21 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte IV

Com o aparecimento da Internet, talvez possamos dizer que talvez estejamos às portas de uma QUARTA GRANDE RUTURA (se é que já não entramos por ela), começando especificamente com o Web 2.0, a segunda geração da Internet, aquela que permite a todo e qualquer um carregar as suas própria informações ou os seus próprios produtos na rede.  

A segunda geração da Internet modificou grandemente a sociedade, mas o que a Internet trouxe de novo em termo de dinheiro são os bitcoins, há empresas que contratam pessoas (ou escravizam) para jogarem na Internet a fim de converter essas moedas eletrónicas em digitais, por exemplo numa consulta feita no dia 07/04/15 (http://br.investing.com/currencies/btc-usd-converter) um Bitcoin (1 BTC) valia 249, 19 USD, ou seja é uma moeda com muita confiança. Estamos a passar da moeda-eletrónica para a moeda-digital. E os grandes mercados (bancos e multinacionais) estão a mudar de novo as suas práticas comerciais, considerando a grande vantagem que já obtiveram em relação a policiamento que os governos faziam, tornando-se cada vez mais a serem eles a governar. Porém a história tratará de estabelecer as balizas, não eu.


O desenvolvimento deste texto até aqui é um tanto parcial, na medida em que aparentemente me foquei mais no lado negativo da questão do dinheiro, porém, é necessário esta abordagem para o tema a que o blog se propõe (afinal no que está bom não se deve tocar, senão para melhorar, no mau é que se trabalha). É inegável que com cada uma destas ruturas houve mudanças sociais significativas para o bem, a arquitetura, a medicina, o ensino e as demais áreas beneficiaram muito com essas modificações que aconteceram. Porém, o que quero aqui apontar é a evolução de um grupo de humanoides que viviam em comunidades, protegiam-se e trabalhavam para um bem comum, para a nossa sociedade atual totalmente individualista, hedonista e egoísta, onde o acumular é a atitude mais louvável. Não é raro vermos serem apontados como pessoas mais influentes do planeta os homens mais ricos, e por que não?, afinal são eles que decidem o rumo das coisas. Vejamos o exemplo dos antigos heróis mitológicos, eram pessoas que faziam coisas extraordinárias, hoje os nossos heróis são pessoas que ganham muito dinheiro. Nenhum dos nossos talentos tem hoje qualquer valor se não rende dinheiro. Por exemplo, há bons pintores nos passeios à frente do Mosteiros dos Jerónimos a ganharem moedinhas de turistas admirados, mas nunca serão reconhecidos, apesar de muitas vezes terem bons quadros dignos de uma galeria de topo. E quando são chamados de artistas, são artistas menores, porque não vendem por somas elevadas os seus trabalhos.
  
A capacidade de gerar dinheiro é que determina o estado das coisas hoje, mesmo as religiões – que publicitam o plano espiritual – estão mais orientadas a fazer dinheiro, pois quanto mais têm mais conhecidas são, mais publicidade fazem e mais adeptos atraem, vou apontar a fenómenos recentes como a IURD, a Cientologia, ou a Igreja Zumbi, esta última se aproveita da Internet e do descontentamento das pessoas contra o estado para criar mais adeptos e ganhar a isenção fiscal destinada a organizações religiosas, mas daqui a duas gerações terá crentes fervorosos.

Hoje tudo é um produto, as pessoas, a fé, o gosto, as ideias, o talento, a vida, assim como a morte, e o valor desses produtos está na sua capacidade de gerar dinheiro, aliás, acumular dinheiro, porque a maior parte do dinheiro que as pessoas geram é para encher os bolsos de outrem. Não conseguimos viver sem pagar a outros, e não é o nosso trabalho que paga, visto que trabalhamos só para uns poucos se enriquecerem. Temos de pagar pela água, pela comida, pelo teto, pelo entretenimento, pela informação entre outras, e nossa vida é determinada não pela nossa capacidade de trabalhar mas pela capacidade de pagar.

Há pessoas a trabalharem dezasseis horas por dia e ganharem ridiculamente mal, levando-nos a perguntar: afinal onde está recompensa na promessa feita aos trabalhadores? Onde está a verdade na frase: “O trabalho dignifica!”, se a essas pessoas ninguém dá valor? E as outras que dirigem instituições importantes (mas que nunca sabem o que lá acontece - este, este e este e mais este) são tratadas com deferência tanto pelos políticos como pelos juízes mesmo quando roubam uma dessas instituições, continuando a ser sentadas à cabeça das mesas. Onde se encontra a dignidade, então? Decerto não no trabalho, mas no valor acumulado. 
  
