23 de setembro de 2012

AINDA ARDE A MINHA CHAMA

Reconheço, foi tão intenso no começo,
Nunca vivi coisa igual, eu confesso,
Ainda hoje quando me lembro, embeveço,
E quando penso que é o fim, enlouqueço.

Devo partir mas com o vau eu não atino,
Tento, mas não consigo, pareço um menino,
Sei que é hora, fizeste soar a sino,
Mas não quero ir, quero mudar o destino.

Não devo ficar preso a ti como um inválido,
Não devo deixar o meu mundo esquálido,
Não devo ter o meu alento assim tão pálido,
Devo buscar uma nova vida de modo cálido.

Pois porque eu morro não vais negar viver,
Não vais deixar de buscar lazer e prazer,
Já não queres mais saber, nem me queres ver,
Por isso devo viver a sério e devo te esquecer.

Eu sei, tudo vai mudar se eu encontrar alguém,
Mas como sou louco por ti não me dou a ninguém,
Quero tanto, mas não consigo, tu és o meu bem,
És tu o infinito sonho que a minha alma tem.

Aqui estou, tão frustrado, fazendo um alarde,
Porque tão vivo no meu peito a chama arde,
Alimento em ti esperanças, sou covarde...
Mas se me queres, volta, antes que seja tarde.

22 de setembro de 2012

JUVENTUDE PERDIDA - A SUBMISSÃO DOENTIA E OS NOVOS DEUSES


Como referi no primeiro artigo com o mesmo título, estas reflexões começaram por causa de um único incidente. Já falei da histeria colectiva, agora vou falar sobre a submissão doentia e os novos deuses, a nova religião mundial.



A SUBMISSÃO DOENTIA E OS NOVOS DEUSES

Sempre houve o culto de personalidade, desde os sumérios que cantavam Gilgamês, aos egípcios cujos faraós se manifestavam como descendentes ou incarnação de deuses, o que levou os primeiros legisladores israelitas a atribuírem a Javé o mandamento: não faças para ti imagem de nada que existe sobre a terra e os céus, ou acima ou abaixo, pois sou Javé, e sou o único. 

Sim, foram sábios e equilibrados esses legisladores, porém tiveram o seu Sansão, o seu David e alguns outros poderosos, mas como os mandamentos proibiram claramente a adoração da pessoas, então para contornar, começaram a chamar-lhes de “ungidos” e a dirigir-lhes uma adoração velada. Os romanos imitaram os egípcios, os césares diziam-se deuses ou incarnações, e quando os católicos chegaram também não ficaram atrás e com os seus papas e bispos substituíram as dividandes antigas começando a nomear santos atrás de santos e a deidificar os papas atribuindo-lhes a tríplice coroa que lhes permitia mandar na terra e até mesmo corrigir e castigar os anjos se esses alguma vez errassem. Aliás, mesmo a estória de Cristo teve os seus momentos de contradição, vezes em que ele evitava a adoração pessoal, outras em que a enaltecia. Tudo isto para dizer que o culto da personalidade é tão antigo quanto a história do homem, no entanto aqui quero falar são dos flautistas mágicos, ou melhor, dos ratos que os seguem.

É doentia a forma como se cultua hoje as pessoas e o facto de que ser célebre não significa fazer nada de significante, mas apenas ter um vídeo visto 1.000.000 de vezes no youtube, ou ter 10.000 amigos no facebook, ou 1000 seguidores no twitter, mesmo que tudo o que faças é postar sobre as cinco melhores maneiras de peidar num elevador lotado. O padrão da exigência tem baixado muito e baixa mais a cada dia que passa. Criamos deuses a toda hora e perdemos a identidade por eles, e não estou a falar apenas daqueles que se vestem como o Marilyn Manson ou outro qualquer, mas também de muitos ditos intelectuais que não fazem nada senão repetir pensamentos dos seus ídolos, revelando um vazio de personalidade tal e qual o imitadores antes referidos.

As pessoas são cultuadas como se fossem deuses, e quando famosas são citadas como se fossem donos da verdade, sem uma análise crítica; por exemplo, nada que o Álvaro Ribeiro diga, por mais sentido que faça, tem o mesmo valor que as palavras de Johnny Depp, porque… mas quem raio é o Álvaro?... Aliás, note-se que mesmo eu escrevi o Álvaro precedido do artigo “o” e Johnny Depp sem artigo. Porém se todos sabem quem é o último, poucos sabem que o primeiro é um filósofo, com supostamente mais exercício de pensamento crítico e analítico na bagagem.

