é que para cada rico há milhões de pobres.

É a falta do dinheiro o problema? A verdade é que o dinheiro existe, está nos grandes bancos, mas o sistema financeiro só sobrevive se existir o desequilíbrio social, tanto em termos económicos como em outros. O sistema vive das diferenças sociais.

20 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte III


O  avanço tecnológico teve um impacto significativo na velocidade, os comboios tornaram-se mais rápido, os navios idem e os aviões entraram em cena. A distância entre as cidades e os países entre si reduziu-se ainda mais em termos de tempo. O telefone, a televisão, e, posteriormente, a Internet, reduziram grandemente o tempo da informação, levando-nos à era digital, ou era da informação. As transações económicas entre Portugal e a sua antípoda podiam acontecer em tempo real e acompanhadas em várias partes do mundo.Por exemplo, se toda a gente se lembrasse de levantar o seu dinheiro no banco, este não terá moeda-papel suficiente para satisfazer a demanda, porque boa parte das transações hoje acontecem com os cartões eletrónicos. E porque o sistema bancário cria mais dinheiro sobre o existente através de promessas de juros – por exemplo, ao ser depositado uma determinada quantia, os juros sobre essa quantia passam a contar como o dinheiro existente nos cofres (físicos ou eletrónicos) do mesmo, sem dizer que cada euro depositado permite ao banco a emissão de 10 euros (prática antiga herdada dos proto-banqueiros modernos) – as especulações sobre o mesmo permitem as ações que conhecemos por jogos na bolsa de valores, onde se usam promessas de lucros futuros para criar valores presentes ou prejuízos futuros para criar valores para outros – em suma, seja à base de lucros ou de prejuízos, muito dinheiro se cria na bolsa.

A TERCEIRA GRANDE RUTURA apareceu com a era eletrónica, coincidente com a chamada segunda revolução industrial, mas ganhou mais força com a terceira revolução industrial, após a Segunda Grande Guerra. Definiu-se assim de uma maneira mais contundente o setor terciário, começando a sobrepôr-se aos demais setores, tal e qual aconteceu depois da segunda rutura, quando o setor secundário se sobrepôs ao primário. A sociedade e tudo o que lhe está a montante, como é óbvio, voltou a sofrer novamente outra modificação profunda.

O dinheiro-papel teve que sofrer uma reforma. Como as transações aconteciam a largas distâncias e em tempo real, a moeda-papel precisando de viajar de um sítio para outro sempre que esses negócios fossem feitos, mostrou-se não ser prática, e para corrigir essa falha nasceu a moeda-electrónica, também ela fiduciária, porém mais intangível ainda que a primeira. 

Também a moeda-electrónica (não confundir com os bit-coins que nasceram essencialmente da internet) correspondia a um equivalente a moeda-papel, mas tal e qual o ouro já não era suficiente para corresponder ao valor da moeda-papel, também esta não é suficiente para corresponder à moeda-eletrónica. 

Este facto de o próprio dinheiro servir como produto e por já nem precisar de suporte físico leva a que haja grandes especulações financeiras e cada vez mais dinheiro nos grandes bancos, embora nos mercados comuns e para a população haja uma míngua. Isso possibilitou também a liberalização económica desenfreada que permite às grandes empresas canibalizarem as pequenas. Essa prática já existia desde a segunda rutura, no entanto, as tecnologias de informação retiraram-lhe várias barreiras, permitindo-lhe que se expandisse e se transformasse nesta aberração que hoje vemos.


As fronteiras estreitaram-se ainda mais, a globalização tornou-se mais percetível, os países perderam parte da sua soberania, obrigados a dobrar perante os bancos e os grandes mercados (entenda-se mercados especulativos, onde o dinheiro é o próprio produto, intangíveis) – vejamos o caso dos países PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) onde quem realmente governa é a Troika ou o Banco Central, bancos estes privados e com interesses próprios, que procuram o lucro para os seus acionistas e não para os países que fazem parte da sua organização.

18 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte II


A SEGUNDA GRANDE RUTURA surgiu com a revolução industrial, o que criou o sector secundário, e novamente alterou as estruturas sociais. Não significa, no entanto, que todas as transformações anteriormente conseguidas desapareceram. Neste caso, como já estavam plantadas e enraizadas o conceito da propriedade privada e do monopólio, as transformações aconteceram mais para consolidar as vantagens económicas.

