13 de abril de 2015

A METAMORFOSE DO DINHEIRO - parte I

É mais fácil escrever sobre o dinheiro do que obtê-lo, e quem só o sabe obter ri-se muitíssimo daqueles que sabem escrever. Voltaire.



O dinheiro está à nossa volta, tornou-se tão essencial para a nossa vida como a água e toma um lugar tão primaz que – não raras vezes nos ouvimos a dizer que ele é a raiz de todos os males – não conseguimos imaginar a vida sem ele. Nos evangelhos Cristo exortava: ou Deus ou o dinheiro, ninguém pode servir a dois mestres (provavelmente ele não tinha ouvido falar de trabalho precário, porque hoje há pessoas com até três empregos ou mais), querendo talvez mostrar com isso que o dinheiro é a fonte do mal e talvez seja por essa mesma razão que os chefes religiosos querem nos proteger dele, ficando com o nosso dinheiro.

Tomamos o dinheiro como um dado adquirido e até cremos que foi a primeira coisa que o homem inventou, aliás se dizemos que a profissão mais antiga é a prostituição, fica subentendido que as prostitutas eram pagas com alguma coisa, o proto-dinheiro ou simples permuta (troca direta que dispensa o dinheiro).

Embora usado milhares de anos antes, o termo dinheiro vem do denário de prata, unidade monetário da Roma antiga. E a moeda vem do latim moneta, termo emprestado da deusa Juno Moneta, que tinha um templo ao lado da fábrica onde se cunhava as moedas imperiais.

Não é raro pensar que o dinheiro mudou a sociedade e impulsionou o desenvolvimento, de certa maneira até que isso é verdade, no entanto, são os avanços tecnológicos que mudaram o dinheiro e a forma como o conhecemos e o usamos, são eles que influem na forma do consumo e modificam as nossas sociedades e culturas, embora seja inegável a participação do dinheiro no processo. Mas um dos maiores agentes do desenvolvimento tecnológico, senão o maior, é a guerra (embora seja feita em busca do poder).

Francis Fukuyama explica no seu livro, A Grande Ruptura, que a sociedade humana passou, até agora, por três grandes transformações a que ele chamou de ruturas, visto que modificaram completamente a forma de viver e todos os conceitos sociais preexistentes.
Servi-me aqui dessas delimitações explicadas por Fukuyama e de outras de outros autores para elaborar uma breve história do desenvolvimento da economia da humanidade, focando-se, no entanto, mais no elemento dinheiro.


A PRIMEIRA GRANDE RUTURA aconteceu com o desenvolvimento da agricultura e agropecuária, atividades enquadradas no sector primário. As consequências foram a sedentarização dos humanos e, como observou Engels, no seu trabalho, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, as primeiras sementes do conceito da família como hoje a conhecemos e de todo aspeto socioeconómico que lhe é inerente.

Toda a sociedade se modificou, aliás, começou a formar-se a noção da sociedade para os grupos de humanos que apenas se dividiam em clãs ou matilhas, para usar uma aceção mais básica. Mesmo o sentido religioso se modificou, os grupos que antes tinham a noção de deus como antepassados protetores, passaram para uma conceção de deuses especializados e regionalizados: deus de água, deus da planície, deus da montanha, deus dos ventos, entre outros exemplos.

O apoderar-se das terras boas para o cultivo ou para o pasto levou a guerras e alianças entre diferentes clãs e tribos, começando a formar uma sociedade hierarquizada e militarizada, tanto para a proteção das propriedades como para a conquistas de melhores propriedades. Os primeiros conflitos, que até hoje ecoam na sociedade atual, entre os agricultores e os criadores de gado aconteceram, o que aparece representado na Bíblia com a história de Caim – agricultor – e Abel – pastor.