O Preço da Diginidade - Henrique Monteiro
A física mede o trabalho em termos da energia e da força, mas a economia mede o trabalho em termos de salário e do dinheiro gerado, e quando falamos do trabalho na sociedade moderna referimo-nos à sua relação com o dinheiro, ou seja no seu conceito económico. Um grupo de voluntários que limpam a rua, porque não geram receita para si não são considerados trabalhadores, portanto não são dignos, mas um grupo de mandriões a discutir num programa na televisão sobre as cores das meias do Cristiano Ronaldo já são dignos porque ganham muito dinheiro com isso, são “trabalhadores”. No entanto, os dignos, ou melhor, os trabalhadores de verdade, são tratados com lixo e cidadãos de terceira, sendo atiradas para o meio da rua quando faltam ao pagamento da prestação da casa, enquanto os CEO de grandes empresas directores de instituições públicas que, como já tinha dito, depois vêm ao público dizer que não sabiam o que se passava na organização que dirigem (outro, outro e outro e  mais outro) quando acontece algum escândalo, são beneficiados e são tratados com deferência e luvas de pelica não pela dignidade de serem trabalhadores – porque nestes termos não o podem ser –, mas pela do dinheiro acumulado.

A Oxfam – uma organização contra a fome – garante que, em 2016, 51% da riqueza mundial ficará nas mãos de 1% da população mundial, estimada em 7,5 mil milhões (ou 7,5 bilhões, segundo a leitura brasileira ou americana). Este número mostra o enorme desequilíbrio existente na distribuição da renda e reafirma a divisão social que prevalece desde a primeira rutura, o senhor e os escravos, embora hoje com configurações diferentes. O que diz este número é que para cada rico há milhões de pobres.

É a falta do dinheiro o problema? A verdade é que o dinheiro existe, está nos grandes bancos, mas o sistema financeiro só sobrevive se existir o desequilíbrio social, tanto em termos económicos como em outros. O sistema vive das diferenças sociais.

20 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte III


O  avanço tecnológico teve um impacto significativo na velocidade, os comboios tornaram-se mais rápido, os navios idem e os aviões entraram em cena. A distância entre as cidades e os países entre si reduziu-se ainda mais em termos de tempo. O telefone, a televisão, e, posteriormente, a Internet, reduziram grandemente o tempo da informação, levando-nos à era digital, ou era da informação. As transações económicas entre Portugal e a sua antípoda podiam acontecer em tempo real e acompanhadas em várias partes do mundo.Por exemplo, se toda a gente se lembrasse de levantar o seu dinheiro no banco, este não terá moeda-papel suficiente para satisfazer a demanda, porque boa parte das transações hoje acontecem com os cartões eletrónicos. E porque o sistema bancário cria mais dinheiro sobre o existente através de promessas de juros – por exemplo, ao ser depositado uma determinada quantia, os juros sobre essa quantia passam a contar como o dinheiro existente nos cofres (físicos ou eletrónicos) do mesmo, sem dizer que cada euro depositado permite ao banco a emissão de 10 euros (prática antiga herdada dos proto-banqueiros modernos) – as especulações sobre o mesmo permitem as ações que conhecemos por jogos na bolsa de valores, onde se usam promessas de lucros futuros para criar valores presentes ou prejuízos futuros para criar valores para outros – em suma, seja à base de lucros ou de prejuízos, muito dinheiro se cria na bolsa.

A TERCEIRA GRANDE RUTURA apareceu com a era eletrónica, coincidente com a chamada segunda revolução industrial, mas ganhou mais força com a terceira revolução industrial, após a Segunda Grande Guerra. Definiu-se assim de uma maneira mais contundente o setor terciário, começando a sobrepôr-se aos demais setores, tal e qual aconteceu depois da segunda rutura, quando o setor secundário se sobrepôs ao primário. A sociedade e tudo o que lhe está a montante, como é óbvio, voltou a sofrer novamente outra modificação profunda.

O dinheiro-papel teve que sofrer uma reforma. Como as transações aconteciam a largas distâncias e em tempo real, a moeda-papel precisando de viajar de um sítio para outro sempre que esses negócios fossem feitos, mostrou-se não ser prática, e para corrigir essa falha nasceu a moeda-electrónica, também ela fiduciária, porém mais intangível ainda que a primeira. 

Também a moeda-electrónica (não confundir com os bit-coins que nasceram essencialmente da internet) correspondia a um equivalente a moeda-papel, mas tal e qual o ouro já não era suficiente para corresponder ao valor da moeda-papel, também esta não é suficiente para corresponder à moeda-eletrónica. 

