13 de agosto de 2012

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano musical


Nos artigos anteriores em que falei sobre o erótico ou pornográfico, referi-me ao plano cinematográfico e ao plano literário, desta vez pretendo falar dos dois no plano musical. E, vou evitar falar dos vídeos, porque embora sejam complementos da música actualmente entram mais no plano visual, e por não serem cinema, talvez venham a ganhar um artigo independente. Posto isto, avanço:

Eu gostava de Roberta Miranda, acho que ainda gosto, embora já faz um bom tempo que não a escuto. Ela tinha esta música, Atração Fatal, que me custava um tanto cantar em voz alta, por causa das imagens que evoca na refrão que dizia: tou querendo tudo em mim, te sentir bem animal, ai ai ai ai ai… É que eu era muito católico e lá em casa não podíamos usar a palavra S… ok!, sexo, já disse. Para o meu pai dizer sexo implicava vontade de o fazer ou algo assim no género e portanto era palavra proibida… mas qual quê, contávamos entre nós muitas histórias que envolviam sexo, o famoso peixinho, peixinho, na praia de bambadinca e anedotas de traição… enfim.

Essa introdução é só para reforçar o que todo o mundo já sabe: o sexo faz parte da nossa vida, mercantilizada, moralizada, religionizada, poetizada, e de diferentes outras formas. Ao mesmo tempo que a moral estipula o sexo “correcto”, ele nos é apresentado como necessário e fundamental à nossa saúde, e inevitável, sob a tutela da mesma unidade vigilante e moralizadora. Um moralismo hipócrita.

É certo que o tanto o erótico como o pornográfico têm a mesma função: mexer-nos com a libido e excitar os sentidos; e sendo assim muito dificilmente se considera a música como erótico ou pornográfico, todavia, se ficarmos atentos ao seu teor e à sua imagem facilmente vemos isso nelas.

Por exemplo, as músicas de Quim Barreiros ou da Rosinha apesar de virem carregados de um duplo sentido e implicitamente sexuais, dificilmente se podem considerar pornográficas ou eróticas, no entanto, algumas músicas metidas a românticas acabam por não falar dos ditos nobres sentimentos mas de folguedos sexuais, perdendo-se entre o erótico e o porno. Entretanto, considerando que o pornográfico é mais explícito que o romântico, podemos encontrar mesmo na música essa diferença.

Não sei bem em quê se enquadraria a Ai, se eu te pego de Michael Telô, se para mim é pornográfica, considerando as palavras que usa e a insinuação aberta, para alguns não passa de um monte de palavras, entretanto, alguém acredita que essa música seria famosa se não fosse pelo seu tom sexual? Pode-se argumentar que há músicas mais explícitas e sexuais e melhor cantadas e tocadas do que essa do Michael mas não são famosas, para dizer que não foi o componente sexual que lhe deu a fama, mas a verdade é que a dissimulação existente na Ai, se eu te pego faz todo o seu trunfo, como disse uma amiga fã da música: ela não diz nada, mas diz tudo.

Do Brasil temos músicas abertamente pornográficas chamadas de funk, todas dizendo a mesma coisa, e se ouvires cem delas acredito que terás aprendido metade da kamasutra. Mas não é apenas do Brasil que temos músicas dessas, vêm de toda a parte do mundo. Vou citar um exemplo português, feito pelo rapper Valete, com a sua Roleta Russa, onde faz um bem descritivo episódio sexual, para no fim fingir que a ideia por trás de tudo é avisar sobre a necessidade do uso do preservativo… nada a ver uma coisa com a outra, porque quando fazemos um aviso, ilustramos com consequência, e a música era inconsequente. De igual modo temos o rapper Azagaia que fez o mesmo (não me lembro do título) e com melhores resultados, depois de uma extenuante descrição sexual, no fim choca-nos com a ideia de que está a falar da exploração sexual infantil, consegue ser melhor que o primeiro, mas se realmente pretendesse passar uma mensagem não limitaria o público sendo pornográfico. Xeg, por exemplo, com a sua Vaca de Merda, não é nem erótico, nem pornográfico, mas simplesmente ordinário, usando palavras de um adolescente despeitado para fazer toda uma música. Enfim...

