20 de julho de 2011

X-MEN, O INÍCIO, 2011 (X-Men - First Class)


A minha veia nérdica levou-me a ver os filmes mais nerds que andam pelo cinema, e de todos escolhi um para falar, e procedendo a um processo de selecção, comecei por afastar o Transformer 3, por não ser propriamente instrutivo, mas diversão pura, resumindo-o em: De qualquer maneira Michael Bay sabe dar um espectáculo e a sua estereoscopia é a melhor que já vi, em termos perspectográfico, no cinema. Depois o Lanterna Verde (da DC COMICS) e o Thor (da MARVEL) que, superficiais e imberbes, não aquecem nem arrefecem, preferindo antes os seus respectivos desenhos: Lanterna Verde – O Primeiro Voo e Thor – Contos de Asgard, que serviram para introduzir o pessoal menos nerd ao universo fantástico destas personagens.

Escolhi falar de X-Men ­– O Ínicio, pois levou-me a ver de novo a série toda. E adianto desde já que é a melhor e mais consistente série de super-heróis no cinema, e o filme em causa é o melhor da série.

Não é preciso conhecer o universo de X-Men para gostar do filme, visto que os personagens foram bem introduzidos e os que têm um impacto substancial no desenvolvimento da história foram suficientemente bem caracterizados, tirando os coadjuvantes que estiveram ali mais para mostrar o fantástico desse mundo e a sua diversidade. Nesse sentido, conhecer o universo X-Men da BD, ou mesmo dos filmes anteriores, considerando que o reboot criou desfasamentos, apesar de pegarem na abertura do primeiro filme de série com o magneto no campo de concentração quando puto, para abrir este, pretendendo dizer com isso que houve uma continuidade cronológica, tal foi falso. Aliás, a cronologia dos três X-Men, do Wolverine, e deste não batem, nem entre si, nem com o universo do BD, mais uma razão para separá-los. Essa é a parte que os fãs odeiam, por exemplo (spoiler! Spoiler!) vermos aqui Darwin, o mais poderoso herói Marvel, com cabelo e a morrer às mãos do Rei Negro, ele que sobreviveu na BD à própria Hela (a deusa da morte), é um tanto irritante, mas separando os contextos, aceita-se, pois não se pode seguir tudo à risca considerando que são universos diferentes, o cinema e o papel.

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Agora vamos ao filme em si. X-Men em qualquer universo, BD, cinema ou televisão, tem tido uma constante: a questão da diferença. Não é possível ver X-Men sem estabelecer parâmetros com as várias minorias da nossa sociedade e com a maneira como elas são tratadas. E quando tratamos mal a alguém não será justificável o seu ódio quando voltado contra nós?

Foi o que X-Men - O Início tenta mostrar. O vilão dos outros filmes, Magneto, aqui é mostrado de um ângulo menos parcial, quando ainda tentou acreditar na esperança de um mundo único, quando ainda estava disposto a morrer pela humanidade. Tirando Shaw, o Rei Negro, os restantes personagens, pelo menos os principais, não podem ser considerados nem imorais, nem amorais, mas simplesmente lidaram com uma escolha: seguir o princípio darwiniano da sobrevivência do mais forte, como a lição do Professor Xavier no início diz sobre os neandertais, ou acreditar numa utopia que vai contra as evidências. Nem se pode culpar ao Mutante, nem aos governantes que o levaram ao ponto onde ele chegou, porque se queremos sobreviver ao mais forte temos de lhe anular as vantagens. Mas isso quando a questão é vista num contexto de guerra. Por isso, o sonho de Xavier parece o mais equilibrado, não é preciso uma guerra, uma eliminação forçada, mas sim uma convivência pacífica, deixando a natureza seguir o seu curso. 

Não falei tanto e nem fui ao fundo como gostaria, , mas X-Men - O Início é um filme que agradará a todos, seja se forem em busca de aventura, seja de um filme sério, porque foi bem doseado e é perpassado por várias outras questões, como o do potencial que não desenvolvemos gastando a nossa energia em tentar encaixar em contextos mais cómodos, etc, e etc, aspecto que foi muito bem desenvolvido por Mística e Hank, e pela relação fugaz entre os dois, e também que explica a dedicação da Mística ao Magneto na primeira trilogia. 