A revolução industrial modificou imensamente as configurações sociais: a produção em massa e a velocidade dos transportes influíram significativamente na economia, as pessoas já não precisavam de andar umas três semanas de uma cidade para outra para venderem os seus produtos, os comboios facilitavam essa locomoção, e as indústrias como produziam mais do que a cidade onde estavam situadas podia consumir, simplesmente iam vender os seus produtos para outras cidades. Os comboios e os navios a vapor, aproximaram mais as cidades e o conceito da globalização antes lançado pelos Descobrimentos ganhou mais forma e substância, as indústrias já não tinham que se contentar apenas com a cidade ou o país onde estavam situadas para servirem de clientes, forçaram as fronteiras e novos acordos começaram a nascer.

No entanto, a sociedade ressentiu-se gravemente com estas mudanças, ao mesmo tempo que se desenvolvia, o desemprego aumentou, o trabalho precário também, os servos da gleba deixaram de ser necessários quando as máquinas podiam fazer numa hora o que cinquenta homens faziam num dia, e o controlo da economia mudou de mãos, passando dos senhores feudais para os burgueses, donos de fábricas e de indústrias.

A produção em massa modificou o dinheiro, de metal com um valor real, passou para o papel com um valor simbólico, porque era a única forma de não fazer a economia colapsar, pois não haveria prata nem ouro suficiente para corresponder ao valor dos produtos. É certo que o dinheiro papel não foi produto da revolução industrial, os chineses já o tinham usado e a Itália também, os bilhetes de banco.

O dinheiro papel incentivou a consolidação dos bancos e modificou a própria ideia de dinheiro, de uma moeda metálica com um valor real e tangível, passou para um papel que se desvaloriza conforme as flutuações económicas, uma moeda fiduciária. Antes, uma moeda de ouro nunca perdia o seu valor, porque ouro é sempre ouro, hoje a moeda papel tem um valor real intangível, na medida em que sobe e desce e desvaloriza-se continuamente. Há 40 anos, por exemplo, o valor de 40 euros – ou o seu equivalente em escudos – era muito mais significativo do que hoje. Por exemplo, nos EUA uma nota emitida é formalmente uma dívida do Banco Central dos EUA, o Federal Reserve System, mas ninguém tem a obrigação de trocar esse valor pela quantidade equivalente de ouro. Com o crescimento da economia, na realidade o ouro do Federal Reserve System passou a representar o dinheiro apenas num sentido simbólico, porque na verdade o próprio banco já não tem ouro suficiente para pagar a moeda-papel existente no mercado.

A maior modificação do dinheiro foi que ele se tornou não apenas numa ferramenta de trocas comercias, como passou ele mesmo a ser um produto, originando as especulações bolsistas e outros estratagemas de usar o próprio dinheiro para gerar dinheiro.

13 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte I

É mais fácil escrever sobre o dinheiro do que obtê-lo, e quem só o sabe obter ri-se muitíssimo daqueles que sabem escrever. Voltaire.



O dinheiro está à nossa volta, tornou-se tão essencial para a nossa vida como a água e toma um lugar tão primaz que – não raras vezes nos ouvimos a dizer que ele é a raiz de todos os males – não conseguimos imaginar a vida sem ele. Nos evangelhos Cristo exortava: ou Deus ou o dinheiro, ninguém pode servir a dois mestres (provavelmente ele não tinha ouvido falar de trabalho precário, porque hoje há pessoas com até três empregos ou mais), querendo talvez mostrar com isso que o dinheiro é a fonte do mal e talvez seja por essa mesma razão que os chefes religiosos querem nos proteger dele, ficando com o nosso dinheiro.

Tomamos o dinheiro como um dado adquirido e até cremos que foi a primeira coisa que o homem inventou, aliás se dizemos que a profissão mais antiga é a prostituição, fica subentendido que as prostitutas eram pagas com alguma coisa, o proto-dinheiro ou simples permuta (troca direta que dispensa o dinheiro).

Embora usado milhares de anos antes, o termo dinheiro vem do denário de prata, unidade monetário da Roma antiga. E a moeda vem do latim moneta, termo emprestado da deusa Juno Moneta, que tinha um templo ao lado da fábrica onde se cunhava as moedas imperiais.

Não é raro pensar que o dinheiro mudou a sociedade e impulsionou o desenvolvimento, de certa maneira até que isso é verdade, no entanto, são os avanços tecnológicos que mudaram o dinheiro e a forma como o conhecemos e o usamos, são eles que influem na forma do consumo e modificam as nossas sociedades e culturas, embora seja inegável a participação do dinheiro no processo. Mas um dos maiores agentes do desenvolvimento tecnológico, senão o maior, é a guerra (embora seja feita em busca do poder).