Como disse antes, somos invadidos pelo erótico e pelo pornográfico de tal maneira que não sabemos separar as duas coisas, e todos os nossos sentidos são bombardeados por eles, ou melhor, pelo sexo. Quando vemos axe na televisão a prometer sexo fácil, ou vemos uma publicidade de um carro que nos promete mulheres se comprarmos o modelo, e no dia seguinte sentir-mos o cheiro de axe ou vermos a imagem do carro, não conseguimos evitar a sexualização do produto e acordar em nós imagens eróticas. A música faz a mesma coisa connosco e de uma maneira mais substancial.

No entanto, o que me admira acima de tudo é as pessoas continuarem a fazer-se de admiradas e a fingirem não entender a razão das criança serem cada vez mais sexualmente precoces.

3 de agosto de 2012

OLMSTED E A ARQUITECTURA PAISAGÍSTICA


Nota introdutória

O presente texto vai ser focado no conceito da cidade do teórico urbano Frederick Law Olmsted. Pretende-se explorar esse conceito para comparar com os padrões actuais da concepção da cidade e ver até que ponto a sua influência se estende, ou se não teve influência nenhuma.


Breve biografia


Frederick Law Olmsted (1822-1903), considerado o pai da arquitectura paisagística norte-americana[1], foi um teórico urbano muito importante, senão um dos mais influentes, nos finais do Séc. XIX e início do Séc. XX. Desenhou Central Park de Nova Iorque, Prospect Park de Brooklyn, South Park de Chicago, entre outros, analisou projectos chaves iniciados em 250 áreas urbanas dos EUA e elaborou estratégias e programas que foram bem sucedidos e outros também que falharam[2]. O seu livro Civilizing American Cities: Writings on City Landscapes, explica o conceito urbano por ele defendido.
Olmsted foi uma personagem deveras interessante, foi marinheiro, comerciante e jornalista, e teve uma brilhante carreira nesta última profissão.
Em 1850 viajou para a Inglaterra para visitar jardins públicos onde foi profundamente impressionado pelo parque Joseph Paxton Birkenhead; viagem que posteriormente, em 1852, relatou no seu livro Walks and Talks of an American Farmer in England.
O seu amigo e mentor Andrew Jackson Downing, arquitecto paisagista, foi quem primeiro propôs uma reforma do Central park de Nova Iorque; foi através deste que conheceu o arquitecto Calvert Vaux. Após a trágica morte de Downing, em 1858, Olmsted, em equipa com Vaux, resolveu participar no concurso público para Central Park com um projecto em honra do amigo morto e ganhou o concurso[3]

A concepção do Central Park norteava-se em torno da ideia de igualdade social. Para Olmsted defendia que o espaço verde comum deve ser acessível a todos os cidadãos, independentemente da classe. Esta ideia que agora um dado adquirido e inerente ao conceito de parque público, não o era nessa altura. Era uma ideia à parte e revolucionária, de ordem tal que o mandato de Olmsted como comissário do parque se transformou numa longa luta para a preservar.

Em 1885, Olmsted criou, em parceria com os filhos, o que foi considerado a primeira firma de arquitectura paisagista a tempo inteiro.

Em 1895, com 65 anos, forçado a abandonar o negócio por senilidade, deixou os seus filhos a continuar o seu legado. Morre em 1903, deixando um importante trabalho sobre arquitectura paisagista[4]


Arquitectura paisagista

A história da arquitectura confunde-se durante um certo período com a história de jardinagem, todavia diferem. Ambas as artes estão preocupadas com a composição da plantação, o terreno, água, pavimentação e outras estruturas, mas, o design de jardins é orientado para espaços privados e vedados, enquanto que a o design da paisagem reflecte-se tanto em espaços fechados como espaços abertos (praças, parques e vias verdes). A arquitectura paisagista entretanto, não é uma arte recente, pois remonta ao tratamento de espaços exteriores ancestrais por sucessivas culturas antigas, da Pérsia e Egipto à Grécia e Roma. Durante o Renascimento, este interesse pelo espaço exterior, que havia diminuído durante a Idade Média, foi revivido com esplêndidos resultados na Itália e deu origem às vivendas ornamentadas, jardins, e grandes praças exteriores.