E mais, hoje, com a Internet, acontece atribuir-se frases a pessoas que nunca as disseram, ou inventar novos autores para citações antigas; o exemplo mais imediato que tenho agora é o tal: com grandes poderes vem grandes responsabilidades, que teria sido dito por Tio Ben, pelo lápis de Stan Lee, mas que na verdade pertence a… Ou então essa: o melhor é conhecer as pessoas certas do que certas pessoas, atribuídas a Bob Marley, o que não me parece ser verdade, visto que esta frase não funcionaria em inglês (até onde sei, convém ressalvar). Estas são umas das muitas frases constantemente citadas no novo antro da filosofia e lições de vida: o facebook (mas isso fica para para outra altura).

Quando há gentes a dormir durante dois dias ou mais na rua apenas para guardarem a fila para comprar o bilhete de um concerto de qualquer ou de uma estreia de um filme, percebe-se quão minada se encontra a nossa sociedade. E o pior mesmo são os que o fazem pela estreia de um filme, considerando que este fica semanas no cinema e o concerto acontece supostamente uma vez. No entanto, ainda pior são os groupies que vão a todos os concertos e sacrificam-se para adquirir os bilhetes. Porém o maior no entanto vai para os fãs de personagens fictícias que são capazes de fazer tudo por eles.

No entanto, como o gatilho deste artigo foi o jovem, já antes aqui referido, que abriu a boca para receber o líquido que o seu ídolo cuspia, quero voltar a falar dessa relação fã-ídolo. 


Já várias vezes vimos milhões de pessoas a acenderem velas para orar pelo seu ídolo (recorrem a um deus para salvar outro deus), o caso lisboeta mais recente foi o de Angélico. Imagino que muitos daqueles que estavam na rua podiam ter familiares doentes que negligenciaram para andar a velar por ele. E por que era ele muito importante? Para a sua família (atrasados pêsames) eu sei que realmente era, pois conheciam-no e lidavam com ele, mas para os tanto idiotas que estavam na rua a velar será que realmente eram das más músicas dele que gostavam ou era apenas porque tinham de gostar de uma cara bonita que muitas gentes gostavam? Quero com isso dizer que muitos fãs são fãs e veneram outro porque esse é venerado e não porque conhecem mesmo a pessoa. É praticamente uma religião, tal e qual muitos católicos que têm dez bíblias numa prateleira e nunca abriram uma (eu sei como é, tenho seis irmãos que estavam sempre na igreja, mas eu era o único que lia a bíblia)... ou seja são católicos porque outros são, e não propriamente porque se sentem tocados pela doutrina (mas esse é um outro tema do qual vou falar mais tarde personalizadamente).

E a submissão aos novos deuses estende-se a vários patamares, por exemplo, atitudes imorais que não toleraríamos aos outros são permitido aos famosos, porque... oras, porque eles não são como nós. Por exemplo, Michael Jackson não era pedófilo, só queriam denegrir a sua imagem... Hm, mas se fomos pacientes no caso Michael para esperarmos por um julgamento, nos casos corriqueiros estamos de tocha em punho prontos para linchar; ainda falando do Michael, ele não era racista, e só virou branco e teve só filhos brancos porque tinha uma doença de pele, e não porque tinha vergonha da sua cor... Não, procuramos desculpas porque ele é famoso. Gosto muito das músicas da Amy Winehouse (ela vai ganhar um post aqui), mas isso não lhe desculpa a sua conduta auto-destruidora.

Estamos tão ocupados a celebrar ídolos que não olhamos para as pessoas ao nosso lado, e na maior parte das vezes, somos fãs porque invejamos a pessoa e queríamos estar na pele dele, assim como também a denegrimos pelas mesmas razões. E para seres jovem de verdade, tens de ter um poster no quarto de um ídolo qualquer e orar por ele e desejar ser ele, mesmo, repito, mesmo que não possua nenhuma obra de mérito.

