7 de janeiro de 2014

ANÉIS DE RADBURN - princípio urbanístico

Com o aparecimento do automóvel e a sua popularização, nos anos 20, começaram a aparecer novas questões urbanas. O número de acidentes de peões e automóveis aumentavam consideravelmente, pelo que era urgente e necessário encontrar soluções para esse problema.

Radburn, desenvolvida por Clarence Stein, entre 1928 e 1929, foi planeada tendo em conta o automóvel, como disse Edward Relph (A Paisagem Urbana Moderna, Edições 70),  foi planeada para a idade do motor. No entanto, manteve presente alguns princípios urbanos, como os da  cidade-jardim de Howard e os das unidades de vizinhança de Clarence Pery. Aliás, Radburn reuniu todas as técnicas de planeamentos urbanos desenvolvidos desde 1900.

O Princípio de Radburn apresenta como maiores particularidades à separação sistemática da circulação de veículos e pedestres, a superquadra suburbana que consistia numa área de parque delimitada por casas, com estas voltadas para o parque e para os caminhos dos peões e a ampla utilização de cul-de-sac, e ruas estreitas para velocidadede moderada que permitem o acesso dos automóveis às ruas colectoras.

Stein sintetizou os preceitos básicos de seu modelo de organização espacial em cinco pontos:
1. A substituição dos quarteirões por blocos habitacionais, não cortados por vias;
2. A hierarquização das ruas;
3. Separação da circulação de peões da circulação de automóvel por meio de desníveis;
4. Orientação dos espaços principais das casas para jardins;
5. Criação de faixas de verdura formando um parque ramificado a toda a cidade. A superfície dos jardins individuais é reduzida em proveito de áreas livres para uso público.


Em Lisboa, o princípio é visível em Pedrouços (embora o desenho siga claramente a ideia de cidade-jardim de Ebenezer Howard). Há uma clara hierarquização das ruas, quarteirões não cortadas por ruas, casas contíguas a jardins, faixas de verde que formam uma espécie de parque ramificado por todo o bairro, os jardins privados parecem mais pequenos que o públicos, e aplicação dos culs-de-sac.

E em Telheiras, há zonas em que  também é possível ler o mesmo princípio. O Trânsito é separado, e criou-se espécies de parques dentro dos blocos, servindo de respiradouro e ao mesmo tempo de estacionamento, fazendo os culs-de-sac. A circulação dos peões acontece, em alguns casos, separados da dos automóveis, através de passagens aéreas.



5 de janeiro de 2014

APESAR DO MEU AMOR

Eu jurei que serias sempre tudo,
O meu tudo tu serias sempre;
E falei que iria dar-te o mundo,
O mundo que tenho dentro;
E sonhei vivermos sempre juntos,
Juntos para todo o sempre,
Mas acordei, e foi como um vulto,
Só que na alma te tenho no centro.

Vivi cego te amando,
Criando na mente sonhos belos,
Mas depois fui notando
Que com o real não tinham elos;
Tropeçando, mas avançando,
Continuei a criar no ar castelos,
E com alma fui lutando
Para erguidos lograr sustê-los.

O meu sonho caiu em terra,
Desfez-se em mil grãos de areia,
E da mágoa destempera
Tenho minha alma cheia.
A minha alma triste berra,
A realidade a torpedeia,
E nas mágoas se enterra,
Com dores a andar-me na veia.

Depois de tudo que eu falei,
Pelo céu e pelo mar até jurei,
Pode ser mesmo que exagerei,
Pois té os astros eu invoquei;
Depois de tudo o que prometi,
Partindo fizeste-me mentir,
Apesar do amor que estou a sentir
Vou-te tirar de onde te meti. 

4 de janeiro de 2014

CERTOS NA INCERTEZA (soneto)

Perdido entre a verdade e a incerteza,
Buscando a luz para limpar as ideias,
Os erros são as movediças areias
Que engolem té a ínclita esperteza;

C’o fogo aceso que lume na frieza,
Acendendo na mente intrigas feias, 
Evitando da vida as crenças sérias,
O próprio juízo o pensar despreza.

O homem pensa encontrar a verdade,
Verdade na incerteza camuflada,
A incerteza p’las mentiras criada,

Mentiras feitas p’la arte da inverdade
Que cria o homem para a seguridade,
E a razão do homem é assim burlada.


