16 de julho de 2012

ÚLTIMA TRAGÉDIA, A, Abdulai Silá (1995) - a alma de um povo

Livros escritos por guineenses eram raros (ainda hoje são), a literatura guineense mais conhecida era uma recolha de contos feita por Teresa Montenegro e Carlos Morais (duas pessoas que me orgulho de conhecer, e gabo-me de ser amigo da primeira) e alguns outros livros de poesia, dos quais destaco A Luta é a Minha Primavera de Vasco Cabral e a antologia Mantenhas Para Quem Luta (não cheguei a ler nenhum dos dois livros), mas vários dos seus poemas  que vinham em livros didácticos, e foi assim que os conheci). Romances? Não havia nenhum. O mais parecido com isso era uma novela (acho que o posso chamar assim), do brasileiro João Ferreira (o autor nem era guineense, redundo).

Quando nesse deserto surgiu A Última Tragédia de Abdulai Silá (outra pessoa que me orgulho de conhecer) o meu círculo de leitores explodiu de entusiamo e de consternação, o segundo porque só um de nós possuía o livro e fazia-o circular entre quê?, umas sete ou oito pessoas e mais alguns curiosos que nunca liam mas queriam provar o sabor de um romance guineense e como a velocidade da leitura diferia bastante, e como o tempo passa mais lento para quem espera, era uma seca estar na lista de espera. O título nem era o primeiro romance guineense publicado, embora o primeiro, Eterna Paixão, também fosse do mesmo autor, mas foi o primeiro de que tivemos conhecimento.

Eu li A Última Tragédia de uma assentada, não é volumoso, nem nada que pareça, e tem um bom ritmo. E quando tive o conhecimento dele foi em 1998, um bocado tardio, porque fora publicado três anos antes. Lera-o com um misto de orgulho e de inveja, talvez mais de inveja porque não gostei muito dessa primeira vez, o que só aconteceu anos mais tarde, depois da guerra no meu país, quando amadureci (?) e passei a ler o livro dentro do livro.

A Última Tragédia engana apenas numa coisa: não era a última, é um retrato de um país fragilizado e obstruído, tanto pelos problemas exteriores, como, e principalmente, pela auto-limitações a que se impõe em nome de uma tradição. É uma aspiração a uma realidade ideal, como lemos através de um régulo que aparece na história, mas que parece ser inalcançável, mantendo o ritmo da tragédia. E, desligando-se de fronteiras, e alienando-se do pano do fundo, facilmente percebemos que é também um retrato de nós mesmos, independente da sociedade em que vivemos: a história do livro situa-se na Guiné colonizada, fortemente limitada e que dança ao chicote, entretanto, a colonização tal e qual era não existe mais, o que não quer dizer que desapareceu, hoje somos colonizados (não estou a falar do país, mas das pessoas de todo o mundo) pelos nossos próprios governos, que são colonizados pelos bancos... mas... ok!

Tenho uma boa relação com o livro, porque foi a primeira literatura guineense que eu li e senti… e é, entre outras, a razão por que o recomendo.

11 de julho de 2012

TENTANDO ENTENDER... O CAPITALISMO

O Capitalismo está gasto e defunto… bem, talvez, não defunto, talvez zombie, precisando de cérebro alheios para ficar com a sensação de sobrevivente, quando na verdade é só um walking dead que zombiefica todos ao seu contacto. 

Houve ideais nobres no capitalismo?, acredito que houve, e não apenas uma substituição melhor organizada e disfarçada da escravatura e do feudalismo através de termos mais civilizados, onde em vez de condenar as pessoas à forca, vende-se-lhes a corda e ainda lhes são cobradas as expensas mortuárias. O Capitalismo é ultra-canibal e necrófago, porém, o seu maior trunfo é ser um mestre de ilusões.

Como se costuma dizer, o maior truque do Diabo foi convencer ao mundo que não existe, também o maior truque do Capitalismo é similar, no entanto oposto: ele convence-nos que sem ele o mundo colapsará e reduz-nos as expectativas com distopias bem cozinhadas, impedindo-nos de imaginar o mundo sem ele, levando-nos a acreditar em ilusórias vantagens de maneira a acharmos que qualquer outro sistema é inimigo. 