É um filme que recomendo e, para mim, é claro, o melhor filme de super-heróis, sendo muito mais sério que a trilogia X-Men, e muito mais divertido que a primeira metade do primeiro Homem-Aranha de Sam Raimi (a metade boa).


P.S.: Alertado por Fernando Borges, que escreve Reflexão Geral, venho assim retractar, X-Men é o segundo melhor filme de super-heróis, Watchmen é o primeiro. 

18 de julho de 2011

A BELA ACORDADA


Ele apagou o candeeiro e acomodou-se na cama, fechou os olhos e preparou-se para adormecer. Mas não o conseguiu fazer porque o candeeiro do outro lado da cama, onde dormia a esposa, acendeu. Ele murmurou qualquer coisa, tentou ignorar a luz acesa, mas não pôde; definitivamente não conseguia dormir com a luz acesa.

– Por favor, querida, apaga-me essa luz.
Já não aguentava mais essa situação de dormir com a luz acesa. Passava sucessivas noites em branco, por causa da mania que a esposa tinha de ler à noite, e tinha sempre de se levantar cedo para ir presidir o conselho. Ficava aí a cabecear o sono, sem se poder concentrar no trabalho. Há tempo que vinha a tomar decisões erradas e consequentemente a perder a popularidade. O povo já não o via mais como justo e ponderado, mas como inepto e caprichoso. Tudo por causa do raio da sua esposa. Maldita a hora em que fui beijá-la, devia tê-la deixado a dormir. E os contos ainda têm a sem-vergonha de dizer: E viveram felizes para sempre.
Só nos primeiros anos é que viveram felizes, quando ainda sentia muito amor por ela, quando ela ainda era uma novidade, quando ainda conseguia aguentar a falta de sono dela. Desde que acordou a Bela Adormecida com um beijo, ela não voltou mais a pregar olho e ele também não, pois andava mal dormido. Era compreensível que ela tivesse essa bruta insónia, mas esperava que isso passasse com o correr do tempo. Durante os primeiros anos, sacrificava o seu sono para falar com ela, fazendo-lhe companhia. Mas já não aguentava mais. E ela ainda por cima tinha esse maldito hábito de ler à noite.
Já tinham falado sobre isso. Se ela não quisesse dormir, pronto, o problema era dela, mas que deixasse aquele maldito candeeiro apagado. No entanto, não tinham chegado a lado nenhum com essa conversa, porque ela começou a dizer que ele já não gostava mais dela. Mas como queria ela que ele gostasse se já nem conseguia manter-se acordado. Até parece que tinham trocado as funções, passara ele a fazer de Belo Adormecido, enquanto ela andava a acordá-lo sempre com beijos. Ela nunca dormia e a falta do sono não lhe causava nenhum problema, mas ele precisava dormir. E ademais, ultimamente ela comportava-se de um modo estranho, andava sempre amuada, sem disposição para aturar ninguém. Tudo isso porque ele se esquecera do seu aniversário. Não era bem esquecido, só que ele não lhe fizera festa nenhuma, limitara-se apenas a dar-lhe um beijo e a dizer: Parabéns, querida. Estava desconfiada que ele tinha outra e que fora por isso que não tivera tempo para lhe comprar um presente. Ele, entretanto, só se comportara daquela forma porque no ano anterior, ao trazer um bolo de aniversário enfeitado com cento e dezanove velas para a bela soprar e um extintor para prevenir um incêndio (cento e dezanove velas não é brincadeira), ela armara um escândalo dos diabos, chorando e perguntando se ele julgava que o seu aniversário era uma missa satânica para ter tantas velas. Na realidade ela sentira-se chamada velha, tinha apenas dezanove anos e não todas aquelas velas. Mas ele contara com os cem anos que ela tinha andado a dormir.
Da última vez que ele falou com ela sobre o facto de apagar a luz, ela ameaçou-o de que ia mudar de quarto. Passariam a dormir em quartos separados. Mas ele nem queria ouvir falar disso. Sabia que ultimamente não estavam a comportar-se como casados e tinha medo que ela se fosse meter com criados ao mudar de quarto, porque ele aí não sentiria barulho nenhum, porque depois de tanto tempo de insónia ao lado dela, passaria a dormir como uma pedra. Negou a proposta nem ela tinha acabado de abrir a boca. E desconfiava da insistência dela de levar essa ideia avante. Ele nunca lhe tinha dito nada, mas às vezes sentia uma pontada aguda no coração ao pensar no número de príncipes que tinham passado na floresta durante aqueles cem anos e que não tinham conseguido acordá-la com um beijo. Quem sabia se eles tinham tentado apenas beijos para acordá-la.