Não parece muito grave quando dizem: oh, é a juventude, é a altura ideal para cometer os erros e fazer estupidezes deste género; pois sim, é a juventude, significando que os jovens são uns imberbes e irresponsáveis e que ser jovem é fazer asneiras e ser asno, sem que disso possa vir recriminações, ou seja, são uns seres a quem se desculpa a ausência do cérebro. O problema é que como todos queremos manter o espírito jovem, perpetuamos essa acefalomania até à velhice e nunca deixamos de ser idiotas. Até parece que nunca ouviram falar que: de pequenino se torce o pepino. Distraídos a cultuar humanos nem damos conta como nos perdemos e a repetir os mesmos erros que os nossos antepassados fizeram desde tempos remotos. Será que ninguém percebe a relação entre fã e fanatismo? 

18 de setembro de 2012

VINGADORES, OS, 2012 (The Avengers)

Existe o cinema arte e existe o cinema entretenimento e o segundo abusa mais da técnica, muita forma pouco conteúdo, e não se preocupa muito com a dimensionalidade das personagens ou enredo rebuscado. E Os Vingadores faz parte do segundo grupo. Seguindo à risca a linearidade de uma banda desenhada infantil, apresentando uma realidade a preto e branco (o que não admira e nem deve, considerando que o filme é sobre um punhado de heróis da Marvel), onde os bons batem nos maus e saem todos incólumes no final.

Sim, Os Vingadores é isso, básico até mais não, dois grupos e um motivo para andarem à pancada com o outro. No entanto, apesar disso, não se pode dizer que aos personagens principais falta a dimensionalidade visto nos terem sido apresentados em vários filmes anteriores, por isso neste apenas se limitaram a seguir a trilha.

Entretanto, Os Vingadores é o melhor filme da Marvel feito pela Marvel (ainda continuo a preferir os X-Men: O Início) extremamente superior aos insossos Capitão América e Thor e o segundo Hulk (ainda continuo a achar o de Ang Lee muito bom, apenas maltratado pelos fãs extremistas que querem os filmes como os livros). Apesar de ter seis heróis a disputar os 120 minutos do filme, não contando com o Nick Fury (que foi emprestado do universo Ultimate e não da Terra 616), o ecrã foi muito bem dividido e muito equilibrado, e os minutos finais de acção demonstraram mesmo como isso foi bem pensado, o que se vê nas sequências interruptas como ela foi mostrada (tirando os momentos que cortavam para pôr Fury na tela); por exemplo, seguia-se o Homem-de-Ferro que levava a acção à Viúva Negra, que a entregava ao Hulk ou outro qualquer, e assim por fora. Foi um quadro gigantesco e soberbo, meticulosamente bem trabalhado.

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Momentos cómicos também houveram, sendo Hulk o responsável pelos melhores, e ainda até tentaram iscar-nos com um momento meloso de drama romântico entre dois heróis, os não super, que no entanto não resultou.

Não tenho nada de pseudo-sócio-filosófico para analisar sobre o filme, porque não tem ensinamento nenhum e nem a pretensão disso, é americanamente panfletária como todos os filmes americanos, e não faz nada senão respirar acção e entretenimento. Se gostas de filmes com cérebro ou algum cérebro, passa longe, ou veja X-men: O Ínicio, se queres só pancadaria, Os Vingadores fazem-te as honras.

21 de agosto de 2012

MEU NOME É KHAN, 2010 (My Name is Khan)


Meu nome é Khan e eu não um terrorista.

Eu sou tão emotivo que as lágrimas e os meus olhos andam sempre de mãos dadas, e como a especialidade do cinema indiano, pelo menos nos tempos em que eu era grande consumidor dos seus filmes (qual praticamente 98% dos guineenses), é apelar a emoções fáceis e enternecer para fazer chorar, não foi assim tão difícil verter lágrimas por causa do filme. 

Não tenho visto muito cinema indiano ultimamente, mas no Meu Nome é Khan (Khan, do epiglote) percebe-se bem a gramática de Bollywood impregnada. E não estou a falar mal, é um cinema diferente (embora cada vez mais americanizado), colorido e vivo, quando o argumento não peca, é claro. Mas, basta disso… vou falar do filme.

Eis a sinopse: Khan é um muçulmano indiano que vive nos EUA pós-11-de-Setembro, ele é íntegro, trabalhador, boa pessoa, porém, o ódio e a discriminação orientados para os muçulmanos a partir de então complica-lhe a vida. E para piorar a situação, ele sofre de síndrome de asperger (outro filme que retrata bem esse problema é Mary e Max). Por causa de uma interpretação literal, próprio dos aspies, porque eles não conseguem entender a ironia ou o sarcasmo (ah… procurem sobre o assunto), Khan vê-se com a tarefa de encontrar o presidente da américa, Bush, para lhe dizer que não é terrorista.