3 de janeiro de 2014

CLARA DI SABURA, 2011

A Guiné-Bissau não tem uma tradição de cinema muito bem construída, ou construída sequer, são parcos os filmes guineenses, e o único realizador mais ou menos, ou talvez, conhecido é Flora Gomes. Existem alguns filmes e uns pares de documentários que constituem todo o volume do cinema guineense, e, não tenho a certeza, mas não perfazem duas dezenas. E há já um bom tempo que não se fazia um filme com intenção de ser cinema (não conta o último filme de Flora Gomes, Republica di Mininus, com Danny Glover – aliás, escrevi este artigo há já ano e meio), tirando alguns vídeos amadores de teatro-fora-de-palco, com câmaras estáticas, realizados aqui e além por alguns curiosos, os quais, apesar da sua terrível ou ausente qualidade cinematográfica, fazem a delícia dos meus compatriotas, por serem produtos com os quais se identificam. E é claro que gosto de ver alguns deles, mas só porque têm um amigo meu como protagonista.

Ok! É neste meio árido que surge o filme Clara di Sabura, construído com uma mão mais cuidada, porque aspirava a ser cinema, e por isso estou a falar dele como cinema, usando o mesmo padrão de avaliação que uso para os filmes que vejo.

Clara di Sabura é um filme muito amador, adaptado de um poema pseudo-moralista (eu disse pseudo, porque no poema o maior atributo de uma boa mulher é encontrar um homem que a case) e o filme não foge do tema, mantém a mesma linha construída pelo poema e faz um rol de discursos ocos e repetitivos, e apesar de querer mostrar a importância que estudar e formar-se pode ter na vida de uma mulher, não consegue esquivar-se de submetê-la (a mulher, é claro) a um poder masculino (e olhem que nem sou feminista).

Eis a sinopse: Clara é uma adolescente sem cabeça para os estudos, preferindo pôr-se bonita e usar a sua beleza para se safar. E toda, mas toda a gente lhe admoesta, dizendo-lhe que está errada, desprezando-a, tanto à sua frente como ao seu atrás (de maneira que lhe alcunham de Clara di Sabura – traduzido em Clara que Gosta Apenas de Bela-Vida, do Bem Bom, da Facilidade, de Festanças, etc…), e toda essa gente advoga, no entanto, estar preocupada com o futuro da Clara. E um dia (ou anos depois), Clara é chamada para trabalhar numa empresa e não sabe ligar o computador.

Eu sei que a intenção do filme era que fossem genuínas as admoestações que as pessoas faziam à Clara, mas como diz o ditado considju dimas i inveja (demasiados conselhos é inveja), por isso, o efeito que consegue é o oposto do pretendido, o que vemos, após as duas primeiras pessoas terem acabado de falar da Clara (ou com ela), é que ela está rodeada de pessoas invejosas, coscuvilheiras e cheias de más-línguas, típico de lugares onde as pessoas não têm mais nada com que se ocupar.

No entanto, se tirarmos todos esses momentos de más-línguas, não resta nada em Clara di Sabura, talvez apenas mais uns vinte minutos de quase nada, o que mostra a grande falta de ambição do filme (entenda-se que não estou a dizer que o realizador não tivesse sido ambicioso, mas o filme como resultado não é). A promoção do filme é mais ambiciosa do que o próprio filme.

Um dos maiores problemas de Clara di Sabura é a sua unidade temporal: simplesmente não existe. O filme começa com uma Clara adolescente que estuda no ciclo e dorme com professores para obter boas notas, e avança para uma Clara seduzida por um ministro, ou algo assim, e não sabemos mais o que acontece. No próximo segmento, dá-se a entender que já se passaram alguns meses, pelo menos, e a seguir vemos que entre ela e o ministro parece que se passaram apenas umas semanas e que tinham acabado de se conhecer, para logo a seguir ela encontrar uma colega do ciclo que já tinha concluído um curso superior, já trabalhava e já era casada, para percebermos que já se tinham passado muitos anos, mas os actores não envelheceram. Não existe um tempo para a história, porque ela está mal estruturada, o argumentista só quis falar mal da Clara e por isso não ficou atento ao resto.

extracto do filme
o filme todo pode ser visto no youtube

Outros problemas de Clara di Sabura são a edição e a direcçao dos actores e os próprios; quase todos eles amadores, o que não é nenhum problema, porém maus como tudo, nem mesmo o Mário (o amigo atrás referido) se safa (este a pescar para o filme um bocado do seu personagem de Barudjo – um personagem que interpreta num vídeo) ou a Neia (esta última fazendo a sua especialidade teatral - chorar, babar-se e lamentar-se – é a sua imagem de marca), com discursos intermináveis sobre o valor de mulher, que praticanente se resume em saber cozinhar (talvez porque o homem se agarra pelo estômago). Os dialógos não são naturais, todos actuam como se estivessem a fazer teatro, num tipo de teatro também já ultrapassado, onde as frases são debitadas como poesias.