Vamos só ver um exemplo: nos EUA, em plena crise de 1929, enquanto o povo (aqui falo da ralé, a classe baixa, nós) malhava forte no ferro frio para sobreviver, esse mesmo povo atacava outros ideais e defendia os seus exploradores, chegando mesmo a linchar comunistas e bolcheviques, mesmo nessas alturas negras uma das maiores ofensas era ser chamado de comunista, vermelho e afins, e quando confirmavam que alguém defendia esse ideal, ele era ostracizado e culpado pelos males da aldeia (alguma similaridade com a idade média?). E será que hoje é diferente? Nada, se não fosse porque cultivamos mais tolerância hoje (não graças ao capitalismo, que o capitalismo existiu há muito tempo sem ser tolerante) ainda continuar-se-ia a linchar comunistas, zeitergeistas e outros istas. Eis a maestria do Capitalismo, tornou-se não necessário, mas imprescindível.

Uma das artimanhas do Capitalismo para garantir a supremacia foi misturar-se com a democracia, parecendo que são sistemas gémeos e co-dependentes, no entanto, a História prova-nos que isso é ilusão. Os gregos já tinham democracia enquanto ainda eram esclavagistas, e o próprio Capitalismo é uma transformação do feudalismo, usando como diferencial apenas o assalariamento. Antes que se criassem leis que tentassem defender mais aos assalariados o capitalismo era tão cru como está a ser agora com neo-liberalismo, voltando às raízes antigas, usando como desculpa a crise económica para poder sugar-nos melhor o cérebro (mas isso já é outra história). É mais que certo que nenhum dos exemplos conhecidos do socialismo (senão a sombra do socialismo existente na Venezuela que também balança entre a ditadura e a democracia) foi democrático (isto se considerarmos que democracia é fazer eleições periódicas), e assim, por comparação directa, como o Socialismo é antagónico ao Capitalismo e a ditadura é-o à democracia, logo pensa-se que o Capitalismo é que garante a democracia. 

Mas a verdade é que são questões diferentes o Capitalismo e a democracia; e a democracia capitalista é apenas uma capa da ditadura, a ditadura do capital, quem tem mais dinheiro tem mais votos. Somos iludidos que há balanço, quando excepções como pobres (Lula, por exemplo) ou pretos (caso Obama – no mundo branco) ou mulheres (Soong Ching-ling – um raro caso chinês que é mais monárquico, porém histórico) são eleitos presidentes, passando a ideia de que tudo é possível no capitalismo, mas visto à lupa, vemos que por trás destas figuras há empresas e máquinas de propaganda que investiram muito dinheiro à espera de dividendos, favores e facilitismos e que apenas se aproveitam do espírito do tempo para apresentar um produto que melhor resultado lhes traga. Ou seja a democracia capitalista é apenas um negócio como qualquer outro, investe-se e espera-se por lucros, não é nada um sistema como imaginado pelos gregos que pretendia um equilíbrio social. E como busca sempre lucros por isso espalha sementes da guerra, da irascibilidade e da fome por toda a parte do mundo, para continuar no controlo. 

O Capitalismo é definido pela frase mais cliché dos filmes sobre Wall Street: queres estar aqui tens de ser um tubarão… e o tubarão come peixes miúdos. Sim, eis o Capitalismo na sua essência mais pura e ele não tem nada a ver com a democracia. Aliás, vejamos apenas como boa parte dos países árabes são capitalistas mas não democráticas, ou melhor, até a China, que se diz comunista, aplica uma política externa também capitalista para engolir o resto do mundo. Ponto, acho que já consegui explicar que o Capitalismo é diferente da democracia. Mas que o Capitalismo seja um proxeneta da democracia, não há dúvida.

Quais as vantagens do capitalismo? Todo o mundo pode fazer dinheiro… se conseguir; todo o mundo pode aspirar a ir para a cama com a democracia… se tiver um investidor; todo o mundo pode arranjar um investidor… se tiver ideias (e não menos importante, sorte de encontrar alguém isento que não lhe roube a ideia); todo o mundo pode processar quem lhe roube a ideia… se tiver advogado; todo o mundo pode ter advogado… se tiver dinheiro (se não tiver o governo atribui-lhe um que vai ter que dividir com muitos outros); em suma, todo o mundo pode ter dinheiro… se tiver dinheiro.