A reunião de vários clãs e de várias tribos no mesmo espaço abriu o caminho para as relações comerciais. E para minimizar os conflitos começaram as aparecer as regras de conduta morais e éticas, sendo a mais antiga conhecida O Código de Hamurabi. A ideia da propriedade privada e do comércio, ligadas ao enriquecimento por cúmulo, conduziu diretamente ao conceito do monopólio, criando guerras intestinas e externas para ajuntar mais terras, mais propriedades e alargar os territórios. Também apareceu o conceito do senhor e escravo, que depois, como refere Marx, n’O Manifesto Comunista, desenvolveu-se para o feudal e o servo da gleba, hoje para o patrão e o assalariado, mantendo no entanto a configuração básica. Nem mesmo o conceito da religião conseguiu ficar de fora destas transformações monopolistas, de vários deuses, de um politeísmo rico, passou-se para o conceito de um deus único que controla tudo e todos, o monoteísmo.


No entanto, porque o comércio se fazia por troca de equivalentes, a permuta – olho por olho –, em alguns aspetos tornando difícil o mesmo, houve que mudar o paradigma e inventou-se o DINHEIRO, uma moeda cujo valor representava o que se pretendia comprar. No entanto, o próprio dinheiro tinha o seu valor, visto que era feito com algum metal valioso ou raro, habitualmente cobre, prata e ouro, isto já nas suas fases mais avançadas, porque inicialmente o sal servia de moeda de troca, do qual se originou o termo salário. 

6 de março de 2015

HISTÓRIA DE DEUS, UMA, Karen Armstrong (1993)

Há coisa de treze anos eu li pela primeira vez Uma História de Deus, de Karen Armstrong, um estudo teológico que me foi bastante útil e esclarecedor. Nessa altura, eu tinha começado a minha conversão para o ateísmo, era mais ou menos um agnóstico, pois acreditava no deus cristão, e o livro, embora a sua autora não negue a existência de deus, ensinou-me como Deus, Javé, o deus judaico-cristão que depois derivou em Alá, foi inventado pelos homens. Um outro livro da mesma autora, Jerusalém – Uma Cidade, Três Religiões (sobre o qual talvez escreva aqui um dia), porteriormenete, fez-me perceber a situação sociopolítica que esteve na origem da religião judaico-cristo-islâmico.

Uma História de Deus é um livro que toda a gente devia ler, principalmente porque a religião e os mitos que lhe estão à montante fazem parte da vida de qualquer pessoa que viva nesta sociedade, quer queira quer não. Vemos constantemente pessoas a justificarem as suas ações, boas ou más, com motivos religiosos e estamos mesmo à beira de uma guerra religiosa. Karen Armstrong não escreve numa perspectiva de conspiração, aliás ela nem sequer é ateia, mas monoteísta que busca deus em todas as doutrinas religiosas (para mim isso é ainda pior do que pertencer a um único credo).

O livro é volumoso, mas fácil de ler, fala de Deus em diferentes perspetivas, judaíca, cristã, islâmica, mística, filosófica, ateia e outra mais. A bibliografia revela um pesquisa extensa e cuidada e a apresentação dos temas é clara e convida sempre a seguir com a leitura. Os temas também estão escritos de maneira a que, com um conhecimento básico da teologia e da filosofia, seja possível começar de qualquer capítulo sem se sentir perdido.

Basicamente Uma História de Deus, mostra-nos como o deus dos judeus, que foi depois chamado Javé, ou El, nasceu do deus dos cananeus El Shadai, ifluenciado pelos deuses babilónicos, aliás, o próprio Javé falou com Abrão na montanha e apresentou-se como El Shadai. Os judeus que criaram a religião monoteísta que deus originou os monoteísmo mais conhecidos agora, inspiraram-se no zoroastrismo, com o seu conceito de dualidade entre o bem e o mal, no entanto, no início, eram tão politeístas como todos os outros povos que o rodeavam.

O monoteísmo judaíco começou a ganhar forma e a ser um símbolo de unidade, na altura em que o povo hebreu estava de cativeiro na Babilónia, que foi a altura em que a Bíblia começou a ser compilada. Os estudiosos mostram que há cinco fontes diferentes para a Bíblia, o que demonstra que Deus se chamava El e Javé, consoante os seus escritores. O que os judeus fizeram foi eleger um Deus dos do panteão assírio, e promoveram-no a Deus Supremo, mas eles ainda eram politeístas acreditavam na existência de vários deuses, de tal maneira que nos 10 Mandamentos, explicitamente El disse: Não tenhas outros deuses diante de mim, pois eu sou o único. E só muitos anos mais tarde, divididos por guerras intestinas (reino de Israel, reino de Jusá) é que Josias, o rei na altura, descobriu convenientemente o livro de lei, no templo que foi reconstruir, que por acaso era o Pentateuco, a base da Bíblia (o Torah), que começou a servir de legislação para o povo hebreu. Depois de libertos de Babilónia, lá solidificaram as suas crenças, absorvendo e transformando muito da mitóliga babilónica (sumérica). 