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A abertura do filme mostra já a preocupante situação dos muçulmanos e comunidades árabes nos EUA, e de como a liberdade deles está muito condicionada e como a paranóia em relação a todos os muçulmanos serem potenciais terroristas está implantada na população americana… americana? Na população global. Eu sei que existem ayatollahs que publicitam o ódio e prometem virgens a suicidas em nome da fé… sim, existem… até no próprio filme aparece alguém assim, entretanto acreditar que qualquer um que diga Alá em vez de Deus é terrorista é preconceituosamente discriminatória.

O filme tenta lidar com vários problemas, o dos aspies, o da discriminação aos muçulmanos na América e o do conflito muçulmano-hindu, e Kahn acaba por ser a pessoa a estabelecer a ponte entre todos esses problemas, sendo o neutro da questão, porque para ele só existem dois tipos de pessoas: as boas que fazem coisas boas e as más que fazem coisas más, e o resto: a cor, o credo, a nacionalidade é mais secundária… e isso tentou-se mostrar através duma comunidade preta de sul da qual ficou amigo.

Meu Nome é Kahn é um bom filme, mas longe de ser perfeito, porque a certa altura tornou-se todo fabuloso, plástico e irreal, e não consegue esconder o molde, e por tentar tratar de muitos problemas ao mesmo tempo por vezes parece que perde o foco. No entanto, a grosso modo vale a pena ser visto. Boa banda sonora, bons momentos de humor, apelo às lagrimas, boa representação por parte dos actores principais, uma direcção sólida que beira à teatral algumas vezes (só para constar), e uma fotografia bonita que aproveita para fazer da cidade outro personagem. Altamente recomendável, senão pela história em si, pelo menos pelas preocupações que ressalva.

13 de agosto de 2012

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano musical


Nos artigos anteriores em que falei sobre o erótico ou pornográfico, referi-me ao plano cinematográfico e ao plano literário, desta vez pretendo falar dos dois no plano musical. E, vou evitar falar dos vídeos, porque embora sejam complementos da música actualmente entram mais no plano visual, e por não serem cinema, talvez venham a ganhar um artigo independente. Posto isto, avanço:

Eu gostava de Roberta Miranda, acho que ainda gosto, embora já faz um bom tempo que não a escuto. Ela tinha esta música, Atração Fatal, que me custava um tanto cantar em voz alta, por causa das imagens que evoca na refrão que dizia: tou querendo tudo em mim, te sentir bem animal, ai ai ai ai ai… É que eu era muito católico e lá em casa não podíamos usar a palavra S… ok!, sexo, já disse. Para o meu pai dizer sexo implicava vontade de o fazer ou algo assim no género e portanto era palavra proibida… mas qual quê, contávamos entre nós muitas histórias que envolviam sexo, o famoso peixinho, peixinho, na praia de bambadinca e anedotas de traição… enfim.

Essa introdução é só para reforçar o que todo o mundo já sabe: o sexo faz parte da nossa vida, mercantilizada, moralizada, religionizada, poetizada, e de diferentes outras formas. Ao mesmo tempo que a moral estipula o sexo “correcto”, ele nos é apresentado como necessário e fundamental à nossa saúde, e inevitável, sob a tutela da mesma unidade vigilante e moralizadora. Um moralismo hipócrita.

É certo que o tanto o erótico como o pornográfico têm a mesma função: mexer-nos com a libido e excitar os sentidos; e sendo assim muito dificilmente se considera a música como erótico ou pornográfico, todavia, se ficarmos atentos ao seu teor e à sua imagem facilmente vemos isso nelas.

Por exemplo, as músicas de Quim Barreiros ou da Rosinha apesar de virem carregados de um duplo sentido e implicitamente sexuais, dificilmente se podem considerar pornográficas ou eróticas, no entanto, algumas músicas metidas a românticas acabam por não falar dos ditos nobres sentimentos mas de folguedos sexuais, perdendo-se entre o erótico e o porno. Entretanto, considerando que o pornográfico é mais explícito que o romântico, podemos encontrar mesmo na música essa diferença.