No Séc. XVIII, a Inglaterra tornou-se o foco de um novo estilo de desenho paisagem; muitos dos parques desenhados nessa altura ainda perduram hoje. 

O termo arquitectura paisagista foi pela primeira vez utilizado por Gilbert Laing Meason no título do seu livro sobre a Arquitectura Paisagística dos Grandes Pintores da Itália. Era sobre o tipo de arquitectura paisagística encontrado em pinturas. O termo foi, no entanto, no Séc. XIX, retomado à luz de um novo conceito por J.C. Loudon e A.J. Downing.

Através do Séx. XIX, o planeamento urbano tornou-se mais importante, e era uma combinação de planeamento moderno com a tradição de jardinagem e tornou-se o foco da arquitectura paisagista. Foi na segunda metade do século XIX que apareceu Olmsted, com as suas teorias e sobre a arquitectura paisagista e desenhos de parques que ainda continuam a influenciar esta arte[5].

O parque surge como facto urbano relevante e tem seu pleno desenvolvimento, com ênfase maior na reformulação de Haussmann em Paris, e o Park Movement liderado por Frederick Law Olmsted e seus trabalhos em New York, Chicago e Boston.



Park Movement e Olmsted

Tal como o nome indica foi um movimento que revolucionou a forma da concepção da paisagem urbana, nomeadamente, na concepção de espaços verdes, por outras palavras, na criação de pulmões para a cidade, criando parques.

Para Olmsted, parque é um lugar com amplitude e espaço suficientes e com todas as qualidades necessárias que justifiquem a aplicação a eles daquilo que pode ser encontrado na palavra cenário ou na palavra paisagem, no seu sentido mais antigo e radical, naquilo que os aproxima muito de cenário. Ou seja, parque tem que ser um lugar artístico com uma identidade própria e adequado ao uso (recreação, espraiamento e embelezamento da paisagem).

Olmsted defendia a utilização económica dos espaços livres, criando oportunidades de recreação e também de preservar os recursos naturais, controlo de enchentes, proteger os mananciais, entre outras coisas, para obter espaços agradáveis para passear e morar. Esses trabalhos, além de inspirar a criação de inúmeros parques, mudaram o conceito de qualidade ambiental urbana. Segundo ele, o movimento se resumiria em alguns objectivos operativos, entre eles: a dimensão e forma das ruas; a dimensão, carácter dos edifícios e sua localização em relação recíproca com os espaços públicos; a disposição das zonas sem edificação; e o tratamento dessas zonas sem edificação com eventual presença de ruas, com distribuição dos objectos emergentes sobre elas, com árvores, postes, valetas, etc[6]

A constituição dos parques era a primeira escala de uma intervenção mais complexa de planificação física e social. Olmsted considera os parques como demonstração da saúde mental do povo e instrumento de luta contra a congestão e instrumento de redistribuição de riqueza. Acreditava ainda que o parque era o símbolo de uma nova vida comunitária e emergiria como lugar de alegria, onde fosse possível cultivar todas as actividades espirituais impedidas na cidade. 

Para Olmsted, o parque substituía o edifício religioso que havia simbolizado o espírito unitário da comunidade primitiva. A cidade, organizando-se em torno de seus próprios espaços verdes, voltava a encontrar a unidade desfeita, reconstruindo um símbolo laico da comunidade perdida. Além disso, para Olmsted, o parque traduzia-se em justiça social e participação democrática: as classes inferiores não estavam mais segregadas na cidade, podendo gozar da natureza igualitariamente acessível, ou seja, o parque era um instrumento de nivelamento social e de educação do povo para a responsabilidade colectiva do bem-estar. 