Francis Fukuyama explica no seu livro, A Grande Ruptura, que a sociedade humana passou, até agora, por três grandes transformações a que ele chamou de ruturas, visto que modificaram completamente a forma de viver e todos os conceitos sociais preexistentes.
Servi-me aqui dessas delimitações explicadas por Fukuyama e de outras de outros autores para elaborar uma breve história do desenvolvimento da economia da humanidade, focando-se, no entanto, mais no elemento dinheiro.


A PRIMEIRA GRANDE RUTURA aconteceu com o desenvolvimento da agricultura e agropecuária, atividades enquadradas no sector primário. As consequências foram a sedentarização dos humanos e, como observou Engels, no seu trabalho, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, as primeiras sementes do conceito da família como hoje a conhecemos e de todo aspeto socioeconómico que lhe é inerente.

Toda a sociedade se modificou, aliás, começou a formar-se a noção da sociedade para os grupos de humanos que apenas se dividiam em clãs ou matilhas, para usar uma aceção mais básica. Mesmo o sentido religioso se modificou, os grupos que antes tinham a noção de deus como antepassados protetores, passaram para uma conceção de deuses especializados e regionalizados: deus de água, deus da planície, deus da montanha, deus dos ventos, entre outros exemplos.

O apoderar-se das terras boas para o cultivo ou para o pasto levou a guerras e alianças entre diferentes clãs e tribos, começando a formar uma sociedade hierarquizada e militarizada, tanto para a proteção das propriedades como para a conquistas de melhores propriedades. Os primeiros conflitos, que até hoje ecoam na sociedade atual, entre os agricultores e os criadores de gado aconteceram, o que aparece representado na Bíblia com a história de Caim – agricultor – e Abel – pastor.

A reunião de vários clãs e de várias tribos no mesmo espaço abriu o caminho para as relações comerciais. E para minimizar os conflitos começaram as aparecer as regras de conduta morais e éticas, sendo a mais antiga conhecida O Código de Hamurabi. A ideia da propriedade privada e do comércio, ligadas ao enriquecimento por cúmulo, conduziu diretamente ao conceito do monopólio, criando guerras intestinas e externas para ajuntar mais terras, mais propriedades e alargar os territórios. Também apareceu o conceito do senhor e escravo, que depois, como refere Marx, n’O Manifesto Comunista, desenvolveu-se para o feudal e o servo da gleba, hoje para o patrão e o assalariado, mantendo no entanto a configuração básica. Nem mesmo o conceito da religião conseguiu ficar de fora destas transformações monopolistas, de vários deuses, de um politeísmo rico, passou-se para o conceito de um deus único que controla tudo e todos, o monoteísmo.


No entanto, porque o comércio se fazia por troca de equivalentes, a permuta – olho por olho –, em alguns aspetos tornando difícil o mesmo, houve que mudar o paradigma e inventou-se o DINHEIRO, uma moeda cujo valor representava o que se pretendia comprar. No entanto, o próprio dinheiro tinha o seu valor, visto que era feito com algum metal valioso ou raro, habitualmente cobre, prata e ouro, isto já nas suas fases mais avançadas, porque inicialmente o sal servia de moeda de troca, do qual se originou o termo salário. 

6 de março de 2015

HISTÓRIA DE DEUS, UMA, Karen Armstrong (1993)

Há coisa de treze anos eu li pela primeira vez Uma História de Deus, de Karen Armstrong, um estudo teológico que me foi bastante útil e esclarecedor. Nessa altura, eu tinha começado a minha conversão para o ateísmo, era mais ou menos um agnóstico, pois acreditava no deus cristão, e o livro, embora a sua autora não negue a existência de deus, ensinou-me como Deus, Javé, o deus judaico-cristão que depois derivou em Alá, foi inventado pelos homens. Um outro livro da mesma autora, Jerusalém – Uma Cidade, Três Religiões (sobre o qual talvez escreva aqui um dia), porteriormenete, fez-me perceber a situação sociopolítica que esteve na origem da religião judaico-cristo-islâmico.

Uma História de Deus é um livro que toda a gente devia ler, principalmente porque a religião e os mitos que lhe estão à montante fazem parte da vida de qualquer pessoa que viva nesta sociedade, quer queira quer não. Vemos constantemente pessoas a justificarem as suas ações, boas ou más, com motivos religiosos e estamos mesmo à beira de uma guerra religiosa. Karen Armstrong não escreve numa perspectiva de conspiração, aliás ela nem sequer é ateia, mas monoteísta que busca deus em todas as doutrinas religiosas (para mim isso é ainda pior do que pertencer a um único credo).