– Não vou apagar coisíssima nenhuma. Não vês que estou a ler? O incomodado que se mude. Se quiseres vai dormir no sofá.
É! Era sempre assim. Já não fazia uma semana sem que brigassem por uma ninharia qualquer. Ela estava malcriada, pior do que daquela vez que tinham ido ao baptismo da sobrinha. Ela tinha vestido o seu melhor fato, a roupa de que mais gostava, tinha-lhe sido dada pela sua fada-madrinha. Ele estava a esperá-la no salão, e ao vê-la não pôde não dizer, mas da forma mais carinhosa possível: Querida, nós vamos é para um baptismo. Carnaval foi na semana passada. Que falta de gosto e de senso crítico é que ele tinha. O seu melhor fato é que ele estava a chamar de traje de Carnaval. Não podia haver pior que isso, ele estava a dizer que ele não tinha bom gosto para vestidos. Ele queria que ela fosse vestida de quê? Que se vestisse sem senso de estética, como todas aquelas mulheres que andavam com as pernas, o peito e as costas à mostra? Era isso que ele queria? Não, ela fora bem educada, ensinada a conservar-se; não se iria expor a essa sem-vergonhice de vestir pedaços de panos.
Mas isso não significava que não gostava desses pedaços de pano, tinha muitos deles que o marido lhe dera de presente e vestia-os de vez em quando, no quarto, sozinha, mirando-se ao espelho, mas não estava ainda à-vontade para vesti-los, e julgava que o marido poderia vir a tomá-la por oferecida ao começar a usá-los, pois alguns deles eram muito indiscretos e isso era contra a sua educação. Na verdade, como podem ver, ela estava cem anos fora de moda.
– Ai não? – retrucou ele.
– Ouviste bem, julgo eu.
Essas discussões já eram demasiado frequentes, tinham que ver uma forma de acabar com elas. Talvez a saída estivesse mesmo em deixá-la ir para um quarto à parte. Talvez só isso pudesse acabar com a discussão. Só que ele não conseguia aceitar de bom grado essa mudança, temia que ela o começasse a trair, e pior ainda, com os criados. Se ela o fosse trair com alguém a ele, talvez não se importasse, mas não havia ninguém com esse estatuto. Ele era o príncipe e em cima dele não havia ninguém. Não iria suportar se ele o traísse com um criado. Tinha de haver uma solução.
Afinal sempre se encontra uma solução. Como daquela vez que ele andava a fazer sujeira na casa-de-banho quando ia evacuar. Ele tinha compreendido que ela não estava acostumada a casas-de-banho modernas, visto há cem anos atrás as coisas não serem como naquela altura. Andava com o quarto empestado de mau cheiro. Mas chegaram a uma solução, não sem alguma dificuldade, pois tinha vergonha de lhe dizer que fazia apenas porcaria. Mascava na cabeça uma forma de ir ter com ela, mas ela reconheceu primeiro e veio pedir ajuda, pois já via que não conseguia enviar nada pelo ralo no chão. Aí ele ajudou-a e ultrapassaram o problema da melhor forma possível.
Mas, desta vez, essa história insónica parecia não ter uma saída fácil. Talvez a única solução seja o divórcio. Se os contistas tinham escrito e viveram felizes para sempre, que o mudem para e viveram felizes por algum tempo e dois filhos e no fim ponham e depois divorciaram-se.
– Eu vou para outro quarto, quer queira quer não – disse ela, arrumando os livros e apagando a luz. – Se preferes ignorar-me para sonhar com a Camila, tu lá é que sabes. Amanhã eu vou passar férias no Egipto.
– Diana, deixa de ser malcriada que não irás para outro quarto nem para Egipto algum. E, aviso-te, toma muito cuidado para não irritares a mamã, porque podes vir a ter um acidente de automóvel. Pois eu só quero o divórcio, pensou. ■


