11 de julho de 2011

MODDY'S PONTUOU PORTUGAL OU O GOVERNO PORTUGUÊS?

No dia seis de Julho, a Moody's, uma agência de rating, e mais outras duas, baixaram o nível da confiança económica de Portugal; entretanto, a classificação da Moody's doeu mais, por ter considerado Portugal lixo.

Eu não sabia o que era rating até esse dia (aliás, ainda não sei), mas qualquer um que viva em Portugal sabe que isto está mal pros cornos, e sabe das medidas de austeridade, da troika, do recurso ao FMI, da questão dos bancos, do elevado índice do desemprego e de mais problemas. E eu sei lá se a classificação da Moody's é imparcial ou é feita para beneficiar terceiros, os EUA (pois,  o problema de algumas zonas euros afecta de modo geral a UE, e leva a descategorização da moeda), porém Moody's à parte, há um sério problema na gestão do país, e, definitivamente, não é uma questão de orgulho nacional como o transformaram, mas uma questão do orgulho dos gestores, que para tapar a vergonha da sua ineficácia estão a meter o povo ao barulho.

No dia sete, para dar a notícia ao povo português, José Rodrigues dos Santos, que há muito tempo eu não via no noticiário (também há muito tempo que não vejo televisão, prefiro ler as notícias a vê-las, principalmente se são algozes), abriu assim, todo indignado (ou representando indignação):

 

Que eu saiba os jornalistas devem ser imparciais quando dão notícias, mas ele aqui não foi e a intenção é bem visível: passar a indignação e a vergonha dos governantes ao povo português. Como bitola usaram a Grécia, chamando à gestão grega de má, e portanto dando razão à Moody's na classificação que fez à Grécia, mas reclamando-se feridos por terem sido postos no mesmo cesto. Eu falo deles em plural, porque, embora saiba que essa classificação vai afectar todo Portugal, a sua razão foram os governantes.

E é lamentável como o povo, aquele que paga sempre as favas, continua a ser usado como o escudo dos governantes. O povo, convenhamos, não quer saber da classificação da Moody's, o povo quer saber é da resposta imediata dos seus patrões e do governo, mas esse problema não podia deixá-lo de fora, por isso qual é a melhor maneira de o fazer que usar a televisão?

Este noticiário do dia sete é só mais uma confirmação de que a televisão não é isenta de interesses políticos e é usada para a manipulação pública. Conseguiram pôr o povo indignado? Mas claro que sim, a maioria, como eu, não sabe como os ratings são feitos, não sabe se houve ali ou não justiça, só sabe o que ouviu: Portugal pagou uma coisa de nove milhões de euros para ser chamado de lixo, e isso já é o motivo mais que suficiente para manifestar. Até houve um hacker português que resolveu atacar o site da Moody's para mostrar a sua indignação. De qualquer maneira, será que por ter pago 9.000.000 € Portugal devia ser chamado de "bom", isso não seria comprar a classificação?  

José Eduardo dos Santos, por ser quem é, parece que voltou ao noticiário da RTP apenas para influir no povo e arrastá-lo para a guerra dos seus patrões. E o resultado: para hoje está marcado uma manifestação contra a Moody's no Terreiro de Paços, lê aqui.

Não estou a dizer que não se deve marchar contra a Moody's, mas sim deve-se marchar antes contra as verdadeiras causas dessa classificação a inépcia dos governantes, e não se deixar ser levado por qualquer vento que sobre contra o aparente orgulho nacional. Ser tão orgulhoso até mesmo para aceitar que existem problemas quando existem é nada mais do que estupidez. 

10 de julho de 2011

TERRA MINHA (sextos)


Brinquei contente na minha infância
Os teus flóreos matos percorrendo,
Medindo-lhe a grande distância
E com o teu verde me entretendo.

Nas tuas árvores eu subi,
Seguro, dormindo nos seus galhos,
Nas suas largas copas senti,
A fresca queda de alguns orvalhos.
Imenso gozo contigo eu tinha,
Muito deleite, ó terra minha.