O Capitalismo está cheio de exemplos de self-made-men, homens que foram tubarões e que se empenharam bastante para conseguir um lugar no aquário com os graúdos, mas para 98% de cada um desses há centenas a chorar de exasperação.

O Capitalismo é uma outra espécie de monarquia que, grande parte das vezes, não se atém ao mérito, mas ao sobrenome; só isso explica a eleição do Bush Júnior, ou por exemplo, a recente aquisição da filha de Clinton pela CNN [escrevi isto praí em Novembro do ano passado] – longe de mim desmerecer a mulher por causa do nome que carrega, mas está claro que a aquisição da CNN virou notícia exactamente por causa do nome dela. Ok! Eu sei que isto não é um defeito exclusivo do capitalismo, mas não deixa de ser uma marca do sistema.

Em alternativa ao capitalismo o que é que proponho? O socialismo? O zeitgeist?

Não, nenhum dos dois. Não proponho o socialismo, pelo menos não nos modelos que já vimos ou lemos: o russo, o cubano ou o chinês (embora este último está a parecer-me ultimamente muito viável), que se tornaram opressivo ao invés de equilibrados como no início os seus mentores idealizaram, acabando a adoptar a máxima dos porcos de Orwell: somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que outros! E será que alguns não devem ser mais iguais que os outros? Será que aquele que estudar por mais de vinte anos para ser médico e bom, deve ganhar o mesmo que aquele que andou esse tempo todo a estudar rótulos de garrafas de álcool para depois se tornar empregado de limpeza? E aquele que passa a vida debaixo da terra a escavar carvão para aquecer ao médico, pondo em risco a sua vida, por que não deve ganhar mais? Não sei a resposta disto, por enquanto está-me a parecer que devemos ser premiados pelo mérito, mas o que realmente define o mérito? (e isto é matéria para outro fórum). No entanto, a realidade hoje é que não importa a quantidade do tempo que andaste a estudar, podes ter estudado vinte anos, mas perdes sempre por alguém que estudou um ano e tenha no diploma Oxford ou Cambridge ou Harvard (entre alguns) mostrando como o dinheiro ou a falta dele influencia o mérito no sistema capitalista.

E por que não proponho o zeitgeist? Simpatizo com o sistema, como já dissera aqui, no entanto, parece-me muito filho do capitalismo e mais uma substituição desequilibrada, da maneira como se apresenta pelo menos, do que propriamente uma solução fiável.

Mas o que proponho em substituição ao Capitalismo? Definitivamente o comunismo marxista.

9 de julho de 2012

ACOSSANDO UMA FIGURA POLÍTICA: david vs. golias


Numa época de legalidade extremista e da opressão do politicamente correcto como a nossa, onde por dá cá aquela palha as pessoas incorrem em processos legais, admiro que alguém ouse publicamente caluniar uma outra, sem base sólida para se apoiar. 


Caluniar!!!Eu disse caluniar? Pois disse! No entanto, se caluniar é dizer inverdades sobre alguém, não sei se devia ter aqui usado a palavra, por outro lado, por não saber da veracidade do dito não sei se não devo usar. 

Deixem-me explicar, mas quero antes deixar claro que tenho uma posição neutra em relação ao assunto (não vá o diabo tecê-las), se manifesto a minha opinião e inquietação (?) - digamos assim - é porque estou intrigado pelo tratamento que o caso está a receber, ou seja, nenhum.

Sei que há manifestantes que usam cartazes com dizeres mais ofensivos que este aqui, entretanto, nenhum desse apelam pelo lado legal das resoluções dos problemas... mas, peraí... acho que estou a pôr os bois à frente das vacas...

Eis a situação: Há uns pares de dias, no metro e estações, andava um senhor, José Vieira da Silva (ou a representá-lo), com o cartaz acima (fotos catadas aqui), fazendo séries acusações ao professor Marcelo Rebelo de Sousa. E como eu disse antes, não faço ideia da veracidade do expresso pelo cartaz, entretanto, supondo que o Sr. Vieira deve ter certezas do que está a dizer para ousar se expor desta forma com acusações deste calibre, acho que pelo menos uma resposta deveria ser dada.