O que podia salvar Clara di Sabura era uma desenvolvimento mais ambicioso, em vez de simplesmente falar mal da personagem. No poema pode funcionar, mas no cinema não, porque a estrutura dos dois é diferente, um poema descreve, metaforiza, sugere, abstracta-se, concretiza-se, usando para isso palavras, o cinema usa imagem, por isso, tem de focar-se mais em mostrar do que descrever, e nisso o filme falhou. Ah, também, a tradução e a legendagem são terríveis.

Talvez, este é o meu ponto de vista, se o filme se focasse em vez de na Clara, nas pessoas que a rodeiam, já que quer fazer um retrato social, mostrando antes de mais a maleita da nossa sociedade que, por não fazer nada, por não ter ocupações, concentra-se mais a falar da vida dos outros, ao invés de focar-se na própria (o que depois se revela num país onde falta acção e, portanto, mantém-se estagnado), promovendo uma certa reforma de pensamento, mostrando que é necessário cultivar outros valores; Ou então, mostrar uma sociedade onde, por falta de oportunidades, as pessoas vêm-se obrigadas a usar as armas de que dispõem para triunfar, no caso da Clara, a sua beleza, e em vez de atacá-la simplesmente por esse motivo, talvez atacar os ministros e os poderosos que fomentam essa prática; se o filme procurasse mesmo os verdadeiros males em vez de simplesmente falar mal das pobres e manietadas mulheres guineenses numa perspectiva machista a beirar a misoginia, talvez Clara di Sabura pudesse ter um estrutura séria.

Para fechar, digo, Clara di Sabura é um filme muito mau e sem ambição, no entanto, louva-se a ambição dos que nele trabalharam. E, prevendo já o ataque dos meus conterrâneos, digo: falar aqui do filme, negativamente ou não, é uma publicidade que estou a fazer dele.

1 de janeiro de 2014

TEMPO SUSPENSO, Philip José Farmer (1985) - a diversidade do mesmo

Quando mais novo, o meu género favorito era a ficção científica, tanto no cinema como na literatura. Gostava (ainda gosto) dessa temática, das teorias de máquinas de tempo, viagens interdimensionais, extraterrestres e tal, no entanto, eu considerava mais o aspecto exterior da ficção científica do que o interior: os ensaios que os bons autores fazem sobre a humanidade. E quando comecei a dar mais atenção ao segundo aspecto, deixei de considerar qualquer coisa que tivesse uma nave espacial de ficção científica, embora lesse tudo com essa classificação. Quando comecei a ler Tempo Suspenso, não estava à espera de nada, apenas de uma leitura leve, e foi o que encontrei, uma leitura leve, porém, com profundidade.

Tempo Suspenso é uma excelente leitura de ficção e um excelente entretenimento literário. O livro arrebata logo nas primeiras páginas e continua, em crescendo, a intrigar mais e mais. O tema é sobre a desesperança na humanidade. Ambientando num futuro distópico, pelo menos para nós aqui, sente-se nele influências do 1984, de Orwell, e do Admirável Mundo Novo, de Huxley, no entanto consegue ser fresco e original, e não fosse o facto de focar-se mais no contexto de aventura, de certeza que era capaz de ombrear com esses em profundidade.

Tempo Suspenso acontece no terceiro milénio, a humanidade sobreviveu, mas sobrelotou o planeta. Então para resolver o problema, o governo, absolutista, resolveu dar a cada pessoa um dia da semana para viver, passando os restantes numa câmara de suspensão. As pessoas vivem num dia qualquer, terça ou domingo, e à meia-noite estão na sua câmara, esperando pela próxima semana. Essas segundas, contavam-se dia a dia, como se fossem dias normais, ou seja os segunda-feiristas, tinhas os seus sete dias da semana completo, e com a tecnologia da suspensão, envelheciam normalmente cumprindo o ciclo biológico. Ninguém parecia ter problema com viver um dia, sendo que vivia todos, mas quem vivesse em todos os dias era considerado criminoso, do pior tipo, um quebra-dias.