Este facto de o próprio dinheiro servir como produto e por já nem precisar de suporte físico leva a que haja grandes especulações financeiras e cada vez mais dinheiro nos grandes bancos, embora nos mercados comuns e para a população haja uma míngua. Isso possibilitou também a liberalização económica desenfreada que permite às grandes empresas canibalizarem as pequenas. Essa prática já existia desde a segunda rutura, no entanto, as tecnologias de informação retiraram-lhe várias barreiras, permitindo-lhe que se expandisse e se transformasse nesta aberração que hoje vemos.


As fronteiras estreitaram-se ainda mais, a globalização tornou-se mais percetível, os países perderam parte da sua soberania, obrigados a dobrar perante os bancos e os grandes mercados (entenda-se mercados especulativos, onde o dinheiro é o próprio produto, intangíveis) – vejamos o caso dos países PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) onde quem realmente governa é a Troika ou o Banco Central, bancos estes privados e com interesses próprios, que procuram o lucro para os seus acionistas e não para os países que fazem parte da sua organização.

18 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte II


A SEGUNDA GRANDE RUTURA surgiu com a revolução industrial, o que criou o sector secundário, e novamente alterou as estruturas sociais. Não significa, no entanto, que todas as transformações anteriormente conseguidas desapareceram. Neste caso, como já estavam plantadas e enraizadas o conceito da propriedade privada e do monopólio, as transformações aconteceram mais para consolidar as vantagens económicas.

A revolução industrial modificou imensamente as configurações sociais: a produção em massa e a velocidade dos transportes influíram significativamente na economia, as pessoas já não precisavam de andar umas três semanas de uma cidade para outra para venderem os seus produtos, os comboios facilitavam essa locomoção, e as indústrias como produziam mais do que a cidade onde estavam situadas podia consumir, simplesmente iam vender os seus produtos para outras cidades. Os comboios e os navios a vapor, aproximaram mais as cidades e o conceito da globalização antes lançado pelos Descobrimentos ganhou mais forma e substância, as indústrias já não tinham que se contentar apenas com a cidade ou o país onde estavam situadas para servirem de clientes, forçaram as fronteiras e novos acordos começaram a nascer.

No entanto, a sociedade ressentiu-se gravemente com estas mudanças, ao mesmo tempo que se desenvolvia, o desemprego aumentou, o trabalho precário também, os servos da gleba deixaram de ser necessários quando as máquinas podiam fazer numa hora o que cinquenta homens faziam num dia, e o controlo da economia mudou de mãos, passando dos senhores feudais para os burgueses, donos de fábricas e de indústrias.

A produção em massa modificou o dinheiro, de metal com um valor real, passou para o papel com um valor simbólico, porque era a única forma de não fazer a economia colapsar, pois não haveria prata nem ouro suficiente para corresponder ao valor dos produtos. É certo que o dinheiro papel não foi produto da revolução industrial, os chineses já o tinham usado e a Itália também, os bilhetes de banco.

O dinheiro papel incentivou a consolidação dos bancos e modificou a própria ideia de dinheiro, de uma moeda metálica com um valor real e tangível, passou para um papel que se desvaloriza conforme as flutuações económicas, uma moeda fiduciária. Antes, uma moeda de ouro nunca perdia o seu valor, porque ouro é sempre ouro, hoje a moeda papel tem um valor real intangível, na medida em que sobe e desce e desvaloriza-se continuamente. Há 40 anos, por exemplo, o valor de 40 euros – ou o seu equivalente em escudos – era muito mais significativo do que hoje. Por exemplo, nos EUA uma nota emitida é formalmente uma dívida do Banco Central dos EUA, o Federal Reserve System, mas ninguém tem a obrigação de trocar esse valor pela quantidade equivalente de ouro. Com o crescimento da economia, na realidade o ouro do Federal Reserve System passou a representar o dinheiro apenas num sentido simbólico, porque na verdade o próprio banco já não tem ouro suficiente para pagar a moeda-papel existente no mercado.

A maior modificação do dinheiro foi que ele se tornou não apenas numa ferramenta de trocas comercias, como passou ele mesmo a ser um produto, originando as especulações bolsistas e outros estratagemas de usar o próprio dinheiro para gerar dinheiro.

13 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte I

É mais fácil escrever sobre o dinheiro do que obtê-lo, e quem só o sabe obter ri-se muitíssimo daqueles que sabem escrever. Voltaire.



O dinheiro está à nossa volta, tornou-se tão essencial para a nossa vida como a água e toma um lugar tão primaz que – não raras vezes nos ouvimos a dizer que ele é a raiz de todos os males – não conseguimos imaginar a vida sem ele. Nos evangelhos Cristo exortava: ou Deus ou o dinheiro, ninguém pode servir a dois mestres (provavelmente ele não tinha ouvido falar de trabalho precário, porque hoje há pessoas com até três empregos ou mais), querendo talvez mostrar com isso que o dinheiro é a fonte do mal e talvez seja por essa mesma razão que os chefes religiosos querem nos proteger dele, ficando com o nosso dinheiro.