17 de julho de 2011

LÁGRIMAS (poema)


São lágrimas que descem pela face, rolando,
Sem então, sem vez, sem quando,
Fontes inesgotáveis de sofrimento,
Cristais líquidos de tormento.

Lágrimas que permanecem,
Quentes, esperança arrefecem,
Adornando a fronte inocente
De gente, pobre gente,
Gente que sente no âmago o fel da vida
Que subindo rola pela descida
Que come o pão embebido no suplício
Que tem na boca sorrisos fulgentes de sacrifício
Que tem no estômago apenas o vazio
E que nas suas veias corre o tenebroso frio
Obrado pelas quentes lágrimas.

São lágrimas de angústias,
lágrimas de sofrimento,
de da vida indústrias,
indústrias de tormento.
O homem já tem os olhos túmidos,
mas os sonhos húmidos
De esperanças de alegria,
e de sorrir perpétuo um dia.
Será que nunca mais esta fonte vai secar?
Será que este tormento nunca mais vai parar?


As lágrimas estão descendo de forma contínua
Compassadas por uma melodia longínqua,
melodia melancólica
De uma vida sem pesares e sem cólicas.


São lágrimas que descem, fontes de sofrimento,
Lágrimas tecidas e compiladas de descontentamento.
Será que este choro nunca mais vai calar?
Será que esta fonte de dor não vai secar?


16 de julho de 2011

POSSUI-ME, DISSE ELA (soneto)



Possui-me, sussurou ela pra mim,
Envolve-me toda num forte abraço,
Não serei amarga, ser-te-ei melaço,
Prometo dar-te euforia sem fim.

Possui-me, disse em tom de querubim,
Usa a língua e provoca-me um fogaço,
Penetra-me c'alma, ata-me um laço,
Mais florido que Éden dou-te um jardim.

Cara princesa, foi o que a ela falei,
Crê-me, pra ti não sou bom amante,
A outra o meu fogo a dar intentei,

Pois por ela e pra ela o planeta gira,
Mas tu pra todos és tão perturbante...
Perdoa, ó Verdade, se escolho a Mentira.

15 de julho de 2011

TARTARUGA E A LEBRE, A - A REVANCHE DO SÉCULO, 2008 (Unstable Fables: Tortoise vs Hare)


Era uma vez uma lebre e uma tartaruga que se desafiaram para uma corrida. A lebre, muito rápida, em três tempos já estava perto da meta, deixando a tartaruga a comer poeira, porém, gabarolas como era, achou que ainda podia tirar uma soneca antes de acabar a prova. O resultado: ficou a dormir, enquanto a tartaruga, nos seus passos lentos, a ultrapassou, cortando a meta. Sim, basicamente é isto. A fábula é bem antiga e quem não a conhece deve ser da geração Toy Story, ou seja, viu mais desenhos de que leu livros ou ouviu contos.

Quando vi o título fiquei curioso, A Tartaruga e A Lebre - A Revanche do Século fiquei curioso, uma história tão simples e tão básica, que truques poderão torná-la interessante? Bem, e não é que não a fizeram interessante.