Nota conclusiva

Através destes conceitos um tanto utópicos defendido por Olmsted, superou-se o modelo de parque anterior, idealizado em bairros burgueses e para exibição social, migrou-se para concepção de espaços verdes destinados a uso colectivo, procurando recriar as condições naturais que a vida urbana insiste em negar, local de sociabilidade onde o povo encontre suas origens, no contacto físico e activo com a natureza. 

Começa-se assim a criar lugares de socialização para jogos e ginástica, como o Volkspark, na Alemanha[7].




[1] http://www.soniaa.arq.prof.ufsc.br/arq5605/Arquiteturadapaisagemdefinindoaprofissao.htm
[2] http://mitpress.mit.edu/catalog/item/default.asp?ttype=2&tid=6887
[3] http://www.fredericklawolmsted.com/Lifeframe.htm
[4] http://en.wikipedia.org/wiki/Frederick_Law_Olmsted
[5] http://en.wikipedia.org/wiki/Landscape_architecture
[6] http://aprender.unb.br/mod/resource/view.php?id=26770
[7] http://aprender.unb.br/mod/resource/view.php?id=26770


P.S.: não faço ideia do que aconteceu com o resto do final do texto.

31 de julho de 2012

PURO AÇO, 2011 (Real Steel)


Dois robots a lutar, que piada tem? Foi isso que pensei quando vi a promo de Puro Aço; nem o nome de Hugh Jackman, ou Steven Spielberg na produção, me convenceu; talvez se passar num domingo à tarde na TV e eu não tiver nada para fazer eu veja o filme, concluí. No entanto, estava duplamente enganado, não só acabei por ver o filme, como gostei dele.

Apesar de tudo, Puro Aço é mesmo um filme para um domingo à tarde, para um serão tranquilo e agradável com os sobrinhos. É um filme muito simpático e ritmado, com zero de profundidade, todo a cheirar a Disney, aliás é da Dreamwork, mas que consegue enlear durante a sua duração. 

Previsível? Como o caraças. É uma mistura de Rocky com Over the Top (acho que já tinha usado algures esta mesma comparação), um pai irresponsável com um filho que lhe cai ao colo de repente e que, acima de tudo no mundo, quer ser amado por ele e blá-blá-blá e foram felizes para sempre.

No entanto, o melhor do filme mesmo é ver Dakota Goyo a roubar as cenas a Hugh Jackman.

Eis a sinopse: No futuro qualquer actual e alternativo, um ex-boxista, modalidade que já não se usa nos moldes que conhecemos, tendo os lutadores substituídos por robots, passa a vida a viajar com o seu robot participando em jogos. Um dia, recebe a guarda do seu filho que nunca viu mais gordo na sua vida e este descobre um robot antigo e ultrapassado num ferro-felho e começa a participar nos circuitos de luta com ele e vão subindo e subindo até competir com os gigantes.

trailer

É assim Puro Aço, entretanto pelo meio temos uma história de amor meio desequilibrado, uma história de relação pai-filho, e alguns momentos que rapidamente esquecemos entre as divertidas cenas de luta. A fotografia é boa, os efeitos visuais são bem feitos e suportam bem o filme. E tem umas duas sequências de meter inveja a vários video-clips.

Como me disse aqui uma vez alguém, há filmes que vemos só para entretenimento mesmo e não procuramos tirar dele nenhuma lição, este aqui é um deles, embora venha imbuído de algum moral de digestão fácil. No geral, Puro Aço é um daqueles incentivos de auto-ajuda que promove: não deixes que a tua origem te limite o destino.

Um filme divertido para a família.


28 de julho de 2012

COBARDIA (soneto)

Os ratos estavam na reunião,
Pra pôr fim as ameaças do gato.
Levantou-se então o mais pequeno rato,
Após mil discussões sem solução,

Deu a sua brilhante opinião:
Fosse posto um sonoro artefacto
No pescoço do tão temível gato,
Viam sempre a sua situação.