Corri os bosques e campos teus
Tendo os pés tão frios e tão nus,
Enquanto o sol soprava a luz,
Na axila punha os sapatos meus.

À noite, tão feliz eu dormia,
Estafado de tanto correr,
Nos lábios um sorriso pendia,
Dormindo, em ti ficava a viver,
Porque sonhava com a alegria
E co'a graça que sabias ter.

As tuas rasas rochas desafiei,
De pedra em pedra saltando;
Ainda hoje fico me lembrando
De como os joelhos ali esfolei.

Recordações tão gratas me deste,
Minha querida terra agreste;
Enraizada tenho a meninez
Nos teus vermelhos solos de sonho,
Inda hoje me envolve a candidez
Quando desse lembrar me disponho.




publicada anteriormente, em Luso-Poemas, por Marinheski:
terra minha

9 de julho de 2011

SER S(C)EM SER (soneto)



Posso ter espírito de poeta,
Em rimas meus sentimentos cantar,
A todos o meu íntimo mostrar,
E ser, na realidade, um profeta.

Posso não ter uma alma de asceta,
Nunca no calar me refugiar;
Junto dos outros 
posso sempre estar,
E ser, na realidade, um cometa.

Também, posso não ser o que pareço,
E inda posso ser, sem o parecer,
Um alguém que eu mesmo não conheço.

Eu posso existir sem acontecer,
Ter um fim sem antes ter um começo.
Mesmo sem querer, posso, às vezes, ser.




publicada anteriormente, em Luso-Poemas, por Marinheski:
ser s(cem) ser

8 de julho de 2011

RAPAZ FORMIGA, O, 2006 (The Ant Bully)


Foram vários filmes que vi nas três últimas semanas e que me fizeram querer falar sobre eles, entretanto, o que mais se destacou no meu conceito foi O Rapaz Formiga (The Ant Bully) – conhecido pelas bandas da Terra de Vera Cruz por Lucas, Um Intruso no Formigueiro –, porque é um filme de criança muito educacional e bem adulto.

Ok, eu sei que não é o primeiro do género que aborda temas como a comunhão de espécies, e é por vezes bastante cliché, no entanto, o seu ponto moral de a união faz a força é algo do qual parece que precisamos constantemente de ser lembrados.

A história d’ O Rapaz Formiga é a seguinte: Lucas, um rapazinho que apanha dos colegas da vizinhança por ser pequeno, torna-se intratável e mal-humorado, e para compensar-se da violência que sofre, destrói as colónias das formigas do seu jardim. Entretanto, um fomiga-mago resolveu castiga-lo reduzindo-lhe o tamanho, obrigando-o assim a sentir na pele o que ser formiga.

trailer

O Rapaz Formiga mostra um contraponto a nossa sociedade actual, onde as pessoas do mesmo ninho vivem isoladas umas das outras, sob o lema de cada um por si, o que piora cada vez mais, porque antes ainda pelo menos se dizia: e deus por todos, e esse contraponto é a organização de uma colónia de formigas. Formigas pequeninas que conseguem criar e transportar enormes quantidades de comida e porcarias porque trabalham em conjunto e para um bem comum.

O Rapaz Formiga também foca um outro aspecto, o bullying, que funciona por deslocação de agressão, e que aqui é justificada por: eu sou grande e tu és pequeno. Uma justificativa bem simples, mas bem preocupante, porque realmente nos fazemos mal uns aos outros, não porque temos um fim nobre em vista (o que a princípio já é uma contradição), mas porque podemos… só isso. Só nos sentimos poderosos quando podemos pôr os outros em aflição, ajudar não conta, porque o altruísmo é distorcidamente um sinal de fraqueza. E ainda, embora de maneira leve, roça uma questão: o sucesso dos videojogos violentos é um sinal de transferência de agressão ou é a manifestação da nossa agressividade e que nos leva a ser mais violentos?