Pela importância da figura em questão e pela gravidade do escrito no cartaz esperava que a média, sensacionalista como é, se focasse no assunto, ou que o visado se manifestasse. Compreendo, no entanto, o a posição do visado, pois pode usar a máxima de: quem alterca com parvos, mais parvo é!, e assim mostrar que não é parvo e dignificar-se a si mesmo. Entretanto a média, essa sanguessuga, é que me deixa incrédulo como o seu silêncio sobre o assunto. Por isso pergunto: este é mais um desses casos que mais parecem filosóficos (tanto faz que se saiba ou não, que não muda nada)? Ou é um assunto realmente sério que está a ser contido por uma censura velada?

Não faço nenhuma ideia, e parece que estou apenas a atirar achas à fogueira. No entanto, considerando que jornalistas ditos conceituados muitas vezes começam rumores, dizendo que têm uma fonte anónima, por que desta vez há silêncio quando a fonte se expõe publicamente?


Eu gostaria de ouvir o pronunciamento do professor Marcelo de Sousa acerca disto (embora ele possa querer conservar a sua dignidade, ou, por ser assediado constantemente com cenas do género, já não esteja virado para essas difamações - de qualquer forma é difamação, verdadeira ou não), porque se a média se cala e o Sr. Vieira fala, provavelmente ele pode ter alguma razão no que diz.

Apesar de tudo, vejo vacuidade na acusação do Sr. Vieira, parecendo ter uma querela pessoal com o Prof. Marcelo de Sousa, e anda despeitado, do que propriamente sentir uma necessidade de justiça com intuito de trazer melhorias a todos e prevenir repetições.

De qualquer maneira, seja qual for a intenção de um e do outro, eu gostaria de ver um desenvolvimento do caso, embora hoje aos Davids não se dão hipóteses sequer de enfrentar os Golias(es)... até lá, então.

2 de julho de 2012

EXPLORAÇÃO INFANTIL PELA PUBLICIDADE

As crianças viciam-se facilmente no canal Panda, não sei por quê? Já até pensei que talvez usassem mensagens subliminares, mas esse sou eu a fazer filmes. Eu costumava ver o Canal 2 (o melhor canal português) à tarde, tinha muitos desenhos animados iguais ao do Panda, mas quando comecei a ver a TV com o meu sobrinho, rapidamente ficamos pelo Panda. Não sei se foi porque ele começou a frequentar a escola e quer fazer como os colegas ou se, volto outra vez ao filme, o canal utiliza mesmo mensagens subliminares que prendem a ele e a outros miúdos ao ecrã. 

De qualquer maneira, não é disso que me queixo. O que me preocupa é a quantidade de publicidade com que as crianças são bombardeadas nesses canais, convidando-as, ou melhor, coagindo-as a comprar lixo, aliás, a obrigar os pais a comprar lixo. A quantidade de energia que uma criança gasta a chorar por um brinquedo no supermercado é inversamente proporcional ao tempo que leva entusiasmada com ele. Mas só porque viu na televisão quer ter, porque é moda e todos os amigos têm.

Eu sei que estamos num estado capitalista e o consumismo é uma medida prática e essencial para a sobrevivência do sistema, no entanto, tendo em conta que todos os dias se fala dos direitos da criança e da necessidade de as proteger, será que ninguém pensa nessas publicidades como exploração infantil? Ou legalmente a exploração infantil não é quando se usa criança para ganhar dinheiro, porém apenas quando se lhe põe a fazer trabalhos mal remunerados? Claro que para o hipócrita do Ocidente a exploração infantil só acontece na China e na Índia, porque são a mão-de-obra barata que ele mesmo usa e abusa em seu benefício, apesar de andar todos os dias a falar contra em público.


trabalhando num supermercado acabei por entender por que esta publicidade de mau gosto tem piada


Não vou falar de novo das crianças trabalhadoras do Ocidente civilizado (visto já ter falado antes disso aqui), vou ficar apenas na publicidade como forma de exploração infantil. Se pessoas com opiniões formadas e que se julgam blindadas, como eu, somos susceptíveis de sermos influenciados pela publicidade, imagine-se qual não será o efeito numa criança que ainda acredita no Pai Natal e que julga que Portugal anda bem. E por ver como os meus sobrinho são afectados é que a "concentra", o maior publicitário do canal, e o próprio canal Panda são os objectos do meu ódio de estimação. 