Nota de outras fontes: A Bíblia fala que deus criou o mundo em sete dias, o que coincide com a cosmogonia suméria. Entretanto, como os sumérios adoravam o Sol, foi o Sol que criou tudo; os israelitas para mostrarem aos sumérios que o deus deles (El, Javé) era ainda mais importante que o Sol, fizeram com que o Sol só fosse criado no quarto dia na sua cosmogonia e a Luz foi criada no primeiro, porém esqueceram-se (ou não sabiam) que a luz vem do Sol, portanto, não pode ter sido criado antes deste. Também, os israelitas  disseram que Deus criou o mundo em sete dias (como se fosse Deus a estabelecer a semana), mas a semana de sete dias também foi outra criação dos matemáticos sumérios.  

O maior rival de El foi sempre Baal, agora o rival de Deus é o Satã, mas na Bíblia Satã era simplesmente um anjo, o advogado de acusação, não era um anjo expulso, nem nada como isso. Leviatã, hoje também considerado uma das encarnações de Satã, era um monstro de sete cabeças conhecida por Lotan na mitológia suméria. E Satã era diferente de Lúcifer, que Isaías chamou de A Estrela da Manhã, e que se confundiu depois com Cristo, visto que João chamou a Cristo de A Estrela da Manhã no Apocalipse. Cristo este que tem muitas similaridades com muitos outros deuses pagãos, o que fez com que os judeus nunca tivessem aceitado a sua existência com messiánica.  E não puseram em causa a mentira da sua invenção, porque a sua própria invenção de Javé iria abaixo por arrasto, além do mais ganha-se muito dinheiro com essa crença (nota minha).

Não vou descrever um livro de mais de 400 páginas em meia folha, por isso fico por aqui, principalmente porque sei que o pouco do conteúdo que revelei vai ser o principal motivo para afastar alguns de o lerem, pois ninguém quer pôr em questão a sua fé, prefere simplesmente acreditar. Aliás este pouco que descrevi só trata de uma pequena parte do livro e não está com a mesma clareza.

Uma História de Deus, volto a salientar, é um livro para ler antes de morrer.



1 de novembro de 2014

TENTANDO ENTENDER... A DITADURA


Há uma diferenciação bem simples e explicativa entre os regimes ditatoriais e os regimes democráticos: a separação dos poderes

O estado moderno (e dito democrático) é gerido por três poderes: legislativo, executivo e judiciário. Os três são independentes uns dos outros e controlam-se (ou deviam controlar-se) para não haver corrupção e abuso de poder. Quando esses três poderes funcionam saudavelmente o regime chama-se democrático. E quando não, chama-se ditadura. 

Porém, há ainda outro elemento diferenciador que é a vontade dos governados. Quando é o povo a escolher o governante, dizem que é democracia (poder do povo, entenda-se), quando o governante impõe-se sem consultar o povo é ditadura.

Como disse, a explicação é bem simples e expõe bastante bem as diferenças… ou melhor, podia expor, se na verdade não vivêssemos num mundo extremamente baralhado e sem balizamentos claros.

Há estados modernos ocidentais que se dizem democráticos, mas que são REINOS (ditadura por nascença). A Espanha, o Reino Unido, a Holanda, entre outros, que são monárquicos, têm grupos de pessoas que não precisam de fazer nada senão nascer na família certa para serem consideradas importantes e terem o resto do povo a trabalhar para eles. E influenciam bastante os poderes no estado e são politicamente ativos, sem, no entanto, terem de se preocupar com as mudanças das ideologias políticas, esquerdas e direitas vêm e vão, e eles lá permanecem. Mas não foram votados pela população, ganharam o seu poder há muito tempo e conservaram-no pelas intrigas e força das armas, e hoje, quando confrontados com as mudanças, eles (e os seus adeptos) advogam que tem de se respeitar a tradição, e continuam ali, no pódio… ditatorialmente.