casting
como podem ver, o bom trabalho do casting reflecte na qualidade do filme

Duvido muito que O Rapaz Formiga pretenda dizer aos putos para não inundarem as colónias dos insectos, ou às pessoas para não pulverizarem as suas casas, mas sim tocar num ponto da nossa moral doentia que justifica a nossa crueldade em relação às outras espécies com a nossa superioridade animal e necessidade de sobreviver. O filme mostra que a natureza usa a natureza para sobreviver e que nesse processo há a destruição de outras espécies, mas, antes de tudo, isso não se dá por simples necessidade lúdica. Aliás, quando numa conversa Lucas refere-se a diversidade humana, a questão é transportada para outra vertente, que não a do choque entre as diferentes espécies, mas aos problemas sociais originados por diferenças de todo o género: do tamanho, do credo, da raça, da orientação sexual, da orientação política e etecetera, aliás, parece que somos mais preocupados a procurar as diferenças uns nos outros do que a similaridade.

Outro questão que o filme toca, mas de pouca relevância aqui, é necessidade de uma fé, de um ser superior que trará maná, leite e mel e fará toda a gente viver em paz, há quem acredita que seja um deus, houve quem acreditasse que seria a ciência, de qualquer maneira, Deus nunca vemos, mas o mal, esse sim, existe e aparece.

Tecnicamente falando, O Rapaz Formiga sustenta-se bem, o filme já tem os seus cinco anos, e como já vi vários mais recentes e com uma animação de melhor qualidade, não consigo evitar comparações. Mas a qualidade, de qualquer maneira, está à altura e não afecta em nada o desenvolvimento da história. E o antagonista principal parece metido ali à marretada. Entretanto, O Rapaz Formiga é um filme que deve ser visto com as crianças e que a seguir deve ser acompanhado com uma explicação dos adultos, para que elas não se foquem apenas no de aventura da história. Procuremos a nossa formiga interior para podermos viver melhor em paz e trabalharmos em prol de um fim comum. Um filme a ver.

o puto aqui de certeza que viu o filme



6 de julho de 2011

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. X

PERDENDO-ME EM CONJECTURAS

Cortinas de fumo adensam-se ante os nossos olhos, nublando a visão, toldando o juízo, turvando tudo, enfarruscando até a clara compreensão. Pensamos certos, pensamos errados, em qualquer dos casos pensamos como dementes, principalmente quando não pensamos e apenas nos limitamos a aceitar os guias, julgando, no entanto, termos pensado, simplesmente por achamos que escolhemos.

Pensamos, por vezes, ver a enganação, mas na verdade somos aqueles com pedras nos olhos a tirar o pó nos dos outros, e agimos como os donos da verdade, quando na verdade nem estamos certos do que dizemos. Quantas vezes não nos retractámos?, e quantas vezes avançámos para logo a seguir marcharmos à ré? E ainda falamos da fé, criticando e empurrando os que não a têm, e da mesma maneira maltratando os que a têm mais do que nós. Quantas vezes não nos rimos de coisas que não compreendemos? Quantas vezes não respondemos com o irrisório ao absurdo? E quantas vezes não demos direcção errada  e não seguimos por ela orgulhosos demais para perguntar pela certa? E quantas vezes já não dissemos sermos melhores que o bom, e quantas vezes no passo seguinte declarámos o contrário, seguindo pelo oposto? E apesar de tudo isso, ainda usamos da palavra, dizendo sempre ter verdades, dizendo ter verdades únicas; travestimos as mentiras que nos obnubilam o juízo, vestimo-las de ilusórias verdades, usamos a lógica ou a religião, a cabeça ou o coração, misturamos a razão e a emoção, separamos a razão da emoção, e transformamos nossas verdades em não-relativas, mas universais, e condenamos e criticamos aqueles que pensam contrário. 

Mas mexendo em premissas, com silogismos dolosos, provo não existir a verdade, provo não existir a mentira, provo que a até mesmo a relatividade da verdade não existe, ou que é dúbia, ou que é falsa. Socrátes sabia tanto que não sabia o que sabia, mas se ele mesmo sabia que não sabia o que sabia como é que os sábios sabiam que Sócrates sabia? Ou os sábios não sabiam nada e na verdade Sócrates não sabia, ou o Sócrates sabia mesmo e os sábios sabiam errado. 