Devia haver leis que protejam as crianças dessa coisa nefanda que é a publicidade ou que, pelo menos, obrigasse que aquelas dirigidas às crianças fossem honestas. Por exemplo, quando publicitam um boneco de homem-aranha, põem-no a atirar teias e a escalar paredes, depois, quando o miúdo, à gritaria (ou de outra forma coerciva), obtém o boneco e tem de ser ele a fazê-lo mexer, sem teias e sem adesivo, sente-se desiludido e traído e perde o entusiasmo ao fim da segunda hora, preparando os pulmões para os bonecos de bakugan na próxima vez. 

Está-se cada vez mais a fabricar zombies, pessoas descerebradas que exigem que toda a gente sejam como elas, praticando as mesmas modas e modismos, consumindo as mesmas porcarias, não vingando a utilidade nem mesmo a qualidade, apenas para satisfazer a vontade de poder usar a mesma coisa que o vizinho, porque apareceu na TV e isso significa que é um must (ainda se usa esta expressão?).

Espero que a TV digital venha a permitir que se veja a TV sem ver a publicidade, embora duvide dessa hipótese (se até para ver o youtube agora temos de levar com ela) ou então a pessoa vai ter de pagar uma bela soma para se ver livre dessa maleita. Eu deixei de gostar de ver a TV com o meu sobrinho porque a todas a publicidades ele diz: tio, compras-me isto? E dizer muitos nãos a essa pergunta deixa-me com uma sensação desgostante. O meu apelo é: Por favor, protejam dessa exploração as crianças! 

21 de junho de 2012

FEITIÇO DO TEMPO, O, 1993 (Groundhog Day)


O Feitiço do Tempo foi o filme que me calhou esta semana (já não sei qual semana, porque há já meses que tinha isto para transcrever); não gosto de rever filme, principalmente quando há muitos em fila a clamar pela minha atenção, no entanto tem aqueles que não conseguimos deixar de acarinhar… e este é um dos meus.

Não vou falar de Bill Murray, nem de Andie MacDowell (como é hábito não fazer, embora por vezes não consiga evitar), resumo os dois nisto: funcionam bem juntos.

O Feitiço do Tempo, por causa da abordagem, não parece um daqueles filmes que grita furiosamente: qual é o sentido da vida?, aliás, nem faz a pergunta, apenas ensina qual é o sentido da vida. Analisado o trama, é análogo aquelas teorias hindus de reencarnação, com a diferença de que aqui, o herói (ou a vítima) tem o conhecimento da sua vida anterior. Também o filme parece um dos inúmeros ensaios de Phillip K. Dick: e se eu tivesse o conhecimento do futuro? Um filme similar ao feitiço do tempo é “12:01”, similar na premissa, mas diferente na abordagem… e na qualidade, é claro.

Eis o enredo: Phill é um jornalista do tempo (isso faz sentido?), muito arrogante, egocêntrico e convencido da sua importância, que ao cobrir um acontecimento inútil e irrelevante numa cidade fica preso no mesmo dia, repetindo-o vezes e vezes sem conta. Torna-se desesperadamente solitário, visto ser o único que percebe que o dia não muda, e o seu único consolo acaba por ser a sua colega, Rita, por quem se apaixona e tenta diariamente fazer-lhe ficar apaixonada por ele.

trailer


Há diversas maneiras de abordar O Feitiço do Tempo, mas eu prefiro este: O que eu faria se eu tivesse o conhecimento do futuro? Aqui, por os dias serem todos iguais, o fardo é acrescido, porque não só se tem o conhecimento do futuro, como a monotonia é tanta que não faz sentido ficar nela preso; e por os dias serem o mesmo deixa de existir o Tempo: o futuro e o passado acabam por ser um eterno presente.