O livro é volumoso, mas fácil de ler, fala de Deus em diferentes perspetivas, judaíca, cristã, islâmica, mística, filosófica, ateia e outra mais. A bibliografia revela um pesquisa extensa e cuidada e a apresentação dos temas é clara e convida sempre a seguir com a leitura. Os temas também estão escritos de maneira a que, com um conhecimento básico da teologia e da filosofia, seja possível começar de qualquer capítulo sem se sentir perdido.

Basicamente Uma História de Deus, mostra-nos como o deus dos judeus, que foi depois chamado Javé, ou El, nasceu do deus dos cananeus El Shadai, ifluenciado pelos deuses babilónicos, aliás, o próprio Javé falou com Abrão na montanha e apresentou-se como El Shadai. Os judeus que criaram a religião monoteísta que deus originou os monoteísmo mais conhecidos agora, inspiraram-se no zoroastrismo, com o seu conceito de dualidade entre o bem e o mal, no entanto, no início, eram tão politeístas como todos os outros povos que o rodeavam.

O monoteísmo judaíco começou a ganhar forma e a ser um símbolo de unidade, na altura em que o povo hebreu estava de cativeiro na Babilónia, que foi a altura em que a Bíblia começou a ser compilada. Os estudiosos mostram que há cinco fontes diferentes para a Bíblia, o que demonstra que Deus se chamava El e Javé, consoante os seus escritores. O que os judeus fizeram foi eleger um Deus dos do panteão assírio, e promoveram-no a Deus Supremo, mas eles ainda eram politeístas acreditavam na existência de vários deuses, de tal maneira que nos 10 Mandamentos, explicitamente El disse: Não tenhas outros deuses diante de mim, pois eu sou o único. E só muitos anos mais tarde, divididos por guerras intestinas (reino de Israel, reino de Jusá) é que Josias, o rei na altura, descobriu convenientemente o livro de lei, no templo que foi reconstruir, que por acaso era o Pentateuco, a base da Bíblia (o Torah), que começou a servir de legislação para o povo hebreu. Depois de libertos de Babilónia, lá solidificaram as suas crenças, absorvendo e transformando muito da mitóliga babilónica (sumérica). 

Nota de outras fontes: A Bíblia fala que deus criou o mundo em sete dias, o que coincide com a cosmogonia suméria. Entretanto, como os sumérios adoravam o Sol, foi o Sol que criou tudo; os israelitas para mostrarem aos sumérios que o deus deles (El, Javé) era ainda mais importante que o Sol, fizeram com que o Sol só fosse criado no quarto dia na sua cosmogonia e a Luz foi criada no primeiro, porém esqueceram-se (ou não sabiam) que a luz vem do Sol, portanto, não pode ter sido criado antes deste. Também, os israelitas  disseram que Deus criou o mundo em sete dias (como se fosse Deus a estabelecer a semana), mas a semana de sete dias também foi outra criação dos matemáticos sumérios.  

O maior rival de El foi sempre Baal, agora o rival de Deus é o Satã, mas na Bíblia Satã era simplesmente um anjo, o advogado de acusação, não era um anjo expulso, nem nada como isso. Leviatã, hoje também considerado uma das encarnações de Satã, era um monstro de sete cabeças conhecida por Lotan na mitológia suméria. E Satã era diferente de Lúcifer, que Isaías chamou de A Estrela da Manhã, e que se confundiu depois com Cristo, visto que João chamou a Cristo de A Estrela da Manhã no Apocalipse. Cristo este que tem muitas similaridades com muitos outros deuses pagãos, o que fez com que os judeus nunca tivessem aceitado a sua existência com messiánica.  E não puseram em causa a mentira da sua invenção, porque a sua própria invenção de Javé iria abaixo por arrasto, além do mais ganha-se muito dinheiro com essa crença (nota minha).

Não vou descrever um livro de mais de 400 páginas em meia folha, por isso fico por aqui, principalmente porque sei que o pouco do conteúdo que revelei vai ser o principal motivo para afastar alguns de o lerem, pois ninguém quer pôr em questão a sua fé, prefere simplesmente acreditar. Aliás este pouco que descrevi só trata de uma pequena parte do livro e não está com a mesma clareza.

Uma História de Deus, volto a salientar, é um livro para ler antes de morrer.