Tomamos o dinheiro como um dado adquirido e até cremos que foi a primeira coisa que o homem inventou, aliás se dizemos que a profissão mais antiga é a prostituição, fica subentendido que as prostitutas eram pagas com alguma coisa, o proto-dinheiro ou simples permuta (troca direta que dispensa o dinheiro).

Embora usado milhares de anos antes, o termo dinheiro vem do denário de prata, unidade monetário da Roma antiga. E a moeda vem do latim moneta, termo emprestado da deusa Juno Moneta, que tinha um templo ao lado da fábrica onde se cunhava as moedas imperiais.

Não é raro pensar que o dinheiro mudou a sociedade e impulsionou o desenvolvimento, de certa maneira até que isso é verdade, no entanto, são os avanços tecnológicos que mudaram o dinheiro e a forma como o conhecemos e o usamos, são eles que influem na forma do consumo e modificam as nossas sociedades e culturas, embora seja inegável a participação do dinheiro no processo. Mas um dos maiores agentes do desenvolvimento tecnológico, senão o maior, é a guerra (embora seja feita em busca do poder).

Francis Fukuyama explica no seu livro, A Grande Ruptura, que a sociedade humana passou, até agora, por três grandes transformações a que ele chamou de ruturas, visto que modificaram completamente a forma de viver e todos os conceitos sociais preexistentes.
Servi-me aqui dessas delimitações explicadas por Fukuyama e de outras de outros autores para elaborar uma breve história do desenvolvimento da economia da humanidade, focando-se, no entanto, mais no elemento dinheiro.


A PRIMEIRA GRANDE RUTURA aconteceu com o desenvolvimento da agricultura e agropecuária, atividades enquadradas no sector primário. As consequências foram a sedentarização dos humanos e, como observou Engels, no seu trabalho, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, as primeiras sementes do conceito da família como hoje a conhecemos e de todo aspeto socioeconómico que lhe é inerente.

Toda a sociedade se modificou, aliás, começou a formar-se a noção da sociedade para os grupos de humanos que apenas se dividiam em clãs ou matilhas, para usar uma aceção mais básica. Mesmo o sentido religioso se modificou, os grupos que antes tinham a noção de deus como antepassados protetores, passaram para uma conceção de deuses especializados e regionalizados: deus de água, deus da planície, deus da montanha, deus dos ventos, entre outros exemplos.

O apoderar-se das terras boas para o cultivo ou para o pasto levou a guerras e alianças entre diferentes clãs e tribos, começando a formar uma sociedade hierarquizada e militarizada, tanto para a proteção das propriedades como para a conquistas de melhores propriedades. Os primeiros conflitos, que até hoje ecoam na sociedade atual, entre os agricultores e os criadores de gado aconteceram, o que aparece representado na Bíblia com a história de Caim – agricultor – e Abel – pastor.

A reunião de vários clãs e de várias tribos no mesmo espaço abriu o caminho para as relações comerciais. E para minimizar os conflitos começaram as aparecer as regras de conduta morais e éticas, sendo a mais antiga conhecida O Código de Hamurabi. A ideia da propriedade privada e do comércio, ligadas ao enriquecimento por cúmulo, conduziu diretamente ao conceito do monopólio, criando guerras intestinas e externas para ajuntar mais terras, mais propriedades e alargar os territórios. Também apareceu o conceito do senhor e escravo, que depois, como refere Marx, n’O Manifesto Comunista, desenvolveu-se para o feudal e o servo da gleba, hoje para o patrão e o assalariado, mantendo no entanto a configuração básica. Nem mesmo o conceito da religião conseguiu ficar de fora destas transformações monopolistas, de vários deuses, de um politeísmo rico, passou-se para o conceito de um deus único que controla tudo e todos, o monoteísmo.


No entanto, porque o comércio se fazia por troca de equivalentes, a permuta – olho por olho –, em alguns aspetos tornando difícil o mesmo, houve que mudar o paradigma e inventou-se o DINHEIRO, uma moeda cujo valor representava o que se pretendia comprar. No entanto, o próprio dinheiro tinha o seu valor, visto que era feito com algum metal valioso ou raro, habitualmente cobre, prata e ouro, isto já nas suas fases mais avançadas, porque inicialmente o sal servia de moeda de troca, do qual se originou o termo salário. 