Boa ideia! O pequeno aplaudiram,
Pois, de todos, foi mais inteligente.
Quem porá no gato o sino?, inquiriram.

Temeram, desde o mais velho ao mais novo,
Até o mais ousado sentiu-se doente.
Eis, nesta estória, a fraqueza do povo.



versão de 1998

24 de julho de 2012

APRENDENDO A DESENHAR (locais, lugares e sítios - cap. I)


Não sei bem, mas tenho a impressão de que sempre gostei de desenhar. No entanto, para compensar sempre fui preguiçoso e nunca realmente tirei tempo para praticar muito, pois haviam muitas outras coisas que me despertavam também interesse. De qualquer forma, nunca é tarde demais para aprender, e ultimamente tenho estado mais em contacto com o meu lado desenhístico e tenho praticado mais… porém aprendo lento.

Os meus desenhos não são artísticos, considerando que não sei criar apenas reproduzir e mesmo as minhas reproduções estão limitadas pela falta de técnica e de perícia que poderiam atribuir uma determinada unicidade ao desenho, mesmo um desenho meramente ilustrativo, tornando-o artístico… portanto, não achem que é pretensão eu postar os meus desenhos no quadro “Artes e Imagens”.

Em Março último participei num workshop de desenho e conheci alguns desenhadores que fazem parte dos Urban Sketchers, e um deles, Eduardo Salavisa mostrou seus desenhos e tinha um traço aparentemente desengonçado que de uma certa maneira parecia com o meu traço totalmente desengonçado, e foi quem me tirou a cobardia de mostrar e orgulhar dos meus desenhos, ainda me falta muito para chegar à economia e certeza dos seus traços, mas ele inspirou-me imenso.

museu da cidade, campo grande

eduardo salavisa (a última pessoa no lado direito - a de óculos - era eu)
eu, o mesmo sítio


Como já tinha dito, os meus desenhos não são artísticos, nem nada por aí, entretanto são meus, e o blog é meu, logo… a partir de hoje, vou começar a postá-los (mas não pela cronologia). Entretanto, a ideia primária de criar este tema é para mostrar desenhos de pessoas que tenho conhecido e que o fazem bem... por enquanto vão os meus.

casas no porto


estádio de alvalade


debaixo do viaduto do campo grande a olhar para o hotel radisson


estação das mercês

jardim do campo grande


museu da arte moderna de portela de sintra


debaixo do viaduto do campo grande


18 de julho de 2012

JUVENTUDE PERDIDA - A HISTERIA COLECTIVA

Como referi no artigo anterior com o mesmo título, estas reflexões começaram por causa de um único incidente. E desta vez pretendo falar da histeria colectiva e peço então que não liguem muito à juventude perdida que aparece no título, e pensem mais em sociedade perdida.


A HISTERIA COLECTIVA

Não haja dúvidas, nós somos ovelhas, e apenas ovelhas (embora eu goste de me considerar uma ovelha negra – e não, não por causa da minha cor), no entanto, comparados com as ovelhas animas somos ainda mais estúpidos.

A histeria colectiva acontece em diferentes planos: há o plano religioso, há o plano de modismo, há o plano académico ou pseudo-académico (referido antes aqui), há o plano ateísta-científico, o plano cool-nerd-liberal, enfim… mas destaco aqui o plano nacionalista.

Só publico isto agora, mas escrevi-o quando a selecção de Portugal estava ainda nos quartos-dos-finais no Euro 2012. Nas conversas com as pessoas, nessa altura, dois assuntos saltavam sempre: "a crise e o raio dos políticos opressores" e "O Cristiano Ronaldo e A Selecção Portuguesa", este último ditatorialmente inevitável. No entanto, se sabiam todas as vírgulas acerca da selecção, referiam-se à crise de modo genérico, tal como o meu sobrinho faz. Admirava-me que as pessoas não sabiam que novas leis do trabalho tinham sido ratificadas pelo Cavaco e que punham ainda em piores lençóis (posso dizer assim?) os trabalhadores; admirava-me que dos pouco com quem falava e que o sabiam estavam-se nas tintas, preocupando-se mais com a vitória da selecção. Não me admirou que os média não tivessem dado muita atenção a esse facto e estavam mais interessados em fazer reportagens sobre a selecção, pois esse é o trabalho deles: manter as massas massudas e histericamente cegas para o que realmente importa.