Há ainda estados, defensores da democracia, os EUA e todo o Ocidente rico, que de quatro a quatro anos vão trocando as pessoas que estão no poder, mas que mantém o círculo de poder e de influência, e que mesmo através de uma análise superficial percebe-se que só usam a democracia para trasvestir a… aristocracia?… oligarquia?... capitalocracia.

Esses estados têm os três poderes acima citados, separados uns dos outros, mas eles não são independentes como devia ser. Por exemplo, num caso recente nos EUA, a tal medida chamada OBAMACARE, foi considerada anticonstitucional por um grupo de tribunais de uns estados americanos ao mesmo tempo que foi considerado constitucional por outro grupo. A diferença na avaliação estava no facto de os juízes que o fizeram serem ou democratas ou republicanos, cada um puxando a sardinha para a sua brasa. Consultou-se o povo? Não, o povo é um burro que só é consultado para escolher quem o vai montar. A democracia moderna está desenhada para servir o capital.

No Brasil, recentemente houve eleições, três partidos eram fortes: PT, PSDB, PSB. O PT durante todo o seu mandato esteve envolvido em corrupção, embora dissesse possuir uma política orientada para o povo; o PSDB foi o corrupto antes do PT, e oferecia um governo de estado mínimo todo a favor do capital; o PSB perdia-se ali no meio de um de outro, aparecendo com algo novo e não experimentado. O PSB foi massacrado pela campanha agressiva que os outros dois desenvolveram contra ele. Por quê perdeu?, porque provavelmente não tem ligação com as grandes empresas, que controlam o dinheiro como os dois outros partidos.

Em suma, os partidos vencedores das eleições democráticas são aqueles que investem uma soma milionária na campanha para chegarem ao poder, e que para isso precisarão de investimento dos que na verdade controlam o dinheiro. E como se sabe que uma empresa não investe sem lucro em vista, mesmo quando diz que o faz filantropicamente, é sabido que a seguir vão cobrar ao governo que ajudaram a eleger e será o povo a pagar.
O povo é que escolhe, sim, é claro. Mas quais são as hipóteses que tem para escolher? Na maior parte do mundo acabam por ser só duas as escolhas: democratas ou republicanos nos EUA, Trabalhista ou Conservador no UK, PT ou PSDB no Brasil, PS ou PSD em Portugal. Claro que existem muitos outros partidos em todos esses países, mas não são relevantes. George Carlin dizia algo assim: quando tens de escolher uma coisa séria como quem governa, só te dão duas hipóteses, mas vai ao supermercado e para tudo tens centenas de escolhas.

Como se sabe, pode existir a democracia sem partidos políticos (embora o Ocidente chame a qualquer país com regime desse tipo de ditatorial - mas vejamos o exemplo dos fundadores da democracia), e pode haver eleições com patidos políticos que são puras representações de ditaduras. Por exemplo, conhecem algum deputado independente em Portugal? Quem são os que se podem candidatar-se a deputados senão os que são nomeados pelos partidos? O povo alguma vez indicou alguém para o representar ou apenas escolhe da ementa que lhe é apresentado?

Partidos pobres e sem influências, por melhores ideias que tenham para o povo, não têm chance nenhuma de vencer as eleições, e o mais estranho é que são crucificados pelo próprio povo. Isso acontece principalmente porque as eleições estão desenhadas para serem vencidas por quem tem dinheiro. E como tudo o que é bom para o povo vai contra o capital e vice-versa, percebe-se quem realmente tem o poder. 

O povo não é mais que um joguete. Votamos em quem aparece mais na televisão e em quem os nossos patrões dizem para votarmos, principalmente porque somos egoístas. Voto no partido do meu patrão, porque se ele perder as suas influências eu poderei perder o meu emprego. Voto no partido do meu patrão, porque se contradizer as suas opiniões perderei o meu emprego, e como o ouço todas as vezes sem contrariar e criticar, acabo por simplesmente fazer minhas as suas opiniões.