6 de março de 2015

HISTÓRIA DE DEUS, UMA, Karen Armstrong (1993)

Há coisa de treze anos eu li pela primeira vez Uma História de Deus, de Karen Armstrong, um estudo teológico que me foi bastante útil e esclarecedor. Nessa altura, eu tinha começado a minha conversão para o ateísmo, era mais ou menos um agnóstico, pois acreditava no deus cristão, e o livro, embora a sua autora não negue a existência de deus, ensinou-me como Deus, Javé, o deus judaico-cristão que depois derivou em Alá, foi inventado pelos homens. Um outro livro da mesma autora, Jerusalém – Uma Cidade, Três Religiões (sobre o qual talvez escreva aqui um dia), porteriormenete, fez-me perceber a situação sociopolítica que esteve na origem da religião judaico-cristo-islâmico.

Uma História de Deus é um livro que toda a gente devia ler, principalmente porque a religião e os mitos que lhe estão à montante fazem parte da vida de qualquer pessoa que viva nesta sociedade, quer queira quer não. Vemos constantemente pessoas a justificarem as suas ações, boas ou más, com motivos religiosos e estamos mesmo à beira de uma guerra religiosa. Karen Armstrong não escreve numa perspectiva de conspiração, aliás ela nem sequer é ateia, mas monoteísta que busca deus em todas as doutrinas religiosas (para mim isso é ainda pior do que pertencer a um único credo).

O livro é volumoso, mas fácil de ler, fala de Deus em diferentes perspetivas, judaíca, cristã, islâmica, mística, filosófica, ateia e outra mais. A bibliografia revela um pesquisa extensa e cuidada e a apresentação dos temas é clara e convida sempre a seguir com a leitura. Os temas também estão escritos de maneira a que, com um conhecimento básico da teologia e da filosofia, seja possível começar de qualquer capítulo sem se sentir perdido.

Basicamente Uma História de Deus, mostra-nos como o deus dos judeus, que foi depois chamado Javé, ou El, nasceu do deus dos cananeus El Shadai, ifluenciado pelos deuses babilónicos, aliás, o próprio Javé falou com Abrão na montanha e apresentou-se como El Shadai. Os judeus que criaram a religião monoteísta que deus originou os monoteísmo mais conhecidos agora, inspiraram-se no zoroastrismo, com o seu conceito de dualidade entre o bem e o mal, no entanto, no início, eram tão politeístas como todos os outros povos que o rodeavam.

O monoteísmo judaíco começou a ganhar forma e a ser um símbolo de unidade, na altura em que o povo hebreu estava de cativeiro na Babilónia, que foi a altura em que a Bíblia começou a ser compilada. Os estudiosos mostram que há cinco fontes diferentes para a Bíblia, o que demonstra que Deus se chamava El e Javé, consoante os seus escritores. O que os judeus fizeram foi eleger um Deus dos do panteão assírio, e promoveram-no a Deus Supremo, mas eles ainda eram politeístas acreditavam na existência de vários deuses, de tal maneira que nos 10 Mandamentos, explicitamente El disse: Não tenhas outros deuses diante de mim, pois eu sou o único. E só muitos anos mais tarde, divididos por guerras intestinas (reino de Israel, reino de Jusá) é que Josias, o rei na altura, descobriu convenientemente o livro de lei, no templo que foi reconstruir, que por acaso era o Pentateuco, a base da Bíblia (o Torah), que começou a servir de legislação para o povo hebreu. Depois de libertos de Babilónia, lá solidificaram as suas crenças, absorvendo e transformando muito da mitóliga babilónica (sumérica). 

Nota de outras fontes: A Bíblia fala que deus criou o mundo em sete dias, o que coincide com a cosmogonia suméria. Entretanto, como os sumérios adoravam o Sol, foi o Sol que criou tudo; os israelitas para mostrarem aos sumérios que o deus deles (El, Javé) era ainda mais importante que o Sol, fizeram com que o Sol só fosse criado no quarto dia na sua cosmogonia e a Luz foi criada no primeiro, porém esqueceram-se (ou não sabiam) que a luz vem do Sol, portanto, não pode ter sido criado antes deste. Também, os israelitas  disseram que Deus criou o mundo em sete dias (como se fosse Deus a estabelecer a semana), mas a semana de sete dias também foi outra criação dos matemáticos sumérios.  

O maior rival de El foi sempre Baal, agora o rival de Deus é o Satã, mas na Bíblia Satã era simplesmente um anjo, o advogado de acusação, não era um anjo expulso, nem nada como isso. Leviatã, hoje também considerado uma das encarnações de Satã, era um monstro de sete cabeças conhecida por Lotan na mitológia suméria. E Satã era diferente de Lúcifer, que Isaías chamou de A Estrela da Manhã, e que se confundiu depois com Cristo, visto que João chamou a Cristo de A Estrela da Manhã no Apocalipse. Cristo este que tem muitas similaridades com muitos outros deuses pagãos, o que fez com que os judeus nunca tivessem aceitado a sua existência com messiánica.  E não puseram em causa a mentira da sua invenção, porque a sua própria invenção de Javé iria abaixo por arrasto, além do mais ganha-se muito dinheiro com essa crença (nota minha).