Eis a sinopse: 15 anos depois da famosa corrida, acontecimento que teve um destaque televisivo, a Lebre, ou devo dizer, o Sr. Lebre que ainda não conseguiu recuperar-se da trágica decisão de ter dormido no momento da corrida, e o Sr. Tartaruga, que ainda puxa lustro à sua vitória, ainda mantêm uma rivalidade constante, metendo toda a família ao barulho. E eis que há uma outra corrida na cidade e os dois resolvem participar com os seus filhos, o Sr. Lebre para dar a revida, o Sr. Tartaruga, para mostrar que o seu lema devagar e constante, com o qual ganhou a vida, continua a ser o mais indicado e que vai ridicularizar o vizinho… sim, os dois são vizinhos.

Ri-me o filme todo, situações engraçadas não faltaram. Tem umas piadas adultas que, no entanto, são bastante inocentes, nada como a erecção de Lorde Farquuad ao ver a imagem de Fiona no filme de Shrek.

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Ainda aproveita para ensinar que a dança é o remédio para o mal do mundo. Não é para ser tomado à letra, mas a verdade é que o mote é: faz amor e não a guerra, um tanto hippie, porém real. Os conflitos nascem da competição. Não sou contra a competição, no entanto, a maior parte é supérflua e alteia mais barreiras do que as derruba; por exemplo, a competição para ser o mais rico do mundo, resulta em empobrecer milhares para chegar a esse ponto. Os vizinhos competem, os países competem, irmãos competem entre si, quando se se unissem mais facilmente chegariam a um objectivo que pudesse satisfazer a ambos e manter o clima de dança. Houve um momento no filme que se ouve uma frase como esta: bomba neste país. A frase, casual e deslocada, mostra no entanto o descontentamento e o cepticismo em relação à melhoria deste planeta e a unidade e harmonia. Hum… o meu texto está muito animado e com uma, sei lá, ingenuidade utópica marcante, e devo isso ao filme, mérito dele.

Ainda temos referências ao mundo televisivo, aos cameramens que filmam desgraças sem ajudar, como se fossem documentaristas da National Geographic, dos paparazzos, e da incidência da média na vida privada que eleva à catastrófica um simples problema de uma figura pública. Algumas piadas ácidas e situações que remetem para o estado actual da coisas,  não entendíveis pelos mais desatentos, porém que fazem a boa graça do filme.

Quanto à parte técnica, A Tartaruga e A Lebre, tem uma animação é bem fluída, mas a modelação parece bem tosca, dando a entender que os produtores não tinham muito dinheiro (bem, também o filme foi direito para o vídeo), pois pareciam mais bonecos de plasticina do que modelos computorizados. Gostei bastante do filme e é bem divertido, faz rir e aguenta bem os seus setenta minutos. Um bom filme para ver com as crianças.

13 de julho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - CAIM E ABEL - A Guerra do Fogo - pt. 1


THEN, ADÃO E EVA - O Mundo Perdido:



NOW:

CAIM E ABEL - A GUERRA DO FOGO

O nascimento de Abel não foi muito complicado, quer dizer, em termos psicológicos. Adão já estava melhor preparado e não fora apanhado totalmente de surpresa, mas de qualquer maneira ainda não estava muito bem preparado, nem ele nem Eva, mas ela desenvincilhava-se melhor, porque tinha comprado o instinto de Adão quando ainda estavam no Paraíso e, por isso, percebia mais rapidamente as coisas.
Depois do susto que tiveram aquando do nascimento de Caim, ela insistiu que começassem a observar os animais à socapa, para perceber como eles faziam depois de darem à luz. Dar à luz? Termo engraçado, achava Adão, só porque ele estava na tua barriga, achas que ele estava na escuridão? Adão não via o sentido disso, a sua razão, a única coisa que Eva não quis comprar, era muito fria para compreender metáforas nascidas da emoção, mas compreendia bem a emoção do amor que Eva causava nele, por isso aceitava quase todas as sugestões dela. Também fazer o quê? Ou era aceitar logo ou ouvi-la o dia todo a martelar-lhe o cérebro com solilóquios, aliás, mesmo quando aceitava logo ainda tinha de ouvir duas horas de justificação do porquê. Quando Caim chegou… não era bem de Caim que o queria chamar, mas de Caí, porque ele veio de repente, só que Eva não gostou e queria chamá-lo de Caiu de Mim, mas ele achava ridículo, por quê de mim, se supostamente, ainda não tinha a certeza, ele também tinha parte na chegada do menino. Foi assim que decidiram suprimir algumas letras e ficou apenas Caim. [Ah!, minha amiga, esqueça os hebreus, não se falava hebraico no Paraíso, mas português]. Como estava a dizer, a chegada do Caim apanhara-os aos dois de surpresa. Vou fazer um flashback.