Tal e qual na missa só levamos com a opinião do padre, sem poder responder, e acabamos evangelizados, com a televisão acontece o mesmo. Quem tem dinheiro para comprar mais tempo de antena, ganha as eleições. Mas isso é durante as campanhas oficiais, e a campanha não se faz apenas nesse período. Passamos quatro anos a ouvir baterias de comentadores na televisão a lavarem-nos o cérebro, e são sempre dos mesmos (agora estou em Portugal), ou são do PS ou do PSD, e para cada comentador de um partido da esquerda, temos quase uma dezena destes dois partidos. Porquê? Por capitalocracia.

Meses atrás estava em debate se a Guiné Equatorial (GE) podia ou devia entrar na CPLP. (Antes de prosseguir, tenho de avisar: não pretendo fazer de advogado do diabo e nem quero enaltecer qualquer tipo de ditadura, o que estou a fazer com este artigo é entender a ditadura.) Os argumentos contra eram que 1) o Presidente da GE é ditador e que está no poder há mais de não-sei-quantos anos e que 2) é nepotista e beneficia os seus filhos e que 3) o país é a favor da pena de morte.

Bem, ponto um: o presidente angolano está no poder há muito tempo, é nepotista, e a sua filha já é dona de boa parte de Portugal, possuindo já poder para influenciar, inclusive, as eleições aqui… e Angola está na CPLP. Ponto dois: O filho de Durão Barroso acaba de ser nomeado para Banco de Portugal sem um concurso público (tal e qual os filhos de muitos outros políticos e poderosos que obtém cadeiras importantes sem precisar de suar, só, porque, como já tinha dito, nasceram na família certa ­ - faço, no entanto, a mesma ressalva que aqui, quando me referi à filha de Clinton). Ponto três: há pena de morte nos EUA, mas nenhum país usaria esse facto para negar uma cooperação com eles.

Falando agora da separação de poder, no caso português, vemos que praticamente não existe. Os casos escandalosos de corrupção que afetam a política e povo nunca são julgados e os julgamentos dão em nada. O caso BPN, por exemplo, e agora o BES, dão em nada, porque na verdade o capital entrelaça e manipula todos os três poderes. Os prevaricadores, nestes casos referidos, continuam com as suas benesses e os seus bens, e o povo vai pagar pelo abuso de poder que fizeram, porque os três poderes que deviam proteger o povo afinal são servis aos primeiros. 

O Caso da Citius, por exemplo, mostra claramente um problema da gestão do poder judicial, afinal é o governo ou os tribunais que deve gerir essa parte da questão?

Outro exemplo, é deste Governo de PSD que apesar de atropelar várias vezes e deliberadamente a constituição não é chamada para o tribunal sob acusação de crime. No meu entendimento a constituição é um documento legal e portanto uma transgressão a um documento legal é passível de julgamento. Por que não se julga o governo? Será que é porque mesmo os constitucionalistas do TC são membros de um dos partidos mais poderosos e trabalham também para o capital. Ainda ontem ouvi o Marinho e Pinto a dizer que há escritórios de advogados (privados) com sócios que são do governo e que recebem milhões em honorários mensais pagos com o dinheiro público; e ainda disse que os advogados agora ajudam os governos e as empresas a fazerem trafulhices explorando as brechas legais. Eis a justiça no seu melhor.

Quando os poderes legislativo e judicial são dominados pelo partido que está no executivo, o que se pode esperar que não seja ditadura? Esta coligação que agora governa só leva as leis para aprovar no parlamento por praxe, porque sabe que as vai aprovar. E as leis que tem sido aprovadas beneficiam em quê o povo? E o que vai acontecer daqui a um ano? Essas leis serão anuladas? Não haverá simplesmente uma troca de cadeiras? E essas cadeiras estão no lombo de quem? Do povo, é claro.