Se o filme tivesse um monte de frases filosóficas e tretas esotéricas à la Matrix (e houvesse o hype internáutico) poderia ter sido um cultuado filme de ficção científica, porém, embora aborde uma questão séria (?) ele não passa de uma comédia moralista para um domingo à tarde, que fala fundamentalmente de “egoísmo, abnegação e altruísmo”, estes últimos tornando-se a chave para resolver a questão, ficando a moral da história a ser:  a vida não tem graça se for vivida hedonisticamente, e a melhor forma de usá-la é em função dos outros.

Ah, e como bónus tem uma óptima banda sonora.

19 de junho de 2012

TENTANDO ENTENDER... A CRISE


Muitas vezes ouvi pessoas a dizer: então, se a crise é uma questão de falta de dinheiro, por que não se pode simplesmente imprimir mais dinheiro? Pois, por que não? Bem, porque a estrutura económica decidiu que não é assim tão simples. 

E a verdade é que a crise não é necessariamente uma questão de falta de dinheiro, mas do excesso do mesmo, porque há mais dinheiro  electrónico do que físico e se o físico precisa de ser impresso, o electrónico cria-se automaticamente a partir de uma promessa de dívidas ou juros ou benefícios. Por exemplo: vais sem dinheiro comprar qualquer coisa, o banco autoriza a compra e não te dá dinheiro físico, faz transferência electrónica para o vendedor, e, voilá, essa quantidade que requereste acaba de ser criada, e depois, como vais pagá-la com juros, novas quantidades se criam a partir dessa. E sendo que o que não falta hoje são dívidas, conclui-se facilmente que não é o dinheiro que está em falta, além do mais, se há uma coisa que contraria a teoria do Lavoiser é o dinheiro, ela é a única coisa na natureza que não desaparece (quer dizer, até desaparece dos nossos bolsos), pois não é natural, apenas muda de mão. Portanto a pergunta devia ser: para onde foi o dinheiro?

Considerando isto, entende-se que a crise não existe por falta de dinheiro, mas porque um grupo de bilionários ficou entediado e resolveu monopolizar os bancos, legitimado pelo sistema, controlando a circulação monetária, desequilibrando ainda mais balança desequilibrada, pondo na corda bamba os países menos poderosos, para a partir disso, comprar os governos e ganhar o controlo do mundo. De momento parece que os donos da Europa são a Alemanha e a França (representados por Merkel e Sarkozy), mas se formos mais analíticos percebemos que não são verdadeiramente os dois países que controlam a Europa, mas um punhado de pessoas que usa os dois representantes como o seu pau-mandado. 

Alguém já perguntou a quem responde a Troika? O Banco Europeu, o Banco Central e o FMI são bancos pertencentes a uma coligação de países ou são simplesmente bancos privados (com acções distribuídas por quem as puder comprar, é claro, e que não é qualquer um)? A Troika não responde a nenhum governo ou estado ou coligação de nações, nem nada, a Troika responde a uns grupos de capitalistas que sempre que sentem que lhes está a fugir o controlo, ou se sentem aborrecidos com o estado do mundo, apertam as cordas ao redor do pescoço dos governos que praticamente fazem tudo o que lhes é mandado. Por exemplo, vejamos o caso de Portugal, um país, soberano, que se encontra refém dos bancos.

Não é preciso imprimir mais dinheiro, porque o dinheiro existe, e como já tinha dito, mesmo que não exista, é criado, senão como é que se explica que haja crise e suposta falta de dinheiro e mesmo assim a Troika consegue injectar biliões a qualquer país que se submeta aos seus caprichos? Ou será que eles estão a dar dinheiro que não têm aos países em desespero? Estarão a aplicar um esquema de Ponzi?

Aliás, bem visto as coisas, os bancos funcionam todos à base do esquema de Ponzi, a única diferença é que são legitimados pela lei para aplicar o esquema, porque pagam impostos. Vamos ver, o banco promete-te 20% (ou qualquer outro valor) de retorno sobre o teu investimento (reconheço não ser bom com esses termos técnicos, mas creio que me faço perceber) sendo que tudo o que tens de fazer é deixar com eles o teu dinheiro, e sabemos que dinheiro parado não gera dinheiro, ou seja, o que eles vão fazer com o teu dinheiro é salvaguardar a promessa que tinham feito a outrem dando-lhe o seu valor inicial mais o acréscimo em juros proporcionados pelo teu dinheiro, e quando chegar a tua vez, fazem-no com o dinheiro de alguém (ou pelo menos é o que dizem, porque na verdade, eles continuam a criar dinheiro a partir de cada empréstimo que alguém faz, necessitando mais que as pessoas façam empréstimos, sendo os pagamentos simples bónus). 