O espírito do povo revelou-se bem nesta carta (vídeo acima) de um miúdo à selecção portuguesa (que faz publicidade a uma marca que não queria dizer, pois mesmo a má publicidade é publicidade) onde ele diz que o futuro do país está nos pés dos jogadores… Não importa que a carta tivesse sido o resultado de uma visão muito mais que ultra-limitado de um miúdo (ou dos seus pais que não lhe deram orientação ilustrada) ou forjada pela marca publicitária, a verdade é que a carta é mesmo o retrato do espírito do povo. Senão vejamos, está todo o mundo a vestir-se de verde e vermelho e a acompanhar pela televisão como dorme, como come e como caga a selecção (aposto que nos outros países acontece a mesma coisa) e não dá atenção às coisas que realmente fazem parte da sua vida e das quais dependem o seu futuro. Aliás, algumas até são forçadas a isso, sei de uma empresa que obrigou os seus funcionários a apoiar a selecção com risco de incorrer num processo disciplinar; ou seja, mesmo que o funcionário quisesse apoiar outra equipa esse direito lhe é negado.

Disfarçadas de nacionalismo e patriotismo são dadas cordas às pessoas e elas, patrioticamente, adornam com elas o pescoço sem se preocuparem em entender que isso são manobras para criar letargia e não faz sentido. Ok! Eu prefiro que as pessoas andem a sacudir bandeiras nacionalistas por causa de um jogo de futebol do que a pedir para o governo invadir outro país, mas a questão é que quando se está habituado a sacudir bandeiras por um motivo aparentemente inócuo, mais facilmente se sacode por um outro motivo mais… nefasto. 

E a eficácia da lavagem cerebral que se revela nesta histeria colectiva vê-se principalmente nos imigrantes africanos, por exemplo, que por uma vírgula põem-se a falar mal de Portugal e dos portugueses e a reclamar de como são lixados, que, no entanto, se levantam nos dias de futebol a apoiar o nosso Portugal. Primeiro eu julgava que era hipocrisia, mas depois vi que não, a manifestação é mesmo genuína e eles sentem-se mesmo afectados com as derrotas da selecção, ou seja, deixaram-se levar na corrente e foram apanhados pela histeria, pois nesses instantes sentem-se a fazer parte de algo. E é por essa razão que eu sinto que a histeria colectiva acerca da selecção não é necessariamente patriótica, mas resultado de um processo de condicionamento.

não tenho nada contra portugal como país ou povo, entenda-se (por isso estão aí as bolas de futebol para contextualizar)

Há determinadas actividades publicitadas como próprias de uma idade… vou ater-me à juventude… ou seja, para se ser completamente jovem tem que se participar nessas actividades, bebedeiras às sextas, concertos de verão, um pouco de vandalismo ligeiro (alguém percebeu o teor da mensagem da publicidade da geração aleatória da moche? Ou que ela é muito parecida com a série inglesa Skins que retrata uma juventude conturbada e auto-destruidora?), essas imagens são vendidas e o jovens, impressionáveis, tentam integrar-se e seguir à risca, pois querem fazer parte de algo, abafando a originalidade, e diluindo-se na multidão. Mesmo aqueles que gostam de ser diferentes, o mais nerds, por exemplo, que se sentem mais atentos e percebem que existem essas armadilhas acabam também a fazer filas histéricas, não às portas das discotecas, mas em convenções de banda-desenhadas e afins. Ou seja, a necessidade de fazer parte de um grupo leva as pessoas a ceder à pressão dos pares ou então à dobrar-se perante as generalidades.