Quando se tem um governo totalitário, ou de qualquer tipo que seja, existe sempre a oposição, e é aqui que entra o nosso herói, que é um quebra-dias, um criminoso, quase terrorista, e que vive com sete identidades, um para cada dia, para não ser descoberto, mas que trabalha para a oposição. Este é o mote para o desenvolvimento do Tempo Suspenso, no entanto várias questões, psicológicas e sociais, surgem durante a ocorrência.

Tempo Suspenso tem um belo ritmo e, como já disse, aposta muito na aventura, entretanto, sempre tem tempo para analisar a sociedade através de diferentes prismas. Tal como O Admirável Mundo Novo, mostra que as pessoas são condicionadas de diferentes maneiras e que na realidade, somos mais carneiros do que os próprios, e ao mesmo tempo, questionamos se quando existe a ordem e todos nós somos e estamos basicamente satisfeitos, se é mesmo problemático que esta ordem seja do tipo totalitário.

Farmer é magnífico em desenhar sociedades e idiossincrasias, cada dia apresentado tem etiquetas próprias, maneirismos, linguagens e vícios, podendo-se no entanto ver que não importa o verniz, o homem é sempre homem. E não importa o governo ou a oposição, quando a ideia é de dominar e de regular… bem, resumindo: o poder corrompe.

Uma bela e agradável leitura.

24 de setembro de 2013

UMA QUESTÃO DE... PROSTITUIÇÃO


A prostituição é uma prática social muito degradante, todos concordamos, embora a História e a literatura nos tenham apresentado certas damas das camélias, poderosas e influentes, que, não obstante a sua profissão, atingiram um estatuto invejável.

Acredito que, porque a prostituição envolve, inegavelmente, o sexo, e porque o sexo é para nós um assunto que, conforme diz a cartilha, tem de envolver uma afinidade emocional, ou melhor, afectiva, e cumplicidade a nível profundo, devendo ser usado como uma extensão de amor, afigura-se-nos imoral quando é usado como mercadoria, o que revolta de tal maneira que chamamos às prostitutas de mulheres de vida fácil. Porém, cometemos logo com isso uma injustiça, pois não me parece haver nenhuma facilidade em ter de ir para a cama com desconhecidos, que tanto podem ser carinhosos como violentos, limpos como porcos, etc. como etc., em troca de dinheiro. Sei de pessoas que engatam desconhecidos após desconhecidos, mas fazem-no por prazer, e não porque são obrigadas (excluo os erotómanos, que são compelidos a isso por uma necessidade psicológica).

As prostitutas, sim, acho que não precisava de dizer isso, são pessoas como nós, e, não, não é porque são prostitutas que significa serem moralmente mais falhos que o resto de nós, aliás, em termo comparativos, elas prostituem o próprio corpo, enquanto a maioria prostitui a ideologia, a ética, e alguns o próprio país e o povo pelo qual é responsável.

As prostitutas são do nosso meio social, e por isso moldadas pelos mesmos princípios báscicos morais que nós, e o óculo pelo qual as vemos é o mesmo pelo qual elas se veem, daí é que se sentem párias, simples objectos, e perdem a sua auto-estima, principalmente porque estamos nós sempre de facho aceso, prontos para a queimança, a mostrar-lhes o quão miserável é a sua vida, de forma que acabam mesmo a aceitar que são menos dignas e simples dejectos sociais.

Temos prostitutas e prostitutas, eu sei. Há aquelas de luxo, que ganham numa noite apenas um tanto milhares de euros, e eu tenho ainda alguma dificuldade em compreender a prostituição de luxo. (Deixem-me só esclarecer, eu defendo que cada um deve usar o seu corpo da forma que entender, desde que não ponha terceiros em risco, se há alguém disposto a pagar para o que podemos oferecer quando o podemos oferecer, se não vermos problemas nisso, por que não? – os prostitutas políticos estão fora desse plano, porque põem todo um país em risco.) Como estava a dizer, tenho dificuldade em compreender a prostituição de luxo, porque está envolto num clima de falso glamour (ou real mesmo), muitas meninas são enganadas e julgam que vão tornar-se estrelas ou algo como isso e são sugadas por esse mundo, e daí começam a fazer fotos com casacos de inverno e de repente estão a fazer vídeos com as pernas abertas… já estou a tergiversar.