As verdades não podem ser totalmente verdades, na medida em que podem ser contestadas, será que porque isso acontece podemos dizer que as verdades são também mentiras? Pela dualidade dizemos que por existir o verdadeiro existe também o falso; mas o que é verdadeiro não pode ser falso, negação da contrariedade. 

O falso, no entanto, parece ser a garantia da nossa humanidade, afinal não é raro ouvir: errar é humano – humano, ser imperfeito, logo falso. Mas será que o erro é intrinsecamente ligado à falsidade? Nesse sentido, a verdade, a perfeição, não pode fazer parte da nossa natureza, porque com a verdade seríamos deuses, não admira que Cristo tenha dito: a verdade vos libertará. Contudo, nós nos guiamos pelo falso, aliás tomamos o conhecimento da verdade de uma mentira pelo falso nela existente. Ou seja, uma mentira é uma mentira, mas para ser mentira tem que existir a verdade de que ela é uma mentira, e essa verdade é provada pela falsidade existente na premissa, na inferência ou na conclusão dessa mentira. Talvez seja por isso que a nossa suprema falsidade nos tenha mostrado sempre o contrário do que Cristo disse, que a verdade não nos libertará, pois prendemos e matamos aqueles que têm alguma verdade para nos mostrar, porque nos incomodam, pois preferimos continuar na nossa zona de conforto, por mais ilusória que possamos descobrir que seja. Parece que odiamos a verdade. 

Jesus Cristo afirmou-se ser a verdade e foi morto; será que com a morte dele não terá morrido a verdade? Depende da religião. A verdade é universal? Supostamente sim. A ética é universal? Aristóteles dizia que sim, pois faz os direitos humanos; mas e a humanidade... a humanidade é universal? E então o humanismo? 

Não quero enganar a ninguém, por isso não tento enganar-me a mim mesmo em primeiro lugar; as interrogações lá atrás não são nem retóricas, nem mostras de preocupação, mas simplesmente o reflexo da frase de um sábio que disse algo como isto: sábio não é aquele que diz as respostas certas, mas o que faz as perguntas certas. Então faço perguntas para parecer sábio, faço perguntas para fingir que sei respostas, e que pretendo ensinar, mas não, não pretendo ensinar a ninguém, apenas a mim mesmo. Jogo tantas palavras no papel, concatenações de ideias sem sentido, porque estou a procurar uma luz e não sei onde, por isso não tenho um foco, vou apalpando com os pensamentos todos os assuntos que me propiciem uma reflexão, não procuro coerência na forma de raciocinar, apenas na exposição do raciocínio. Não sei onde está a verdade, mas quero saber identificar a mentira. Quais olhos devo então usar: os da emoção ou os da razão?

4 de julho de 2011

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano cinematográfico


Este artigo é um tanto longo e disperso, porque não o escrevi a pensar em publicá-lo, mas apenas para limpar as ideias. Resolvi dar umas polidas nele e tentar deixá-lo mais coerente, de maneira a poder postá-lo, por isso vou ainda apenas publicar uma parte.


pecado original, angelina jolie e antonio banderas
No cinema, a diferença entre o erótico e o pornográfico costumava ser mais explícita do que na literatura, quer dizer, ainda continua a ser, no entanto, muitas vezes o limite é trasposto e chamam a isso de arte.

Não tenho nada contra a pornografia, nada mesmo, aliás sou um pornófilo e não acho que seja o sexo a razão de existirem tantas pessoas amorais, por isso tanto se me faz como se me fez que quebrem ou não a barreira entre o erótico e o pornográfico no cinema.

Todavia, o que me faz espécie é a hipocrisia que envolve a questão. E desta vez não vou falar de moralistas, porque esses já sabemos mais ou menos como são e como têm medo de sair da sua zona de conforto, mas de artistas, porque se armam em progressivos e cultivam a abertura mental, razão por que promoverem eles um controlo hipócrita vai contra o fundamental da ideologia artística: a liberdade.