Não sei bem em quê se enquadraria a Ai, se eu te pego de Michael Telô, se para mim é pornográfica, considerando as palavras que usa e a insinuação aberta, para alguns não passa de um monte de palavras, entretanto, alguém acredita que essa música seria famosa se não fosse pelo seu tom sexual? Pode-se argumentar que há músicas mais explícitas e sexuais e melhor cantadas e tocadas do que essa do Michael mas não são famosas, para dizer que não foi o componente sexual que lhe deu a fama, mas a verdade é que a dissimulação existente na Ai, se eu te pego faz todo o seu trunfo, como disse uma amiga fã da música: ela não diz nada, mas diz tudo.

Do Brasil temos músicas abertamente pornográficas chamadas de funk, todas dizendo a mesma coisa, e se ouvires cem delas acredito que terás aprendido metade da kamasutra. Mas não é apenas do Brasil que temos músicas dessas, vêm de toda a parte do mundo. Vou citar um exemplo português, feito pelo rapper Valete, com a sua Roleta Russa, onde faz um bem descritivo episódio sexual, para no fim fingir que a ideia por trás de tudo é avisar sobre a necessidade do uso do preservativo… nada a ver uma coisa com a outra, porque quando fazemos um aviso, ilustramos com consequência, e a música era inconsequente. De igual modo temos o rapper Azagaia que fez o mesmo (não me lembro do título) e com melhores resultados, depois de uma extenuante descrição sexual, no fim choca-nos com a ideia de que está a falar da exploração sexual infantil, consegue ser melhor que o primeiro, mas se realmente pretendesse passar uma mensagem não limitaria o público sendo pornográfico. Xeg, por exemplo, com a sua Vaca de Merda, não é nem erótico, nem pornográfico, mas simplesmente ordinário, usando palavras de um adolescente despeitado para fazer toda uma música. Enfim...

Como disse antes, somos invadidos pelo erótico e pelo pornográfico de tal maneira que não sabemos separar as duas coisas, e todos os nossos sentidos são bombardeados por eles, ou melhor, pelo sexo. Quando vemos axe na televisão a prometer sexo fácil, ou vemos uma publicidade de um carro que nos promete mulheres se comprarmos o modelo, e no dia seguinte sentir-mos o cheiro de axe ou vermos a imagem do carro, não conseguimos evitar a sexualização do produto e acordar em nós imagens eróticas. A música faz a mesma coisa connosco e de uma maneira mais substancial.

No entanto, o que me admira acima de tudo é as pessoas continuarem a fazer-se de admiradas e a fingirem não entender a razão das criança serem cada vez mais sexualmente precoces.

3 de agosto de 2012

OLMSTED E A ARQUITECTURA PAISAGÍSTICA


Nota introdutória

O presente texto vai ser focado no conceito da cidade do teórico urbano Frederick Law Olmsted. Pretende-se explorar esse conceito para comparar com os padrões actuais da concepção da cidade e ver até que ponto a sua influência se estende, ou se não teve influência nenhuma.


Breve biografia


Frederick Law Olmsted (1822-1903), considerado o pai da arquitectura paisagística norte-americana[1], foi um teórico urbano muito importante, senão um dos mais influentes, nos finais do Séc. XIX e início do Séc. XX. Desenhou Central Park de Nova Iorque, Prospect Park de Brooklyn, South Park de Chicago, entre outros, analisou projectos chaves iniciados em 250 áreas urbanas dos EUA e elaborou estratégias e programas que foram bem sucedidos e outros também que falharam[2]. O seu livro Civilizing American Cities: Writings on City Landscapes, explica o conceito urbano por ele defendido.
Olmsted foi uma personagem deveras interessante, foi marinheiro, comerciante e jornalista, e teve uma brilhante carreira nesta última profissão.
Em 1850 viajou para a Inglaterra para visitar jardins públicos onde foi profundamente impressionado pelo parque Joseph Paxton Birkenhead; viagem que posteriormente, em 1852, relatou no seu livro Walks and Talks of an American Farmer in England.
O seu amigo e mentor Andrew Jackson Downing, arquitecto paisagista, foi quem primeiro propôs uma reforma do Central park de Nova Iorque; foi através deste que conheceu o arquitecto Calvert Vaux. Após a trágica morte de Downing, em 1858, Olmsted, em equipa com Vaux, resolveu participar no concurso público para Central Park com um projecto em honra do amigo morto e ganhou o concurso[3]

A concepção do Central Park norteava-se em torno da ideia de igualdade social. Para Olmsted defendia que o espaço verde comum deve ser acessível a todos os cidadãos, independentemente da classe. Esta ideia que agora um dado adquirido e inerente ao conceito de parque público, não o era nessa altura. Era uma ideia à parte e revolucionária, de ordem tal que o mandato de Olmsted como comissário do parque se transformou numa longa luta para a preservar.