Não vou descrever um livro de mais de 400 páginas em meia folha, por isso fico por aqui, principalmente porque sei que o pouco do conteúdo que revelei vai ser o principal motivo para afastar alguns de o lerem, pois ninguém quer pôr em questão a sua fé, prefere simplesmente acreditar. Aliás este pouco que descrevi só trata de uma pequena parte do livro e não está com a mesma clareza.

Uma História de Deus, volto a salientar, é um livro para ler antes de morrer.



1 de novembro de 2014

TENTANDO ENTENDER... A DITADURA


Há uma diferenciação bem simples e explicativa entre os regimes ditatoriais e os regimes democráticos: a separação dos poderes

O estado moderno (e dito democrático) é gerido por três poderes: legislativo, executivo e judiciário. Os três são independentes uns dos outros e controlam-se (ou deviam controlar-se) para não haver corrupção e abuso de poder. Quando esses três poderes funcionam saudavelmente o regime chama-se democrático. E quando não, chama-se ditadura. 

Porém, há ainda outro elemento diferenciador que é a vontade dos governados. Quando é o povo a escolher o governante, dizem que é democracia (poder do povo, entenda-se), quando o governante impõe-se sem consultar o povo é ditadura.

Como disse, a explicação é bem simples e expõe bastante bem as diferenças… ou melhor, podia expor, se na verdade não vivêssemos num mundo extremamente baralhado e sem balizamentos claros.

Há estados modernos ocidentais que se dizem democráticos, mas que são REINOS (ditadura por nascença). A Espanha, o Reino Unido, a Holanda, entre outros, que são monárquicos, têm grupos de pessoas que não precisam de fazer nada senão nascer na família certa para serem consideradas importantes e terem o resto do povo a trabalhar para eles. E influenciam bastante os poderes no estado e são politicamente ativos, sem, no entanto, terem de se preocupar com as mudanças das ideologias políticas, esquerdas e direitas vêm e vão, e eles lá permanecem. Mas não foram votados pela população, ganharam o seu poder há muito tempo e conservaram-no pelas intrigas e força das armas, e hoje, quando confrontados com as mudanças, eles (e os seus adeptos) advogam que tem de se respeitar a tradição, e continuam ali, no pódio… ditatorialmente.


Há ainda estados, defensores da democracia, os EUA e todo o Ocidente rico, que de quatro a quatro anos vão trocando as pessoas que estão no poder, mas que mantém o círculo de poder e de influência, e que mesmo através de uma análise superficial percebe-se que só usam a democracia para trasvestir a… aristocracia?… oligarquia?... capitalocracia.

Esses estados têm os três poderes acima citados, separados uns dos outros, mas eles não são independentes como devia ser. Por exemplo, num caso recente nos EUA, a tal medida chamada OBAMACARE, foi considerada anticonstitucional por um grupo de tribunais de uns estados americanos ao mesmo tempo que foi considerado constitucional por outro grupo. A diferença na avaliação estava no facto de os juízes que o fizeram serem ou democratas ou republicanos, cada um puxando a sardinha para a sua brasa. Consultou-se o povo? Não, o povo é um burro que só é consultado para escolher quem o vai montar. A democracia moderna está desenhada para servir o capital.

No Brasil, recentemente houve eleições, três partidos eram fortes: PT, PSDB, PSB. O PT durante todo o seu mandato esteve envolvido em corrupção, embora dissesse possuir uma política orientada para o povo; o PSDB foi o corrupto antes do PT, e oferecia um governo de estado mínimo todo a favor do capital; o PSB perdia-se ali no meio de um de outro, aparecendo com algo novo e não experimentado. O PSB foi massacrado pela campanha agressiva que os outros dois desenvolveram contra ele. Por quê perdeu?, porque provavelmente não tem ligação com as grandes empresas, que controlam o dinheiro como os dois outros partidos.

Em suma, os partidos vencedores das eleições democráticas são aqueles que investem uma soma milionária na campanha para chegarem ao poder, e que para isso precisarão de investimento dos que na verdade controlam o dinheiro. E como se sabe que uma empresa não investe sem lucro em vista, mesmo quando diz que o faz filantropicamente, é sabido que a seguir vão cobrar ao governo que ajudaram a eleger e será o povo a pagar.
O povo é que escolhe, sim, é claro. Mas quais são as hipóteses que tem para escolher? Na maior parte do mundo acabam por ser só duas as escolhas: democratas ou republicanos nos EUA, Trabalhista ou Conservador no UK, PT ou PSDB no Brasil, PS ou PSD em Portugal. Claro que existem muitos outros partidos em todos esses países, mas não são relevantes. George Carlin dizia algo assim: quando tens de escolher uma coisa séria como quem governa, só te dão duas hipóteses, mas vai ao supermercado e para tudo tens centenas de escolhas.