Na ditadura africana as pessoas chegam ao poder com a força das armas e, na maior parte, só de lá saem da mesma forma. Os três poderes (legislativo, executivo e judicial) continuam a existir, pois há nomeados, mas funcionam tão bem quanto na ditadura ocidental, ou seja, só servem a quem está no poder. Mas, se na ditadura africana quem está no poder é quem manda (sabemos quem é), na ocidental, quem está no poder está lá a mando de uns poderosos capitalistas (não sabemos quem são). Essa é a grande força do capitalismo, dissimulação (lê aqui).

Como disse, não estou a lavar a ditadura africana. Estou apenas a comparar as situações. 

A ditadura ocidental, sem falar do capital, centrando-se apenas na política, é mais discreta, mas não deixa de ser ditadura. A vontade pelo poder, o egotismo e o egoísmo dos governantes é o mesmo. Se alguns ditadores do terceiro mundo não têm tempo e nem paciência para chegar ao poder pela manipulação e enriquecer à custa do povo, com o apoio do próprio burro… desculpa, povo… os ditadores do ocidente fazem-no. De Abril de 1974 para cá vão 40 anos, e em 40 anos ainda Mário Soares tem o poder de puxar cordelinhos, embora não esteja ali à frente. E por Mário Soares lê-se Cavacos, Sampaios, Barrosos, entre outros tantos. Ou mesmo vamos ver o caso de Juncker, que foi governante de Luxemburgo por quase 20 anos (sem falar que mandou no dinheiro durante um década - perfazendo quase 30 anos de grande poder) e que agora está a governar a Europa por mais 10 anos. Não será isto ditadura?

O que torna a ditadura política ocidental mais assustadora que a ditadura do terceiro mundo, é que lá pelo menos sabe-se que é uma pessoa apenas a controlar aquilo, e aqui são um grupo de indivíduos que criaram um círculo, no qual se movimenta e do qual não vai sair e que se mantém no poder por muito tempo, criando filhos e sobrinhos políticos e bem distribuídos na esfera do poder para continuarem com o seu legado, uma espécie de monarquia dissimulada (vejamos apenas o caso dos Bush ou da família Clinton).

Vá lá, digam-me lá se isto não é ditadura.


Para deixar claro, sou contra a ditadura, de qualquer tipo e não me perguntem qual é a ditadura preferível, porque é como me perguntarem se prefiro ter SIDA ou CANCRO. Não me peçam para escolher entre a ditadura africana ou ocidental, principalmente porque esta última estende a sua asa e incentiva, abençoa e protege a africana, enquanto os seus interesses vigorarem.

Não falei da ditadura comunista (a histórica da URSS), porque essa todos já conhecem, mas não é diferente da ditadura capitalista, na medida em que tem por finalidade acumular benesses e privilégios a custa do povo. Como disse Orwell: Todos são iguais, mas alguns são mais iguaisAté agora, o que consegui com este exercício de pensamento é achar que todo o regime é ditatorial.

12 de janeiro de 2014

HUMANOS CRUÉIS (sextos)

A pobre Terra está impregnada
De cruéis humanos que não prestam,
Que no mal a deixam estagnada,
E urdem tramóias que a infestam.

A pobre Terra está padecendo
Cruelmente por nós destruída,
Pela guerra feroz que está vivendo
Na nossa vontade carcomida,
Que só cria na vida planaltos 
Pois q'remos todos voar nos altos.

Da cruel guerra pelo sucesso, 
Temos a guerra pelo descanso,
Uma guerra intensa no balanço
Duma vida compacta de excesso.

Guerra sem senso, guerra sem nexo,
Guerra interna, mas universal,
Feita com o consenso complexo
duma trama em linha racional,
De gente que lhe teme o amplexo
Mas lhe dá o discurso principal.

A pobre Terra está derruindo
Empurrada plos que nela vivem,
E que ferozes vão destruindo
Os dos melhores que nela existem:

Os patrimónios humanitários
Dos belos sonhos hereditários
De construir um novo p’raíso
Onde não haja mais sofrimentos,
Pra destruir o podre juízo
Que neste mundo cria tormentos.

11 de janeiro de 2014

DESFAÇAM-SE, Ó PRANTOS (soneto)

Desfaçam-se, ó prantos que a vida enfeitam, 
Té a luz já tingiram de tição,
Na esperança teceram a aflição, 
À vida só o sofrimento receitam.