Em 1885, Olmsted criou, em parceria com os filhos, o que foi considerado a primeira firma de arquitectura paisagista a tempo inteiro.

Em 1895, com 65 anos, forçado a abandonar o negócio por senilidade, deixou os seus filhos a continuar o seu legado. Morre em 1903, deixando um importante trabalho sobre arquitectura paisagista[4]


Arquitectura paisagista

A história da arquitectura confunde-se durante um certo período com a história de jardinagem, todavia diferem. Ambas as artes estão preocupadas com a composição da plantação, o terreno, água, pavimentação e outras estruturas, mas, o design de jardins é orientado para espaços privados e vedados, enquanto que a o design da paisagem reflecte-se tanto em espaços fechados como espaços abertos (praças, parques e vias verdes). A arquitectura paisagista entretanto, não é uma arte recente, pois remonta ao tratamento de espaços exteriores ancestrais por sucessivas culturas antigas, da Pérsia e Egipto à Grécia e Roma. Durante o Renascimento, este interesse pelo espaço exterior, que havia diminuído durante a Idade Média, foi revivido com esplêndidos resultados na Itália e deu origem às vivendas ornamentadas, jardins, e grandes praças exteriores.

No Séc. XVIII, a Inglaterra tornou-se o foco de um novo estilo de desenho paisagem; muitos dos parques desenhados nessa altura ainda perduram hoje. 

O termo arquitectura paisagista foi pela primeira vez utilizado por Gilbert Laing Meason no título do seu livro sobre a Arquitectura Paisagística dos Grandes Pintores da Itália. Era sobre o tipo de arquitectura paisagística encontrado em pinturas. O termo foi, no entanto, no Séc. XIX, retomado à luz de um novo conceito por J.C. Loudon e A.J. Downing.

Através do Séx. XIX, o planeamento urbano tornou-se mais importante, e era uma combinação de planeamento moderno com a tradição de jardinagem e tornou-se o foco da arquitectura paisagista. Foi na segunda metade do século XIX que apareceu Olmsted, com as suas teorias e sobre a arquitectura paisagista e desenhos de parques que ainda continuam a influenciar esta arte[5].

O parque surge como facto urbano relevante e tem seu pleno desenvolvimento, com ênfase maior na reformulação de Haussmann em Paris, e o Park Movement liderado por Frederick Law Olmsted e seus trabalhos em New York, Chicago e Boston.



Park Movement e Olmsted

Tal como o nome indica foi um movimento que revolucionou a forma da concepção da paisagem urbana, nomeadamente, na concepção de espaços verdes, por outras palavras, na criação de pulmões para a cidade, criando parques.

Para Olmsted, parque é um lugar com amplitude e espaço suficientes e com todas as qualidades necessárias que justifiquem a aplicação a eles daquilo que pode ser encontrado na palavra cenário ou na palavra paisagem, no seu sentido mais antigo e radical, naquilo que os aproxima muito de cenário. Ou seja, parque tem que ser um lugar artístico com uma identidade própria e adequado ao uso (recreação, espraiamento e embelezamento da paisagem).

Olmsted defendia a utilização económica dos espaços livres, criando oportunidades de recreação e também de preservar os recursos naturais, controlo de enchentes, proteger os mananciais, entre outras coisas, para obter espaços agradáveis para passear e morar. Esses trabalhos, além de inspirar a criação de inúmeros parques, mudaram o conceito de qualidade ambiental urbana. Segundo ele, o movimento se resumiria em alguns objectivos operativos, entre eles: a dimensão e forma das ruas; a dimensão, carácter dos edifícios e sua localização em relação recíproca com os espaços públicos; a disposição das zonas sem edificação; e o tratamento dessas zonas sem edificação com eventual presença de ruas, com distribuição dos objectos emergentes sobre elas, com árvores, postes, valetas, etc[6]

A constituição dos parques era a primeira escala de uma intervenção mais complexa de planificação física e social. Olmsted considera os parques como demonstração da saúde mental do povo e instrumento de luta contra a congestão e instrumento de redistribuição de riqueza. Acreditava ainda que o parque era o símbolo de uma nova vida comunitária e emergiria como lugar de alegria, onde fosse possível cultivar todas as actividades espirituais impedidas na cidade. 