Como se sabe, pode existir a democracia sem partidos políticos (embora o Ocidente chame a qualquer país com regime desse tipo de ditatorial - mas vejamos o exemplo dos fundadores da democracia), e pode haver eleições com patidos políticos que são puras representações de ditaduras. Por exemplo, conhecem algum deputado independente em Portugal? Quem são os que se podem candidatar-se a deputados senão os que são nomeados pelos partidos? O povo alguma vez indicou alguém para o representar ou apenas escolhe da ementa que lhe é apresentado?

Partidos pobres e sem influências, por melhores ideias que tenham para o povo, não têm chance nenhuma de vencer as eleições, e o mais estranho é que são crucificados pelo próprio povo. Isso acontece principalmente porque as eleições estão desenhadas para serem vencidas por quem tem dinheiro. E como tudo o que é bom para o povo vai contra o capital e vice-versa, percebe-se quem realmente tem o poder. 

O povo não é mais que um joguete. Votamos em quem aparece mais na televisão e em quem os nossos patrões dizem para votarmos, principalmente porque somos egoístas. Voto no partido do meu patrão, porque se ele perder as suas influências eu poderei perder o meu emprego. Voto no partido do meu patrão, porque se contradizer as suas opiniões perderei o meu emprego, e como o ouço todas as vezes sem contrariar e criticar, acabo por simplesmente fazer minhas as suas opiniões.

Tal e qual na missa só levamos com a opinião do padre, sem poder responder, e acabamos evangelizados, com a televisão acontece o mesmo. Quem tem dinheiro para comprar mais tempo de antena, ganha as eleições. Mas isso é durante as campanhas oficiais, e a campanha não se faz apenas nesse período. Passamos quatro anos a ouvir baterias de comentadores na televisão a lavarem-nos o cérebro, e são sempre dos mesmos (agora estou em Portugal), ou são do PS ou do PSD, e para cada comentador de um partido da esquerda, temos quase uma dezena destes dois partidos. Porquê? Por capitalocracia.

Meses atrás estava em debate se a Guiné Equatorial (GE) podia ou devia entrar na CPLP. (Antes de prosseguir, tenho de avisar: não pretendo fazer de advogado do diabo e nem quero enaltecer qualquer tipo de ditadura, o que estou a fazer com este artigo é entender a ditadura.) Os argumentos contra eram que 1) o Presidente da GE é ditador e que está no poder há mais de não-sei-quantos anos e que 2) é nepotista e beneficia os seus filhos e que 3) o país é a favor da pena de morte.

Bem, ponto um: o presidente angolano está no poder há muito tempo, é nepotista, e a sua filha já é dona de boa parte de Portugal, possuindo já poder para influenciar, inclusive, as eleições aqui… e Angola está na CPLP. Ponto dois: O filho de Durão Barroso acaba de ser nomeado para Banco de Portugal sem um concurso público (tal e qual os filhos de muitos outros políticos e poderosos que obtém cadeiras importantes sem precisar de suar, só, porque, como já tinha dito, nasceram na família certa ­ - faço, no entanto, a mesma ressalva que aqui, quando me referi à filha de Clinton). Ponto três: há pena de morte nos EUA, mas nenhum país usaria esse facto para negar uma cooperação com eles.

Falando agora da separação de poder, no caso português, vemos que praticamente não existe. Os casos escandalosos de corrupção que afetam a política e povo nunca são julgados e os julgamentos dão em nada. O caso BPN, por exemplo, e agora o BES, dão em nada, porque na verdade o capital entrelaça e manipula todos os três poderes. Os prevaricadores, nestes casos referidos, continuam com as suas benesses e os seus bens, e o povo vai pagar pelo abuso de poder que fizeram, porque os três poderes que deviam proteger o povo afinal são servis aos primeiros. 

O Caso da Citius, por exemplo, mostra claramente um problema da gestão do poder judicial, afinal é o governo ou os tribunais que deve gerir essa parte da questão?

Outro exemplo, é deste Governo de PSD que apesar de atropelar várias vezes e deliberadamente a constituição não é chamada para o tribunal sob acusação de crime. No meu entendimento a constituição é um documento legal e portanto uma transgressão a um documento legal é passível de julgamento. Por que não se julga o governo? Será que é porque mesmo os constitucionalistas do TC são membros de um dos partidos mais poderosos e trabalham também para o capital. Ainda ontem ouvi o Marinho e Pinto a dizer que há escritórios de advogados (privados) com sócios que são do governo e que recebem milhões em honorários mensais pagos com o dinheiro público; e ainda disse que os advogados agora ajudam os governos e as empresas a fazerem trafulhices explorando as brechas legais. Eis a justiça no seu melhor.