Vi na SIC Radical (um canal orientado para adolescentes) um programa que mostra um bordel, nos States, onde as meninas são exploradas por um casal de meia-idade. Parecem sempre todos felizes e sentem-se importantes porque aparecem na televisão. A ideia passada pelo programa é que aquele trabalho e igual a qualquer outro (sim, e por que não? – concordo que devemos levantar o estigma e as cercas morais sobre o assunto), no entanto, desconsidera todos os demais factores. Desconsidera que aquelas meninas estão a servir a um casal de proxenetas (ou talvez a uma organização mais complexa), visto que a casa fica com boa percentagem dos ganhos, e que a prostituição é “supostamente” ilegal. Além de que o programa está a fazer publicidade aquelas casas e às suas meninas.

Uma curiosidade acerca dos States, parece que só um estado americano tem a prostituição legalizada, mas se o acto sexual for filmado deixa de ser prostituição e para a ser considerado pornografia, que é legal – como se ela não se processasse nos mesmos moldes que a prostituição, como se não fosse sexo em troca de dinheiro. 

Aquele programa desconsidera que a nossa sociedade desvaloriza as prostitutas, por isso vai insistindo em dizer que aquelas meninas são tratadas com respeito e cavalheirismo, mesmo quando elas mesmo dizem aos clientes: podes fazer tudo o que quiseres comigo… “pois pagaste, és o meu dono”. (Aspas minhas). Quando elas mostram que ganharam 2.000 euros por uma sessão de sexo com um cliente que teve ejaculação precoce, o que vão pensar as milhares de adolescentes a ver o programa? Não é melhor largar a escola (que, por acaso, é garantia de nada) e começar a treinar os meus dotes da Fanny Hill (não as literárias, é claro)? Eu sei que há prostitutas que ganham muito mais do que isso, sorte delas, mas são exceções.



Sou a favor da prostituição, mas sou contra o aliciamento expresso que fazem às adolescentes, principalmente porque elas vão ser exploradas por terceiros. Se a prostituição fosse legalizada, e houvesse uma estrutura legal que protegesse as mulheres de abusos tanto dos clientes como de nós cá que as condenamos, eu não veria problemas nenhum nesse tipo de aliciamento, porque saberia que elas iriam trabalhar, manter a sua auto-estima e não seriam postas de parte. Eu sei que pessoas como a Sasha Grey, ou Jenna Jameson, são endeusadas, porque ficaram ricas e são famosas, embora sejam ou foram prostitutas, desculpa, artistas do sexo, mas elas são exceções das exceções.

O que queria dizer é que há diferentes níveis de prostituição, e eu queria aqui a escrever sobre o nível mais baixo, aquele onde as mulheres têm de se vender para sustentar os filhos e os maridos, ou das estudantes que precisam disso para as propinas da faculdade, e acabei por desviar-me.


vidas em saldo - reportagem da sic

Bem, é certo que pode haver uma ou outra que goste mesmo de prostituir-se, que junta o útil ao agradável, mas pelas estatísticas, são casos raros.

Eu acho que a prostituição deve ser legalizada, afinal já existe prostituição legalizada chamada de cinema pornográfico. No entanto, repito, também acredito que vai ser preciso muitas medidas milagrosas para tentar que as mulheres sejam menos exploradas. A legalização da prostituição não deveria ser de maneira a favorecer aos proxenetas, mas às próprias prostitutas, aquelas que ou optam por ela ou são forçadas a ela porque têm de sobreviver.

Se a prostituição não for legalizada, as prostitutas que só a têm como opção para sobreviver, vão trabalhar nisso a vida toda e no fim, quando forem velhas e acabadas e ninguém as quer, simplesmente ficam lixadas, entretanto, se for legalizada, elas pelo menos podem descontar para o estado e garantir uma reforma ou algo parecido. A prostituição é uma necessidade, má ou boa, mas necessidade (não entendam, necessário, pelamordideus).

Não falei do machismo que envolve a prostituição e nem falei da prostituição masculina, porque tirando aquela referente aos gays, a nossa sociedade chauvinista admira os gigolos, mesmo que secretamente, pois fazem sexo e ainda são pagos para isso.

E qual é a diferença entre a prostituição e a pornografia? por que a segunda é legal e a primeira não?

6 de setembro de 2013

TENTANDO ENTENDER... A CRISE SÍRIA

Um dia, por acaso, estava a acompanhar um debate filosófico entre o meu sobrinho, de sete anos, e o seu amigo, de uns nove ou dez, acerca da mentira, quando o amigo saiu com essa conclusão depois de analisadas as premissas e apresentados os argumentos: “os adultos também mentem, e muito mais do que as crianças”. Não manifestei a minha opinião, pois… onde estaria a solidariedade adultícia se eu confirmasse aos miúdos que eles tinham razão?