Desfaçam-se, ó prantos que o riso enjeitam,
Serão vós do pecado a punição,
Será cansar os homens a missão 
Que execrenadas lá do inferno aceitam?

Desfaçam-se, ó prantos.. não há mais água
Que dos olhos saia banhando a face,
Foi toda seca pela tanta mágoa

Que presas crava na rota alegria;
E tristes gemidos que o rir enlace
Na sua tartárea enlevação cria.

7 de janeiro de 2014

ANÉIS DE RADBURN - princípio urbanístico

Com o aparecimento do automóvel e a sua popularização, nos anos 20, começaram a aparecer novas questões urbanas. O número de acidentes de peões e automóveis aumentavam consideravelmente, pelo que era urgente e necessário encontrar soluções para esse problema.

Radburn, desenvolvida por Clarence Stein, entre 1928 e 1929, foi planeada tendo em conta o automóvel, como disse Edward Relph (A Paisagem Urbana Moderna, Edições 70),  foi planeada para a idade do motor. No entanto, manteve presente alguns princípios urbanos, como os da  cidade-jardim de Howard e os das unidades de vizinhança de Clarence Pery. Aliás, Radburn reuniu todas as técnicas de planeamentos urbanos desenvolvidos desde 1900.

O Princípio de Radburn apresenta como maiores particularidades à separação sistemática da circulação de veículos e pedestres, a superquadra suburbana que consistia numa área de parque delimitada por casas, com estas voltadas para o parque e para os caminhos dos peões e a ampla utilização de cul-de-sac, e ruas estreitas para velocidadede moderada que permitem o acesso dos automóveis às ruas colectoras.

Stein sintetizou os preceitos básicos de seu modelo de organização espacial em cinco pontos:
1. A substituição dos quarteirões por blocos habitacionais, não cortados por vias;
2. A hierarquização das ruas;
3. Separação da circulação de peões da circulação de automóvel por meio de desníveis;
4. Orientação dos espaços principais das casas para jardins;
5. Criação de faixas de verdura formando um parque ramificado a toda a cidade. A superfície dos jardins individuais é reduzida em proveito de áreas livres para uso público.


Em Lisboa, o princípio é visível em Pedrouços (embora o desenho siga claramente a ideia de cidade-jardim de Ebenezer Howard). Há uma clara hierarquização das ruas, quarteirões não cortadas por ruas, casas contíguas a jardins, faixas de verde que formam uma espécie de parque ramificado por todo o bairro, os jardins privados parecem mais pequenos que o públicos, e aplicação dos culs-de-sac.

E em Telheiras, há zonas em que  também é possível ler o mesmo princípio. O Trânsito é separado, e criou-se espécies de parques dentro dos blocos, servindo de respiradouro e ao mesmo tempo de estacionamento, fazendo os culs-de-sac. A circulação dos peões acontece, em alguns casos, separados da dos automóveis, através de passagens aéreas.



5 de janeiro de 2014

APESAR DO MEU AMOR

Eu jurei que serias sempre tudo,
O meu tudo tu serias sempre;
E falei que iria dar-te o mundo,
O mundo que tenho dentro;
E sonhei vivermos sempre juntos,
Juntos para todo o sempre,
Mas acordei, e foi como um vulto,
Só que na alma te tenho no centro.

Vivi cego te amando,
Criando na mente sonhos belos,
Mas depois fui notando
Que com o real não tinham elos;
Tropeçando, mas avançando,
Continuei a criar no ar castelos,
E com alma fui lutando
Para erguidos lograr sustê-los.

O meu sonho caiu em terra,
Desfez-se em mil grãos de areia,
E da mágoa destempera
Tenho minha alma cheia.
A minha alma triste berra,
A realidade a torpedeia,
E nas mágoas se enterra,
Com dores a andar-me na veia.

Depois de tudo que eu falei,
Pelo céu e pelo mar até jurei,
Pode ser mesmo que exagerei,
Pois té os astros eu invoquei;
Depois de tudo o que prometi,
Partindo fizeste-me mentir,
Apesar do amor que estou a sentir
Vou-te tirar de onde te meti.