Imaginemos uma situação (como já aconteceu com uns bancos do meu país): a corrida ao banco, toda a gente ou a maioria resolve ir levantar o seu dinheiro com os benefícios prometidos, o banco colapsa porque não consegue responder a todos os pedidos, além de mais quando o levantamento é feito, o cliente recebe o dinheiro físico e como eles têm mais dinheiro electrónico do que físico, percebe-se o embuste com o qual nos têm controlado. Mas não importa, a eles é permitido o esquema de Ponzi, desde que se unam com os governos nessa ladroagem. E é exactamente o mesmo esquema que a Troika está a aplicar aos governos agora, e eles encontram-se de mãos atadas por terem sido eles a legitimar o processo.

A Troika está a dar o dinheiro que não tem aos governos endividando-os ainda mais? Ou será ela a fabricante mundial de dinheiro? E quem a legitimou como tal? Foi um acordo tácito ou uma espécie de imposição feita com a cumplicidade dos países mais poderosos (ou melhor das pessoas mais poderosas dos países mais poderosos)? O sistema é claramente canibal e está a alimentar-se dos mais fracos.

Não sei a resposta; nem estou a escrever isto para tentar esclarecer nada a ninguém, antes para tentar elucidar-me a mim mesmo, mas uma coisa eu sei: existe dinheiro e a crise é só uma fantasia para destilar mais as classes sociais, acabando com a classe média e as tentativas de homogeneização. 

Algumas pessoas podem pensar que todos poderem usar a net, ou comprar iPod, iPad, iPhone, Ai-meu-deus!, ou assistir a um concerto de um artista qualquer no mesmo estádio, não importa o preço do bilhete, garante a igualdade, mas enquanto existirmos apenas para contar os tostões para uns poucos se refocilarem com o que suamos, não podemos pensar nem na igualdade, muito menos na liberdade. Aliás, mesmo para recebermos o nosso salário, suposta compensação do nosso esforço, somos obrigados a dar pelo menos uns sessenta euros anuais a um banco qualquer (sem falar dos impostos agressivos) porque estão todos de conveniência com as empresas e com os governos. Não te é pago simplesmente o salário para guardares em casa, tens de ir buscá-lo a um banco qualquer. E se falo muito aqui dos bancos é porque eles são os tentáculos dos mais poderosos, como a Troika, por exemplo, e os principais gestores da crise. E note-se que nos países do terceiro mundo quase não se fala da crise, considerando que estão em "crise" constante, a crise afecta principalmente o ocidente (primeiro mundo), pois os restantes já foram e são melhor controlados.  

E por que razão se toda a crise gira em torno dos bancos, parasitas dos povos, ao injectarem dinheiro para salvaguardar o país da crise, injectam-no nesse mesmo sistema bancário que a criou? Não é, no mínimo, ridículo?

Que os governos vão acabar por ser controlados pelas multinacionais e corporativas como a Troika (mais indiscretamente quero eu dizer), se continuarmos como estamos, não há menor dúvidas; estamos cada vez mais perto de uma dominação mundial escancarada promovida por empresários multi-trilionários… pois efetivamente já existe há muito tempo... mas até lá…

9 de junho de 2012

HOMEM RESIGNADO (soneto)

Ao homem resignado não há o que valha,
Já tem para si a mansidão da ovelha,
Mesmo com fúria e face groselha,
Nem com fraqueza no ferro frio malha.

O homem resignado ao Fado não ralha,
Às vezes nota que a vida está velha,
E que a mudar de cor já tem a telha...
Mas não age, habituado a ser tralha.

O homem resignado é deserta ilha,
Finge aceitar do Fado a amarga trolha
Mas chispa na alma odiosa faúlha.

O homem resignado é briga sem bulha,
Revoltas e ódios, com rancor, empilha
Desejando calado a própria escolha.