Numa analogia similar, considerando que os países ricos são os adultos, e os pobres são os miúdos, cuja opinião não é solicitada, nem levada em conta, eu percebo a solidariedade dos G20 com os americanos, solidariedade sim, porque embora saibam que se trata do interesse económico de um punhado de americanos superricos - aqueles que lucram imenso com a sua máquina de guerra (nada a ver com Van Damme) -, não vão agir em contradição e tudo o que pedem é um aval da ONU, outro pau mandado dos States (bem, mas compreende-se, os países ricos têm interesse em não perder o seu domínio, e a melhor maneira de o não fazer é não embater de frente com o mais rico e poderoso deles). Sendo assim, os G20, ou melhor 19, vão, de qualquer forma apoiar o G1, ou quanto muito, não fazer nada quanto este decidir levar a sua avante. Trata-se da solidariedade adultícia.

Pode ter havido ataque com gás sarin na Síria – como pode não ter –, pode ter sido um trabalho tanto do governo i-“legítimo” – como pode ter sido da oposição – (o i- é para dizer ao Passos Coelho que a legitimidade do governo, mesmo que tenha 100% de votos, perde-se quando põe em risco a sua população em benefício de interesses económicos alheios), mas numa coisa todos concordam, milhares de sírios desgraçados estão a morrer massacrados pela ganância de uns quantos. Pois vê-se que tanto do lado sírio como do americanos há muitas coisas a aparecerem que cheiram a completas manipulações.

Diz-se que há mais ou menos 110 mil mortos desde o início da guerra civil síria, mas isso não interessava aos americanos, nem aos G19, são sírios, porra, nem pessoas são. No entanto, quando se fala que uns 100 sírios morreram com gás sarin, levanta-se a América, toda indignada: Isso é uma barbaridade!  Pois, claro que é! Onde já se viu? Matem-se com armas, com canhões, matem-se com garfadas no olho um do outro, aliás, até podem usar a piada mortal dos Monty Python, matem-se à paulada, matem milhões, matem bilhões, porra, mas não usem o gás, pois isso é barbaridade. Gás só é permitido nas prisões americanas, ninguém mais deve usá-lo.

Obama vai atacar a síria, retaliação, disse ele. Mas que raio fizeram os sírios à América para estes terem de retaliar?

Mas todos sabemos que o G1 não se importa com o que os outros pensam, ele apenas faz, no entanto, do lado de cá, vejo notícias sobre a crise síria que me deixam perplexos. Quem entende os média? Num artigo dizem que existem provas que atestam o ataque em Síria com armas químicas pelo governo, para logo no outro dizerem, em letras miúdas, que a ONU ainda não fez exames conclusivas, para logo a seguir, voltarem a carga em letras garrafais que houve provas e ADN sobre o uso do sarin e que o Cameron tem provas conclusivas, como se não soubessem que Powell, Bush e Blair já tinham apresentado provas conclusivas aquando do ataque ao Iraque? Por que carga d’água os média não usam a palavra “alegadamente” quando apresentam essas notícias em vez de servi-las com factuais, sabendo que muitos nem pensam sobre o que ouvem e partem logo do princípio que os jornalistas não mentem (ai, tenho de avisar o meu sobrinho).

A Síria vai ser invadida para fazer um cerco ao Irão? A Síria vai ser invadida para meter medo aos norte-coreanos e aos iranianos? A Síria vai ser invadida porque, pelos visto, a retirada das tropas de Afeganistão poderá criar desemprego para o milhares de mercenários americanos? A Síria via ser invadida por uma posição estratégica contra a Rússia? A Síria será invadida para um teste cabal dos drones e robots de combate? 

Mas quem raio legitimou a América como a polícia do mundo?

Acho que essas (ou algo como isso) deveriam ser algumas das questões que deviam ser levantadas e analisar a legitimidade de um país invadir o outro. Invadam então Portugal, porque o governo está a usar bombas decretatórias para liquidar a população... ai, por favor, não invadam, estava só a brincar.

Que Obama pôde ter mudado alguma da política americana… sim, ele pôde. No entanto, tal como já vaticinara, ele tem de cumprir as promessas feitas as multinacionais que financiaram a sua campanha, e ele é apenas um outro fantoche da grande e verdadeira América (os bancos e as multinacionais).


Tentei aqui entender a crise síria, mas continuo como quando comecei a escrever isto, não entendi nada.