carlos ruas - um sábado qualquer


Uaaaaashhhh! Flashback:
– Porra, Eva, por que estás a mijar na cama?
– Não estou, querido ­– disse Eva, levantado o cobertor. – Ah! Porra, estou mesmo. Adão estou a mijar mas não estou a mijar. Isto é água. Adão, estou a deitar água. Por que estou a deitar água, Adão? Não é possível, nem sequer estou excitada. E esta quantidade é absurda. Estou doente, Adão? Por que não respondes, Adão?
– Porque…
– Adão, será que estou a morrer. Já me dói a barriga. Ai! Será que essa coisa na minha barriga vai arrebentar-me? Ela vai sair arrebentando a minha barriga, ai, meu deus.
Adão sempre esteve curioso sobre como aquele filho iria nascer. Sabia que a mãe não morria, por que já tinha observado algumas fêmeas de animais grávidas e depois visto as mesmas com uma cria, sem estarem mortas, porém nunca sentira curiosidade em observar o momento em que as crias vinham para fora. A única ligação que ele via para barriga de Eva era a boca, e não conseguia imaginar como é que uma coisa tão grande poderia sair pela boca. Por isso quando Eva falou em morrer, Adão entrou em Defcon -1. Não sabia o que fazer, ficou histérico, e tudo o que conseguia era amplificar os gritos e gemidos de Eva. Quando ela gritava de dor, Adão berrava a plenos pulmões. Foi a primeira vez que chamou por Deus desde que saiu do Paraíso.

Lá no Céu. [Esta parte fui eu mesmo que o contei a Lúcifer; apesar das diferenças ainda continuávamos (e continuamos) amigos, afinal estudámos na mesma escola desde crianças].
- Gabriel, o que é que se passa?
- Adão o chamou, Pai. – Depois da partida de Adão, Deus, talvez por saudades, decidiu que todos deveriam chamá-lo de Pai.
- Quem está a monitorá-lo agora?
- Miguel.
- E ele disse o que se passa?
- Parece que Eva vai ter um filho e Adão não sabe o que fazer.
Deus levantou-se de um salto, preocupado. Ele sempre fora um teórico, além do mais nunca tinha visto um nascimento; todas as criaturas que tinha posto na Criação surgiram no laboratório, em tubos de ensaio, e tirando a da Eva, não esteve presente na criação de mais nenhum. Mas precisava de tomar uma atitude, e dizer que não entendia de parto era mostrar-se impotente, por isso como qualquer bom chefe quando não sabe o que e como fazer, delegou:
– Olha, Gabriel, liga o satélite que está a vigiar Adão neste momento ao monitor, e diz ao Miguel que estou a dormir e não quero ser acordado. Manda chamar o Esculápio, pois ele já monitorou muitos nascimentos de animais para o Disco-a-Ver Channel e pode saber de alguma coisa, e manda-o ter com Adão.

Cá no Inferno. Estávamos eu e Samael a trabalhar no projecto LILITH (Legitimidade, Individualidade, Liberdade e Independência Total aos Humanos) – humanos, sim, chamamos humanos a Adão e Eva, para os diferenciar dos restantes animais, porque eles têm a fala, e estes não … como comecei a dizer, estávamos nisso quando Azrael entrou e disse que Eva estava em apuros. 
O parto natural era uma coisa muito perigosa, mesmo a minha espécie, antes da evolução, com toda a ciência que tinha desenvolvido, sofria muito no parto; quando começamos a conceber fora do corpo, e a mesclar os géneros, não precisamos mais de correr esse risco. Porém há muitos séculos que nenhum parto natural havia sido reportado e mesmo os nossos cientistas não estavam preparados para isso; não foi negligência não, numa linguagem compreensível para vocês: quem, com isqueiros disponíveis a qualquer altura, iria ensinar os seus a fazer fogo batendo sílex? No entanto, tínhamos arquivos, e em cinco minutos, um de nós três devia aprender a fazer um parto para ajudar a Eva. Mas aí é que começou o problema. Azrael achava que devíamos deixar morrer Eva para Lilith ser a nova parceira de Adão. 