Quando os poderes legislativo e judicial são dominados pelo partido que está no executivo, o que se pode esperar que não seja ditadura? Esta coligação que agora governa só leva as leis para aprovar no parlamento por praxe, porque sabe que as vai aprovar. E as leis que tem sido aprovadas beneficiam em quê o povo? E o que vai acontecer daqui a um ano? Essas leis serão anuladas? Não haverá simplesmente uma troca de cadeiras? E essas cadeiras estão no lombo de quem? Do povo, é claro.

Na ditadura africana as pessoas chegam ao poder com a força das armas e, na maior parte, só de lá saem da mesma forma. Os três poderes (legislativo, executivo e judicial) continuam a existir, pois há nomeados, mas funcionam tão bem quanto na ditadura ocidental, ou seja, só servem a quem está no poder. Mas, se na ditadura africana quem está no poder é quem manda (sabemos quem é), na ocidental, quem está no poder está lá a mando de uns poderosos capitalistas (não sabemos quem são). Essa é a grande força do capitalismo, dissimulação (lê aqui).

Como disse, não estou a lavar a ditadura africana. Estou apenas a comparar as situações. 

A ditadura ocidental, sem falar do capital, centrando-se apenas na política, é mais discreta, mas não deixa de ser ditadura. A vontade pelo poder, o egotismo e o egoísmo dos governantes é o mesmo. Se alguns ditadores do terceiro mundo não têm tempo e nem paciência para chegar ao poder pela manipulação e enriquecer à custa do povo, com o apoio do próprio burro… desculpa, povo… os ditadores do ocidente fazem-no. De Abril de 1974 para cá vão 40 anos, e em 40 anos ainda Mário Soares tem o poder de puxar cordelinhos, embora não esteja ali à frente. E por Mário Soares lê-se Cavacos, Sampaios, Barrosos, entre outros tantos. Ou mesmo vamos ver o caso de Juncker, que foi governante de Luxemburgo por quase 20 anos (sem falar que mandou no dinheiro durante um década - perfazendo quase 30 anos de grande poder) e que agora está a governar a Europa por mais 10 anos. Não será isto ditadura?

O que torna a ditadura política ocidental mais assustadora que a ditadura do terceiro mundo, é que lá pelo menos sabe-se que é uma pessoa apenas a controlar aquilo, e aqui são um grupo de indivíduos que criaram um círculo, no qual se movimenta e do qual não vai sair e que se mantém no poder por muito tempo, criando filhos e sobrinhos políticos e bem distribuídos na esfera do poder para continuarem com o seu legado, uma espécie de monarquia dissimulada (vejamos apenas o caso dos Bush ou da família Clinton).

Vá lá, digam-me lá se isto não é ditadura.


Para deixar claro, sou contra a ditadura, de qualquer tipo e não me perguntem qual é a ditadura preferível, porque é como me perguntarem se prefiro ter SIDA ou CANCRO. Não me peçam para escolher entre a ditadura africana ou ocidental, principalmente porque esta última estende a sua asa e incentiva, abençoa e protege a africana, enquanto os seus interesses vigorarem.

Não falei da ditadura comunista (a histórica da URSS), porque essa todos já conhecem, mas não é diferente da ditadura capitalista, na medida em que tem por finalidade acumular benesses e privilégios a custa do povo. Como disse Orwell: Todos são iguais, mas alguns são mais iguaisAté agora, o que consegui com este exercício de pensamento é achar que todo o regime é ditatorial.

12 de janeiro de 2014

HUMANOS CRUÉIS (sextos)

A pobre Terra está impregnada
De cruéis humanos que não prestam,
Que no mal a deixam estagnada,
E urdem tramóias que a infestam.

A pobre Terra está padecendo
Cruelmente por nós destruída,
Pela guerra feroz que está vivendo
Na nossa vontade carcomida,
Que só cria na vida planaltos 
Pois q'remos todos voar nos altos.

Da cruel guerra pelo sucesso, 
Temos a guerra pelo descanso,
Uma guerra intensa no balanço
Duma vida compacta de excesso.

Guerra sem senso, guerra sem nexo,
Guerra interna, mas universal,
Feita com o consenso complexo
duma trama em linha racional,
De gente que lhe teme o amplexo
Mas lhe dá o discurso principal.

A pobre Terra está derruindo
Empurrada plos que nela vivem,
E que ferozes vão destruindo
Os dos melhores que nela existem:

Os patrimónios humanitários
Dos belos sonhos hereditários
De construir um novo p’raíso
Onde não haja mais sofrimentos,
Pra destruir o podre juízo
Que neste mundo cria tormentos.