Ok! Eu sei que o cinema não é controlado apenas por artistas, mas principalmente por executivos e negociantes; porém quando falamos de prémios do cinema, suponho que nos referimos à parte artística (não falando dos Oscar, é claro), o que se vê nos muitos filmes que nunca conseguirão triunfar no cinema, mas que são premiados nos diversos festivais, principalmente nos europeus.

No entanto, a despeito da arte, hoje para um filme ser premiado em qualquer desses festivais só precisa de uma coisa: sexo; e quanto mais ousado e explícito, mais artístico

Contudo, as limitações existem, duas pessoas felizes a ter sexo nesse antro cinematográfico é pornografia, mas um para de drogados, ou uma adolescente e um cinquentão, ou qualquer outro par ou conjunto que choque os costumes, é artístico, progressivo e leva prémios e menções honrosas... ou críticas acirradas, mas que não escondem o fascínio. 

Se a ideia devia ser mostrar o quanto banal o sexo é, esse tratamento que lhe dão nos festivais acaba por projectar uma ideia oposta, a ideia de importância e sacrossantice, de tal maneira que os argumentistas que vão frequentá-los dão a entender que escrevem primeiro umas cenas de sexo, e quanto mais chocante, melhor, e depois escrevem o resto para contextualiza-las ou interligá-las, metendo umas pitadas de questão existencial, algumas imagens dúbias e sem sentido (mas que todos nós procuramos atribuir um, porque somos sábios demais para reconhecer que o rei vai nu), uns apelos a filosofia e filosofices, um bocadinho de droga, e, ou, o melhor trunfo: a fascinante degradação humana… e, voilá, eis a fórmula para… Cannes, por exemplo. 

Eu sei que os filmes com cenas desses quando lá chegam são vaiados pelos críticos que se mostram chocados, mas já pensaram por que apesar disso continuam sempre a ir para lá?   

Para mim sexo e pornografia são duas coisas diferentes, não obstante a arma da pornografia ser o sexo. No entanto, sexo explícito costumava ser pornográfico, e o outro tipo mais sugestivo, erótico, mas nesses festivais, sexo não é pornografia, nem erotismo, e por mais violência e choque que manifeste, ele é considerado arte. 

E a minha questão é: por quê?

3 de julho de 2011

QUEM É A POESIA? (poema)


A poesia é a face da mulher,
Linda, sumptuosa, beleza rara.
A poesia é a própria mulher,
Às vezes, tão coquete e colorida,
Provocante, ousada e de porte altiva;
Arranja-se para se fazer notar; 
Nos actos seus finge-se modesta
Mas objectiva sempre a evidência;
Maquilha-se, mais luzindo a beleza;
O natural artificializa
Para ser naturalmente bela
E uma mulher bonita parecer, 
Com beldade, gostos e gesto únicos.

A poesia é a mulher africana,
Com o rebento às costas amarrado,
Sobre a cabeça levando embrulho;
Muito pouco pano o corpo tapando;
Tronco nu a gritar esbelteza;
Os seios rijos a lamber o vento;
Cabelos curto e encarapinhados
Enormes sorrisos fulgentes, brancos,
Salientados plo ébano da pele;
Pés descalços a calcar a terra;
Preocupada a cuidar dos meninos.

A poesia é a mulher europeia,
Rústica e um tanto barbitesca,
Com os cabelos no mar de vento soltos,
Ondeando na eólica maré;
Um sorriso os lábios a rasgar;
Na cintura, vestido atarracado;
Faces vermelhas, plenas de rubor,
Olhos coloridos, doces e belos;
Empenhada nos trabalhos caseiros.

A poesia é uma mulher moderna:
De vestidos curtos, tão apertados,
Evidenciando a forma do corpo,
Mostrando o muito do que se esconde;
Com saltos altos e finos;
Lábios avermelhados pelo batôn,
Olhos pintados, ar artificial.

Mas essa nossa ilustre poesia
É, também, uma tão feia mulher,
Que, resumindo, por mais arranjar,
Mesmo esgotando as artes da beleza,
Nunca, mas nunca consegue ser bela.





publicada anteriormente, em Luso-Poemas, por Marinheski:
quem é a poesia