Para Olmsted, o parque substituía o edifício religioso que havia simbolizado o espírito unitário da comunidade primitiva. A cidade, organizando-se em torno de seus próprios espaços verdes, voltava a encontrar a unidade desfeita, reconstruindo um símbolo laico da comunidade perdida. Além disso, para Olmsted, o parque traduzia-se em justiça social e participação democrática: as classes inferiores não estavam mais segregadas na cidade, podendo gozar da natureza igualitariamente acessível, ou seja, o parque era um instrumento de nivelamento social e de educação do povo para a responsabilidade colectiva do bem-estar. 


Nota conclusiva

Através destes conceitos um tanto utópicos defendido por Olmsted, superou-se o modelo de parque anterior, idealizado em bairros burgueses e para exibição social, migrou-se para concepção de espaços verdes destinados a uso colectivo, procurando recriar as condições naturais que a vida urbana insiste em negar, local de sociabilidade onde o povo encontre suas origens, no contacto físico e activo com a natureza. 

Começa-se assim a criar lugares de socialização para jogos e ginástica, como o Volkspark, na Alemanha[7].




[1] http://www.soniaa.arq.prof.ufsc.br/arq5605/Arquiteturadapaisagemdefinindoaprofissao.htm
[2] http://mitpress.mit.edu/catalog/item/default.asp?ttype=2&tid=6887
[3] http://www.fredericklawolmsted.com/Lifeframe.htm
[4] http://en.wikipedia.org/wiki/Frederick_Law_Olmsted
[5] http://en.wikipedia.org/wiki/Landscape_architecture
[6] http://aprender.unb.br/mod/resource/view.php?id=26770
[7] http://aprender.unb.br/mod/resource/view.php?id=26770


P.S.: não faço ideia do que aconteceu com o resto do final do texto.

31 de julho de 2012

PURO AÇO, 2011 (Real Steel)


Dois robots a lutar, que piada tem? Foi isso que pensei quando vi a promo de Puro Aço; nem o nome de Hugh Jackman, ou Steven Spielberg na produção, me convenceu; talvez se passar num domingo à tarde na TV e eu não tiver nada para fazer eu veja o filme, concluí. No entanto, estava duplamente enganado, não só acabei por ver o filme, como gostei dele.

Apesar de tudo, Puro Aço é mesmo um filme para um domingo à tarde, para um serão tranquilo e agradável com os sobrinhos. É um filme muito simpático e ritmado, com zero de profundidade, todo a cheirar a Disney, aliás é da Dreamwork, mas que consegue enlear durante a sua duração. 

Previsível? Como o caraças. É uma mistura de Rocky com Over the Top (acho que já tinha usado algures esta mesma comparação), um pai irresponsável com um filho que lhe cai ao colo de repente e que, acima de tudo no mundo, quer ser amado por ele e blá-blá-blá e foram felizes para sempre.

No entanto, o melhor do filme mesmo é ver Dakota Goyo a roubar as cenas a Hugh Jackman.

Eis a sinopse: No futuro qualquer actual e alternativo, um ex-boxista, modalidade que já não se usa nos moldes que conhecemos, tendo os lutadores substituídos por robots, passa a vida a viajar com o seu robot participando em jogos. Um dia, recebe a guarda do seu filho que nunca viu mais gordo na sua vida e este descobre um robot antigo e ultrapassado num ferro-felho e começa a participar nos circuitos de luta com ele e vão subindo e subindo até competir com os gigantes.

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É assim Puro Aço, entretanto pelo meio temos uma história de amor meio desequilibrado, uma história de relação pai-filho, e alguns momentos que rapidamente esquecemos entre as divertidas cenas de luta. A fotografia é boa, os efeitos visuais são bem feitos e suportam bem o filme. E tem umas duas sequências de meter inveja a vários video-clips.

Como me disse aqui uma vez alguém, há filmes que vemos só para entretenimento mesmo e não procuramos tirar dele nenhuma lição, este aqui é um deles, embora venha imbuído de algum moral de digestão fácil. No geral, Puro Aço é um daqueles incentivos de auto-ajuda que promove: não deixes que a tua origem te limite o destino.

Um filme divertido para a família.