Foi assim que saímos da geração rasca para a geração à rasca, seguindo às riscas os preceitos de ser um jovem, pois só quando é tarde é que conseguimos tempo para começar a analisar. Mas parece que os da geração à rasca são apenas os antigos da geração rasca, porque essa nova geração, que tem a idade que tínhamos quando éramos da geração rasca, tem um bounce diferente (também quero parecer cool!), é tão fútil quanto à nossa, porém tecnologicamente armada e ainda cheia de brilhantina (deus do céu!, o que é que muda afinal?).

Um homem é um ser social, portanto participa na sociedade, no entanto quando participar começa a sinonimizar seguir cegamente as tendências é porque alguma coisa está errada; quando olhamos para o que os outros fazem e repetimos, costumamos dizer: por que não?, não me causa mal nenhum…, porém é mesmo nisso que a armadilha se localiza, pois quando o receio do ostracismo te leva à ceder à pressão dos pares, podes estar certo de que já perdeste a tua capacidade de acção, perdeste a vontade, e és um individuo simplesmente reactivo. 

16 de julho de 2012

ÚLTIMA TRAGÉDIA, A, Abdulai Silá (1995) - a alma de um povo

Livros escritos por guineenses eram raros (ainda hoje são), a literatura guineense mais conhecida era uma recolha de contos feita por Teresa Montenegro e Carlos Morais (duas pessoas que me orgulho de conhecer, e gabo-me de ser amigo da primeira) e alguns outros livros de poesia, dos quais destaco A Luta é a Minha Primavera de Vasco Cabral e a antologia Mantenhas Para Quem Luta (não cheguei a ler nenhum dos dois livros), mas vários dos seus poemas  que vinham em livros didácticos, e foi assim que os conheci). Romances? Não havia nenhum. O mais parecido com isso era uma novela (acho que o posso chamar assim), do brasileiro João Ferreira (o autor nem era guineense, redundo).

Quando nesse deserto surgiu A Última Tragédia de Abdulai Silá (outra pessoa que me orgulho de conhecer) o meu círculo de leitores explodiu de entusiamo e de consternação, o segundo porque só um de nós possuía o livro e fazia-o circular entre quê?, umas sete ou oito pessoas e mais alguns curiosos que nunca liam mas queriam provar o sabor de um romance guineense e como a velocidade da leitura diferia bastante, e como o tempo passa mais lento para quem espera, era uma seca estar na lista de espera. O título nem era o primeiro romance guineense publicado, embora o primeiro, Eterna Paixão, também fosse do mesmo autor, mas foi o primeiro de que tivemos conhecimento.

Eu li A Última Tragédia de uma assentada, não é volumoso, nem nada que pareça, e tem um bom ritmo. E quando tive o conhecimento dele foi em 1998, um bocado tardio, porque fora publicado três anos antes. Lera-o com um misto de orgulho e de inveja, talvez mais de inveja porque não gostei muito dessa primeira vez, o que só aconteceu anos mais tarde, depois da guerra no meu país, quando amadureci (?) e passei a ler o livro dentro do livro.

A Última Tragédia engana apenas numa coisa: não era a última, é um retrato de um país fragilizado e obstruído, tanto pelos problemas exteriores, como, e principalmente, pela auto-limitações a que se impõe em nome de uma tradição. É uma aspiração a uma realidade ideal, como lemos através de um régulo que aparece na história, mas que parece ser inalcançável, mantendo o ritmo da tragédia. E, desligando-se de fronteiras, e alienando-se do pano do fundo, facilmente percebemos que é também um retrato de nós mesmos, independente da sociedade em que vivemos: a história do livro situa-se na Guiné colonizada, fortemente limitada e que dança ao chicote, entretanto, a colonização tal e qual era não existe mais, o que não quer dizer que desapareceu, hoje somos colonizados (não estou a falar do país, mas das pessoas de todo o mundo) pelos nossos próprios governos, que são colonizados pelos bancos... mas... ok!

Tenho uma boa relação com o livro, porque foi a primeira literatura guineense que eu li e senti… e é, entre outras, a razão por que o recomendo.