11 de julho de 2011

MODDY'S PONTUOU PORTUGAL OU O GOVERNO PORTUGUÊS?

No dia seis de Julho, a Moody's, uma agência de rating, e mais outras duas, baixaram o nível da confiança económica de Portugal; entretanto, a classificação da Moody's doeu mais, por ter considerado Portugal lixo.

Eu não sabia o que era rating até esse dia (aliás, ainda não sei), mas qualquer um que viva em Portugal sabe que isto está mal pros cornos, e sabe das medidas de austeridade, da troika, do recurso ao FMI, da questão dos bancos, do elevado índice do desemprego e de mais problemas. E eu sei lá se a classificação da Moody's é imparcial ou é feita para beneficiar terceiros, os EUA (pois,  o problema de algumas zonas euros afecta de modo geral a UE, e leva a descategorização da moeda), porém Moody's à parte, há um sério problema na gestão do país, e, definitivamente, não é uma questão de orgulho nacional como o transformaram, mas uma questão do orgulho dos gestores, que para tapar a vergonha da sua ineficácia estão a meter o povo ao barulho.

No dia sete, para dar a notícia ao povo português, José Rodrigues dos Santos, que há muito tempo eu não via no noticiário (também há muito tempo que não vejo televisão, prefiro ler as notícias a vê-las, principalmente se são algozes), abriu assim, todo indignado (ou representando indignação):

 

Que eu saiba os jornalistas devem ser imparciais quando dão notícias, mas ele aqui não foi e a intenção é bem visível: passar a indignação e a vergonha dos governantes ao povo português. Como bitola usaram a Grécia, chamando à gestão grega de má, e portanto dando razão à Moody's na classificação que fez à Grécia, mas reclamando-se feridos por terem sido postos no mesmo cesto. Eu falo deles em plural, porque, embora saiba que essa classificação vai afectar todo Portugal, a sua razão foram os governantes.

E é lamentável como o povo, aquele que paga sempre as favas, continua a ser usado como o escudo dos governantes. O povo, convenhamos, não quer saber da classificação da Moody's, o povo quer saber é da resposta imediata dos seus patrões e do governo, mas esse problema não podia deixá-lo de fora, por isso qual é a melhor maneira de o fazer que usar a televisão?

Este noticiário do dia sete é só mais uma confirmação de que a televisão não é isenta de interesses políticos e é usada para a manipulação pública. Conseguiram pôr o povo indignado? Mas claro que sim, a maioria, como eu, não sabe como os ratings são feitos, não sabe se houve ali ou não justiça, só sabe o que ouviu: Portugal pagou uma coisa de nove milhões de euros para ser chamado de lixo, e isso já é o motivo mais que suficiente para manifestar. Até houve um hacker português que resolveu atacar o site da Moody's para mostrar a sua indignação. De qualquer maneira, será que por ter pago 9.000.000 € Portugal devia ser chamado de "bom", isso não seria comprar a classificação?  

José Eduardo dos Santos, por ser quem é, parece que voltou ao noticiário da RTP apenas para influir no povo e arrastá-lo para a guerra dos seus patrões. E o resultado: para hoje está marcado uma manifestação contra a Moody's no Terreiro de Paços, lê aqui.

Não estou a dizer que não se deve marchar contra a Moody's, mas sim deve-se marchar antes contra as verdadeiras causas dessa classificação a inépcia dos governantes, e não se deixar ser levado por qualquer vento que sobre contra o aparente orgulho nacional. Ser tão orgulhoso até mesmo para aceitar que existem problemas quando existem é nada mais do que estupidez.